O post-rock de Sigur Rós e sua estreia no Brasil

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Fonte: Wikimedia

O “post-rock” é um estilo musical difícil de definir em uma frase simples e objetiva: ele trás em sua essência uma mistura de diversos outros gêneros que, ainda que variados, ainda não são o suficiente para descrever suas características. Da mesma forma, um show da banda islandesa Sigur Rós não pode ser facilmente narrado ou explicado. Ambos devem ser ouvidos e apreciados – apenas isso.

A banda, originária de Reykjavík – capital e maior cidade da Islândia – não é nova. Ela está na ativa há mais de vinte anos, desde 1994. De toda forma, só recentemente ganhou mais destaque por elaborar as trilhas sonoras de séries e filmes bem familiares ao público, como Game of Thrones, Capitão Fantástico, Diários de um Vampiro e Simpsons. Mesmo caindo no gosto da indústria do entretenimento, o trio é considerado cult por seu estilo de som diferente, que mescla música clássica com guitarras, e canções com letras em sua língua nativa, o islandês.

O Sigur Rós é um belo exemplar do post-rock, termo usado pela primeira vez no mesmo ano de lançamento da banda, mas adotado para definir o álbum de outro grupo, Hex” de Bark Psychosis, na resenha do periódico inglês Mojo feita pelo jornalista Simon Reynolds. O conceito desse estilo foi posteriormente explicitado na revista The Wire, onde o também crítico musical o caracteriza por utilizar da instrumentação típica do rock (guitarra, baixo, bateria e teclado) para outros fins que não o rock, fazendo uso de “guitarras como facilitadoras de timbre e texturas em vez de riffs e acordes de energia”, assim como o das batidas eletrônicas – tanto que naquela época a experimentação em estúdios era privilegiada em detrimento de apresentações ao vivo.

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Nesse gênero, os instrumentos tradicionais do rock se relacionam com os elementos digitais de forma a construir texturas, ambientes e sensações em um movimento libertário, que rompe com as estruturas tradicionais da composição. O post-rock abusa das composições instrumentais, com poucos vocais, e faz uso da repetição de motivos musicais e mudanças sutis com uma ampla gama de dinâmicas. Além de embutir referências emprestadas de diversos gêneros, como a climatização do jazz, o rock progressivo, indie, new age, dub reggae, krautrock, shoegazer e a incorporação de elementos estéticos clássicos minimalistas, como faz muito bem o Sigur Rós.

A banda é formada pelo guitarrista e vocalista Jónsi, idealizador do grupo na década de 90, pelo baixista Georg Hòlm e pelo baterista Orri Páll Dyrason, que não estava na formação original e só entrou na banda em 2002, no lugar de Ágúst Ævar Gunnarsson. Eles também contavam com o tecladista Kjartan Sveinsson desde 1998, único membro com formação musical e responsável pelos arranjos orquestrais dos trabalhos, mas que deixou a banda em 2013.

Sigur Rós significa “Rosa da Vitória”, mas a inspiração para o nome do grupo veio da irmã de Jónsi, Sigurrós Elín, que nasceu apenas alguns dias antes do surgimento da banda. Seu primeiro álbum foi intitulado “Von” (que significa “esperança”), mas o reconhecimento internacional viria em 1999, com “Ágætis byrjun” (“Um bom começo”), que teve três canções adicionadas à trilha sonora do filme Vanilla Sky, protagonizado por Tom Cruise, além de séries como CSI, Queer as Folk e 24 Horas. Em 2003, eles também fizeram uma parceria colaborativa com o grupo Radiohead para a trilha do espetáculo de Merce Cunningham, Split Sides. Além disso, o single “Hoppípolla” foi utilizado na série Planeta Terra da BBC em 2006, nos créditos de encerramento da FA Cup, nas propagandas da cobertura da emissora dos jogos da Inglaterra na Copa do Mundo, e em diversos filmes.

Seu mais recente CD foi lançado em 2013, e agora a banda, que já conta com 7 álbuns, partirá para sua primeira turnê na América Latina, com apresentações únicas em 4 locais diferentes. O Chile tem muito a oferecer no turismo – como evidenciado por suas famosas vinícolas; Assim, não surpreende que o tour sul-americano começa justamente lá em 24 de novembro, na Arena Movistar (localizada em Santiago). Em seguida. eles irão se dirigir para Buenos Aires para se apresentar, em terras argentinas, no Festival Sonar. Depois disso, finalmente aterrissarão pela primeira vez em nosso país, estreando na grande casa de shows Espaço das Américas, em São Paulo no dia 29. Enfim, no dia 2 de dezembro, se despedirão da América do Sul na edição colombiana do Festival Sonar, em Bogotá.

Os ingressos já estão à venda desde abril, quando a turnê foi anunciada, mas estão se esgotando. É uma boa oportunidade para os fãs que quiserem testemunhar ao vivo toda a exoticidade do espetáculo de projeções abstratas e som etéreo, mas explosivo, ou ainda para aqueles que gostariam de provar um pouco do experimentalismo e inovação do trio islandês.

Garimpo Sonoro #9 – A Vida é Obra de David Bowie (1947-2016)

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David Bowie

Ainda está fresca a notícia da morte de David Bowie… e Bowie andava fresco em minha mente. Coincidentemente, estava justamente numa fase bowiesca… No final do ano ouvi por completo com amigos o disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars; na semana passada estava ansioso para ouvir na íntegra sua última obra, mas enquanto não era liberada, me continha com um show de ‘72; na sexta ouvi algumas vezes Blackstar, seu agora disco-testamento, e gostei muito.

Mesmo sem pensar, recentemente apreciei Bowie como se deve: por completo. Ouvir faixas isoladas é a maneira mais viável – ainda mais neste mundo ansioso que vivemos -, mas algumas artes só são perfeitamente absorvidas em sua totalidade.

E Bowie é um artista completo. Tão completo que transformou sua própria morte em um capítulo de seu último trabalho. Pensando friamente, o enredo não poderia ser mais perfeito: lanço um aperitivo com um mês de antecedência, com um clipe sombrio que se tornaria profético. Presenteio a todos, no dia do meu aniversário, com um álbum denso, pesado e diferente. Dou três dias para um primeiro contato, para que todos possam se familiarizar com as músicas. Então, como um epílogo surpreendente de um livro clássico, adiciono a morte do protagonista.

E não é a primeira vez que Bowie se mata. Lembremos de Ziggy Stardust, cuja última aparição foi em julho de 1973.

Como um artista real, seu principal objetivo não era o agrado da audiência, mas o respeito à suas crenças. É creditada a ele a frase: “Eu não sei para onde eu estou indo daqui, mas eu prometo que não será entediante”. Dylan, tão referência para Bowie que foi sua musa em “Song for Bob Dylan”, uma vez disse que um artista não pode se confortar com um momento, tendo sempre que estar num estado de constante mudança. Algo tão coerente sobre Dylan, quanto sobre Bowie.

Perder um Bowie é perder um artista em constante ressignificação. Contudo, é também um momento para refletirmos sobre o que somos e o que queremos ser. A pergunta que ele fez décadas atrás pode ser adaptada para hoje: existe vida na Terra?

E o quê podemos tirar de bom em tudo isso? O senso de missão artística que sempre pairou sobre Bowie. O artista imortal venceu o homem moribundo. Ao saber de seu fim, escolheu curtir a vida através de um último suspiro como David Bowie. Um David Bowie que quis amenizar as dores de David Jones e sua família.

Assim, podemos afirmar: esta foi a última transformação do eterno Camaleão.

Ou a primeira, esteja onde estiver.

Mac Sabbath: a banda que inventou o… er… “drive-thru metal”

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Sim, o título do post está correto. Bandas esquisitas surgem mais rápido do que você pode imaginar, e a cada minuto alguém tem uma ideia “genial” para montar um grupo e sair fazendo barulho. Desta vez é o Mac Sabbath, uma mistura de Black Sabbath com McDonald’s. Algo como se o Ozzy trocasse o famoso lanchinho de morcego por um quarterão com queijo.

Mac Sabbath

A ideia foi de Mike Odd, empresário da banda, também responsável pela esquisitíssima Rosemary’s Billygoat. Não, a banda não revela seus nomes, então a origem é meio obscura e fantasiosa. Segundo Mike, em 2013 ele viu um palhaço assustador em Chatsworth, California. Seu nome era Ronald Osborne e ele tinha o conceito do tal “drive thru metal” junto com seus companheiros Slayer Mac Chesse (uma versão Motörhead-ish do Mayor Mac Cheese), Grimalice (que aqui no Brasil é o Shaky) e Cat Burglar (uma mistura do Papa Burguer com o Peter Criss). O tal palhaço sentou em sua mesa e falou da banda e Mike (que provavelmente é o próprio Ronald) disse que sim, ele seria o empresário do bando de mutantes da Monsanto parodiadores de Sabbath. O resto é história e carboidratos musicais.

A banda transforma clássicos do Sabbath como “Iron Man” em “Frying Pan”, “Sweet Leaf” vira “Sweet Beef” e “Paranoid” em “Pair-o-buns”. “Rat Salad”… bem, continua sendo “Rat Salad”, afinal.

Pode parecer uma coisa muito doida, mas se formos pensar bem, o Ronald McDonald é realmente mil vezes mais assustador do que o Ozzy Osbourne. Certo?

Curta a página oficial da banda e confira as datas dos próximos gordurosos shows: https://www.facebook.com/macsabbath

Wesley Willis, o ex-mendigo popstar esquizofrênico

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Wesley Willis

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Wesley Willis é um caso de artista experimental de estilo peculiar e obras que não são compreendidas tão facilmente. Um ex-mendigo que virou popstar, compositor de letras extraordinárias e bases maravilhosas. Tá, não é bem assim.

Wesley era um mendigo que vendia seus desenhos bizarros e tocava suas músicas com uma base pré-programada em seu tecladinho tosco, cantando qualquer letra que viesse à sua cabeça por cima. Até que o pessoal do Smashing Pumpkins “descobriu” o cara e deu um toque para Jello Biafra, ex-Dead Kennedys. Resultado: os discos do gordinho bizarro foram produzidos e lançados pela Alternative Tentacles.

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Wesley tinha o estranho costume de cumprimentar os outros com uma cabeçada, por isso possuía uma constante mancha preta na testa, consequência do bate-cabeça de “olá”.

As músicas? Bom, todas se pareciam muito umas com as outras, tendo nomes singelos como “Fuck You”, “Eat That Mule Shit” e “Suck A Cheeta’s Dick”, entre outras. Willis dizia que a música “calava a boca dos demônios em sua cabeça”. A estrutura das canções era simples: quatro versos formavam uma estrofe, e em seguida o refrão, que geralmente era o nome da música repetido quatro vezes (sempre quatro vezes). E no final, um comercial de alguma loja, com seu slogan.

Willis tinha a peculiar mania de homenagear quem ele admirava com músicas. Foi daí que saíram canções como “Nirvana”, “Alanis Morissette”, “Alice In Chains”, “Superchunk”, “Arnold Schwarzenegger”, “Dave Grohl”, “Steve Albini” e“Jar Jar Binks”, entre outras. Quase todas praticamente eram iguais, mudando apenas o nome da banda/artista (ou seja, o refrão) e as declarações sobre o homenageado em questão nos versos.

O artista tinha alguns temas recorrentes, como a obesidade (“I’m Slimming Down”, “I’m Sorry That I Got Fat (I Will Slim Down)”), subir no ônibus (“Get On The Bus”, “Get On The City Bus”), bater em super-heróis (“I Whipped Superman’s Ass”, “I Wupped Batman’s Ass”), matar seu pai (“I Killed Your Daddy After Midnight”, ”I Killed Your Daddy Yesterday”), sexo oral (“Suck a Cheetah’s Dick”, “Suck My Dog’s Dick”) e até a auto-referência (“Walter Willis Shabazz”, “Wesley Willis” e “The Wesley Willis Fiasco”).

Em 2002, ele descobriu ter esquizofrenia crônica (e fez uma música sobre isso, “Chronic Schizophrenia”), doença que o matou em 2003, tirando do planeta o talento musical incompreendido e experimental.

Willis teve seu impacto na cultura pop. Por exemplo: o som que vinha junto do Winamp (“It really whips the llama’s ass!”) foi tirado diretamente de sua música “I Wupped a Llama’s Ass”. No filme Super Size Me de Morgan Spurlock, “Rock and Roll McDonald’s” é uma das canções principais, e até Katy Perry o cita nominalmente na canção simple, no trecho “You’re such a poet. I wish I could be Wesley Willis.” Ah, e ele inspirou um personagem, Milan, que apareceu em algumas edições da revista da Mulher Maravilha, da DC Comics, com cabeçada de cumprimento e tudo.

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Vida longa a Wesley Willis!

Rock on in London
Rock on in Chicago
Johnny Rockets
It’s the original hamburger

(texto originalmente publicado no blog Contraversão)