Celebração baiana: “Doces Bárbaros” (1976)

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Doces Bárbaros

Bolachas Finas, por Victor José

Certa vez perguntaram a Milton Nascimento como era possível haver tantas parceiras entre músicos brasileiros, e o cantor simplesmente respondeu: “Porque a gente gosta disso”. Essa frase cabe perfeitamente no encontro dos baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, o que resultou no “Doces Bárbaros”. Se separados eles já ditavam tendências, lotavam shows e rendiam notícias, juntos então, eram capazes de soar como um divisor de águas da MPB.

Ao longo dos anos anteriores, uma série de espetáculos reuniu os medalhões no palco. Em LP, Domingo” (1967), Tropicália ou Panis et Circencis” (1968), Barra 69″ (1972) e Temporada de Verão” (1974) já haviam mostrado que a afinidade entre esses músicos ia além da amizade que cultivavam fora dos palcos.

Já estava comprovado que parcerias agradavam o público. Por isso, em 1976, o selo Philips – naquele momento, dona de um catálogo absurdamente fantástico – voltaria a investir na fórmula apresentando ao público outra faceta da MPB: um raro caso brasileiro de supergrupo, ou seja, conjunto cujos integrantes já são reconhecidos por outros trabalhos.

A convocação dos Bárbaros partiu de Maria Bethânia. Conversando com o irmão Caetano, pediu para ele fazer a melodia de uma letra de sua autoria, intitulada “Pássaro Proibido”, a qual acabou se tornando uma das canções do grupo. Papo vai, papo vem e Bethânia conta que havia sonhado com a reunião daqueles quatro amigos no palco, uma possibilidade antiga que já vinha sendo alimentada principalmente por Caetano e Gil, que chegaram a cogitar algumas vezes formar uma “banda de brincadeira”, mas esperavam pelo momento certo para concretizar a ideia.

A parceria entre eles não poderia ter sido escolhida num período melhor. Com sucesso estabilizado e reconhecidos pelo público e pela crítica, os quatro atravessavam uma fase prolífera em suas respectivas carreiras solo. O quarteto podia gozar da livre e espontânea vontade de se curtirem, sem a obrigação de criar um disco inovador.

Sobre o nome, Caetano disse: “Após o exílio em Londres, eles retomaram uma linha de ataque contra nós, focando principalmente no fato de nós sermos baianos. Então fizeram um apelido, chamaram a gente de ‘baiunos’, deplorando que o Rio tivesse sido invadido por esses bárbaros. Foi aí que eu tive a ideia de chamar a gente de Doces Bárbaros”.

Um ano antes, Gil inaugurou a trilogia “Re” com o muito elogiado LP Refazenda”, no qual revisitou suas raízes e reinventou sua sonoridade. Posteriormente, Gil colhia os frutos do trabalho de estúdio com uma longa turnê pelo País.

Gal Costa investia no repertório do conterrâneo Dorival Caymmi. Ela havia estourado nas rádios e na televisão com “Modinha Para Gabriela”, o famoso tema de novela. Logo depois lançou o álbum Gal Canta Caymmi”, que renderia um show com o compositor.

Após dois anos de jejum fonográfico, Caetano matava a fome de seus fãs com Jóia” e Qualquer Coisa”, de 1975, discos mais acessíveis ao grande público e menos arrojados em relação à proposta estética, se comparados aos trabalhos anteriores, como o experimental Araçá Azul”.

Já Maria Bethânia se desvinculava gradualmente dos álbuns teatrais que marcaram o início de sua trajetória. Um ano antes tinha subido ao palco com Chico Buarque, encontro que renderia um LP de muito sucesso. E no começo de 1976, lançava Pássaro Proibido”, um marco que a consagraria definitivamente como cantora popular.

Apesar de alegarem que estavam comemorando dez anos de carreira solo, cronologicamente, o ano de 1976 estava fora de contexto. Bethânia tinha discos gravados há mais de onze anos. Gil iniciou sua discografia em 1963 com Gilberto Gil – Sua Música, Sua Interpretação”, lançado pela JS Discos. Caetano teve o primeiro compacto nas lojas em 1965, com “Cavaleiro / Samba em Paz”. Já a estreia solo de Gal Costa aconteceria somente em 1969, em LP homônimo.

A concepção era ambiciosa no formato e consistia em uma maratona de shows em diversas capitais, um álbum duplo e um documentário. A produção do espetáculo ficou por conta do empresário Guilherme Araújo, e a estreia do grupo aconteceu no dia 24 de junho de 1976, no Anhembi, em São Paulo.

Em uma das viagens da turnê, aconteceu um imprevisto que levaria o grupo à manchete dos jornais de Florianópolis e do Brasil. Gil e o baterista Chiquinho Azevedo foram presos por porte de maconha. A notícia causou tanto alvoroço quanto o show e si. Recolhido em uma cadeia pública, por decreto de um juiz, Gil foi internado no Instituto Psiquiátrico São José, próximo a capital catarinense, onde ficaria recluso por cerca de duas semanas, para que em seguida se submetesse a tratamento ambulatorial no Sanatório Botafogo, no Rio de Janeiro.

Algum tempo depois da interrupção das apresentações, o Doces Bárbaros retomou os palcos e iniciou uma bem sucedida temporada no Canecão, do Rio de Janeiro, onde ficariam em cartaz por cerca de dois meses, com direito a recorde de bilheteria.

Embora naturalmente sobressaísse o espírito aberto e festivo de estarem juntos no mesmo palco, o espetáculo também continha outros grandes momentos. Lampejos de talento vocal e performático, com “Os Mais Doces dos Bárbaros” e “Fé Cega, Faca Amolada”, cantado por todos juntos com um entusiasmo arrebatador, ou em casos mais tranquilos, como “Esotérico”, composição de Gil interpretada por Gal e Bethânia com um quê de sensualidade desconcertante que as duas intérpretes gostavam de imprimir.

Gil e Caetano desejavam gravar o repertório em estúdio, mas Gal e Bethânia insistiram que fosse lançado ao vivo, e foi assim que aconteceu. Mesmo com a decisão de captar o clima do show, quatro das canções contidas no tracklist do LP foram gravadas em estúdio: “Esotérico”, “Chuckberry Fields Forever”, “São João Xangô Menino” e “O Seu Amor”, as quais também sairiam em compacto duplo em julho do mesmo ano.

O álbum duplo traz dezessete canções distribuídas em dezoito faixas, sendo quase todas até então inéditas e compostas, em grande parte, ou por Caetano ou por Gil. Apenas três fogem da regra: “Fé Cega, Faca Amolada” (Milton Nascimento / Ronaldo Bastos), “Tarasca Guidon” (Waly Salomão) e “Atiraste Uma Pedra” (Herivelto Martins / David Nasser).

O disco foi sucesso comercial, mas não vingou aos olhos da crítica. Naquela altura da década de 1970, quando se falava de alguma obra do time da MPB, se esperava algo esteticamente rico, intrínseco, e não aquela imagem abusivamente festiva celebrada pelos baianos.

Tanto o espetáculo quanto o LP foram duramente criticados, sendo taxados de algo sem profundidade, raso, uma manifestação Flower Power fora de época. “Não se fazem mais baianos como os de antigamente?”, publicaria Walter Silva, o ferrenho crítico da Folha de São Paulo.

