Tecnomacumba: 15 anos de festa e fé embalados por Rita Benneditto

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Rita Benneditto é uma das mais criativa e talentosa intérprete da MPB contemporânea. Considerada por Caetano Veloso como “a cantora que impressiona pela voz encorpada, de timbre cheio e naturalidade na afinação”, Rita é também a idealizadora do projeto Tecnomacumba, uma intervenção cultural que reafirma a importância da cultura africana na musica brasileira através da fusão dos cantos de terreiro com a eletrônica. Tecnomacumba em 2018 completa 15 anos, e a cantora realizará uma turnê pelas principais cidades brasileiras, para reafirmar a importância da valoração da cultura afro-brasileira.

A turnê teve inicio no último final de semana na Comedoria do SESC Pompeia e teve seus ingressos esgotados para as duas sessões. A apresentação começou com a cantora sozinha na percussão interpretando a canção “Divino”, em seguida a banda Cavaleiros de Aruanda juntou-se e o clima começou a esquentar com “Saudação – Abertura”. O público presente vibrava e saudava com a cantora as entidades homenageadas na música.

Tecnomacumba é também um resgate da música brasileira, foi responsável por apresentar ao público mais novo a canção “Cavaleiro de Aruanda”, gravado por Ronnie Von em 1972, e que foi o carro-chefe no inicio da Tecnomacumba. “Babá Alapalá” de Gilberto Gil, impressiona pelo peso da guitarra inserida na canção.

A saudosa Clara Nunes se fez presente, com as versões de Rita para os clássicos “Deusa dos Orixás” e “Coisa da Antiga”. Aliás, podemos considerar a Clara como uma inspiração para o Tecnomacumba, pois a cantora atingiu o grande público promovendo a cultura religiosa africana em suas canções e nos seus famosos video clipes produzidos pelo Fantástico nas décadas de 70 e 80.

Também destacaram-se as canções “É D’Óxum”, “Oração ao Tempo”, “Jurema” e “Iansã”. Ao interpretar “Cocada” saudando as crianças, a cantora aproveitou para realizar um discurso sobre mudança. Segundo ela, 2018 será um ano regido por Xangô e devemos aproveitar isso para realizar a mudança que desejamos ao nosso país. Não faltaram manifestações da plateia, insatisfeitos com o atual cenário político brasileiro.

“Tambor de Crioula” apontava para o final da apresentação mostrando a cultura musical maranhense. O bis ficou por conta de “Canto pra Oxalá” e após uma rápida troca de saia, Rita Benneditto encerrou cantando para a Pomba Gira versos que diziam “é só pedir que ela dá”, e dando a oportunidade de algumas pessoas presentes na platéia manifestarem seus desejos.

Se for pra pedir, peço que Tecnomacumba continue circulando pelo país com essa turnê comemorativa e que chegue em locais que ainda não tiveram o prazer de acolher o projeto. Manter um show em circulação por 15 anos não é uma atividade corriqueira e muito menos simples. Rita, junto com sua irmã Elza Ribeiro, são idealizadoras desse projeto, e foram responsáveis pelo excelente trabalho de resgate, e mais que isso, deram voz a uma grande parcela da nossa população.

Fotos: Riziane Otoni 

Vídeo: Klaudia Alvarez

Festival Guaiamum Treloso ataca de CarnaIndie Feminista e agrada o público

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Cidadão Instigado

Prévia carnavalesca do Recife, a capital do frevo, apostou em artistas da cena independente para o line up e contou com discurso feminista

Fantasias, looks ousados, glitter e muita música boa. Foi assim o Festival Guaiamum Treloso, que aconteceu na Fazendo Bem-ti-vi, em aldeia. A festa, que é uma prévia carnavalesca tradicional em Pernambuco, nesta 18ª edição resolveu apostar em um line up diferenciado, trazendo para a terrinha do frevo sons da cena independente brasileira. Deu certo!

O Festival aconteceu em uma grande fazenda no meio de uma área de mata e armou uma grande estrutura com três palcos, uma tenda, praça de alimentação, bares, lojinhas e muitos banheiros para recepcionar e impressionar bem os seres da mata que habitaram o local. Esse espaço, embora seja distante da cidade e cheio de vibes boas, deu trabalho para a produção conseguir a liberação de alvarás, mas, como dito, além de Treloso, o Guaiamum é teimoso e manteve o endereço, o que acabou afetando um pouco a estrutura do evento. Os palcos acabaram ficando muito distantes e mal ornamentados. O público sentiu.

Festa pronta, os seres da mata chegaram cedo no evento, que estava previsto para começar às 13h. Mas, os shows atrasaram! E muito! Dessincronizou os horários e alguns shows aconteceram simultaneamente. Também aconteceu de não tocar nada por mais de meia hora em nenhum dos palcos principais. Mas, a magia do lugar e o astral da festa não deixou o público abatido.

