Em sua estreia, Siba avança e canta nos Balés da Tormenta

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No Walkman, por Luis Bortotti

Hoje, vou fugir um pouco do foco da coluna, que é relembrar discos de rock alternativo (ou semelhantes) da década de 80 e 90, para trazer uma análise sobre o primeiro disco solo de um cara que viveu em muito os anos 90.

Siba lançou Avante em janeiro de 2012. Um fato curioso para alguém com uma carreira tão duradoura, experimental e completa como à do cantor pernambucano. Antes de se arriscar no modelo solo, Siba já havia liderado o Mestre Ambrósio, durante o auge do manguebeat nos anos 90, e elevado o folclore pernambucano ao patamar da música pop dos anos 2000, com Siba e a Fuloresta. Entretanto, antes de “Avante”, Siba sofria de um dilema.

No documentário sobre a composição deste disco, “Siba Nos Balés da Tormenta”, ele justifica que o fato dele ter participado de inúmeros projetos acabou criando modelos dele próprio que já o pressionavam demais, de certo modo característico, e que era a hora dele se reencontrar como artista.

Neste trabalho, que no geral resume e nos apresenta o verdadeiro Siba e toda a sua bagagem musical, ele precisava de um instrumento fixo. Não mais apenas a bela voz rimada ou a rabeca de seus tempos mais novos. Para “Avante”, ele assume o posto de guitarrista, instrumento este o primeiro o qual ele passou a praticar, isso com 14 anos de idade.

Em seu redescobrimento como guitarrista, Siba é capaz de nos levar, com o uso de cordas, do Nordeste brasileiro, com a viola nordestina, até as origens musicais modernas da África, com a sua rítmica guitarra. Com um estilo caranguejo de tocar, com apenas dois dedos, ele cria um mangue de melodias e possibilidades sonoras, passando do folclore até ao mais moderno indie rock.

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Adotar o posto de guitarrista foi complicado, ainda mais em um mundo que havia mudado muito. Mudança muito bem sensibilizada na bela “Ariana”, canção sobre os afegãos pós 11 de setembro. E com essas mudanças misturadas com a busca da definição de uma posição artística, Siba afirma que se perdeu nos processos de criação, mas que aos poucos foi tecendo todos os processos e desenvolvendo a obra que viria a ser Avante.

A sua poesia, tanto metricamente como criativamente inspirada nos mestres de maracatu e repentistas, ganhou novos ares e se modernizou. Talvez, com longo e complicado processo de composição (e redescobrimento), sua poesia se apresentou de uma forma muito mais pessoal e que, em alguns momentos, se apresenta ser muito mais dramática, sarcástica e sombria.

Entretanto, ainda continua com uma beleza suprema. Com uma beleza que apenas Siba é capaz de cantar. Ainda mais com canções que narram toda a trajetória de um dos melhores músicos brasileiros, aqui muito bem casada com o trabalho do produtor Fernando Catatau.

Com uma moderna mistura de danças folclóricas, maracatu e ciranda, e rock alternativo, Siba estreia, de maneira solo, com maestria, poetizando os versos que ele aprendeu a compor nos tempos de manguebeat e das danças em Nazaré da Mata com o seu eu próprio. O resultado é um perfeito álbum de mangue rock.

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SIBA – AVANTE | #temqueouvir

01. Preparando o Salto
02. Brisa
03. Ariana
04. Cantando Ciranda na Beira do Mar
05. A Bagaceira
10. Qasida

SIBA – AVANTE | vídeos

SIBA – AVANTE | #ouçaagora!

Otto inaugurou a conexão Recife-Espaço Sideral com seu álbum de estreia, “Samba Pra Burro”

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No Walkman, por Luis Bortotti

Otto caminha em direção a câmera por um calçadão de Copacabana dos anos 70 desfocado e em retrocesso. Otto é o único que caminha para frente. E então, temos uma ciranda na praia, cheia de pessoas das mais diversas tribos. A mensagem diz: o Recife é a cidade que vai fazer a cultura do país andar para frente. A nova praia é aqui, o Recife. E olhe ao seu redor o quanto de cultura nós temos para oferecer.

Este foi o cenário musical do país a partir de 1994 com a proliferação do movimento manguebeat. Entretanto, a imagem citada acima é o início do videoclipe de “Bob”, do cantor e percussionista pernambucano Otto, o primeiro do seu álbum de estreia, “Samba Pra Burro”, de 1998.

Um ano se passou da precoce morte de Chico Science e os manguezais do Recife ainda estavam começando a borbulhar. E Otto é um músico que acompanhou desde o início a cena musical do Recife e tudo o que aprendeu e ajudou a criar está presente neste disco.

Fugindo um pouco da sonoridade padrão dos trabalhos por que passou, Nação Zumbi e Mundo Livre S.A., Otto mergulha até a raiz da música eletrônica e cria uma harmônica mistura de folclore e drum’n’bass, criando versões espaciais de maracatu, samba e ciranda.

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O álbum foi muito bem aceito e sua primeira faixa, “Bob” (um dueto com Bebel Gilberto), explodiu comercialmente. Otto agora também era mangue. E também colocaria “TV a Cabo/O Que Dá Lá É Lama” e “Café Preto” nas paradas nacionais e internacionais.

A obra, toda composta com o magnífico trabalho de parceria entre Otto e o produtor Apollo 9, é uma viagem eletrônica por ritmos brasileiros e fases da vida do cantor, passando pelos versos eternizados por Chico Science, em “Bob”, e chegando às origens africanas do Brasil em duas músicas cantadas em francês (Otto morou 2 anos na França), “Low” e “Change tout”, que formam uma incrível lama melódica.

Otto canta o Recife, São Paulo, Paris. Ao mesmo tempo em que toca África, Brasil, Vênus. Com letras que caminham descalças pelos lugares de sua vida, Otto mostra a situação social do país em sua época, através de cenas, fatos e narrações de uma vida simples e cotidiana brasileira que aos poucos ganha injeções das tecnologias dos anos 2000 (TVs a cabo, celulares). E o estilo musical acompanha com perfeição essa temática.

Nota máxima para a estreia de Otto. “Samba pra Burro” é uma obra-prima recente da MPB e conseguiu, com incríveis sentimentos, levar para o espaço sideral a conectividade da cultura do Recife.

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Otto – Samba Pra Burro | #temqueouvir!

01. “Bob”
03. “TV a Cabo/O Que Dá Lá É Lama”
04. “Renault/Peugeot”
07. “Café Preto”
08. “Ciranda de Maluco”
11. “O Celular de Naná”

Otto – Samba Pra Burro | #singles

Otto“Bob”

Otto“TV a Cabo”

Otto – Samba Pra Burro | #ouçaagora!

1991: o ano em que o Nirvana (e “Nevermind”) mudou as leis da música

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No Walkman, por Luis Bortotti

Há 25 anos atrás, 1991 ficava marcado como o ano em que o rock mudou. O cenário musical passava por mudanças extremas, principalmente com a chegada do CD e a consolidação da MTV e sua promoção de artistas e videoclipes. Entretanto, o cenário rock’n’roll não apresentava sinais de que acompanharia essa evolução, vivendo uma fase tomada por artistas pop e por roqueiros cheios de laquê no cabelo que se arrastavam para permanecerem nas paradas. Tudo mudou em setembro daquele ano, quando Nevermind, o segundo disco de um trio desconhecido vindo de Seattle, foi lançado, e então, os Estados Unidos abraçaram o punk rock mais uma vez.

O Nirvana nunca foi a banda mais importante daquele movimento, denominado pela mídia como grunge. Aliás, era uma banda pequena e que ninguém apostava uma mísera camisa de flanela, afinal, bandas como Soundgarden, Alice In Chains e Mudhoney dominavam o cenário há anos e alguns até já possuíam contrato com gravadoras maiores. Entretanto, foi “Nevermind” quem colocou Seattle no mapa e junto, toda uma revolução grunge de adolescentes, talvez cansados da forma como o entretenimento e o “sonho americano noventista” caminhavam, recheados de sobras da década anterior.

Muito do sucesso do disco deve-se aos vários elementos do rock ali presentes. Temos o peso e a obscuridade vindos da influência do Black Sabbath, a simplicidade e a ira punk dos Sex Pistols, a melodia suave dos The Beatles e muito do lema “faça você mesmo”, vindo de bandas de rock alternativo dos anos 80, como Pixies e REM. O segundo disco do Nirvana tinha tudo para se tornar um clássico.

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Clássico desde a sua capa. Afinal, quem não conhece a imagem do bebê nadando pelado atrás da nota de um dólar? A gravadora logicamente tentou uma censura, mas Kurt Cobain falou que a única opção seria de inserir um adesivo escrito “se você se ofende com isso, é um pedófilo enrustido”. A gravadora voltou atrás e a imagem se tornou uma obra da arte contemporânea.

