Uiu Lopes lança seu primeiro EP, “Neto”, com uma boa dose de influência familiar

Read More
Uiu Lopes
Uiu Lopes

Uiu Lopes entrou no mundo da música graças a seu pai, Wilson Lopes Jr, músico e compositor que lhe ensinou a tocar quando tinha 12 anos. Desde então, estudou canto no Auditório Ibirapuera com 19 e começou sua carreira. Depois de lançar as músicas “Que Eu Te Desenhe”, “Sei Que Há”, “O Dia Inteiro” e “Rotas do Pensamento” (disponíveis no Bandcamp), o compositor apresenta seu primeiro EP, “Neto”, gravado ano passado na ACM em São Paulo por Martin Lopes. No disco, além da guitarra, violão e vocal de Uiu, temos a participação de João Lopes tocando bateria em todas as faixas e Junior Nolasco e Jota Santana se alternando no baixo. A capa mostra os pais de Uiu na comemoração de seus 25 anos de casados.

“Esse som vem de um tempo que fui morar na Bahia, em 2013, lá em Vitória da Conquista”, conta. “Compus esses sons lá, minhas primeiras composições, que só saíram agora porque meu amigo Martin Lopes, lá de Tocantins, veio estudar áudio aqui e me usou de cobaia. Eles mudaram um pouco com esse processo de produção, que foi onde todo mundo se envolveu nas ideias”.

– Me fala um pouco mais sobre o material que cê tá lançando!

Esse som vem de um tempo que fui morar na Bahia, em 2013, lá em Vitória da Conquista. Eu compus esses sons lá, minhas primeiras composições, que só saíram agora porque meu amigo Martin Lopes, lá de Tocantins, veio estudar áudio aqui e me usou de cobaia. Tem uma relação maior comigo, num processo de descoberta mesmo, relações e tal.

– E como foi a gravação dessas composições? Elas tiveram alguma mudança desde que foram compostas até o registro?

Sim, mudaram um pouco com esse processo de produção, que foi onde todo mundo se envolveu nas ideias.
Foi uma produção coletiva: eu, Martin Lopes, João Lopes (meu irmão), Jota Santana e Junior Nolasco. Esses ultimos três são todos baianos, somos da mesma cidade.

– E como você definiria esse trabalho? Me conta mais sobre o disco.

Me vieram vários significados nessa junção toda que foi estar com meus amigos que são da mesma cidade, de gravar juntos pela primeira vez, gravando tudo mesmo, um start, eu definiria como um nascimento. Tem o lance da capa, que foi agora nos 25 anos de casados dos meus pais e minha mãe já estava em gestação… Me veio tudo isso, em conjunto com essas músicas.

– Falando nisso, como você começou sua carreira?

Comecei através de meu pai (Wilson Lopes Jr.), que também é músico/compositor e que me ensinou a tocar quando eu tinha 12 anos, aí fui estudar canto no Auditório Ibirapuera com 19 e foi onde comecei minha carreira
profissionalmente.

– Quais as suas principais influências musicais?

Meu pai, Paul McCartney e Marcos Valle. São vários, mas esses no sentido da composição me influenciaram muito.

Uiu Lopes

– Como você vê a cena independente hoje em dia?

Graças à internet, a gente pode se comunicar com diversas pessoas de diferentes lugares, o que hoje em dia tem deixado uma cena efervescente que rompe com a lógica de produção de mercado. Então a todo momento tem muita coisa sendo produzida, a mensagem hoje consegue chegar de certa forma de maneira muito mais democrática.

– E você tem usado isso para divulgar seu trabalho?

Tenho usado sim. Todas a redes sociais e tal, me dou bem com o Instagram por que gosto de foto, mas não me dou muito bem com com essa coisa de me divulgar. Às vezes é estranho, causa umas crises existenciais, faço por que é necessário…

– Quais os seus próximos passos, musicalmente?

Esse é um ano de lançamento pra mim, estou produzindo com a Thasya Barbosa, fotógrafa carioca, o clipe de “Paro Pra Pensar” e também um clipe de “Versos Que Não Fiz” com a Yasmin Mamédio, que também tem um trampo de música chamado YMA, até o fim do ano saem mais algumas faixas, e o próximo passo é um disco.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Em uma galera que eu curto muito, YMA de SP que lançou um clipe recentemente, Soledad do Ceará, Stella-Viva Curitiba, Laia Gaiatta que é lá de Salvador, galera que tive o prazer de conhecer e que eu curto muito o som!

Filosophone: Edy Star, a estrela doce que balançou as estruturas

Read More

Filosophone, por Matheus Queirozo

Início da carreira – quando Edy se torna Edy Star

Edy Star e Raul Seixas eram conterrâneos, nasceram na mesma Grécia brasileira, a Bahia, e se conheceram, ainda meninos adolescentes, no Elvis Rock Club, um devoto fã clube em homenagem ao Rei do Rock, “Elvis, The Pelvis” (como ficou conhecido por causa de suas performances beirando o erotismo).

Raul, já na fase engomadinho pós-Raulzito e Os Panteras, com estadia fixa no Rio de Janeiro, trabalhando como produtor musical, voltou rapidamente à Bahia para reencontrar Edy, buscá-lo e contratá-lo para a CBS. Edy (que era só Edy na época), primeiramente, gravou em 1970 um disco compacto chamado “Aqui É Quente, Bicho!”, sendo essa uma canção composta pelo grande Raulzito para seu amigo recém chegado da Bahia. Foi justamente nesse período, mais precisamente em 1971, que gravaram, juntamente de Miriam Batucada e do maldito Sérgio Sampaio, o disco frakzappiano e Sgt.Pepper’sLonelyHeartsClubBandiano tropical “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez”, um baita disco psicodélico brazuca.

(Edy vestido de “ídolo da juventude” na ponta da direita)

É bom que se diga que, na época em que foi lançado, o disco “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez” não teve seu merecido reconhecimento, nem por parte da crítica, nem por parte do público, até porque o disco nem teve a oportunidade, nem o tempo necessário, de tentar ter esse reconhecimento, visto que a CBS autorizou às escondidas o seu recolhimento urgente, pois, além de terem um profissional da empresa (diga-se de passagem Raulzito) se metendo a artista (isso era heresia, já que ele era produtor, o que significa que deveria manter seu terno bem limpo e longe de qualquer anarquia artística: ou seria cantor ou seria produtor, ele que decidisse, os dois não poderia ser!), para eles o disco não tinha valor comercial algum. Vale lembrar que a importância que o “Sociedade” conseguiu ter veio muitos anos depois, depois que Raul já tinha seu nome consagrado. Isso quer dizer que ninguém ali (Miriam Batucada, Sérgio Sampaio, Raul Seixas e Edy Star) virou celebridade, ninguém ali do bando enriqueceu. Muito pelo contrário, tiveram que começar do marco zero.

Seu (único) disco, de 74

Os astrônomos definem a estrela como um corpo celeste que emite brilho próprio, portanto um corpo que emite energia própria, luz natural. Edy Star se encaixa perfeitamente nessa definição astronômica – sem falar que já leva no nome artístico a estrela (star).

Ele é considerado o primeiro artista a assumir publicamente sua homossexualidade. E isso contém uma importância estrondosa dentro da nossa história, não só da música, mas história social e política.

Pensem bem vocês leitores: o contexto em que Edy Star viveu não era nada amistoso. O Brasil estava afundado em um cenário político de chumbo! O povo, os meios de comunicação, o meio intelectual e artístico vivam sob uma Ditadura Militar mascarada de revolução – só se for uma revolução fajuta! – militar, onde quem não dançasse conforme a música sofreria duramente nas mãos de militares e de uma censura moral baseados numa hipocrisia que visava tão somente o controle social por meio dos que deram o Golpe de 64. E toda agressão moral e física foi legitimada a partir da data de 13 de dezembro de 1968, que foi o tão covarde e tenebroso Ato Institucional Número Cinco (AI-5), emitido pelo então presidente Costa e Silva. Era a tortura por parte dos militares devidamente legalizada! A vida comportamental era dramaticamente padronizada, ou pelo menos deveria ser: cabelos longos, trajes extravagantes, homens afeminados, tudo isso era considerado uma verdadeira afronta aos “bons costumes” (que de bons não têm nada, convenhamos). Essas características que eu acabei de elencar são da nossa estrela. Além de enfrentar todo o machismo de uma sociedade patriarcal (como está na moda dizer), Edy Star enfrentava ainda um regime político nada favorável. Não é por acaso que o artista baiano pode ser considerado uma resistência política ambulante. Prestem bem atenção na capa do seu único disco (único até a data em que esse texto está sendo escrito):

Quem teria a coragem de posar de Drag Queen?