Ruy Castro também foi severo e cobrou mais respeito da trupe aos espectadores, que presenciaram alguns imprevistos no palco. Ele também pediria para os baianos ensaiar antes de entrar em cena. “De preferência, sem a presença do público, nem cobrando 80 cruzeiros por cabeça. Tropeçar nos fios e derrubar microfones não devia fazer parte da coreografia. Os quatro continuam a ser artistas extraordinários, mas cada qual no seu canto. Por enquanto, os Doces Bárbaros são apenas uma doce ilusão”, publicaria na época.

Talvez seja exatamente isso que o quarteto tenha significado: uma celebração despretensiosa no sentido estético e mais voltada à pura e simples curtição, ou seja, o contrário do que foi o Tropicalismo e todo seu engajamento, o oposto do que se esperava daquelas estrelas naquele momento de ditadura militar.

Mas o tempo foi o melhor remédio para apagar os preconceitos. Mesmo com todos os problemas técnicos e a estigma de soar escapista, o LP “Doces Bárbaros” acabou ganhando o devido reconhecimento de obra importante da discografia brasileira. Hoje ele é tido como um registro fonográfico histórico e único de um momento áureo, e, quem sabe, o último suspiro da linguagem abertamente hippie na música brasileira.

A cantora paulistana Mary Luz mistura a MPB com influências de indie rock em “Velejando No Afeto”

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Mary Luz
Mary Luz

Começando de forma despretensiosa colocando seus vídeos de covers ao violão no Youtube, Mary Luz viu que podia ir além e começou a pensar em trabalhar seu projeto autoral. Foi daí que surgiu “Velejando No Afeto”, seu primeiro EP, realizado com a ajuda de amigos e disponível para streaming. São quatro músicas de autoria da cantora, que faz MPB com influências de indie rock. “Eu pego muitas referências do universo indie/MPB, aleatoriamente”, explica.

Conversei com ela sobre o primeiro EP, sua carreira de artista independente, a cena atual da música e planos para o próximo trabalho:

– Como você começou sua carreira?

Comecei por volta de 2010, quando comecei a aprender a tocar violão. Só que depois comecei a sentir a a necessidade de cantar também, então comecei a me apresentar em saraus que eram realizados na escola que fiz o ensino médio e a fazer alguns vídeos covers pro meu canal do YouTube. Daí, a partir de 2013, comecei a compor e produzir um trabalho autoral, que foi lançado em 2015!

– Então você começou já nessa nova pegada de utilizar as redes sociais e o Youtube como força para seu trabalho.

Exatamente, pra tentar ter mais visibilidade.

– Quais as suas principais influências musicais pro seu trabalho autoral?

A Adriana Calcanhotto é minha principal influência, embora não seja nítido nas minhas produções (risos). Eu pego muitas referências do universo indie/MPB, aleatoriamente (risos).

– Me fala um pouco mais sobre o trabalho que você já lançou!

O EP é o “Velejando no Afeto”, foi lançado em 2015, e é composto por 4 faixas autorais: “Me Ensina”; “Menina Luz”; “Acorde” e “Martírio”. O EP foi produzido de forma independente, em um home estúdio de um amigo, produtor (Enéas Lemes). Então juntei uma grana e investi nesse trabalho 😊

– E como foi lançar esse trabalho independente?

Quando ficou tudo pronto, foi emocionante. Ouvia cada faixa e chorava (sou muito chorona!), pois não conseguia acreditar que eu tinha conseguido dar vida aquelas composições. Depois que lancei, saia procurando páginas do Facebook que pudessem me ajudar a divulgar algumas das faixas, pedi pros meus amigos mostrarem pra outras pessoas… Foi bem difícil a disseminação desse EP, por muitos fatores (falta de grana, instruções, contatos, estratégias), mas sempre me senti muito grata e realizada com as poucas pessoas que me ajudaram, que ouviram e acompanham meu trabalho até hoje 🙂

– Como você definiria seu som?

Ele tá mais pro indie MPB.

– Você acha que nova MPB é vista com certo preconceito pelo público atual?

Por algumas pessoas, pode ser que sim, mas no geral, acredito que a aceitação dessa nova MPB é boa, embora ela ainda não seja predominante (risos).

– E porque você acha que ela não têm tanto apelo mainstream quanto a MPB tinha nos anos 60, 70 e 80?

Acho que nos anos 60, 70 e 80, a MPB de bem forte, assim como o rock nacional, pelo contexto político daquele período, que resultava em canções críticas e reflexivas sobre o que acontecia. Atualmente, o sertanejo, funk carioca, pop/dance-pop, por exemplo, são os gêneros que estão tendo mais espaço, mas não quero com isso ser demagógica, e dizer que essa visibilidade é negativa, pelo contrário, mas sim que todos os gêneros precisam ter esse espaço.

– E como a cena independente pode fazer para alcançar mais seu público?

Quando​ você é um artista independente, acredito que precisa reconhecer o seu trabalho, valorizar os trabalhos de pessoas que também seguem essa cena, as pessoas que te ajudam e acreditam em você, e os ouvintes que apreciam e se sensibilizam por sua arte. Além disso, é preciso investir, focar e se dedicar nas produções, de acordo com o seu momento de vida. Creio que dessa forma as coisas vão fluindo, de modo que mais pessoas possam ter contato com essa produção Independente.

Mary Luz

– Quais os seus próximos passos musicalmente?

Disseminar mais o EP “Velejando no Afeto”, pois embora tenha sido lançado em 2015, ele ainda é novidade pra muita gente. Estou produzindo um clipe para a faixa “Martírio”, com previsão de lançamento ainda pra esse ano.
Em paralelo, estou trabalhando no meu segundo EP, com calma, para que em breve eu possa lançá-lo.
E também estou fechando algumas apresentações pros próximos meses, e assim vou seguindo (risos)!

– Pode me falar um pouco sobre o que vem por aí no segundo EP?

Posso dizer que esse segundo EP traz consigo outros olhares, sentimentos e reflexões a respeito da vida em geral 🙂

– Por fim: recomende bandas e artistas independentes que você ouviu nos últimos tempos e chamaram sua atenção!

Tenho escutado bastante Daniel Silva (artista do Grajaú), Luiz Semblantes (artista do Grajaú), Yannick aka Afro Samurai, Oma Uê (dupla que vem se consolidando), Caio Moura, Gê de Lima, Geo Mantovani, Luana Bayô… Vários! 😂

Zav estreia seu projeto solo mostrando influências de Lana Del Rey no clipe de “Música Esquecida”

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Zav

Victória Zav começou a cantar quando era ainda criança, e graças à um show de talentos na escola nunca mais parou. Além de fazer parte da banda Serapicos, agora Zav lança o primeiro single de sua carreira solo, “Música Esquecida”, com influências de Lana Del ReyHiatus Kaiyote, Chet Faker e “um pouco de rap”, segundo ela. A música, com pegada eletrônica e indie, ganhou um videoclipe cheio de colagens. “Me inspirei faz tempo com esse conceito com o clipe “Video Games” da Lana Del Rey. Inclusive quando eu tava buscando stock footage pra colagem achei a fonte de alguns excertos que ela usou (risos)”, conta.

Conversei com a cantora sobre o primeiro single, suas influências, o EP que vem por aí, a carreira solo e a cena independente atual:

– Bom, primeiro, me fala um pouco mais sobre este single que você acabou de lançar!

