O punk nu e cru de Sloppy Jane atinge níveis de selvageria que deixariam Iggy Pop orgulhoso

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Sloppy Jane

Sloppy Jane é a persona selvagem e sem nenhuma amarra de Haley Dahl, guitarrista, vocalista e compositora. Na banda, Haley mostra que aprendeu direitinho todas as lições de liberdade musical e estripulias que o punk rock ensinou desde seu início. Em tempos cada vez mais conservadores, Sloppy Jane tira a roupa e demonstra que a arte não tem medo de se mostrar nua e crua. O merchandising da banda conta com camisetas como “Haley Dahl is a mean mean whore”, o que a cantora considera um grande elogio. 

A banda de apoio é constituída por Sara Cath, Kathleen Adams e Vyvyan, multiinstrumentistas que tocam punk cru e sem firulas. A banda acaba de completar seu novo disco com Joel Jerome e lançou recentemente clipes para “Mindy” e “La Cluster”. Na bagagem, Sloppy Jane conta com o EP “Totally Limbless” (2014) os discos “Burger Radio” (2014) e “Sure Tuff” (2015).

Sloppy Jane by Josh Allen

Sloppy Jane por Josh Allen

– Como você começou sua carreira?
Foi em algum momento entre ficar trancada no porão com um piano quando criança e cumprimentar Kim Fowley (com um high five) no Sunset Strip quando adolescente.

– Quais são suas principais influências musicais?
Em uma análise mais recente, sigo o roteiro que Deus desenha para mim. Tento manter meus olhos bem abertos e meus ouvidos bem abertos. Recentemente me falaram que nem todas as minhas ideias são boas e que eu preciso ser contida, e que há muita insegurança ao não conseguir ficar quieta enquanto toco ao vivo. Eu acho que há muito mérito para essa crítica, mas que tudo o que tenho é mais tempo para me tornar mais velha e mais parada. Eu acho que é importante se mover enquanto seus membros te deixam, e enquanto isso é honesto. Estou ansiosa por um dia querer ficar sentada. Da mídia, tenho influência de “The Missing Piece” de Shel Silverstein, tudo do Dr. Seuss, O Pequeno Príncipe e The Point. Também fui muito influenciada pelo Ike para a minha Tina Turner, que também sou eu. Tina Inturnal..

– Conte mais sobre o material que você lançou até agora.
Recentemente lancei o uma música e clipe novos chamados “Mindy”, e estou muito orgulhosa do disco que vou lançar. Não tenho ideia de quando vai sair, e toda vez que alguém me pergunta coloco fogo em todos meus móveis de casa. Tenho outro clipe sendo lançado, “La Cluster”, também.

– Seus shows são selvagens e impressionantes. Como o público reage?
As reações variam, e eu adoraria que elas variassem mais ainda. Acho que o que fazemos é afetado fortemente pela forma do lugar que estamos tocando. Tocando em um porão suado ou em um palco iluminado, o que fazemos é basicamente o mesmo, mas fica bem diferente com a mudança de som e iluminação.

– Em seus shows, às vezes você arranca a roupa e vai pro meio da galera, uma atitude mais “selvagem” que costumava ser mais comum em shows de rock, mas hoje em dia é mais incomum. O rock and roll está ficando “domado”?
Não sei e não me importo com o rock and roll. Eu apenas estou tentando me expressar. Eu adoraria ser domada. Eu quero que alguém me segure e me force a colocar a roupa..

– Como você descreveria seu som para quem nunca ouviu?
Música que está implorando para ser ouvida.

– O que você acha da indústria musical hoje em dia
No que se refere à negócios, eu cuido dos meus! (“As far as business is concerned, I mind my own!”)

Sloppy Jane
– Como você vê a cena norte-americana independente e undergound hoje em dia? O que está acontecendo por aí e o que você acha disso?
Em todo lugar é diferente. Eu realmente passei muito tempo aqui em Nova York e em Los Angeles, mas eles são como noite e dia. Los Angeles tem uma cena insana de todas as idades (Penniback, The Smell, etc). Os shows são totalmente desengonçados, às vezes é impossível tocar porque todos estão pirando. Nova York é mais adulto, os shows são menos loucos, mas há muito trabalho magistral sendo feito, tenho muita admiração por meus colegas aqui. Quando toco aqui, sinto que as pessoas estão prestando atenção. Ambos são especiais a seus próprios modos. Uma coisa que vou dizer é que eu acho que o formato em que a música ao vivo é apresentada precisa ser alterado em geral. O fato de que ainda estamos fazendo shows da mesma maneira que eles fizeram desde o início dos tempos, quando o mundo mudou tanto, é completamente odioso para mim. É chato. Ninguém gosta, se gostam é porque têm síndrome de estocolmo. Eu não tenho uma solução, mas talvez eu pense em uma. Os shows de rock são chatos, os festivais são chatos.Cerveja não é bom e eu odeio o jeito que me faz sentir quando todos os que bebem agem como se tivessem inventado isso.

Sloppy Jane
– Quando você vem para o Brasil fazer shows e “rock our socks off”?
Eu estive esperando por essas palavras toda minha vida. Assim que alguém me financiar, estarei aí. Mas por favor, fiquem de meias. Eu sou tímida. Eu me mostro, mas fico de olhos fechados. Não estou pronta para ver outras pessoas.

– Quais os seus próximos passos?
Eu quero um ônibus escolar, ser melhor no piano e ser paga. Temos esse disco para lançar, mas ele precisa estar perfeito, e eu estou escrevendo um novo!

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.
Dog, MOURN, Shimmer, Animal Show, Tredicci Bacci, The Cradle, Eyes of Love, Palberta, Matter Room, Insecure Men, Clit Kat, Girl Pusher, Loko Ono, Machine Girl, Trona.

Construindo LuvBugs: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o duo LuvBugs, do Rio de Janeiro, formado por Paloma Vasconcellos (bateria) e Rodrigo Pastore (guitarra e voz) Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Bikini Kill“Girl Soldier”
Paloma: Definitivamente, a Tobi Vail é uma grande baterista/musicista e a minha maior influência Riot Grrrl na LuvBugs e na vida. “Guess you didn’t notice. Why we were dying. I guess you didn’t give a fuck. After all, only women were dying”.