A banda Marsa, que tocou com mais de 1h de atraso, reuniu um grande número de fãs. Tocaram as músicas do seu disco “Circular Movimento” e levou os Seres da Mata ao estado de êxtase. A voz única, doce, suave e especial de Tiago Martins causou grandes emoções. O show da Marsa foi um dos melhores do festival.

No outro palco, subia Jorge Cabeleira, banda da carrada do manguebeat, que passou muitos anos em stand by. Mas, que está de volta à cena. Esse ano estão com previsão de lançar disco novo. O show estava quente e quem viu gostou. No repertório, Dirceu Melo apresentou as músicas clássicas do Jorge e apresentou uma inédita.

O dia já era noite quando Cidadão Instigado subiu no palco e fez um show impecável. Mas, o público do Recife tem uma certa particularidade de ser difícil de ser conquistado. As bandas sentem isso e as produtoras mais ainda, quando nem sempre podem arriscar trazer nomes diferentes porque o público não comparece. Não tem interesse pelo novo. Um ponto negativo do Recife, que se diz uma capital multicultural. Homem velho, besouros e borboletas e outros sucessos da banda de Fernando Catatau embalou os fãs e os curiosos que lotaram o espaço ao redor do palco Bem-ti-vi.

Metá Metá subiu no Palco Skol e não surpreendeu. A incrível Juçara Maçal fez um show muito tímido, que não empolgou e nem atraiu muita gente. Fizeram uma apresentação curta e deixaram de lado o hit “São Jorge”, que o público tanto esperou. Aqui, não decolou.

Era a vez dela, a mulher do fim do mundo, mostrar porque está em dias com os palcos apesar da avançada idade. Deslumbrante, Elza Soares apareceu no palco como uma verdadeira rainha para apresentar seu show “Elza e a Máquina”. Ela, como sempre, chegou recheada de discursos feministas, e levou público a loucura. O show em particular não empolgou tanto o público no início. Essa versão de Elza remix pegou o público de surpresa e dessa vez não agradou a gregos e troianos. Mas, levou sua mensagem da melhor forma. “Maria de Vila Matilde” foi o ápice da apresentação. Seu show foi um verdadeiro ato de discurso feminista, enquanto embalava os Seres da Mata com as músicas, vídeos eram exibidos falando os dados do feminicídio. O conjunto da obra foi incrível!

Em tempo, a produção foi muito feliz na escolha do line up. Artistas com discursos engajados, fortes e grandes influenciadores. Todo o festival teve uma pegada feminista e é disso que precisamos mais.

Di Melo subiu ao palco Skol e mostrou que ainda vive. Não trouxe a sua banda oficial, mas representou bem. Levou o público a cantar em coro seus grandes clássicos como “Pernalonga” e “Kilariô”, entre outras. Nada de inovador, mas como dito, o público do Recife gosta do que já conhece. E Di Melo acaba sempre agradando.

Chegou a hora do Baco Exú do Blues mostar porque stá estourado. Um show esperadíssimo e que superou às expectativas. ‘Te Amo Desgraça’ levou o público ao delírio. O show foi empolgante e dançante o tempo inteiro. O Baco é realmente incrível e colocou o povo para pular, abrir roda, se tocar, sentir a energia. Por falar em roda e voltando ao discurso feminista, esse Exú abriu uma roda de mulheres. Só mulheres e glitteres. Um momento de reflexão. Uma ideia certa e muitos aplausos! Baco causou e ganhou, apesar de novidade, o carinho do recifense. Ponto altíssimo do festival.

Nação Zumbi chegou e chegou destruindo tudo. Fez um show instigante e afinadíssimo, o que ficou devendo desde a sua apresentação no Réveillon. O clima do carnaval colocou os mangueboys a dar o melhor e lacrar no palco. O batuque das alfaias em sincronia com as batidas do coração. Tocaram poucas músicas do seu último disco “Radiola”, que não empolgou muito. Mas, a versão “Refazenda” de Gilberto Gil ficou sensacional. “Da Lama ao Caos”, “Banditismo Por Uma Questão de Classe”, “Um Sonho”, “A Melhor Hora da Praia” e mais uma sequência de pedradas tirou o público do chão. Um dos melhores shows do dia.

Letrux e Francisco El Hombre, colocados como headliners do festival, acabaram tocando simultaneamente. Letrux, a feminista, rainha do soud out, a musa do climão, subiu incrível no palco e, se não fossem por atrapalhos técnicos no som, teria feito uma apresentação impecável. Ela estava lá, linda e perfomática representando a ala feminista e mandando a real com seus discursos. “Que Estrago”, “Vai Render”, “Ninguém Perguntou por Você” e quase todas do seu disco solo embalaram seu público fiel que estava ali afim de um climão. Que mulier é essa?!

