Jhoão Sobral adiciona criatividade de inventor em suas músicas com a “vassonora”

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Jhoão Sobral

Há algumas semanas eu caminhava pela Avenida Paulista quando vejo um rapaz que iria se apresentar na calçada não uma guitarra, mas uma vassoura. Ao vê-lo tocando a tal “vassonora”, uma mistura de vassoura e violoncelo, não pude deixar de fazer uma entrevista. Lógico que muita gente parou pra ouvir o som do inusitado instrumento musical, e formou-se uma rodinha em volta do cantor e compositor cearense Jhoão Sobral, o inventor da vassoura mágica.

Como começou sua carreira? A resposta padrão é “bem Londres daqui”, segundo ele. Em 2013, o pesquisador musical Gilles Peterson, DJ da rádio BBC de Londres, tocou sua música lá, e a partir daí ele lançou um EP e diversos singles, sendo incluído até em uma coletânea da Fifa junto de nomes como Alceu Valença e Seu Jorge.

Conversei com ele sobre sua carreira, a “vassonora”, as apresentações na rua e suas dificuldades e seu novo single, “Baiano Tororó”:

– Te conheci na Avenida Paulista, tocando uma vassoura-cello. Como rolou isso?

A Vassonora, como apelidei minha invenção, surgiu como uma estrela cadente no céu anunciando a prosperidade. A vassoura é um signo de luta, de trabalho e de limpeza, eu sinto que a dificuldade é a mãe da invenção… Ela apareceu na minha cabeça. Acredito que tenha sido um presente do Universo, a ideia é minha,mas quem me ajudou a fazer foi um amigo luthier, Lauro Sabonge, ele constrói violinos.

– E como foi a construção dela?

Bom, a vassoura já estava pronta ali, ganhei essa vassoura do Tatá Aeroplano, grande artista. A ideia era que tivesse uma corda só e foi isso. Ela tem dois microfones (piezo) de contato, um no cabo justamente para captar o som da corda que foi colocada. Estamos usando uma corda de Cello doada pelo Pery Pane. Repare que essa vassoura o Universo me deu: os microfones ganhei num curso de construção de baixo custo no Sesc Consolação… O outro microfone está nos cabelos da vassoura pra captar esse som mais percussivo e tem uma tarracha de madeira para afinar esculpida pelo luthier Sabonge.

– E como foi a repercussão dela na rua?

Nossa, incrível! As pessoas adoram, as crianças acham mágico, me chamam de bruxo, etc e tal. Essas coisas, a vassoura é um simbolo importante na humanidade, mas agora fiz dela um signo e batizei de Vassonora! Tá um sucesso só, já fui até convidado para ir ao “Domingão do Faustão” no quadro “Se Vira Nos 30” e pretendo fazer mais invenções!

– Como você começou sua carreira?

Através de um sonho. A gente que veio do nordeste com uma mão e outra atrás não tem muita esperança não, mas vou tentar resumir aqui. Começo com 14 anos. Sonhei que tocava violão sem nunca ter encostado a mão num violão. No colégio contei o sonho para meus amigos, estava prestes a fazer 15 anos e meus amigos me deram um violão de presente, brinco que eles investiram no meu sonho. Mas gosto de pensar mesmo que minha carreira começou e é verdade isso, quando o pesquisador musical Gilles Peterson, DJ da rádio BBC de Londres, tocou minha música lá. Sim, eu estreei como compositor na radio BBC de Londres em 2013! Dois produtores musicais aqui de SP, Guilherme Lopes e Junior Deep, meus amigos, toparam produzir 4 faixas, e essas 4 faixas lançadas em 2013 estão rendendo frutos até hoje. Em 2014 entrei numa coletânea da Fifa junto de Alceu Valença e Seu Jorge e outros artistas que admiro.. Isso é o meio!

Jhoão Sobral

– Já que tocou no assunto, pode me falar um pouco mais do material que você já lançou até agora?

Em 2013 saiu o EP “Vai na Fé”, que tem no iTunes, Spotify, Deezer etc… De lá pra cá lancei singles, lancei “Brazilian Drumanbass” em parceria com o Drumagick, dupla de irmãos DJs e produtores musicais, essa faixa tocou na festa Tomorrowland na Inglaterra. Lancei “Lady – Uma Canção para Billie Holiday”, lancei também “Liberdade Mística” em parceria com Kiko Dinucci, e agora em agosto sairá meu próximo single, “Baiano Tororó”, que fiz em homenagem ao Gilberto Gil.

– Quais as suas principais influências musicais?

Gilberto Gil, Bob Marley, Belchior, Luiz Gonzaga e Tom Jobim.

– Pode me falar um pouco mais sobre o single?

“Baiano Tororó” trata-se uma canção em homenagem ao compositor-mor, Gilberto Gil. Fiz essa música após ter assistido seu documentário “Tempo Rei”. É uma singela homenagem, a letra traz também uma atmosfera baiana, negra, brasileira, com arranjos de flauta, uma espécie de “sambossasoul”, eu diria.

– Você toca na rua. Como você vê essa nova gestão em São Paulo, que têm tirado os artistas de rua de circulação?

Bem, ainda não fui retirando da rua, a polícia passa por mim e apenas observa. Mas me parece que o novo prefeito que escolheram (e eu não faço parte dessa escolha) quer tirar os músicos de rua com seu projeto Cidade Linda! Também acho que essa nova gestão… se é que pode chamar de gestão uma coisa dessas, eu chamaria de indigestão. Uma cidade sem orçamento de cultura é uma cidade morta, um país sem investimentos em cultura é um país pobre. E quando falo em cultura é todo um universo de coisas envolvidas…

– Como você vê a cena independente de hoje em dia?

Sinceramente existe muito amadorismo, eu mesmo me sinto amador nesse sentido, mas isso vem de uma cultura já estabelecida. Não estou generalizando, que fique claro. Tem muita coisa a ser feita, São Paulo é uma cidade grande mas tem muito artista desistindo de lutar e de fazer sua arte por conta desse amadorismo que existe na própria politica cultural! Mas de certa forma a cena independente está sim evoluindo e evolui a cada dia. Estamos mais unidos, se autoajudando, mas ainda é muita roubada. Pra fazer um show num boteco qualquer tem gasto, e às vezes mal temos dinheiro pro ônibus, como já aconteceu comigo. A cena independente é também uma armadilha se você não souber gerenciar e planejar. Não da pra fazer tudo sozinho, querer se vender, ensaiar, estudar… Não dá, vai ser tudo meia boca, como está sendo: luz ruim, som ruim, show ruim… Claro que isso é tudo muito relativo e deixo aqui bem claro que não estou generalizando.

– Então essa queda das gravadoras com o aumento do streaming acabou sendo negativo, de certa forma.

Sim e não. Tudo tem dois lados, acredito! Com as gravadoras acredito que você tinha ali uma certa comodidade e se preocupava apenas com a música, com sua execução. Os caras organizavam tudo: turnê, os caras pensavam diferente, planejava… Mas também, você tinha que fazer o que os caras mandassem. Isso é o que dizem, não sou dessa época, talvez nem dessa (risos)… Mesmo assim, todo dia são lançadas músicas e músicas, você baixa 10 discos num dia, grátis… E não ouve nenhum. Por outro lado, você descobre uma penca de artista bom, gente que te inspira, uma facilidade para gravar e divulgar, se lançar no espaço…

– Ou seja, a internet no fim é uma boa ferramenta, mas atinge somente quem realmente está interessado em garimpar.