Breeders“No Aloha” (“Last Splash”, 1993).
Rodrigo: Melodia vocal açucarada mergulhada em guitarras distorcidas em amps valvulados, isso é praticamente a base de 80% dos sons da LuvBugs.

Babes In Toyland“Hello” (“Nemesisters”, 1995).
Paloma: Riot Grrrl até a alma, “Hello” introduz esse belo disco de punk rock, dessa banda linda que tenho como grande influência de que as mulheres podem sim fazer rock. Lori Barbero é uma grande referência de baterista.

Nirvana“School” (“Bleach”, 1989).
Rodrigo: Um dos riffs mais contagiantes da história do rock and roll, tem uns 3 riffs da LuvBugs que nasceram daí, Coração Vermelho, Verde Zen e algum outro que não estou lembrando.

Sonic Youth“Becuz” (“Washing Machine”, 1995).
Paloma: O timbre dessa guitarra e seu riff repetitivo somado ao essencial vocal da excêntrica Kim Gordon tornam essa introdução do “Washing Machine” algo que sempre está presente na minha mente.

Wavves“No Hope Kids” (“Wavves”, 2009).
Rodrigo: Um amigo voltou daquele cruzeiro do Weezer uma vez com um vinil do Wavves e disse que queria me mostrar um som de uma banda que ele tinha conhecido os caras na piscina do cruzeiro. Logo que ouvi me liguei que era o som que eu queria fazer e “No Hope Kids” é um punk rock de garagem perfeito, ouvi até entrar no sangue.
Influência nas composições e nas mixagens dos discos, esse som tem uma mix lo-fi referência pra mim.

Nirvana“Dumb” (“In Utero”, 1993).
Paloma: A simplicidade dessa letra consegue demonstrar toda a complexidade da vida em um perfeito paradoxo existencial. “I’m not like them but I can pretend”. As composições da LuvBugs são assim, mais simples possíveis.

Freud And The Suicidal Vampires “It’s Hard To Write A Good Song In 5 Minutes (When You’re So Difficult To Describe)”
Rodrigo: Outro som referência de mix lo-fi. Riff alucinante com uma guitarrinha fazendo um solo de tema. Daí eu percebi que o álbum “Dias em Lo-Fi” poderia ter isso também, som de duas guitarras e não apenas uma como nos outros, até que a gente tem se virado bem ao vivo.

Velvet Underground“Venus in Furs” (“The Velvet Underground and Nico”, 1967).
Paloma: Impactante até a alma, impossível não se afetar com a experiência que essa música passa. “I could sleep for a thousand years. A thousand dreams that would awake me. Different colors made of tears”.

Ronnie Von“Imagem” (“A Máquina Voadora”, 1970).
Rodrigo: Esse som escutei tanto em determinada época da minha vida, que sempre quando escuto novamente reencontro meu jeito de escrever as músicas da LuvBugs e até meu jeito de pensar sobre a vida. Outro dia um amigo me falou em alguma semelhança em alguma melodia de voz minha ou jeito de cantar e eu acabei dando
razão a ele.

John Frusciante“Look On” (“Inside Of Emptiness”, 2004).
Paloma: O John é surreal. Essa música, (e esse disco) é cativante do início ao fim. Melodia, letra e guitarra lindas e totalmente inspiradoras. “When I thought life was terrible, things were going fine… A paper and a pencil are the
best friends I’ve got. Look on”.

Dinosaur Jr“Drawerings” (“Where You Been”, 1993).
Rodrigo: Outro dia eu li “J.esus Mascis é meu pastor e nada me faltará”. Amém.

L7“One More Thing” (“Bricks Are Heavy”, 1992).
Paloma: Esse grunge anos 90 de melodia e guitarra arrastada é perfeito e uma das minhas maiores influências também.

Elliott Smith“Coast To Coast” (“From a Basement on the Hill”, 2004).
Rodrigo: Considero de alguma forma Elliott Smith uma grande influência pro “Dias em Lo-Fi”, sempre o escutei mas até então não considerava muito essa influência à LuvBugs. Nesse álbum a gente acabou deixando umas camadas um pouco mais tristes que nos anteriores e “Coast To Coast” foi grande referência pra canções como por
exemplo “Ela Sabe o que é Certo”, claro que não é uma cópia, assim como todas as influências, a gente acaba fazendo do nosso jeito.

My Bloody Valentine“Only Shallow“ (“Loveless”, 1991).
Paloma: Vocal calmo e delicado mas ao mesmo tempo forte e intenso. É uma das principais influências shoegaze da LuvBugs.

Elastica“Stutter” (“Elastica”, 1995).
Rodrigo: Composição contagiante, batida dançante, “ritmo de acadimia”, fuzz rasgando o refrão, vocal cantarolado, cabelo no rosto, ufa, tudo que eu preciso nessa vida. E tento levar pra LuvBugs.

Oasis“Live Forever” (“Definitely Maybe”, 1994).
Paloma: Oasis é uma banda que apesar de controversa é inspiradora e me influencia na hora de compôr, mesmo que inconscientemente. “Maybe I just want to fly. I want to live. I don’t want to die”.

Lou Reed“Hangin’ Round” (“Transformer”, 1972).
Rodrigo: Lou Reed fez as melhores canções que ouvi na minha vida, ele é a maior referência musical, pode crer. Inventou tudo que eu ouço hoje e se alguma banda do mundo não tem nenhuma influência do Lou ou Velvet Underground eu nem preciso escutar. Essa canção em especial, o jeito dele cantarolar a melodia ao mesmo tempo
que descreve a cena é mágico.

Courtney Barnett“Nobody Really Cares If You Don’t Go To The Party” (“Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit”, 2015).
Paloma: Essa música fala de situações que são reais na vida das pessoas e traduz perfeitamente boa parte do meu cotidiano. É assim com a maioria das composições dessa australiana que veio pra ficar e conquistou o coração da LuvBugs. “I wanna go out but I wanna stay home”.

Titãs“Taxidermia” (“Titanomaquia”, 1993)
Rodrigo: “Se eu tivesse seus olhos não seria famoso, eu não quero ser útil, quero ser utilizado, inutilizado, inutilizado”. Acho que foi meu primeiro contato com poesia dentro do rock’n roll. Esse som é referência pra qualquer coisa que eu faça.