Francisco El Hobre lacrou com chave de ouro. Que apresentação empolgante, feliz, extraordinária e agradável. Eles fizeram um dos melhores shows da noite, quiçá o melhor. “Calor da Rua”, “Bolso Nada”, “Soltas Bruxas”, “Triste, Louca ou Má”. Pera, uma pausa para esse momento. Ju foi incrível cantando esse hino: “Triste, Louca ou Má”. Deu uma aula de feminismo e pediu: “Homens falem menos e escutem mais as mulheres”. Ela foi ovacionada. Sem contar que ela arrasou com o seu gogó! Ápice da festa. Melhores momentos ever. Francisco El Hombre. Um lacre, é um lacre. Aqui, as portas vão estar sempre abertas!

A 18ª edição do Guaiamum Treloso Rural representou como prévia. Apresentaram uma grade de apresentações dignas de um verdadeiro carnaindie. A produção está de parabéns por ter conseguido realizar, apenas das brigas judiciais, o festival, como ter lotado e agraciado o público com uma vibe de paz e alegria. Pequenos ajustes na produção e a certeza de que a 19ª edição vai entrar para a história. Que venha!

Sobre “Gita” (1974), de Raul Seixas – Uma análise faixa-faixa

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Raul Seixas

“Gita” é o segundo álbum de Raul Seixas em carreira solo e o segundo da parceria com Paulo Coelho. O disco conta com 33 minutos de rock’n roll mesclado com serestas, baladas românticas e várias músicas altamente radiofônicas, principalmente no passado, mas também atualmente. O lado A do disco trata de canções com a criticidade característica do Raulzito (sutil no auge da repressão militar) mesclada com canções de amor que se tornaram clássicos até os dias atuais. O lado B do disco vem com as prováveis respostas de Raul pras suas perguntas mentais e concretas, um lado mais esotérico, mais propositivo, quem sabe.

“Gita” foi também o disco que trouxe Raul Seixas, Paulo Coelho e suas esposas de volta do exílio (exílio este que rende histórias interessantíssimas, como o suposto encontro com John Lennon) nos Estados Unidos. O regime supostamente temia que a Sociedade Alternativa fosse uma “organização revolucionária”. Com o sucesso do disco, os milicos tiveram de trazer os quatro de volta.

Capa do disco

O álbum começa com “Super-Heróis”.

Talvez tudo o que a gente não precise hoje é de “super-heróis”: os heróis da falsa moral, da babaquice e da caretice. Em 1974, Raul Seixas  já chamava atenção para isso, chamando “Dom Paulete” (Paulo Coelho) para um passeio pelo que aparentemente são as ruas de São Paulo, em um “feriado decretado” numa segunda-feira. Ironiza os heróis de um Brasil que se iludiu no milagre econômico, que se encerrava naquele momento. O Rei “Quelé”, Silvio Santos, Fittipaldi – todos são “celebrados” na música que abre o lado A do disco.

Na segunda faixa do lado A, “Medo da Chuva” – um clássico sobre a separação. A perda do “medo da chuva”, a “aprendizagem do segredo da vida” “vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”. Uma entre várias músicas de Raul que se mantém radiofônicas até os dias de hoje. Indispensável.

Na terceira faixa, uma provável queridinha cult dos fãs – “As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor” – que conta também com versão interessante de Zé Ramalho (no álbum dedicado inteiramente a Raul). Frases de efeito e críticas fortes numa declamação ritmada embalada pelo ritmo da guitarra.

A arapuca está armada
E não adianta de fora protestar
Quando se quer entrar
Num buraco de rato
De rato você tem que transar

Segue-se a ela “Água Viva” – uma música sobre uma fonte de águas caudalosas, noites e segredos. Loucura boa de Raulzito. Confesso que não é uma de minhas favoritas. Chega então “Moleque Maravilhoso”, em que Raul e Paulo tratam de molecagem. Seria real ou metafórica? Quem sabe…Fato é que o moleque rende uma música curtinha e interessante. Boa faixa.

Pra encerrar o lado A, “Sessão das 10”, uma espécie de “seresta” que demonstra a versatilidade das composições e das músicas de Raul Santos Seixas. Outro “clássico Cult”. Em 71 essa música já havia aparecido na voz de Edy Star, no folclórico disco da “Sociedade da Grã Ordem Kavernista” (onde se fazem presentes também o próprio Raulzito, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada). Uma faixa que destoa do disco como um todo e que é excelente, divertidíssima. Uma tragédia, no bom sentido, com o trágico incêndio do cinema de Ipanema.

Ao chegar do interior                                                                                                                                        Inocente puro e besta                                                                                                                                                  Fui morar em Ipanema                                                                                                                                                Ver teatro e ver cinema                                                                                                                                              Era a minha distração…                                                                                                                                                Foi numa sessão das 10, que você me apareceu… 

Foto do fundo do disco

Chega então o lado B do disco. O lado mais esotérico, mais propositivo, talvez, de Gita. O lado B começa com a música que qualquer pessoa provavelmente conhece. Os gritos de “Viva a Sociedade Alternativa!” são reconhecidos por praticamente qualquer um. “Faz o que tu queres pois é tudo da lei”, afirma, parafraseando e dialogando com preceitos ocultistas à maneira brasileira. Até “esperar papai Noel” é possível em toda a maluquice bela de Raul, Paulo Coelho e da sociedade esotérica associada a figura mítica de Aleister Crowley – comum ao ideário de muitos dos roqueiros e artistas influentes do século XX. “Sociedade Alternativa” é fo**!

