É verdade sem mentira certo muito verdadeiro: Jorge Ben – “A Tábua de Esmeralda” (1974)

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Quem escutava Jorge Ben (ainda sem o Jor) de Samba Esquema Novo”, com suas letras singelas, ou mesmo o via como “membro honorário” do tropicalismo, não imaginaria que ele se dedicava a estudos profundos e esotéricos.

Quando garoto, Jorge se dividia entre a paixão por futebol e a devoção à espiritualidade. Chegou a ser seminarista por dois anos em busca de conhecimento sobre São Tomás de Aquino, o qual admirava e era devoto. Até mesmo aprendeu latim para se aprofundar nas obras do santo, como por exemplo a “Suma Teológica”, que trata da natureza de Deus e Jesus Cristo, e das questões morais.

Resultado de imagem para jorge ben 1974Assim como o cristianismo, a alquimia também fazia sua cabeça. Jorge vivia entre especialistas e estudiosos da prática antes de ingressar na música. Disse ele certa vez: “Tinha um grupo de adeptos maravilhosos, eram da América do Sul. E tinha um brasileiro, professor ou reitor de faculdade, de São Paulo. Junto com um grupo de adeptos da alquimia, ele viu uma transmutação, em 1958. A todo lugar que tinha ourives, eu ia com outro amigo estudante ver como se fazia ouro. E a gente ficava indignado, pô, aquele ouro todo.”

Assim como os alquimistas, os músicos da década de 1960 começaram a experimentar, juntar tendências e elementos de culturas diferentes. Quando em 1966 John Lennon criou a inesperada “Tomorrow Never Knows” com a intenção de fazê-la soar como um mantra tibetano, o beatle não apenas quis se impor como também desafiou o ouvido de seu público, que vinha sendo agraciado com melodias pegajosas e temas fáceis por um bom tempo.

A música era um laboratório, e as fórmulas mudavam naturalmente de trabalho a trabalho. Experimentar era uma tendência bem-vinda aos que tinham cacife, e Jorge Ben era um desses raros, capazes de fazer com que o inusitado caísse nas graças do ouvinte. Para ele, o início dos anos 1970 foi uma reviravolta tão brusca quanto a de seus contemporâneos estrangeiros.

“Até onde a música pop poderia chegar?” Pensando assim, Jorge abriu as portas para o esoterismo e temas não convencionais no gênero que fazia, desbravando uma nova trilha àqueles que se aventurassem a expandir os conceitos da MPB. O resultado foi A Tábua de Esmeralda”, no qual se via o carioca em seu momento mais criativo e venerado.

Resultado de imagem para jorge ben 1973Longe de abordar apenas o trivial, Jorge queria para este trabalho uma diversidade de signos em conexão. Uma combinação de agricultura celeste com astrologia, Zumbi e vida extraterrestre; Nicolas Flamel com Gato Barbieri. Embora complexo na teoria, a intenção de Jorge era singela como sempre: arquitetar uma experiência sonora para que quem escutasse se sentisse bem, apenas isso. Esse desejo de escancarar seus interesses pessoais em sua música era antigo, mas é claro que não foi fácil de conseguir. Tendo em vista que aqueles temas seriam pouco rentáveis no mundo da indústria fonográfica, naturalmente a ideia não convencera de cara alguns executivos da gravadora, que bateram o pé para que o projeto não saísse.

O compositor sempre afirmou que muitos na gravadora Philips relutavam ao aceitar seus trabalhos, com a justificativa de que não venderia bem. Mas os astros estavam a seu favor. Justamente por saber do pouco apoio vindo de alguns da empresa, Jorge decidiu vender seu peixe diretamente com André Midani, presidente da gravadora na época, explicando detalhadamente do que se trataria o LP.

Baseando-se nas palavras de Hermes Trimegisto e sua “celeste tábua de esmeralda”, a qual consta o texto que deu origem à alquimia islâmica e ocidental, Jorge examinou: se o místico afirma que tudo é adaptação, por que afinal não adaptar sua arte em uma alquimia musical? A ideia era essa. Midani, grande admirador de tudo o que Jorge produzia, deu carta branca ao aconselhá-lo a gravar as músicas exatamente como ele bem entendesse. Ao receber a benção, o carioca entrou no estúdio no primeiro semestre de 1974.

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Cercado de uma áurea festiva e permeado pelo suingue, Jorge e sua banda criaram para esse álbum um clima híbrido e único, no sentido mais literal da palavra. Misturar a essência do ritmo brasileiro e o esoterismo universal: é aí que mora a graça de A Tábua de Esmeralda. Ao longo de todo o LP, o grupo segura a onda enquanto seu mestre esbanja o poder de seu violão e viaja em assuntos de seu interesse.

Nesse sentido, “Os Alquimistas Estão Chegando os Alquimistas” abre o repertório dando o tom de todo o trabalho. E mesmo mencionando “potes de louça”, “destilação”, “cadinhos” e ”regras herméticas”, a música caiu rapidamente nas graças do público, sendo uma daquelas que não podem faltar em seu show até hoje. Assim como a faixa de abertura, “Hermes Tri” é a quintessência de sua alquimia sonora. Jorge disseca o tema declamando o texto original presente na tábua de esmeralda enquanto sua banda o apoia com um samba-rock moderado.

Os arranjos de cordas de Osmar Milito, Darcy de Paulo e Hugo Bellard que surgem ao longo do disco introduzem na musicalidade do poeta da simpatia uma profundidade que vai muito além de sua natureza rítmica. Isso acontece em “Errare Humanum Est”, uma transcendental viagem ao espaço. No cume do experimentalismo ainda sem soar prolixo (nem exagero), a canção que fala sobre sondar o além e reaviva a questão do livro Eram os Deuses Astronautas”? destoa de qualquer música já feita no Brasil.

Mas não é só pelo experimentalismo que o álbum é excepcional. Jorge retoma suas letras diretas e ao sambão tradicional ao recordar de seus ídolos seculares, como em “O Namorado da Viúva”, o qual o músico afirma ser o alquimista do século XV Nicolas Flamel. A tal viúva da canção seria uma bela e rica mulher que botava medo nos homens, pois já havia perdido três maridos misteriosamente. Flamel foi esse quarto sujeito que topou se ajuntar. Já o muso da nonsense “O Homem da Gravata Florida” é Paracelso, outro alquimista.

