O desenvolvimento da nova Refavela baiana

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O rapper baiano Hiran

Em 1996, Gilberto Gil, no documentário “Tempo Rei”, entra numa grande viagem. O documentário é fantástico e aborda toda a carreira de Gil falando de muitos aspectos importantes de sua carreira e do Brasil. Mas um tópico em especial chama atenção – o da Refavela. Num movimento muito doido, ao lado de Carlinhos Brown são tecidos comentários sobre o que é exatamente a Refavela, que em 1977 foi nome de faixa, que deu nome a disco, no meio da “trilogia Re”. Brown afirma que a Refavela é “refazer o barco, refazer a vela”, regressar no caminho da diáspora, saindo ou não do Brasil. Gil afirma que Brown é a “prova viva” do que ele viu tantos anos antes na Nigéria com Fela Kuti e no Brasil com o “Black Jovem, o Black Rio”. A nova geração de pretos e pretas em “blocos do CNH”, periféricos, que traçavam seus caminhos na música popular.

A Refavela é a diáspora e se faz presente e se renova a todo tempo. Hoje, pretas e pretos do Brasil todo “refazem o barco, refazem a vela”. Quero falar nesse texto sobre a minha Bahia, especificamente. Dentro dela, posso falar de quatro movimentos no presente momento (dentre tantos outros) – o movimento de Luedji Luna, o movimento de Russo Passapusso (Baiana System), o movimento de Hiran e o movimento Attøxxá. Há interseções entre esses quatro movimentos, mas cada um traça caminhos muito próprios e peculiares.

Luedji, há três anos em São Paulo, traça caminhos que dialogam com o que Gil fazia em 77 na Refavela. É a Refavela em sua renovação! O batuque e o ritmo tipicamente africano se faz presente na sua música, mas aliado a um tom moderno e típico da geração em que vivemos – conectado e da era das redes sociais. Luedji, em entrevista ao site Cult.E.T.C, disse que começou a escrever num movimento de busca por expressão, por existência – uma resposta aos racistas de sua escola. A escrita se transformou muito tempo depois em cantoria e os racistas de merda devem se arrepender de terem acordado em Luedji o potencial revolucionário que todo fruto da diáspora carrega consigo. Revolução (também) musical que se faz presente no excepcional disco “Um Corpo no Mundo”, de 2017. A faixa de mesmo nome vai no mais profundo da alma dialogando com a travessia do Atlântico e com São Paulo (“E a palavra amor, cadê?”). Mulher, preta, nordestina e foda demais!

Russo Passapusso, por sua vez, traça dois caminhos distintos. No caminho solo e no Baiana System há interseções, mas os resultados finais são diferentes. Se na carreira solo há a sutileza de “Areia” e “Flor de Plástico” (“Paraíso da Miragem”, 2014), no Baiana System o movimento é outro, contrastando a cidade alta e a cidade baixa, no batidão eletrônico (“Duas Cidades”, 2016). “Autodidata” que fecha o “Paraíso da Miragem” é o que se assemelha mais com Baiana System, mas ao mesmo tempo é muito diferente. São escolhas que seguem caminhos diferentes, mas que guardam uma semelhança: o fato de que a Baiana System e o “Paraíso da Miragem” são sons “brasileirinhos pelo sotaque, mas de língua internacional”. São sons mundiais, globais, mas ao mesmo tempo que não perdem as raízes. É mais uma vez a Refavela em ação!

Não é à toa que está estourando tanto Brasil afora. O som é da mais alta qualidade nos dois projetos. Quem sabe Russo seja o Chico Science de nossa era. O tempo dirá.

Attoxxa segue o caminho do pagodão baiano. O “samba paradoxal” da Refavela e o ritmo moderno da “popa da bunda”. Durante o show, usam como sample de uma das músicas “Feeling Good” de Nina Simone e fazem questão de afirmar isso. Se Márcio Vitor mudou a cena da música baiana no início dos anos 2000, Attoxxa dá outro tom a cena em 2018. Convoca inclusive o próprio Márcio Vitor para fazer essa mudança de tom em conjunto. “Rebolar a Raba” também faz parte da diáspora, afinal, foi o branco europeu que inventou que a ginga africana era pecado. “Rebolar a Raba” também faz parte da revolução antiracista.