Construindo Bikini Hunters: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o quarteto Bikini Hunters. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Ramones“Now I Wanna Sniff Some Glue”
A Bikini só existe por causa dos Ramones! Em 2006 eu e o Vini (ex-baterista) éramos dois adolescentes doidos para montar uma banda com o som bem bubblegum, semelhante aos primeiros álbuns dos Ramones. Durante muito tempo da banda essa música esteve presente nos shows, por ser a música mais curta que o Ramones já compôs ela refletia um pouco da nossa ansiedade de tocar rápido e sermos diretos.

Carbona“Garopaba Go”
No início da banda o Carbona era nossa maior referência nacional, até mesmo por ser uma das poucas bandas de bubblegum nacional e fazer um som bem semelhante ao que almejávamos fazer. “Garopaba Go” foi a primeira música que tocamos juntos, então ela é fundamental nessa lista.

The Queers“It’s Cold Outside”
The Queers são os mestres do bubblegum e acabaram vindo fazer um show em Veranópolis (inacreditável, mas real). O Vini (ex-baterista), era super fã dos caras, mas estava morando nos EUA na época que ocorreu o show, então, ele voltou pro Brasil de horror e quase que nos obrigou a fazer uma versão português dessa música (eu sempre achei meio “brega” esse lance de traduzir músicas). No fim, ficou super melosa, mas bem divertida de tocar.

Nirvana“You Know You’re Right”
A Bikini teve algumas fases bem grunge, onde nós sempre buscávamos colocar nas músicas próprias algumas situações onde o baixo e a bateria segurassem a música e a guitarra ficasse apenas fazendo algumas frasezinhas bem colocadas. Acho que dá pra perceber um climão parecido com “You Know You’re Right” no meio da nossa canção “Tudo o Que Eu Queria”.

Velvet Revolver“Let It Roll”
Com a entrada do Gui (Guitarrista) na banda o som ia mudar com absoluta certeza. As referências dele são muito mais rock and roll do que a dos antigos integrantes, que tinham como base o punk rock e o grunge. Depois de alguns ensaios o Gui falou “o que vocês acham de tirarmos ‘Let It Roll’ do Velvet Revolver?”; eu me assustei (parecia algo muito longe do que vínhamos tocando), mas respondi que por conhecer muito pouco de Velvet queria dar uma ouvida no som. Quando ouvi, pirei na hora. A música tem a pegada punk do Duff com os riffs e solos geniais do Slash. Let It Roll certamente define um pouco do estilo de som que a Bikini pretende seguir daqui pra frente.

Ultramen“Tubararãozinho”
Esse foi o primeiro som que a Bikini tocou com a nova formação e, hoje em dia, é o cover que eu mais gosto de tocar nos shows. A ideia foi do Lipe (baixista) e, mesmo que inusitada, entrou na cabeça da banda toda logo na primeira vez que tocamos ela. O riff de guitarra – presente em praticamente toda música – é muito rock and roll, mas lá pro meio da canção rola muito groove e mesmo com tanta mistura a música consegue ser um pop acessível para todo tipo de público. 

Titãs “Vossa Excelência”
Outro cover que temos tocado em quase todos os shows e, infelizmente, tem uma letra que condiz muito com o momento atual do nosso país. O Kelvin (baterista) sempre comenta, com toda razão, que essa música é uma aula de como a simplicidade pode ser genial.

Tequila Baby“Sexo HC”
Essa música tem toda a sacanagem que tanto gostamos de colocar nas nossas músicas. Além disso, a influência da Tequila Baby na Bikini Hunters é inegável, pois mesmo que cada integrante da banda tenha suas influências próprias, a Tequila é unanimidade por ter sido uma das primeiras bandas que todos nós ouvimos. 

Rolling Stones“Honky Tonk Women”
Estávamos bebendo ceva há uns dias atrás enquanto esse som rolava e começamos a discutir qual a melhor música dos Stones. Não conseguimos entrar em um consenso, mas, ok, foi uma discussão besta, afinal, os Stones são demais em todos os acordes e nós amamos eles! 

Forgotten Boys “Blá Blá Blá”
Mesmo com algumas mudanças de formações, o Forgotten sempre foi uma das principais, ou talvez, A PRINCIPAL, influência da banda. Acho que pela primeira vez estamos perto de fazer um som semelhante, do nosso jeito, claro, mas com esse lance de riffs pesados e bem marcantes.

AC/DC“The Jack”
É blues, é rock, é sensualidade, é AC/DC! Esse som faz a nossa cabeça em todos os sentidos e a gente jamais vai negar que curte um striptease (risos).

Acústicos e Valvulados “Sarjeta”
“…Eu quero a sarjeta, eu quero a sacanagem…o porre e a ressaca….o foda-se ligado”. Essa letra é muito Bikini Hunters! Abrimos alguns shows com essa música e teve uma galera que veio perguntar se era uma música nova nossa; até gostaríamos que fosse, mas é cover da Acústicos, banda que, para nós, está no seu melhor momento (mesmo com 26 anos de estrada). 

Green Day“Basket Case”
Um tanto quanto clichê, mas necessário. Boa parte da minha postura no palco é influência do Billie Joe. Acho ele um dos maiores frontmans da história da música! 

Beatles“Helter Skelter”
Os Beatles ajudaram a construir qualquer banda de rock! Difícil foi escolher só uma música deles, mas como amamos distorções e sujeira, “Helter Skelter” é a escolha perfeita, uma música que foge um pouco de tudo que o Beatles criou.

Foo Fighters“Walk”
A última música que estávamos criando para o próximo disco começa com um dedilhado e no meio das composições alguém comentou “Pow, tá lembrando um pouco a vibe de “Walk” do Foo Fighters, daria até para fazer uns acordes parecidos com o que eles utilizaram na base”;​ em outro caso também lembro que já rolou o pitaco “Pow essa batera tá muito reta, faz algo meio na vibe do Taylor do Foo Fighters”. Enfim, mesmo que não sejamos os maiores fãs, o Foo Fighters nos inspira de alguma forma.

Guns’N’Roses“Attitude”
Eu não sou muito ligado no Guns, mas o resto da banda são todos fãzaços, então, como já fui bastante fã de Misfits, eis a combinação perfeita, Guns fazendo um cover fodástico de Misfits. 

TNT“Me Dá o Cigarro”
TNT é tão clássico que passa dos limites de influência musical para uma forma de comunicação informal, afinal, durante todas as pausas dos ensaios da Bikini alguém cantarola “…me dá o cigarro, me dá o fogo…” (obviamente, pedindo um cigarro ou isqueiro emprestado).