Em seguida, quatro acordes: F Bb G# C#, repetidos tristemente duas vezes até a explosão da bateria e a inclusão da distorção. “Smells Like Teen Spirit” abre com maestria o disco, nos injetando suavemente tudo o que teríamos pela frente. Muito da fórmula do Nirvana realmente está aí. Versos calmos e refrão pesado. O próprio Cobain citou que tentava soar como Pixies, mas ele foi muito além. Sua letra genial, tomada por passagens das dores de Cobain, atingiu o público, que ouvia ali o reflexo dos problemas adolescentes comuns no mundo inteiro.

Bom, não vou falar de todas as músicas aqui. Todas são boas, pode acreditar! O trabalho de Bucth Vig foi essencial, mas a genialidade de Cobain em suas composições, somada a desenvoltura do baixo de Krits Novoselic e a atitude hardcore agressiva de Dave Grohl (que definiu a formação clássica e ideal da banda), também foram essenciais para a composição desse clássico. Citarei então, as canções mais importantes de um ponto de vista para a banda e relativamente para a história do rock.

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“Lithium” é a quinta faixa do disco. Seus versos depressivos casam perfeitamente com o título, um antidepressivo utilizado em tratamentos psiquiátricos para controle de alternância de humor. E na letra essa alteração é visível. Kurt canta uma falsa felicidade de apoio de amigos e da religião, ele busca uma justificativa de seu fracasso (ele estava deprimido na época, graças ao caminho que a banda seguia e 2 relacionamentos amorosos falhos). Em seguida, volta à sanidade e diz que não irá enlouquecer. E na própria música temos isso, versos calmos, intercalados por refrões gritados e pesados. Uma perfeita alteração de musicalidade em uma das mais belas canções já compostas.

“Polly” é a canção seguinte. Engraçado como ela foi aclamada pela mídia e virou uma sensação das rodinhas de violão. Isso, pelos que se dizem fãs da banda, mas não tem o mínimo de esforço em analisar o trabalho de um artista e apenas acompanham a moda. A canção é baseada em um fato real, em que uma garota saiu de um clube punk rock em Seattle, foi sequestrada e estuprada, porém escapou, graças a um descuido do maníaco. Kurt ficou tão vidrado na história que compôs a canção após ler a matéria e, é claro, colocou suas opiniões em toda letra. Com total crítica ao machismo, a Polly da letra se mostra muito mais inteligente em relação ao molestador, enganando-o e escapando. Kurt mesmo viria a declarar: “se você é racista, sexista e homofóbico, por favor, não venham aos nossos shows, nem compre nossos discos, não queremos vocês como fãs!”, uma clara crítica aos falsos fãs modistas, muitos com os quais Cobain presenciou o estilo em toda a sua adolescência.

E para fechar, texto e disco, temos “Something In The Way”. Canção que retrata o abandono pelo qual Cobain sofreu de seus familiares. Calma, suave e perturbadora, a canção cita como é morar solitariamente debaixo de uma ponte (uma das histórias de Cobain inventadas para brincar com a mídia). Kurt só a apresentou aos companheiros de bandas dias antes das gravações do álbum. Um curinga em sua manga, afinal, ele já conhecia a incrível força dessa música. Durante as gravações, ela não soava como Kurt queria, e então, entrou na sala de Butch Vig e mostrou como ela deveria ser. Vig trancou as portas, desligou o telefone e gravou os tristes sussurros de Cobain. Em seguida, acrescentou todos os outros instrumentos que, com extrema dificuldade, conseguiram acompanhar o desafinado violão de cinco cordas de Cobain.

Volto a recomendar o álbum inteiro. Nevermind é uma jovem obra-prima, não só do rock’n’roll, mas de toda a música mundial. Item obrigatório em qualquer coleção de discos. Se você ainda não o conhece por inteiro, não perca tempo(!!), e veja como é possível fazer um rock simples, pesado e genial. O rock de três cabeludos sujos de Seattle que mudaram a cara do rock, ajudaram no reconhecimento de artistas alternativos e desbancaram Michael Jackson do primeiro lugar das paradas.

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Nirvana – Nevermind | #temqueouvir!

– O DISCO INTEIRO!

Nirvana – Nevermind | #singles

“Smells Like Teen Spirit” | 10 de Setembro de 1991

“Come as You Are” | 2 de Março de 1992

“Lithium” | 13 de Julho de 1992

“In Bloom” | 30 de Novembro de 1992

Nirvana – Nevermind | #ouçaagora!

Como Chico Science e Nação Zumbi modernizaram o passado em 1994 com “Da Lama Ao Caos”

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Da Lama Ao Caos
Da Lama Ao Caos

No Walkman, por Luis Bortotti

“Modernizar o passado é uma evolução cultural.”