Nesse disco, Star interpreta da sua forma performática muito autêntica (a voz de Edy é uma voz inconfundível dentro da música) canções de grandes nomes da nossa música, como “Claustrofobia” de Roberto e Erasmo Carlos, “Edyth Cooper” de Gilberto Gil, “Conteúdo” de Caetano Veloso, “Esses Moços” de Lupicínio Rodrigues, “Olhos de Raposa” de Jorge Mautner e “Pro Que Der na Telha” de Morais Moreira e Galvão. Só os fracos, né?

Impressionante como, mesmo tendo lançado só um disco em todos esses anos, Edy varou décadas e chegou até aqui, permanecendo brilhoso. “Sweet Star” hoje em dia é um belo disco cult. Cada canção contida nele tem um peso, tem uma beleza estética, é um disco por si só, só de colocar para nossos ouvidos apreciarem, que soa como uma estética da irreverência despadronizada.

Vale lembrar que Edy Star já anunciou que vai lançar seu segundo álbum! Com direção de Zeca Baleiro, o disco vai contar com Edy gravando junto de nomes como Caetano Veloso, Angela Maria e Ney Matogrosso. FICA LIGADO!

O doce amargo Edy Star

Edy Star é estrela, é a personificação do artista, mas não o artista comercial que cobra de si mesmo um disco a cada ano, que obedece a demandas de mercado fonográfico. Pode-se dizer com certeza que é um genuíno artista: cantor, ator e grande artista plástico desde seus quinze anos, com 32 exposições (das quais, 16 são individuais) nos Estados Unidos e na Europa, 4 prêmios, 3 bienais, sempre desenhou.

Em entrevista datada de março de 2016 ao canal Interface no YouTube, Edy genialmente finaliza: “Tem gente que gravou vinte discos… não serviu de nada. Eu gravei só um”.

O filósofo francês Michel Foucault na sua obra “Microfísica do Poder”, publicada pelos idos de 1979, analisa diversos temas como, por exemplo, a psiquiatria, a justiça, o corpo, a sexualidade e o Estado. Nos seus ensaios, Foucault detecta que o poder não está concentrado somente na relação política entre governantes e governados. O filósofo francês arremata que em toda relação, seja ela familiar, conjugal, na relação entre os padres, pastores e seus fiéis, em suma, em qualquer relação micro existe uma relação de poder, um conflito entre as partes, ainda que seja um conflito sutil, com o objetivo de ser o detentor do poder.

Fazendo, então, uma leitura foucaultiana do que seria o machismo e a homofobia, podemos dizer que toda forma de tentativa de subjulgar a mulher, de inferiorizá-la, todo comportamento de discriminação e recriminação a todo LGBT, tudo isso seria uma forma de ter poder sobre o outro, de impor seus valores sobre o outro. Essa maneira de viver a vida desrespeitando quem pensa diferente, agredindo quem discorda, quem questiona, quem se comporta de uma maneira não padronizada, é uma forma de vida idiota. A palavra idiota vem da Grécia antiga, do grego idiótes, era aquele que só olhava para o seu próprio umbigo quando, inserido na sociedade política, deveria regular seus atos conforme o bem coletivo, ainda que discordasse dos outros, mas deveria, ao menos, manter o repeito. O idiota é aquele que acha que tem o direito de desrespeitar o outro. O idiota não sabe que, só pra começar, não existe o direito de ser idiota. O Estado de direito é o estado de leis, de regras, que tem por meta garantir o bem público, ou seja, o bem estar de todos os seus cidadãos. A definição de idiota entra em choque com a definição de direito, de sociedade. Isso quer dizer que o idiota não pertence à sociedade, ele é um animal que não foi feito para a vida política. E isso é grave, é preocupante. Isso mostra o quanto não é fácil ser mulher na nossa sociedade, isso mostra o quanto é difícil ser LGBT. Ainda existe um forte machismo que acha equivocadamente que dita as regras. Edy Star não é um artista de luta política panfletária, mas sem sombra de dúvida carrega em si a resistência contra qualquer tipo de preconceito. Edy Star balançou as estruturas de uma sociedade machista que zela pelos bons costumes morais (que não passam de hipocrisia mascarada), uma sociedade que zela pela família tradicional, uma sociedade que cada vez mais mostra sua verdadeira cara conservadora. Edy Star é a personificação do combate, tem no balanço do seu corpo, no seu dançar, a irreverência, o erotismo, o exótico, tem nas mãos a arte, tem aquele tapa sem mão que desestrutura o tabu, tabu que já caducou séculos antes de ser criado e imposto a todos nós. Edy brilhou e sempre brilhará. Edy é uma estrela doce, sweet star, mas um doce amargo para a boca de quem não tem a capacidade intelectual e sensível de apreciar um corpo celeste de brilho próprio.

Meu bem eu sou bombom de cereja
Veja, prove, morda

Não seja bobão
Eu sou um barril, um copão de cerveja
Beba, babe, baby
Se acabe nesse verão, oh não

Não fique aí na mão rebatendo peteca, boneca
Pegue um avião e me alcance no ar
Boneca, não me canse
Sou estrela-do-mar, sou o céu, sou o mel
Pra passar no seu pão
Honey Sweet, Edy Star!

Construindo Pássaro Vadio: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

Read More
Pássaro Vadio

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o Pássaro Vadio, que lançou seu disco de estréia, Caosmos, no inicio de junho pelo selo Take One Records.

Ryuichi Sakamoto“1919”
O minimalismo dela nos leva pra um labirinto em que não conseguimos achar a saída – escutamos vozes que somos incapazes de entender e depois surge o cello dissonante do Jaques Morelembaum que chega até o fundo do nosso estômago.

Brian Wilson“Surf´s Up”
Uma das forças criativas do universo pop. Harmonias emotivas e ao mesmo tempo particulares, que ainda nos momentos mais abertos carregam uma melancolia e um sorriso amarelo.

Zé Miguel Wisnik“Anoitecer”
Poema incrível na mesma medida que denso do Drummond musicado genialmente pelo Zé Miguel Wisnik – as imagens que evidenciam transformações do Brasil urbano e rural – a massificação, exaustão e medo pairando sobre o asfalto da metrópole vistos com uma intimidade incômoda e familiar.

Flying Lotus“Zodiac Shit”
A ancestralidade virtual dessa track me bateu forte quando ouvi pela primeira vez. Flying Lotus é ótimo em ultrapassar eventuais engessamentos da produção pop contemporânea.

Thee oh Sees“Web”
Começa com a tensão de guitarras que parecem te colocar na mesma sala dos amplificadores. Os vocais dobrados e sussurrados deixam ela nesse limiar entre lisergia sessentista e psicodelia virtual.

Captain Beefheart“Autumns Child”
O vocal rasgado, de garganta, e a entrega de Don Van Vliet – com uma ponta de deboche – nesse soul de “Safe As Milk”, tem uma letra que poderiam chamar de non sense, mas que me pega em algum lugar que eu mesmo desconheço – como se eu já tivesse visto essas cenas antes.

King Gizzard“The River”
As inúmeras voltas que levam ao mesmo núcleo central da música, a estranheza da harmonia vocal, a levada jazzista junto do respiro da música australiana contemporânea foram alguns dos motivos pra ouvir “The River” várias vezes.

Elizete Cardoso“Vida Bela”
Canção abaionada dessa incrível cantora, com arranjos de sopros, cordas que dão profundidade ao vocal e sua melancolia.

Antonio Carlos Jobim“God and the Devil in the Land of Sun”
Tom Jobim e sua capacidade de fundir elementos com total naturalidade – e ultrapassar qualquer chancela do ‘conceitual’.

Fela Kuti“Teacher Don’t Teach Me Nonsense”
Ouço Fela Kuti e lembro do Alê Siqueira, produtor do nosso disco, usando o próprio peito de tambor na técnica do estúdio captando possibilidades percussivas para canções como “Mar de Aral” e “Living Fast”. Além do super título “Teacher Don’t Teach Me Nonsense”, ela tem esse clima ao vivo, de primeiro take e improviso que também está na essência das gravações de “Caosmos”.

Nicolas Jaar“No”
“Ya dijimos No, pero el Si está en todo, todo lo que hay”. A cumbia milenial com esse refrão instigante é uma das grandes músicas do “Sirens”, último disco do Nicolar Jaar – trabalho imersivo e pessoal sem perder o pop de vista.

Can“I’m so Green”
Há uns anos um amigo me mandou “Vitamin C” pra escutar. Acabei ouvindo inúmeras outras vezes o “Ege Bamyasi” – a singularidade ao mesmo tempo simples, confessional e – não sei por que me dá um bode de falar – mas vanguardista da Can fizeram com que eu ouvisse esse disco durante muitas insônias.

Damon Albarn“Everyday Robots”
Música (e disco) que sabem usar muito bem a simplicidade como forma de subvertê-la – pra falar da mecanização da rotina e da solidão contemporânea.

José González“Killing for Love”
O folk que evoca a natureza e a natureza humana com a intimidade que só o violão de nylon provoca – simples e certeiro – me fizeram um grande ouvinte desse argentino radicado na Suécia, lá por 2009 ou 2010, período em que as primeiras músicas de “Caosmos” foram compostas. Jose Gonzalez traz eventualmente no acento do seu violão menções a um lugar de onde também se origina parte do folclore brasileiro.

Pond“Fantastic Explosion Of Time”
Conheci a Pond e essa música como trilha de um mini-doc que assisti sobre um vilarejo em Java Central – lugar que parecia desacoplado do nosso tempo/espaço – a força do refrão anunciando uma explosão fantástica do tempo ficou gravada junto das imagens daquele pedaço de Java –misterioso, quase que em outra dimensão.

Clap! Clap!“Ode to The Pleiades”
A ancestralidade das percussões mescladas com fluidez ao universo eletrônico do projeto faz dele dançante, denso e xamânico – uma imagem refletida do passado e futuro.

Gilberto Gil“Expresso 2222”
Canção e letra geniais desse disco genial do grande Gilberto Gil – que, como Caetano, está involuntariamente gravado na minha memória afetiva por ser parte da trilha da minha família.

José Prates“Oniká”
Grande canção (e disco) que além das entidades, evoca a origem da canção popular no Brasil junto das religiões de matriz africana, como o candomblé.

Erasmo Carlos“É Preciso Dar Um Jeito Meu Amigo”
Somos fãs de canções e refrãos. Taí um ótimo exemplo de pungência e honestidade que te pegam na primeira ouvida. Certamente músicas do nosso disco como “Amargurado” tem uma dívida com Erasmo e Tim Maia.

Beck“Morning”
E só tinha faltado uma balada – como essa baita canção do Beck que o Davi, nosso atual baterista que gravou percussões e synths no disco, citou como referência de arranjo para a canção que dá nome ao disco, “Caosmos”.

Filosophone: Tom Zé, o homem que nasceu póstumo – Quando o público não entende seu gênio

Read More
Tom Zé

Filosophone, por Matheus Queirozo

“Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si

para dar à luz uma estrela cintilante.”

(“Assim Falou Zaratustra” – Friedrich Nietzsche)

 

Ser um grande artista às vezes custa caro. Calma. Deixe-me pensar: teimo em acreditar que seja uma tarefa fácil ser um grande artista, mas como pode existir alguma exceção dentro disso, deixo então em aberto quando digo às vezes. Como acho realmente que ser um grande artista não é nada fácil, reformularei o começo deste texto, vamos lá: ser um grande artista, na maioria das vezes, custa muito caro! Pronto, talvez agora eu tenha conseguido repassar a intensidade da ideia de dificuldade que é ser um grande artista nesse mundo interminável da arte. Não é todo dia que nasce um gênio. E com certeza não há fórmula que mostre o caminho mais fácil. A genialidade é capaz de tornar um artista um ser atemporal, um imortal, assim como Machado de Assis na nossa literatura brasileira, um escritor que foi além do seu tempo, que através das letras conseguiu dar a sua contribuição intelectual para construir a nossa cultura. O gênio se destaca. O gênio sobressai em meio aos iguais, em meio àqueles que não apresentam o novo para o povo que anseia com a sede dos desertos mais caudalosos por uma arte que os preencha, que os satisfaça nesse rastejar misto de alegria e dor que é a vida. Como diria nosso filósofo otimista – otimista foi uma ironia só pra descontrair antes do grande pessimismo – Arthur Schopenhauer, a vida é dor e sofrimento. E em meio a dor e sofrimento, de tempos em tempos, surge um grande artista. E ser um grande artista, um gênio, nem sempre é sinônimo de felicidade, Tom Zé que o diga isso. Baiano nascido no município de Irará, localizado na nossa Grécia brasileira, fonte de arte e de sabedoria, a Bahia de Jorge Amado e Glauber Rocha, Tom Zé é hoje aplaudido, pode-se dizer, no mundo todo, um artista de uma originalidade tremenda que o elevou a gênio. Mas nem sempre foi assim.

Sabemos que em julho do ano de 1968, Tom Zé e os demais baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, juntamente com Nara Leão, Os Mutantes, além dos poetas Capinam e Torquato Neto, sob a regência sobre-humana do maestro Rogério Duprat, compunham um dos maiores discos já feito na história da música, o grandioso “Tropicália ou Panis et Circencis”.

Tom Zé no canto superior direito.

Foi o momento de glória estética! Nesse mesmo ano de 68, momento do ápice tropicalista, Tom Zé lança seu álbum de estreia, o “Grande Liquidação”, que abre com a canção “São São Paulo”. Nesse disco, o baiano de Irará escreve um texto na contracapa, e no final deixa registrado para a posteridade: “A sociedade vai ter uma dor de barriga moral”. Gravem bem esta frase, pequena, mas contundente.

Continuando a consolidação do artista: é nesse mesmo ano, mais precisamente em novembro/dezembro de 1968, que Zé tem a graça de ter sua música “São São Paulo” em 1º lugar no IV Festival de Música Popular Brasileira. Os louros ao baiano de Irará! “Palmas ao Dom Quixote que ele merece!”. Segundo o maestro e arranjador Júlio Medaglia, em entrevista para o programa musical O Som do Vinil do Canal Brasil, “São São Paulo” é o “verdadeiro hino paulista, porque tem a ironia que vê a cidade com um olhar crítico, mostra os extremos daquela loucura maravilhosa que é São Paulo”.

Tom Zé no IV Festival de Música Popular Brasileira, recebendo das mãos de Júlio Medaglia o prêmio pela canção “São São Paulo”, que ganhou o 1º Lugar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“São oito milhões de habitantes

De todo canto em ação

Que se agridem cortesmente

Morrendo a todo vapor

E amando com todo ódio

Se odeiam com todo amor”

(São São Paulo, canção de Tom Zé, do álbum “Grande Liquidação”, 1968)

 

A genialidade de Tom Zé consiste na sua complexidade diante da sociedade composta pela massa. A massa é feita de cada pessoa que passa a vida em busca de sua identidade, é uma busca tão dedicada que alguns chegam a vender suas almas em troca de uma tribo, tudo para fazer parte de um grupo, tudo para fazer parte daquilo da galera que ouve os mesmos sons, que lê os mesmos livros, que fala as mesmas palavras, e tudo isso forma a massa, a massa que exige que você deixe de lado a sua identidade, aquilo que identifica você enquanto único em troca de uma vida massificada. É nesse momento que as pessoas perdem a sua identidade e são engolidas pela massa até se perderem dentro dela, até formarem algo unilateral, com os mesmos pensamentos, com a mesma visão de mundo, com os mesmos desejos programados. Diante de uma sociedade massificada, a genialidade de Tom Zé foi sendo aos poucos ignorada pelo público consumidor. Isso é comum com pessoas de personalidade autêntica, a peculiaridade as exclui da massa. Num planeta de enlatados, em que só é preciso requentar a comida feita anos trás, botar no prato e comer, porque é mais cômodo viver assim, o produto que cheira como diferente de tudo isso já soa como uma ameaça aos preguiçosos mentais, uma ameaça àqueles que sonham em morrer em suas zonas de conforto. O novo sempre vem para abalar as estruturas, “mas as pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”.