Segue-se “Trem das Sete”, outro clássico que ainda toca nas rádios, mesmo nos dias de hoje. A ideia do bem e do mal associados e se complementando na passagem da vida para a morte, da vida terrena  até o desconhecido como passageiro de um trem. Muito louco e muito inspirador. Não é a toa que termina com um sonoro “Amém!”. Há um diálogo com a religião e a fé muito forte, apesar de Raul nunca ter sido beato. Outra faixa indispensável.

Pois o trem está chegando

Tá chegando na estação

É o trem das sete horas

É o último do sertão

Após “Trem das 7”, “S.O.S”. Outra música bastante conhecida e de diálogo com o desconhecido, mesmo que de maneira “revoltada”, querendo seguir com um moço de um disco voador. O moço, entretanto, é um plágio sem vergonha de “Mr. Spaceman” (The Byrds): prática muito comum à época (Ouvi em algum lugar que Raulzito tratava o plágio como uma espécie de “vingança” contra os que metaforicamente e na prática “tinham tudo”, todos os recursos de países potência, mas não tenho certeza disso). Também se especula plágio em “Gita” e “Loteria da Babilônia”, mais a frente. O plágio, que nesse caso é certo, rende uma boa música, felizmente ou infelizmente.

“Prelúdio” é a 4° faixa do lado B e é aquela velha história de que “sonho que se sonha junto é realidade” – confesso que não tenho muito saco pra essa música, mas também é tradicional do universo raulsseixista. Precisa ser respeitada. A próxima faixa depois do que é na minha opinião “meia bomba”, é a excelente “Loteria da Babilônia” (que como foi dito, também tem plágio especulado) em versão ao vivo. No meu caso, toda vez canto junto desde a introdução até o final. Porrada. Vi por aí que também dialoga com Aleister Crowley, mas não tenho certeza dessa informação…é bem possível quando se vê “reescrita de livro dos séculos passados”, “verdades a serem declaradas”, “teoremas da vida” e todo o panorama do disco.

“Gita” enfim, fecha o excelente disco, sendo provavelmente a mais famosa dentre todas do álbum. É um diálogo com o livro sagrado do hinduísmo “Bhagavad Gita”, bem como com as respectivas divindades Hindu. Talvez uma das grandes virtudes de Raul Seixas tenha sido sua capacidade de levar pro povo humilde do país filosofia dissolvida e mesclada em suas músicas. Impossível não gostar. Gita fecha o álbum de maneira excepcional e que confirma a altíssima qualidade desse disco repleto de sucessos. Com um único plágio ou com múltiplos plágios; com folclore ou com realidade, com esoterismo ou concretudes, o fato é que “Gita” é um dos melhores álbuns da obra de Raul Santos Seixas e é indispensável pra qualquer um que queira se aprofundar no legado do roqueiro baiano ou da “linha evolutiva da música popular brasileira”, mesmo que não tendo sido nunca do interesse do autor.

Links adicionais

Sobre o suposto encontro com John Lennon:

Sobre Gita:

Sobre os plágios:

http://rollingstone.uol.com.br/noticia/coincidencias-de-raul-seixas-quando-inspiracao-beira-o-plagio/

“Acaso casa” celebra o encontro de Mariene de Castro e Almério

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Realizado no último sábado na Casa Natura Musical, o show intitulado “Acaso casa” reuniu dois talentosos nomes da Música Popular Brasileira: Mariene de Castro e Almério. Mariene lançou seu primeiro disco, o excelente “Abre Caminho”, em 2005, mas foi somente em 2013 que a cantora surgiu para o grande público, quando interpretou a saudosa Clara Nunes no show que deu origem ao CD e DVD Ser de Luz”. Almério lançou neste ano seu segundo disco “Desempena” e garantiu ótimas avaliações da crítica especializada e já aparece nas listas de melhores lançamentos de 2017.
O primeiro encontro dos artistas aconteceu num sarau realizado na casa de José Maurício Machline, o nome por trás do Prêmio da Música Brasileira. A sintonia foi imediata e ali mesmo surgiu a ideia do show, que tem a direção do próprio José Maurício. ‘Numa reunião em casa onde vários amigos deram canja, os dois se conheceram e se afinaram de forma inusitada, inclusive no que diz respeito ao tom, que muitas vezes entre homem e mulher é muito difícil. Ter escutado e visto a emoção que eles tiveram na união do canto foi uma coisa que contagiou a quem os assistia, mas principalmente aos dois cantores que se emocionaram de alguma forma que as lágrimas caíam em forma de música’, conta Machline. Em tom intimista, os cantores são acompanhados por dois violões e um acordeom, e nos levam a um show repleto de emoções e lembranças, mergulhando num repertório que canta principalmente a história do interior nordestino brasileiro, aliado ao belo cantar carregado de sotaque dos nossos protagonistas.

