Palavras outras para o “Outras Palavras” (1981), de Caetano Veloso

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Se limitar a “Transa” e demais álbuns da década de 70 pode até ser justo, mas muita coisa se perde. “Outras Palavras” merece o que seu nome prenuncia.

Capa do disco

Um álbum deixado de lado na discografia de um gênio – esse é o “Outras Palavras” de Caetano Veloso, lançado em 1981. O próprio Caetano, altamente autocrítico, não parece simpatizar muito com esse disco. O que se escuta é que foi uma obra com menos dedo do baiano. Entretanto, toda vez que escuto, fico justamente com a sensação de que foi um pouco injustiçado e que merecia mais menções, apesar dos pesares. Me surpreendo mais ainda sabendo que foi um dos mais vendidos na discografia de Caetano. Fico sempre me perguntando se me iludo com esse disco ou se de fato ele é subestimado. Tive que escrever outras palavras sobre esse disco extremamente agradável (na minha visão) da obra do baiano de Santo Amaro.

O disco começa com a música que dá título ao disco e que caracteriza bem o que Veloso é nessa obra. Afirma, “Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca”. Caetano convoca o experimentalismo e outras palavras no sentido mais puro e poético. Palavras mais alegres. Não há no disco a tristeza do exílio, que clama pelo riso de Irene. É um Caetano que talvez ainda queira “Muito” (1978), mas que não trilha diretamente os “Trilhos Urbanos” de Santo Amaro (“Cinema Transcendental” – 1979). É um Caetano lúdico, que brinca de fazer poesia com fortes influências e diálogos com São Paulo no processo. A semântica, a poesia concreta e as figuras de linguagem típicas do “paulistês” se fazem presentes por vezes, não deixando de lado, entretanto, toda a baianidade do seu som.

A segunda faixa é “Gema” (brilhante ê!). Deliciosa de se escutar. Impossível não sentir algo escutando os tons dessa música, que também tem versões fantásticas pela voz de sua irmã Bethânia. Essa canção inicia um padrão que se estende por todo o disco de retratar sensações e visões da natureza. A “luz exata na escuridão”, a “camaleoa”, a “menina do anel de lua e estrela”, a gata exata. Essa última se faz presente na faixa que se segue: “Vera Gata”, outra ótima canção, com ares típicos da fase fronteiriça entre o Caê dos anos 70 e 80. Prosseguimos então para um ponto altíssimo – “Lua e Estrela”. Radiofônica até os dias de hoje, envelheceu melhor do que as outras pra quem não se satisfaz tanto com o som dos anos oitenta. Essa, aliás, foi composta por Vinicius Cantuária. Um romantismo na medida certa (qual seria a medida certa?) e extremamente agradável. Quando toca acalma qualquer um.

A quinta canção é “Sim/Não”, parceria de Caetano Veloso e Carlos Bolão (percussionista da Outra Banda da Terra à época e que integrou bandas e fez parcerias com grande nomes da música brasileira, como Jorge Ben, Luiz Melodia, Jorge Mautner, dentre outros). Uma boa música. Segue-se a ela “Nu Com A Minha Música” – outro ponto alto, em que se afirmam intrigantes, solitárias e ao mesmo tempo acalentadoras e seguras frases:

“Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor, vertigem visionária que não carece de seguidor;

Quando eu cantar pra turma de Araçatuba verei você; Já em Barretos eu só via os operários do ABC; Quando chegar em Americana, não sei o que vai ser; Às vezes é solitário viver”.

Somos raptados na faixa que se segue pela homenagem a Regina Casé, “Rapte-me Camaleoa”. Definitivamente um clássico e em versão superior à voz e violão sem sal recentemente feita em parceria com Maria Gadú no ao vivo do Multishow.

“Leitos perfeitos seus peitos direitos me olham assim.
Fino menino me inclino pro lado do sim.                                            Rapte-me, Adapte-me, Capte-me, It’s up to me coração
Ser, querer ser, merecer ser um camaleão
Rapte-me camaleoa, adapte-me ao seu ne me quitte pás”
                                                                        