É por ai. Às vezes navegamos à deriva, eu mesmo já me vi fazendo isso. Estou sempre me policiando, a liberdade às vezes é um labirinto. Eu às vezes sinto que ando em círculos! Precisamos ser mais disciplinados. Não estou aqui querendo colonizar ninguém, só acho que um pouco de disciplina poderia dar um up. Bem, eu tô falando isso pra mim mesmo, pois não tenho disciplina para estudar inglês, por exemplo. Minhas musicas tocam no mundo todo já, ano passado fui pra Europa com um inglês tupiniquim cavernoso.

– Quais são seus próximos passos musicais?

Bem quero continuar lançando singles, até uma cambada de gente falar “Sobral, lança um disco, já ouvi umas 5”. (risos) É pouco… Mas musicalmente falando, falta em mim um amadurecimento que já está se dando ao longo dessa trajetória até aqui… Mas estou estudando percussão corporal, estudando harmonia, sempre compondo. É isso, em agosto sai o single “Baiano Tororó” pelo selo Batucada Records, e talvez no começo do ano outro. Está vendo por que é tudo amador? Como que um artista compositor como eu, que faz música todo dia, lança dois singles por ano, às vezes nenhum, por que falta de grana? Sem grana a gente não faz nada. Ainda bem que tem parceiros que acreditam e fazem na parceria, senão eu ja teria desistido… Eu não to chorando as pitangas não, eu tô é arregaçando as mangas… Por isso toco na rua… em breve farei um show na Paulista, voz e violão!

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Bem não sei se são todos independentes, mas vamos lá: Kiko Dinucci,  CuruminTiganá SantanaTatá Aeroplano, Lenna Bahule. Tem uma penca, mas com esses daí já da pra ver onde quero chegar!

Construindo Naissius: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som do artista

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Construindo Naissius

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos a participação do Naissius, que se apresentará nessa sexta-feira na Sensorial Discos com o repertório de seu disco de estreia, “Síndrome do Pânico”, além de músicas inéditas que estarão em seu próximo álbum. 

The Beatles“Hello Goodbye” (do disco “Magical Mistery Tour”, 1967)
Quando era criança, vi o clipe desta música e não entendi nada; foi a primeira que lembro ter sentido vontade de me tornar músico.

Jeff Buckley“Lover, You Should’ve Come Over” (do disco “Grace”, 1994)
O Jeff Buckley me mostrou que não havia problema algum em adorar Nina Simone e MC5 numa época em que eu ainda era um tanto ‘purista’.

Screamin’ Jay Hawkins“I Put a Spell On You” (do disco “I Put A Spell On You”, 1977)
Eu já adorava essa música quando criança, na versão do Creedence – meu pai tinha uma coletânea do Creedence e eu sempre escutava. Fui descobrir a versão original muitos anos depois e hoje tenho o estranho hábito de procurar versões dela na internet. São inúmeras, por diversos artistas, mas nenhuma supera a original.

Raul Seixas“A Maçã” (do disco “Novo Aeon”, 1975)
Aos 13 anos de idade interpretei o Raul Seixas no teatro e, para pegar o ‘sotaque’, fui ouvir toda a discografia dele. ‘A Maçã’ é sobre esse conceito de monogamia e traição que somos submetidos desde o nascimento e o qual nunca questionamos – além de ser uma das melhores músicas do Raul.

The Clash“Know Your Rights” (do disco “Combat Rock”, 1982)
O The Clash foi a primeira banda de punk rock que eu me apaixonei. O ‘Combat Rock’ foi um dos primeiros discos que eu comprei na vida e teve grande influência na minha formação.

Minor Threat“Guilty of Being White” (do disco “Complete Recordings”, 1988)
Eu já fui menosprezado por estar em lugares que não eram para ‘pessoas como eu’; o engraçado é que isso já aconteceu tanto por eu ser ‘muito branco’ quanto por ser ‘muito preto’.

Titãs“Desordem” (do disco “Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas”, 1987)
Ainda me pergunto como os Titãs conseguiram fazer músicas com letras tão fortes se tornarem hits nacionais.

Chemical X“What’s Your Problem?” (da demo “What Ever Happened?”, 2003)
Trio de irmãs que tocam um punk rock de primeiro nível. Na minha adolescência era um alívio vê-las tocando entre tantas bandas que soavam iguais. Através delas eu passei a me interessar por feminismo, o movimento riot grrl e bandas como o Bikini Kill.

Nirvana“Sappy” (do box “With The Lights Out”, 2004)
As primeiras vezes que vim para São Paulo foram de trem, descendo na Luz, para passar a tarde na Galeria do Rock atrás de bootlegs. Quando ouvi essa música do Nirvana num CD de raridades, percebi que ela fugia do padrão ao relatar a vivência de uma mulher que leva uma vida de abusos e não se dá conta disso.

MC5“Kick Out The Jams” (do disco “Kick Out The Jams”, 1969)
Provavelmente uma das melhores músicas já escritas até hoje.

The Monks“Monk Time” (do disco “Black Monk Time”, 1966)
São ‘os Beatles do mal’. Não vou resumir a história pois vale muito a pena ir atrás dessa banda e desse disco. É pop com caos numa medida que nunca havia sido feita e provavelmente nunca mais será.

John Lennon“God” (do disco “Plastic Ono Band”, 1971)
Lennon usou seu primeiro disco para lavar a roupa suja com todo mundo, inclusive com o todo-poderoso, que ele se refere como ‘um conceito pelo qual medimos nossa dor’. Sigo o conselho de um amigo e sempre que escuto esse disco o faço ‘com muito cuidado’.

Chico Buarque“Construção” (do disco “Construção”, 1971)
Meus pais sempre ouviram muito Chico e ainda criança lembro que essa música me assustava: a crescente dos arranjos; a letra; a ideia da morte inevitável e repentina… É uma música que me impactou muito.

Nick Drake“Saturday Sun” (do disco “Five Leaves Left”, 1969)
Quando estava escrevendo o ‘Síndrome do Pânico’ eu ouvi muito os discos do Nick Drake. São de uma simplicidade e beleza tão raros… Nada é forçado ou exagerado.

New York Dolls“Personality Crisis” (do disco homônimo, 1973)
O New York Dolls me deu um nó no cérebro: usar calças rasgadas não parecia nada audacioso depois de ver caras vestidos de mulher tocando um rock sujo e minimalista. Ao conhecer a banda eu finalmente passei a tentar (des)construir minha própria imagem.

Fagner“Canteiros” (do disco “Manera Fru Fru Manera”, 1973)
É a música que eu canto no karaokê.

Chris Bell“I Am The Cosmos” (do disco “I Am The Cosmos”, 1992)
Se a discografia do Big Star é desconhecida e subestimada, esse disco solo de um dos integrantes é um tesouro perdido (lançado 15 anos após sua gravação). A música é a que dá nome ao disco e é daquelas que sempre me pega pelo nervo.

Ryan Adams“Afraid Not Scared” (do disco “Love Is Hell”, 2004)
O ‘Love Is Hell’ é um disco maravilhoso e essa é uma das minhas favoritas desse disco e de toda a discografia do Ryan Adams.

Rodriguez“Sandrevan Lullaby Lifestyles” (do disco “Coming From Reality”, 1971)
Uma das minhas letras e música favoritas. Conheci o Rodriguez uns anos antes de sair o documentário sobre sua obra e desde então seus dois discos que servem como uma espécie de bússola.

Mark Lanegan Band“Bombed” (do disco “Bubblegun”, 2003)
Ouvi esse disco quando saiu. Me fez entender que não é necessário ter guitarras ou gritos para ser rock.