O roteiro do show é bem dividido, mesclando números em dupla e solos. Almério destacou-se na primeira parte do show, principalmente ao interpretar “Fala” do grupo Secos & Molhados. A plateia foi ao delírio e manifestava-se mesmo antes do término da canção. Do seu elogiado “Desempena”, Almério só cantou “Segredo”, mas ao dividir a canção em coro com o público, temos a certeza do potencial do cantor, que impressiona com sua performance nos palcos.

Mariene de Castro parecia um tanto quanto contida nessa apresentação, mesmo quando cantou alguns de seus sucessos como “Amuleto de Sorte” e “Ser de Luz”. Ao interpretar “Antes do mundo acabar”, parceria de Zélia Duncan com Zeca Baleiro, a cantora dedicou a música à Zélia, sua “irmã de alma”. Foi só ao cantar “Tirilê” que Mariene despertou e entregou aquilo que estamos acostumados a presenciar em seu shows, pediu ajuda da plateia nas palmas e girou muito no palco. Por mais que tenha sido um lindo momento, ele serviu para provar talvez a maior ausência do show: percussão, já que o batuque é presença constante no repertório de ambos.
O encerramento com “Canto de Ossanha” resume todo o potencial desse encontro, que merece ser alinhado e viajar pelo país.

Fotos: Felipe Giubilei

Lenine encerra a turnê do disco “Carbono” no SESC Parque Dom Pedro II

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O cantor e compositor pernambucano Lenine apresentou o show de encerramento da turnê de seu disco mais recente: “Carbono”, lançado em 2015. A apresentação ocorreu no SESC Parque Dom Pedro II, localizado na região central da cidade de São Paulo, próximo a um dos cartões-postais da cidade, o Mercado Municipal.
Com entrada gratuita e ao ar livre, nem a chuva que marcou presença pouco antes do show, foi capaz de espantar o público, que conferiu de perto as canções que integram o repertório do disco “Carbono” e as versões revisitadas das canções consagradas do cantor.

Entre os destaques, estão as canções “Na Pressão” e “Hoje Eu Quero Sair Só”. A canção “Rua de Passagem” chamou atenção por seu teor político presente em versos como “A cidade é tanto do mendigo quanto do policial. Todo mundo tem direito à vida. Todo mundo tem direito igual.”. Interessante ouvir e cantar versos assim em pleno Centro de São Paulo, região que sofre com o enorme descaso da atual gestão da Prefeitura, que parece não entender o mínimo sobre ocupação de lugares públicos.

“Paciência”, maior sucesso do cantor e que já ganhou versões gravadas por Simone e Zeca Baleiro, foi insistentemente pedida pelo público presente e foi a escolhida para encerrar a apresentação. Sempre muito simpático, Lenine disse que a banda tocaria a base e a cantoria ficaria por parte do púbico, que não decepcionou e cantou fortemente uma das melhores composições da música brasileira.

Fotos: Viviane Pereira ( Música Compartilhada )

Nação Zumbi apresenta sua recém lançada “Radiola NZ” no SESC Pompeia

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Percussores do Mangue Beat, movimento musical que ganhou projeção nacional na década de 90, a Nação Zumbi se apresentou no último final de semana na Comedoria do SESC Pompeia. Depois de realizar uma turnê em comemoração aos 20 anos do clássico álbum “Afrociberdelia”, a banda se prepara para mais um lançamento, dessa vez surge o álbum “Radiola NZ”, apresentando versões ousadas de canções que influenciaram a banda.

Com ingressos esgotados para todos os dias, a temporada mais uma vez provou o potencial da banda, cuja presença é marcante nos principais festivais musicais do país. O repertório revisitou canções como Refazenda” de Gilberto Gil e “Não Há Dinheiro Que Pague” do Rei Roberto Carlos.

“Amor” do Secos & Molhados ganhou uma versão mais pesada, com a forte presença do trio de alfaias, instrumento fundamental na formação musical da banda, que conta com excelentes músicos, com destaque para o guitarrista Lúcio Maia e o baterista Pupillo. Sem a ilustre presença de Ney Matogrosso, como ocorreu no encontro realizado no Rock In Rio, a execução da canção pareceu bem mais alinhada.

Algumas versões pareceram menos inspiradas, porém não chegaram a comprometer o show, cujo ponto alto ainda foram as canções autorais da banda, como “Manguetown”, “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada” e “Quando a Maré Encher”, essa última eternizada pela versão da cantora Cássia Eller, que registrou a versão em seu Acústico MTV com participação especial da própria Nação Zumbi.

Tendo a frente o vocalista Jorge du Peixe, as apresentações da banda sempre carregam um tom político, não faltaram falas de descontentamento com o atual cenário político brasileiro e demais assuntos.

