Sem grandes hits, The Shins faz disco belo e coeso, “Heartworms”

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The Shins
The Shins

Poptopia!, por Daniel Feltrin

O The Shins nunca foi uma banda mainstream, mas dentro do universo indie sempre foram conhecidos por emplacar canções que são hinos do rock alternativo dos anos 00. Mesmo o irregular “Port of Morrow” nos deu “Simple Song” e “It’s Only Life”, que são canções que a gente canta fácil no chuveiro.

Com seu estilo de refrões cativantes e dinâmicas criativas, as composições de James Mercer conquistaram o público que nascia do fortalecimento da cena alternativa com petardos como “Caring is Creepy”, “New Slang” e “Australia”.

Quem não lembra do personagem de Natalie Portman no filme “Hora de Voltar” (“Garden State”, de 2004) apresentando a banda a Andrew (personagem de Zach Braff, o J.D. de “Scrubs”, também diretor do filme) que está se livrando do efeito do uso de lithium por anos? A imagem é emblemática da música indie da época, e The Shins é seu porta-voz.

Nos últimos anos a banda vem sofrendo mudanças de formação que influenciaram no som dos últimos discos. James Mercer basicamente demitiu todos os membros originais tendo em mente um conceito de banda-de-um-homem-só como alguns ícones dos anos 90 tipo Neutral Milk Hotel.

Mercer entrou numa cruzada para se reencontrar e foi reformulando o Shins de forma a lançar um disco que demonstrava maturidade, mas não a mesma força que os três primeiros discos anteriores. O já citado “Port of Morrow”, apesar de bom, ficava aquém do potencial do Shins.

No entanto, Mercer redescobriu o poder da colaboração nos dois discos que fez junto com o Danger Mouse. Com a sonoridade mais eletrônica e músicas que exploravam a bela tessitura vocal do músico de Portland, o Broken Bells produziu dois belos discos enquanto o Shins readquiria seu status de banda.

“Heartworms”, lançado na última sexta-feira, traz algo que faltou demais a “Port of Morrow”: coesão. Mercer consegue manter toda a maturidade de seu som enquanto resgata o melhor do Shins e encorpora novos elementos que tem muito da influência de seus projetos paralelos. A belíssima canção título é a prova dessa versatilidade, desfilando uma das melhores melodias da banda e um arranjo complexo como só o The Shins é capaz de entregar.
Os arranjos também são o ponto forte de “Heartworms”. O Shins sempre foi conhecido pelo instrumental “progressivo” de suas canções, sempre preferindo batidas mais frenéticas com guitarras dinâmicas, com muitas notas, enquanto a sustentação da canção sempre apoiada nos teclados extrapolados e na melodia cativante que dava o tom melancólico e feliz da banda. Este disco resgata essa sonoridade, principalmente pela evolução dos novos integrantes como banda.

No entanto, o disco não mostra nenhuma canção que destoe das outras e se torne um hit cativante como “Simple Song” foi no disco anterior. Talvez a canção que mais se aproxime disso é “Name for You”, que lembra na sua produção, letra e melodia as canções do longínquo primeiro disco da banda, “Oh Inverted World”.

Não ter um hit, porém, não é um defeito de “Heartworms”, mas sim uma característica da coesão do disco como um todo. Fica impossível ouvir só uma parte do disco. Da carismática “Name for You” à barroca “Mildenhall”, da frenética “Dead Alive” à dramática “The Fear”, esse é o disco mais azeitado e coeso da banda em anos e uma experiência que merece os 40 minutos de audição.

“Heartworms” talvez não seja lembrado como o melhor disco da banda, mas com certeza é um disco que consolida uma nova direção na sonoridade da banda que mostra amadurecimento e um renovado vigor para o futuro.

Disco: The Shins, “Heartworms” (2017)
Nota: 3,5/5

O Grandaddy está de volta do hiato (e valeu cada minuto)

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Poptopia! por Daniel Feltrin

Depois de onze anos longe dos estúdios, a emblemática banda de indie rock Grandaddy está de volta com “Last Place”, um disco de inéditas que retoma a pegada da banda cheia de melodias sonhadoras e batidas punk orquestradas na voz sussurrante de Jason Lytle e de seus famigerados teclados.