A partir deste momento o álbum de fato tem um teor um pouco menos palatável e mais discutível. Depende exclusivamente do gosto. Pessoalmente não gosto da baladinha “Quero um Baby Seu” e da versão insossa de “Dans Mon Ile” – Caetano contagia mi corazón cantando em idioma estrangeiro “Currucucu Paloma”, “Michaelangelo Antonioni”, “Tu me Acostumbraste”, “La For de La Canela” mas essa versão, sinceramente não me cativa. “Tem que Ser Você” também não empolga muito, mas, dependendo do dia, pode até ser uma faixa que o ouvinte não vai pular ou que pode até gostar. “Blues” é agradável (é um bom blues) e tem trocadilhos legais ao longo da letra (com o azul do nome e do azul que surge a cada verso). “Verdura” é uma boa pedida para fãs de Paulo Leminsky, já que a letra foi escrita por este. O autor traz uma boa crítica acerca da situação calamitosa vivida pelo Brasil à época e que, de certa forma, ainda perdura até o presente momento. Reflexões interessantes e uma ótima musicalidade, na passagem da poesia falada pra poesia musicada.

Caetano Veloso, Paulo Leminsky e Moraes Moreira

“De repente vendi meus filhos pra uma família americana,              eles tem carro, eles tem grana                                                            eles tem casa e a grama é bacana”.

O ponto alto final fica por conta da brasileiríssima “Jeito de Corpo”, que fecha os 40min com chave de ouro. Impossível não dar uma mexida física e mental com o ritmo de sua introdução e da construção musical como um todo. Há referências que caracterizam um pouco do que Caetano provavelmente pensava e sentia na época. O Brasil dos anos oitenta está ali, expresso no arranjo musical e nos versos – desde Trapalhões até Gilbertos e expectativas pelo Marco 2000.

Chico Buarque e os Trapalhões

Referências a Trapalhões:
“Eu sou Renato Aragão, santo trapalhão,
Eu sou Mussum, sou Dedé
Sou Zacarias, carinho
Pássaro no ninho qual tu me vê na TV”

Referências a projetos de Brasil
“Sampa na Boca do Rio, o meu projeto Brasil” (Boca do Rio é um bairro popular da orla de Salvador)                               

Referências a fé e ao saber
“Eu tô fazendo saber vou saber fazer tudo de que eu sou a fins, logo eu que/cri cri que não crer era o vero crer, hoje oro sobre patins” (Uma fé que perdeu as suas raízes profundas e que patina? Uma fé que vai e volta?)                                            

E, por fim, referências ao grande amigo (“mas mesmo na deprê chama-se um Gilberto Gil”). (Na deprê e na felicidade, as parcerias com o amigo permanecem faça chuva ou faça sol.)

“Jeito de Corpo” dá um jeito no corpo! Uma bela conclusão ao disco.

“Outras Palavras” com certeza não é o melhor álbum do santo amarense velosiano, mas, com certeza também é um álbum um tanto quanto esquecido. Merecia mais menções e lembranças. Pessoalmente é um dos meus favoritos na obra de Caetano, o que também pode ser uma loucura da minha parte. Desde o nome do álbum, passando pelos ares do início dos anos oitenta, por canções de amor apaixonantes, até a legitimamente brasileira “Jeito de Corpo”, fico definitivamente contagiado pelo disco. É verdade que tem pontos baixos, mas, os pontos altos agradam muito vendo um Caetano com alegrias e experimentalismos que tem suas peculiaridades quando comparadas ao resto de sua obra. Mesmo sabendo que os álbuns que antecederam (“Cinema Transcendental”) e que se seguiram (“Cores, Nomes”) são provavelmente melhores, “Outras Palavras” tem seu lugar. No mínimo vale a pena escutar uma vez ou aumentar o volume e dar uma chance quando alguma de suas faixas ainda tocar no rádio. Sendo otimista, “Outras Palavras” se tornará companheiro frequente de seus momentos mais felizes ou momentos em que se precisa de algo mais feliz e/ou com um quê de experimentalismo poético. Merece uma chance!

Links interessantes:

http://50anosdetextos.com.br/1981/o-disco-em-que-caetano-inventou-outras-palavras/ coluna publicada em 1981 por Sérgio Vaz no Jornal da Tarde

http://caetanoendetalle.blogspot.com.br/2016/03/1981-verdura-paulo-leminski.html sobre Verdura

http://www.otempo.com.br/super-noticia/o-voo-solo-de-carlos-bol%C3%A3o-1.97117 sobre Carlos Bolão

Letrux surpreendeu com seu climão no SESC Campo Limpo

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“Bota na tua cabeça que isso aqui vai render” e como rendeu! Foi com esse refrão da música “Vai Render” que Letrux abriu seu show na tarde de sábado, 04 de novembro, no SESC Campo Limpo. A apresentação teve inicio pontualmente as 18h e garantiu o anoitecer no climão da cantora, embalado pelo repertório do seu primeiro trabalho solo, o elogiado “Letrux em Noite de Climão”.