Fotos: Carol Vidal

Palavras outras para o “Outras Palavras” (1981), de Caetano Veloso

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Se limitar a “Transa” e demais álbuns da década de 70 pode até ser justo, mas muita coisa se perde. “Outras Palavras” merece o que seu nome prenuncia.

Capa do disco

Um álbum deixado de lado na discografia de um gênio – esse é o “Outras Palavras” de Caetano Veloso, lançado em 1981. O próprio Caetano, altamente autocrítico, não parece simpatizar muito com esse disco. O que se escuta é que foi uma obra com menos dedo do baiano. Entretanto, toda vez que escuto, fico justamente com a sensação de que foi um pouco injustiçado e que merecia mais menções, apesar dos pesares. Me surpreendo mais ainda sabendo que foi um dos mais vendidos na discografia de Caetano. Fico sempre me perguntando se me iludo com esse disco ou se de fato ele é subestimado. Tive que escrever outras palavras sobre esse disco extremamente agradável (na minha visão) da obra do baiano de Santo Amaro.

O disco começa com a música que dá título ao disco e que caracteriza bem o que Veloso é nessa obra. Afirma, “Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca”. Caetano convoca o experimentalismo e outras palavras no sentido mais puro e poético. Palavras mais alegres. Não há no disco a tristeza do exílio, que clama pelo riso de Irene. É um Caetano que talvez ainda queira “Muito” (1978), mas que não trilha diretamente os “Trilhos Urbanos” de Santo Amaro (“Cinema Transcendental” – 1979). É um Caetano lúdico, que brinca de fazer poesia com fortes influências e diálogos com São Paulo no processo. A semântica, a poesia concreta e as figuras de linguagem típicas do “paulistês” se fazem presentes por vezes, não deixando de lado, entretanto, toda a baianidade do seu som.

A segunda faixa é “Gema” (brilhante ê!). Deliciosa de se escutar. Impossível não sentir algo escutando os tons dessa música, que também tem versões fantásticas pela voz de sua irmã Bethânia. Essa canção inicia um padrão que se estende por todo o disco de retratar sensações e visões da natureza. A “luz exata na escuridão”, a “camaleoa”, a “menina do anel de lua e estrela”, a gata exata. Essa última se faz presente na faixa que se segue: “Vera Gata”, outra ótima canção, com ares típicos da fase fronteiriça entre o Caê dos anos 70 e 80. Prosseguimos então para um ponto altíssimo – “Lua e Estrela”. Radiofônica até os dias de hoje, envelheceu melhor do que as outras pra quem não se satisfaz tanto com o som dos anos oitenta. Essa, aliás, foi composta por Vinicius Cantuária. Um romantismo na medida certa (qual seria a medida certa?) e extremamente agradável. Quando toca acalma qualquer um.

A quinta canção é “Sim/Não”, parceria de Caetano Veloso e Carlos Bolão (percussionista da Outra Banda da Terra à época e que integrou bandas e fez parcerias com grande nomes da música brasileira, como Jorge Ben, Luiz Melodia, Jorge Mautner, dentre outros). Uma boa música. Segue-se a ela “Nu Com A Minha Música” – outro ponto alto, em que se afirmam intrigantes, solitárias e ao mesmo tempo acalentadoras e seguras frases:

“Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor, vertigem visionária que não carece de seguidor;

Quando eu cantar pra turma de Araçatuba verei você; Já em Barretos eu só via os operários do ABC; Quando chegar em Americana, não sei o que vai ser; Às vezes é solitário viver”.

Somos raptados na faixa que se segue pela homenagem a Regina Casé, “Rapte-me Camaleoa”. Definitivamente um clássico e em versão superior à voz e violão sem sal recentemente feita em parceria com Maria Gadú no ao vivo do Multishow.

“Leitos perfeitos seus peitos direitos me olham assim.
Fino menino me inclino pro lado do sim.                                            Rapte-me, Adapte-me, Capte-me, It’s up to me coração
Ser, querer ser, merecer ser um camaleão
Rapte-me camaleoa, adapte-me ao seu ne me quitte pás”
                                                                        

A partir deste momento o álbum de fato tem um teor um pouco menos palatável e mais discutível. Depende exclusivamente do gosto. Pessoalmente não gosto da baladinha “Quero um Baby Seu” e da versão insossa de “Dans Mon Ile” – Caetano contagia mi corazón cantando em idioma estrangeiro “Currucucu Paloma”, “Michaelangelo Antonioni”, “Tu me Acostumbraste”, “La For de La Canela” mas essa versão, sinceramente não me cativa. “Tem que Ser Você” também não empolga muito, mas, dependendo do dia, pode até ser uma faixa que o ouvinte não vai pular ou que pode até gostar. “Blues” é agradável (é um bom blues) e tem trocadilhos legais ao longo da letra (com o azul do nome e do azul que surge a cada verso). “Verdura” é uma boa pedida para fãs de Paulo Leminsky, já que a letra foi escrita por este. O autor traz uma boa crítica acerca da situação calamitosa vivida pelo Brasil à época e que, de certa forma, ainda perdura até o presente momento. Reflexões interessantes e uma ótima musicalidade, na passagem da poesia falada pra poesia musicada.