Inimitável: Milton Nascimento – “Milagre dos Peixes” (1973)

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Bolachas Finas, por Victor José

Priorizando a versatilidade e sem se apegar a gêneros musicais, Milton Nascimento procura desde sempre apresentar algo bem particular em cada álbum que lança. Grande parte de sua discografia – principalmente por conta daquela fase entre 1967 e 1978 – é composta por LPs emblemáticos e interessantes de um modo geral, mas em matéria de imponência e pretensão artística nenhum trabalho alcança “Milagre dos Peixes”.

Naturalmente, é fácil dizer que o momento mais importante na trajetória de Milton foi em 1972, com o lançamento do LP em parceria com Lô Borges, Clube da Esquina”. Talvez tenha sido mesmo, é justo. Mas é com o álbum do ano seguinte que ele arrebenta com tudo tentando artisticamente se superar, e o resultado é o trabalho mais experimental de uma carreira que já dura mais de 50 anos e talvez o disco mais denso lançado naquele período de repressão política.

Segundo Fernando Brant, letrista da faixa-título, o álbum foi concebido para ser um grande passo: “Uma abertura nova, algo para assustar os desavisados e arrepiar a pele. “Milagre dos Peixes” é uma atitude de revolta e de entrega. Milton está neste disco como uma criança agressiva”, disse à Folha de São Paulo quando faltavam poucos dias para o lançamento.

Aclamado pela crítica e público, o trabalho é uma experiência única, a começar pela carência de versos. O disco é quase inteiro cantado sem palavras, pois muitas das letras foram censuradas. Milton não acatou o gesto dos militares como um impedimento e prosseguiu com o projeto desafiando a repressão. Sendo assim, apenas as faixas “Milagre dos Peixes” e “Escravos de Jó” (esta com Clementina de Jesus nos vocais) continham letras de fato, isso sem mencionar “Sacramento” e “Pablo” (esta cantada por Nico, irmão caçula de Lô Borges), que vinham separadas em um compacto triplo, como se fossem bonus tracks, juntamente com a instrumental “Cadê”. Mais tarde, com o lançamento em CD, essas três canções acabaram sendo incorporadas ao tracklist oficial.

Sobre essa situação, Milton disse: “É claro que as músicas tinham um teor político, mas não era nada explícito. Houve um exagero por parte da censura, porque nunca preguei que o pessoal pegasse em arma e coisa e tal; a gente só botava pra fora o nosso descontentamento com tudo, não só com o Brasil, mas com o mundo. Fiquei puto da vida quando a gravadora me propôs gravar um outro disco. Disse que não, que o disco ia sair como estivesse; se não havia letras, que as pessoas entendessem. E foi uma surpresa pra EMI Odeon em todos os sentidos, porque o disco vendeu bem, fora a repercussão que causou. Como músico, o “Milagre” foi muito importante, porque foi aí que me larguei na música de uma forma diferente, passei a usar minha voz como um instrumento”.

Em LP, o projeto gráfico contou com uma bela capa-pôster, algo até então inédito na indústria fonográfica nacional. Dentro, umas páginas avulsas coloridas davam a ficha técnica de cada faixa, sendo assim, “Milagre dos Peixes” trazia a até então mais bem detalhada ficha técnica da indústria do disco no Brasil. Ao todo, quarenta e dois músicos participaram das gravações, como o maestro Radamés Gnatalli, o Quinteto Villa-Lobos, Naná Vasconcelos nas percussões e Wagner Tiso no piano e teclado.

Quanto às músicas que nele contém, o que pode ser afirmado é que cada uma corresponde a um estilo híbrido, algo que passa longe de uma definição. Lembro de ter escutado “Milagre dos Peixes” pela primeira vez e tê-lo achado um dos discos mais esquisitos. É preciso ouvir algumas vezes com atenção para que ele seja completamente absorvido, mas para quem gosta de coisas complexas e detalhes pouco comuns, é um exercício que compensa (e muito).

Enquanto “Pablo nº2” lembra uma celebração latina com todas aquelas palmas, coros e violões festivos, ”A Última Sessão de Música” traz barulhos de talheres, conversa e um piano meio infeliz e nostálgico que procura simular um ambiente de fim de festa. Aqueles que se apegam mais ao convencional certamente assimilarão logo de cara “Escravos de Jó” ou a faixa-título, que apesar da ligeira complexidade são mais melodiosas que as demais. O jazz rock “Cadê” é ritmado e também é capaz de pegar fácil. Já “A Chamada”, com seus efeitos vocais remetendo a uma floresta ou algo do tipo, e a orquestra vocal “Carlos, Lúcia, Chico e Thiago” são realmente as músicas mais difíceis, mas ao mesmo tempo são as mais singulares e curiosas.

“Tema dos Deuses” tem cara de trilha sonora de algum filme épico e faz jus ao nome pela intensidade. Ouvindo essa música dá para compreender que Milton havia previsto anos antes este amadurecimento artístico com canções como “Amigo, Amiga”, que apresentavam uma grande carga de sinestesia mesmo sem tantos recursos à disposição.

Dividida em três partes, “Hoje é Dia de El Rey” seja talvez o ponto alto de “Milagre dos Peixes”. Baseada na “Suíte do Pescador”, de Dorival Caymmi, a música foi concebida para ser um diálogo entre pai e filho, porém a letra foi vetada na íntegra. A tal conversa era para ser entre Milton como filho e Caymmi como pai, uma pena isso não ter sido gravado. Mas apesar da carência dos versos originais de Márcio Borges, as mudanças ao longo da canção fazem dela uma obra-prima sensorial capaz de falar por si só.

Em “Sacramento” voltam as letras. Cantada por Milton num espírito meio entristecido, a canção apresenta uma sonoridade tensa, que acaba contrastando bem com a lúdica “Pablo”, a qual Nico Borges ainda criancinha canta uma letra surreal citando pó de nuvem nos sapatos e incêndio nos cabelos.

Vale afirmar que em Milagre dos Peixes consta um forte experimentalismo, mas há ao mesmo tempo uma certa coesão, ao contrário do contemporâneo e também interessante Araçá Azul (1973), de Caetano Veloso. Talvez por isso Milagre dos Peixes tenha dado tão certo. Milton estava relacionado a um contexto absolutamente propício e tentou a sorte inovando numa época em que isso era levado a sério por um público atento.

Um ano depois Milton daria continuidade ao projeto lançando “Milagre dos Peixes Ao Vivo”, com shows gravados no Teatro Municipal de São Paulo. Há quem diga que este tenha sido seu auge, o que eu concordo plenamente.

Exclusivo: Falso Coral lança novo single “Pé no Chão”, um “lamento sertanejo fantasmagórico”

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Falso Coral
Falso Coral

Formada por Bela Moschkovich (voz), Luís Gustavo Coutinho (voz e viola caipira) e Guilherme Giacomini (teclado e sintetizadores) e acompanhada pelo baterista Pedro Lauletta e o baixista Henrique Vital, a banda Falso Coral transita entre o alternativo e o pop com a viola caipira de dez cordas como base de suas composições. Essa mistura influências contemporâneas nacionais e internacionais está presente no single “Pé no Chão”, lançado hoje.

Com a viola caipira comendo solta e à frente da composição, o single é resultado de um ano do EP “Folia” sendo apresentado em vários palcos do circuito paulistano e carioca. O lado B é uma inusitada versão em dinamarquês, escrita por Sofie Thybo Pedersen e uma demonstração de quanto a viola tão valorizada no sertanejo de raiz pode ser um instrumento universal.