Esse som de início eu gravei bem acusticão, home-studio! Ele tinha linhas de tarka, uma flauta boliviana (ainda tem na introdução), gravei pau de chuva também, umas coisas bem étnicas. Depois fui formando esse conceito de timbre que eu queria e acabou numa pegada eletrônica. O clipe é uma video colagem, me inspirei faz tempo com esse conceito com o clipe “Video Games” da Lana Del Rey. Inclusive quando eu tava buscando stock footage pra colagem achei a fonte de alguns excertos que ela usou (risos).

– E vem um disco completo por aí?

De início estou preparando alguns singles, mas pretendo lançar um EP em breve.

– E o que podemos esperar nesse EP?

Serão músicas bem diferentes entre si, mas com um contexto em comum. Nele eu pretendo seguir nessa pegada eletrônica.

– Qual a diferença do seu trampo solo com o que você faz no Serapicos?

Eu poderia dizer que todas possíveis! (risos) O Serapicos tem um formato banda, enquanto meu projeto tem essa coisa de eu como frontwoman e um backing track rolando. As músicas do Serapicos são compostas pelo Gabriel e eu entro como intérprete. Pra Zav eu tô ali a compôr, arranjar e idealizar meu próprio projeto. A única coisa que vejo em comum é que são ambos projetos independentes de música autoral.

– Quais as suas principais influências musicais nesse trabalho solo?

Eu ando altamente interessada numa influência lo-fi, trip-hop, mas gostaria de manter minha matriz brasileira na linha, se é que me entende. Falando em bandas, não diria pelo gênero em si (pela mistura que pretendo), mas talvez pela timbragem eu diria: Hiatus Kaiyote, Chet Faker, Lana Del Rey, Gorillaz, um tanto de Jamiroquai e algumas batidas pontuais de rap.

– Como você começou sua carreira?

Comecei bem cedo, com 14 anos, num show de talentos da escola. Já tinha alguma noção musical mas jamais havia subido num palco até então. Fiz uma apresentação com meu pai (que também é músico) e no backstage conheci o Phillip Nutt, o qual me iniciou nos palcos e estúdios. Ele compunha, eramos um duo folk autoral.
Por meio desse projeto conheci a Serapicos, também.

Zav

– Conta mais desse projeto folk do começo!

Esse projeto era incrível! Tive oportunidade de tocar em lugares como o Café da Mata, que já recebeu vários artistas bacanas do MPB. Também fizemos um programa especial pro circuito Sesc onde interpretamos repertórios clássicos do Folk como Joan Baez e Bob Dylan, com uma formação de banda absurda. Além de todo o circuito underground onde fazíamos apresentações acústicas intimistas. Também gravamos um disco, “To Whom it May Concern”, com produção do Luiz de Boni, d’O Terço, que faleceu recentemente. Ele chegou a tocar teclado conosco em algumas apresentações, foi meu primeiro produtor. Agradeço até hoje pela honra de ter trampado com ele, ainda mais nova que eu era.

– Como você vê a cena independente hoje em dia?

Pô, tem uma galera incrível nela. E ainda tem gente que tem a coragem de me dizer que “não existe mais música boa, estacionou nos anos 90”. Existe sim, mas tá todo mundo no independente, tocando no underground e precisando do apoio do público. Mas esse apoio tá crescendo e eu vejo um futuro promissor pro cenário independente, até por isso que boto fé em fazer parte dele. A galera se une e faz um som, e a internet fortalece isso. Tá começando a ficar obsoleta essa ligação com gravadora que existia antigamente.

– E como você acha que essa cena independente pode crescer e atingir mais público?

É duro dizer e pode até ser mal interpretado como chatice de músico, mas costumo dizer que existem algumas verdades nas chatices que os músicos tentam te dizer: Precisamos que as pessoas consumam música com mais consciência. Consciência de que aquilo é uma obra de arte pensada e estruturada com muito sentimento e trabalho árduo pra você escutar. Não tenho nada contra música produto, contra quem toca na rádio, na TV; mas as pessoas precisam saber que existe vida musical pulsando além disso. Vá em shows de artistas independentes, aprecie e fale sobre o trabalho de quem ainda não pertence a grande mídia. Acredite em quem está tentando mostrar algo novo em termos musicais.

– Ou seja: não adianta ficar reclamando que a música boa parou nos anos 90 se você não prestigia quem faz música boa fora do radar do mainstream hoje em dia.

Exato. Amém, brother! A música precisa parar de ser vista como um produto a ser consumido e mais como uma manifestação artística.

Zav

– Quais são seus próximos passos musicais?

Me trancar no estúdio, gravar mais alguns singles e depois idealizar meu EP. Depois do EP acredito que haverá um show de lançamento. E em breve sai mais um clipe! Eu prometo aparecer nesse. 😛

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Vamos lá: Marina Melo, Cynthia Luz, Lay Dirty, Camila Garófalo, Luiza Lian, Molodoys, Picanha de Chernobill, Malli, Rafael Castro, Viratempo.

Caio Bars lança a 100ª canção de seu projeto “100 Dias De Canções” hoje

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Caio Bars
Caio Bars

O vocalista da banda 5PRAStANtAS e apresentador do programa Outra Frequência da USP FM, Caio Bars, começou este ano seu projeto #100DiasdeCanções, onde munido apenas de um violão e um ocasional teclado, apresenta 100 canções de sua autoria. Hoje será lançada a última, criada especialmente para fechar o projeto. O nome da música, claro, é “100 Dias de Canções”, e foi gravada no Estúdio Espaço Som, em São Paulo. O vídeo da canção irá ao ar hoje (25 de maio) às 22h em sua fanpage no endereço: https://www.facebook.com/CaioBarsOficial

Conversei com ele sobre o projeto:

– Como surgiu a ideia desse projeto?

Bom, começou quando eu estava quebrando a cabeça pensando em como dar uma agitada na minha fanpage do Facebook sem ter que gastar muito (ou quase nada) com impulsionamentos pagos. A ideia de postar um vídeo por dia veio daí. Minha intenção também era que as pessoas me conhecessem como compositor, além de cantor. Na verdade, sou bem mais compositor do que cantor… Canto mais para mostrar minhas músicas.

– E como conseguiu material para 100 dias de música? De onde saíram as músicas?

Acho que 98 delas já existiam. Se não me engano, compus uma durante esse tempo! Além da 100, que tive a ideia de fazer enquanto o projeto já rolava, eu tenho umas 200 canções escritas, mas acho que metade delas são mais estudos do que canções boas e prontas mesmo. As outras 100 coloquei no projeto!

– Como será a comemoração da música de número 100?

Farei duas lives: às 20h30 no meu Instagram @barscaio e das 21h às 22h o esquenta oficial na fanpage para aguardar junto com o pessoal o encerramento do projeto com o lançamento da canção “100 Dias De Canções” às 22h. Depois quero montar um show com as mais bem recebidas pelo público. Então, irei investir em vídeos mais bem produzidos das mais bem recebidas para colocar no meu canal no Youtube. Por fim, a reação do pessoal também deve nortear o repertório do meu próximo disco!

O paulistano Limonge mistura doses de grunge em seu folk rock de um homem só

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Limonge

O paulista Limonge começou sua carreira musical como quase todos: fazendo parte de diversas bandas de garagem. Como em todos projetos havia as tradicionais discussões entre membros, sua paciência se esgotou e ele resolveu, então, que a carreira solo seria seu melhor caminho. O cantor, compositor e multi-instrumentista de 29 anos leva o conceito de “one man band” ao extremo, assinando a produção total de todos os seus trabalhos lançados até hoje (da gravação de todos os instrumentos até a concepção artística dos álbuns). Para facilitar o processo de criação musical, montou um pequeno estúdio em casa para produzir e lançar seu primeiro álbum completo intitulado “É A Nossa Voz (Éramos Nós, Sempre Seremos)”, sucessor dos EPs “Tão Normal” (2015) e “O Tempo” (2016).