Ainda que focado nesse turbilhão de referências, Jorge não abriu mão dos temas amorosos e nem das mulheres com nomes de flores: “Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar”, “Menina Mulher da Pele Preta” e “Magnólia” compõem uma trinca exemplar do pop tupiniquim. Saindo um pouco do foco alquímico, o compositor brincou com a língua inglesa na gospel “Brother”, divagou sobre o valor do tempo em “Cinco Minutos” e retomou culturas ancestrais na épica “Zumbi”, na qual o músico fez uma homenagem ao símbolo máximo da rebeldia dos escravos.

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“A Tábua de Esmeralda” não foi um sucesso de vendas como alguns de seus álbuns anteriores, embora muito elogiado pela imprensa da época. Como muitos de seus contemporâneos, o LP ganhou seu devido reconhecimento com o passar do tempo. Assim como grande parte de seu público, o próprio Jorge considera “A Tábua de Esmeralda” como o seu trabalho essencial: “Esse disco é tudo pra mim”, como diria anos depois.

Como em outros momentos cruciais, mais uma vez, o visionário Midani apostara no “cavalo certo” e saía de uma briga com a razão. Depois de obras como Araçá Azul”, de Caetano Veloso, e “A Tábua de Esmeralda” ficou claro que na Philips o artista podia falar que seria escutado – ao menos pelo seu patrão. Um raro caso de apoio irrestrito na cultura de consumo.

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Renan Inquérito

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foto por Márcio Salata

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje o convidado é Renan Inquérito, do Inquérito, banda de rap de Nova Odessa.

The Isley Brothers“Between the Sheets”

Esse som é de 1983 e a primeira vez que eu ouvi foi através da música “Big Poppa”, do Notorious BIG, em 1994, depois no som “Livro da Vida”, gravado pelo Sistema Negro no álbum “A Jogada Final”, de 1997, ambos samplearam essa música, e de tanto ouvir esses dois raps, fui atrás do original, mas na época não tinha internet, foi no garimpo mesmo, falando com os colecionadores de disco, os nego véio, aí cheguei no disco do The Isley Brothers. Esse som me faz lembrar todo o processo de pesquisa pra se fazer um rap na década de 1990, isso tem um valor muito grande, ainda mais hoje em dia que os moleques só dão um Google. Pra que vocês tenham uma ideia, essa música foi sampleada por mais de 30 rappers diferentes só nos EUA.

J Cole“Sideline Story”

Eu conheci esse som e fiquei tão viciado nele que escutei no repeat por dias seguidos, nem sequer sabia do que ele estava falando, nem fui buscar a tradução até hoje, eu apenas sentia o que ele me trazia na época, estava há muito tempo sem escrever nada e passando por um período complicado da minha vida, então de tanto ouvir comecei a escrever uma letra em cima dele, fiz a letra todinha em cima desse som e curti tanto o resultado que decidi começar a fazer um disco novo imediatamente. A música que eu escrevi em cima chamava-se “Rivotril”, e depois mudei o nome para “Tristeza”, o disco que ela me inspirou a começar foi o “Corpo e Alma”, 2014.

Gonzaguinha“João do Amor Divino”

Esse som é de 1979, mas me soa tão atual, tão rap, impressionante! A letra conta a história de um pai de família que é “profissional em suicídio” e literalmente se mata pra garantir o sustento da casa. A narrativa vai mostrando todo o percurso traçado por ele até o dia em que decidiu pular de um prédio no centro da cidade pra arrancar uns trocos dos curiosos. Uma narrativa direta, sem refrão, tipo um rap storytelling. Eu penso que Gonzaguinha foi um MC antes do rap existir no Brasil, morreu jovem e deixou várias outras músicas de protesto, como por exemplo “Comportamento Geral”. É um artista que me influencia muito com a sua poesia.

F.UR.T.O.“Sangueaudiência”

Esse disco é foda, não dá pra indicar uma música só, é o único disco do F.UR.T.O., banda fundada pelo baterista e compositor Marcelo Yuka depois de ter saído do O Rappa. Todas as composições são do Yuka, letras extremamente politizadas, como “Amém Calibre 12”, “Ego City” e “Verbos a Flor da Pele”, críticas ácidas ao capitalismo e à hipocrisia da sociedade. Ouvi muito esse disco na época, 2005, porque pra mim ele era uma espécie de rap eletrônico tupiniquim, e também porque depois da saída do Yuka do O Rappa, eu me sentia órfão de letras politizadas. Tem uma frase numa letra que eu nunca esqueci, ele vem contando a história de uma menina da favela e de repente diz que ela era “mãe demais pra ser jovem”.

Zeca Baleiro“Eu Despedi o Meu Patrão”

Adoro as letras do Zeca, inteligentes e sarcásticas, sempre cheias de figuras e imagens. Esse som faz parte do álbum “Pet Shop Mundo Cão” (2002), que tem grandes clássicos da sua carreira, como a canção “Telegrama” que toca muito até hoje. Essa faixa em especial tem a participação do pessoal do Záfrica Brasil, Fernandinho Beat Box e Gaspar, que também estão em outras faixas do disco, que aliás é cheio scratches. Chapo quando ele diz: “não acredite no primeiro mundo, só acredite no seu próprio mundo!”

O desenvolvimento da nova Refavela baiana

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O rapper baiano Hiran

Em 1996, Gilberto Gil, no documentário “Tempo Rei”, entra numa grande viagem. O documentário é fantástico e aborda toda a carreira de Gil falando de muitos aspectos importantes de sua carreira e do Brasil. Mas um tópico em especial chama atenção – o da Refavela. Num movimento muito doido, ao lado de Carlinhos Brown são tecidos comentários sobre o que é exatamente a Refavela, que em 1977 foi nome de faixa, que deu nome a disco, no meio da “trilogia Re”. Brown afirma que a Refavela é “refazer o barco, refazer a vela”, regressar no caminho da diáspora, saindo ou não do Brasil. Gil afirma que Brown é a “prova viva” do que ele viu tantos anos antes na Nigéria com Fela Kuti e no Brasil com o “Black Jovem, o Black Rio”. A nova geração de pretos e pretas em “blocos do CNH”, periféricos, que traçavam seus caminhos na música popular.