Acompanhando o lançamento, a banda já está iniciando uma nova leva de shows. Entre as datas confirmadas, uma é no interior (SESC Bauru, dia 12/4) e duas são na capital paulista (no Secretinho, dia 7/4 e no Breve dia 20/4 com a banda Quarup). No repertório, além do elogiado EP “Folia” e do novo single, músicas inéditas que ampliam ainda mais o universo sonoro do Falso Coral e covers de diferentes gêneros e épocas levados para caminhos surpreendentes pela viola (Florence and the Machine, Blondie e Tião Carreiro, por exemplo).

Conversei um pouco com a banda sobre o novo single:

– Me falem um pouco mais de como foi a criação de “Pé No Chão”. Do que a música trata?

Luís Coutinho: “Pé no Chão” é sobre ficar encantado com pessoas e realidades que parecem maiores do que você e achar que você não “merece” aquilo. Desde o começo eu queria que fosse um lamento caipira meio fantasmagórico, tanto é que a melodia dela tem um acorde meio “diabólico” que dá esse climão que a música tem. Eu compus ela depois de uma viagem que passou pela Escandinávia e rolou muito essa sensação de observar e admirar pessoas e contextos mas não se considerar parte daquilo, e ficar pensando que se eu tentasse fazer parte daquilo seria só uma ilusão.

– Essa música mostra um pouco do que poderemos ver no disco de estreia?

Bela Moschkovich: Sim, “Pé no Chão” mostra um pouco do que podemos esperar para os nossos próximos trabalhos. É um som mais introspectivo, com um pouco mais de influência do rock (a bateria, por exemplo, teve como referência “15 Step”, do Radiohead). Temos muitas músicas vindo por aí que exploram influências diferentes das que aparecem em “Folia”, o que sempre nos dá novos caminhos para seguir. A partir daí, vamos pensando como as músicas podem mudar, mas ao mesmo tempo manter a “cara” que inauguramos no nosso EP de estreia.

– Como “Pé No Chão” evoluiu do EP “Folia”?

Bela Moschkovich: A evolução aconteceu principalmente porque formamos uma banda de verdade. No “Folia”, todo o processo de composição foi feito por mim, Luís e pelo Gui, junto com o Filipe Consolini, que nos produziu. Montamos bem os arranjos, mas como ainda não tínhamos a banda completa, chamamos amigos músicos para tocar o que faltava. Agora temos uma banda oficialmente, com um baixista e um baterista fixos, e isso nos deu a possibilidade de compôr em conjunto. Geralmente eu e o Luís chegamos com versões preliminares das músicas, só com uma base (na viola ou no violão) e a voz, e aí, juntos, vamos testando o que funciona de baixo, bateria e teclado. “Pé no Chão” é a primeira música que oficialmente compusemos todos juntos, enquanto banda, e então ela é uma amostra do que está por vir no nosso trabalho. Estamos em transformação constante, o que é muito, muito legal!

– E de onde tiveram a ideia de gravar uma versão em dinamarquês no Lado B?

Luis Coutinho: Nessa viagem que eu fiz pra Escandinávia, encaixei alguns shows da banda que eu mais gosto no universo: Mew. Eles são dinamarqueses e lá eles tocam pra 50 mil pessoas mas já perdi as esperanças de algum dia eles virem pro Brasil. E aí em um dos shows deles por lá eu conheci a Sofie Thybo Pedersen, que também estava sozinha e virou uma grande amiga. Já no Brasil nós começamos a trocar pelo Facebook música em português e música em dinamarquês (Marie Key, Kirstine Stubbe…) e eu comecei a pirar na sonoridade da língua. Mostrei “Pé no Chão” pra ela, mandei a letra traduzida em inglês, e perguntei se ela conseguia visualizar uma versão em dinamarquês. Ela topou fazer uma letra e desafiou a gente a cantar essa versão também. A língua é muito difícil e a gente tem consciência de que está longe de soar 100% mas a Sofie disse que o Lyric Video ajuda bastante. A gente acredita que seja a primeira música em dinamarquês com viola caipira a existir no mundo! Se alguém conhecer outra, manda pra gente!

Ouça “Pé No Chão” e seu lado B, “Begge Ben På Jorden”:

Além do Clube da Esquina: Som Imaginário – “Matança do Porco” (1973)

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Bolachas Finas, por Victor José

Há um sabor especial bastante curioso na música feita pelos brasileiros. Podemos tomar emprestado algum estilo ou até mesmo copiar descaradamente um artista que ainda assim fica algo lá no fundo, bem no âmago, que nos revela autênticos. E não falo daquele papo cafona de “brasileirice”, mas sim de uma verdadeira identificação com musicalidade. O Som Imaginário tem disso.

De fato essa é uma banda interessante. Afinal, o que falar de um grupo que serviu de apoio para a maioria dos primeiros (e fantásticos) álbuns e turnês do Milton Nascimento? Para resumir bem: basicamente, eles foram a espinha dorsal do que viria a ser o Clube da Esquina.

O Som Imaginário era composto por  Wagner Tiso (piano e órgão), Tavito (violão e guitarra), Luiz Alves (baixo), Robertinho Silva (bateria), Fredera (guitarra) e Zé Rodrix (percussão, órgão e flautas). Poucas vezes na história da Música Popular Brasileira houve um grupo que deu tão certo.

A carreira foi breve, com três discos lançados, mas o último, “Matança do Porco”, de 1973, se destaca como o ápice criativo do Som Imaginário. Claramente influenciado pelos colegas do Clube da Esquina e pela abordagem prog do Pink Floyd e do Yes, o grupo (já sem Fredera e Rodrix) conseguiu uma sonoridade muito classuda, digna de carreira internacional – o que infelizmente não aconteceu –, mesclando a pegada do jazz, às vezes com ritmos brasileiros.

Mesmo com tudo isso, não é algo cansativo de ouvir, dá para assimilar sem muita dificuldade. E lembrando que esse é um trabalho basicamente instrumental, salvo uns vocalizes que Milton e os Golden Boys emprestaram para a faixa-título. E por falar nessa música, dá para dizer que ela é o que mais chama atenção em todo o disco. Como uma espécie de suíte, em “A Matança do Porco” a banda passeia pelo erudito, por improvisações de rock e por algo muito parecido com a vibe de “Careful With Tha Axe, Eugene”, do Floyd. Com certeza “Matança do Porco” não perde em nada para qualquer trabalho desse período, é uma faixa muito bonita, bem trabalhada e impactante.

“A3” e “Mar Azul” exploram mais o terreno do jazz e da música latina, e, como não podia deixar de ser, sem esconder o forte traço de Clube da Esquina predominante na banda. “Bolero”, com sua tranquila guitarra de 12 cordas, também escancara essa qualidade e dá vontade de repeti-la logo em seguida. O climão da “A Nº2” é outra coisa pegajosa, no bom sentido. Na outra metade da faixa tem um baita groove bem estilo dos anos 1970 que hipnotiza a gente enquanto faz a cama para um piano elétrico extremamente competente. Ali também conseguimos escutar novamente a voz de Milton no fundo.

Em “Armina” a banda apresenta um total domínio do que fazer com a música e como oferecer diferentes níveis de melancolia. A atmosfera funciona em torno de um riff bem próximo de “I Want You (She’s So Heavy)” dos Beatles e de um piano delicado carregado de erudição. O tema ainda é repetido ao longo do disco em outras três ocasiões, sempre apresentando uma textura a mais.