Grandaddy que sempre foi uma banda que prezou pelo afastamento do mainstream, volta de um hiato causado pela dificuldade financeira de se manter aos seus princípios e pela personalidade do vocalista. Lytle, que afirmou sempre ter se considerado um solitário com dificuldade de adaptação e pertencimento, havia lançado os ótimos solos “Yours Truly, The Commuter” e “Dept. of Disappearance”, sempre expressou nas letras sua dificuldade de se relacionar e seus problemas com drogas, o que não é diferente em “Last Place”.

A alegre “I Don’t Wanna Live Here Anymore” e a melancólica balada de piano “This is the Part” sugerem esta inadequação em meio a registro opostos que definem o som amargodoce das composições de Lytle. A Lost Machine é outra canção que discute relacionamentos e a complexidade da adaptação a eles, mas sob o viés da metáfora da tecnologia, outro tema muito recorrente na carreira do Grandaddy.
Falando em tecnologia (e em metáfora), a sonhadora “Jed the 4th” possui a frase “this is just a metaphor” trespassada pelo efeito robótico na voz de Lytle distorcendo tudo como se nos retirasse abruptamente da posição de conforto que o estilo bem formado da banda produz, nos jogando na cara a consciência de que estamos num disco de música que é um deslocamento afetivo, como numa metáfora.
“Jed” mesmo, que funciona como um hino a mais um grande personagem da banda, remete a essa figura sulista refletida no som californiano que fazem e a continuação de uma linhagem é a metáfora perfeita para o que Grandaddy busca com “Last Place”.

Quando no ano passado a banda lançou duas músicas inéditas, inclusive a faixa que abre o disco “Way We Won’t”, parecia tomar um direcionamento mais pop, no entanto, com o lançamento do disco o que vemos é um apanhado do melhor que o Grandaddy já produziu.
Canções como “The Boat is in the Barn” e “Evermore” trazem uma sonoridade distorcida e mais desafiadora. “Oh She Deleter” e “Check In Jin” a vibe punk das origens da banda. Entre batidas e pop e baladas espaciais “Last Place” é, no fim, o resultado de duas forças conflitantes: o poder acachapante das melodias pops e o magnetismo conflitante das canções que vão desafiando esta ordem.

Ao abrir com “Way We Won’t”, com um refrão cativante, seguir com “Evermore” distorcendo tudo, continuar diminuindo o tom alegre do disco, passando pelo trio de baladas “That’s What You Get From Getting Out of Bed”/“This is the 4th”/“A Lost Machine” (com o breve interlúdio de “Jed, the 4rth”), e finalizando com “Songbird Son”, o álbum percorre com beleza rara hoje em dia uma gama de poder musical que só poderíamos esperar de Jason Lytle e cia. Altamente recomendável.

Kurt Cobain, 50 Anos de Música (Uma Eulogia)

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Kurt Cobain

Poptopia!, por Daniel Feltrin

Poptopia
Morre uma lenda.

Há exatos 50 anos nascia Kurt Donald Cobain na cidade de Aberdeen, Washington, no noroeste americano. Kurt cresceria nos arredores de Seattle para se tornar um dos expoentes do chamado Seattle Sound, também conhecido como grunge. Há menos de 23 anos, em 5 de abril de 1994, o frontman do Nirvana era encontrado sem vida em sua casa num bairro de Seattle. Morto aos 27 anos de idade, Cobain acabou se tornando uma das últimas lendas do rock.
A morte de Cobain, assim como sua vida, se traduz não só pela brusquidão da brevidade, mas sim pela longevidade do seu impacto. Uma época em que o rock cresceu se desenvolveu e morreu.

O grunge, encabeçado pelo Nirvana de Kurt foi uma retomada do hard rock dos anos 70, dos cabelos compridos e da filosofia humanista oprimida na violência das suas letras e raiva de suas guitarras. A banda de Seattle, com as letras amargas, muitas vezes sem sentido e o instrumental mais simplista beirando o punk rock denotavam uma espécie de deboche à tudo que o rock criou e exauriu.

Fede a espírito adolescente.

Exemplo de contracultura desde seu início nos anos 50, o rock tinha se tornado justamente o contrário do que pregava. Um estilo formatado e representante do status quo no final dos anos 80. O hard rock e o metal não traziam nada de novo e o punk dependia muito da cena política conservadora que já vinha soltando as amarras com a decadência das Thatchers e Reagans.

Nesse contexto, o grunge floresceu nas partes mais frias da América e com o Nirvana explodiu mundialmente. O já citado deboche e as canções com refrões nervosos e contagiantes conquistaram o público de uma forma inesperada. O sucesso foi imediato. O clipe de “Smells Like Teen Spirit” começou a passar continuamente na MTV e de um dia para o outro todo mundo conhecia o Nirvana e o grunge com seu estilo icônico de calças jeans rasgadas no joelho e camisas flanela.