Quem diria, o gênio de Irará, em meados de 1972, lança sua pérola “Se O Caso É Chorar”, seu terceiro álbum, recheado das suas complexidades populares, que só o gênio autêntico possui. No programa O Som do Vinil, Tom Zé fala sobre a música título do disco: “em 1973, ela ficou na parada (de sucessos) durante uns seis meses e um dia ela foi primeiro lugar na parada da Rádio Nacional. E naquele tempo, você concorria com os Beatles, com Rolling Stones, com todo mundo, era uma parada só”.

“É somente requentar
E usar,
É somente requentar
E usar,
Porque é made, made, made, made in Brazil
Porque é made, made, made, made in Brazil”

(“Parque Industrial”, canção de Tom Zé, do álbum “Grande Liquidação”, 1968)

Com o álbum “Todos Os Olhos”, de 1973, é confirmado o aforismo do filósofo alemão Nietzsche, que diz: “há homens que já nascem póstumos”. Tom Zé nasceu póstumo. O gênio nasce incompreendido pelo seu tempo. Tom Zé, mesmo depois de todo o movimento tropicalista, teimou em continuar sendo Tom Zé, teimou em ser artista experimental do som e das palavras. A sua obra poética e sonora, cheia de jogos de palavras, repletas de experimentações inusitadas, lhe rendeu o exílio artístico. A massa não conseguiu engolir Tom Zé. A massa não tinha sistema digestivo competente para entender um homem póstumo. Ele era intragável para a sociedade.

Quando nasceu enquanto artista, nos idos de 1968, ele já havia previsto seu hiato: “A sociedade vai ter uma dor de barriga moral”. E a sociedade teve essa dor de barriga. Com isso, a massa expulsa o seu poeta da ágora tropical, condenando-o a tomar a mesma cicuta que levou Sócrates à morte. Mas a cicuta do gênio de Irará o leva a uma morte dos meios de comunicação, que é a reclusão das grandes mídias.

O diferente assusta, causa temor, tira qualquer um da sua zona de conforto. O novo amedronta, causa nervosismo, faz um rebuliço, causa até dor de barriga, porque o homem, depois que passou do estágio de nomadismo em que era um destemido andarilho pela natureza em busca da sua subsistência, perdeu a coragem de ver o mundo por novas perspectivas. Seu prazer agora se concentra naquilo que lhe parece mais seguro, por isso se prende a rotinas, a mesmices, a comportamentos cíclicos. A novidade é difícil de ser decodificada porque exige um esforço intelectual. Fazer parte de grupos é importante, pois, segundo o psicólogo russo Lev Vygotsky, o desenvolvimento intelectual do ser humano se dá através de suas interações sociais. O problema é quando o indivíduo perde a sua individualidade, enquanto identidade que lhe define, no meio de uma massa de pessoas que pensam do mesmo jeito, que se comportam da mesma maneira. É muito importante ser autêntico, ser original. A liberdade de pensamento só existe quando nós somos autônomos, quando somos donos de nós mesmos.

Tom Zé foi longe. Sua obra sempre foi permeada de experimentalismos tanto vocabulares quanto instrumentais. Ouvir sua música é uma viagem única. E quem embarcou nessa viagem e gostou foi o norte-americano David Byrne, ex-integrante da banda The Talking Heads, que redescobriu Tom Zé no final dos anos 80, numa viagem que fez ao Rio de Janeiro.

A história nos conta que Byrne, andando pelo Rio, queria conhecer um pouco mais do samba da nossa terra, bateu então os olhos num disco de capa branca que tinha apenas o nome e um desenho de arames, coisa simples. Ouviu e adorou. Era o quarto álbum de Tom Zé, “Estudando O Samba”, de 1976.

Daí por diante, o anarquista de Irará ficou conhecido nos Estados Unidos, depois na Europa e voltou a ser notícia.

Considero Tom Zé o artista mais tropicalista da Tropicália. Sem dúvida é o único do movimento que tem a alma tropicalista e que continua produzindo regularmente com toda sua carne e sangue tropicais, ele é aquele que nunca, jamais, perdeu o espírito tropical de poeta zombeteiro e ácido. Ave Tom Zé!

Cantarolando: a cabeça confusa ou não de Walter Franco em “Cabeça” (1972)

Read More
Walter Franco
Walter Franco

Cantarolando, por Elisa Oieno

Outro dia cheguei à conclusão de que a minha ideia pessoal de arte é que, para ela ser ao menos interessante, deve conter algum elemento provocativo ou arriscado. Nesse sentido, o Walter Franco é um dos mais instigantes e criativos artistas brasileiros. Com sua cara de bonzinho e postura zen – e talvez até por isso mesmo – é um artista que apareceu para ser ‘maldito’. Ainda mais em um ambiente de descarada privação e vigília da classe artística, como foi Brasil da ditadura militar, a vontade é de provocar, cutucar a onça.

Provavelmente foi essa a intenção quando ele inscreveu a música “Cabeça” para o VII Festival Internacional da Canção (FIC) da Rede Globo, em setembro de 1972. Foi sua primeira grande apresentação, antes de lançar seu primeiro disco cheio, Ou Não (1973). Naquela época tais festivais eram veículos importantes para os artistas mostrarem suas canções a um alcance nacional, e eram submetidas a um juri e à opinião popular da plateia. Vale comentar que a platéia de festivais era conhecida por não ser exatamente comedida ao expressar suas opiniões a respeito dos artistas e suas performances. Se gostavam, aplaudiam apaixonadamente. Se não gostavam, ou discordavam das decisões do júri, vaias ensurdecedoras e até raivosas. Diz-se que esse comportamento específico das platéias demonstra quase que um desabafo, uma necessidade de opinar e ter voz, uma reação inconsciente das pessoas ao ambiente controlado e reprimido imposto à sociedade sob a ditadura.

“Cabeça” é uma faixa estranha pra caramba, gravada em várias camadas sintetizadas de voz, e foi apresentada no festival com Walter Franco fazendo uma das camadas ao vivo, sobre as gravações em fita. Já esperando as óbvias vaias, ele ficou satisfeitíssimo com sua performance, que conquistou também o juri.

As vaias eram esperadas, porém para coroar o elemento ‘maldito’ de sua apresentação, Walter foi premiado com a desclassificação de sua música do festival, e com a demissão do juri inteiro, que pretendia dar a ele o primeiro lugar. O juri era formado por Nara Leão, Rogério Duprat, o poeta concretista Décio Pignatari, os jornalistas Roberto Freire e Sergio Cabral, e o pianista João Carlos Martins. Sobre a desclassificação, nunca houve uma explicação. Na verdade, nem sobre a demissão do juri, que foi substituído por um outro que deu o primeiro prêmio ao ‘Fio Maravilha’, do Jorge Ben.

A canção “Cabeça” parece mesmo uma música da cabeça humana em seu estado caótico. A ideia é representar ‘vários personagens que nos habitam interiormente, várias inflexões, aquela coisa toda’, como o próprio definiu em uma entrevista certa vez. Parece muito a sensação que dá quando nos sentamos para ficar em silêncio meditativo. Logo a cabeça começa a gritar, assustar, bagunçar, achar engraçado, entender, desentender… é muito fácil ficar com a cabeça confusa.

“Que é que tem nessa cabeça irmão/ Que é que tem nessa cabeça ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode irmão/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir irmão/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir ou não”

Icônica capa do disco “Ou Não”, de 1973, em que está a faixa “Cabeça”

Há também diversas interpretações. Dizem que, além do sentido universalmente humano, também é uma forma de representar os tempos caóticos e confusos da época. Aliás, a frase “que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir, irmão” é meio ameaçadora, e, colocando em um contexto de ditadura militar, ganha ainda mais um sentido especial. Ainda mais considerando que ele próprio já havia sido preso, daquelas prisões aleatórias que vira e mexe atormentavam especialmente a classe artística. Qualquer governo morre de medo do que tem na cabeça de um artista, não? Talvez até de forma inconsciente uma experiência e um ambiente desses certamente influencia o que se produz artisticamente.

Talvez por isso mesmo que naquela época tenha surgido tanta coisa inovadora, verdadeiramente provocadora e interessante. Talvez por isso mesmo… Ou não.

Francisco El Hombre e Cuatro Pesos de Propina se juntam para turnê pela América do Sul

Read More
Francisco El Hombre - Foto: Rodrigo Gianesi

Quem conseguiu comprar ingressos para ver o show da Francisco el Hombre junto com a Cuatro Pesos de Propina nesta sexta-feira (21), no Sesc Belenzinho, vai ver uma big band com dezesseis músicos no palco, numa junção de ritmos latinos e punk rock. Esse encontro entre brasileiros e uruguaios será o primeiro da turnê “Rompe Frontera”, que vai passar por 18 cidades e três países em apenas 30 dias.

As bandas se conheceram de forma inusitada. Na época a Francisco El Hombre ainda era uma banda de estradeiros que faziam apresentações nas ruas da América Latina. Certo dia, em uma cidade do litoral uruguaio, a apresentação dos brasileiros teve que ser interrompida por uma razão não convencional. “Tivemos que parar de tocar por conta de um barulhão que vinha de uma quadra de futebol próxima dali. Corremos para lá e vimos um palco enorme, com cinco mil pessoas cantando e foi ali o nosso primeiro contato com eles”, conta Mateo Piracés- Ugarte, violonista da FEH.

Depois desse encontro inicial as duas bandas estreitaram relações e fizeram alguns trabalhos juntos. Sempre uma convidando a outra para tocar em seu país. Foi assim quando a Cuatro Pesos de Propina veio tocar em Porto Alegre e a FEH em Montevidéu. “Nossos públicos se casam. Nesses shows sempre rola uma energia incrível”, comenta Mateo.


(Cuatro Pesos de Propina – Foto: Yenifer Piaza)

Inicialmente, a impressão é que musicalmente as bandas não tenham muito a ver. A Francisco El Hombre faz um som mais gipsy-folk, enquanto os uruguaios têm uma pegada mais de ska e punk rock. Mas segunda Mateo, há similaridade nos discursos que ambas as bandas fazem. “Todos nós da Francisco somos da escola do hardcore e nossa proposta tem muito de transmissão de mensagem através da música e se você ouve o CPP percebe logo isso também em suas letras”.

Unir quase duas dezenas de pessoas em cima de um palco não é tarefa fácil. Os dois grupos há um tempo vêm se inteirando do repertório do outro, mas para o violonista da Francisco El Hombre a sintonia e a parte orgânica vem falando mais forte nos ensaios. “Está rolando tudo com o coração e com paciência. Trabalhar com banda é aprender a construir coisas juntos. As duas bandas se admiram e confiam muito uma na outra e isso está fazendo brotar coisas incríveis”.

Como registro dessa parceria a Francisco El Hombre e Cuatro Pesos de Propina lançaram esta semana um EP com o mesmo nome da turnê onde uma banda escolheu uma música da outra para fazer um cover. O resultado você confere nos vídeos abaixo.

Maíra Baldaia mostra afrobrasilidade à flor da pele em seu primeiro disco, “Poente e Outras Paisagens”

Read More
Maíra Baldaia

No final de 2016 a cantora Maíra Baldaia lançou seu primeiro disco, “Poente e Outras Paisagens”, recheado de influências da afro-mineiridade e da cultura brasileira. Formada em música pela Bituca – Universidade de Música Popular e em teatro pela Universidade Federal de Minas Gerais, ela inclui sempre que possível elementos cênicos e teatrais em suas apresentações ao vivo.

Com influências que vão do jazz ao congado, Maíra começou sua carreira cedo, com 5 anos de idade, cantando no disco do mineiro Tony Primo. Em sua carreira solo, investe na inclusão de sonoridades africanas, já que tem contato com religiões de matriz africana desde criança. “Mais que uma questão musical, é uma questão de identidade, filosofia de vida, de onda toca a minha verdade. Também o contato com o congado e os tambores de Minas Gerais sempre me envolveram e me tocaram de forma muito forte. As africanidades influenciam meu modo de compor, de me comportar e posicionar no palco e na vida, de olhar e vivenciar o mundo”, explica.

Conversei com ela sobre o disco “Poente e Outras Paisagens”, sua carreira desde a infância até hoje, a vida de cantora independente e um pouco sobre o próximo álbum:

– Como você começou sua carreira?

Minha primeira participação na música foi aos cinco anos de idade em que cantei no disco do compositor mineiro Tony Primo, na ocasião participei dos shows de lançamento e das gravações em estúdio. Desde então, fui brincando com arte, seja no teatro ou na música. Inclusive, foi no teatro que aos 12 anos eu descobri (ou redescobri) que cantava de verdade. Fazíamos um espetáculo que começava comigo cantando “Rosa” do Pixinguinha. Até que aos 15 anos participei da minha primeira banda em Itabira, minha cidade natal, era uma banda de rock autoral chamada Phado. Paralelamente à banda de rock autoral eu cantava e ouvia muito também um vasto e diverso repertório da Música Popular Brasileira. Aos 16, através da enRede – Rede Internacional de Municípios pela Cultura, viajei para Serpa/ Portugal para participar do Concerto enRede (shows com artistas de diversos países) e o Mineirada – projeto idealizado pelo produtor Cleber Camargo (meu pai). Apesar de já estar em atividade há algum tempo, considero essa viagem para Portugal a primeira oportunidade profissional que tive na música. E desde então, segui nessa estrada…

– Quais as suas principais influências musicais em seu trabalho solo?

O meu trabalho solo traz um repertório autoral carregado de influências e isso deságua no meu primeiro disco “Poente” e outras paisagens e nos meus shows. Desde criança minha mãe e meu pai ouviam muita música, eram produtores culturais e isso me possibilitou conhecer muito de perto a música mineira e brasileira. Em meio à tantas referências eu acho até difícil essa tarefa de separar as principais influências, mas vamos lá… Em Minas Titane, Maurício Tizumba, Marku Ribas, Déa Trancoso e Milton Nascimento me influenciaram com um som que traz identidade e uma veia ancestral. Ainda ouvia quase todos os dias eternos Bethânia, Caetano, Gal, Gil, Cássia Eller. Tinha ainda os internacionais Michael Jackson e Janis Joplin. Essas artistas são influências fortes no meu trabalho solo que se mistura ainda à minha vivência desde criança em religiões de matriz africana, à poesia e dramaturgia que influenciam nas texturas e letras, ao meu olhar feminino, poético e crítico de uma sociedade, às mulheres e matriarcas da minha caminhada, às ruas e aos encontros pelo caminho.

– Já que você falou nele, vamos falar um pouco sobre seu primeiro disco, “Poente”. Como foi a produção deste álbum?

Gravado por mim e pelas parceiras Débora Costa, Larissa Horta e Verônica Zanella, com as participações especiais de Alysson Salvador, Bia Nogueira, Caetano Brasil, Nath Rodrigues e do mestre Maurício Tizumba, “Poente” e outras paisagens cumpre o papel de um primeiro disco e traz uma coletânea de composições minhas que abrangem influências e experiências diversas, algumas mais antigas feitas a seis anos/ três anos e outras feitas um mês antes de entrarmos pro estúdio. É uma produção totalmente independente em que conto com a direção musical de Clayton Neri, com arranjos de Verônica Zanella, Alysson Salvador, Clayton Neri e assino a direção artística. Eu trago no disco um conceito dramatúrgico presente nas letras principalmente, todas as músicas são minhas composições e há algumas das parcerias com cantautoras mineiras. Foi gravado, mixado e masterizado pelo mago Andre Cabelo no Estúdio Engenho em Belo Horizonte. Fizemos muitos ensaios e preparamos tudo na pré-produção, assim o processo em estúdio foi bem leve e rápido. Ainda estiveram na equipe desse álbum Camila França, que assina a produção executiva comigo, Gabriela Brasileiro e Matheus Fleming no projeto gráfico e Jenfs Martins na fotografia.

– No disco dá pra perceber muita inspiração de ritmos africanos. Como esse tipo de som te influencia?

A afro brasilidade é algo muito forte em minha vida. Como falei anteriormente, isso vem de vivências pessoais em religiões de matriz africana desde criança, mais que uma questão musical é uma questão de identidade, filosofia de vida, de onda toca a minha verdade. Também o contato com o congado e os tambores de Minas Gerais sempre me envolveram e me tocaram de forma muito forte até que fui trabalhar Maurício Tizumba, Titane e João das Neves e mergulhei mais profundamente na cultura afro mineira. As africanidades influenciam meu modo de compor, de me comportar e posicionar no palco e na vida, de olhar e vivenciar o mundo.

Maíra Baldaia

– Como você definiria o seu som?

Meu som é bastante eclético, devido às diversas influências presentes nele, no meu disco tem Canto Afro, tem Tambor Mineiro, tem Jazz, tem Samba, tem Blues e tudo isso vem numa costura pela MPB e pela World Music.

– Como você vê a vida de artista independente hoje em dia? Quais os maiores desafios?

Falo a partir do cenário em que vivo e trabalho: Belo Horizonte/MG. Ser artista independente no Brasil é sinônimo de muito trabalho, ainda mais dobrado agora no atual cenário político do país. Pra mim, o grande desafio é não perder o brilho no olho e a sensibilidade que a arte necessita devido a ser uma caminhada árdua e às vezes inconstante, mas não impossível. Temos que batalhar por nosso espaço, pela sobrevivência e pela valorização da arte independente e ainda temos que ser, além de artista, uma equipe inteira muitas vezes… entender de produção, de social media, de assessoria de imprensa, de audiovisual, de formatação de projetos e por aí vai. Ser empreendedora, pensar e planejar a carreira, estabelecer metas, executar múltiplas funções e buscar as parcerias certas ajudam muito nessa caminhada e eu sigo nessa busca.

– Como você acha que esse cenário pode melhorar no futuro?

Com trabalho, com união da classe artística, com pensamento de gestão de carreiras, com espaços e oportunidades, com ações da classe e também com a valorização por parte de quem nos contrata e do governo. É preciso mais investimento na cultura e na educação, investimentos que gerem resultados duradouros, pois a arte tem a qualidade de trazer pensamento crítico através do conteúdo ou do sensorial, a arte pode transformar as pessoas em seres mais empoderados, pensadores, criativos, motivados e transforma também nas questões da representatividade e quebra de preconceitos e padrões.

– Você já está trabalhando em novas músicas?

Eu tenho trabalhado em novas músicas sim! Na verdade estou em processo de seleção do repertório do meu próximo álbum. Já tenho canções que dariam mais dois discos, algumas incompletas e outras já arranjadas. Sempre que crio uma música vem uma ansiedade de vê-la nascer, de colocar nos shows, mas ainda estou estudando e planejando o caminho a percorrer nos novos projetos.

Maíra Baldaia

– Pode adiantar algo sobre o próximo disco?

Ainda não (risos)! Estou trabalhando no conceito do disco, mas posso adiantar que será um trabalho mais carregado das influências afro brasileira do que o primeiro, com essas referências um pouco mais na cara e com mais momentos swingados!

– Recomende bandas ou artistas independentes que chamaram a sua atenção nos últimos tempos!

Aqui em Minas tem muita gente boa e contemporânea fazendo arte independente de muita qualidade e que, acima de tudo, me tocam como Alysson Salvador, Guilherme Ventura, Bia Nogueira, Rodrigo Jerônimo, Raphael Sales, Natália Avelar, Nath Rodrigues, Negras Autoras, Flávia Ellen, Deh Mussulini, Octávio Cardozzo, Izza, Amorina, Josi Lopes, Cristiano Cunha, Graveola, Meninos de Minas, entre outros tantos… E ainda adentrando pelo Brasil tem muito mais como Anna Tréa, Nina Oliveira, Luedji Luna, LaBaq, Camila Garófalo. Sandyalê, François Muleka e tantos mais. Eu poderia ficar aqui horas escrevendo e pensando em artistas dessa cena que me chamam atenção, é muito rica a criação brasileira.

Filosophone: A Antropofagia Robótica de Belchior

Read More
Belchior
Belchior

Filosophone, por Matheus Queirozo

Para que levar a vida assim tão a sério?

Afinal, a vida é mesmo uma aventura da qual não sairemos vivos

(Belchior. Romance de Um Robô Goliardo, 1984)

De geração em geração, sabemos, tudo vai mudando. Aquela velha roupa dá sempre lugar a outra moda. Aqui ou acolá, surge sempre um novo corte de cabelo, um novo jeito de falar (os chamados dialetos e códigos de grupo), surge um novo modo de estar no espaço e no tempo. “O que há algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer”, cantava o jovem Belchior em sua canção “Velha Roupa Colorida”, no seu disco “Alucinação” de 1976. Nos anos setenta, muita coisa apareceu. Em termo de arte, então, ficaríamos o dia todo elencando quanta coisa foi produzida. Uma das décadas mais ricas. Belchior pintou no cenário musical com um disco meio caipira futurista, meio ficção científica nordestina, o disco “Mote e Glosa” de 1974.

Quanto lirismo tem nessa obra! Um disco que fala de máquinas, de hora do almoço, de senhor dono da casa, de juventude toda suja de batom, fala de sofrimento a palo seco. Palo seco, aquele cântico entoado com a garganta seca, com a voz sozinha, sem instrumento musical, é a vida como ela é, a vida como ela é em meio às mudanças industriais. Eu tentaria definir (que pretensão mais vaidosa a minha!) esse disco como um cante à palo seco na cidade grande. E como não pensar na poesia cálida, desnuda de qualquer doçura melodiosa, de João Cabral de Melo Neto:

“Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;

Se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.

O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;

É o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.”

(Trecho de “A palo seco” do livro “Quaderna”, 1960).

Já em 1976, Belchior lança o álbum “Alucinação”. A partir desse trabalho, ele é consagrado na cena musical dos anos setenta. Saudosista? Não, Belchior não era do tipo saudosista, daqueles que se enchem de vaidade e de desgosto pela atualidade para dizerem que “na minha época”, “no meu tempo”. Percebe-se que a apologia ao novo, à mudança, à renovação, é uma constante na sua obra, esse canto sobre a mudança dos tempos. Belchior sempre se reinventa de disco em disco, ele sabia que as coisas tinham um motivo para mudar: “Tudo muda! E com toda razão” (“Rapaz Latino-Americano”, 1976). Isso fez dele um eterno jovem docemente rebelde, amargamente apaixonado pela vida: “Sim, já é outra viagem. E o meu coração selvagem tem essa pressa de viver” (Coração Selvagem, 1977).

Então, depois de tanta bossa nova, depois de Woodstock, de paz e amor, depois de tanta Tropicália, Clube da Esquina, psicodelia, rock progressivo e pessoal do ceará, chegam os anos oitenta. Eu diria que é a década de prova de fogo para os setentistas. Quem conseguiria sobreviver à enxurrada de BRock que invadia as rádios e gravadoras? Um cenário dominado agora por muitos RPM’s, Legiões Urbanas, Titãs, Engenheiros dos Hawaiis, a televisão sendo invadida pelo rock daqueles moleques. O teste: sobreviver ao modismo oitentista. Muita coisa se perdeu, muita coisa ficou nos anos setenta, muito artista não suportou e não conseguiu atravessar a ponte dos tempos. Mas o rapaz latino-americano vindo se Sobral, no interior do Ceará, com aquele bigodão quase nietzschiano, que tem como filosofia de vida “amar e mudar as coisas me interessa mais”, como um periscópio artístico, observador das novas mídias, consegue entender muito bem o seu novo tempo e em 1984 lança um disco, quase que uma ópera rock, em que mistura ficção científica e nordeste, chamado “Cenas do Próximo Capítulo”.

Eu imagino Belchior discursando para toda a nova geração BRock:

Alô rapaziada! Alô gente fina! Alô moçada!
Eu sei que vocês estão com a vida que pediram a Deus
E ele deu
Muito que bem! Por isso espero tudo de vocês
Mas não confiem em mim: Eu não existo!