Mesmo com a presença marcante de todos os integrantes, é bem evidente que Wagner Tiso naquela altura do campeonato meio que dominava a parada toda, e um sinal disso é o crédito que ele leva da maioria das composições. Tanto que Fredera já chegou a dizer que “Matança do Porco” é meio que um disco solo de Tiso. Mas sinceramente, isso não importa muito pra mim, pois vejo esse como um trabalho de banda do início ao fim.

É interessante notar como esse álbum se comporta perto das grandes obras da nossa música brasileira. Ele é como se fosse um presente daqueles que você não espera que vai ganhar, mas ao recebê-lo a satisfação é imediata.

Dificilmente você não vai se surpreender com alguma faixa desse disco.

Coletivo SÊLA reforça a força e a luta da mulher no mundo da música e da arte

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Foto: Jamyle Hassan

Um levante feminino no mundo da música está em andamento e a tendência é ficar cada vez maior e mais forte. E isso é ótimo! A SÊLA, coletivo que busca uma aliança entre mulheres no meio musical, já deu origem a um festival em fevereiro com a participação de Tiê, As Bahias e a Cozinha Mineira, Tássia Reis, Luana Hansen e muitas outras, e em breve ganharão outros projetos, além de um palco no Dia da Música.

Composto pela cantora Camila Garófalo, as publicitárias Laíza Negrão e Fernanda Malaco, as produtoras culturais Marina Coelho e Cris Rangel, a jornalista Flora Miguel, a produtora musical Érica e a designer Fernanda Martinez, a SÊLA pretende tirar a mulher do eterno pedestal de “musa” na música e mostrar que elas também são instrumentistas, compositoras, iluminadoras, produtoras, técnicas de som, diretoras e mais. “Somos subestimadas e questionadas a todo momento”, explica Camila.

Conversei com Camila, Flora e Laíza sobre a SÊLA, o Dia Internacional da Mulher e a mulher no mundo da música:

– Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Como esta data fala com vocês do SÊLA?

Flora: O Dia da Mulher é hoje bem apropriado pelo sistema, funcionando quase como uma válvula de escape para as mulheres serem “agraciadas” (e pra vender) durante um dia enquanto nos demais sofrem opressões cotidianas. Voltando para as origens da data, ela é um marco de liderança e organização feminina que terminou em feminicídio (em 8 de março de 1857 operárias de Nova Iorque organizaram uma greve e foram silenciadas com um incêndio dentro da fábrica onde estavam, culminando na morte de cerca de 130 mulheres). Então o 8 de março deve lembrar, principalmente, que nós estamos aqui, existimos e exigimos nosso direito à vida, a condições dignas de trabalho, à liberdade de ir e vir e à voz ativa.

– Como vocês veem o ainda presente machismo no mundo da música?

Flora: O mercado da música ainda é, como todos os demais, extremamente machista. Existe nele uma característica estrutural também que é a de que homens são culturalmente mais incentivadora a tocar um instrumento, a sacar de música. Então, essa balança não está equilibrada. Soma-se a isso estigmas como o de que a mulher na música é cantora, intérprete. A mulher na música é o que ela quiser, onde ela quiser estar. Temos que parar de aceitar os papéis pré concebidos a nos. E estar atentas ao assédio, que também está bem presente nesse meio.

– E este pensamento está diretamente ligado à criação da SÊLA, correto?

Flora: Correto. O desejo de união que fomentou a SÊLA vem do cansaço desse papel pré concebido para a mulher – no nosso caso a mulher da música, que é nosso motor e modo de viver. Enxergamos também que com a união as mulheres se fortalecem e atingem mais “em cheio” seus objetivos. Isso, em um mercado extremamente masculino, é transformador.

– Vocês têm percebido um levante das mulheres na música em se afirmar? Eu tenho notado que estão rolando muitas atitudes como a de vocês, com a PWR Records, o zine Distúrbio Feminino, muitas bandas de minas surgindo por aí e se posicionando…

Flora: Temos percebido sim e esse levante é real. O fortalecimento do movimento feminista tem impulsionado maior visibilidade para as mulheres em diversas aéreas. Na música isso está bem explícito, talvez porque não raras vezes arte e militância se encontrem. Movimentos como PWR Records, Distúrbio Feminino e Girls Rock Camp reforçam a ideia de que a união das mulheres na área musical gera resultados fantásticos.

– Como mudar esta mentalidade da indústria musical que tira as mulheres de cena, como podemos ver nas escalações de grandes festivais como o Lollapalooza e o Rock In Rio, que escalam um número ridículo de artistas femininas?

Flora: Infelizmente, ainda não é tarefa fácil fazer o discurso feminino ser ouvido pelos homens (que estão no controle da indústria musical). Então é preciso falar bem alto, fazer pressão mesmo. E acima de tudo entender que nós realmente somos a mudança que queremos alcançar e que o poder da transformação está nas nossas mãos. Nós não precisamos mostrar que somos talentosas e por isso merecemos um espaço que é dos homens: temos que exigir um espaço que é nosso por direito.

Camila: É preciso ocupar os palcos e os bastidores. Mulheres no microfone, na guitarra, bateria, Baixo, mesa de som, roadie, luz, câmera e ação.

– E quais são os próximos planos da SÊLA? Tem mais festivais marcados? Eventos?

Camila: Próximos passos para a SÊLA é continuar alimentando parcerias com outras mulheres. Teremos um palco SÊLA no Dia da Música em parceria com a Katia e a Mariângela da Associação Cultural Santa Cecília. Isso é precioso pra nós, unir forças. Ou seja, antes de fazer um novo festival SÊLA queremos entrar em contato com outros projetos que tem o mesmo objetivo que o nosso: exaltar as mulheres em todos os aspectos. Além disso estamos nos estruturando pra futuramente conseguirmos agenciar cantoras e artistas.

– Recomendem bandas e artistas para as pessoas ouvirem nesse dia 8 de março. E não só hoje, lógico.

Camila: Luana Hansen e todos seus raps, “Flor de Mulher” principalmente. Iara Renno com “Mama”, MC Sofia com “Menina Pretinha”, Paula Cavalciuk com “O Poderoso Café”, Karina Buhr com “Eu Sou um Monstro”. “Vaca Profana” da Gal Costa.

Flora: “Four Women”, da Nina Simone, “Laura” da Marina Melo, “Intuição”, da Papisa, “Rebel Girl”, do Bikini Kill, “As De Cem”, da Brisa Flow, “Mother Nature”, da In Venus, “Man Down” da Rihanna, Tulipa Ruiz, “Prumo” e Malli, com “La Nave Va”.

Laíza: Elza Soares com “Mulher do Fim do Mundo”, “100% Feminista”, “Bonecas Pretas” da Larissa Luz, “AfroFuturo” da Ellen Oléria, “Todas as Mulheres do Mundo” da Rita Lee, “Desapegada” da Tássia Reis tem que ter!

Flora: vamos colocar uma da Camila também? “Camarim”. Daí acho que fechou bonito!

Criamos uma playlist com as sugestões do pessoal da SÊLA. Ouve aí:

“Cat Power psicodélica” Papisa mostra criatividade mística em seu primeiro EP

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Papisa
foto por Lucci Antunes

Segundo o Popload, ela é a “Cat Power psicodélica”. Para o Noisey, uma “bruxa sábia”. Papisa, o projeto solo de Rita Oliva, da banda Cabana Café e do duo Parati, lançou no final do ano passado seu primeiro EP, totalmente produzido por ela e inspirado no arcano II do tarô.  “Sempre quis fazer algo em que eu gravasse tudo, e finalmente decidi fazer. Percebi que era algo, além de possível, verdadeiro”, revela.