Caetano Veloso, Paulo Leminsky e Moraes Moreira

“De repente vendi meus filhos pra uma família americana,              eles tem carro, eles tem grana                                                            eles tem casa e a grama é bacana”.

O ponto alto final fica por conta da brasileiríssima “Jeito de Corpo”, que fecha os 40min com chave de ouro. Impossível não dar uma mexida física e mental com o ritmo de sua introdução e da construção musical como um todo. Há referências que caracterizam um pouco do que Caetano provavelmente pensava e sentia na época. O Brasil dos anos oitenta está ali, expresso no arranjo musical e nos versos – desde Trapalhões até Gilbertos e expectativas pelo Marco 2000.

Chico Buarque e os Trapalhões

Referências a Trapalhões:
“Eu sou Renato Aragão, santo trapalhão,
Eu sou Mussum, sou Dedé
Sou Zacarias, carinho
Pássaro no ninho qual tu me vê na TV”

Referências a projetos de Brasil
“Sampa na Boca do Rio, o meu projeto Brasil” (Boca do Rio é um bairro popular da orla de Salvador)                               

Referências a fé e ao saber
“Eu tô fazendo saber vou saber fazer tudo de que eu sou a fins, logo eu que/cri cri que não crer era o vero crer, hoje oro sobre patins” (Uma fé que perdeu as suas raízes profundas e que patina? Uma fé que vai e volta?)                                            

E, por fim, referências ao grande amigo (“mas mesmo na deprê chama-se um Gilberto Gil”). (Na deprê e na felicidade, as parcerias com o amigo permanecem faça chuva ou faça sol.)

“Jeito de Corpo” dá um jeito no corpo! Uma bela conclusão ao disco.

“Outras Palavras” com certeza não é o melhor álbum do santo amarense velosiano, mas, com certeza também é um álbum um tanto quanto esquecido. Merecia mais menções e lembranças. Pessoalmente é um dos meus favoritos na obra de Caetano, o que também pode ser uma loucura da minha parte. Desde o nome do álbum, passando pelos ares do início dos anos oitenta, por canções de amor apaixonantes, até a legitimamente brasileira “Jeito de Corpo”, fico definitivamente contagiado pelo disco. É verdade que tem pontos baixos, mas, os pontos altos agradam muito vendo um Caetano com alegrias e experimentalismos que tem suas peculiaridades quando comparadas ao resto de sua obra. Mesmo sabendo que os álbuns que antecederam (“Cinema Transcendental”) e que se seguiram (“Cores, Nomes”) são provavelmente melhores, “Outras Palavras” tem seu lugar. No mínimo vale a pena escutar uma vez ou aumentar o volume e dar uma chance quando alguma de suas faixas ainda tocar no rádio. Sendo otimista, “Outras Palavras” se tornará companheiro frequente de seus momentos mais felizes ou momentos em que se precisa de algo mais feliz e/ou com um quê de experimentalismo poético. Merece uma chance!

Links interessantes:

http://50anosdetextos.com.br/1981/o-disco-em-que-caetano-inventou-outras-palavras/ coluna publicada em 1981 por Sérgio Vaz no Jornal da Tarde

http://caetanoendetalle.blogspot.com.br/2016/03/1981-verdura-paulo-leminski.html sobre Verdura

http://www.otempo.com.br/super-noticia/o-voo-solo-de-carlos-bol%C3%A3o-1.97117 sobre Carlos Bolão

Letrux surpreendeu com seu climão no SESC Campo Limpo

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“Bota na tua cabeça que isso aqui vai render” e como rendeu! Foi com esse refrão da música “Vai Render” que Letrux abriu seu show na tarde de sábado, 04 de novembro, no SESC Campo Limpo. A apresentação teve inicio pontualmente as 18h e garantiu o anoitecer no climão da cantora, embalado pelo repertório do seu primeiro trabalho solo, o elogiado “Letrux em Noite de Climão”.

Com um figurino ma-ra-vi-lho-so, composto por um macacão brilhante e luvas, ambos vermelhos, a cantora transformou a tenda da comedoria do SESC num clubinho fervoroso. A banda, além de ser formada por ótimos musicistas, também acompanhou o embalo e se apresentou com figurinos vermelhos, todos inspirados do projeto gráfico do disco.

No repertório todas as canções do seu disco, com destaque para a faixa “Que Estrago”, cujo clipe psicodélico chegou nas redes sociais poucos dias antes do show. Impactante ver a reação do público presente, claramente fascinado e cantando a plenos pulmões os versos safadinhos como “Deda, deda, deda, deda, deda, dedada. Molha, molha, molha, molha, molha, mulher molhada”. Também se destacaram “Ninguém Perguntou por Você” e “Puro Disfarce”.