Hiran. LGBT e vindo do interior da Bahia traça caminhos belos e ambiciosos. Há duas semanas lançou o clipe de “Tem Mana no Rap” – simplesmente sensacional. Dá pra chamar de um “Abre Alas” dos nossos tempos. No beat dá pra escutar em loop os gritos de “Ilê, Ilê, Ilê, Ilê”. As referências são claras e estão na Bahia e na África (Ilê Aiyê, procure que você vai entender). Lançou na ultima semana o seu primeiro disco e no dia anterior a postagem deste texto foi ao ar o “Cultura Livre” com a sua presença. Hiran grita: “eu não sou pauta pras suas ofensas!” e afirma “baiano pode mudar o Brasil”. Assino embaixo. Não só pode como já está mudando. Desde a invenção do samba, passando pela Refavela até chegar na nossa geração.

A diáspora, a luta, o potencial revolucionário e a excelente qualidade musical são pontos em comum para todos os citados acima.
A renovação sem perder as raízes é regra. Ainda bem.

Confira uma playlist sobre a Refavela baiana:

referências e links extras:

Entrevista com Luedji Luna, cantora baiana que

Assista!

“Tem Mana no Rap” Sim!! Conheça o primeiro álbum do rapper baiano Hiran

A esquisitice maluca do órgão de Furbies, invenção do londrino Sam Battle

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O site Weirdest Bands In The World é sempre uma ótima fonte de inspiração para quem adora uma esquisitice sonora. E desta vez, eles me apresentaram algo que eu nunca tinha visto: um órgão feito com Furbies. Sabe, o Furby, aquele bichinho peludinho com os olhos esbugalhados? Pois é. É quase um coral de 44 vozes! Sim, é quase como se o “Música de Brinquedo” do Pato Fu fosse realizado por Mike Patton, basicamente.

O criador dessa doideira é Sam Battle, músico de Londres e um dr. Frankenstein musical que constrói diversas engenhocas em seu canal do Youtube Look Mum No Computer, como um sintetizador de guitarra feito de um fidget spinner. Mas o Furby Organ supera todas as experiências anteriores: é um instrumento freak que pode ser o pesadelo de muitos, já que lembra muito algo como 44 gremlins presos a um instrumento musical, obrigados a cantar para sempre. Pobres mogwais.

Se você curte o estilo “Laboratório de Dexter” de Battle, apoie-o em seu Patreon. Ele diz que está coletando mais Furbies para um de seus próximos projetos, então se você quiser doar uma criaturinha peluda de brinquedo para  o rapaz…

 

Existia alguma treta entre Frank Zappa e The Beatles?

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Se você começar superficialmente analisando, a capa de We’re Only In It For The Money” (1968), terceiro álbum do The Mothers of Invention e uma paródia do vinil do The Beatles, o famoso Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (1967), nasce uma dúvida. Era apenas ironia ou uma crítica política?

Mas mergulhando um pouco mais e entendendo melhor a coexistência destes IMENSOS nomes, podemos encontrar declarações que mostram uma admiração mútua com pitadas de discordância política. No próprio lançamento do Sgt., Paul McCartney afirmou que o álbum era o “Freak Out”, álbum de 1966 do The Mothers of Invention, dos garotos de Liverpool.

A paródia da capa foi consensual, Paul autorizou mesmo com ressalvas sobre a gravadora e afins. Obviamente, isso aconteceu, e as primeiras edições foram censuradas, publicadas apenas no interior do álbum, até Frank Zappa criar sua própria gravadora e criar o formato independente. Mas isso não impede de acharmos que sim, o título critica a forma como a música estava sendo produzida na época, e de como Zappa queria talvez deixar claro que ele fazia o que queria como queria porque ele gostava, mas isso não anula seu interesse por capital. “As pessoas achavam que os Beatles eram deus! Isso não é correto” é uma das frases dele que mais vi sendo reproduzidas.