Slash“Doctor Alibi”
Uma noite saímos (levemente desnorteados) de uma festa e viemos aqui pra minha casa assistir incessantemente (sério, assistimos umas 10 vezes seguidas e mais algumas vezes aleatórias entre uma música e outra) uma apresentação ao vivo dessa música. Acho que todos sentimos que essa é a linha de som que estamos buscando. Não tem muita frescura e é genial mesmo assim! Também não tinha como não ser uma canção pra lá de fodástica estando envolvidos o maior guitarrista da história do rock e a maior lenda do rock de todos os tempos.

Sublime With Rome“Take It Or Leave It”
Esse som tá sempre no pen drive do meu carro, então, volta e meia carregando amplis, baterias, guitarras ou coisas do tipo ele toca e a gente comenta “Putz, Sublime é foda né!? Olha que vibe gostosinha, baixo groovezadozudozaço, alta energia boa”. Então, de uma forma ou de outra ele faz parte de banda. Quem sabe a gente não lance um reggaezinho ou ska no próximo disco!? (Humm… pensando bem, é difícil (risos)).

Erasmo Carlos “Fama de Mau”
No fim das contas somos bons jovens! Até estamos tocando esse Erasmão para mostrar que no fundo é tudo marra, essa coisa de rock descarado e tudo mais, é só pra manter a nossa fama de mau (ou talvez não)…

Os retalhos de samplers de Liam Howlett chamado “The Dirtchamber Sessions” (1999)

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O Prodigy, filho querido de Liam Howlett, já foi assunto aqui no Crush em HiFi em 2016, quando mostramos como foi feita a música “Smack My Bitch Up”. Em 1999, Liam resolveu dar um tempo na banda e trilhou um caminho um pouco diferente em “The Dirtchamber Sessions Volume One”. Ainda trabalhando com muitos samples, dessa vez não houve uma deformação das músicas para produzir novas composições. A ideia era fazer uma colcha de retalhos, naquele estilão DJ, de colar uma música na outra. Cada colcha foi chamada de Session, e o álbum possui 8 Sessions.

A primeira Session termina com um sample do Chic, sobre o qual a gente também já escreveu aqui e aqui, mas vamos começar do começo.

O encarte do disco é bem direto e mostra o que você vai ter pelos próximos 42 minutos: uma mesinha de som de 8 canais, um sintetizador e muitos, muitos LPs, de todas as décadas. Sem se preocupar em limpar os plic-plocs do vinil, Liam passeia pela história do sample, através de uma pesquisa na qual ele acaba “cortando a própria carne para expor os ossos”, mostrando além daquele recorte de 5 segundos, que todo mundo conhece, mas que poucos sabem a origem. Um grande exemplo dessa exposição é, já na primeira faixa, ter “Give the Drummer Some”, do Ultramagnetic MC’s, origem do refrão “change my pitch up / smack my bitch up”, da música “Smack My Bitch Up”, um dos maiores hits do Prodigy. Antes disso, ele também brinca com “Different Strokes”, de gravada por Sly Johnson em 1967; “Apache”,  gravada em 1973 pela Incredible Bongo Band, e “Chemical Beats”, gravada em 1994 pelo Chemical Brothers, entre outras músicas das mais diferentes idades.

A segunda faixa, ou Session 2, já vem na cola mostrando o quanto Howlett sabe que sua criação é influente, até pra ele mesmo. Ao lado de “Bomb The Bass” e “Trouble Funk”, ele puxa do próprio Prodigy com “Poison”, do disco “Music for the Jilted Generation”, de 1994, para, logo em seguida, botar “Been Caught Stealing”, do Jane’s Addiction, uma das bandas que ganhou os holofotes na década de 90. Pra quem não sabe, Perry Farrell, vocalista do Jane’s, é o fundador e curador do festival Lollapalooza.

O restante do disco é tão diverso que daria uma bela dissertação de mestrado, ou até mesmo um livro, devido ao tratamento que tantas músicas históricas receberam. É “Babe Ruth” misturada com o já comentado Chemical Brothers, três faixas do Frankie Bones coladas com Meat Beat Manifesto e Public Enemy. A Session 5 fica entre Sex Pistols, Fatboy Slim e Medicine, banda da filha do Bruce Lee, Shannon, aquela que aparece tocando no “O Corvo”, estrelado por Brandon Lee.

Se você tem interesse na história da música, precisa fazer uma pesquisa de samples pra uma composição própria, ou simplesmente quer um monte de hinos compilados, esse disco é perfeito!

“The Dirtchamber Sessions Volume One” foi lançado em 1999. Não seria hora de um Volume Two, Liam?

Não é doença! O punk transexual, visceral e transgressor com Cláudia Wonder em “Meu Amigo Cláudia” (2009)

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Meu Amigo Cláudia

Ano de lançamento: 2009
Direção: Dácio Pinheiro
Duração: 1h27min
Gênero: Documentário

Marco Antônio Abrão, três nomes masculinos como nome de batismo. Mas na verdade um homem, uma mulher, um transexual performista. Filha de pais adolescentes e criada por seus tios-avôs, Cláudia Maravilha, rebatizada logo após de Cláudia Wonder, é parte da maravilhosa história oitentista paulistana e ganha aqui um relato honesto não só de sua trajetória, mas de toda uma geração.

Das primeiras aparições em revista surge o contato com cinema pornô, sendo o transexual como objeto de curiosidade. Surgem porém estereótipos de travestis todos em representações eróticas ou com finalidade de alivio cômico. Com o fim da ditadura e vindouro movimento pelas Diretas, vem as primeiras vitórias políticas, a principal sendo a mudança no Ministério da Saúde, quando o homossexual deixa de ser considerado uma pessoa doente (qualquer semelhança com atual momento não é mera coincidência)

Começa então uma guerra no Estado de São Paulo, quando a policia promoveu um massacre disfarçado de “limpeza”, uma verdadeira temporada de caça contra a comunidade LGBT. Milhares de travestis são assassinados. Em outro e talvez o pior momento na classe, o documentário não faz concessões quanto aos relatos de promiscuidade e desinformação sobre a AIDS. A propagação da doença no meio, vulgarmente conhecida como a peste- gay, lança artistas como Cláudia no isolamento: “Fiquei seis anos sozinha” ela relata em certo ponto. Vem então a contestação contra os ditos bons costumes. E a resposta mais uma vez está na música, no rock and roll.