A Refavela é a diáspora e se faz presente e se renova a todo tempo. Hoje, pretas e pretos do Brasil todo “refazem o barco, refazem a vela”. Quero falar nesse texto sobre a minha Bahia, especificamente. Dentro dela, posso falar de quatro movimentos no presente momento (dentre tantos outros) – o movimento de Luedji Luna, o movimento de Russo Passapusso (Baiana System), o movimento de Hiran e o movimento Attøxxá. Há interseções entre esses quatro movimentos, mas cada um traça caminhos muito próprios e peculiares.

Luedji, há três anos em São Paulo, traça caminhos que dialogam com o que Gil fazia em 77 na Refavela. É a Refavela em sua renovação! O batuque e o ritmo tipicamente africano se faz presente na sua música, mas aliado a um tom moderno e típico da geração em que vivemos – conectado e da era das redes sociais. Luedji, em entrevista ao site Cult.E.T.C, disse que começou a escrever num movimento de busca por expressão, por existência – uma resposta aos racistas de sua escola. A escrita se transformou muito tempo depois em cantoria e os racistas de merda devem se arrepender de terem acordado em Luedji o potencial revolucionário que todo fruto da diáspora carrega consigo. Revolução (também) musical que se faz presente no excepcional disco “Um Corpo no Mundo”, de 2017. A faixa de mesmo nome vai no mais profundo da alma dialogando com a travessia do Atlântico e com São Paulo (“E a palavra amor, cadê?”). Mulher, preta, nordestina e foda demais!

Russo Passapusso, por sua vez, traça dois caminhos distintos. No caminho solo e no Baiana System há interseções, mas os resultados finais são diferentes. Se na carreira solo há a sutileza de “Areia” e “Flor de Plástico” (“Paraíso da Miragem”, 2014), no Baiana System o movimento é outro, contrastando a cidade alta e a cidade baixa, no batidão eletrônico (“Duas Cidades”, 2016). “Autodidata” que fecha o “Paraíso da Miragem” é o que se assemelha mais com Baiana System, mas ao mesmo tempo é muito diferente. São escolhas que seguem caminhos diferentes, mas que guardam uma semelhança: o fato de que a Baiana System e o “Paraíso da Miragem” são sons “brasileirinhos pelo sotaque, mas de língua internacional”. São sons mundiais, globais, mas ao mesmo tempo que não perdem as raízes. É mais uma vez a Refavela em ação!

Não é à toa que está estourando tanto Brasil afora. O som é da mais alta qualidade nos dois projetos. Quem sabe Russo seja o Chico Science de nossa era. O tempo dirá.

Attoxxa segue o caminho do pagodão baiano. O “samba paradoxal” da Refavela e o ritmo moderno da “popa da bunda”. Durante o show, usam como sample de uma das músicas “Feeling Good” de Nina Simone e fazem questão de afirmar isso. Se Márcio Vitor mudou a cena da música baiana no início dos anos 2000, Attoxxa dá outro tom a cena em 2018. Convoca inclusive o próprio Márcio Vitor para fazer essa mudança de tom em conjunto. “Rebolar a Raba” também faz parte da diáspora, afinal, foi o branco europeu que inventou que a ginga africana era pecado. “Rebolar a Raba” também faz parte da revolução antiracista.

Hiran. LGBT e vindo do interior da Bahia traça caminhos belos e ambiciosos. Há duas semanas lançou o clipe de “Tem Mana no Rap” – simplesmente sensacional. Dá pra chamar de um “Abre Alas” dos nossos tempos. No beat dá pra escutar em loop os gritos de “Ilê, Ilê, Ilê, Ilê”. As referências são claras e estão na Bahia e na África (Ilê Aiyê, procure que você vai entender). Lançou na ultima semana o seu primeiro disco e no dia anterior a postagem deste texto foi ao ar o “Cultura Livre” com a sua presença. Hiran grita: “eu não sou pauta pras suas ofensas!” e afirma “baiano pode mudar o Brasil”. Assino embaixo. Não só pode como já está mudando. Desde a invenção do samba, passando pela Refavela até chegar na nossa geração.

A diáspora, a luta, o potencial revolucionário e a excelente qualidade musical são pontos em comum para todos os citados acima.
A renovação sem perder as raízes é regra. Ainda bem.

Confira uma playlist sobre a Refavela baiana:

referências e links extras:

Entrevista com Luedji Luna, cantora baiana que

Assista!

“Tem Mana no Rap” Sim!! Conheça o primeiro álbum do rapper baiano Hiran

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Bruno Kayapy, guitarrista do Macaco Bong

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Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas ou discos que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, o convidado é o compositor Bruno Kayapy, guitarrista da Macaco Bong.

Spice Girls – “Spice”

Se a ideia é citar referências que não são tão óbvias pra mim com certeza o álbum “Spice”, das Spice Girls é o primeiro da minha lista. Um clássico da world music setentista, sou um fanático por world music e bandgroups de super-produção. Particularmente, acho a história das Spice Girls uma história de união, força, harmonia, superação e fraternidade como jamais existiu em qualquer outra banda, demorou muito para as pessoas perceberem o quanto as Spice Girls foram importantes na juventude noventista. E também cito esse disco porque foi produzido por três gênios da produção musical de world music; me refiro a Absolute, Andy Bradfield, Matt Rowe e Richard Stannard.

Madonna“Like a Virgin”

Muita gente não imagina, mas sou fanático pelos trabalho da Madonna. Pra mim ela foi a grande visionária da música pop oitentista, Like a Virgin é uma obra prima, é um disco que vivo procurando em vinil e não acho com muita facilidade. Essa maravilha de disco foi produzido pelo ídolo da guitarra Nile Rodgers, que produziu “Get Lucky”, do Daft Punk.