Por mais que seja óbvio iniciar uma análise sobre “Da Lama Ao Caos”, álbum de estreia da banda Chico Science e Nação Zumbi, o primeiro verso de “Monólogo ao Pé do Ouvido” consegue expressar com muita perfeição toda a obra.

Com o seu lançamento em 1994, e juntamente com Samba Esquema Noise” do Mundo Livre S.A. estava iniciado o movimento manguebeat.

Nele, Chico Science caminha pelas ruas do Recife nos apresentando situações, personagens e problemas cotidianos da cidade. No final do trajeto, ele finca uma parabólica na lama e espalha a sua poesia pelo mundo.

As letras, que apresentam a marginalidade das classes financeiramente inferiores sofrida pela evolução e exploração industrial, os passos diários de uma alienada classe média desde os anos 70 e o miserável e violento estado em que a cidade se encontrava, podem ser tratadas como estudos sociais e antropológicos do Recife nos anos 90.

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Nelas, também é possível encontrar uma grande influência do livro Homens e Caranguejos, do escritor pernambucano, Josué de Castro. No disco, Chico Science e Nação Zumbi tentam recuperar o orgulho do homem-caranguejo, destruído através dos anos pelo esquecimento cultural e social do Recife por parte do Brasil.

Tudo isso é contado através de uma melodia única, que mesclava (e ressuscitou) os ritmos locais com a cultura pop mundial, injetada graças à globalização e virtualização dos anos 80/90.

Em “Da Lama Aos Caos”, temos o maracatu nos overdrives do rock, a ciranda no dub e soul, o samba nas rimas do hip hop.

Essa tropicália mistura foi arquitetada pelo próprio Chico, quando ele resolveu unir as bandas que fazia parte. Antes da Nação Zumbi, a banda chegou a se chamar Chico Science e Lamento Negro, mas logo adotou o nome utilizado até hoje. Na obra produzida por Liminha, temos Dengue (baixo), o fantástico Lúcio Maia (guitarra), Toca Ogam (percussão), Canhoto (caixa), e Gilmar Bolla 8, Gira e Jorge Du Peixe (alfaias).

No geral, “Da Lama Aos Caos” é um álbum obrigatório para todos os tipos de ouvidos. Um mangue de ritmos e estilos que fez o mundo inteiro se antenar no Recife e voltar a curtir a fértil cena cultural da cidade.

Chico Science e Nação Zumbi – Da Lama Ao Caos | #temqueouvir!

01. “Monólogo ao Pé do Ouvido”
02. “Banditismo Por Uma Questão de Classe”
03. “Rios, Pontes & Overdrives”
05. “A Praieira”
06. “Samba Makossa”
07. “Da Lama Ao Caos”
09. “Salustiano Song”
11. “Risoflora”

Chico Science e Nação Zumbi – Da Lama Ao Caos | #ouçaagora!

O auto-intitulado disco “The Stone Roses” e os primeiros passos do que viria a ser o britpop

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No Walkman, por Luis Bortotti

The Stone Roses surgiu no final de década de 80, em uma fase em que a música britânica ainda procurava alguma banda independente para guiar e acertar os rumos musicais da terra da Rainha, tomados pelas raves acid house. Era o surgimento do movimento indie rock de Manchester, classificado como madchester.

Após conseguir um contrato com a nova Silverstone Records, o The Stone Roses gravou seu álbum de estreia entre 1988 e 89, sendo lançado em março de 1989. A banda, liderada pelo arrogante vocalista Ian Brown, estava pronta se tornar o novo nome do rock britânico.

O disco The Stone Roses trouxe aos ouvidos da mídia uma mistura do melhor que já tinha tocado na Inglaterra: o pop dos Beatles e Byrds, um pouco do punk do The Clash, os riffs de Pete Townshend do The Who e muito da obscuridade do indie do The Smiths e Jesus and Mary Chain. Somado a isso, uma arrogância egocêntrica positiva que fez eles buscarem ser  a melhor banda do mundo.

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Poucos discos conseguiram manter a força e qualidade em todas as suas músicas como este. Logo de início, temos o riff de baixo hipnotizador de “I Wanna Be Adored”, que diz que garotos simples não precisam se negar para serem adorados. Ela nos introduz a ideia da obra-prima que estamos prestes a escutar.

A sequência é magistral, com a bela “She Bangs The Drums” que dita melodicamente o futuro da música, o hit ideal para colocar a banda nas paradas e limpar o lixo artificial que dominava até aquele momento. “Waterfall” vem em seguida para apaixonar os tímpanos dos ouvintes. A trilha limpa e direta mantém sua força com “Bye Bye Badman”, que revive a revolução estudantil francesa de 68, e é coroada com “Elizabeth My Dear”, mostrando que a banda expelia muito de atitude alternativa.