A imagem é de autoria de um parceiro de outras diversas capas que envolvem Zappa: Carl Schenkel. Este que era não só fotógrafo, como ilustrador, animador, designer e finalmente: especializado em capas de álbuns. Ele e Zappa eram muito parceiros, e outros diversos álbuns como Lumpy Gravy”, “Cruising with Ruben & the Jets”, “Hot Rats”, “Cheap Thrills” e “Mystery Disc” também são dele.

A capa não era uma provocação, mas se você escutar “Oh No” logo depois de ouvir “All You Need Is Love”, bem, a sua dúvida tende a retornar:

E a versão do The Mothers Of Invention:

A canção “Oh No”, que critica de maneira satírica “All You Need Is Love”, não é deste álbum. Ela foi escrita em 1967, mesmo ano que a “original”, mas lançada apenas em 1970, quando Weasels Ripped My Flesh” saiu nas lojas.

“Oh no
I don’t believe it
You say that you think you know
The meaning of love
You say love is all we need
You say
With your love you can change
All of the fools
All of the hate
I think you’re probably
Out to lunch”

Existem comentários de que em 1988 em shows, Zappa tenha feito misturas de “Norwegian Wood” / “Lucy In the Sky With Diamonds” / “Strawberry Fields”, e algumas gravações no Youtube que comprovam superficialmente:

Há registros também de que John e Yoko tenham participado de um dos shows do novo Mother em 1971 e depois usaram a performance como material para o disco deles em 72, de nome Some Time In New York City”, que foram deixadas de lado na reedição do álbum.

Bem, depois de tudo isso, muitas leituras do Reddit e Zappa Wiki Jawaka, não existia treta até segunda prova, apenas uma coexistência em uma época onde a efervescência cultural era gigantesca, amém.

Feminismo é revolução e os artistas estão entendendo o recado

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Letrux
Letrux

“Ela desatinou, desatou nós. Vai viver só!” Esse trechinho de “Triste, Louca ou Má” de Francisco El Hombre representa bem a transição social pela qual estamos passando. O feminismo grita, exige e chega aos ouvidos de milhares de pessoas de infinitas formas, seja pelos protestos nas ruas, pelas plataformas digitais e principalmente pelo streaming. Uma voz, doce, suave, encantando e passando seu recado sutilmente. É assim que inúmeros artistas estão chegando nesses espaços e ganhando voz e autonomia.

Elza Soares, grande artista feminista, manda seu recado social desde cedo. Fala abertamente em suas músicas sobre a opressão masculina, violência doméstica, racismo, entre outros temas e convida seu fiel público a dar um basta nisso. “Cadê meu celular, eu vou ligar no 180”. O famoso Disk Denúncia. Em 2016, Elza lançou seu disco “A Mulher do Fim do Mundo”, que lhe rendeu excelentes críticas e prêmios, como Grammy, todo contextualizado no apelo ao fim da violência. Um verdadeiro grito de basta. Em 2017, ela não perde a linha e lança o single ‘Na Pele’, junto com a também feminista Pitty, denunciando a violência física e psicológica. “Se essas são marcas externas, imaginem as de dentro”, questionam.

As mulheres, através de muita luta, têm conquistado seus espaços no campo profissional e a indústria fonográfica vai muito bem representada nesse quesito. Mulamba é um sexteto de meninas paulistas, que também lançou disco 2016 e vem gritando nas playlists o fim do abuso, escancarando o machismo e pedindo a liberdade feminina. “Agora o meu papo vai ser só com a mulherada: Nós não é saco de bosta para levar tanta porrada” e denunciam “Todo dia morrem umas 10, umas 15 são estupradas, fora as que ficaram em casa e por nada são espancadas”. Não à toa, contam com quase 9 mil ouvintes mensais no Spotify, e a música “Mulamba” com mais de 54 mil plays.
A lista de artistas que estão seguindo essa revolução feminista é bem vasta e a Letrux, antes conhecida como Letuce pelo trabalho musical com seu ex marido, jogou tudo para alto e lançou um excelente disco, “Em Noite de Climão”, onde se mostra empoderada, liberta e pronta para um novo jogo. Nesse estilo, Ava Rocha também representa bem a cena indie do Brasil, com sua performance autêntica nos palcos. Uma das suas canções que chama a atenção durante sua a apresentação é Joana D’Arc. Ava foi headliner na abertura da Semana Internacional de Música, que aconteceu em São Paulo.