Sou apenas um personagem que diz isto
E não me chame irresponsável
Para que levar a vida assim tão a serio?
Afinal, a vida é mesmo uma aventura da qual não sairemos vivos

Ah! Tudo já é outra viagem!
Abra com meu velho canivete seu jovem coração de lata
Entre no barco eletrônico da emoção barata
Vamos, na crista da onda

Dar um balanço cibernético nas horas!
Pulsars, quasars, buracos negros, astros, guerra e paz
Amor nas super-estrelas
Robô goliardo deste tempo
Narro a minha vida começando pelo fim
É bem melhor assim
Vou contar pra vocês a vida que eu inventei pra mim

(Trecho inicial de “Romance de Um Robô Goliardo”, do mesmo disco).

Belchior mostra que não deve nada pra ninguém, mostra que sua poesia de coração selvagem continua acesa. A sonoridade do disco guarda a essência nordestina do artista, mas é um nordeste renovado, tecnológico, um apanhado de canções nordestinamente robóticas (ouçam, por exemplo, “Forró no Escuro” do grande Gonzagão, regravada neste disco de 1984 em forma rock star). O filósofo alemão Friedrich Nietzsche tem um conceito chamado Eterno Retorno, onde – numa explicação bem básica – tudo, na história, se repete, mas de uma maneira renovada, o mesmo evento se apresenta, tempos depois, com uma nova roupagem. Assim é esse disco. Ele não é velho, não é passageiro, não é um disco temporal, ele pode ser ouvido em qualquer época, ele fala de juventude, fala “das deusas que eu amei com as mãos” (“Beijo Molhado”), fala de paixão sem ser antiquado, fala de amor sem ser piegas. É um disco de antropofagia robótica, é como se Belchior fosse um androide, tivesse absorvido toda a cultura dos anos setenta, tivesse transformado-a dentro de si e cuspido, renovada, na década de oitenta.

“É isso aí, rapaziada! É isso aí, gente fina!
Talvez a gente pudesse dizer adeus de outro jeito
Mas eu sou um antropófago urbano
Um canibal delicado na selva da cidade
Mais dia menos dia… Eu como você. E você como eu!
Ora, ora! Sempre houve um lugarzinho a mais para alguém
Debaixo dos meus lençóis”

(Trecho final de “Romance de Um Robô Goliardo”, do mesmo disco)

“Cenas do Próximo Capítulo” é como uma novela de ficção científica que assistimos ansiosos querendo descobrir o que vai acontecer nas cenas que se sucedem: será que o mocinho bigodudo continua com aquele gás setentista todo? A resposta vem, dez anos depois, renovada, à maneira de um eterno retorno: “Deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida e nos carrega moço, sem ter visto a vida” (“Hora do Almoço”, 1974). Ou seja, ao invés de se repetir, ao invés de ser uma múmia de si mesmo, Belchior simplesmente foi lá e fez, chegou aos anos oitenta sem perder o lirismo, o talento, a beleza da juventude, sobrevivendo à prova de fogo, se eternizando na memória afetiva de todos nós, pobres mortais, se tornando o nosso bigodudo, o nosso poeta filosófico.

 

Filosophone: A Voz das Mulheres Em Chico

Read More

Filosophone, por Matheus Queirozo

Já ouvi dizerem que o homem que conseguir entender uma mulher deve duvidar de seu sexo, como se entender uma mulher fosse uma proeza impossível para homens. Claro que achei um comentário bem infeliz, mas tenho para mim que o caso é que o universo feminino é mesmo muito curioso por justamente ser misterioso, e não pela suposta impossibilidade de ser compreendido. A mulher é um ser fantástico, uma verdadeira poesia e seus gestos são como a legítima arte: polissêmicos! E, por falar em poesia, existe um carioca que tem como musa inspiradora em muitas de suas canções a figura da mulher. Esse carioca, que tece poesias em torno do universo feminino, muitas vezes confundindo-se com suas personagens marcantes, se chama Chico Buarque de Hollanda. Convenhamos: um grande artista!

Nesse breve texto, falaremos, sem querer esgotar o assunto, do aspecto artístico muito único do Chico que é o de se utilizar do eu lírico feminino nas suas músicas, mostrando, sem tirar o protagonismo feminista, que a mulher deve ter sim a liberdade de gritar seus sentimentos.

A história nos mostra que a mulher não tinha vez na nossa sociedade, que a mulher sempre foi vista como inferior ao homem. Esse é o tão vergonhoso machismo, enraizado na nossa cultura há seculos! Isso só começou a mudar, aos poucos, depois que a mulher começou a se impor, mostrando que a fêmea não deve ser submissa a macho nenhum, e com todo o direito e razão. Não foi da noite para o dia que essa reivindicação foi crescendo. Foi através de muita luta! E a mulher lutou: no início dos anos 70 começaram a surgir mulheres que queriam discutir seu lugar no mundo. Nessa década, o movimento feminista começou a se propagar na América Latina.

Com o Brasil cada vez mais se modernizando, com a industrialização se instalando, a mulher sentiu necessidade de atuar dentro desse novo mercado de trabalho. A mulher queria mostrar que podia sim ajudar no orçamento familiar através de sua força de trabalho fora de casa.

As músicas mais marcantes de Chico que giram em torno da mulher foram compostas na década de 70. Direta ou indiretamente, não se pode negar que Chico contribuiu com a luta das mulheres pela vez delas na sociedade. Apesar de ele descrever algumas mulheres afetadas por paixões arrebatadoras, sem dúvida deu voz às mulheres em suas músicas, abriu o microfone para que elas pudessem vomitar tudo o que queriam falar, deixou a mulher desabafar numa época de censura irremediável. Alguns criticam Chico dizendo que suas músicas são machistas, que elas mostram a mulher do ponto de vista machista. Mas esquecem de observar o óbvio: Chico retrata a mulher como ser humano, com suas qualidades, com seus defeitos e suas fragilidades, que todo ser possui. Independente de ser homem ou mulher, todos somos frágeis. Chico deu voz às mulheres para que derramassem suas forças e fragilidades.

Cada eu lírico feminino de cada música que fala da mulher na obra de Chico pode ser visto tanto como o retrato da personalidade toda de uma mulher, quanto pode ser visto como a descrição de um momento, de alguns instantes da personalidade feminina. A mulher é um múltiplo de emoções, de ações, reações, comportamentos. E Chico conseguiu transportar isso muito bem para as suas canções.

  • – Na música “Cotidiano” (do álbum “Construção”, de 1971):
    Não é uma canção de eu lírico feminino, mas que retrata uma mulher que faz tudo, todos os dias, sempre igual, com o mesmo gás de amor sempre, como se fosse a primeira vez a cada manhã, tarde e noite, tudo para o conforto do marido, para não perdê-lo. Uma crítica ao pensamento que define a mulher como a dona de casa? Quem sabe!

  • – Na música “Atrás da Porta” (do álbum “Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo”, de 1972):
    A mulher se encontra submissa ao amado, se encontra despedaçada de amor sem aceitar a separação.

  • – Em “Olhos nos Olhos” (do álbum “Meus Caros Amigos”, de 1976):
    A mulher sofreu com o rompimento do relacionamento, mas, depois, consegue juntar forças para superar a dor e voltar a viver outros casos, outros amores, outras emoções.

  • – Em “Folhetim” (do álbum “Ópera do Malandro”, de 1979):
    É uma mulher consciente de sua autossuficiência e de seu charme entre seus amantes, adorando viver vários flertes, onde cada caso, depois, é considerado página virada em seu folhetim.

Como vimos, Chico retrata a mulher em suas mais variadas facetas. Depois desse pequeno texto, podemos ter certeza, sem receios de equívoco, que na história da música Chico foi e continua sendo o único artista no mundo que conseguiu e consegue descrever tão belamente e tão detalhadamente o universo feminino, mostrando que a mulher pode ser quem quiser, sentir as emoções que mais lhe aprouverem, com quem quiser e quantas vezes quiser. E Chico não precisou duvidar de seu sexo.

Celebração baiana: “Doces Bárbaros” (1976)

Read More
Doces Bárbaros

Bolachas Finas, por Victor José

Certa vez perguntaram a Milton Nascimento como era possível haver tantas parceiras entre músicos brasileiros, e o cantor simplesmente respondeu: “Porque a gente gosta disso”. Essa frase cabe perfeitamente no encontro dos baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, o que resultou no “Doces Bárbaros”. Se separados eles já ditavam tendências, lotavam shows e rendiam notícias, juntos então, eram capazes de soar como um divisor de águas da MPB.

Ao longo dos anos anteriores, uma série de espetáculos reuniu os medalhões no palco. Em LP, Domingo” (1967), Tropicália ou Panis et Circencis” (1968), Barra 69″ (1972) e Temporada de Verão” (1974) já haviam mostrado que a afinidade entre esses músicos ia além da amizade que cultivavam fora dos palcos.

Já estava comprovado que parcerias agradavam o público. Por isso, em 1976, o selo Philips – naquele momento, dona de um catálogo absurdamente fantástico – voltaria a investir na fórmula apresentando ao público outra faceta da MPB: um raro caso brasileiro de supergrupo, ou seja, conjunto cujos integrantes já são reconhecidos por outros trabalhos.

A convocação dos Bárbaros partiu de Maria Bethânia. Conversando com o irmão Caetano, pediu para ele fazer a melodia de uma letra de sua autoria, intitulada “Pássaro Proibido”, a qual acabou se tornando uma das canções do grupo. Papo vai, papo vem e Bethânia conta que havia sonhado com a reunião daqueles quatro amigos no palco, uma possibilidade antiga que já vinha sendo alimentada principalmente por Caetano e Gil, que chegaram a cogitar algumas vezes formar uma “banda de brincadeira”, mas esperavam pelo momento certo para concretizar a ideia.

A parceria entre eles não poderia ter sido escolhida num período melhor. Com sucesso estabilizado e reconhecidos pelo público e pela crítica, os quatro atravessavam uma fase prolífera em suas respectivas carreiras solo. O quarteto podia gozar da livre e espontânea vontade de se curtirem, sem a obrigação de criar um disco inovador.

Sobre o nome, Caetano disse: “Após o exílio em Londres, eles retomaram uma linha de ataque contra nós, focando principalmente no fato de nós sermos baianos. Então fizeram um apelido, chamaram a gente de ‘baiunos’, deplorando que o Rio tivesse sido invadido por esses bárbaros. Foi aí que eu tive a ideia de chamar a gente de Doces Bárbaros”.

Um ano antes, Gil inaugurou a trilogia “Re” com o muito elogiado LP Refazenda”, no qual revisitou suas raízes e reinventou sua sonoridade. Posteriormente, Gil colhia os frutos do trabalho de estúdio com uma longa turnê pelo País.

Gal Costa investia no repertório do conterrâneo Dorival Caymmi. Ela havia estourado nas rádios e na televisão com “Modinha Para Gabriela”, o famoso tema de novela. Logo depois lançou o álbum Gal Canta Caymmi”, que renderia um show com o compositor.

Após dois anos de jejum fonográfico, Caetano matava a fome de seus fãs com Jóia” e Qualquer Coisa”, de 1975, discos mais acessíveis ao grande público e menos arrojados em relação à proposta estética, se comparados aos trabalhos anteriores, como o experimental Araçá Azul”.

Já Maria Bethânia se desvinculava gradualmente dos álbuns teatrais que marcaram o início de sua trajetória. Um ano antes tinha subido ao palco com Chico Buarque, encontro que renderia um LP de muito sucesso. E no começo de 1976, lançava Pássaro Proibido”, um marco que a consagraria definitivamente como cantora popular.

Apesar de alegarem que estavam comemorando dez anos de carreira solo, cronologicamente, o ano de 1976 estava fora de contexto. Bethânia tinha discos gravados há mais de onze anos. Gil iniciou sua discografia em 1963 com Gilberto Gil – Sua Música, Sua Interpretação”, lançado pela JS Discos. Caetano teve o primeiro compacto nas lojas em 1965, com “Cavaleiro / Samba em Paz”. Já a estreia solo de Gal Costa aconteceria somente em 1969, em LP homônimo.

A concepção era ambiciosa no formato e consistia em uma maratona de shows em diversas capitais, um álbum duplo e um documentário. A produção do espetáculo ficou por conta do empresário Guilherme Araújo, e a estreia do grupo aconteceu no dia 24 de junho de 1976, no Anhembi, em São Paulo.

Em uma das viagens da turnê, aconteceu um imprevisto que levaria o grupo à manchete dos jornais de Florianópolis e do Brasil. Gil e o baterista Chiquinho Azevedo foram presos por porte de maconha. A notícia causou tanto alvoroço quanto o show e si. Recolhido em uma cadeia pública, por decreto de um juiz, Gil foi internado no Instituto Psiquiátrico São José, próximo a capital catarinense, onde ficaria recluso por cerca de duas semanas, para que em seguida se submetesse a tratamento ambulatorial no Sanatório Botafogo, no Rio de Janeiro.

Algum tempo depois da interrupção das apresentações, o Doces Bárbaros retomou os palcos e iniciou uma bem sucedida temporada no Canecão, do Rio de Janeiro, onde ficariam em cartaz por cerca de dois meses, com direito a recorde de bilheteria.

Embora naturalmente sobressaísse o espírito aberto e festivo de estarem juntos no mesmo palco, o espetáculo também continha outros grandes momentos. Lampejos de talento vocal e performático, com “Os Mais Doces dos Bárbaros” e “Fé Cega, Faca Amolada”, cantado por todos juntos com um entusiasmo arrebatador, ou em casos mais tranquilos, como “Esotérico”, composição de Gil interpretada por Gal e Bethânia com um quê de sensualidade desconcertante que as duas intérpretes gostavam de imprimir.

Gil e Caetano desejavam gravar o repertório em estúdio, mas Gal e Bethânia insistiram que fosse lançado ao vivo, e foi assim que aconteceu. Mesmo com a decisão de captar o clima do show, quatro das canções contidas no tracklist do LP foram gravadas em estúdio: “Esotérico”, “Chuckberry Fields Forever”, “São João Xangô Menino” e “O Seu Amor”, as quais também sairiam em compacto duplo em julho do mesmo ano.

O álbum duplo traz dezessete canções distribuídas em dezoito faixas, sendo quase todas até então inéditas e compostas, em grande parte, ou por Caetano ou por Gil. Apenas três fogem da regra: “Fé Cega, Faca Amolada” (Milton Nascimento / Ronaldo Bastos), “Tarasca Guidon” (Waly Salomão) e “Atiraste Uma Pedra” (Herivelto Martins / David Nasser).

O disco foi sucesso comercial, mas não vingou aos olhos da crítica. Naquela altura da década de 1970, quando se falava de alguma obra do time da MPB, se esperava algo esteticamente rico, intrínseco, e não aquela imagem abusivamente festiva celebrada pelos baianos.

Tanto o espetáculo quanto o LP foram duramente criticados, sendo taxados de algo sem profundidade, raso, uma manifestação Flower Power fora de época. “Não se fazem mais baianos como os de antigamente?”, publicaria Walter Silva, o ferrenho crítico da Folha de São Paulo.

Ruy Castro também foi severo e cobrou mais respeito da trupe aos espectadores, que presenciaram alguns imprevistos no palco. Ele também pediria para os baianos ensaiar antes de entrar em cena. “De preferência, sem a presença do público, nem cobrando 80 cruzeiros por cabeça. Tropeçar nos fios e derrubar microfones não devia fazer parte da coreografia. Os quatro continuam a ser artistas extraordinários, mas cada qual no seu canto. Por enquanto, os Doces Bárbaros são apenas uma doce ilusão”, publicaria na época.

Talvez seja exatamente isso que o quarteto tenha significado: uma celebração despretensiosa no sentido estético e mais voltada à pura e simples curtição, ou seja, o contrário do que foi o Tropicalismo e todo seu engajamento, o oposto do que se esperava daquelas estrelas naquele momento de ditadura militar.

Mas o tempo foi o melhor remédio para apagar os preconceitos. Mesmo com todos os problemas técnicos e a estigma de soar escapista, o LP “Doces Bárbaros” acabou ganhando o devido reconhecimento de obra importante da discografia brasileira. Hoje ele é tido como um registro fonográfico histórico e único de um momento áureo, e, quem sabe, o último suspiro da linguagem abertamente hippie na música brasileira.