Com um figurino ma-ra-vi-lho-so, composto por um macacão brilhante e luvas, ambos vermelhos, a cantora transformou a tenda da comedoria do SESC num clubinho fervoroso. A banda, além de ser formada por ótimos musicistas, também acompanhou o embalo e se apresentou com figurinos vermelhos, todos inspirados do projeto gráfico do disco.

No repertório todas as canções do seu disco, com destaque para a faixa “Que Estrago”, cujo clipe psicodélico chegou nas redes sociais poucos dias antes do show. Impactante ver a reação do público presente, claramente fascinado e cantando a plenos pulmões os versos safadinhos como “Deda, deda, deda, deda, deda, dedada. Molha, molha, molha, molha, molha, mulher molhada”. Também se destacaram “Ninguém Perguntou por Você” e “Puro Disfarce”.

Entre as canções, Letrux interagiu muito com a plateia, vezes recitando poemas, vezes contando histórias. A mais interessante foi quando a cantora comentou sobre o Prêmio Multishow 2017, onde foi consagrada na categoria de Melhor Disco. De forma divertida, ela contou sobre o nervosismo que sentiu, já que a Sandy estava bem próxima dela na plateia.

“Flerte Revival” já apontava para o encerramento do show, que provou o potencial da cantora e desse trabalho. “Letrux em Noite de Climão” não deve ser considerado somente um dos melhores lançamentos do ano, mas também um dos melhores shows da atualidade. Vale a pena entrar no climão e ser seduzido por esse trabalho, que se eu tivesse que resumir, diria que foi feito com muito tesão, com certeza!

Crédito fotos: Viviane Pereira ( Música Compartilhada )

O primitivismo convidativo de Vurro na Casa do Mancha

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Meu primeiro contato com Vurro foi nos idos de 2016. Era um ser bizarro, sobrehumano e fazendo uma música cheia e energética. Um crânio de animal – cujos chifres são usados para bater nos pratos – , chocalhos nos braços, teclado de pé, bumbo, caixa e chimbal também controlados no pé e as mãos ocupadas com um órgão tipo Hammond e um piano. Tudo isso fazendo um rock’n’roll cheio, sujo e divertido… Garage-rock encontra one-man-band.

Fui ao show do Vurro na Casa do Mancha, em São Paulo, no último dia 1º, sem saber muito sobre o artista. Sei que é espanhol e possui alguns vídeos no Youtube e Facebook, mas nada de Spotify, Bandcamp e afins. Também é guardado em segredo a identidade do homem por trás do monstro. E tudo isso é tão proposital quanto necessário.

Vurro é um artista autosuficiente e que convoca, mais que convida, à contemplação analógica. Sua ausência digital em plataformas focadas em música monstram um posicionamento de alguém que parece ser um ativista do show, do momento, da sensação de ouvir uma música ao vivo.

O som que produz é tão primitivo quanto o crânio que veste. É como se Vurro fosse o rock despido de qualquer desnecessidade. Às vezes uma batida cria um ambiente ritualesco, mas na maior parte é um rock’n’roll simples, direto e muito bom. Ares de Fats Domino, Jerry Lee Lewis e até Jimmy Smith.

No palco, Vurro é divertido e alegre. O show é uma ode ao rock’n’roll, à simplicidade do estilo (apesar da virtuose do artista em fazer todo aquele som sozinho) e a energia que dispara. É impossível assistir ao show sem ao menos bater os pés (exceto se você é um hipster digital que precisa filmar todo o show para dizer que foi).

Vurro é um artista necessário. Uma reflexão obrigatória para pensarmos o futuro da música não apenas como trilha, mas como significado. Qual o valor que você dá ao som que escuta todo dia? Sua playlist é riquíssima e infinita, mas qual canção fala diretamente com você? Qual melodia você se vê obrigado a ouvir e reouvir de tempos em tempos?

Vurro é um manifesto.

“One To One”: Paul McCartney encerra turnê no Brasil com show histórico em Salvador

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Paul McCartney
foto: AFP

Demorou, mas enfim aconteceu. Após três apresentações em Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo e com um atraso de quinze minutos (tudo bem, ele pode) um Beatle finalmente tocou na Bahia. A honra coube a Sir Paul McCartney, abrindo com “A Hard Day’s Night” um show histórico na capital.