Apesar de ser um trabalho solo, o EP “Papisa” teve o apoio de Daniel Fumega (Macaco Bong) e da artista Re Chavs, além da participação de Fabio Gagliotti (V.Masta), que gravou synths e programações, e Rafa Bulleto (BIKE), responsável pela guitarra solo na faixa “Delusional”. As gravações foram feitas no home studio de Rita e no Mono Mono Studio, em São Paulo. O álbum foi lançado pelo selo PWR Records, dedicado exclusivamente a bandas que tenham pelo menos uma mulher como integrante, buscando dar mais visibilidade a elas.

Conversei com a multi-instrumentista sobre seu primeiro trabalho solo, suas influências, os três aspectos da Sacerdotisa, o machismo no mundo da música e muito mais:

– Como surgiu o projeto Papisa?

Sempre tive vontade de ter meu projeto solo, e fiz o Papisa quando senti que chegou o momento.

– Como ele se diferencia de seus trabalhos anteriores? Como eles influenciaram o som que você faz atualmente?

O Papisa é um projeto bem focado nas apresentações ao vivo, na experiência. Estou aberta a formatos diferentes do que sempre fiz em shows. Toquei com banda no ano passado, mas nesse ano estou tocando sozinha, com guitarra, loops, programações. Acho que essa é a principal diferença. A influência dos trabalhos anteriores é inevitável, eles fazem parte da minha formação como cantora, compositor, instrumentista. Carrego um pouco de cada trabalho, mas sempre buscando algo novo para mim, que esteja alinhado com o que quero passar no momento.

– De onde surgiu o nome Papisa?

Surgiu da vontade de me conectar com um aspecto feminino interno na hora de criar e de fazer arte.

– Quais são as suas principais influências musicais?

Música clássica, porque comecei a tocar pequena, Led Zeppelin e Pink Floyd por influências de casa, música brasileira inevitavelmente, Secos e Molhados, Gal, Caetano, Chico, Clube da Esquina, Joni Mitchell, as trilhas da Disney, Claude Bolling, Tortoise, Juana Molina, Air, Feist, Bonobo. A lista é grande.

Papisa
foto por Lucci Antunes

– Me fale mais sobre o EP. Como foi a composição dele?

Surgiu no meu home studio. Eu tinha bastante composição, mas acabei criando músicas novas especialmente pra Papisa. Enviei as músicas para um amigo, o Veio, e ele me enviou algumas ideias de produção, e fui me empolgando com a ideia do projeto. No fim acabei trabalhando bastante sozinha, criei as linhas de bateria inspiradas em beats. Como eu estava sem banda, eu ía pro estúdio, soltava as bases no computador e ficava tocando bateria em cima. Fui desenvolvendo assim, tocando comigo mesma. Até que chegou num ponto em que me senti preparada pra gravar tudo valendo. Aí fui finalizar as gravações e mixar, no Mono Mono Studio.

– Me explica melhor sobre estes três aspectos da Sacerdotisa presentes nas músicas.

As músicas falam de instinto, intuição e ilusão. Foram aspectos que surgiram na minha busca de reconexão com o feminino, comigo mesma, na verdade. Foi decorrente de uma série de mudanças na minha vida e me vi tentando prestar mais atenção nos meus próprios comportamentos, vontades, buscando uma verdade interna, buscando ouvir minha intuição…No meio dessa busca também percebi que é fácil se iludir dentro das nossas próprias impressões, convicções. Estudar a figura da Sacerdotisa me ajudou a entender melhor meu processo, e acabou refletindo inevitavelmente nas músicas que eu estava criando.

– Como rolaram as participações especiais do EP?

O Veio (V.Masta), que gravou algumas teclas e contribuiu com a produção e programações, foi uma das pessoas que acompanhou o projeto desde o início. Eu tinha uma ideia de solo de guitarra pra “Delusional”, tentei executar mas percebi que não estava ficando como eu imaginava, então chamei o Rafa pra gravar, porque queria algo no estilo que ele toca.

– O EP foi lançado pela PWR Records. Como você vê o machismo frequente no mundo da música e como isso ajudou a aumentar a união e empoderamento entre as mulheres neste meio?

Acho que o machismo na música é fruto de uma série de costumes e crenças que todos carregamos, e que se manifestam tanto na música como em qualquer outro meio. Sinto que estamos tomando consciência e questionando padrões, e existe uma tentativa de mudança de comportamento que tem sido positiva pra que as mulheres se sintam motivadas e fortalecidas pra correr atrás dos seus próprios objetivos. A união e o apoio fazem parte disso. Penso que pra que haja uma verdadeira mudança de paradigma também precisamos de um esforço geral para ter mais empatia, para compreender pontos de vista diferentes, para acolher, admitir erros, incentivar correções, diminuir o julgamento. Acho que respeitar cada indivíduo como ser humano, independentemente de gênero, é nosso objetivo final, espero que estejamos caminhando nessa direção.

Papisa
foto por Lucci Antunes

– Quais os próximos passos da Papisa?

Papisa tem shows marcados nos próximos quatro meses, e também estou trabalhando no meu disco cheio, que deve sair no segundo semestre.

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

O M O O N S, do André Travassos, que era do Câmera, lançou um disco lindo e sensível no ano passado. A Sabine Holler tem vários projetos, o Jennifer Lo Fi, Ema Stoned, Mawn, e agora está tocando com seu trabalho solo. Toquei com ela semana passada e fiquei impressionada. A Laura Wrona também lançou um disco massa ano passado, o Cosmocolmeia. Tem muita coisa boa rolando, Hierofante Púrpura, Luiza Lian, Paula Cavalciuk, Mahmed.

Construindo Black Cold Bottles: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Black Cold Bottles

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o quarteto paulistano Black Cold Bottles, que indica suas 20 canções indispensáveis.

Quarto Negro“3012”
Larissa: O Quarto Negro é a minha principal referência nacional, tudo é absolutamente impecável na música desses caras e eu deliberadamente me inspiro muito na ambiência desse som. Vou longe.

The White Stripes“Ball and Biscuit”
Larissa: Na verdade eu poderia escolher qualquer uma dos White Stripes, pois desde a primeira vez que os escutei nunca mais deixei de fazê-lo. Jack White é uma figura que sempre me inspira em seu universo musical e que me influenciou bastante no momento em que descobri a guitarra. Eu o considero uma espécie de gênio dos riffs e sempre será uma das minhas principais referências.

Sharon Van Etten“Give Out”
Larissa: Essa mulher tem uma voz maravilhosa, feita para o violão que ela toca, pra mim é como se fosse uma coisa só. É o tipo de música que eu estou sempre escutando, nunca sai do meu Spotify. Eu gosto muito desses arranjos sóbrios e da segunda voz, a Sharon é a minha musa!

Lianne La Havas“Midnight”
Larissa: O Caio me apresentou o som da Lianne e desde então eu sempre escuto, comecei a procurar seus vídeos no youtube e é simplesmente apaixonante o modo como essa mulher toca ao vivo. Baita voz, essa música é completa.

Alabama Shakes“Dunes”
Larissa: Dentro dessa mistura toda, acho que em vários momentos eu vejo um pouco do Alabama Shakes no nosso som, inclusive utilizamos o “Sound & Color” como referência pra mixagem do disco. Gosto muito dos timbres de guitarra deles, das composições e nuances. É uma referência que foi se incorporando ao longo do processo.

Mayra Andrade“Ténpu Ki Bai”
Caio: Cantora de Cabo Verde, consegue trazer influencias do mundo inteiro em sua arte, principalmente brasileira. Essa música em especial me traz ótimas recordações de um tempo muito bom em minha vida, sem contar a sensibilidade da voz dessa cantora e uma maneira muito pelicular de improvisar. O entrosamento de baixo e batera, junto de uma cama linda de teclados, violões, riffs de guitarra, e frases de cello, fazem muito sentido com a finalização do disco inteiro. Foi um dos shows mais perfeitos que já fui em minha vida.

Snarky Puppy“Thing Of Gold”
Caio: Na minha opinião é um dos melhores grupos de instrumental da atualidade, liderado pelo baixista Michael League (compositor e produtor), apesar da pouca idade dos integrantes, conseguem exibir um trabalho excepcional, do jazz ao black music, com temas super criativos e MUUUUITO improviso.

Pitanga em Pé de Amora“Frevo à Tempo”
Caio: Taí um grupo e São Paulo que representa demais a música brasileira de raiz, com muita maestria e qualidade! “Frevo à Tempo” é uma das músicas que mais traduz a pegada dessa galera, resumindo: instrumental complexo, envolvente, com dinâmicas incríveis… Enfim, eles são completos.

Ester Rada“Out”
Caio: Cantora Israelense que traz muitas influências no seu som, desde o Reggae até o Rap, me inspirou demais nos últimos dias de gravação do nosso disco “Percept”. A música “Out” em especial tem todos os elementos que eu gosto numa música: batera e baixo com uma pegada totalmente entrosada, Rhodes marcando a música inteira, a levada de guitarra totalmente funkeada, um Naipe de sopros com arranjo bem agressivo, todos se completam com a excelente voz desta cantora maravilhosa. (Meus ouvidos sempre agradecem quando eu boto esse som para tocar).

Mikromusic“Za Malo”
Caio: Banda polonesa, sou extremamente apaixonado por eles, um divisor de aguas na minha vida. Para mim é um dos discos mais bem finalizados em questão de mix e master e todo o conjunto de timbres utilizados, arranjos e etc….. Me influenciou fortemente para tentar me aventurar nessa área do áudio. Todos esses minuciosos detalhes me motivaram a captar todo o nosso discão da Black Cold Bottles que está prestes a sair. Vale a pena começar ouvindo a música “Za Malo” para sentir qual é a pegada dessa banda magnifica.

Radiohead“Bodysnatchers”
Bruno: Eu tenho o hábito de ouvir muito alguma banda durante um processo de composição, e na época em que estávamos criando as músicas que viriam a fazer parte do “Percept”, eu ouvi muito o “In Rainbows” do Radiohead. E essa música acabou ganhando meu ouvido com mais facilidade, e acabou por me influenciar muito mais do que as outras do disco.

Gilberto Gil“Ciência e Arte”
Bruno: Minha música favorita do disco “Quanta” do Gil. Um samba muito bem composto e executado, me faz ficar encantado com a sua execução toda vez que eu ouço. Uma verdadeira obra prima.

Black Rebel Motorcycle Club“Fire Walker”
Bruno: Ainda me recordo da sensação que essa música que me causou. Eu ainda morava em Curitiba, ouvi essa música num dia muito frio, e ouvi esse disco no dia em que ele foi lançado. Essa música me fez ter noção que eu precisava continuar fazendo música.

Autolux“Supertoys”
Bruno: Esse disco do Autolux (“Transit Transit”) é um absurdo. Eu ouvi muito esse disco durante as gravações do nosso disco, e sempre que eu ouço os primeiros acordes dissonantes dessa música, eu não consigo me conter e começo a fazer as famosas ‘air drums’ onde quer que eu esteja – Carla Azar pra mim é uma das maiores bateristas da história.

The National“Sorrow”
Bruno: Essa música, principalmente pelo alcance vocal do Matt Behringer, foi uma das músicas que mais me inspiraram na hora de cantar. Eu não sei o porquê, mas há alguns anos atrás eu me sentia inseguro pra soltar a voz, e conforme foi descobrindo The National, esse medo foi se esvaindo. O “High Violet” é o meu disco favorito deles, e “Sorrow” a minha favorita desse disco.

Diana Ross“I’m Coming Out”
Gabriel: Tudo que Nile Rodgers toca meu ouvido aceita sem nenhuma objeção. “I’m Coming Out” é um exemplo perfeito da parceria baixo fechado + guitarra aberta que ele traz em suas composições.  O trio funk, soul e disco sempre fez parte de todas as minhas playlists desde os 14 anos (a disco music com mais força, o que explica minha paixão incondicional por notas oitavadas), em toda linha que começo a compor em cima de alguma ideia de arranjo que o Caio, o Bruno ou a Lari trazem para o estúdio e sempre procuro deixar um pouco de tempero destes estilos.

Red Hot Chili Peppers“Power of Equality”
Gabriel: Nunca é surpresa quando um baixista que nasceu nos anos 90 diz que o Flea é uma de suas principais influências. É sempre um orgulho saber que o RHCP conseguiu levar tantos adolescentes a optar por um instrumento tão pouco explorado no mainstream da época. “Power of Equality” é a síntese dessa ideia, pois mostra um protagonismo absurdo das quatro cordas: slap em 60% da música, pedal de efeito e guitarra fazendo cama para um baixo groovado. Uma grande aliada no processo criativo do “Percept”.

Apanhador Só“Vitta, Ian, Cassales”
Gabriel: Apanhador Só é um vício tão forte que eu mesmo não consigo compreender o que acontece quando eu ouço a música deles. Um experimental brasileiro com letras abertas à interpretações diversas, uma combinação que parece que foi tatuada no meu subconsciente. “Vitta, Ian, Cassales” é a minha favorita da banda, uma música de quase cinco minutos, com altos, baixos e letras que te levam a uma reflexão sobre “qualquer coisa”. Essa estrutura lembra um pouco as composições da Black Cold Bottles, uma influência que faz todo sentido, já que a banda toda ouve e curte os caras.

Mahito Yokota e Koji Kondo“Wind Garden (Gusty Garden Galaxy)”
Gabriel: Música e videogame são duas paixões antigas que carrego comigo até hoje, e a intersecção entre estes dois mundos é uma fascinação que eu tenho que cada dia que passa cresce e me influencia mais. Os compositores desse nicho para mim não ficam atrás de nenhum outro: David Wise, Grant Kirkhope, o gênio do Koji Kondo e tantos outros músicos que dominam a arte de auxiliar na imersão do jogador, mostram o potencial emocional e nostálgico que essas trilhas têm. “Gusty Garden Galaxy” é um hino que resume todo esse meu sentimento com o estilo.

Céu“Minhas Bics”
Gabriel: A Céu é uma cantora que eu realmente adoro, sua musicalidade me cativa. Escutei muito o “Tropix” ao longo da gravação do disco e essa música tem um riffzinho de guitarra no final que aquece meu coração.

Ouça a playlist com os 20 sons e siga o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify:

Cantarolando a versão que o Scott Walker fez para “Maria Bethania” (1973)

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Scott Walker
Scott Walker

Cantarolando, por Elisa Oieno

Scott Walker é um cara intrigante. Muito lembrado como um ícone pop dos anos 60, o garoto bonitão de voz aveludada e jeitão charmoso de crooner americano hoje é também associado à música de vanguarda e ao experimentalismo.