Essa talvez tenha sido a perdição de Cobain, pois, nunca soube lidar com o status de celebridade e as exigências impostas pela viciada indústria musical inflada da indústria da qual fazia parte agora. O peso da sua própria persona o esmagava e seu vício em heroína, que usava para fugir de si mesmo, aumentava.

Muito se tenta explicar sua personalidade conturbada. Há documentários (entre os mais famosos o recente “Montage of Heck” e o clássico “Kurt & Courtney”) e biografias (a mais famosa “Heavier Than Heaven”), pois é claro que o sucesso e atenção teve um peso enorme na saúde mental do músico. Mas é sempre visível uma dualidade de trevas e luz na vida de Kurt.

Luz e Trevas

O ano de 1967 foi marcado como o ano da psicodelia na música. No lado iluminado da força “Sgt Peppers” dos Beatles. No lado negro da força, “Piper at the Gates of Dawn” do Pink Floyd. O mundo precisava dizer algo através da quebra de convenções, da liberdade da imaginação e do uso do rock e das drogas. Seja pelo lado otimista e inspirado da melhor fase de Paul McCartney ou pela já decadente genialidade de Syd Barrett, a contracultura que bateria forte no mundo no ano seguinte já se levantava pela voz jovem da cultura pop.

Essa dualidade é traduzida perfeitamente no primeiro disco de um cantor que se lançaria ao mundo nesse mesmo ano de 1967. David Bowie que, apenas três anos depois, lançaria um dos discos que mudariam a vida de Cobain exibindo suas longas madeixas da capa de “The Man Who Sold the World” cuja canção título seria gravada e imortalizada por Kurt no acústico do Nirvana em 1993.

A ambiguidade de Bowie sempre foi reconhecida na própria ambiguidade de Kurt. Pessoa gentil e que possuía tanto amor e compreensão do mundo ao mesmo tempo em que essa vontade enorme de abraçar o mundo o levou a autodestruição antes mesmo da fama.

Bowie seria o exemplo de artista perfeito para Kurt, decisivo e de personalidade forte, o cantor inglês demonstra sem medo toda a gama de criatividade refletida na sua ambiguidade sexual, musical e artística.

Há o mesmo tour de force criativo na personalidade de Cobain. Uma mistura de luz e trevas através do viés potente da música pop e distorcida do rock. De certa forma, Cobain é uma espécie de Bowie do fim dos tempos, com a mesma verve pela inquietude artística, mas oprimido pela sua própria limitação auto-sabotadora.

Terminal

Em 5 de abril de 1994 para muitos morreu o rock com Kurt. O grunge teve todo o seu poder, pois evocava tudo aquilo que o rock tinha sido até então num movimento poderoso, mas fadado ao fim. Estava tudo ali: punk, metal, progressivo, pop, gótico, folk, indie, etc. Como numa convulsão o grunge explodiu para o mundo e rapidamente esvaneceu após a morte de Cobain. Como o próprio diz em sua carta de despedida: “É melhor queimar do que desaparecer”.

O grunge explodiu com o Nirvana e morreu com ele, mas o que morreu de fato foi o rock no mainstream. O rock como estilo de massas, como grande lotador de estádios. Das cinzas restaram as bases mais fundadas com o rock alternativo que por si só é a contracultura em essência. As bandas que influenciaram Kurt como Sonic Youth, Pixies e Meat Puppets solidificaram-se ainda mais como representantes do que rock significava de verdade, e delas todo um conceito de música alternativa e independente (o famigerado indie) se consolidou e cresceu de forma multifacetada.
Seria muito fácil terminar esta eulogia reforçando a imagem de mártir de Kurt Cobain, porém, dificilmente essa seria sua vontade. Não consigo imaginar um Kurt de 50 anos se preocupando com mártires e ícones que são utilizados como capital ao vender uma imagem estacionária e irreal dos músicos que representam. Prefiro pensar num jovem senhor cuja vontade de se reinventar permaneceria, mesmo depois de crises e crises, assim como a contracultura que se fortalecia quando ele nasceu.

Prefiro celebrar os 50 anos de Kurt celebrando a contracultura de qual ele fez parte e se criou, celebrando 50 anos de música que fez de Cobain um dos maiores artistas dos nossos tempos.