A execução das músicas e do próprio show foram as mesmas dos anteriores e da última passagem dele no Brasil em 2014. “Blackbird” dedicada aos Direitos Humanos, “Love Me Do” ao produtor George Martin e o já icônico momento quando presta homenagem a George Harrison com uma versão de “Something” introduzida com o ukelele foram os momentos mais tocantes. Generoso com as músicas dos Beatles, o set list seguiu à risca como de praxe: a explosão do palco em “Live and Let Die”, o coro de “Hey Jude”, a psicodelia de “Helter Skelter”.

Não houve espaço para surpresas. A grande novidade era ver de perto, ou não tão perto, um ícone que para muitos só existia no imaginário popular. Como diziam alguns presentes, não importava saber de cor todas as letras (“Give Peace a Chance” ficou sem o coro) e não importava o lugar que você estivesse. Ver um Beatle fazer cola das palavras em português e mesmo conseguir dizer em alto e bom som: “Vocês são massa” é de aquecer o coração numa noite chuvosa como foi a dessa sexta-feira.

Paul McCarteney após várias passagens no Brasil tocou pela primeira vez na Bahia. Para baianos, sergipanos, alagoenses, cearenses e quem mais tivesse a oportunidade de conferir esse dia histórico. Talvez essa tenha sido a grande diferença entre os shows da turnê “One to One” no Brasil. Após quase 60 anos, desde que os rapazes de Liverpool começaram sua trajetória de sucesso pelo mundo, finalmente nós tivemos nosso pedacinho da Beatlemania.

Refavela 40 celebra o início do que talvez seja uma “Nova Era” na carreira de Gilberto Gil

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por Pedro César

Gilberto Gil está muito bem. Ano passado tivemos grandes sustos e quase “perdemos” um dos grandes mestres da música brasileira. Sabemos que Gil “não tem medo da morte”, mas quando ele partir vai ser duro pra todo e qualquer fã da música popular brasileira. Por sorte ainda o temos. Com vitalidade, imponência, sabedoria e altivez.

Se Gil cantasse todo o repertório do “Refavela”, entretanto, não seria mais o mesmo. Todas as músicas demandam uma energia que talvez ele não tenha mais, considerando um show tão extenso e que vai percorrer todo o Brasil (no repertório e na turnê). Gil talvez tenha consciência disso. Dá espaço então para uma banda envolvente “regida” pela guitarra igualmente envolvente de Bem Gil, idealizador do show. Com carisma inegável, toda a “trupe” se comporta como uma família, onde inclusive, diversas gerações da família Gil estão presentes, desde Nara Gil, a filha mais velha que participa com vocais ocasionais envolventes e uma participação emocionante em “É”, até os netos, tocando instrumentos percussivos o show inteiro e trazendo fofura e um ar simbólico de renovação – a principal marca desse show: a busca pela renovação permanente da obra de Gil.

Os vocais de Maíra Freitas, Moreno Veloso e Céu, trazem um ar novo para um som transcendental e atemporal. Preparam lindamente o cenário para o anfitrião da festa. Belos arranjos, belas vozes e, evidenciadas nas suas apresentações, a admiração gigantesca pelo filho de Dona Claudina. Gil observa tudo sentado nas coxias, de pernas cruzadas e postura ereta. Reage feliz em algumas músicas, mas passa a maior parte do tempo quase imóvel, admirando o repertório e a homenagem à sua obra. Também se concentra para o que está por vir.

Quando o homenageado enfim chega ao palco, faz uma entrada triunfal e retumbante, convocando a percussão para a “Patuscada de Gandhi”. Dança e traz a plateia ao show a todo tempo, enquanto brada com beleza singular, os versos de homenagem a um dos blocos afro mais tradicionais da Bahia. Emenda com a música maravilhosa que compartilha o nome com o disco em questão. A plateia continua a cantar junto a todo instante em uma Concha Acústica do TCA lotada. Gil conta longas histórias sobre a concepção do disco, destacando a viagem inspiradora à mãe África com Caetano Veloso e tantos outros artistas (é impossível não ter, nesse contexto, orgasmos imaginativos musicais com as menções a encontros frequentes com Fela Kuti e Stevie Wonder).

A atmosfera do show é interrompida com os gritos efusivos de “Fora Temer!”. Gil responde com a malícia e sabedoria de seus 75 anos – “Aconteceu a mesma coisa em São Paulo e direi aqui o mesmo que disse lá: é compreensível, aliás é compreensibilíssimo que se grite isso, mas acho esse grito ocioso. Temer já está fora, se não agora, daqui a 1 ano.” – seu apoio ficou evidenciado, mas, sem deixar de lado uma crítica elegante de quem já viveu muito da história recente desse país, em diferentes lugares da “trincheira” ideológica.

Chama atenção, por fim, o repertório com a presença de músicas extras ou excluídas do “Refavela”, como “Gaivota” (concebida para Ney Matogrosso, que interpreta maravilhosamente no “Bandido” de 76) e “É” (publicada no “Satisfação: Raras e inéditas”). “É”, por sua vez se destaca com o lindo dueto de Gil com sua filha mais velha, Nara, e que marca nos seus versos o que talvez seja o símbolo de sua carreira daqui pra frente – um ser que “não teve começo e nunca terá fim”, um ser inquieto, um ser fantástico. Fantasia que se expressa no “gran finale” do show, com as memórias e a saudação religiosa candomblecista de “Babá Alapalá”, onde a gratidão por ter conhecido o candomblé se expressa, tanto no discurso quanto na cantoria que fecha o show com chave de ouro.

Que todos os deuses e energias positivas abençoem a obra, o legado e o ser de Gilberto Gil, que não é o Bob Marley brasileiro, mas sim, o primeiro e único Gilberto, filho de Dona Claudina e Seu José. Vida longa!

Paulinho Moska e a genialidade do show “Violoz”

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Tornando-se cada vez mais uma referência para os shows na cidade de São Paulo, a Casa Natura Musical recebeu no último fim de semana o cantor Paulinho Moska para duas apresentações do espetáculo intitulado “Violoz”.

A abertura ficou por conta de Bárbara Dias, novo nome na cena musical que se mostrou extremamente à vontade e confiante no palco. Acompanhada de seu violão, mesclou composições autorais com versões de seus artistas preferidos, como Tiago Iorc, bastante elogiado pela cantora e que recebeu aplausos calorosos da plateia ao ter seu nome citado. Apesar do show curto, Bárbara instigou e provou que é um nome que deve ser acompanhado.

Logo em seguida, Paulinho Moska nos presenteou com um show repleto de canções, histórias, momentos e recordações. Conhecido por sua boa relação com o mercado latino americano, o cantor arriscou um “portunhol” e abriu o show com a canção “Hermanos”, seguida por “A idade do céu”, canção originalmente composta em espanhol por Jorge Drexler, cuja versão em português foi escrita pelo próprio Moska.

Alternando entre os violões, guitarra e bandolim, o cantor apresentou seu excelente repertório sempre conduzindo de forma precisa todos seus instrumentos. Um show solo requer muita confiança e Moska tem de sobra. Além dos seus sucessos como “A seta e o alvo”, “Tudo novo de novo” e “Pensando em você”, fizeram parte do repertório parcerias de Moska gravadas originalmente por outros artistas. “Sinto Encanto”, gravado por Zélia Duncan no disco “Pelo sabor do gesto”, “Namora comigo” composta por Moska e gravada por Mart’nália.

O show “Violoz” comprova a genialidade de Moska. Excelente instrumentista, ótimo compositor e com uma espontaneidade no palco que impressiona e cativa o publico.

Setlist
1. “Hermanos”
2. “A idade do céu”
3. “Soneto do teu corpo”
4. “Tudo o Que Acontece de Ruim É Para Melhorar”
5. “Pensando em você”
6. “Impaciente Demais”
7. “A seta e o alvo”
8. “Sinto encanto”
9. “Sonhos”
10. “While My Guitar Gently Weeps”
11. “Lágrimas de diamantes”
12. “Sem dizer adeus”
13. “O último dia”
14. “Tudo novo de novo”
15. “Quantas vidas você tem”
16. “Namora comigo”
17. “Admito que perdi”
18. “Um móbile no furacão”
19. “Relampiano”
20. “Stand By Me”
21. “Somente nela”
22. “Muito pouco”

Bike conduz o público para um ambiente místico em show no Teatro Sérgio Cardoso

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Já no ônibus, não tinha percebido, mas meu ponto tinha passado. Desci no próximo e, segundo o Google Maps, agora estava a 17 minutos do local. Decidi seguir a pé. Não tinha vindo até o bairro Bela Vista ainda. No caminho para o Teatro Sérgio Cardoso — local onde o show do Bike estava marcado para começar às 22h –, um gari passa correndo atrás do caminhão de lixo. Para ele, é só mais um dia corriqueiro de trabalho. A rua é uma incessante sinfonia ensurdecedora de buzinas de carros, trânsito e pessoas no seu fluxo alvoroçado. Essa cidade é um caos, pensei. SP ainda vai nos matar de prazer ou de frustração.