Inicialmente, Scott Walker tornou-se conhecido por ser a voz principal do grupo The Walker Brothers. Apesar do nome, os três membros não eram irmãos. Os Walker Brothers, com seu pop meio bom-moço, fizeram bastante sucesso comercial em meados dos anos 60, principalmente nas paradas britânicas, apesar de o grupo ser americano. Porém, em 1967 a banda se desfez, e Scott Walker iniciou sua carreira solo.


Quando se fala em Scott Walker, vale a pena lembrar do seu período mais brilhante, que resultou nos quatro primeiros discos de sua carreira solo: “Scott” (1967), “Scott 2” (1968), “Scott 3” (1969) e meu preferido pessoal, “Scott 4” (1969). É nesses trabalhos que é possível perceber o lado não convencional do cantor começando a aflorar com suas canções exageradamente densas e cinematográficas, existencialistas e escuras, em contrapartida à tendência colorida e florida do pop da época. Seu jeito de cantar é especialmente ecoado em David Bowie, assumidamente influenciado por Walker.

Os primeiros discos da carreira solo de Walker eram até reconhecidos pela crítica, porém atingiam cada vez menos sucesso comercial. A personalidade do cantor também não ajudava – ele preferia ficar recluso sozinho lendo seus livros e mergulhar em seus pensamentos profundos a participar das festas e da vida do showbizz. Quem antes arrancava suspiros das menininhas, agora começava a ser visto como um esquisitão.

Após o disco “Scott 4”, o cantor entrou em um período de declínio criativo, fazendo seus próximos trabalhos apenas para cumprir contrato com a gravadora. Em um desses discos, chamado “Any Day Now”, de 1973, é que está a versão de “Maria Bethania”, de Caetano Veloso.

A canção foi escolhida por Walker para constar em seu disco, muito provavelmente porque ele e Caetano faziam parte da mesma gravadora, a Philips. Sem grandes alterações no arranjo, e com uma vibe ainda mais “exótica” do que a original, a versão de “Maria Bethania” é cantada por um Scott Walker com uma bela voz até um pouco sem brilho, mas com um sotaque bizarro que parece mais jamaicano que brasileiro.


É realmente uma pena que Scott Walker não estivesse em sua melhor forma quando gravou sua a versão para esta canção tão intimista e criativa de Caetano Veloso, do disco homônimo de 1971. Mesmo assim, a versão vale a pena ser conferida, e é bem boa no fim das contas. Mas imagine só se Scott Walker tivesse realmente abraçado os traços inusitados e sutilezas dramáticas de um cara brasileiro exilado em Londres…

Construindo Serapicos: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Construindo Serapicos

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo se baseia: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o quarteto paulistano Serapicos, que indica suas 20 canções indispensáveis.

The Magnetic Fields“The Nun’s Litany”
‘Considero o Stephin Merrit, compositor do Magnetic Fields, o melhor letrista de todos os tempos. Sua obra deveria estar ao lado de Shakespeare, Camões e Cervantes. Essa canção é só uma amostra do que esse desgraçado é capaz de fazer.’

Leonard Cohen“Bird on a Wire”
‘Muito difícil escolher apenas uma música do Cohen. Mas se tivesse que apresentar apenas uma música dele para os alienígenas seria “Bird on a Wire”. Essa música é um soco no estômago, a síntese da vida de um poeta.’

Rufus Wainwright“Going to a Town”
‘O Rufus é incrível. Letrista fudido, baita cantor e uns arranjos muito cabeçudos e lindos.’

Nina Simone“Sinner Man”
‘Essa música veio de um espiritual tradicional americano. E a Nina Simone é ridícula. Que artista catártica!

Judy Garland“Somewhere Over The Rainbow”
‘O salto de oitava entre as duas primeiras notas já dá toda vibe dessa masterpiece cinematográfica. Depois fizeram aquela versão no ukulelê tirando esse salto e estragaram a música. Escrita por Harold Arlen, que também compôs “Ac-Cent-Tchu-Ate the Positive”, outra pérola.’

System of a Down“B.Y.O.B.”
‘System é uma das bandas mais criativas dos últimos 150 anos. Adoro o ritmo frenéticos de melodias diferentes, quebradas ritmicas e berros ensandecidos. Influencia muito meu pensamento de forma musical e como estruturar canções sem seguir a fórmula óbvia verso-refrão.’

Green Day“Basket Case”
‘Talvez a música que mais tenha mudado minha vida. A primeira frase da melodia acompanhada pela guitarra mutada de power-chord foi minha obsessão dos 11 aos 27 anos, quando comecei a compor.’

Tuva Semmingsen“Lascia ch’io pianga”
‘Essa é uma ária de Handel que toca na abertura do filme “Anti-Cristo” do Lars Von Trier. É uma melodia devastadora e essa música resume bem minha adoração pela música sacra.’

Bajaga“Muzika na struju”
‘Esse é um rock iogulsavo com um refrão super-catchy embora seja impossível cantar junto. Gosto bastante do sotaque musical de melodias do leste europeu. Os caras mandam bem.’

Ella Fitzgerald“Let’s Do It”
‘A Ella é uma das grandes intérpretes da obra do Cole Porter, talvez o maior compositor e letrista da primeira leva Broadway. Essa música é uma aula de como falar de putaria sem ser nada vulgar.’

Linda Scott“I’ve Told Every Little Star”
‘Essa música toca no filme “Mulholland Drive” do David Lynch. Gosto músicas que tocam em um filme e conseguem resumir toda a atmosfera da história. Escrita por Jerome Kern, outro monstro do Early Broadway.’

Adoniran Barbosa“Iracema”
‘Pra não escolher “Trem das Onze”, vou de Iracema. Melodia linda e melancólica. E o que dizer desses backings femininos que entram harmonizando em coro? Fudido.’

Rogério Skylab“Você Vai Continuar Fazendo Música”
‘Skylab é o maior poeta vivo que temos nesse país. Essa música é um super desincentivo pra quem quer ser artista.

Cérebro Eletrônico“Cama”
‘Conheci essa música ao vivo em um show do Cérebro e assim que veio o refrão pensei ‘Caralho’.

Júpiter Maçã“Um Lugar do Caralho”
‘O Júpiter foi um dos primeiros cancioneiros da música brasileira que me identifiquei. Essa música é um hino negligenciado pela grande mídia.’

“Se Essa Rua Fosse Minha”
‘Essa canção é de autoria anônima, tem cara de ser portuguesa. Que melodia assombrosa e atemporal.’

Jefferson Airplane“White Rabbit”
‘Essa música foi escrita pela Grace Slick, frontgirl do Jefferson Airplane. É a minha favorita da fase psicodélica do rock. Muito melhor que Rolling Stones.’

Johnny Cash“The Man Comes Around”
‘Nessa canção, Cash descreve o Apocalipse. Lembro de ouvir nos créditos de um filme de zumbi antes de saber quem era Johnny Cash. Esse foi o último disco dele antes de morrer e dá pra ouvir o sopro da morte saindo de voz sussurrada e salivada.’

4 Non Blondes“What’s Up?”
‘Todo mundo que nasceu em 1990 foi influenciado por essa música. Refrão grudento demais, quebrada pro falsete de eriçar os pelos da nuca. Escrita por Linda Perry.’

Enya“Orinoco Flow”
‘Essa é uma obra-prima da World Music. Melodia e arranjo hipnóticas. Parabéns para Enya.’

Frank Sinatra“My Way”
‘Essa música foi traduzida do francês pelo grande Paul Anka. Tudo é perfeito nesse arranjo cantando pelo Frank Sinatra. E é dessas canções que exemplificam perfeitamente um pensamento e uma sensação universal.’