O álbum se encerra de forma genial com a longa e poderosa “I Am The Resurrection”, com sua jam session final. Era a ressurreição do rock britânico, pronto para tomar novos ares com o britpop na década de 90.

The Stone Roses – The Stone Roses | curiosidades

– Os limões na capa do álbum são referência às revoltas estudantis que ocorreram na França em maio de 1968. Os estudantes chupavam limões para escapar dos efeitos do gás lacrimogêneo.

– A capa foi criada pelo guitarrista John Squire e se tratada de uma obra inspirada pelo pintor Jackson Pollock.

– A versão americana de The Stone Roses” ganhou a inclusão de “Elephant Stone”, um dos primeiros singles da banda antes do lançamento do primeiro disco.

The Stone Roses – The Stone Roses | #temqueouvir

  1. “I Wanna Be Adored”
  2. “She Bangs The Drums”
  3. “Waterfall”
  4. “Made of Stone”
  5. “I Am The Ressurection”

The Stone Roses – The Stone Roses | #ouçaagora!

“The Bends”: o jovem e visionário segundo álbum do Radiohead

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No Walkman, por Luis Bortotti

“The Bends” é o segundo álbum do quinteto britânico Radiohead e o responsável por ditar as primeiras mudanças sonoras que a banda teria a partir dali.

Com o enorme sucesso alcançado com seu álbum de estreia, “Pablo Honey”, graças ao single britgrunge “Creep”, muito se esperava do segundo trabalho do Radiohead. Com isso, a banda se deparava com um grande dilema: seguir com a atitude adolescente que os apresentou ao mundo ou focar em uma mudança com os reais ideais sonoros da banda?

O Radiohead foi além. Gravou a sua obra-prima. Muito com os ruídos do trabalho inicial, mas também com a injeção milimétrica dos elementos eletrônicos que estariam presentes em todos os trabalhos seguintes da banda.

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Com “The Bends”, o Radiohead nos introduz uma obra sólida, suave e devastadora. Desde de sua abertura, com a agressiva e futurista “Planet Telex”, até chegar à fantasmagórica ópera urbana “Street Spirit (Fade Out)”. Aqui, o Radiohead soa perfeitamente jovem e visionário.

O álbum consegue emplacar deliciosas e inteligentes baladas acústicas com “High And Dry”, “Fake Plastic Trees” e “(Nice Dream)” e, ao mesmo tempo, oferecer misturas complexas de ritmos, cordas e efeitos, com “Bones”, “My Iron Lung” e “Black Star”.

No geral, “The Bends”, lançado em 1995 pela Parlophone, é pandemônio sonoro que possui um conceito. Obra-prima da banda, um dos melhores da década e a distorção sincera e inicial de uma das melhores bandas de rock alternativo de todos os tempos.

RADIOHEAD – THE BENDS | Curiosidades

– “The Bends” foi gravado entre agosto e novembro de 1994, em três estúdios: Abbey Road e RAK, em Londres, e The Manor, em Oxfordshire.

– É considerado pela Rolling Stone como o 110º melhor álbum de todos os tempos.

– Está presente no livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer.

RADIOHEAD – THE BENDS | #temqueouvir

01. “Planet Telex”
03. “High And Dry”
04. “Fake Plastic Trees”
05. “Bones”
07. “Just”
08. “My Iron Lung”
12. “Street Spirit (Fade Out)”

RADIOHEAD – THE BENDS | #ouçaagora!

“Crooked Rain, Crooked Rain” (ou Quando a MTV finalmente reconheceu o Pavement)

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No Walkman, por Luis Bortotti

O Pavement havia feito um pouco de barulho (literalmente) na indústria musical com o seu primeiro disco, o aclamado Slanted And Enchanted”. Porém, em 1994, já com uma boa quantia de fãs e alterações em seus membros, a banda lançava Crooked Rain, Crooked Rain”.

O disco apresentava uma tradicional sonoridade tomada pelas belas excentricidades de guitarras e barulhos que se encaixavam perfeitamente nas estruturas quebradas das canções, guiadas pelo vocal preguiçoso e cortante de Stephen Malkmus. Mas a banda havia evoluído, e o ouvinte percebia isso. As letras, assinadas por Malkmus, expressavam ideias um pouco aleatórias, mas que tocavam e representavam bem o cotidiano passado pelos jovens dos anos 90.