Entre as canções, Letrux interagiu muito com a plateia, vezes recitando poemas, vezes contando histórias. A mais interessante foi quando a cantora comentou sobre o Prêmio Multishow 2017, onde foi consagrada na categoria de Melhor Disco. De forma divertida, ela contou sobre o nervosismo que sentiu, já que a Sandy estava bem próxima dela na plateia.

“Flerte Revival” já apontava para o encerramento do show, que provou o potencial da cantora e desse trabalho. “Letrux em Noite de Climão” não deve ser considerado somente um dos melhores lançamentos do ano, mas também um dos melhores shows da atualidade. Vale a pena entrar no climão e ser seduzido por esse trabalho, que se eu tivesse que resumir, diria que foi feito com muito tesão, com certeza!

Crédito fotos: Viviane Pereira ( Música Compartilhada )

O primitivismo convidativo de Vurro na Casa do Mancha

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Meu primeiro contato com Vurro foi nos idos de 2016. Era um ser bizarro, sobrehumano e fazendo uma música cheia e energética. Um crânio de animal – cujos chifres são usados para bater nos pratos – , chocalhos nos braços, teclado de pé, bumbo, caixa e chimbal também controlados no pé e as mãos ocupadas com um órgão tipo Hammond e um piano. Tudo isso fazendo um rock’n’roll cheio, sujo e divertido… Garage-rock encontra one-man-band.

Fui ao show do Vurro na Casa do Mancha, em São Paulo, no último dia 1º, sem saber muito sobre o artista. Sei que é espanhol e possui alguns vídeos no Youtube e Facebook, mas nada de Spotify, Bandcamp e afins. Também é guardado em segredo a identidade do homem por trás do monstro. E tudo isso é tão proposital quanto necessário.

Vurro é um artista autosuficiente e que convoca, mais que convida, à contemplação analógica. Sua ausência digital em plataformas focadas em música monstram um posicionamento de alguém que parece ser um ativista do show, do momento, da sensação de ouvir uma música ao vivo.

O som que produz é tão primitivo quanto o crânio que veste. É como se Vurro fosse o rock despido de qualquer desnecessidade. Às vezes uma batida cria um ambiente ritualesco, mas na maior parte é um rock’n’roll simples, direto e muito bom. Ares de Fats Domino, Jerry Lee Lewis e até Jimmy Smith.

No palco, Vurro é divertido e alegre. O show é uma ode ao rock’n’roll, à simplicidade do estilo (apesar da virtuose do artista em fazer todo aquele som sozinho) e a energia que dispara. É impossível assistir ao show sem ao menos bater os pés (exceto se você é um hipster digital que precisa filmar todo o show para dizer que foi).

Vurro é um artista necessário. Uma reflexão obrigatória para pensarmos o futuro da música não apenas como trilha, mas como significado. Qual o valor que você dá ao som que escuta todo dia? Sua playlist é riquíssima e infinita, mas qual canção fala diretamente com você? Qual melodia você se vê obrigado a ouvir e reouvir de tempos em tempos?

Vurro é um manifesto.

“One To One”: Paul McCartney encerra turnê no Brasil com show histórico em Salvador

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Paul McCartney
foto: AFP

Demorou, mas enfim aconteceu. Após três apresentações em Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo e com um atraso de quinze minutos (tudo bem, ele pode) um Beatle finalmente tocou na Bahia. A honra coube a Sir Paul McCartney, abrindo com “A Hard Day’s Night” um show histórico na capital.

A execução das músicas e do próprio show foram as mesmas dos anteriores e da última passagem dele no Brasil em 2014. “Blackbird” dedicada aos Direitos Humanos, “Love Me Do” ao produtor George Martin e o já icônico momento quando presta homenagem a George Harrison com uma versão de “Something” introduzida com o ukelele foram os momentos mais tocantes. Generoso com as músicas dos Beatles, o set list seguiu à risca como de praxe: a explosão do palco em “Live and Let Die”, o coro de “Hey Jude”, a psicodelia de “Helter Skelter”.

Não houve espaço para surpresas. A grande novidade era ver de perto, ou não tão perto, um ícone que para muitos só existia no imaginário popular. Como diziam alguns presentes, não importava saber de cor todas as letras (“Give Peace a Chance” ficou sem o coro) e não importava o lugar que você estivesse. Ver um Beatle fazer cola das palavras em português e mesmo conseguir dizer em alto e bom som: “Vocês são massa” é de aquecer o coração numa noite chuvosa como foi a dessa sexta-feira.

Paul McCarteney após várias passagens no Brasil tocou pela primeira vez na Bahia. Para baianos, sergipanos, alagoenses, cearenses e quem mais tivesse a oportunidade de conferir esse dia histórico. Talvez essa tenha sido a grande diferença entre os shows da turnê “One to One” no Brasil. Após quase 60 anos, desde que os rapazes de Liverpool começaram sua trajetória de sucesso pelo mundo, finalmente nós tivemos nosso pedacinho da Beatlemania.