Mas, nem só mulheres ganham espaço nos fones de ouvidos quando o assunto é feminismo. Francisco El Hombre, grupo misto de paulistanxs e mexicanxs, também pregam o fim do machismo, o empoderamento feminino e a sororidade. Apesar de ser cantada por uma voz feminina, a banda é composta na sua maioria por homens, que carregam essa bandeira. Essa atitude já se trata de um reflexo da revolução feminista, talvez uma lição que ficou após um integrante da banda ser acusado por machismo e manter um relacionamento abusivo.

Com o mercado musical aberto a esses discursos, não só é importante discutir o feminismo, como também é de igual importância desconstruir o machismo. A sociedade já mostrou que não tolera mais. E grandes artistas como Criolo e Mano Brown já aderiram a essa nova regrinha. Não se pode mais denegrir a imagem da mulher, pega mal, mesmo que para um seleto público. Não entraremos aqui no mercado do funk e ramificações.

Mano Brown, que lançou o “Boogie Naipe” em 2017, seu novo trabalho solo, desabafou que os tempos mudaram e tirou do repertório do Racionais MCs as músicas que fazem apologia ao machismo. Essa visão também foi alcançada por Criolo, que relançou em 2016 o disco “Ainda Há Tempo”, com alterações em algumas letras machistas e homofóbicas. Ponto para eles.

O público está de olhos bem abertos quando se refere a esse tema. O grande e intocável Chico Buarque, também lançou um disco em 2017 e foi alvo fortes críticas quando cantou ‘Tua Cantiga”, onde deixaria mulher e filhos por sua amante. É uma letra que vai de encontro à sororidade, mas que passa pela liberdade poética de se cantar uma história.

O fato, é que a tolerância machista está desabando, tanto que foi lançado pelo site Apoie a Cena, uma matéria com o título “Bandas Machistas Que Você Não Deve Ouvir”. Trata-se de relatos de mulheres que foram vítimas de boys bands. O machismo não precisa estar só nas letras. Ele direcionado é mais agressivo.

Em alta, a revolução feminista não pede licença. Ela invade os palcos, as playlists e com sua força conscientiza homens e mulheres. Denuncia violência, chama para a luta. E representa o atual momento de transição.

Então é Natal! E o que a Simone te fez?

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Tá chegando o Natal e com ele aquele ódio gratuito contra a cantora Simone e seu hit natalino. “25 de Dezembro” é um disco maravilhoso. Foi lançado em 1995, e eu, uma criança viciada em SBT (naquela época não tinha noção de realidade e não percebia o quão machista e escroto o Silvio Santos pode ser) ficava intrigado com um comercial que anunciava “faltam XX dias para 25 de Dezembro”. Só que pelas contas é quando seria 10 de Dezembro.

Achava aquilo meio louco. O comercial passava em todos os intervalos e se bobear eu nem dormi de ansiedade para saber o que significava essa palhaçada. Eis que chegou o dia e foi anunciado do que se tratava: o disco natalino da Simone.

As rádios tocavam exaustivamente “Então é Natal” e eu ficava bem emotivo. Sempre considerei, não sei exatamente o porquê, o Natal uma data triste. A música é uma versão em português de “Happy Xmas (War Is Over)” do beatle John Lennon, e também foi gravada por nomes como Maroon 5, Sérgio Reis, Padre Marcelo Rossi, Roupa Nova e Luan Santana.

Logo em seguida, comprei a fita K7 piratona (meu amor, eram tempos difíceis antes da internet facilitar a nossa vida) e fiquei apaixonado. É tão brega e tão lindo. Decorei todas aquelas músicas e por um bom tempo convivi com o espírito natalino. O disco fez tanto sucesso que vendeu cerca de 2 milhões de cópias na América Latina e suas vendas aumentam a cada final de ano.