Bjork“Vespertine”

Quando ouvi Bjork pela primeira vez foi amor à primeira vista. Sou completamente apaixonado pela concepção criativa dela. Pra mim esse é o grande álbum da primeira década de 2000. Obra-Prima! Tenho muitas influências da Bjork, especialmente na elaboração das minhas linhas melódicas na guitarra. Tudo que eu mais gostaria era que o som da minha guitarra tivesse a voz e o timbre da Bjork, os vibratos dela são sutis, ouvir a Bjork pra mim é como se as cordas vocais dela tivessem um Jimi Hendrix grudado em cada corda vocal. Amo todos os álbuns, mas o meu preferido é o “Vespertine”, achei que ela atingiu um nível de produção e concepção dos mais absurdos já feitos na história da música popular.

Daft Punk“Homework”

Esse álbum! o que falar sobre este álbum? Sinceramente não tenho palavras para falar sobre o Homework. Simplesmente fascinante! Produzir isso deve ter sido a coisa mais divertida na história de gravações de álbuns. Impactante igual esse disco, não existe nada nem próximo, nem nos dias de hoje. Amo Daft Punk! Uma referência que sempre tive muito antes de montar o Macaco Bong em 2004.

Lenine“Na Pressão”

Para muitos isso com certeza pode chocar! Posso dizer tranquilamente que ouvir o Lenine e esse disco “Na Pressão” me influenciou 99,9% na maneira como eu criei o meu vocabulário musical e acima de tudo o meu estilo de tocar guitarra e conceber o som do Macaco Bong dos pés à cabeça. O Lenine é uma das influências mais “não-óbvias” que eu poderia citar aqui. Se você ouvir os álbuns dele conhecendo bem o som do Macaco Bong, tão logo você vai perceber que chupei muita coisa dele para o estilo de música que faço. Foi muito legal pra mim, era meados de 1999, eu cheguei em uma loja de CD em um shopping da cidade e vi esse CD como destaque na loja, era o lançamento do mês, a capa me chamou a atenção com o carro pegando fogo, na hora eu achei que fosse “Leoni”, não tinha lido direito e não dei tanta bola porque admiro muito o Leoni e sou fã da genialidade de guitarra brasileira dele há muitos anos inclusive, mas não era exatamente o que eu procurava naquele dia, como era de costume em toda loja de CD você tinha tocadores cd player espalhados pela loja com headphone pra você poder ouvir um preview do álbum antes do comprar, foi quando coloquei o Na Pressão pra tocar e, como de costume particular, eu já coloquei na segunda música, eu tinha essa mania de ouvir a primeira faixa do álbum por último e começar sempre pela segunda faixa do disco e de repente começa a tocar a própria música faixa título do álbum ¨Na Pressão¨, que música maravilhosa, me arrepiou dos pés à cabeça, a percussão do Marcos Suzano, as linhas de guitarra matadoras do Lenine foi a descoberta do ano pra mim. Ouvi esse disco umas 100 vezes por dia, tirando todas as músicas do álbum de ouvido no meu velho violão de corda náilon Di Giorgio. Foi uma escola descobrir a afinação, encontrar os acordes, entender o raciocínio tonal dele, Lenine é um samurai. Amo esse cara, ouço as obras dele desde criança, eu sinto uma vibe mato-grossense, ele tem a selvageria pantaneira no som dele, por isso a identificação com o som dele foi de imediato por sentir coisas na linha do som do Lenine que me arremeteu a coisas regionais do Mato Grosso do Sul que amo ouvir como Guilherme Rondon, Tetê Espíndola e Almir Sater. Apesar de mato-grossense, a minha paixão real é pela música sul-matogrossense, é meio que o nosso Clube de Esquina, Guilherme Rondon é o nosso Milton Nascimento ao mesmo tempo que você tem figuras fortíssimas como a Tetê, única e incomparável, faz o que quer com a voz dela, com a música, a verdadeira bruxa do cerrado. Muito curioso pra mim naquela época foi descobrir que Lenine era pernambucano, confesso que depois de conhecer Lenine foi quando passei a me interessar mais por Chico Science, Nação Zumbi e conhecer melhor as coisas que tinham ali, era tudo muito novo na época, você não ouvia falar desses nomes facilmente em uma cidade como Cuiabá em meados dos anos 90, Lenine foi a porta de entrada por minha paixão pela música pernambucana.

Gabriela Garrido expõe suas forças e fragilidades em seu segundo EP, “Entre”

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A cantora e compositora carioca Gabriela Garrido traz para suas letras toda sua carga emocional, seja ela cheia de força ou mostrando suas fragilidades. Isso fica ainda mais evidente em seu segundo EP, “Entre”, lançado este ano, explorando novas linguagens sonoras e o vai e vêm das emoções humanas em busca de um equilíbrio.

Seu EP de estreia, “Mergulho”, foi lançado em 2016 e contava histórias de amor e entrega, além de experiências pessoais que mostravam a aventura que é entrar no mundo da música. “Na época do “Mergulho” eu estava muito ansiosa pra fazer aquilo, e muito impressionada com tudo, também. O “Entre” foi todo mais planejado, mesmo que o orçamento também fosse curto. Pude olhar com mais carinho pra cada canção, para o lançamento, clipes, etc”, conta.

– Me conta um pouco mais sobre o “Entre”, que acabou de ser lançado!

O “Entre” é meu segundo EP, que traz algumas canções antigas e novas, bem diferentes entre si em questões de arranjo, mas que têm um tema similar: elas falam sobre forças e fragilidades, sobre abraçar ou negar as nossas emoções. Por isso o nome, como se fosse a busca de um equilíbrio no meio disso.

– E isso também se mostra na capa, né. De quem é a arte?

Sim, super! Na capa, na verdade, a gente quis fazer uma alusão ao “Entre” de “meio” e ao “Entre” de “entrar” mesmo – já que se tratam de letras bem íntimas – por isso as portas. Quem fez foi uma grande amiga, designer e artista, Clarisse Veiga.

– E como foi a composição dessas músicas?

Acho que algo que elas têm em comum no quesito composição é o fato de que todas foram escritas bem rápido, na maior parte em madrugadas de insônia (comigo costuma ser assim, haha). Acho que “Helena” foi a única que durou mais tempo, até por ser uma música mais relaxada. As outras realmente pareceram que tinham que ser colocadas pra fora logo, sabe. Passei um tempo tocando essas composições bem como elas nasceram, de forma bem simples, com voz e violão, mas foi fazendo os arranjos com a banda que eu realmente pude dar a força que eu queria!

– Aliás, me conta mais do clipe! A ideia foi muito boa, ficou sensacional!

“De Bicicleta” foi a típica ideia doida que eu achei que não daria em nada e acabou ficando muito legal, hahah! Eu tive uma sorte enorme de ter amigos que compraram muito essa viagem e toparam fazer aquilo comigo. Fomos em lojas de festa no centro da cidade e compramos vários acessórios, decoramos uma sala da clínica do meu pai – que é fisioterapeuta – e pegamos emprestado a bicicleta ergométrica de lá. Deu nisso! Foi super divertido e custou muito pouco. Tenho orgulho do que fizemos com poucos recursos!

– E como esse EP se difere de “Mergulho”, seu primeiro trabalho?

Acho que, com o “Entre”, eu já me senti mais “por dentro” do que é gravar músicas e pude ter mais paciência e experimentar mais nos arranjos. Na época do “Mergulho” eu estava muito ansiosa pra fazer aquilo, e muito impressionada com tudo, também. O “Entre” foi todo mais planejado, mesmo que o orçamento também fosse curto. Pude olhar com mais carinho pra cada canção, para o lançamento, clipes, etc.

– Quais as suas maiores influências musicais em sua carreira?

Minhas influências vão mudando muito com o tempo, mas existem artistas que com certeza contribuíram muito para que eu começasse na música, como Tegan and Sara, Paramore, Cássia Eller e Cazuza. Esses eu sempre cito. Mas no “Entre”, por exemplo, tive referências como Courtney Barnett e Johnny Hooker. É sempre uma mistura doida mas que me ajuda muito, hahah. Falei bastante sobre isso na coluna “Construindo” aqui do site, acho legal conferir!

– Como começou sua carreira?

Na época da escola eu tive uma banda com amigos, tocava nos saraus, e foi aí que eu me apaixonei por cantar e compor. Fiquei um tempo parada depois que nos formamos e pude perceber que não podia deixar a música de lado e que não tocar me deixava bem triste. As músicas do “Mergulho” já existiam nessa época, e fui aos poucos me convencendo de que eu precisava lançá-las, até que finalmente consegui, e estamos aqui. Mesmo com todas as dificuldades, eu não me perdoaria se parasse de fazer música.

– Como você tem visto a cena independente? E mais que isso, como você se vê nesse mundo?

Eu me surpreendo mais a cada dia com os artistas independentes brasileiros! Por mais que seja muito difícil alcançar o mainstream, eu vejo que estão se formando muitos nichos de pessoas que consomem/alimentam a música independente, e isso porque temos muitos artistas de qualidade, de diversos gêneros musicais, para todos os gostos. O que eu acho incrível da cena hoje em dia é a criatividade desses músicos para driblar as dificuldades comerciais. A galera se vira sozinha e faz coisas incríveis. Além disso, sinto as pessoas mais abertas a não ouvir só o que está em alta nas mídias tradicionais também, isso é ótimo.

Quanto a mim, acho que estou aprendendo a conquistar meu espaço, aos poucos. Sinto que o segredo é não parar, sabe. E sempre tentar crescer musicalmente, conhecer pessoas novas, tomar nossas próprias iniciativas. Fico genuinamente feliz a cada nova pessoa que conhece meu som, e com certeza é a partir desse carinho que ele vai se expandir por aí. Sei que ainda tenho muito a alcançar pra fazer o barulho que os artistas independentes maiores fazem, mas já fico feliz de ser uma pequena parte desse movimento aqui no Brasil.

– Mas você acha que o mainstream ainda é o objetivo ou hoje em dia isso já não é algo tão importante?

Então, ao meu ver, estamos caminhando numa direção em que as alternativas ao mainstream estão cada vez mais fortes e viáveis. Ele continua sendo importante, principalmente por esse reconhecimento ajudar muito o artista a conseguir viver da própria música, mas sinto que, pra muita gente, ele não é mais o objetivo principal. O principal, pelo menos pra mim, é conseguir ter um público que seja “fiel” (não gosto muito dessa palavra, mas é mais ou menos isso). Independente do mainstream, é assim que a música pode se sustentar.

– Quais os seus próximos passos, musicalmente?

Quero fazer shows fora do Rio com o “Entre”, para mim isso é o fundamental agora. E ainda ir à fundo nesse EP, com mais bons clipes, versões, etc. Acho que ele tem muito a oferecer! À longo prazo, quero que meu próximo trabalho não seja outro EP, e sim um primeiro álbum.

– E já tem planos para esse álbum?

Ainda não, tô tentando ter calma e curtir o EP novo!

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Tenho escutado bastante Xênia França, o disco dela é sensacional! Tem também Letrux, que conquistou meu coração no ano passado e ainda não consigo largar aquelas músicas. Também tô amando o novo álbum do Rubel!

Juvenil Silva se lança como “Suspenso” para falar de amor livre

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Falar de amor em um disco de rock é sim quebrar paradigmas e Juvenil Silva fez isso muito bem ao lançar logo após a folia carnavalesca “Suspenso”, seu terceiro álbum. Juntou as batidas de piscodelia com o rock, folk, adicionou uma pitada de brega e resolveu alçar novos voos, passeando por um tema que é o amor. Mas não o amor brega cheio de sofrências, posse e ultrapassado, e sim o amor livre, que não tem nada de moderno, mas que é a uma reinvenção e um outro caminho de se construir relações.

Juvenil apresenta nesse disco, segundo ele o mais pessoal de sua carreira, sua visão de mundo por outra perspectiva. Ele instiga o ouvinte a fazer uma revolução interna, através de questionamentos como a quebra de padrões que já não servem e a se resgatar como um personagem que se basta, que é livre.

Além desse aspecto subjetivo e pessoal, que faz parte de uma grande revolução, ‘Suspenso’, se destaca também pela forma que nasceu. Enfrentou um árduo processo de pré-arrecadação de venda, através do financiamento coletivo do cartase, com a campanha ‘Quem Tem Asa Quer Voar’. Para atingir a meta, Juvenil ousou nas redes sociais e chegou a oferecer como recompensa até um rolé na Rural mais famosa do Recife. Nudes também não ficaram de fora. O músico também se apresentou nos sinais da cidade e passou seu chapéu. O resultado de tanto esforço foi a meta de 107% atingida e ‘Suspenso’ no mundo para quem quiser se deleitar.

Conversamos com Juvenil sobre esse novo trabalho e ele nos respondeu umas perguntinhas sobre o caso de ‘amor livre’ no Suspenso:

– Ser artista no meu ponto de vista é uma coisa mais completa, complexa, diferente de executor de instrumentos. E no teu disco suspenso, eu percebo essa complexidade de sons, ideias e até na forma de divulgação do teu trabalho. Na música “Gaiola”, você aborda o amor livre, a descolonização das relações. Você consegue levar para a tua vida o que você canta e compõe?

Bem, não é questão de levar o que eu canto pra minha vida e sim um caminho contrário, primeiro eu vivo, depois canto. Nessa música “Gaiola” eu abordo questões em torno da hipocrisia que existe em cima do que é ou não livre. A liberdade é algo bem complexo e relativo. Liberdade de ir, de voltar ou até mesmo de não ir. Acredito que o Amor, esse sentimento tão plural e subjetivo, ele sim que é livre, não a gente. E nessa liberdade, ele possa ser o que é e como quiser, seja monogâmico, “livre” ou sei lá o quê. Mas que seja feliz para ambas as partes em qualquer tipo de relação. Quando digo que (para mim) o amor é que livre, é pelo fato dele atuar sem nosso controle, ele vai, ele vem, leva ou até mesmo segue na solitude. É o lance do Amor Primo, que também canto no disco… ” Nosso amor é Primo, Primordial, primitivo… Talvez a essência mais selvagem, sincera e perigosa que habita no ser.

– Você fala de amor nas suas músicas, mas um amor mais moderno e reconstruído. Você acredita que essa pode ser a tendência das relações humanas?

· Não concordo que isso seja moderno não. E sim que vem de muito antes da porra toda. Da sociedade e dos padrões de merda que ela nos enfiou a força. Quando a gente é bebezinho, temos o amor puro em nós, a criança pra mim, é o que existe de mais próximo de um semideus. Mas a gente vai lá e tira tudo dela e empurra esse tamplate careta e fracassado. Falta exercício, impulso, falta coragem. Não, eu não acredito que esse amor que eu canto, venha a se tornar, como você disse “tendência das relações humanas”. Apesar de conhecer pessoas que tentam buscar certas tendências, às vezes até lamento por isso também, porque acho que cada tem a sua, o seu jeito de amar, e entra nessa de ir atrás de outras maneiras e se distanciar do caminho indo na direção oposta a si mesmo e acaba se perdendo. Por outro lado, se perder pode ser o começo do verdadeiro caminho de voltar e crescer. As possibilidades pulsam em veias abertas.

– A sua campanha de arrecadação no cartase foi ousada e diferenciada, criativa para atingir a sua meta. Vale tudo para realizar um sonho?

Olha, vale dá o máximo que se tá disposto a dar de si mesmo. E foi isso que fiz. Inclusive, foi bem louco, porque foi durante um época péssima pra esse tipo de coisa, Natal/Carnaval… Mas rolou lindo, no fim valeu super a pena por tudo que agregou e fortaleceu. Não sei se faria outra vez, mas indico total a todo artista fazer algo parecido, pelo menos uma vez.

– Um som com mix de rock, folk e psicodelia falando sobre amor, mesmo que seja um amor moderno é um outro caminho a percorrer, sem aquela romantização do amor submisso, tradicional que nos foi ensinado e que encontramos no brega, sertanejo, mpbs. Você consegue fugir bem disso quando leva o amor com outros ritmos. Como você enxerga esse alcance e aceitação?

Então, no caso do público com a música romântica careta, seja melosa, fofinha, sofrência ou putaria, a identificação da grande massa é total. É aquilo que lhes foi empurrado goela a dentro pela educação patriarca, careta, capitalista, católica, e preconceituosa que nossas famílias de merda perpetuam, por pura ignorância e inocência, por vezes também. É aquilo que tivemos acesso a nossa vida inteira, nossa cultura, vinda das rádios, da tv, das ruas, das porra toda. Existe muita informação no mundo, mas o acesso é restrito, ludibriado por veículos que nos causam um tipo de cegueira ou mesmo “preguiça intelectual”. E é assim que a sociedade vem se engessando, na ignorância, e é assim que nos querem… No caso da aceitação do ponto de vista abordado nessas minhas canções, acho que gera muita curiosidade, vontade de compreender, mesmo nem concordando por vezes. Eu acho legal, desde o começo tinha em mente que seria assim, queria apenas levantar questões dialogáveis, deixar no ar, provocar. O disco tá aí, deixo o povo pegar e pensar e falar o que quiser, essa é uma das finalidades de “Suspenso”.

Construindo Dolores 602: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos a banda mineira Dolores 602, formada por Débora Ventura (voz, violão, guitarra), Camila Menezes (baixo, ukulele, voz), Isabella Figueira (bateria, gaita, escaleta) e Táskia Ferraz (guitarra, vocais)​, que indica suas 20 canções indispensáveis. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Débora Ventura (voz, violão, guitarra)

Elis Regina“Quero”
Pensei muito nessa música quando fomos pra casa da Taskinha um dia cozinhar e tentar finalizar a música “Seu Azul”. Acho que está nas entrelinhas de ambas que “é simples se viver”.

Banda do Mar“Mais Ninguém”
Quando estávamos criando o arranjo de “Voo” resolvemos testar uma parte com baixo, bateria e vocal, inspirados num trecho dessa música. Combinou 🙂

Silva“A Visita”
O astral dela inspirou quando construímos juntas os arranjos de “Ponto Zen”.

Lô Borges feat. Solange Borges“Vento de Maio”
Essa música, esse disco todo (“Via Lactea”) dá uma vontade de viajar, pegar estrada. Acho que essa também é um das sensações do nosso disco.

Céu“A Nave Vai”
Adoro a psicodelia suave da Céu. De alguma forma deve influenciar, escuto todo dia. Ou quase.

Camila Menezes (baixo, ukulele, voz)

Neil Young“Harvest Moon”
A música do Neil Young que foi a inspiração de sonoridade para compor “Cartografia”.

MGMT“Electric Feel”
O frescor do MGMT, seus compassos quebrados e músicas dançantes e viajadas, como esta, sempre me inspiraram e deram o tom para as novas composições minhas no disco.

Jorge Drexler“Todo Se Transforma”
As letras poéticas do Jorge Drexler sempre me cativam. Esta, por exemplo, eu gostaria de ter feito. Tudo flui e mostra o sentimento humano muito despido e ao mesmo tempo elegante.

Espírito Pedrinho“A Manjedoura”
Foi a música que toquei no ensaio, de forma despretensiosa, e acabou empolgando as meninas da banda. O dedilhado do ukulele nela foi o gancho sonoro para a composição de “Astronauta”.

Transmissor“Bonina”
A música composta por Jennifer Souza, Leonardo Marques e Ludmila Fonseca, gravada pela banda belo-horizontina Transmissor, me dá uma sensação muito boa quando a ouço. Do seu refrão foi que tirei a inspiração para a introdução de “Cura Meu Olhar”.

Táskia Ferraz (guitarra, vocais)

Black Keys“Lonely Boy”
A sonoridade da bateria do Black Keys nesse disco (“El Camino”) como um todo foi uma referência pra gente desde o começo. Essa música especificamente foi uma grande referência de som.

Daft Punk“Get Lucky”
Gostamos tanto dessa música que tem uma pequena citação dela em uma música do disco… Não vou dizer qual é, descobre ai! (Risos)

Coldplay“Adventure of a Lifetime”
Esse timbre de guitarra e também a batida vibrante são sempre inspirações pra mim.

Maglore“Café Com Pão”
Os reverbs exagerados que usamos no disco às vezes remetem demais a essa música do Maglore, e também a letra.

Los Hermanos“O Velho e o Moço”
A gente se inspirou muito nos timbres e na levada da bateria dela na construção de “Maior”, que foi a última música que fizemos pro “Cartografia”.

Isabella Figueira (bateria, gaita, escaleta)

Vance Joy“Riptide”
Quando estávamos construindo o arranjo de Ponto Zen, ouvimos essa música e sacamos que era essa a vibe que queríamos, pra cima, pulsante, solar.

Alabama Shakes“Future People”
Eu tava ouvindo muito o disco “Sound & Color” na época que gravei as baterias de “Cartografia”. A sonoridade desse disco certamente me influenciou bastante na busca pelos timbres de batera. Gosto muito de como eles soam como banda e essa é uma das músicas preferidas.

Chico César“Estado de Poesia”
A construção do arranjo, a poesia da letra, a delicadeza das imagens que o Chico César cria nessa canção, acho tudo lindo demais. Pra mim foi uma das inspirações pra construção de “Cartografia”.

Wilco“One Wing”
É uma influência muito forte pra mim. Adoro folk e acho que o Wilco é uma das grandes referências que acabo levando pra Dolores. A construção das levadas, as nuances dos arranjos, as sacadas minimalistas, tudo isso me atrai muito no som deles.

Fleet Foxes“Ragged Wood”
Os vocais dessa música e a dinâmica dela, a levada folk, essa atmosfera que ela constrói, acho que são todos elementos presentes em muitas das nossas músicas.

Caio Moura é a atração da festa de lançamento da rádio AntenABlack

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Você deve se lembrar do cantor Caio Moura, cujo no ano de 2017 deu uma excelente entrevista aqui no blog. Dono de uma voz potente, esplendida e peculiar, o cantor está as vésperas de lançar o seu primeiro trabalho intitulado “Coração Balança”.

E neste próximo sábado dia 10 de março, Caio Moura é uma das principais atrações da festa de lançamento da Rádio AntenABlack que será realizado no Estúdio Espaço Som em Pinheiros.

Mais informações no evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/291645518029528/

Enquanto isso, aprecie essa nova revelação da música negra brasileira com a canção “Meu Cais”.

Lennon Fernandes tira seus diversos sons da gaveta em primeiro trabalho solo, “Abstrato Sensível”

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Lennon Fernandes já passou por bandas que fizeram barulho no cenário independente, como Tomada, Os Skywalkers, Andeor, Baleia Mutante e diversas outras. Em 2017, chegou a hora do músico e compositor navegar pela primeira vez em caminhos solo, tirando da gaveta tudo o que produziu desde o início de sua carreira musical. Desta escavação musical saiu “Abstrato Sensível”, álbum em que gravou todos os instrumentos.

“Eu fiz os arranjos, gravei os instrumentos e mixei tudo sozinho. E pensei bastante nessa questão de “unidade”. Tinha essa preocupação, de vibrar como um álbum de uma banda”, conta. “Fui até o técnico de gravação! Engraçado que eu estava no processo de me “aceitar” como artista solo que eu nem falei nada pra ninguém”.

Conversei com ele sobre sua carreira e a investida solo:

– Quando você começou sua carreira e como começou?

Em 2017 lancei meu primeiro trabalho solo, meio sem querer, gravando umas músicas que estavam “na gaveta”. Mas desde 97… 98 toco em bandas. Nesse meio tempo toquei nas bandas Tomada, Os Skywalkers, Andeor, Baleia Mutante entre outras.

– E como foi a transição das bandas pro trabalho solo?

Teve dois momentos. Primeiro vi que eu tinha muitas músicas paradas, que não cabiam nas bandas que eu participava. Segundo tive que me “aceitar” como artista solo. Quando entendi isso foi escolher algumas composições e começar a gravar.

– E como rolou esse mais recente disco? Ele tem muitos estilos diferentes condensados em uma só obra, e mesmo assim tem uma unidade…

Costumo falar que o “Abstrato Sensível” teve um processo de criação parecido com de um pintor em seu atelier, produzindo sozinho uma tela. Eu fiz os arranjos, gravei os instrumentos e mixei tudo sozinho. E pensei bastante nessa questão de “unidade”. Tinha essa preocupação, de vibrar como um álbum de uma banda.

– Mas então ele é realmente um álbum solo literalmente, né. Você fez tudo praticamente sozinho!

Isso. Fui até o técnico de gravação! Engraçado que eu estava no processo de me “aceitar” como artista solo que eu nem falei nada pra ninguém. Minha família, meus amigos, sabiam que eu passava horas no estúdio mas nem imaginavam que eu estava gravando um álbum. Quando ficou pronto foi uma surpresa pra todos.

– Me conta mais sobre o processo de composição desse disco.

Pra mim é como uma coletânea. Cada composição é de uma fase da minha vida. Por exemplo “Viajante do tempo” e “Sempre” são de 2006 e 2008. “Fios elétricos” é de 2015. Mas todas foram compostas num formato simples violão e voz.

– E as influências também são bem variadas, pelo que notei. De Hendrix a MPB…

Sim! Gosto muito do rock entre 67 e 72. Gosto muito de Clube da Esquina também. Eu, quando estava selecionando o repertório pro disco, pensei nessas influências que queria mostrar. Mas tem outras que gosto muito como Neil Young e Arrigo Barnabé que não consegui colocar dessa vez, quem sabe no próximo.

– Ou seja: já está pensando no próximo! Pode adiantar um pouco do que está pensando para ele?

Então, estou pensando mesmo (risos)… Dessa vez estou escolhendo poucas músicas que estão na gaveta. Meu objetivo é fazer um álbum com temas que estejam mais atuais na minha vida. Retratar mais o que eu acredito no momento.

– Como você definiria sua vida como artista independente hoje em dia?

O artista independente tem que aprender a fazer tudo. E se meter em todos lugares. Eu estou nesse aprendizado. Ano passado criei o selo Parafuseta Records, convidei outros amigos para participar, hoje somos oito artistas, por enquanto, e a ideia é crescer. Fazemos constantes apresentações na Avenida Paulista e algumas praças de São Paulo e do interior de São Paulo.

– Isso está acontecendo bastante, pelo que vejo: a criação de selos, os shows nas ruas…

Então, precisamos disso. O cenário de música autoral estava num declínio. Não por falta de compositores ou bandas. Acredito que mais por falta de espaços e oportunidades. A rua é ótima porque o público que quer ouvir um som novo encontra ali, fácil, acessível, não escondido dentro de um barzinho.

– E como tem sido a recepção do disco?

A galera tem gostado bastante do álbum, da arte, do encarte do cd físico e do show. Principalmente da “Fios Elétricos” por conta do videoclipe também. E esse é um feedback importante porque motiva na continuação do trabalho.

– Quais seus próximos passos?

Atualmente estou compondo as faixas do meu segundo álbum. O objetivo é começar pensar nos arranjos e gravar ainda no primeiro semestre de 2018. E incluir algumas dessas faixas novas nos shows. Paralelamente expandir meu trabalho de produtor no selo, trazendo mais artistas pra gravar.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Essa é a pergunta mais difícil (risos) porque existem tantos nomes bons atualmente que não caberia aqui, mas vou sugerir o que tenho escutado mais e de alguma forma me inspiram:

2 de 1 (álbum “Transe”)
Bratislava (álbum “Fogo”)
Daniel Zé (álbum “Calma Karma”)
Ekena (álbum “Nó”)
Marina e os Dias (single “Can we go?”)
Marina Melo (álbum “Soft Apocalipse”)
Strawberry Licor (EP “Pupsy”)

“Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009) – A sofrência em primeira pessoa

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“Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”
Lançamento: 2009
Direção: Karim Aïnouz, Marcelo Gomes
Roteiro: Karim Aïnouz, Marcelo Gomes
Elenco: Irandhir Santos

Muito lindo, reflitão, cheio de clichês, mas muito real e super sofrência.

José Renato (Irandhir Santos) é um geólogo que atravessa o sertão fazendo estudos para um possível canal a ser construído no “Rio das Almas” (uma alusão ao São Francisco). Inteiro com câmera em primeira pessoa (passa na tela, o que seria a visão da personagem), as imagens acompanham sempre a narração da voz melancólica do protagonista que nos conta entre análises do solo, sobre as pessoas que esse canal desabrigaria, sobre o fora que levou pouco antes de partir nessa pesquisa de campo, sobre a relação que tinha e sobre todo o resto das coisas do mundo. A partir dessas narrações e de algumas cenas de entrevistas colhidas ainda nos anos 90, com pessoas que de fato não são atores (o filme transita sempre entre a ficção e o documentário), o brasileiríssimo “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, traz uma série de reflexões de cunho filosófico e sociológico.

Casal gravado pelo geólogo. Serão obrigado a sair de onde moraram toda a vida por conta do canal…

Com uma pegada de road movie, uma boa parte do filme é a paisagem da estrada sempre igual vista pelo para brisa do geólogo. Contudo, apesar de isso poder parecer um tanto quanto entediante, o rádio sempre ligado garante um outro ritmo, bem mais gostoso.

Cheio de clássicos da sofrência, cantados sempre com aquela voz meio trêmula que beira um choro, a música completa muito mais que bem todo o tom de “paixonite + pénabunda + solidãodaestradadosertão”. Mas o auge com certeza, é um sapateiro que aparece como um dos que serão desalojados, cantando “Meu Último Desejo” do Noel Rosa.

Além dessa, o filme ainda tem “Sonhos”, “Morango do Nordeste”, “Esta Cidade É Uma Selva Sem Você”, as estrangeiras “Échame A Mi La Culpae “Un Chant D’Amour”, e mais muitas outras pra chorar e muito.

Segue em link o trailer e a trilha sonora.

Trailer:

Trilha Sonora: