O som do Fita reinventa as trilhas sonoras dos anos 80 com um pé no futuro

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Fita

Quando o filme “Drive”, com Ryan Gosling, foi lançado, todo mundo ficou impressionado com a trilha sonora oitentista de Cliff Martinez, ex-guitarrista dos Red Hot Chili Peppers. Uma das pessoas que ficou de boca aberta com o som do filme foi André Luiz Souza Silva, que a usou como influência para o projeto Fita. No EP “Stick The Crazy” mostra um pouco das músicas eletronicamente roqueiras e trilhas sonoras instrumentais do projeto, que tem influências de Justice, Daft Punk, New Order e m83. Isso não significa que o Fita vá ficar apenas nos anos 80: “O Fita nasceu da vontade e necessidade de compor, criar e tocar da maneira mais independente possível. O único método de composição e estilo é a liberdade de não ter rótulo e nem opiniões divergentes”, conta. “Posso fazer musicas instrumentais, canções, trilhas, barulho… eu decido”.

– Como surgiu o projeto Fita?

Ano passado a banda que eu tocava acabou, aí peguei bode de banda. Não tava afim de cantar, mais criar letras e tal. Mas queria compor, fazer umas músicas diferentes… Aí pensei em fazer umas músicas sozinho mesmo e comecei a pensar em como tocar ao vivo sozinho. Peguei umas músicas que eu já tinha e não dava pra usar na banda e comecei a fazer a parada. Tava de saco cheio da dinâmica de banda: ensaio, tretas, dificuldade pra marcar show e casar as agendas…

– Então esse projeto foi meio que uma válvula de escape de tudo o que a banda trazia e você não queria mais.

Sim. Foi uma terapia. Agora eu sei q eu tenho q fazer tudo do meu jeito e assim eu fico mais satisfeito. Faço tudo no meu tempo e dentro das minhas prioridades.

– E porque o nome “Fita”?

Putz! Dar um nome é um lance muito difícil. Achei que Fita seria legal, pode ser uma gíria que muita gente usa e pode ser fita cassete, fita VHS, fita de videogame, cartucho. Coisas velhas. Eu gosto de coisas velhas. E ainda dava pra fazer as fitas K7 do meu trampo, Aí fica esse trocadilho infame de fita do Fita (risos).

Fita

– Sim, a capa do EP ficou sensacional, me levou direto de volta pra frente do aparelho de VHS do meu vô lá em 1992!

(Risos) Da hora! Eu que fiz. Fiquei horas procurando uma imagem legal de alguma capa de VHS. Aí procurei uma fonte q lembrasse um pouco o logo da SEGA… (Risos) E Fita tá sendo legal por isso. Eu controlo tudo o que dá.
Tento fazer o máximo de coisas por conta própria. Tem coisas que ficam toscas, mas faz parte (risos). As fitas eu gravo em casa. Comprei um duplo deck quebrado por 70 reais, arrumei ele e gravo em casa as fitinhas. Tipo gravar Mtv das antigas em VHS, ou disco em cassete. Sempre rolou esse lance de fita K7 em casa. Meu pai tinha uma coleção da hora. Várias coleções com as capas feitas à mão… Hoje é só fazer uma playlist no Spotify e já era.

– E você gosta desse novo formato de hoje em dia, em que a mídia física ficou obsoleta?

Eu gosto, é muito prático, a qualidade é boa. Eu não tenho paciência, por exemplo, com iTunes. Nem sei onde tá meu iPod! Nunca mais vou ficar sincronizando milhares de músicas. Por outro lado, nem tudo tá no Spotify, nem tudo tá na Netflix, nem tudo tá online… Mídia física é pra quem gosta mesmo, quer garimpar, quer ter uma experiência diferente.

– Voltando ao disco: me fala um pouco mais das músicas que estão nele. Elas têm uma pegada mais oitentista…

Sim. Culpa da trilha sonora do “Drive”. Quando eu vi o filme senti que aquelas músicas eram muito mais a minha vibe do que o que eu tava fazendo. As músicas da trilha não são 80, mas são influenciadas pelos anos 80. New romamtic, synth pop… Você pega os caras da trilha, Kavinsky com a Lovefoxxx… New retro wave e electro
(Risos). College… É muito trilha de filme anos 80. E aí junta a vontade de criar uns sons, tipo Justice e Daft Punk, New Order antes de Ibiza.

– Eu ia perguntas quem influenciou você pra esse disco, mas acho que você já respondeu… Ou será que não?

Isso tudo mais m83 e acho que só. Eu tenho ouvido muito electro, acho que de 10 em 10 vem umas nostalgia (risos).

– Você acha que hoje em dia muito do som que é apresentado na cena independente remete à nostalgia, seja voluntaria ou involuntariamente?

Sim! Acho que sim, de certa forma. Mas acho que faz parte do processo criativo normal. Pegar uma coisa que você gosta, criar em cima disso tentando deixar a sua assinatura. Nem digo que tudo é nostalgia, mas é repertório, gosto pessoal. Daqui 20 anos vai ter gente que vai querer fazer um funk roots estilo Furacão 2000, e vai falar que naquela época é que era da hora (risos). Doideira. Galera era autêntica e tal. (Risos) Acho normal, dificil é criar uma coisa totalmente nova, ou que pareça diferente de tudo.

Fita

– E você tá fazendo shows com o projeto Fita? Sozinho?

Sim, fiz uns 4. Aí eu toco e chamo a Cintia do In Venus e a Adriana do HungryGilli pra cantar. Aliás, preciso pensar num formato melhor e maior de show,  porque os que eu fiz até agora foram curtos, tipo pocket show. Minha ideia é começar a testar as musicas do disco full e colocar uns covers pra aumentar o set.

– Que tipo de cover cê pretende colocar?

Alguma do Chromatics, New Order, fazer alguma versão inusitada, sei não.

– E quais são os planos para esse álbum completo?

Vão entrar as 4 do EP, com mais 6 numa ordem diferente. Vão ter umas músicas instrumentais mais tranquilas, mas pauladas e uma esquisitice ou outra.

– Aliás, você falou do “Drive”… O EP lembra uma trilha sonora, mesmo. Você pensa em algum enredo quando compõe as músicas?

Em algumas delas sim, cara. Outras são só piração. Tem música que eu já faço pensando num filme, num curta, num clipe. A ideia do disco vai ser criar uma história entrelaçando todas as músicas. Não se se vai dar certo
Ate lá eu invento algo convincente (risos).

– Ou seja: se alguém se interessar em criar um curta pra acompanhar os sons, é só falar com você?

Claro! (Risos) Outra coisa que impulsionou o Fita foi o lance da minha mulher sempre dizer que as minhas músicas instrumentais eram bem melhores do que as canções. Aí falei “porra, vou fazer um disco instrumental!”. As duas canções do EP são puro.acidente. Uma letra eu tinha e queria usar, e achei q casava direitinho com o estilo da Cintia. A outra tava pronta e ai o produtor falou “Coloca uma letra nessa música”, aí chamei a mulher dele pra escrever e cantar e rolou. Música pra tocar na novela (risos). Tocar em filme. “Drive 2”.

– E finalmente: recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Cara, sem dúvida nenhuma o In Venus, Sky Down… Gosto muito de uma banda instrumental que chama Shröeder, os caras são de São Paulo, uma música pirada. Gosto de Bode Preto, de Teresina. É death metal! Gosto da Muff Burn Grace do ABC. Tem uma porrada de banda do role que são legais, mas tão meio paradonas: Blear, Moita… Essa banda de mina é foda, porrada mesmo. Punkzão foda!

Construindo Pássaro Vadio: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Pássaro Vadio

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o Pássaro Vadio, que lançou seu disco de estréia, Caosmos, no inicio de junho pelo selo Take One Records.

Ryuichi Sakamoto“1919”
O minimalismo dela nos leva pra um labirinto em que não conseguimos achar a saída – escutamos vozes que somos incapazes de entender e depois surge o cello dissonante do Jaques Morelembaum que chega até o fundo do nosso estômago.

Brian Wilson“Surf´s Up”
Uma das forças criativas do universo pop. Harmonias emotivas e ao mesmo tempo particulares, que ainda nos momentos mais abertos carregam uma melancolia e um sorriso amarelo.

Zé Miguel Wisnik“Anoitecer”
Poema incrível na mesma medida que denso do Drummond musicado genialmente pelo Zé Miguel Wisnik – as imagens que evidenciam transformações do Brasil urbano e rural – a massificação, exaustão e medo pairando sobre o asfalto da metrópole vistos com uma intimidade incômoda e familiar.

Flying Lotus“Zodiac Shit”
A ancestralidade virtual dessa track me bateu forte quando ouvi pela primeira vez. Flying Lotus é ótimo em ultrapassar eventuais engessamentos da produção pop contemporânea.

Thee oh Sees“Web”
Começa com a tensão de guitarras que parecem te colocar na mesma sala dos amplificadores. Os vocais dobrados e sussurrados deixam ela nesse limiar entre lisergia sessentista e psicodelia virtual.

Captain Beefheart“Autumns Child”
O vocal rasgado, de garganta, e a entrega de Don Van Vliet – com uma ponta de deboche – nesse soul de “Safe As Milk”, tem uma letra que poderiam chamar de non sense, mas que me pega em algum lugar que eu mesmo desconheço – como se eu já tivesse visto essas cenas antes.

King Gizzard“The River”
As inúmeras voltas que levam ao mesmo núcleo central da música, a estranheza da harmonia vocal, a levada jazzista junto do respiro da música australiana contemporânea foram alguns dos motivos pra ouvir “The River” várias vezes.

Elizete Cardoso“Vida Bela”
Canção abaionada dessa incrível cantora, com arranjos de sopros, cordas que dão profundidade ao vocal e sua melancolia.

Antonio Carlos Jobim“God and the Devil in the Land of Sun”
Tom Jobim e sua capacidade de fundir elementos com total naturalidade – e ultrapassar qualquer chancela do ‘conceitual’.

Fela Kuti“Teacher Don’t Teach Me Nonsense”
Ouço Fela Kuti e lembro do Alê Siqueira, produtor do nosso disco, usando o próprio peito de tambor na técnica do estúdio captando possibilidades percussivas para canções como “Mar de Aral” e “Living Fast”. Além do super título “Teacher Don’t Teach Me Nonsense”, ela tem esse clima ao vivo, de primeiro take e improviso que também está na essência das gravações de “Caosmos”.

Nicolas Jaar“No”
“Ya dijimos No, pero el Si está en todo, todo lo que hay”. A cumbia milenial com esse refrão instigante é uma das grandes músicas do “Sirens”, último disco do Nicolar Jaar – trabalho imersivo e pessoal sem perder o pop de vista.

Can“I’m so Green”
Há uns anos um amigo me mandou “Vitamin C” pra escutar. Acabei ouvindo inúmeras outras vezes o “Ege Bamyasi” – a singularidade ao mesmo tempo simples, confessional e – não sei por que me dá um bode de falar – mas vanguardista da Can fizeram com que eu ouvisse esse disco durante muitas insônias.

Damon Albarn“Everyday Robots”
Música (e disco) que sabem usar muito bem a simplicidade como forma de subvertê-la – pra falar da mecanização da rotina e da solidão contemporânea.

José González“Killing for Love”
O folk que evoca a natureza e a natureza humana com a intimidade que só o violão de nylon provoca – simples e certeiro – me fizeram um grande ouvinte desse argentino radicado na Suécia, lá por 2009 ou 2010, período em que as primeiras músicas de “Caosmos” foram compostas. Jose Gonzalez traz eventualmente no acento do seu violão menções a um lugar de onde também se origina parte do folclore brasileiro.

Pond“Fantastic Explosion Of Time”
Conheci a Pond e essa música como trilha de um mini-doc que assisti sobre um vilarejo em Java Central – lugar que parecia desacoplado do nosso tempo/espaço – a força do refrão anunciando uma explosão fantástica do tempo ficou gravada junto das imagens daquele pedaço de Java –misterioso, quase que em outra dimensão.

Clap! Clap!“Ode to The Pleiades”
A ancestralidade das percussões mescladas com fluidez ao universo eletrônico do projeto faz dele dançante, denso e xamânico – uma imagem refletida do passado e futuro.

Gilberto Gil“Expresso 2222”
Canção e letra geniais desse disco genial do grande Gilberto Gil – que, como Caetano, está involuntariamente gravado na minha memória afetiva por ser parte da trilha da minha família.

José Prates“Oniká”
Grande canção (e disco) que além das entidades, evoca a origem da canção popular no Brasil junto das religiões de matriz africana, como o candomblé.

Erasmo Carlos“É Preciso Dar Um Jeito Meu Amigo”
Somos fãs de canções e refrãos. Taí um ótimo exemplo de pungência e honestidade que te pegam na primeira ouvida. Certamente músicas do nosso disco como “Amargurado” tem uma dívida com Erasmo e Tim Maia.

Beck“Morning”
E só tinha faltado uma balada – como essa baita canção do Beck que o Davi, nosso atual baterista que gravou percussões e synths no disco, citou como referência de arranjo para a canção que dá nome ao disco, “Caosmos”.

Cantarolando: O teste de fidelidade de “Babooshka”, de Kate Bush (1980)

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Kate Bush

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção “Babooshka”, um dos hits da Kate Bush, é a faixa que abre o terceiro disco da cantora “Never For Ever”, de 1980. Foi lançada como single – aliás, com uma capa bem legal, que lembra aquelas fotos que o Mick Rock tirou do Syd Barrett no apartamento.
Kate Bush é uma compositora carregada de referências literárias e cinematográficas. É possível perceber isso especialmente em suas letras e performances teatrais.

Porém, “Babooshka” veio de uma inspiração bem mais pop, para não dizer popularesca: um famigerado ‘teste de fidelidade’ que ela assistiu na TV. A canção conta a historinha de uma mulher que decide fazer o teste com seu marido, lhe enviando cartas perfumadas assinadas “Toda sua, Babooshka” – o grudento refrão da música “all yours, Babooshka”. Ela resolve marcar um encontro, e o marido até estranha o quanto que Babooshka, essa guerreira amazona russa sensual, lembra sua esposa quando ela era jovem e bonita, antes de ser uma senhora deprimida e de ter ‘esfriado’ com ele. O marido ficou derretidão e, claro, não passou no teste.

She wanted to test her husband
She knew exactly what to do
A pseudonym to fool him
She couldn’t have made a worse move

She sent him scented letters
And he received them with a strange delight
Just like his wife
But how she was before the tears
And how she was before the years flew by
And how she was when she was beautiful
She signed the letter
All yours
Babooshka, Babooshka, Babooshka-ya-ya!

O clipe dessa música também é interessante. É daqueles bem simples, bastando a presença corporal da cantora para termos idéia da música: ela vestida de preto, com um véu recatado interagindo com o contra-baixo, que seria o marido. Aliás, diversas vezes o baixo nas músicas tem a intenção de ser o contraponto masculino para sua voz. No refrão, ela se transforma em Babooshka, uma figura quase oposta à da esposa.

Apadrinhada pelo David Gilmour, com 16 anos Kate Bush já havia composto dezenas de músicas, gravou algumas faixas demo e conseguiu um contrato pela EMI para gravar um álbum no estúdio Abbey Road. Porém, só depois de dois anos de contrato é que o disco começou a ser gravado. O produtor disse que ela era muito jovem, eles estavam ‘maturando’ a artista para então lançá-la como a grande aposta da gravadora. Sobre isso, a própria Kate diz que eles assinaram com ela para segurá-la na gravadora, para que nenhuma outra a contratasse. De qualquer forma, funcionou – ela se desenvolveu ainda mais como artista e fez aulas de dança interpretativa com a professora do David Bowie.

Todas as canções deste disco foram compostas por Kate no piano, e o disco foi co-produzido por ela. A partir daí, o sucesso e prestígio de Kate Bush só aumentou, sendo ela uma das mais autênticas artistas do mundo pop. Dá para dizer que Kate Bush fez a escola das grandes artistas da atualidade, pelo menos as que têm a intenção de incorporar aspectos artísticos, experimentais ou performáticos, como Lady Gaga e Lorde.

Audiometria – A coletânea poliglota “Seleção de Ouro” (1998) da Gretchen

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Gretchen – “Seleção de Ouro”
Lançamento: 1998
Duração: 68min
Gravadora: EMI Music

Audiometria, por João Pedro Ramos

Já que dona Maria Odete Brito de Miranda Marques, mais conhecida como Gretchen, está na boca do povo desde que Katy Perry a convidou para participar do clipe de “Swish Swish”, resolvi que era a hora perfeita para fazer uma edição da coluna Audiometria ouvindo um disco completo da rainha do bumbum brasileira.

Fucei e no Spotify temos apenas dois discos: “Me Deixa Louca”, de 2001, e “Seleção de Ouro”, uma coletânea lançada em 1998. Como eu estou afim de ouvir o fino da bossa da rebolatriz, vamos de coletânea mesmo. De cabo a rabo (sem trocadilhos)!

Começamos com “Dance With Me”, uma pérola disco com um belo baixo e metais, como era lei na disco music. Porém, o instrumental é permeado por gemidos da moçoila, em uma letra simples pedindo para que você a acompanhe na dança. E, oras bolas, essas músicas disco normalmente eram feitas pra dançar mesmo, então pra que uma letra existencial? “Dance With Me” é muito bacana e apesar da produção que deixa a faixa meio abafada, é uma bela música disco.

Acho que não preciso comentar sobre “Freak Le Boom Boom”, um dos maiores clássicos da Discoteca do Chacrinha e um hit que varreu o Brasil nos anos 80. Seu pai já dançou, sua tia já dançou, você já dançou. É chicletuda, tem a latinidade não-brasileira que Mister Sam colocou na Gretchen (pra atingir mais público, veja bem!). O pianinho do começo é quase um pastiche de “I Will Survive”. Tente ouvir e não cantarolar o refrão. A versão da coletânea tem até uma guitarrinha solando a la Carlos Santana pro final!

Em seguida a coletânea nos oferece “Melô do Xique Xique”, que eu achei que não conhecia, mas ela começa igualzinha ao clássico “Je Suis La Femme”, pelo jeito… Novamente, mistura espanhol, francês, inglês… Outra canção poliglota de nossa querida Gretchen Essa tem uma guitarrinha caribenha mezzo axé mezzo Coração Melão. Meus parabéns à quem pensou em misturar Chiquita Bacana com “Je T’Aime Moi Non Plus”!

Nossa, o comecinho de “You And Me” tem um pianinho bem noventista. Me pareceu até algo dos Backstreet Boys fazendo balada. É bem diferente das outras. Em inglês, começa com a frase mais repetida por Gretchen: “You and me”. É uma balada com violão, romântica com “AU” no meio e “tchu tchu tchu” fazendo backing. Não é incrível, mas quem criou a coletânea soube encaixar bem essa, pra dar um respiro de tanta dança.

Agora sim, a já citada “Je Suis La Femme”, que ganhou o apelido “Melô do Piripiri” e é aquela latinidade dançante cheia de gemidão (precursora, hein, Gretchen? BEM antes do Whatsapp) e a letra “Je Suis La Femme” sendo repetida à exaustão. É um chiclete mental em francês com todas as frases conhecidas, “mon amour” e “merci beaucoup” à granel. Aliás, essa música é MUITO melhor que “Swish Swish”, na minha opinião.

“Me Gusta El Cha-Cha-Cha” é meio que uma continuação da faixa anterior, só que com o refrão falando sobre sua paixão pelo cha-cha-cha. Não tenho conhecimento suficiente para definir se a música pode ser considerada um cha-cha-cha, na verdade. Gostei bastante da linha de baixo da música, nunca tinha reparado.

Em “Quiero Ser Libre”, o bem-te-vi te dá as boas-vindas a uma faixa quase melancólica em espanhol. É o mais próximo de gótica e trevosa que Gretchen já esteve. Na real, parece um pouco com as baladinhas de momentos de reflexão de filme animado da Disney. É o equivalente Gretchen para “Let It Go”, quem sabe.

Quando li o título de “Sueño Tropical”, achei que seria novamente uma baladinha, mas é outro som dançante cheio de latinidade e a guitarrinha que o Calypso ama em mais uma letra em espanhol. Sim, a Gretchen canta muito mais em francês, espanhol e inglês que em português. Uma mulher do mundo!

Poxa, não dá pra negar que “Mambo Mambo Mambo” é a MESMA MÚSICA que “Freak Le Boom Boom”. Sério, é a mesma música, com algumas variações. Vou até pular, porque a próxima é “Conga Conga Conga”, que também é praticamente “Freak Le Boom Boom”, mas pelo menos virou hit e eu sei a letra. As percussões latinas do começo são muito divertidas. E o “ay ay ay” do começo, se não me engano, foi gritado pelo mentor da Gretchen, Mister Sam. Aliás, queridos leitores: se alguém quiser analisar a letra de “Conga Conga Conga” e verificar se existe algum sentido nas palavras em inglês jogadas que ela canta, me avise. Me pareceu bem desconexo.

Gretchen

Bom, estamos na metade do disco e os grandes hits já foram… Ou seja: estou entrando no obscuro mundo dos Lados B da Gretchen. Me acompanhem nesta aventura.

Estamos na faixa 11, “Y Te Amare”, e novamente somos presenteados por uma balada pra acalmar os ânimos depois de tanta conga na orelha. Essa é a primeira em que Gretchen não vocifera seus “AU” ou “AI” durante o som. Parece bastante aquelas músicas de tristeza que tocam durante os episódios de Jaspion, lembra? Ah, claro que é em espanhol, mas acho que você já tinha imaginado.

Eita! Começou “Give Me Your Love”, com uma voz de criança. Mais uma balada, com ares bem oitentistas na produção. A voz que canta não parece ser de Gretchen. Será que foi ela? Enfim. É meio padrão de balada anos 80. O baixão novamente lá em cima.

Vamos para a terceira balada seguida, “My Man Of Love”, mais oitentista que calça amarela fluorescente. Opa, peraí: surpreendentemente, no meio ela engata em um semi-ska meio chupado de Blondie, acreditem se quiserem!

Falta pouco. Apesar de já ter enjoado do disco, vou em frente, depois de beber uma água para encarar o resto do desafio.

“Le Bel Masque” volta o ritmo e os “AU” da Gretchen. Ei, peraí, ele começa com “Venha Nega Vá?” sendo cantado, como na música do É o Tchan? Não sei, mas me lembra bastante lambada e axé do começo dos anos 90. Como o disco não informa as datas de lançamento, chuto que tenha sido lançada nessa época. Ah, e não dá pra entender bulhufas do que está sendo cantado, mas desconfio que seja em francês.

Em seguida, temos 4 músicas com títulos que fazem parecer que a gente vai ouvir um disco infantil: “Love Is Love”, “Baby (Baby)”, “1,2,3 (One-Two-Three)”, “Cha Cha Cha Boom Boom” e “Do Bidu Dam Dam”. É brincadeira, bicho!

“Love Is Love” contém os gemidos de Gretchen desde o começo, com o pianinho safado tomando conta. A letra é aquela coisa “I Want You, I Need You, Baby, Te Quiero”. “Baby (Baby)” é praticamente uma música do RPM, com tecladinho comendo solto, “tchu tchu tchu” e uma Gretchen roqueira como nunca dantes ouvimos… Mas soltando seus gemidinhos aqui e acolá. Acho que foi minha preferida até agora, apesar dela seguir a letra “Baby, I love you, I need you” de todas as outras.

“1,2,3 (One-Two-Three)” emula uma country music caipirona e foge de tudo o que foi feito até agora. Não vou dizer que é incrível, mas só de fugir um pouco do que rolou já é um respiro. “Cha Cha Cha Boom Boom”, ao contrário do que eu imaginei, não é uma mistura de “Me Gusta El Cha Cha Cha” com “Freak Le Boom Boom”. Aliás, poderia muito bem ser, já que é praticamente a mesma música feita pela terceira vez. Até a voz do Mister Sam está lá, e a métrica da cantoria é a mesma…

“Do Bidu Dam Dam” começa com mais um gemidão da Gretchen antes mesmo da bateria entrar. A bateria é quase algo tirado do disco da Xuxa, e o refrão “Do Bidu Dam Dam” não faz ficar nem um pouco menos infantil.

Pra fechar uma boa coletânea, nada melhor que “Disco Show Medely” (acho que quiseram dizer Medley), que começa com Mister Sam dando aquela apresentada em seu inglês macarrônico. As palminhas comem soltas enquanto a música mistura todos os hits da moça, confirmando a semelhança entre as músicas.

Ufa. Chega. Me senti assistindo à Discoteca do Chacrinha por mais de uma hora, mas sem ninguém jogando bacalhaus e abacaxis por aí. Apesar de eu achar os hits cafonas “Freak Le Boom Boom”, “Conga Conga Conga” e “Je Suis La Femme” super divertidos para serem dançados lá depois da 8ª cerveja em um churrasco, ouvir um disco inteiro da Gretchen não é pra mim. De qualquer forma, fico feliz que ela tenha sido reconhecida internacionalmente. Espero que seus “AU” e “AY” apareçam em breve em alguma participação com Pitbull, Nicki Minaj e afins, e não só sua imagem rebolativa.

Audiometria – “As Aventuras de DJ L” (2004), o comeback musical explosivo de Latino

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Latino - As Aventuras de DJ L

Latino – “As Aventuras de DJ L – Festa no Apê”
Lançamento: 2004
Duração: 44 min
Gravadora: EMI
Produção: Dalmo Beloti, Latino e Fábio “FB” Mello

Audiometria, por João Pedro Ramos

A novíssima (e para alguns, torturante) coluna Audiometria fez muito sucesso em sua estreia, analisando e procurando o lado bom do disco de estreia da banda Restart. Pois bem: vou continuar me colocando à prova e ouvindo discos que muitos consideram um lixo musical buscando o que há de bom neles. Afinal, tudo tem um lado bom… Ou quase tudo, pelo menos.

Hoje, resolvi ouvir algo que é massacrado pela crítica intelectual, mas já foi um dos grandes sucessos entre o povo. É dia de ouvir “As Aventuras de DJ L”, o disco de “comeback” do Latino, que nos anos 90 fazia sucesso com seu funk charme em hits como “Me Leva” e conseguiu se reinventar com sucessos pop grudentos como “Festa No Apê”. Em 2004, era impossível escapar da versão em português para “Dragostea Din Tei”, que tomou um mundo com o grupo O-Zone e virou até meme (quando isso nem era chamado de meme). O sucesso do hit do Latino foi tão grande que o disco ganhou o subtítulo “Festa No Apê” pra alavancar as vendas. Deu certo: em 2005 “DJ L” foi Disco de Ouro, graças à venda de 50.000 cópias. Fones à postos e preparado para involuntariamente cantarolar alguns refrões chiclete de 2004, vamos à audição do disco.

Bom, começamos com a garrafa de champanhe abrindo, anunciando que hoje é festa no apartamento de Latino. Sinceramente, eu bato palmas para quem quer que tenha composto a versão, pois a letra gruda na cabeça até em momentos hilários como “Garçom, por favor venha aqui e sirva bem a visita”. Ah, a expressão “tá é bom” pra caber na métrica é algo de uma genialidade de gambiarra que eu tiro meu chapéu!  Aliás, a (não) rima de “libido no ar” com “fazendo orgia” é algo incrivelmente malandro, liricalmente falando. Sabe o que eu só reparei agora? Tem um violãozinho bem bacana que acompanha toda aquela massa de teclados, sintetizadores e baterias eletrônicas… mas é preciso se esforçar pra ouvi-lo. Preste atenção.

Bom, passou o grande hit do disco, passou a música que muitos dos que compraram o álbum colocaram no repeat e nem ouviram o resto da obra… É aqui que eu farei o que muitos não fizeram. Vamos à faixa número 2: “Umazinha” fez um certo sucesso, mas se você falar dela para qualquer pessoa hoje em dia, provavelmente receberá uma coçada de cabeça e um “não lembro”. Começa com o violãozinho e um autotune capenga. Aliás, o instrumental ~eletrônico~ é algo que remete aos discos caça-níqueis que foram lançados aos montes nos anos 90 e 2000, como “Discoteca do Quico”, por exemplo. A letra é um pouco mais séria nos versos, parecendo até um pouco com o trabalho da Luka (do hit “Tô Nem Aí”, composta também pelo Latino)… Até que chegamos no refrão. “Tchururá, tchururá, tchururá, away / Umazinha com você / Tchururá, tchururá, tchururá, away / Sem depois me arrepender”. Ponto alto da letra: “Mas meu corpo não tem um antivírus, baby / Pra te afastar”. OURO PURO.

[…]

OK, não consegui ouvir na sequência e este texto está sendo continuado três dias depois. Acho que esse é o grande problema da música pop criada pra estourar: os singles dão uma overdose de chiclete na cabeça. Se você ouve tudo na sequência, são 10 chicletes musicais pra grudar AO MESMO TEMPO no seu cérebro. É difícil, cara. Imagina a confusão mental.

Bem, vamos continuar com Latino e sua incursão pelo humor de duplo sentido com “Amor de Pizza”, um jogo de palavras com a velha máxima do “amor de pica, onde bate fica”. A genialidade é transformar em “amor de pizza, onde bate fixa” e conseguir uma censura livre na canção. O som é aquele velho tecnopop com resquícios dos anos 90 que o Latino usou nessa volta às paradas de sucesso no começo dos anos 2000, mas com toques árabes e o cantor dando aquela cantada gemida dos tempos de “Me Leva”. Pérola da vez: “Sou predador e um mundo chamado prazer”.

Eita, chegou a baladinha. Começa com o clássico “Porque você tá fazendo isso comigo?”. “O Troco” tem nome de música do Charlie Brown Jr, é um funk balada do começo dos anos 90 e, é claro, cita sexo animal, uma fixação do Latino, aparentemente. Perto das três que tocaram até agora, é bem esquecível.

Agora sim, na faixa 5, outro hitzão do Latino. “Renata Ingrata” conta com uma das melhores frases que já saíram da filosofia Latinesca: “Quem planta sacanagem colhe solidão”. Essa gruda na cabeça como chiclete Bubbaloo de banana. A letra é aquela velha história de dor de cotovelo, mas o que você esperava?

Pronto, chega uma guitarrinha e um “au au” pra anunciar que a próxima faixa é a versão Latineira para “Amante Profissional”, hit dos anos 80 do grupo Herva Doce. A canção sobre um michê cai como uma luva no disco do auto-intitulado DJ L. Bobinha, grudenta e sucesso sem dúvida. Só o rap (e chamar aquilo de rap é ofender o rap como um todo, então já peço desculpas) que Latino colocou no meio é completamente dispensável.

Calma, tá acabando. Não foi tão ruim assim. Latino ri e debocha no começo de “Tiro Onda”, que parece música do P.O. Box. Se não me engano, o Latino já escreveu música pro P.O. Box, então faz todo o sentido. Bem, essa música é bem sem graça, o único momento em que esbocei um sorriso foi quando ele usou a frase “esse seu papo cheio de guéri-guéri”. Quando o melhor momento de uma música é a frase com “guéri-guéri”, você sabe que a coisa tá feia.

C’mon, girl: chega aos fones de ouvido “Amiga Tati”, que começa soletrando T-A-T-I com todo carinho, mas na sequência já faz como fez com a pobre Renata e fala que a moça é falsa e cheia de caô. A faixa seguinte, “Obra de Arte” é mais uma baladinha, com uma guitarrinha distorcida e tudo. Esquecível, com letra romântica. Dessa vez, sem caô. É de amorzinho mesmo.

Latino

No Spotify o nome da faixa 10 é “Mulher Bebe”. Eu achei que seria sobre uma mulher que se alcooliza, não sei. Mas é “Mulher Bebê”, e tem aquele duplo sentido nojento com sexo oral e “mamar”. Sério. Ugh! Terminou mal. Nossa, de revirar o estômago essa. Porra, Latino! “Mama tudo, meu bebê” é foda. Mantenha o duplo sentido de “Amor de Pizza” que você se sai bem melhor.

No fim do disco tem dois remixes que eu sinceramente não dei atenção. O primeiro chama “Knife” e não tem nada a ver com o resto do álbum. É em inglês, a voz nem parece do Latino e parece um daqueles poperôs de 1996. Depois tem um remix de “Festa No Apê” que eu parei de ouvir e desisti definitivamente depois de quase um minuto só fazendo “tunts tunts tunts”.

Quero fechar falando um pouco sobre esta capa, horrenda, com uma das caricaturas mais bisonhas do planeta. Parece feita no Paint (quiçá no Paintbrush) por uma criança de 9 anos. O desenho sequer se parece com o Latino, algo que foi corrigido no disco seguinte, de capa igualmente escrota (porém com uma caricatura melhor), “As Novas Aventuras do DJ L”.

Bom, eu já falei que sou fã dos hits ganchudos do Latino, mas como álbum, “As Aventuras de DJ L” não se segura muito, pelo menos pra mim. As únicas que eu gostei foram os sucessos que estouraram por aí, especialmente o hino pop do começo dos anos 2000 “Festa no Apê”. O resto, mesmo as obrigatórias baladinhas, só enche linguiça. Se tivesse ainda alguma balada no nível de “Me Leva”, quem sabe…

O Século XX animado e musicado na animação “American Pop” (1981)

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American Pop

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

American Pop (American Pop)
Lançamento: 1981
Diretor: Ralph Bakshi
Roteiro: Roni Kern
Elenco Principal: Mews Small, Ron Thompson, Jerry Holand

O bisneto no fundo; o bisavô na frente.

Fugindo do Pogron russo de 1903, uma mãe e seu filho chegam nos EUA sem nada e começam a trabalhar: a mãe com costura e o filho distribuindo panfletos num bar. Ela morre e a criança passa a viver com o homem que o contratara. A partir disso, o órfão começa a frequentar os palcos do bar, sempre na cochia, até que por convívio com o universo dos shows começa a se apresentar. Vai pra primeira guerra, volta vivo, continua a cantar, se envolve com a máfia (seu “tutor” era parte dessa), se casa e tem filhos.

Seus filhos tem filhos e esses também tem. É por esse fio genealógico que corre o filme, contando a história americana do século XX (até a década de 80, quando o filme foi feito), através de hits da música pop de cada época, sempre se encaixando na vida do protagonista da vez (o filme conta com um protagonista para cada uma das quatro gerações), misturando o som com as situações vivenciadas por cada um, que de modo geral representam as vivenciadas pelos jovens da geração representada.

Desde um jazz que antecede (e muito) o be-bob do Thelonious Monk até uma proto new-wave, o filme passa por músicas famosas (afinal, foram hits), de conhecimento mais que popular, como “Sing, Sing Sing”, de Benny Goodman, “Somebody to Love” de Jefferson Airplane, “This Train” de Peter, Paul and Mary, “Take Five” de David Brubeck Quartet, “Turn Me Loose” de Fabian e “Don’t Think Twice” de Bob Dylan, dentre várias outras, sempre compondo junto a ilustração fantástica dos filmes de Ralph Bakshi (que faz uma ponta no filme, como o pianista que diz à mulher do órfão que seu som será um hit), cenas psicodélicas e absurdamente lindas. Contudo, é interessante dizer que nos créditos, a autoria das músicas é dada a personagens ficcionais!

Os filhos e netos, porém, apesar de sua sempre muito forte relação com as notas (de qualquer instrumento que fosse), nunca conseguem alcançar a fama e passam a vida nos bastidores, por motivos diversos, relacionados à guerras, abuso de drogas, máfia e etc. (Vale dizer, os mesmos que os levam ao universo musical). Cabe ao bisneto tentar virar o jogo…

Segue o link para o filme completo (numa versão meio bosta, mas tá aí…):

Zav estreia seu projeto solo mostrando influências de Lana Del Rey no clipe de “Música Esquecida”

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Zav

Victória Zav começou a cantar quando era ainda criança, e graças à um show de talentos na escola nunca mais parou. Além de fazer parte da banda Serapicos, agora Zav lança o primeiro single de sua carreira solo, “Música Esquecida”, com influências de Lana Del ReyHiatus Kaiyote, Chet Faker e “um pouco de rap”, segundo ela. A música, com pegada eletrônica e indie, ganhou um videoclipe cheio de colagens. “Me inspirei faz tempo com esse conceito com o clipe “Video Games” da Lana Del Rey. Inclusive quando eu tava buscando stock footage pra colagem achei a fonte de alguns excertos que ela usou (risos)”, conta.

Conversei com a cantora sobre o primeiro single, suas influências, o EP que vem por aí, a carreira solo e a cena independente atual:

– Bom, primeiro, me fala um pouco mais sobre este single que você acabou de lançar!

Esse som de início eu gravei bem acusticão, home-studio! Ele tinha linhas de tarka, uma flauta boliviana (ainda tem na introdução), gravei pau de chuva também, umas coisas bem étnicas. Depois fui formando esse conceito de timbre que eu queria e acabou numa pegada eletrônica. O clipe é uma video colagem, me inspirei faz tempo com esse conceito com o clipe “Video Games” da Lana Del Rey. Inclusive quando eu tava buscando stock footage pra colagem achei a fonte de alguns excertos que ela usou (risos).

– E vem um disco completo por aí?

De início estou preparando alguns singles, mas pretendo lançar um EP em breve.

– E o que podemos esperar nesse EP?

Serão músicas bem diferentes entre si, mas com um contexto em comum. Nele eu pretendo seguir nessa pegada eletrônica.

– Qual a diferença do seu trampo solo com o que você faz no Serapicos?

Eu poderia dizer que todas possíveis! (risos) O Serapicos tem um formato banda, enquanto meu projeto tem essa coisa de eu como frontwoman e um backing track rolando. As músicas do Serapicos são compostas pelo Gabriel e eu entro como intérprete. Pra Zav eu tô ali a compôr, arranjar e idealizar meu próprio projeto. A única coisa que vejo em comum é que são ambos projetos independentes de música autoral.

– Quais as suas principais influências musicais nesse trabalho solo?

Eu ando altamente interessada numa influência lo-fi, trip-hop, mas gostaria de manter minha matriz brasileira na linha, se é que me entende. Falando em bandas, não diria pelo gênero em si (pela mistura que pretendo), mas talvez pela timbragem eu diria: Hiatus Kaiyote, Chet Faker, Lana Del Rey, Gorillaz, um tanto de Jamiroquai e algumas batidas pontuais de rap.

– Como você começou sua carreira?

Comecei bem cedo, com 14 anos, num show de talentos da escola. Já tinha alguma noção musical mas jamais havia subido num palco até então. Fiz uma apresentação com meu pai (que também é músico) e no backstage conheci o Phillip Nutt, o qual me iniciou nos palcos e estúdios. Ele compunha, eramos um duo folk autoral.
Por meio desse projeto conheci a Serapicos, também.

Zav

– Conta mais desse projeto folk do começo!

Esse projeto era incrível! Tive oportunidade de tocar em lugares como o Café da Mata, que já recebeu vários artistas bacanas do MPB. Também fizemos um programa especial pro circuito Sesc onde interpretamos repertórios clássicos do Folk como Joan Baez e Bob Dylan, com uma formação de banda absurda. Além de todo o circuito underground onde fazíamos apresentações acústicas intimistas. Também gravamos um disco, “To Whom it May Concern”, com produção do Luiz de Boni, d’O Terço, que faleceu recentemente. Ele chegou a tocar teclado conosco em algumas apresentações, foi meu primeiro produtor. Agradeço até hoje pela honra de ter trampado com ele, ainda mais nova que eu era.

– Como você vê a cena independente hoje em dia?

Pô, tem uma galera incrível nela. E ainda tem gente que tem a coragem de me dizer que “não existe mais música boa, estacionou nos anos 90”. Existe sim, mas tá todo mundo no independente, tocando no underground e precisando do apoio do público. Mas esse apoio tá crescendo e eu vejo um futuro promissor pro cenário independente, até por isso que boto fé em fazer parte dele. A galera se une e faz um som, e a internet fortalece isso. Tá começando a ficar obsoleta essa ligação com gravadora que existia antigamente.

– E como você acha que essa cena independente pode crescer e atingir mais público?

É duro dizer e pode até ser mal interpretado como chatice de músico, mas costumo dizer que existem algumas verdades nas chatices que os músicos tentam te dizer: Precisamos que as pessoas consumam música com mais consciência. Consciência de que aquilo é uma obra de arte pensada e estruturada com muito sentimento e trabalho árduo pra você escutar. Não tenho nada contra música produto, contra quem toca na rádio, na TV; mas as pessoas precisam saber que existe vida musical pulsando além disso. Vá em shows de artistas independentes, aprecie e fale sobre o trabalho de quem ainda não pertence a grande mídia. Acredite em quem está tentando mostrar algo novo em termos musicais.

– Ou seja: não adianta ficar reclamando que a música boa parou nos anos 90 se você não prestigia quem faz música boa fora do radar do mainstream hoje em dia.

Exato. Amém, brother! A música precisa parar de ser vista como um produto a ser consumido e mais como uma manifestação artística.

Zav

– Quais são seus próximos passos musicais?

Me trancar no estúdio, gravar mais alguns singles e depois idealizar meu EP. Depois do EP acredito que haverá um show de lançamento. E em breve sai mais um clipe! Eu prometo aparecer nesse. 😛

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Vamos lá: Marina Melo, Cynthia Luz, Lay Dirty, Camila Garófalo, Luiza Lian, Molodoys, Picanha de Chernobill, Malli, Rafael Castro, Viratempo.

Zebu ajuda a reconstruir artistas populares como Belo, Kelly Key e Sandy e Junior em seus remixes

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Guilherme Pereira, de São José dos Campos, é o cara por trás do projeto Zebu. Com a ideia de criar “música feita para embalar seu coração”, o DJ faz covers remixados de sucessos que podem ser chamados de bregas ou popularescos, como “Olha O Que O Amor Me Faz”, de Sandy e Júnior, “Essa Tal Liberdade”, do Só Pra Contrariar, e “Direito de Te Amar”, do Belo. Até o popular “Rock do Ronald”, jingle do McDonald’s, ganhou uma versão trap que faria qualquer pista de dança balançar sem ao menos pensar em Big Macs.

“A não ser que as pessoas sejam muito eruditas, quem xinga esse tipo de música falando que é absurdamente pobre está provavelmente errado. Escrever uma melodia pop é uma coisa difícil, uma letra catchy também”, explica. “E nem precisa ir tão longe: um monte de produtor “fã de música eletrônica de grave forte” xingando funk pra caramba e não conseguem fazer um sub pesado que bate forte igual o DJ R7“.

Conversei com ele sobre estes covers remixados, suas inspirações e seus futuros projetos autorais:

– Como você começou sua carreira musical?

Eu tive uma banda em 2008 de pop/rock internacional, tinha uns 15 anos, e depois fui pra outra banda que tocava mais as paradas no naipe Raimundos, assim. Foi gravando as coisas com as bandas que eu vi que eu gostava muito do estúdio em si, gostava muito de editar, mixar, arranjar as coisas. Aí fui pra Inglaterra estudar som em 2015, mais focado pra banda, infelizmente meu curso lá faliu e eu tive que voltar no meio do ano, então de brincadeira comecei a fazer alguns mashups, foi meu primeiro contato com a música eletrônica em si.

– E como foram esses primeiros mashups?

Era bem mais voltado pro humor, misturando artistas pop gringas com MC Carol e uns videos brisa, Stranger Things com “Passinho do Romano”, músicas bestas sobre temas tipo temaki…

– E como você se desenvolveu disso para o projeto atual?

Eu comecei a ouvir muito Flume Gill Chang e tava um pouco com medo de fazer uma parada mais séria e não ser aceito, aí meio que um dia assistindo um DVD do Belo eu pensei em fazer uma coisa que fosse visualmente/conceitualmente zoeira mas musicalmente sério…foi como eu fiz “Direito de te Amar” que foi meu primeiro remix pra valer mesmo.

– Sim! Aí você começou a pegar artistas ditos “bregas” ou populares e remixá-los. Quais você já fez?

(Risos) Não sei se usaria a palavra brega… Talvez inusitado, eu gosto bastante desse tipo de música. Já fiz remix de Belo, Maiara e Maraísa, Só Pra Contrariar, Kelly Key, Sandy e Junior, Matheus e Kauan, e mais recentemente (hoje!) Kasino.

– E você teve alguma resposta dos artistas que remixou? Alguém se pronunciou?

Cara eu meio que sei que o Belo já escutou e gostou do dele, mas não por fontes muito oficiais…O da Maiara e Maraísa a Universal Music gostou e licenciou, não sei se passou por elas…

– Porque você escolheu fazer remixes de artistas mais populares?

Eu nunca fui muito fã de coisas underground, acho síndrome de underground uma chatice sem fim. Sempre fui muito fascinado por música popular mesmo… Quando era novo com 13, 14 anos, mesmo na minha fase mais roquista, fãzaço de Led Zeppelin, Beatles, eu ainda escutava muito Tchakabum, N*Sync, Backstreet Boys… Já tive uma banda que fazia covers dessas coisas tipo Kelly Key em versões meio Raimundos e tal, sempre foi minha pegada escutar muita música pop. Então acho que é por aí, é meio que “eu” fazer isso (risos).

– Então a ideia é também tirar um pouco desse preconceito que essa galera “cool” têm dos artistas populares.

Sim, cara, a não ser que as pessoas sejam muito eruditas, quem xinga esse tipo de música falando que é absurdamente pobre está provavelmente errado. Escrever uma melodia pop é uma coisa difícil, uma letra catchy também. Uma pessoa que quer mexer com música eletrônica e renega a qualidade de um álbum tipo “ArtPop” da Lady Gaga está provavelmente fechando os olhos pra algo que poderia ser uma referência foda, de artistas fodas. E nem precisa ir tão longe: um monte de produtor “fã de música eletrônica de grave forte” xingando funk pra caramba e não conseguem fazer um sub pesado que bate forte igual o DJ R7.

– Quais são suas maiores influências musicais?

Dos brasileiros sou muito fã de Toquinho, Tom Jobim… Na parte eletrônica gosto muito de OMULU, do TIN , João Brasil (risos). Da gringa sempre escutei muito Daft Punk, mais recentemente tenho ouvido artistas tipo San Holo, Gill Chang e Flume.

– Você pretende lançar trampo mais “autoral”?

Cara, eu enrolei, pois tive que resolver a história do Kasino. Pretendo sim! lançar 2 ou 3 faixas autorais ate o fim do ano!

– Pode adiantar algo sobre elas?

Basicamente tenho a ideia de manter o meu estilo, com letras em português e ser brega/pop no estilo “Future Sertanejo” mesmo. Talvez algo instrumental, mas basicamente quero fazer algo pop!

– Você acha que mesmo os cantores de funk e sertanejo estão pendendo para o pop, como aconteceu com a Anitta e o Luan Santana?

Se eu acho que eles estão migrando? Acredito que sim, muitos artistas de funk e de sertanejo tem colocado elementos mais mainstream pra deixar as coisas mais “digeríveis” pra um público menos de nicho, na minha opinião. Acho que não é nem questão de abandonar seus estilos, sinceramente…ainda tem uma essência do original ali. É só tentar ser menos de nicho eu acho…

– Quais seus próximos passos musicalmente?

Tentar consolidar minhas músicas originais, fazer cada vez mais remixes oficiais e lançar mais remixes 🙂

– Recomende bandas, artistas e DJs independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Nos últimos tempos quem me chamou atenção foi um duo gringo de Future Bass chamado DROELOE, além do brasileiro e meu amigo Vhoor, que tem feito umas beats muito inovadoras!

Tributo ao Pato Fu “O Mundo Ainda Não Está Pronto” traz 30 versões de bandas independentes

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Em 2017 a banda mineira Pato Fu completa 25 anos trazendo na bagagem 10 discos de estúdio, 2 discos ao vivo, 5 DVDS e 34 singles. Pensando nisso, João Pedro Ramos (Crush em Hi-Fi) e Rafael Chioccarello (Hits Perdidos) decidiram criar seu segundo tributo em parceria, “O Mundo Ainda Não Está Pronto”, homenageando a criativa e divertida banda mineira. Nada como seguir o exemplo dos Patos e criar versões desconstruídas e inovadoras, assim como fizeram em repaginações de hits como “Eu Sei” do Legião Urbana, “Qualquer Bobagem” dos Mutantes e “Eu”, da Graforréia Xilarmônica. O disco duplo pode ser ouvido no www.omundoaindanaoestapronto.com.br

Em 1992, Fernanda Takai (vocal e guitarra) frequentava uma loja de instrumentos musicais e lá fez amizade com dois funcionários, John Ulhoa (vocal e guitarras) e Ricardo Koctus (vocal e baixo). Surgia o Pato Fu, trio que abusava do experimentalismo pop com influências que iam da psicodelia ao punk rock, passando pela new wave, bossa nova e rock and roll. “Fazemos muitos sons diferentes, mas, no fim, podemos dizer que somos uma banda do universo pop, que vai de Beatles a Sepultura. Tudo isso vale”, explicou John Ulhoa. Desde então, a banda só cresceu, lançando os discos “Rotomusic de Liquidificapum” (1993), “Gol de Quem?” (1995), “Tem Mas Acabou” (1996), “Televisão de Cachorro” (1998), “Isopor” (1999), “Ruído Rosa” (2001), “Toda Cura Para Todo Mal” (2005), “Daqui Pro Futuro” (2007), “Música de Brinquedo” (2010) e “Não Pare Pra Pensar” (2014) e colecionando hits como “Sobre O Tempo”, “Perdendo Dentes”, “Canção Pra Você Viver Mais”, “Pinga” e muitas outras. Hoje, a banda conta também em sua formação com Glauco Mendes na bateria e Richards Neves nos teclados.

A coletânea reúne diversos artistas do cenário independente nacional dando seu toque em versões para as canções do Pato Fu, as recriando em passeios por estilos como rock, tecnobrega, forró, rap, MPB, folk, stoner rock, psicodelia, experimentalismo…

Participam do tributo Antiprisma (São Paulo/SP), Berg Menezes (Recife/PE), Capotes Pretos na Terra Marfim (Fortaleza/CE), Der Baum (Santo André/SP) , Djamblê (Limeira/SP), Eden (Salvador/BA), Dum Brothers (São Paulo/SP), Estranhos Românticos (Rio de Janeiro/RJ), FELAPPI e Marcelo Callado (Rio de Janeiro/RJ), Floreosso (São Paulo/SP), Gabriel Coelho e Renan Devoll (São Bernardo do Campo/SP), Gilber T e os Latinos Dançantes (Rio de Janeiro/RJ), Horror Deluxe (Pouso Alegre/MG), João Perreka e os Alambiques (Guarulhos/SP), Lucas Adon (São Paulo/SP), Lerina (Santo André/SP), Mel Azul (São Paulo/SP), Molodoys (São Paulo/SP), Paula Cavalciuk (Sorocaba/SP), Pedroluts (São Paulo/SP), Serapicos (São Paulo/SP), Silvia Sant’anna (São Paulo/SP), Subcelebs (Fortaleza/CE), The Cabin Fever Club (São Paulo/SP), The Outs (Rio de Janeiro/RJ), Theuzitz (Jandira/SP), TucA e Thaís Sanchez (Campina Grande/PB), Valciãn Calixto (Teresina/PI), Venus Café (Volta Redonda/RJ) e Yannick com Camila Brumatti (São Paulo/SP).

A arte da capa, inspirada nos robôs gigantes do clipe de “Made In Japan”, foi feita pelo designer Pedro Gesualdi, que também é músico e atualmente toca nas bandas DERCY, Japanese Bondage e Danger City.

Globelamp tira de seu diário um som que transita entre a psicodelia, o rock e o pop “trevoso”

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Globelamp

O som expressivo e etéreo de Elizabeth Le Fey e seu Globelamp caminha entre a psicodelia de Syd Barett e o pop sombrio de Lana Del Rey. A cantora e compositora, que antes participava dos shows do Foxygen, faz músicas que remetem a um clima cinzento e outonal, com influências que vão de Grace Slick a Stevie Nicks.

Com “The Orange Glow”, seu mais recente disco, ela cunha seu estilo que transita entre o rock, o shoegaze, o pop e até o grunge. Além deste álbum, lançado em 2016 pela Wichita Records, Elizabeth já lançou “Star Dust” (2014), “Covers Album” (2014), com versões de gente como Beatles, Velvet Underground, Blondie, Lana Del Rey, David Bowie e Elliott Smith, e sua estreia, “Globelamp EP”, de 2011. No momento ela trabalha em novas músicas, sempre baseadas em suas experiências pessoais e seu inseparável diário.

Conversei um pouco com ela sobre sua carreira como Globelamp:

– Como a banda começou?
Começou como um projeto solo no meu quarto com meu violão e meu diário.

– E como surgiu o nome Globelamp?
Foi inspirado por um capítulo do livro “Witch Baby”, da Francesca Lia Block, chamado “Globe Lamp”.

– Quais são suas principais influências musicais?
Ainda é difícil identificar artistas individuais! Eu amo tanta música. Devendra Banhart, Nico, Joni Mitchell, Kimya Dawson, Cat Stevens

– Me conta mais sobre o material que você lançou até agora!
Primeiro eu lancei um EP em 2011. Regravei algumas dessas músicas como “Crocodile” e “Crystal” para o meu primeiro álbum completo, “Star Dust”. Meu álbum mais recente, “The Orange Glow”, foi lançado em todo o mundo pela Wichita Recordings em 2016. É a primeira vez que eu tenho um vinil gravado com a minha música!

– Como você se sente sobre a cena independente hoje em dia?
Sem comentários.

– Como é o seu processo de composição?
Escrevo muito no meu diário e de lá eu pego idéias para as letras!

– Você está trabalhando em novo material?
Sim, eu já escrevi o próximo álbum … Eu só preciso começar a gravá-lo!

– Quais são os próximos passos da banda?
Bem, eu toco sozinha, então acho que o próximo passo para a minha banda é encontrar membros da banda!

– Recomende bandas (especialmente se forem independentes) que chamou sua atenção ultimamente!
Acho que os mais jovens deveriam procurar artistas dos anos 90 como Tracy Chapman, Belly e Alanis Morissette!