Cláudia Wonder
Cláudia Wonder

A salvação vem no punk, na subversão. A redemocratização encontra o auge do rock brasileiro. Nas apresentações em casas noturnas cultuadas como Madame Satã, Cláudia Wonder reúne toda uma geração de punks, góticos, atores, jornalistas e intelectuais para beber da efervescência cultural promovida por shows memoráveis com o “Vômito do Mito” e o “Jardim das Delícias”, culminando na antológica apresentação do espetáculo teatral “O Homem e o Cavalo” censurado desde a década de 30.

Nostálgico e revelador assim como o artigo de mesmo nome de Caio Fernando Abreu, “Meu Amigo Cláudia” é também ao mesmo tempo triste e reflexivo ao constatarmos que o mesmo momento politico que higienizou essa classe artística, pondo fim a transgressão e lançando esses artistas no ostracismo dos anos 90 parece querer fazer o mesmo retrocesso agora com leis descabidas e fomentando músicas de apelo popular e de pouco questionamento (como o sertanejo parecer crescer desses momentos!). Repleto de entrevistas de figuras carimbadas como Kid Vinil e o dramaturgo José Celso e da própria Cláudia Wonder, esse documentário está cada vez mais atual e necessário.

Instrumental agressivo e protagonismo feminino formam o primeiro EP do duo cuiabano SixKicks

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A dupla cuiabana SixKicks, formada por Marjorie Jorie e Theo Charbel, lançou ontem seu EP de estreia, “You Should Sing In Portuguese Buy More Pedals And Play Lower”.

O EP traz um instrumental que passeia de forma agressiva pelos anos 90, indo do garage rock ao industrial, como se misturasse Nine Inch Nails, Le Tigre, Sonic Youth e My Bloody Valentine na mesma receita. Inclusive, a faixa Take Time tem acordes que lembram bastante Sonic Youth.

O EP de nome provocativo valoriza a parte instrumental, como fica claro em “Doom”, onde os vocais são deixados de lado para destacar ainda mais os instrumentos executados apenas pelas duas integrantes.

A faixa de abertura, “You Wanna Fuck Me”, é sensual dos os acordes até a letra que fala sobre sexo de maneira nada pudica. Toda a parte lírica do EP, apesar de simples e curta, soa como um reflexo do imaginário das autoras.
Entre guitarras, uma bateria muito bem executada e sintetizadores, “Forrock” homenageia a música tradicional cuiabana até na forma de composição lírica, que segue a mesma fórmula das músicas regionais de Cuiabá.

SixKicks representa muito bem o protagonismo feminino na música, apresentando um material onde mulheres executam desde as composições até a mixagem.

O EP “You Shoud Sing In Portuguese Buy More Pedals And Play Lower” foi lançado pelos selos PWR Records e Fofura Records, gravado no Estúdio Aurora Sounds por Alejandra Luciani e masterizado no Estúdio Us.

Distorção Criativa: Hüsker Dü – “New Day Rising” (1985)

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Husker Du - New Day Rising

 

Antes de mais nada gostaria de comentar como as coisas são estranhas e interligadas por uma energia inexplicável. Foi uma baita coincidência quando decidi aleatoriamente escrever esse texto, sendo que NO MESMO DIA eu fico sabendo que o baterista Grant Hart morreu. Que triste. Enfim, vamos ao que se pode.

Hüsker Dü é uma banda estranha, ao menos para mim. Aquela guitarra ardida, um som azedo e pulsante… Alguma coisa no tempero do trio faz a gente querer se aprofundar naquela atmosfera. Essa mistura de agressividade com ordem e uma dose cavalar de talento melódico fez a cabeça de muita gente na época e ainda hoje. Poucas vezes o hardcore atingiu essa maturidade estética.

Formado em Minneapolis, Estados Unidos, em 1979, o Hüsker Dü é Bob Mould (guitarrista e vocalista), Grant Hart (baterista e vocalista) e Greg Norton (baixista). Dois ótimos compositores apresentam propostas diferentes de estética, sendo Hart mais voltado para uma pegada pop e Mould com os pés na estética bruta do hardcore. Essa rivalidade por si só já é um aspecto fundamentalmente rico desse trio, embora isso e as drogas tenham posto um ponto final nessa história.

Mesmo quem não seja apegado ao punk, hardcore e suas vertentes reconhece facilmente no grupo uma unidade poderosa. Não à toa saiu daí inúmeros filhotes e influências indiretas: Dinosaur Jr., Mudhoney, Nirvana, Weezer, Pixies, Jesus and Mary Chain e a lista não acaba.

A banda foi construindo tijolo por tijolo uma reputação invejável no circuito das rádios universitárias e no cenário alternativo como um todo, sendo que no início os trabalhos eram mais sujos, com uma sonoridade mais voltada para bandas contemporâneas como Minor Treat e Black Flag, o que foi sendo refinado para um viés mais acessível – às vezes quase pop – ao longo da carreira. Muito disso se deve à influência das bandas psicodélicas de folk rock dos anos 1960, sobretudo Beatles e Byrds. Isso apareceu com muita força no Zen Arcade” (1984), LP duplo com uma impressionante personalidade, misturando punk com folk, pop e até mantra hindu. Há quem diga que este seja o trabalho mais contundente do Hüsker Dü, mas estou aqui para falar do seu sucessor, New Day Rising” (1985).

A tracklist é redonda, uma faixa melhor que a outra, um som de molecagem super maduro, se que isso faz algum sentido…. mas é esse o espírito da coisa. 15 músicas para ouvir no repeat. O trio sabia o que estava fazendo e sabiam do potencial daquelas composições. Harmonias bem estruturadas, dramaticidade e, na medida do possível, mais requinte nos pequenos detalhes. Isso faz toda a diferença. Por exemplo, em “Celebrated Summer” a banda intercala a sujeira com uma vibe mais romântica ao longo da música, e para isso se dá ao luxo de criar uma atmosfera mais intimista com um violão de 12 cordas. Parece pouca coisa, algo banal e batido, mas pense como isso deveria soar na época, naquele contexto. E como dá certo!

“I Apologize” é um como uma meta para toda banda que segue essa pegada. Uma combinação perfeita de refrão grudento, guitarra pulsante e harmonia vocal fácil de assimilar. Desacelera isso e você tem um power pop dos bons. “If I Told You” segue o mesmo espírito.

“The Girl Who Lives On Heaven Hill” está entre as melhores gravações da banda. E embora seja tão simples e direta, não saberia definir o que é exatamente aquele som. Ouça, apenas.

Em “Books About UFOs” eles até arriscam um piano. Aquela levada irrestível, que escutamos inúmeras vezes em músicas de sunshine pop, mas completamente recontextualizada ali. É aí que dá para perceber a importância de cada membro enquanto instrumentistas: o baixo de Norton, sempre intuitivo e melódico, conversa fácil com a bateria honesta de Grant Hart, e aí vem a guitarra de Mould, que tinge tudo de uma cor cítrica, como um spray. E ainda tem a ótima voz de Hart para embalar tudo. Hüsker Dü é a prova cabal de que não precisa inventar a roda para ser foda.

Em “Perfect Example” percebemos um quê de R.E.M., contemporâneos e colegas de estrada. Guitarras dobradas com violão também eram uma tendência no período. A faixa-título, “Watcha Drinkin” e “Plans I Make” carregam aquela persona da primeira fase do Hüsker Dü, estimuladas mais pela ferocidade, o que dá certo fôlego para o LP, tornando esse pacote todo capaz de agradar praticamente qualquer que curta um som com guitarras. Pelo menos uma das 15 faixas você vai gostar, é quase certo.

Hüsker Dü era uma banda prolífera e muito criativa, ainda faria mais alguns álbuns excelentes, cada vez mais extensos, como “Warehouse: Songs And Stories”, o último, de 1987.

Embora extremamente influentes, ainda falta muita gente saber do que isso se trata. Se você é uma dessas pessoas, comece por “New Day Rising”.

É uma pena que muitas bandas e artistas consigam aquele status de referência inabalável somente após a morte. Mas sim, livre de hype, desejo muito que as pessoas saibam o que foi essa banda e quem foi Bob Mould, Greg Norton e – que descanse em paz – Grant Hart. O tempo matura tudo. Temos aí uma das bandas mais importantes dos últimos 40 anos.

O lixo, a miséria e a violência: dez anos de “Botinada – A Origem do Punk no Brasil”

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Botinada

Botinada - A História do Punk no Brasil
Gênero: Documentário

Ano: 2006
Direção: Gastão Moreira

Em certo ponto do documentário “Botinada – A Origem do Punk No Brasil”, dirigido por Gastão Moreira, um dos entrevistados compara a época brutal das gangues punks à das torcidas organizadas de futebol. Se o contexto para a nova crescente de violência nos estádios é a crise econômica e o desemprego, nos final dos anos 70 era o descaso e a repressão militar. A diferença é que hoje, nada parece surgir da arte, em especial do rock, para nos retirar deste terrível torpor. Mas em 1982, o movimento punk havia mudado a cara do Brasil.

Repleto de entrevistas e imagens de época nos é apresentada a trajetória do punk no Brasil. Tendo sua origem em São Paulo, embora alguns creditem o berço ao estado de Brasília, o movimento tem inicio de forma curiosa, quase que torpe (com o punk realmente tinha de ser assim) com a influência do filme Warriors de 1979, os primeiros vinis de difícil acesso de Ramones e Sex Pistols e qualquer informação deturpada em imagens de revistas da época que ainda não entendiam direito o que era ser punk.

Lutando para se levantar sob o rock progressista e a MPB e sobreviver a febre da discoteca, o movimento ganha força no rádio através de programas de rádio capitaneados como o “Rock Special” de Marcelo Nova em Salvador e principalmente pelo saudoso Kid Vinil que aparece aqui como uns dos principais divulgadores do movimento em São Paulo. LPs se transformam em fitas K7 e logo surgem as primeiras bandas como Cólera, AI-5, Condutores de Cadáver e Inocentes.

Mostrando a origem humilde com a Banda do Lixo, sem deixar de lado momentos obscuros (a rivalidade brutal entre os punks do ABC e os de São Paulo) passando pela gravação de “Grito Suburbano”, primeiro registro oficial em vinil das bandas punks nacionais, até o auge do movimento e sua consequente derrocada com o festival “O Começo do Fim do Mundo” em 1982, “Botinada: A História do Punk no Brasil” é um excelente registro desse cenário caótico e maravilhoso da história do Rock no país.

Tracklist: FIDLAR — “FIDLAR” (2013)

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O LP de estreia da banda de garage e skate punk FIDLAR — sucessor dos EPs “DIYDUI” (2011), “Shit We Recorded In Our Bedroom” (2012) e “Don’t Try…” (2012) — integra facilmente as minhas listas de álbuns preferidos da década e de melhores álbuns de estreia da história. Em atividade desde 2009 e influenciados por nomes como Black Lips, Jay Reatard e Thee Oh Sees, o quarteto — formado por Zac Carper (voz, guitarra), Brandon Schwartzel (voz, baixo) e os irmãos Elvis (voz, guitarra) e Max Kuehn (bateria) — grava seus trabalhos em casa e faz parte de uma cena californiana mais recente, que engloba bandas como The Growlers e together PANGEA.

O interessantíssimo cenário da Califórnia — berço de clássicos do surf (Beach Boys, The Surfaris, The Lively Ones), terra de ícones do punk (Bad Religion, Minutemen, Dead Kennedys) e do hardcore old school (Descendents, Adolescents, os trabalhos de Keith Morris — que além de ter cantado no Black Flag, formou o Circle Jerks e integrou o supergrupo OFF!) e casa de antigas e novas figuras emblemáticas do garage punk (de The Mummies a Shannon And The Clams) — não poderia ser um contexto mais propício para a formação do FIDLAR, que incorpora elementos de todos esses gêneros.

Em 2003, durante a adolescência, Elvis e Max — que fazem música desde crianças e são filhos de ninguém menos do que Greg Kuehn (T.S.O.L., X) — criaram uma banda punk chamada The Diffs, que abriu para nomes como Agent Orange, The Adicts e The Germs. Elvis passou a estagiar na gravadora Kingsize Soundlabs, em Los Angeles, onde gravaram bandas como Wilco, The Vines e Jesus And Mary Chain e onde Zac Carper trabalhava como engenheiro de som. Zac, Elvis e Max formaram o FIDLAR (que antes se chamava “Fuck The Clock”) e Zac chamou Brandon para integrá-lo como baixista. Zac e Brandon eram melhores amigos e moraram juntos dentro de um carro velho em Silver Lake, bairro comercial no centro de Los Angeles, sob a miséria e o vício em cocaína.

“FIDLAR” é um álbum que tem as festas, as drogas e o skate como conceitos centrais. A princípio, eu achava que se tratava apenas de mais um bom álbum feito por um grupo de jovens irresponsáveis e zés-droguinha, mas ele ficou com uma carga consideravelmente mais pesada para mim depois que passei a pesquisar a fundo sobre a história da banda. Em 18 de março de 2013, pouco depois do lançamento do debut, Zac Carper recebeu uma ligação angustiante durante uma turnê que o FIDLAR estava fazendo com Wavves e Cheatahs pela América do Norte. Zac estava lutando contra o vício em heroína e descobriu por telefone que sua primeira namorada, grávida, sofreu um aborto espontâneo e faleceu após uma overdose — foi ele quem apresentou a heroína à garota.

O vício em drogas de Carper, que está sóbrio há mais de três anos, quase acabou com sua banda (e sua vida) múltiplas vezes. Zac fez uma tatuagem do mapa do Havaí, onde nasceu, para cobrir as marcas de agulha em seu antebraço esquerdo. Após a morte de sua namorada e de seu filho que sequer nascera, o vocalista e guitarrista tornou-se alcóolatra e passou a beber latas de cerveja e doses de vodka barata como café da manhã. A violenta imersão de Carper nas bebidas e narcóticos e suas múltiplas passagens em clínicas de reabilitação causou uma sensação de instabilidade entre ele e o resto da banda, que não tolerava mais ter que lidar com um junkie desafortunado como colega de trabalho — por mais que este fosse um grande amigo.

As coisas mudaram definitivamente quando o frontman — que, a essa altura, pensava em se matar todos os dias — recebeu uma outra ligação memorável, dessa vez do Billie Joe Armstrong (sim, o vocalista do Green Day), que é fã do FIDLAR e também passou por um histórico de dependência química. Billie, que por horas explicou a Zac sobre os benefícios da sobriedade (com base em sua própria vivência), foi a pessoa que o ajudou quando nenhuma outra estava ali para ajudá-lo, e o impediu de cometer suicídio ou de morrer de overdose no período que possivelmente foi a fase mais complexa e obscura de sua vida. Agora, Zac segue um estilo de vida consideravelmente mais saudável e aparece vestindo camisas com estampas do straight edge.

O (antes divertido) álbum homônimo do FIDLAR — expressão do skate californiano resultante do acrônimo para o mantra “Fuck It, Dog, Life’s A Risk” — ganhou para mim uma interpretação mais sombria após o conhecimento dessa sequência de infortúnios. Seja sob um viés feliz, seja sob um viés infeliz, “FIDLAR”, que saiu nos Estados Unidos pela Mom+Pop Records (Metric, Wavves, Courtney Barnnett), no Canadá pela Die Alone Records (Dune Rats, Cerebrail Ballzy, The Wytches) e no Reino Unido pela Wichita Recordings (Best Coast, Cloud Nothings, Girlpool) continua sendo um dos meus álbuns preferidos dos últimos cinco anos. São 14 músicas autorais (fora “Cheap Cocaine”, uma faixa escondida no final de “Cocaine”, e as faixas bônus “Shitty Jobz” e “I’m Going Nowhere”, que foram lançadas no Japão) sobre viver inconsequentemente, e cada uma delas é um belo soco na cara. “Too” (2015), segundo álbum da banda, além de ser sonoramente diferente do primeiro, é quase que conceitualmente oposto ao mesmo — faixas como “Stupid Decisions” e “Bad Habits” agora demonstram uma maior carga de preocupação e arrependimento (e uma menor carga de diversão) relativa ao vício em drogas.

1. “Cheap Beer”
“Cheap Beer” foi uma excelente escolha para a faixa que dá início ao álbum. Talvez eu trocasse por “White On White”, mas ainda assim, achei uma excelente escolha. “Cheap Beer” lembra muito a clássica “Police Truck” e, na minha opinião, é a melhor performance de Zac Carper do álbum. A música fala sobre se embriagar, usar drogas e se divertir com seus amigos em corridas de carro. Pra quem gosta de Dead Kennedys, Circle Jerks e Gang Green.

2. “Stoked And Broke”
“Stoked And Broke” é uma faixa sobre fazer o que você quer sem se arrepender ou se importar com a opinião dos outros. De construção simples, as estrofes da música são intercaladas por solos curtos de guitarra feitos por Elvis. Pra quem gosta de The Hives, The Vines e Ty Segall.

3. “White On White”
“White On White” é sobre estar desempregado e desabrigado e ser obrigado a servir ao exército militar. É uma música extremamente dinâmica e de construção impecável, principalmente em relação às linhas de guitarra. Para
mim, é bem difícil escolher a melhor faixa do álbum, mas essa talvez seja a minha preferida. Pra quem gosta de punk e hardcore dos anos 80 em geral.

4. “No Waves”
Uma das faixas mais populares de “FIDLAR”, “No Waves” foi lançada no EP “Don’t Try…” e regravada para o LP. Apesar de soar agitada e feliz, a música já dá indícios da depressão e dos problemas com drogas de Zac Carper. O eu-lírico não consegue mais surfar, está cansado do skate — que enxergava como uma atividade paralela ao surfe — e se sente fraco, entediado e impotente. Ele está em reabilitação e acredita que está estragando a sua vida com o excesso de bebida e de drogas. Pra quem gosta de Nobunny, Black Lips e The Orwells.

5. “Whore”
“Whore” é uma música sobre beber em casa, sozinho e em situação de vulnerabilidade após uma traição. Essa talvez seja a música mais consistente do álbum, construída por cima de linhas sólidas de guitarra base e bateria. Pra quem gosta de Thee Oh Sees e garage rock do início dos anos 2000.

6. “Max Can’t Surf”
Originalmente lançada no EP “DIYDUI”, “Max Can’t Surf” é uma música bem-humorada sobre o baterista da banda e foi regravada para “FIDLAR”. A faixa mais surf punk do álbum, para quem gosta de Wavves e Best Coast.

7. “Blackout Stout”
“Blackout Stout” é uma das minhas preferidas. Foi lançada no EP “Don’t Try…”e é outra música que já demonstra alguns sinais de angústia e desconforto em relação ao uso excessivo de drogas. A faixa fala sobre sentir-se perdido e sem rumo e acordar no carro de um traficante. Soa muito como “Southern Comfort”, dos Orwells e é indicada para quem gosta, obviamente, de The Orwells.

8. “Wake Bake Skate”
Lançada no EP “DIYDUI”, “Wake Bake Skate” é mais uma música sobre se drogar sem restrições, andar de skate e sentir que a sua vida está uma verdadeira bagunça. É uma faixa bem animada e divertida, em que a banda soa muito integrada. Para quem gosta de Wavves, Bass Drum Of Death e garage punk em geral.

9. “Gimme Something”
“Gimme Something”, que antes de ser lançada oficialmente, se chamava “Bummed”, conta a história de um desempregado viciado em drogas que vive no fundo de um caminhão. A faixa tem timbres mais acústicos e, a partir dela, o álbum passa a ter uma pegada mais leve, lenta e descontraída. Para quem gosta de country, rock ‘n roll e música tradicional americana em geral.

10. “5 To 9”
“5 to 9” é uma música sobre não ter carro ou dinheiro e beber e se drogar com os amigos — acho que, a essa altura, vocês já entenderam que “FIDLAR” é um álbum meio monotemático. É uma faixa que dura um minuto, mas que se fosse mais longa, talvez não fizesse muito sentido. Mais uma para quem gosta de Ty Segall, Black Lips e The Orwells.

11. “LDA”
“LDA” — sigla para “Legal Drinking Age”, ou “Idade Legal Para Beber” — é uma música sobre completar 21 anos (nos Estados Unidos, essa é a idade permissiva para o uso de bebida alcóolica) e não mais precisar de uma identidade falsa. É uma história real sobre um amigo de Elvis e Max que entregou a Elvis — que é o vocalista nessa música — sua identidade falsa quando completou 21 anos. Para quem gosta de rock ‘n roll e música tradicional americana em geral.

12. “Paycheck”
O eu-lírico de “Paycheck” está de ressaca, estirado no chão de uma casa vazia, e se drogou tanto que não sabe se vendeu ou doou sua TV. A faixa tem bases instrumentais mais densas e parece ter influências de grunge e stoner rock. Para quem gosta de Nirvana e Queens Of the Stone Age.

13. “Wait For The Man”
“Wait For The Man” é uma música sobre fazer a ponte entre um jovem e um traficante, originalmente lançada no EP “DIYDUI”. Soa como o trabalho de bandas mais clássicas como Ramones e Dead Kennedys por conta das bases
simples, mas também carrega marcas de bandas de garage punk mais novas. Para quem gosta de punk em geral.

14. “Cocaine”
“Cocaine” é uma música sobre vício em cocaína e faz referência às canções “Cocaine”, de Jackson Browne, e “Cocaine Blues”, originalmente escrita nos anos 40 por T. J. & Red Arnall e interpretada por nomes como Bob Dylan, Johnny Cash e Keith Richards. Semelhante à “Paycheck”, a faixa tem uma construção mais pesada e densa do que o restante do disco e é indicada para quem gosta de stoner rock e rock ‘n roll. “Cheap Cocaine”, faixa escondida no final de “Cocaine”, conta a história de quando Zac Carper morou dentro de seu carro.

Ouça o disco completo:

Pata traz em seu EP a essência do riot grrrl de forma “Wild And Cabeluda”

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EP Wild And Cabeluda

Tive uma boa surpresa nesta semana quando escutei o EP da Pata, banda mineira de Belo Horizonte que eu ainda não conhecia. Me lembrou os tempos áureos do riot grrrl. Chega a dar nostalgia. Me dá um sentimento muito bom ao ver bandas nacionais com mulheres reacendendo essa chama.

A vocalista e guitarrista Lúcia Volcano é musicista e isso fica claro na qualidade do disco, na excelente técnica vocal, no instrumental, nas referências que a banda mostra e em cada detalhe do EP “Wild And Cabeluda”, que foi produzido por Renan Fontes, pela própria Lúcia e mixado por Robson Garcia.

Destaque tanto para o nome da banda quanto do álbum que são agressivos e escrachados como deve ser, já mostrando a proposta da banda logo de cara. O nome Pata vem do termo “pata de camelo”, que de acordo com a banda tem a intenção de representar resistência e promover a liberdade das mulheres em suas diversas formas.

A ilustração genial da capa foi feita pela artista Marcela Yoko e o design por Rodrigo SantanaA sonoridade é uma mistura de grunge e punk rock, com bastante influência do rock dos anos 90, tem um toque de Veruca Salt, 7 Year Bitch, L7, Bikini Kill e Hole. A voz de Lúcia alcança tons incríveis e diferentes em cada música, sempre com muito sentimento, em alguns momentos é rouco e agressivo, chegando a se assemelhar ao timbre das maravilhosas Brody Dalle e Courtney LoveMuitas bandas do grunge e do punk rock esquecem que é importante colocar qualidade técnica e musical no que fazem, o Do It Yourself pode ser bem feito e o Pata está aí pra provar.

As letras são outro ponto muito interessante, falam de conflitos, tristeza e decadência, totalmente coerente com a proposta e refletem uma realidade conflituosa de uma geração nascida entre os anos 80 e 90. A faixa Adulthood é mais suave, inclui novos instrumentos e um vocal mais sutil, fala sobre a vida adulta com um realismo seco e merece ser escutada com uma boa bebida alcoólica ao lado. O baixo de Luis Friche também se destaca principalmente nas faixas “Boy” e “Monster”.

Ainda quero ver a banda ao vivo para sentir se a mesma energia e entrega que estão EP acontecem no palco. Nessa semana, dia 15 de setembro, o Pata faz um show de lançamento do “Wild And Cabeluda” em Belo Horizonte na Casa do Jornalista. Link do evento: https://www.facebook.com/events/345082805938780

O EP está completamente disponibilizado no Spotify e no Bandcamp:

Para quem quiser conhecer mais a Pata, também tem a página do Facebook e o canal no Youtube:
www.facebook.com/patamusic
www.youtube.com/channel/UC89bZltaFgpwc8oVHHdoOqQ

Lúcia Volcano, vocalista, guitarrista e compositora da Pata