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Mesmo sendo um som com passagens experimentais e gravado com técnicas lo-fi, a banda conseguiu firmar um sucesso comercial, com execuções de suas músicas em rádios e TV. A MTV abraçou o vídeo da descomplicada “Cut Your Hair”, que impulsionou a consagração de canções com a mesma estrutura simples, direta e sarcástica, como “Gold Soundz” e “Range Life”, com sua pequena crítica ao Smashing Pumpkins e Stone Temple Pilots.

O segundo álbum do Pavement, “Crooked Rain, Crooked Rain”, pode não ser considerado tão influenciador como o seu antecessor, mas atingiu um grau de sonoridade maior, sendo a base para a expansão do rock alternativo na década de 90 e das bandas de indie rock da primeira década do século XXI.

 

Pavement – Crooked Rain, Crooked Rain | Curiosidades

– O disco foi relançado em 2004 pela Matador Records com o título Crooked Rain, Crooked Rain: LA’s Desert Origins”, no formato duplo, com a inclusão de B-sides, demos e outras raridades.

– Esse foi o primeiro disco do baterista Steve West, que entrou no lugar de Gary Young, e do baixista Mark Ibold e do percussionista Bob Nastanovich.

– A canção “Silence Kid” aparece na contracapa do álbum com um erro de grafia, sendo nomeada como “Silence Kit”.

Pavement – Crooked Rain, Crooked Rain | #temqueouvir

01. “Silence Kid”
03. “Stop Breathin”
04. “Cut Your Hair”
06. “Unfair”
09. “Range Life”

Pavement – Crooked Rain, Crooked Rain | Singles

“Cut Your Hair” | February 1994

“Haunt You Down” | February 1994

“Gold Soundz” | June 1994

“Range Life” | January 1995

OUÇA: Pavement – “Crooked Rain, Crooked Rain”

A fita K7 com “No Alternative” e uma das melhores introduções ao rock alternativo

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No Walkman, por Luis Bortotti

“No Alternative” é uma compilação lançada em 1993 em prol da luta de combate à AIDS, da Red Hot Organization, pelo selo Arista. Idealizada por Paul Heck e Chris Mundy, que passaram 2 anos montando o projeto todo, a obra trouxe grandes nomes do rock alternativo que dominava as paradas mundiais no começo da década de 90.

Meu primeiro contato com o álbum foi totalmente inconsciente, afinal, emprestei de um amigo a fita K7 que tinha uma música inédita do Nirvana. Era apenas uma música que eu queria escutar (ainda mais porque na época eu praticamente só escutava o trio de Aberdeen), entretanto, acabei recebendo de bandeja uma dezena de músicas sensacionais de bandas e artistas que passaria a escutar nos anos seguintes.

A tal música do Nirvana, de fato, é uma das principais do disco. Não creditada na versão original da compilação, “Sappy” é uma sobra de estúdio do In Utero” (também de 1993). Entretanto, já era tocada pela banda desde 1989, tendo versões rejeitadas pré-Nevermind”. Na época do lançamento do disco, ela ficou conhecida pelos fãs como “Verse Chorus Verse”, que viria ser o nome dado a outra canção da banda.

Claro que escutei à exaustão a música, afinal, era uma música inédita da minha banda preferida. Ainda mais em uma época em que a internet ainda caminhava em downloads lentos e com poucas fontes de B-sides e raridades. Mas, com o tempo, arrisquei conhecer o que aquela pequena fita tinha a me oferecer. E foi amor à primeira ouvida de várias músicas.

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Entre faixas inéditas, sobras de estúdios e versões ao vivo, “No Alternative” se mostrou um disco incrível. Mesmo eu mal conhecendo quem estava ali.

Uma das primeiras que fez eu viciar o botão de rewind foi “Iris”, do The Breeders, em uma poderosa versão ao vivo. Com ela, os caminhos para se viciar em The Breeders e Pixies estavam mais do que abertos.

O mesmo com o Pavement, que aqui marca presença com “Unseen Power of The Picket Fence”, b-side do single, que ainda seria lançado, “Shady Lane”, em plena declaração ao REM. Mal havia parado de ouvir e logo ganhei o Wowee Zowee” (sem encarte ou caixinha) de um ex namorado da minha irmã.

“No Alternative” é realmente um passeio por grandes ápices dos anos 90. A fita K7, com ele gravado, me apresentou o mundo do The Smashing Pumpkins, de Billy Corgan, graças a “Glynis”, “Zero” e “Bullet with Butterfly Wings”, que também estavam gravadas com o disco, e reforçou as primeiras escutadas de Soundgarden, afinal, eu estava descobrindo o grunge. O baixista doidão, Ben Shepherd, assina “Show Me”.

Do rock ao hip hop alternativo, com “It’s The New Style” dos Beastie Boys, de quem eu sempre adorava os clipes e depois iria pirar com o punk hop (???) do Licensed to Ill”, indo até o folk canadense de Sarah McLachlan, que me lembrava muito Alanis.

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O disco ainda conta com um dos pais do rock alternativo, Bob Mould, com “Cant Fight It”, Buffalo Tom, com “For All To See” e até Goo Goo Dolls fazendo cover de “Bitch” do Rolling Stones.

No total, são 19 fantásticas faixas lançadas no dia 26 de outubro de 1993, ou seja, na explosão da cena alternativa. No ano seguinte foi lançado um VHS, em parceria com a MTV, com videoclipes e performances ao vivo de algumas canções da compilação e de apresentações de outras dos artistas participantes e apoiadores da causa. O home video também vinha com informações sobre o combate à AIDS.

E fica a minha oferta de você adentrar aos anos 90 ao som da excelente compilação “No Alternative”, da Red Hot AIDS Benefit Series, uma coleção de compilações dos mais diversos gêneros musicais que arrecada, anualmente, importantíssimos apoios aos portadores de AIDS, além de conscientizar toda uma sociedade através da cultura pop.

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NO ALTERNATIVE 1993 | CURIOSIDADES

– O disco possui duas versões de capas diferentes. A versão com o garoto censurado não possui a faixa do Nirvana listada, já algumas versões do CD com a garota censurada na capa, possuem o nome gravado como “Verse Chorus Verse”.

– No Record Store Day 2013, “No Alternative” foi relançada pela primeira vez em vinil, em uma edição especial comemorativa de 20 anos. Curiosamente, algumas dessas versões também saíram sem os créditos ao Nirvana, mantendo assim a arte das primeiras prensagens.

– A versão em K7 possui duas músicas adicionais: “Burning Spear”, do Sonic Youth, e “Hot Nights”(live), de Jonathan Richman.

NO ALTERNATIVE 1993 | #TEMQUEOUVIR

1. “Superdermormed” (Matthew Sweet)
2. “For All to See” (Buffalo Tom)
7. “Unseen Power of the Picket Fence” (Pavement)
8. “Glynis” (The Smashing Pumpkins)
9. “Can’t Fight It” (Bob Mould)
10. “Hold On” (Sarah McLachlan)
11. “Show Me” (Soundgarden)
16. “It’s The New Style” (Beastie Boys and DJ Hurricane)
17. “Iris” (The Breeders)
19. “Sappy” (Nirvana)

NO ALTERNATIVE | OUÇA AGORA!

Uma incrível viagem de trem pela “Roça Elétrica” do Mercado de Peixe

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Mercado de Peixe - "Roça Elétrica"

No Walkman, por Luis Bortotti

O rock nacional ganhou novos beats no meio da década de 90, muito graças a explosão do manguebeat e seu conceito em conectar tradições culturais do Recife com os gêneros da música pop, no caso, rock e eletrônico. A consolidação deste formato foi essencial para o reconhecimento de inúmeras bandas do cenário brasileiro nos anos seguintes. E foi em 2003, quase 10 anos depois do surgimento do movimento mangue, que uma cena semelhante (e declaradamente inspirada) à recifense ganhou destaque nas rádios do país.

Para ser mais específico, em Bauru, cidade do interior de São Paulo. A banda Mercado de Peixe foi formada em 1996, porém foi com lançamento de seu segundo disco, “Roça Elétrica”, em 2003 pela Samacô (e relançado em 2004 pela Atração), que ela alcançou as rádios e TVs do país. Estava consolidada a cena pós-caipira (rock’n’roça) que, além da Mercado de Peixe, contava com nomes como Fulanos de Tal, Sacicrioulo (de outras cidades do interior), Matuto Moderno e Caboclada (da capital paulista).

E com esse disco, a banda inicia a fórmula em irrigar o rock com traços culturais, no caso do Mercado de Peixe com viola, sanfona e outras temáticas caipiras, e cria uma obra digníssima a ser respeitada a nível de Tonico e Tinoco.

“Roça Elétrica” é uma viagem de trem que corta planaltos de terras vermelhas paulistas, enquanto você toma um bom café e fuma um cigarro de palha.

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As letras, assim como o ritmo que mistura passado e presente, contam o cotidiano de uma cidade interiorana, exaltam a figura do homem trabalhador campestre e ainda relembram causos e personagens populares do passado. Em “Brasil Novo” (canção de abertura do disco), por exemplo, a chegada do trem a Bauru é relembrada, assim como Eni, uma prostituta que tinha um bordel na cidade nos anos 60, que é lembrada com saudades, uma sátira à famosa “Amélia” de Ataulfo Alves e Mário Lago.

Além disso, os canaviais à beira da estrada estão presentes em “Fogo No Canaviar”, assim como artistas populares em “Bernabé”, as duas ótimas canções que dão sequência ao disco.

Mas em “Roça Elétrica”, não é apenas o rock que se mistura com a moda de viola. Beats de música eletrônica estão presentes em mixagens incríveis e curiosas, como “Moda do Peão” e “Assim Que É O Sertão”, e aclamadas na declaração de abraço do mundo caipira à globalização, “Beats e Batuques”.

A tradição caipira é a semente principal do disco, entretanto, problemas sociais atuais (e que talvez tenham sido em um passado não tão distante) também fazem parte do plantio de boas canções do álbum. Dessa colheita podemos tirar “A Massa Alucinada” e a excelente “A.A.”.

No geral, “Roça Elétrica” é uma grande obra matuta, na qual a banda Mercado de Peixe conseguiu relembrar o saudoso estilo caipira de vida/cultural e atualizá-lo muito bem para os novos ouvidos do mercado fonográfico. Assim como Chico Science fez, alguns anos antes, com o seu maracatu atômico.

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MERCADO DE PEIXE – ROÇA ELÉTRICA | CURIOSIDADES

– O álbum Roça Elétrica conta com vinhetas de Cornélio Pires, um dos principais defensores da cultura caipira e patrono do movimento.

MERCADO DE PEIXE – ROÇA ELÉTRICA | #TEMQUEOUVIR

02. “Brasil Novo”
04. “Bernabé”
07. “Beats e Batuques”
08. “A Massa Alucinada”
10. “A.A.”
11. “Assim É Que É O Sertão”

MERCADO DE PEIXE – ROÇA ELÉTRICA | OUÇA AGORA!

Beck e sua grande miscelânea musical chamada “Odelay”

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No Walkman, por Luis Bortotti

Beck veio ao mundo comercial em 1994 quando estourou com o single “Loser”. Mesmo com seus álbuns apresentando a fuga do comum, ele foi aceito. E seu primeiro hit, classificado como um dos hinos da década de 90. Até que em 1996 chegou às lojas Odelay”, o segundo disco de Beck para um grande selo.

Talvez seu trabalho mais munificente. Um álbum que consegue apurar com o mesmo brilhantismo gêneros como rock, hip hop e folk. O álbum que mostrou ao mundo que o jovem garoto de 1994 era um gênio. O querido camaleão (homenageando David Bowie) dos anos 90.

“Odelay” contou com a produção dos Dust Brothers, responsáveis pela obra Paul’s Boutique” dos Beastie Boys, e a parceria com Beck se mostrou uma miscelânea de criatividade poucas vezes vista no meio musical.

A laureada “Devil’s Haircut” abre o disco com maestria. Riff pesado, batida dançante. Primorosamente seguida do riff combalido de “Hotwax”, que melhor pode ser classificada como uma música dos Beastie Boys após passarem uma semana na fazenda.

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O disco segue com sua perfeição. Ou melhor, majestosas imperfeições, como “Lord Only Knows”. Mas este é o propósito de Beck. Fugir, machucar, abater. A comprovação? “The New Pollution”, um sussurro beatlemaníaco feito para as rádios da madrugada sem sintonizações.

O violão inseguro intercala acordes com as batidas do hip hop. A gaita grita por “Jack-Ass”. O funk fustiga por “Where It’s At”. Isso sem citar “Sissyneck”, “Readymade” e “High 5”, cada uma sonoramente perfeita para as mais diversas horas do dia.

Melodicamente eclético, “Odelay” é mais uma obra-prima moderna. Fresco para os ouvidos atuais, revolucionário para quem pode acompanhar cada acorde em seu exato momento do seu lançamento.

BECK – ODELAY | CURIOSIDADES

Beck “Odelay” venceu dois Grammy Awards, um na categoria “Best Alternative Music Performance” e a faixa “Where It’s At” na categoria “Best Male Rock Vocal Performance”.

– Este álbum está na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame.

– Em julho de 2008, o disco tinha vendido 2 milhões e 300 mil cópias nos Estados Unidos.

BECK – ODELAY | #TEMQUEOUVIR

“Devil’s Haircut” (1) – “Lord Only Knows” (3) – “The New Pollution” (4) – “Jack-Ass” (7) – “Where It’s At” (8)

 BECK – ODELAY | OUÇA AGORA!