Ao vivo, ele é acompanhado por PC na guitarra e Mau na bateria e percussão, tendo se apresentado em festivais independentes como NIG Time 4 Music, Ponto Pro Rock e chegando à final do concurso “Energia Me Ouve” da rádio Energia 97. Com influências de Pearl Jam, Neil Young, Oasis, Beatles, The Who, Gin Blossoms, Foo Fighters, Nirvana, Soundgarden, Dave Matthews Band, Alanis Morissette, Bruce Springsteen, KT Tunstall, Lenine, Lulu Santos, Legião Urbana e Cazuza, ele define seu som como um folk rock com um pouco de grunge, um de seus estilos preferidos. Conversei um pouco com ele sobre sua carreira, os trabalhos já lançados e a sempre polêmica cena independente atual:

– Como começou sua carreira?

Foi algo bem natural. Música é algo que me mantem de pé desde que me conheço por gente, então o objetivo de ter uma carreira é sonho de criança. Tive algumas bandas no meio do caminho mas acabei me encontrando mesmo na carreira solo, que pouco a pouco vem crescendo muito bem!

– E como decidiu sair da vida de bandas e seguir solo?

Engraçado que não foi algo muito “pensado”; as bandas sempre acabaram naquele chavão de ” horários não batem” ou “idéias não batem”… Como minha rotina apertou também, resolvi montar um home studio pra produzir minhas coisas sozinho, no meu tempo, acabei gostando do resultado e publiquei algumas músicas. A aceitação foi muito boa, tanto que me fez assumir essa faceta e querer cada vez mais…

– Me conta mais sobre o trabalho que você já lançou.

Esse primeiro álbum nasceu da junção de 2 EPs que lancei anteriormente mais algumas músicas que deixei na gaveta por algum tempo. Como gravei todos os instrumentos, voz, editei, produzi, mixei e masterizei, não foi tão difícil fazer soar uniforme (risos). E tentei ser coeso também ao explorar um tema central que passa de forma direta e indireta por todas as faixas, que é a percepção da passagem do tempo. Sou fã de LPs, então esse lance de ter um álbum com uma historia por trás é uma necessidade latente.

– Algo que não anda tão em alta hoje em dia, né. A cultura do álbum. Com o streaming o povo tem a tendência a ouvir mais músicas soltas.

Exato, hoje existe a supervalorização do single. Pouca gente da valor a uma obra completa, degustar uma ideia de cabo a rabo, e algumas bandas já seguem essa tendencia. Eu insisto em remar contra essa maré, acho que a música pode ser muito mais do que algo supérfluo, e um single também é muito mais do que uma música solta, mas uma degustação do que você pode consumir do artista como um todo

Limonge

– Quais as suas principais influências musicais para sua carreira solo?

Diria que eu bebo muito de muitos lugares. Pra citar alguns exemplos, os solos de Eddie Vedder, Noel Gallagher, Chris Cornell (um dos meus maiores ídolos, que nos deixou há pouco, infelizmente), Dave Matthews, Bob Dylan e muito de pop/rock nacional, de Lulu Santos a Skank.

– E como você definiria seu som pra quem nunca ouviu?

Diria que um MPB pop/rock grunge com pitadas de folk talvez (risos).

– Como você vê a cena independente hoje em dia? Como você se desdobra nesse cenário atual?

Tem muita vertente, muita gente boa, muita opção pro público, mas ao meu ver, falta um pouco de união entre as bandas. Isso inclusive é uma das minhas conversas recorrentes com a Pri da Geração Y, como fazer para criar um movimento em que as bandas se abracem e não comecem a competir umas com as outras.

– Você acha que ainda existe essa mentalidade de que uma banda tira espaço da outra?

Confesso até pouco tempo achava isso babaquice, mas senti na pele alguns casos bem bizarros, então me soa como um preconceito velado. não é algo que ocorre a todo instante, mas temos 2 pontos pra explorar nisso:
1. Bandas que querem surfar na carona das outras mas não necessariamente agregam em algo.
2. Bandas que realmente acham que público é dividido e entendem gosto como competição.
Nos dois casos, precisamos buscar soluções pois, no fim, os prejudicados somos nós mesmos.

– Então uma das maneiras de fazer essa cena crescer seria uma maior união entre as bandas, na sua opinião. Como isso pode ser alcançado?

A criação de uma cena acho que passa por inúmeros pontos. Desde a aproximação para eventos como um auxílio para a expansão mútua do som. Você fazer o público rodar entre as bandas através de eventos em diversas partes do país já é algo que pode estimular um alcance maior pra todos, e de quebra, aumentar as chances de expansão. Mas tudo isso começa em uma cena, uma união, que até existe, mas de forma bem segmentada… dá pra ser muito mais.

Limonge

– Você já está trabalhando em novas músicas?

Sim, iniciei o processo pra um novo álbum há cerca de um mês… tenho já demos das músicas fechadas, em breve vou entrar em estúdio (dessa vez terá produção e será um pouco mais rebuscado) pra começar as gravações, acredito que até agosto deva pintar algo por aí.

– Pode adiantar alguma coisa sobre esse novo trabalho? 

Diria que é uma evolução/continuação do primeiro trabalho, mais maduro, um tema ainda mais firme, to bem feliz com o que rolou até aqui. Posso adiantar que serão 9 músicas, mas ainda tem um bom caminho até mostrar algo mais concreto… assim que tiver prometo que solto pra você com exclusividade (risos)!

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos e todo mundo deveria conhecer!

Gosto muito de Zimbra, Capela, BTRX, Caike Falcão, Supercolisor, Gabi e os Supersônicos, Guilherme Eddino, LTDA… ufa… tem muita gente boa, acho que essa nova leva tá incrível, temos muito o que conhecer ainda!

Alegria em estado bruto: Gilberto Gil & Jorge Ben – “Ogum Xangô” (1975)

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Bolachas Finas, por Victor José

Quando não é preciso provar mais nada, fazer o que der na telha é a melhor das escolhas.

Em meados dos anos 1970, já não restavam mais dúvidas da importância de Gilberto Gil e Jorge Ben. Oito anos depois da última grande revolução da MPB, o baiano que ajudou a universalizar a música feita no Brasil e o carioca que modificou o jeito de tocar violão gravariam mais uma vez seus nomes na arte, criando uma obra-prima impregnada de uma espontaneidade até hoje inigualável.

Há muito tempo os músicos se conheciam. A admiração era mútua, evidente até para quem não os conhecia a fundo. Suas carreiras se encontravam de tempos em tempos, como no programa Divino, Maravilhoso, no qual ambos se apresentavam, ou na versão de “País Tropical” presente no LP psicodélico de Gal, onde Gil e Caetano participam nos vocais.

Era inevitável a proximidade, estava certo que uma hora ou outra algo vindo dos dois viria à luz. A integralidade nordestina de Gil atrelada a estéticas modernas e o balanço essencialmente brasileiro e inconfundível Jorge desaguavam no mesmo lugar: uma fonte inesgotável de musicalidade, imagem e produto altamente criativo.

Em palco, o primeiro reconhecimento musical entre os dois de fato aconteceu no encontro das Semanas Afro-brasileiras, realizado no Museu da Arte Moderna de São Paulo.

E se dissessem que um mero encontro informal e improvável entre amigos desse a origem ao disco, todo mundo apostaria suas fichas: na música brasileira daquele período, para tudo se dava um jeito.

Quando o australiano Robert Stigwood, dono da gravadora RSO Records e produtor de filmes e peças como Saturday Night Fever” e Jesus Christ Superstar”, decidiu passar as férias na cidade maravilhosa com ninguém menos que o guitarrista Eric Clapton, a parceria começou se desenhar de verdade.

André Midani recebeu um telefonema do empresário informando sobre a viagem. Por camaradagem, Midani quis recepcioná-los organizando um jantar em sua própria casa. Para isso, o presidente da Philips convidou um time de primeira para passar a noite juntos: Rita Lee, Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Gil, Jorge, Nelson Motta e Armando Pittigliani foram algum dos nomes que apareceram. No final das contas, até Cat Stevens acabou indo à casa do homem.

O ambiente não poderia ser melhor. Com tanta gente interessante num lugar só, era inevitável que algo especial acontecesse. E assim foi. Em meio à celebração e bom humor, alguém sugeriu fazer um som. Pittigliani foi buscar um tambor de percussão e não demorou para que uma roda de música fosse armada.

O resultado foi uma jam session para ninguém botar defeito. Eric, com uma bela guitarra branca, dedilhava livremente seus licks blueseiros enquanto Cat seguia o ritmo com seu violão folk. De repente, Gil e Jorge, tomados por alguma epifania exclusivamente deles, roubaram a cena.

Primeiro Cat Stevens disse “Não sou guitarrista para enfrentar isso” e abandonou o navio. Reconhecendo que seu blues não cabia naquela salada sonora, Clapton largou mão da batalha para ficar observando aqueles dois monstros se desafiando, frente a frente, encharcados de suor. E quem esteve presente diz que o que se seguiu ao longo da noite foi sem sombra de dúvida um dos pontos altos da música brasileira.

Gil e Jorge compunham uma complexa jam band de dois membros capaz de fazer a cabeça de qualquer bom entendedor. Criavam e viajavam numa assombrosa velocidade de raciocínio artístico. Jorge segurava a onda com seu ritmo variável e cheio de vitalidade enquanto Gil contornava e passeava pelas batidas com um senso melódico excepcional.

A batalha resultou em empate técnico e numa plateia igualmente talentosa extasiada por ter visto algo tão encantador, sobretudo o próprio Midani, que pediu aos dois que entrassem no estúdio para repetir aquilo que acabara de presenciar. Poucos dias depois, supervisionados por Paulinho Tapajós e Perinho Albuquerque, gravariam o mítico Gil & Jorge Ogum Xangô”.

Poucas pessoas estiveram envolvidas no projeto, a ideia era justamente apontar as atenções para aquelas duas figuras carismáticas e deixar que a criatividade falasse mais alto que a lógica. Para dar liga à receita, incluíram no time somente o baixista Luís Wagner e o percussionista Djalma Correa.

Com pouco ensaio e num curto período, gravaram o LP em tomadas enormes, algumas chegando a mais de dez, quase quinze minutos. Nos estúdios da Philips, os músicos buscaram repetir a magia daquela noite, travando outra vez um dialogo desvairado, com uma fluência permitida somente a eles.

Para quem não os ouviu na lendária festa, o resultado é único. Os mestres se fundem, duelam, brincam: Gil vira Jorge, Jorge vira Gil – Ogum, Xangô, harmonia e melodia.

Apesar da alta qualidade da gravação, Midani disse: “A gravação ficou maravilhosa. Mas o estúdio só reproduziu 40%, 50% do que tinha sido aquela noite em casa”. Imagina o clima que foi essa festa.

Na religiosa “Meu Glorioso São Cristovão”, eles constroem uma prece católica quase psicodélica, de ânimo pagão e cheio de sutilezas. Jorge declama uma oração enquanto Gil a desmonta compasso a compasso sem distorcer o sentido das palavras. A dançante “Essa é Pra Tocar No Rádio” ganha uma roupagem solta e despretensiosa, ao contrário da intrincada versão jazzística e levemente caipira que entraria mais tarde em Refazenda”, o próximo trabalho de Gil.

O mesmo se dá com a épica “Taj Mahal”, que voltaria com outra roupagem um ano depois no LP África Brasil”. Como se a música não tivesse mais fim, Jorge sobrevoa montado na melodia pegajosa do seu refrão onomatopéico – o mesmo “tê, tê, teteretê” que seduziu Rod Stewart a adaptar aquela sequência de notas para a disco music safada “Da Ya Think I´m Sexy?”. Em 1978, Jorge Ben encaminhou processo contra Rod. O autor da música, Carmine Appice, foi declarado culpado pelo ocorrido. Como punição, Rod teve que concordar em doar os royalties de sua canção para a UNICEF e cantá-la no The Music for UNICEF Concert”. O show foi um sucesso, mas Jorge nunca recebeu um tostão pelo plágio.

Gil exibe vitalidade no belo afoxé “Filhos de Gandhi” e Jorge rebate munido do singelo e delicioso samba-rock “Quem Mandou (Pé na Estrada)”, com suas infinidades de “eu te amo, eu te quero”. O delírio sonoro de “Jurubeba”, também de Gil, é uma peça bem acabada da liberdade no sentido mais literal e musical possível. Flutuam no ritmo nordestino do triângulo de Djalma enquanto viajam nos multi-benefícios da planta do sertão brasileiro.

Composição de Gil nos tempos de exílio, “Nega (Photograph Blues)”, é o híbrido mais bem acabado onde tudo se encaixa perfeitamente. É nessa faixa que está destilada a essência do encontro: a versatilidade de Gil com o cadencioso ritmo de Jorge como se tudo fosse uma única coisa. Um raro presente embrulhado num inglês sobrecarregado de sotaque.

Por mais que Midani julgasse estritamente necessário que o trabalho saísse, aquele álbum duplo com apenas nove músicas obteve pouca repercussão no mercado, o que já era de se esperar. Em LP, “Gil & Jorge” nunca fora reeditado. Porém, a crítica foi generosa com o resultado, ao julgar que aquela uma hora e meia de música era pura e irretocável. De fato, a despretensão que faz deste disco mágico e único na discografia brasileira.

Ainda que impopular nas vendagens, “Gil & Jorge” se transformou em um clássico cult, sendo reconhecido até pelo público internacional como um dos pontos altos da música brasileira. Depois disso, tanto o baiano quanto o carioca passariam a buscar em suas carreiras uma trilha mais sóbria e popular: Gil revisitaria suas origens nordestinas e Jorge abraçaria de vez a guitarra elétrica.

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo pela cantora Samara Noronha

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Samara Noronha
Samara Noronha

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, a convidada é a cantora e compositora Samara Noronha!

Aurora“Murder Song”
“Essa menina tem uma presença fortíssima, sensacional! Eu a conheci por uma performance com apenas voz e um rapaz a acompanhando no violão no canal NPR Music. A versão oficial é fantástica também!”

Pomplamoose“Happy/Get Lucky”
“O que duas pessoas com uma super criatividade conseguem fazer, não?! Tudo que eles produzem é super legal!”

Eric Silver“Bridges, Friends and Brothers”
“Misture James Taylor com Phil Collins e você obtém um Eric Silver! Quão incrível pode ser isso? (risos) Um dos artistas mais incríveis e completos que já tive o prazer de conhecer. Este disco é fantástico do início ao fim! Tem músicas inéditas e versões em inglês de alguns famosos clássicos da música brasileira. Recomendadíssimo!”

Huaska“Samba de Preto”
“Esses caras misturam bossa nova e samba com rock pesado. Sensacional! Não é à toa que nada menos que a grande Elza Soares se apaixonou e gravou uma música com eles! Recomendo o disco inteiro!”

Supercordas“Seres Verdes ao Redor”
“Excelente disco de 2006, um rock rural feito com primor! Foi minha fiel companhia no ano de 2008!”

Jhoão Sobral adiciona criatividade de inventor em suas músicas com a “vassonora”

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Jhoão Sobral

Há algumas semanas eu caminhava pela Avenida Paulista quando vejo um rapaz que iria se apresentar na calçada não uma guitarra, mas uma vassoura. Ao vê-lo tocando a tal “vassonora”, uma mistura de vassoura e violoncelo, não pude deixar de fazer uma entrevista. Lógico que muita gente parou pra ouvir o som do inusitado instrumento musical, e formou-se uma rodinha em volta do cantor e compositor cearense Jhoão Sobral, o inventor da vassoura mágica.

Como começou sua carreira? A resposta padrão é “bem Londres daqui”, segundo ele. Em 2013, o pesquisador musical Gilles Peterson, DJ da rádio BBC de Londres, tocou sua música lá, e a partir daí ele lançou um EP e diversos singles, sendo incluído até em uma coletânea da Fifa junto de nomes como Alceu Valença e Seu Jorge.

Conversei com ele sobre sua carreira, a “vassonora”, as apresentações na rua e suas dificuldades e seu novo single, “Baiano Tororó”:

– Te conheci na Avenida Paulista, tocando uma vassoura-cello. Como rolou isso?

A Vassonora, como apelidei minha invenção, surgiu como uma estrela cadente no céu anunciando a prosperidade. A vassoura é um signo de luta, de trabalho e de limpeza, eu sinto que a dificuldade é a mãe da invenção… Ela apareceu na minha cabeça. Acredito que tenha sido um presente do Universo, a ideia é minha,mas quem me ajudou a fazer foi um amigo luthier, Lauro Sabonge, ele constrói violinos.

– E como foi a construção dela?

Bom, a vassoura já estava pronta ali, ganhei essa vassoura do Tatá Aeroplano, grande artista. A ideia era que tivesse uma corda só e foi isso. Ela tem dois microfones (piezo) de contato, um no cabo justamente para captar o som da corda que foi colocada. Estamos usando uma corda de Cello doada pelo Pery Pane. Repare que essa vassoura o Universo me deu: os microfones ganhei num curso de construção de baixo custo no Sesc Consolação… O outro microfone está nos cabelos da vassoura pra captar esse som mais percussivo e tem uma tarracha de madeira para afinar esculpida pelo luthier Sabonge.

– E como foi a repercussão dela na rua?

Nossa, incrível! As pessoas adoram, as crianças acham mágico, me chamam de bruxo, etc e tal. Essas coisas, a vassoura é um simbolo importante na humanidade, mas agora fiz dela um signo e batizei de Vassonora! Tá um sucesso só, já fui até convidado para ir ao “Domingão do Faustão” no quadro “Se Vira Nos 30” e pretendo fazer mais invenções!

– Como você começou sua carreira?

Através de um sonho. A gente que veio do nordeste com uma mão e outra atrás não tem muita esperança não, mas vou tentar resumir aqui. Começo com 14 anos. Sonhei que tocava violão sem nunca ter encostado a mão num violão. No colégio contei o sonho para meus amigos, estava prestes a fazer 15 anos e meus amigos me deram um violão de presente, brinco que eles investiram no meu sonho. Mas gosto de pensar mesmo que minha carreira começou e é verdade isso, quando o pesquisador musical Gilles Peterson, DJ da rádio BBC de Londres, tocou minha música lá. Sim, eu estreei como compositor na radio BBC de Londres em 2013! Dois produtores musicais aqui de SP, Guilherme Lopes e Junior Deep, meus amigos, toparam produzir 4 faixas, e essas 4 faixas lançadas em 2013 estão rendendo frutos até hoje. Em 2014 entrei numa coletânea da Fifa junto de Alceu Valença e Seu Jorge e outros artistas que admiro.. Isso é o meio!

Jhoão Sobral

– Já que tocou no assunto, pode me falar um pouco mais do material que você já lançou até agora?

Em 2013 saiu o EP “Vai na Fé”, que tem no iTunes, Spotify, Deezer etc… De lá pra cá lancei singles, lancei “Brazilian Drumanbass” em parceria com o Drumagick, dupla de irmãos DJs e produtores musicais, essa faixa tocou na festa Tomorrowland na Inglaterra. Lancei “Lady – Uma Canção para Billie Holiday”, lancei também “Liberdade Mística” em parceria com Kiko Dinucci, e agora em agosto sairá meu próximo single, “Baiano Tororó”, que fiz em homenagem ao Gilberto Gil.

– Quais as suas principais influências musicais?

Gilberto Gil, Bob Marley, Belchior, Luiz Gonzaga e Tom Jobim.

– Pode me falar um pouco mais sobre o single?

“Baiano Tororó” trata-se uma canção em homenagem ao compositor-mor, Gilberto Gil. Fiz essa música após ter assistido seu documentário “Tempo Rei”. É uma singela homenagem, a letra traz também uma atmosfera baiana, negra, brasileira, com arranjos de flauta, uma espécie de “sambossasoul”, eu diria.

– Você toca na rua. Como você vê essa nova gestão em São Paulo, que têm tirado os artistas de rua de circulação?

Bem, ainda não fui retirando da rua, a polícia passa por mim e apenas observa. Mas me parece que o novo prefeito que escolheram (e eu não faço parte dessa escolha) quer tirar os músicos de rua com seu projeto Cidade Linda! Também acho que essa nova gestão… se é que pode chamar de gestão uma coisa dessas, eu chamaria de indigestão. Uma cidade sem orçamento de cultura é uma cidade morta, um país sem investimentos em cultura é um país pobre. E quando falo em cultura é todo um universo de coisas envolvidas…

– Como você vê a cena independente de hoje em dia?

Sinceramente existe muito amadorismo, eu mesmo me sinto amador nesse sentido, mas isso vem de uma cultura já estabelecida. Não estou generalizando, que fique claro. Tem muita coisa a ser feita, São Paulo é uma cidade grande mas tem muito artista desistindo de lutar e de fazer sua arte por conta desse amadorismo que existe na própria politica cultural! Mas de certa forma a cena independente está sim evoluindo e evolui a cada dia. Estamos mais unidos, se autoajudando, mas ainda é muita roubada. Pra fazer um show num boteco qualquer tem gasto, e às vezes mal temos dinheiro pro ônibus, como já aconteceu comigo. A cena independente é também uma armadilha se você não souber gerenciar e planejar. Não da pra fazer tudo sozinho, querer se vender, ensaiar, estudar… Não dá, vai ser tudo meia boca, como está sendo: luz ruim, som ruim, show ruim… Claro que isso é tudo muito relativo e deixo aqui bem claro que não estou generalizando.

– Então essa queda das gravadoras com o aumento do streaming acabou sendo negativo, de certa forma.

Sim e não. Tudo tem dois lados, acredito! Com as gravadoras acredito que você tinha ali uma certa comodidade e se preocupava apenas com a música, com sua execução. Os caras organizavam tudo: turnê, os caras pensavam diferente, planejava… Mas também, você tinha que fazer o que os caras mandassem. Isso é o que dizem, não sou dessa época, talvez nem dessa (risos)… Mesmo assim, todo dia são lançadas músicas e músicas, você baixa 10 discos num dia, grátis… E não ouve nenhum. Por outro lado, você descobre uma penca de artista bom, gente que te inspira, uma facilidade para gravar e divulgar, se lançar no espaço…

– Ou seja, a internet no fim é uma boa ferramenta, mas atinge somente quem realmente está interessado em garimpar.

É por ai. Às vezes navegamos à deriva, eu mesmo já me vi fazendo isso. Estou sempre me policiando, a liberdade às vezes é um labirinto. Eu às vezes sinto que ando em círculos! Precisamos ser mais disciplinados. Não estou aqui querendo colonizar ninguém, só acho que um pouco de disciplina poderia dar um up. Bem, eu tô falando isso pra mim mesmo, pois não tenho disciplina para estudar inglês, por exemplo. Minhas musicas tocam no mundo todo já, ano passado fui pra Europa com um inglês tupiniquim cavernoso.

– Quais são seus próximos passos musicais?

Bem quero continuar lançando singles, até uma cambada de gente falar “Sobral, lança um disco, já ouvi umas 5”. (risos) É pouco… Mas musicalmente falando, falta em mim um amadurecimento que já está se dando ao longo dessa trajetória até aqui… Mas estou estudando percussão corporal, estudando harmonia, sempre compondo. É isso, em agosto sai o single “Baiano Tororó” pelo selo Batucada Records, e talvez no começo do ano outro. Está vendo por que é tudo amador? Como que um artista compositor como eu, que faz música todo dia, lança dois singles por ano, às vezes nenhum, por que falta de grana? Sem grana a gente não faz nada. Ainda bem que tem parceiros que acreditam e fazem na parceria, senão eu ja teria desistido… Eu não to chorando as pitangas não, eu tô é arregaçando as mangas… Por isso toco na rua… em breve farei um show na Paulista, voz e violão!

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Bem não sei se são todos independentes, mas vamos lá: Kiko Dinucci,  CuruminTiganá SantanaTatá Aeroplano, Lenna Bahule. Tem uma penca, mas com esses daí já da pra ver onde quero chegar!

Construindo Naissius: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som do artista

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Construindo Naissius

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos a participação do Naissius, que se apresentará nessa sexta-feira na Sensorial Discos com o repertório de seu disco de estreia, “Síndrome do Pânico”, além de músicas inéditas que estarão em seu próximo álbum. 

The Beatles“Hello Goodbye” (do disco “Magical Mistery Tour”, 1967)
Quando era criança, vi o clipe desta música e não entendi nada; foi a primeira que lembro ter sentido vontade de me tornar músico.

Jeff Buckley“Lover, You Should’ve Come Over” (do disco “Grace”, 1994)
O Jeff Buckley me mostrou que não havia problema algum em adorar Nina Simone e MC5 numa época em que eu ainda era um tanto ‘purista’.

Screamin’ Jay Hawkins“I Put a Spell On You” (do disco “I Put A Spell On You”, 1977)
Eu já adorava essa música quando criança, na versão do Creedence – meu pai tinha uma coletânea do Creedence e eu sempre escutava. Fui descobrir a versão original muitos anos depois e hoje tenho o estranho hábito de procurar versões dela na internet. São inúmeras, por diversos artistas, mas nenhuma supera a original.

Raul Seixas“A Maçã” (do disco “Novo Aeon”, 1975)
Aos 13 anos de idade interpretei o Raul Seixas no teatro e, para pegar o ‘sotaque’, fui ouvir toda a discografia dele. ‘A Maçã’ é sobre esse conceito de monogamia e traição que somos submetidos desde o nascimento e o qual nunca questionamos – além de ser uma das melhores músicas do Raul.

The Clash“Know Your Rights” (do disco “Combat Rock”, 1982)
O The Clash foi a primeira banda de punk rock que eu me apaixonei. O ‘Combat Rock’ foi um dos primeiros discos que eu comprei na vida e teve grande influência na minha formação.

Minor Threat“Guilty of Being White” (do disco “Complete Recordings”, 1988)
Eu já fui menosprezado por estar em lugares que não eram para ‘pessoas como eu’; o engraçado é que isso já aconteceu tanto por eu ser ‘muito branco’ quanto por ser ‘muito preto’.

Titãs“Desordem” (do disco “Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas”, 1987)
Ainda me pergunto como os Titãs conseguiram fazer músicas com letras tão fortes se tornarem hits nacionais.

Chemical X“What’s Your Problem?” (da demo “What Ever Happened?”, 2003)
Trio de irmãs que tocam um punk rock de primeiro nível. Na minha adolescência era um alívio vê-las tocando entre tantas bandas que soavam iguais. Através delas eu passei a me interessar por feminismo, o movimento riot grrl e bandas como o Bikini Kill.

Nirvana“Sappy” (do box “With The Lights Out”, 2004)
As primeiras vezes que vim para São Paulo foram de trem, descendo na Luz, para passar a tarde na Galeria do Rock atrás de bootlegs. Quando ouvi essa música do Nirvana num CD de raridades, percebi que ela fugia do padrão ao relatar a vivência de uma mulher que leva uma vida de abusos e não se dá conta disso.

MC5“Kick Out The Jams” (do disco “Kick Out The Jams”, 1969)
Provavelmente uma das melhores músicas já escritas até hoje.

The Monks“Monk Time” (do disco “Black Monk Time”, 1966)
São ‘os Beatles do mal’. Não vou resumir a história pois vale muito a pena ir atrás dessa banda e desse disco. É pop com caos numa medida que nunca havia sido feita e provavelmente nunca mais será.

John Lennon“God” (do disco “Plastic Ono Band”, 1971)
Lennon usou seu primeiro disco para lavar a roupa suja com todo mundo, inclusive com o todo-poderoso, que ele se refere como ‘um conceito pelo qual medimos nossa dor’. Sigo o conselho de um amigo e sempre que escuto esse disco o faço ‘com muito cuidado’.

Chico Buarque“Construção” (do disco “Construção”, 1971)
Meus pais sempre ouviram muito Chico e ainda criança lembro que essa música me assustava: a crescente dos arranjos; a letra; a ideia da morte inevitável e repentina… É uma música que me impactou muito.

Nick Drake“Saturday Sun” (do disco “Five Leaves Left”, 1969)
Quando estava escrevendo o ‘Síndrome do Pânico’ eu ouvi muito os discos do Nick Drake. São de uma simplicidade e beleza tão raros… Nada é forçado ou exagerado.

New York Dolls“Personality Crisis” (do disco homônimo, 1973)
O New York Dolls me deu um nó no cérebro: usar calças rasgadas não parecia nada audacioso depois de ver caras vestidos de mulher tocando um rock sujo e minimalista. Ao conhecer a banda eu finalmente passei a tentar (des)construir minha própria imagem.

Fagner“Canteiros” (do disco “Manera Fru Fru Manera”, 1973)
É a música que eu canto no karaokê.

Chris Bell“I Am The Cosmos” (do disco “I Am The Cosmos”, 1992)
Se a discografia do Big Star é desconhecida e subestimada, esse disco solo de um dos integrantes é um tesouro perdido (lançado 15 anos após sua gravação). A música é a que dá nome ao disco e é daquelas que sempre me pega pelo nervo.

Ryan Adams“Afraid Not Scared” (do disco “Love Is Hell”, 2004)
O ‘Love Is Hell’ é um disco maravilhoso e essa é uma das minhas favoritas desse disco e de toda a discografia do Ryan Adams.

Rodriguez“Sandrevan Lullaby Lifestyles” (do disco “Coming From Reality”, 1971)
Uma das minhas letras e música favoritas. Conheci o Rodriguez uns anos antes de sair o documentário sobre sua obra e desde então seus dois discos que servem como uma espécie de bússola.

Mark Lanegan Band“Bombed” (do disco “Bubblegun”, 2003)
Ouvi esse disco quando saiu. Me fez entender que não é necessário ter guitarras ou gritos para ser rock.

Inimitável: Milton Nascimento – “Milagre dos Peixes” (1973)

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Bolachas Finas, por Victor José

Priorizando a versatilidade e sem se apegar a gêneros musicais, Milton Nascimento procura desde sempre apresentar algo bem particular em cada álbum que lança. Grande parte de sua discografia – principalmente por conta daquela fase entre 1967 e 1978 – é composta por LPs emblemáticos e interessantes de um modo geral, mas em matéria de imponência e pretensão artística nenhum trabalho alcança “Milagre dos Peixes”.

Naturalmente, é fácil dizer que o momento mais importante na trajetória de Milton foi em 1972, com o lançamento do LP em parceria com Lô Borges, Clube da Esquina”. Talvez tenha sido mesmo, é justo. Mas é com o álbum do ano seguinte que ele arrebenta com tudo tentando artisticamente se superar, e o resultado é o trabalho mais experimental de uma carreira que já dura mais de 50 anos e talvez o disco mais denso lançado naquele período de repressão política.

Segundo Fernando Brant, letrista da faixa-título, o álbum foi concebido para ser um grande passo: “Uma abertura nova, algo para assustar os desavisados e arrepiar a pele. “Milagre dos Peixes” é uma atitude de revolta e de entrega. Milton está neste disco como uma criança agressiva”, disse à Folha de São Paulo quando faltavam poucos dias para o lançamento.

Aclamado pela crítica e público, o trabalho é uma experiência única, a começar pela carência de versos. O disco é quase inteiro cantado sem palavras, pois muitas das letras foram censuradas. Milton não acatou o gesto dos militares como um impedimento e prosseguiu com o projeto desafiando a repressão. Sendo assim, apenas as faixas “Milagre dos Peixes” e “Escravos de Jó” (esta com Clementina de Jesus nos vocais) continham letras de fato, isso sem mencionar “Sacramento” e “Pablo” (esta cantada por Nico, irmão caçula de Lô Borges), que vinham separadas em um compacto triplo, como se fossem bonus tracks, juntamente com a instrumental “Cadê”. Mais tarde, com o lançamento em CD, essas três canções acabaram sendo incorporadas ao tracklist oficial.

Sobre essa situação, Milton disse: “É claro que as músicas tinham um teor político, mas não era nada explícito. Houve um exagero por parte da censura, porque nunca preguei que o pessoal pegasse em arma e coisa e tal; a gente só botava pra fora o nosso descontentamento com tudo, não só com o Brasil, mas com o mundo. Fiquei puto da vida quando a gravadora me propôs gravar um outro disco. Disse que não, que o disco ia sair como estivesse; se não havia letras, que as pessoas entendessem. E foi uma surpresa pra EMI Odeon em todos os sentidos, porque o disco vendeu bem, fora a repercussão que causou. Como músico, o “Milagre” foi muito importante, porque foi aí que me larguei na música de uma forma diferente, passei a usar minha voz como um instrumento”.

Em LP, o projeto gráfico contou com uma bela capa-pôster, algo até então inédito na indústria fonográfica nacional. Dentro, umas páginas avulsas coloridas davam a ficha técnica de cada faixa, sendo assim, “Milagre dos Peixes” trazia a até então mais bem detalhada ficha técnica da indústria do disco no Brasil. Ao todo, quarenta e dois músicos participaram das gravações, como o maestro Radamés Gnatalli, o Quinteto Villa-Lobos, Naná Vasconcelos nas percussões e Wagner Tiso no piano e teclado.

Quanto às músicas que nele contém, o que pode ser afirmado é que cada uma corresponde a um estilo híbrido, algo que passa longe de uma definição. Lembro de ter escutado “Milagre dos Peixes” pela primeira vez e tê-lo achado um dos discos mais esquisitos. É preciso ouvir algumas vezes com atenção para que ele seja completamente absorvido, mas para quem gosta de coisas complexas e detalhes pouco comuns, é um exercício que compensa (e muito).

Enquanto “Pablo nº2” lembra uma celebração latina com todas aquelas palmas, coros e violões festivos, ”A Última Sessão de Música” traz barulhos de talheres, conversa e um piano meio infeliz e nostálgico que procura simular um ambiente de fim de festa. Aqueles que se apegam mais ao convencional certamente assimilarão logo de cara “Escravos de Jó” ou a faixa-título, que apesar da ligeira complexidade são mais melodiosas que as demais. O jazz rock “Cadê” é ritmado e também é capaz de pegar fácil. Já “A Chamada”, com seus efeitos vocais remetendo a uma floresta ou algo do tipo, e a orquestra vocal “Carlos, Lúcia, Chico e Thiago” são realmente as músicas mais difíceis, mas ao mesmo tempo são as mais singulares e curiosas.

“Tema dos Deuses” tem cara de trilha sonora de algum filme épico e faz jus ao nome pela intensidade. Ouvindo essa música dá para compreender que Milton havia previsto anos antes este amadurecimento artístico com canções como “Amigo, Amiga”, que apresentavam uma grande carga de sinestesia mesmo sem tantos recursos à disposição.

Dividida em três partes, “Hoje é Dia de El Rey” seja talvez o ponto alto de “Milagre dos Peixes”. Baseada na “Suíte do Pescador”, de Dorival Caymmi, a música foi concebida para ser um diálogo entre pai e filho, porém a letra foi vetada na íntegra. A tal conversa era para ser entre Milton como filho e Caymmi como pai, uma pena isso não ter sido gravado. Mas apesar da carência dos versos originais de Márcio Borges, as mudanças ao longo da canção fazem dela uma obra-prima sensorial capaz de falar por si só.

Em “Sacramento” voltam as letras. Cantada por Milton num espírito meio entristecido, a canção apresenta uma sonoridade tensa, que acaba contrastando bem com a lúdica “Pablo”, a qual Nico Borges ainda criancinha canta uma letra surreal citando pó de nuvem nos sapatos e incêndio nos cabelos.

Vale afirmar que em Milagre dos Peixes consta um forte experimentalismo, mas há ao mesmo tempo uma certa coesão, ao contrário do contemporâneo e também interessante Araçá Azul (1973), de Caetano Veloso. Talvez por isso Milagre dos Peixes tenha dado tão certo. Milton estava relacionado a um contexto absolutamente propício e tentou a sorte inovando numa época em que isso era levado a sério por um público atento.

Um ano depois Milton daria continuidade ao projeto lançando “Milagre dos Peixes Ao Vivo”, com shows gravados no Teatro Municipal de São Paulo. Há quem diga que este tenha sido seu auge, o que eu concordo plenamente.