Passava das 22h15  de uma quarta-feira (27/10), quando no mezanino do teatro, os integrantes estavam a postos com seus instrumentos. Julito Cavalcante (guitarra e voz) dá boa noite aos presentes e anuncia “Enigma do Dente Falso” pertencente ao primeiro disco da banda “1943” (2015). O show começa com uma música mais lenta e carregada de psicodelia. Ecoam os backing vocais com reverb da voz de Diego Xavier (guitarra). A caixa de Daniel Fumegaladrao (bateria) soa forte como uma marreta e dita o ritmo dos demais instrumentos.

Após o primeiro som e sem tempo para respiro, a banda toca a introdução de “Do Caos ao Cosmos” numa linha dançante bem parecida com Tame Impala. Um público pequeno de mais ou menos 20 pessoas observa atento a dinâmica de ritmo oscilante do grupo. No momento clímax do som, a banda explode numa notável presença de palco, a música passa por uma metamorfose do compasso lento para o acelerado. Sem pausa, o Bike emenda para “7 Flechas e o Rei Lagarto”. A voz de Julito está baixa, o que atrapalha na percepção das letras em determinados instantes. Mas de resto, o som está bem regulado. A bridge agitada da canção mistura-se às luzes coloridas do palco. Psicodelia pura.

Em “Alucinações e Viagens Astrais” a linha do baixo pesado de João Felipe (baixo) se sobressai — aliás, o Bike tem uma bela cozinha entrosada, por assim dizer. Vozes reverberam e revelam uma nítida influência de Thom Yorke (Radiohead). Destaque para um riff de guitarra nostálgico no final da música. Bike não deixou de fora do repertório “A Divina Máquina Voadora”, música na qual eles lançaram recentemente um videoclipe com imagens da tour realizada este ano na Europa. O guitarrista Diego Xavier editou e finalizou o clipe. Falando em tour na gringa, depois de Boogarins, o Bike também está ganhando cada vez mais espaço no panorama de bandas nacionais psicodélicas, ao lado de uma ótima safra que inclui: Gluetrip, Supercordas, O Terno, My Magical Glowing Lens Cidadão Instigado.

Bike no Teatro Sérgio Cardoso. Foto: Fernanda Carrilho Gamarano

Somos transportados para um ambiente místico (quase espiritual) quando o quarteto toca “A Montanha Sagrada“. Essa música assemelha-se com as brisas indianas de George Harrison (guitarrista dos Beatles), é como se estivéssemos em uma aula de yôga psicodélico. Duas vozes cantam, simultaneamente, um refrão que fica cravado na mente: “Subi a montanha para ficar mais perto do céu”. Luzes piscam enquanto um solo de guitarra repetitivo acelera de forma crescente. O caos de São Paulo — citado no início –, é representado no desfecho barulhento da música. As bandas de jazz que adoram improvisar que o diga.

Julito agradece a presença do público, informa que o show está chegando ao fim e comenta a respeito do último disco “Em Busca da Viagem Eterna”, divulgado esse ano pela banda por meio da turnê que leva o mesmo nome. “Terra Em Chamas” encerra a noite de quarta-feira em meio a knobs e feedback dos pedais de efeito de guitarra. Uma brisa com um clima Pink Floyd ressoa nos amplificadores. O público, apesar de pequeno, grita e aplaude com fervor a banda.

A música tem o poder de trazer reflexão e pensamento crítico. Vai além do entretenimento. Quando consumimos arte, estamos à procura de algo. E, nessa noite singular, o Bike nos guiou livremente em busca da viagem eterna.

Confira mais fotos do show pelas lentes da fotógrafa Fernanda Carrilho Gamarano:

Bike
foto por Fernanda Carrilho Gamarano

Do emo ao shoegaze, segundo EP do Eliminadorzinho, “Aniquiladorzinho”, é um resgate de influências perdidas

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Muitas vezes sinto falta de músicas que falem comigo de maneira genuína, que não falem sobre uma realidade colorida distópica ou sobre positividades inalcançáveis. Sinto falta do que eu sentia quando descobri Violins e Ludovic na adolescência, que em bom português, traduziam tudo o que eu sentia mais do que muitas bandas gringas de post-hardcore, shoegaze e punk da época. O Eliminadorzinho foi uma das bandas mais sinceras que descobri de uns tempos pra cá, junto com outras do tal “rock triste”, um alívio para quem se sente perdido em meio a tanta obrigação de ser feliz o tempo todo. Ontem a banda lançou o segundo EP, Aniquiladorzinho”, corri para escutar e foi incrível ver um material tão intenso.

A faixa de abertura “Você Acha” não deixa dúvidas da forte influência de Ludovic, que vai desde o instrumental até a lírica. Chega a ser quase uma homenagem à banda que, pelo menos para mim, é uma das mais significativas do cenário nacional. Ludovic provavelmente deve sentir orgulho ao ver os frutos que deixou crescer em bandas como Eliminadorzinho. A mesma influência continua em “Borrão”, que também bebe do pós-punk, lembrando as canções dessa fase de Inocentes e Cólera em alguns momentos.

“Desculpa, parte 2” traz memória ao emo cru e verdadeiro, sem vergonha de se assumir como tal. Essa faixa é um marco no EP que mostra influências do Eliminadorzinho que vão além do shoegaze já mostrado no EP anterior, referências que lembram Mineral, Cap´n Jazz, Sunny Real Estate, tudo direto da fonte dos anos 90. Depois do termo “emo” ter se tornado um palavrão, é bom ver bandas que resgatam essa essência com coragem para mostrar que isso faz parte do que chamamos de “rock triste” sim. Sem meios-termos. Esse resgate de referências perdidas por muitos foi o ponto alto de Aniquiladorzinho.

“Fora de Ar” é dessas músicas que dá vontade de escutar dentro de casa, no quarto, com alguns comprimidos e álcool do lado. Também dá vontade de mandar pra alguém, confesso que eu mesma quase mandei. As palavras intensas seguidas de um instrumental contínuo e denso fazem dessa música uma experiência incrível para quem se propõe a ouvir com o coração aberto.

A conexão entre instrumental e lírica em Aniquiladorzinho é muito coerente e complementar, as composições feitas de maneira simples, sem palavras muito rebuscadas mas com muita intensidade trazem sinceridade para cada música, dá pra sentir cada palavra, dá para processar e digerir.
Como já mencionado, o shoegaze ainda é muito presente, impossível não pensar em Pinback e Slowdive em vários momentos e como a própria banda diz, a influência de Dinosaur Jr também é perceptível.

Terminei de escutar o EP com vontade de ouvir mais. Espero que o mar de boas referências que Aniquiladorzinho trouxe de forma corajosa e contra a maré de quase tudo que vemos por aí, inspire muitas bandas e artistas a seguir falando de sentimentos, conflitos, tristeza e tudo que ainda pode soar incômodo.

O EP foi mixado e masterizado por Rubens Adati, no Inhamestúdio.

Voz, violão e guitarra: Gabriel Eliott Garcia
Baixo e vocal de apoio: João Pedro Haddad
Bateria e vocal de apoio: Tiago Schützer

Anoquiladorzinho está totalmente disponível nas plataformas virtuais da banda e no Spotify:

 

 

Exposição “Renato Russo” presenteia e emociona com a história do ídolo da música nacional

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“Renato Russo” presta homenagem a um dos maiores ícones da música brasileira e é a quarta exposição idealizada e concebida totalmente pelo MIS – Museu da Imagem e do Som. A mostra conta com curadoria de André Sturm – ex-diretor do MIS – e direção de arte do Ateliê Marko Brajovic. Giuliano Manfredini, único filho do artista, concedeu ao MIS total acesso ao apartamento de Renato Russo confiando à equipe do museu sua catalogação, conservação e adaptação para a exposição.


A exposição totaliza mais de 1000 itens e ocupa dois andares do MIS. Ao entrar, subimos uma escada decorada com imagens de diversos artistas que serviram de inspiração para o Renato. Seguindo uma ordem cronológica, primeiro descobrimos um pouco sobre o menino Renato Manfredini Júnior, seus trabalhos e boletins escolares, esse sempre com ótimas notas registradas pelos professores. Interessante observar que desde pequeno ele teve o hábito de registrar suas tarefas e atividades, com certeza isso auxiliou para a realização dessa

Em seguida acompanhamos os primeiros passos musicais do já adolescente Renato Russo. Estão presentes os originais das primeiras letras escritas para o repertório da banda Aborto Elétrico e cartazes criados manualmente pelos próprios integrantes.


Chegamos nos espaços reservados à carreira musical com a Legião Urbana. É impossível não se emocionar e visitar a exposição cantarolando os sucessos da banda que servem de trilha sonora nos espaços. Estão presentes anotações sobre as concepções dos discos, letras originais, releases, críticas, instrumentos musicais, quadros de discos de ouro, platina e até diamante, recebidos em homenagem as vendas impressionantes alcançadas pela banda.

Televisores com imagens de arquivo mostram apresentações ao vivo da banda, basta o visitante colocar o fone de ouvido e assistir registros históricos. Um desses momentos é a participação da banda no extinto Programa Livre, atração comandando por Serginho Groisman no SBT na década de 90. Em determinado momento, a plateia do programa pede que a banda interprete a canção “Pais e Filhos”, eles atendem o pedido, mas antes Renato faz um discurso falando sobre como a música é pesada e o deixa num estado muito complicado, porque trata de suicídio e o desgasta emocionalmente. Ele diz que é preciso respeitar o artista, porque no caso da Legião Urbana, muitas canções são difíceis de serem executadas, pois o abalam demais. Mesmo dizendo que “não lembra a letra dessa música”, Renato interpreta a canção e vemos uma plateia completamente emocionada e cantando com muita intensidade.

Outro momento marcante é conferir um vídeo onde a banda interpreta “Vento no Litoral”. A imagem é projetada em diversos tecidos brancos, com um movimento que remetem literalmente ao vento no litoral. Impossível não se emocionar ao presenciar as imagens e observar a letra composta por Renato Russo em parceria com Dado Villa-Lobos. A carreira solo do cantor e os discos póstumos também ganharam destaque nessa exposição.


Foram recriados dois espaços do apartamento habitado por Renato Russo no Rio de Janeiro, parte de sua sala e seu quarto. Também podemos conferir parte das roupas usadas pelo cantor e do seu imenso acervo de livros e discos. Temos ali a certeza que Renato Russo era um colecionador nato.

Ao subirmos para o segundo andar da exposição, vemos um espaço repleto de cartas recebidas por fãs. Interessante ver a forma como Renato tratava seus fã-clubes. Ele por muitas vezes os recebia em seu próprio apartamento.

A exposição comprova a genialidade, por vezes incompreendida, do cantor Renato Russo. E mostra como suas letras, mesmo após duas décadas do seu falecimento, continuam atuais. Único ponto a reclamar seriam os fones de ouvido dos televisores, alguns não funcionam e assim não temos acesso aos áudios. Duas dicas importantes: às terças a entrada é gratuita, ao visitar a exposição, reserve um bom tempo, eu levei cerca de 3 horas para conferir tudo com atenção aos detalhes. A exposição fica em cartaz até o dia 28 de janeiro de 2018.

Instrumental agressivo e protagonismo feminino formam o primeiro EP do duo cuiabano SixKicks

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A dupla cuiabana SixKicks, formada por Marjorie Jorie e Theo Charbel, lançou ontem seu EP de estreia, “You Should Sing In Portuguese Buy More Pedals And Play Lower”.

O EP traz um instrumental que passeia de forma agressiva pelos anos 90, indo do garage rock ao industrial, como se misturasse Nine Inch Nails, Le Tigre, Sonic Youth e My Bloody Valentine na mesma receita. Inclusive, a faixa Take Time tem acordes que lembram bastante Sonic Youth.

O EP de nome provocativo valoriza a parte instrumental, como fica claro em “Doom”, onde os vocais são deixados de lado para destacar ainda mais os instrumentos executados apenas pelas duas integrantes.

A faixa de abertura, “You Wanna Fuck Me”, é sensual dos os acordes até a letra que fala sobre sexo de maneira nada pudica. Toda a parte lírica do EP, apesar de simples e curta, soa como um reflexo do imaginário das autoras.
Entre guitarras, uma bateria muito bem executada e sintetizadores, “Forrock” homenageia a música tradicional cuiabana até na forma de composição lírica, que segue a mesma fórmula das músicas regionais de Cuiabá.

SixKicks representa muito bem o protagonismo feminino na música, apresentando um material onde mulheres executam desde as composições até a mixagem.

O EP “You Shoud Sing In Portuguese Buy More Pedals And Play Lower” foi lançado pelos selos PWR Records e Fofura Records, gravado no Estúdio Aurora Sounds por Alejandra Luciani e masterizado no Estúdio Us.