Lembro bem da participação da Simone no programa da Hebe (que saudades, gracinha!) com o coral das Meninas Cantoras de Petrópolis. Todo mundo de branco, aquela coisa linda e tudo mais. Essa imagem sempre me vem na cabeça e lembro do quão impactado fiquei com isso.

Mas o que me levou a escrever esse texto é: esse disco fala de amor, respeito, solidariedade e afins. Só coisas boas e lindas. Reclamamos tanto das palhaçadas da nossa vida, e perdemos tempo criticando gratuitamente um trabalho que só quis levar o amor.

POR FAVOR, PAREM. Porque além de ser um ódio gratuito e desnecessário, é uma piada que já perdeu a graça. O mesmo serve para as piadas sobre a uva-passa e o pavê.

Um ode ao rock triste em tempos de pós-psicodelia

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Fotografia de @ciaospiriti

Vivemos na geração da pós-psicodelia, com muitas cores, brilhos, canções felizes e lisérgicas. Falamos muito sobre uma liberdade em tons de Woodstock, onde questões sociais são abordadas superficialmente para não estragar a boa onda, os conflitos internos se resolvem momentaneamente com um drink bacana e todos os problemas aparentemente se resolvem com um discurso alto astral. Encarar a própria humanidade fica cada vez mais impossível.

Em meio à composições que falam de uma realidade quase distópica e carregadas de uma positividade inalcançável, ainda existe quem canta tudo que ninguém quer ouvir, existe quem fala dos desconfortos e conflitos insuportáveis da existência. Essa ascendência de bandas com temática crua e realista, em paralelo à onda tropical e colorida, mostra que falar sobre tristeza é um ato de resistência, um grito de quem não aguenta mais uma realidade florida que não pertence.

Estamos sufocados na obrigatoriedade de sermos felizes o tempo todo, cercados de feeds simétricos com pessoas festivas em fotos descoladas, os eventos têm cada vez mais glitter e nem sempre isso representa nosso estado de espírito. Nos sentimos desconfortáveis ao falar sobre nossas angústias por medo de ser taxados de “onda negra” ou “pessoa tóxica”. No meio dessa demanda por perfeição, sentir tristeza, dor, ou qualquer tipo de sentimento negativo soa completamente errado, mas a realidade é que todos sentimos as piores angústias e, encará-las frente é a melhor forma de enfrentá-las, encarar com música, é parte de uma cura.

Na geração em que vivemos, existe tanta alusão à uma positividade utópica na música, que as vezes tenho dúvidas sobre o quanto as pessoas estão dispostas a escrever com profundidade, a encarar suas dificuldades de forma realista e se curar através do auto-conhecimento. Parece que todo mundo quer se anestesiar de maneira psicodélica em uma ilusão de realidade que não faz parte. Mas isso não é um problema, fugir do mundo real é necessário para sobreviver, mas em que ponto essa fuga virou uma constante?

Quando eu estava saindo da adolescência, conheci Violins. Estava me reconhecendo ideologicamente, com uma depressão que mal entendia e conflituosa com todas as minhas crenças pessoais, escutei o álbum Redenção dos Corpos” e chorei bastante, aquilo traduzia tudo que eu sentia e não conseguia expressar, todo meu sufoco ficou mais poético e menos insuportável. Eu lia as letras da banda por horas como se fosse um livro, isso me ajudou a entender que eu não era anormal, que se aqueles caras conseguiram transformar aqueles conflitos em algo tão bonito, eu também poderia.

Violins, em 2005

Para quem teve o punk como escola, falar de ódio, tristeza e decadência social não é novidade. O punk ensina como peneirar todo o “caos mental geral”, transformar a “rebeldia contida” em luta e fazer uma “canção para esquecer”.

Bandas gringas com ar de tristeza sempre foram mais populares, a MTV trouxe o shoegaze à tona no Brasil e o grunge explodiu nos anos 90, mas nem todo mundo tem o privilégio ser ser bilíngue. Nos anos 2000, o idioma morto, ou o bom português do Ludovic, trouxe composições mergulhadas em conflitos e melancolia, somado à essência do punk. Cada música do Ludovic é um expurgo. As letras de Jair Naves falam de uma forma tão crua sobre sentimentos e decadências que, nos ouvidos de quem não está acostumado a encarar as próprias fragilidades, pode soar incômodo. As performances ao vivo da banda são um momento de alívio para quem se sente deslocado em meio às demandas sociais de perfeição, muitos desses deslocados são os que, hoje, deram continuidade à toda essa chama depois de quase uma década da última ascensão do rock triste no Brasil.

Ludovic, em 2005

Bandas como Gorduratrans, Lupe de Lupe, El Toro Fuerte, Enema Noise e Raça trazem novamente essa temática na contramão da onda “good vibes” que assola a cena musical. Selos e coletivos como Geração Perdida e Bichano Records ajudaram a dar espaço e visibilidade para esses artistas que ainda são controversos para muitos.
Talvez, todo esse renascimento de bandas e músicos aparentemente “tristes” no Brasil, reflete que o superficial não fala mais por nós, que estamos cansados de esconder nosso lado mais obscuro por medo das reações sociais, que a trivialidade musical já não preenche. Não é porque somos o país do carnaval que precisamos estar sempre em festa e conformismo. Mergulhar a fundo e sem medo em composições que falam do ser humano com genuinidade, sem máscaras e sem glamour, pode significar uma nova etapa para a música brasileira.
Aos poucos, estamos aprendendo a lidar com nossos demônios de forma poética. Assumir as próprias fraquezas é resistir.

Fiz uma playlist para o Spotify do Crush Em Hi-Fi para embalar a melhor bad vibe possível, só com bandas nacionais do tal “rock triste”. Segue a playlist e o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify, pegue a sua bebida, cigarros, cartelas de remédios ou água com gás e dá o play.

Porque todo mundo vai correndo ouvir a obra de um artista que acaba de morrer?

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“Ah, agora todo mundo vai baixar toda a discografia!”

Você já deve ter ouvido uma bobagem dessas logo depois que algum músico morre. Os “sommeliers de luto” adoram ficar no pé de quem fica triste pela perda de um artista querido, e proclamam “ah, agora todo mundo vai virar fã”. Esses dias me peguei ouvindo Linkin Park com uma frequência que eu não ouvia desde 2004, mais ou menos, e notei que com certeza isso tinha relação com o triste suicídio de Chester Bennington. Foi aí que reparei que, sem perceber, aparentemente sempre faço isso. Ouvi Soundgarden e Audioslave em maio com a morte de Chris Cornell. Coloquei “Dois Na Bossa” no repeat quando Jair Rodrigues se foi. Voltei à adolescência e ouvi Charlie Brown Jr. com gosto quando Chorão e Champignon morreram. Mas porque será que a morte de um artista faz com que a gente às vezes sem querer vá revisitar a obra dele?

“Quando alguém morre tem uma força de mídia grande, isso ajuda bastante”, explica o psicoterapeuta da Claritas Clínica Pedro Del Picchia. “Fora que em casos assim tem uma memoria, uma saudade que bate e as pessoas querem lembrar. E quem não conhecia quer também fazer parte da onda do que tá acontecendo”.

Mas será isso algo meio inconsciente? Segundo o psicólogo, provavelmente não. “Acho que vamos atrás da obra do artista porque ele morreu, mas agora as coisas ganham um novo significado também. Mais final, mais definitivo”, conta. “‘I’ve become so numb’, por exemplo, fica mais forte ainda quando você pensa que ele tinha sim depressão e isso era um aviso. Não que com todos que morrem seja assim, pois nem todos são depressivos”.

Além disso, ouvir a obra (que agora estaria “completa”) de um artista que nos deixou é uma forma de “velório musical”, ou “luto auditivo”.

“Isso pode ter mais de um motivo”, diz o filósofo Matheus Queirozo, “Vejo por enquanto dois: sabe aquele ditado popular, ‘as pessoas são dão valor quando perdem?’Essa é uma verdade popular incontestável. Às vezes a gente tem amigos que a vida e tempo distanciaram, por conta dos afazeres e responsabilidades da vida mesmo, a gente mantém uma vez ou outra contato, pergunta como vai… Mas se tornou uma pessoa distante, um amigo que fez parte da nossa adolescência, que teve experiências boas com a gente, a cada dia que passa a gente mantém menos contato com ele. Certo dia esse cara falece, tu sabe disso, e ele se torna o teu melhor amigo. Só descobre depois que ele morreu”, conta. “O caso do Chorão, por exemplo: uma galera não ouvia tanto Charlie Brown quanto na adolescência, mas quando ele faleceu, por um mês só se ouvia Charlie Brown”.

Sérgio Buarque de Hollanda, o pai do Chico Buarque, tem um conceito interessante”, conta Queirozo. “Naquele livro dele, Raízes do Brasil, ele diz que o homem é cordial, diz que quando o português chegou nas terras tropicais, os índios receberam eles com a maior cordialidade. Isso me faz pensar num segundo motivo: a gente se compadece com a morte alheia, com a morte de astros que nem sabiam que a gente existe”. Aí o que acontece é que vamos atrás das músicas dos artistas falecidos para prestarmos uma homenagem, celebrar a vida dos que já se foram. “Um tributo breve, de criar até playlist e ficar uma semana ouvindo as músicas dele. Depois passa”, conclui.

“O terceiro motivo é aquela coisa de querer fazer parte da tribo, da massa, da galera”, diz. “Por exemplo, Michael Jackson. Quando ele faleceu, veio nego do inferno dizer que gostava e tal. Mas isso é uma necessidade que as pessoas têm de fazer parte de grupos, tribos. As pessoas têm uma necessidade de afirmar uma identidade, de pertencer a algo. Quando Michael Jackson faleceu, uma galera vendeu discos, uma galera comprou DVD, porque era o que todo mundo fazia e quem não fizesse a mesma coisa, seria o excluído do rolêzinho. Ninguém quer ser excluído do grupo”, conclui.

Concorda com alguma dessas teorias? Façam sentido para você ou não, todas são válidas. E como o Pato Fu já dizia na abertura de seu disco “Televisão de Cachorro”, a “necrofilia da arte” continuará existindo sempre que, infelizmente, algum artista nos deixar. A obra permanece viva eternamente e ela será visitada com muito gosto (e luto).

A necrofilia da arte
Tem adeptos em toda parte
A necrofilia da arte
Traz barato artigos de morte

Se o Lennon morreu, eu amo ele
Se o Marley se foi, eu me flagelo
Elvis não morreu, mas não vivo sem ele
Kurt Cobain se foi, e eu o venero

Francisco El Hombre e Cuatro Pesos de Propina se juntam para turnê pela América do Sul

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Francisco El Hombre - Foto: Rodrigo Gianesi

Quem conseguiu comprar ingressos para ver o show da Francisco el Hombre junto com a Cuatro Pesos de Propina nesta sexta-feira (21), no Sesc Belenzinho, vai ver uma big band com dezesseis músicos no palco, numa junção de ritmos latinos e punk rock. Esse encontro entre brasileiros e uruguaios será o primeiro da turnê “Rompe Frontera”, que vai passar por 18 cidades e três países em apenas 30 dias.

As bandas se conheceram de forma inusitada. Na época a Francisco El Hombre ainda era uma banda de estradeiros que faziam apresentações nas ruas da América Latina. Certo dia, em uma cidade do litoral uruguaio, a apresentação dos brasileiros teve que ser interrompida por uma razão não convencional. “Tivemos que parar de tocar por conta de um barulhão que vinha de uma quadra de futebol próxima dali. Corremos para lá e vimos um palco enorme, com cinco mil pessoas cantando e foi ali o nosso primeiro contato com eles”, conta Mateo Piracés- Ugarte, violonista da FEH.

Depois desse encontro inicial as duas bandas estreitaram relações e fizeram alguns trabalhos juntos. Sempre uma convidando a outra para tocar em seu país. Foi assim quando a Cuatro Pesos de Propina veio tocar em Porto Alegre e a FEH em Montevidéu. “Nossos públicos se casam. Nesses shows sempre rola uma energia incrível”, comenta Mateo.


(Cuatro Pesos de Propina – Foto: Yenifer Piaza)

Inicialmente, a impressão é que musicalmente as bandas não tenham muito a ver. A Francisco El Hombre faz um som mais gipsy-folk, enquanto os uruguaios têm uma pegada mais de ska e punk rock. Mas segunda Mateo, há similaridade nos discursos que ambas as bandas fazem. “Todos nós da Francisco somos da escola do hardcore e nossa proposta tem muito de transmissão de mensagem através da música e se você ouve o CPP percebe logo isso também em suas letras”.

Unir quase duas dezenas de pessoas em cima de um palco não é tarefa fácil. Os dois grupos há um tempo vêm se inteirando do repertório do outro, mas para o violonista da Francisco El Hombre a sintonia e a parte orgânica vem falando mais forte nos ensaios. “Está rolando tudo com o coração e com paciência. Trabalhar com banda é aprender a construir coisas juntos. As duas bandas se admiram e confiam muito uma na outra e isso está fazendo brotar coisas incríveis”.

Como registro dessa parceria a Francisco El Hombre e Cuatro Pesos de Propina lançaram esta semana um EP com o mesmo nome da turnê onde uma banda escolheu uma música da outra para fazer um cover. O resultado você confere nos vídeos abaixo.

Exclusivo: Meu Nome Não é Portugas lança single “Sob Custódia da Distância”

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Meu Nome Não É Portugas
foto: Kalaf Lopes

Rubens Adati é um dos nomes mais ativos desta nossa nova geração de músicos independentes, ele surgiu no cenário com sua banda de morph rock, a Vladvostock, e em pouco tempo foi tocar ao lado de nomes importantes do independente/alternativo, dentre eles Ale Sater e Giovani Cidreira. Além disso, desempenha um trabalho muito interessante no Inhamestúdio, por lá ele despontou o projeto “Inhame Sessions” e já gravou com Felipe Neiva, Papisa, Ventre e muitos outros.

Meu Nome Não é Portugas é o nome de seu projeto solo, o primeiro lançamento deste trabalho saiu (timidamente) em fevereiro. “e n d o p a s s o s” (Banana Records) é um registro completamente DIY, o músico toma a frente da produção, mixagem e masterização, de quebra ainda toca todos os instrumentos.

Passados cinco meses, Meu Nome Não é Portugas retorna para anunciar o lançamento de seu primeiro disco cheio, “Sob Custódia da Distância”. Como gostinho do que está por vir, Rubens Adati apresenta uma canção inédita, a faixa, que da nome ao disco, ganhou um videoclipe cheio de texturas, elas conversam com a densidade sonora dessa canção instrumental e dão o tom do trabalho que está por vir.

Assista ao videoclipe de “Sob Custódia da Distância”:

Meu Nome Não é Portugas ganhou também uma formação para apresentações ao vivo. Acompanhado de Max Huzsar (Dr. Carneiro), Zelino Lanfranchi (ex-Parati e Cabana Café), e Rafael Carozzi (Kid Foguete, Readymades). Rubens promete um show repleto de nuances, dinâmicas e profundidade.

A primeira apresentação acontece hoje no Breve, ao lado da banda carioca Morena Morena.

Serviço:
Data: Sexta-feira (21/07);
Local: Breve, Rua Clélia 470, Pompéia;
Entrada: 15 reais;
Horário: 19h.
Evento: https://www.facebook.com/events/806565622857865/

O Crush em Hi-Fi agora também está no Youtube!

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Hoje em dia, estar no Youtube é quase questão de sobrevivência para quem cria conteúdo, não é verdade? Afinal, poucos têm paciência de ler um texto, artigo ou mesmo um parágrafo, e a TV anda tão ruim que até as piores fases da Mtv Brasil nos dão uma saudade danada.

Pois bem, então o Crush em Hi-Fi agora também está no Youtube, com conteúdo exclusivo falando daquilo que sempre falamos: Música! Inscreva-se, curta, compartilhe, comente, sugira novos vídeos… Estamos esperando por vocês!

Confira a estreia do canal, com o Listorama: