List-O-Mania #4 – As 4 canções mais dramáticas da carreira solo de Morrissey

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List-O-Mania, por Daniel Feltrin

Está para acontecer. Depois de muita especulação e cancelamentos haverá mais uma rodada de show do Morrissey no Brasil. O cantor de Manchester chega ao Brasil aos 56 anos com uma carreira consolidada tanto na sua ex-banda, os Smiths, como em sua carreira solo e canta hoje e sábado em São Paulo, na próxima quarta no Rio e em Brasília dois dias depois. Cantando melodias inteligentes com sua voz de barítono, aliadas a danças frenéticas recheadas de trejeitos, além do famigerado humor inglês tão mordaz quanto direto, Moz é conhecido pelas letras dramáticas, supostamente autobiográficas.

Da época dos Smiths temos maravilhas como “Bigmouth Strikes Again”, sobre alguém que fala demais e acaba sempre pagando por isso culminando no sentimento melodramático de saber “como Joana D’Arc se sentiu quando as chamas subiram até seu nariz romano e seu walk-man começou a derreter”; ou a deliciosa “Stop Me If You Think That You Heard This One Before”, em que o eu-lírico de Moz diz que “nada mudou, ainda te amo, apenas um pouco, só um pouquinho menos do que eu costumava, meu amor…”.

Em sua carreira solo Morrissey também não perdoa e temos músicas como “Irish Blood, English Heart” que invoca a tradição rebelde irlandesa e toda verve antimonárquica de Moz tão bem conhecida desde os tempos de “The Queen is Dead”. Porém, uma das coisas que mais me chama a atenção na carreira solo do ex-Smiths é a dramaticidade progressiva dos nomes de seus discos: “Bona Drag”, “Your Arsenal”, “Ringleader of the Tormentors” e “Year of Refusal”, etc. que parecem reafirmar que ele só melhora com a idade.

É interessante pensar que apesar de a letra de “Suedehead” gritar a plenos pulmões “I’m so sorry”, Moz não parece querer diminuir a dramaticidade charmosa de suas canções que produz refrões deliciosos. Para a gente se preparar para os shows, aqui vão 4 delas:

  • “The First Of The Gang To Die”. Essa é a história de Hector, provavelmente um marginal das ruas que foi o primeiro da turma do jovem Morrisey a ser preso, a ter uma arma e a morrer tragicamente. O narrador o trata como um herói, que roubou o coração de todos com seu estilo de Robin Hood blasé. Hector tbm é Heitor o primogênito de Troia morto por Aquiles antes dos Gregos (a cultura dominante) destruírem Troia (a cultura assimilada). Como num filme da nouvelle vague misturada às tradições de narrativas orais irlandesas, Moz canta sobre a vida de Hector sobre o ritmo de uma batida envolvente em que aborda os temas comuns de sua obra em que discute a paixão inevitável por figuras carismáticas e cinematográficas e sua mordaz crítica de quem conhece na pele os estratos da sociedade inglesa. Vindo de uma cidade como Manchester, industrial e com suas camadas sociais impostas pelo status quo britânico tão certo de si mesmo que chega a ser opressor só pela polidez, Morrissey conhece os tipos e os “marginais” heroicos tão tradição romântica da qual bebe fundo. Em sua Autobiografia (que dramaticamente exigiu que fosse publicada pela Penguin Classics, divisão da famosa editora que apenas publica autores mortos como seu “beloved Wilde“) o cantor relembra com a dramaticidade necessária as ruas e as pessoas dessa cidade tão emblemática.

  • “Alma Matters”. Morrissey é o rei do duplo sentido. Típico da poesia inglesa o simbolismo é muito importante para Moz, sempre dono de uma sexualidade polemicamente não definida. A sexualidade e o amor, o corpo e o espírito são o tema de Alma Matters. Ironicamente brincando com o academicismo que Alma Mater sugere (além das milhões de associações freudianas possíveis), Moz bate na hiporcrisia puritana da sociedade que o define como algum tipo de estereótipo sexual desde que apareceu no cenário musical desfilando canções tão enigmáticas sobre a sua sexualidade quanto sinceras ao expressar que de fato, isso não importa. A letra enfatiza a importância do espírito e inexorável inseparabilidade deste com o corpo. De forma elegante, Moz é direto no verso dizendo que a vida que escolheu é apenas dele para arruinar da forma que quiser, até porque “para alguém, em algum lugar” a “alma matters (alma importa)” na mente, no corpo e na alma “in part and in whole (na parte e no todo)” deliciosamente metaforizando ena própria estrutura e dinâmica letra/música da canção o conceito de forma e conteúdo. E é claro que o fato de a palavra whole ser homófona de hole não é mera coincidência.

  • “You Have Killed Me”. Que Morrissey ama cinema europeu do século XX não é segredo para ninguém, mas nesta canção ele atinge o ápice da dramaticidade. Com refrão grudento e um riff inteligente que lembra as melhores canções de britpop, You have killed me fala sobre um relacionamento desigual entre as partes. Na letra, Morrissey compara filmes italianos e seus personagens para definir os envolvidos. Na primeira estrofe ele se autoproclama Pasolini e nomeia o interlocutor de Acattone, o primeiro filme do diretor italiano e a sua transição da literatura para o cinema, talvez sugerindo uma experiência amorosa inédita ou um primeiro amor. O cunho sexual, mas também espiritual (não podemos abandonar os duplos sentidos de que falamos na canção anterior) é enfatizado no verso “Eu não entrei em nada, e nada entrou em mim, até que você veio com a chave” assim como a sugestão de uma primeira experiência da qual a pessoa envolvida não é ou não fez o suficiente e, apesar de ter “feito seu melhor”. Assim como garante o refrão contagiante,  essa pessoa deixou Moz tão mal que a sensação é de ter morrido em vida a tal ponto de ele se ver representado na Piazza Cavour perguntando a si mesmo de que serve sua vida, o que talvez uma referência ao filme La Luna de Bertolucci cujo protagonista, um jovem filho de mãe solteira busca suas raízes numa figura paternal, e uma das cenas de estranhamento se passa num cinema desta praça em Roma. No entanto, a segunda estrofe é a que acho mais interessante. Nela Morrissey se compara a Visconti, porém a seu interlocutor é recusado o papel de Anna Magnani, a esposa do diretor que tanto representou o papel da mulher comum que sempre se sacrifica pela família, algo tão presente em culturas católicas. Essa estrofe me faz pensar que Morrissey está se referindo a relacionamentos entre pessoas de modo geral suas primeiras experiências e os traumas provenientes destas que nos “matam” pouco a pouco e não há nada a se fazer a não ser filmes italianos ou canções dramáticas, ou como o próprio protagonista diz: “Não tem sentido em dizer isso de novo, mas eu lhe perdoo, sempre lhe perdoo.”

  • “Everyday is like Sunday”. Essa balada é uma das mais conhecidas de Moz. É impossível não cantar o refrão a plenos pulmões. Fala sobre o tédio engatilhado por um domingo qualquer numa cidade de interior cheia de história como as pessoas que vagam sobre ela, mesmo que estas não signifiquem nada, apenas lembranças, afinal como diz o narrador a cidade “se esqueceu de fechar” e morrer, assim como quem canta essa canção. A depressão que causa o tédio e a ansiedade em Morrissey não é menos dramática no seu pedido pré-refrão: “Venha Armaggedon” canta o narrador, como se implorasse por algo mais significativo que um simples domingo que quando menos se espera se torna todo dia. Parece uma balada comum, mas a dramaticidade se torna tão imensa se pensarmos que é tão real para tanta gente. Morrissey é simples e direto da forma que só ele sabe ser, sem precisar de grandes referências ou truques como nas canções acima, deixa na boca um gosto melancólico de – para usar uma linguagem internética, tentando (e falhando) uma ironia Morisseyana – #dramasreais.

List-O-Mania #3 – 5 Canções sobre fases da vida

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List-O-Mania, por Daniel Feltrin

Acho que todos que leem este site cresceram ouvindo músicas. Eu posso dizer que, se não fossem certas músicas e certas bandas, não sei como teria aguentado certos momentos da vida. No post de hoje escolhi cinco canções que citam em algum momento alguma idade da vida, desde a adolescência até a “maturidade”. Coloquei maturidade entre aspas, pois esse é um termo polêmico que nesse post vêm com a idade simbólica de 33, cobrindo assim a faixa etária de 20 anos. Usei – como não poderia deixar de ser – um ponto de vista pessoal e as canções não tem relação entre si a não ser pela ordem cronológica.

Won’t you let me walk you home from school – Thirteen do Big Star é uma das canções mais bonitas de todos os tempos. Como uma bela balada poderosa ela abusa dos violões dedilhados e do vocal melódico e atormentado de Alex Chilton. Na versão que pus aqui a dramaticidade corre solta na voz do Elliot Smith. O sentimento é da nostalgia gostosa do tédio ansioso da adolescência. O primeiro amor, a primeira rebeldia, a primeira canção.

Is it because I lied when I was 17? – Why Does It Always Rain on Me não é só mais uma balada sensacional do Travis. O grupo escocês que desfila petardos pop pela carreira tem nessa canção seu melhor exemplo. Reflexiva, a canção faz um olhar retroativo para a vida. Penso nela hoje, aos 30 e a tenho ouvido mais do que ouvi há mais de 15 anos quando foi lançada. É o tipo de canção que a gente entende quando a idade e as porradas da vida vem e vão embora, deixando marcas.

Nobody likes you when you’re 23 – Se a canção anterior fala de uma idade do ponto de vista de alguém mais velho, essa canção do Blink 182 me lembra de um tempo em que ouvir esse tipo de canção descompromissada fazia sentido. What’s My Age Again é um questionamento bom quando a gente se sente o rei do mundo, mas no fim não sabe nem onde está. E no fim aos aos 23 ninguém gosta mesmo de você, a segunda adolescência dos vinte anos começou e você ainda não fez nada da sua vida a não ser requentar velhas canções.

You know I dreamed about you for 29 years before I saw you – Slow Show é uma das canções mais fantásticas do The National. O retorno de Saturno chega a todos e essa é a idade que a gente pensa que tudo que vivemos até agora vai passar. A canção tétrica e grave que fala sobre ansiedade e o conforto de ter alguém pra quem possa se fazer um show particular de amor, mesmo que esse show cause pânico. Mas de repente, assim como navida, tem uma mudança brusca de ritmo e termina com essa frase melódica mais serena e “madura” ao piano. Pessoalmente conheci alguém com quem sonhara depois de 29 anos de vida, mas gosto de pensar hoje nessa canção como uma reflexão sobre mim mesmo.

So I turn my colar up and face the cold – Thirty-three do Smashing Pumpkins acabou de completar 20 anos. A mesma distância etária que propus para este post, mas acreditem! não foi planejado, mesmo que tenha sido ela que me deu a ideai para o tema de hoje. Essa é uma canção que ultimamente vem me intrigando. Os 33 são estão perto, dia 21 faço 31 e esta talvez seja a última canção simbólica que quero cantar em um aniversário, depois não sei mais. É um mundo novo o da “maturidade” e é disso que a canção fala. 33 é uma idade simbólica. É a idade que Cristo morreu. Simboliza a morte e o renascimento em algo mais durador e eterno. Não é à toa que Tolkien usou essa idade para denotar que os seus hobbits se tornavam adultos. O Hobbit foi a inspiração de Billy Corgan, mas a canção também fala sobre o amanhã, o futuro e enfrentar o frio, sozinho. Mas não de uma forma pejorativa, mas como senhor de si mesmo e sem medo. O amanhã é apenas uma desculpa. Aos 33, então!

List-O-Mania #2 – 5 projetos paralelos de membros de bandas indies que você deveria conhecer

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Divine Fits

List-O-Mania, por Daniel Feltrin

Este mês teve show do Spoon e toda vez que eu encontro alguém que gosta desses texanos eu pergunto se já ouviu o projeto paralelo do Brit Daniels, o Divine Fits. Muitos nunca ouviram e eu me pego empolgado mostrando as canções rasgadas e dançantes dessa banda que lançou um disco pela Merge há três anos. Isso me inspirou a fazer o post de hoje da List-o-Mania.

  • Divine Fits é um projeto do Brit Daniels com o Dan Boeckner, que toca tanto na fantástica Wolf Parade quanto no duo lindo Handsome Furs. Do disco lançado em 2012 com uma pegada mais dançante do que as bandas principais dos seus integrantes (que, na minha opinião, influenciou o último disco do Spoon, o ótimo They Want My Soul) destaco aqui a catchy “Flaggin’ a Ride”.

  • Broken Bells: falando de pegadas mais dançantes, esse projeto do vocalista do The Shins, James Mercer junto com músico Danger Mouse traz uma atmosfera mais madura do cantor num dream pop bem original. A canção “Holding On For Life” é um exemplo do lirismo maduro de Mercer.

  • EL VY: enquanto o National não lança um disco novo, o vocalista Matt Berninger deixou o cabelo crescer e se uniu ao músico Brent Knopf (Ramona Falls) pra esse projeto que lança um disco no dia 30. No entanto, do que podemos ouvir do single “I’m The Man To Be” é a mesma verve irônica de Berninger numa roupagem mais acelerada, com o vocal mais agudo, acentuando o delicioso cinismo de suas letras.

  • O Silver Jews na verdade se formou mais ou menos ao mesmo tempo que o Pavement, banda bem mais conhecida das quais os membros Stephen Malkmus e Bob Nastanovich fazem parte, com uma pegada bem mais influenciada pela música country americana que se vê em algumas canções do Pavement (a mais conhecida sendo “Range Life”). O membro permanente da banda é David Berman que permaneceu até o fim em 2009, porém, Bob postou uma foto esse ano afirmando que a banda voltou a tocar. “Random Rules” é do disco de 98, “American Water”.

  • O Admiral Radley, como diz uma amiga minha, é o megazord das bandas indie. Na verdade é só metade do Grandaddy com metade do Earlimart, mas eu gostei muito da piada pra citar. A banda mantém o melhor das duas bandas e produziu um disco maravilhoso em 2010 chamado “I Heart California” cuja canção título está aqui para exemplificar.

List-o-Mania #1 – 5 Canções Geniais Do The National Que Nem Tanta Gente Conhece

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The National

List-O-Mania, por Daniel Feltrin

O The National é uma banda de hits. Os músicos de Cincinatti no estado americano de Ohio já tiveram até uma de suas canções veiculada non stop numa das campanhas presidenciais de Barack Obama e com quase 15 anos de estrada a banda já lançou seis discos de estúdio e dois EPs que contém entre eles alguns dos grandes hinos do indie rock dos anos 2000 como “All the Wine”, “Apartment Story”, “Mistaken for Strangers”, “Bloodbuzz Ohio”,” Conversation 16″, “Graceless”, entre outros. Mas nos últimos tempos a maturidade tem feito que a banda, que lançou seu primeiro disco quando todos os integrantes já tinham trinta anos de idade ou mais, alçar voos mais ousados ao mesmo tempo em que cresce em popularidade.

Enquanto se estabelece como um nome clássico do rock americano, o The National provoca frisson com seu status de art rock levado ao limite, como na exposição do artista islandês Ragnar KjartanssonA Lot of Sorrow, que buscou inspiração na canção do aclamado disco High Violet de 2010 e mostrava uma instalação no museu de arte moderna novaiorquino MoMA onde a banda tocou “Sorrow” durante seis horas seguidas.

Eles transitam entre o sucesso comercial e crítico justamente por que são uma banda que encorporam todos os elementos que as duas vertentes buscam. Assim como nas letras dos Smiths (eu tenho a teoria de que o National é um Smiths hetero) as do National se apoiam numa superexposição com efeitos catárticos em quem ouve, suportada por batidas desajeitadas e eletrizantes, e rodeadas por arranjos obscuros e contagiantes dos vários instrumentos que a banda experimenta em sua música. A voz de barítono de Matt Berninger, assim como a de seu ídolo Morrissey, vem abrilhantar com um melodrama certeiro as agruras e o tédio de uma classe média educada demais, politizada demais e autoconsciente demais.

Essa combinação de elementos empolga ao ponto de atingirem o coração de uma maioria ao mesmo tempo em que escondem pérolas excêntricas, mas não menos geniais, em sua discografia. Selecionei cinco dessas pérolas para discutir aqui, algumas até um tanto conhecidas, figurando em muitos shows da banda, e outras nem tanto, todas de discos de estúdio e nenhuma de b-side obscuro, apenas canções que você pode não ter percebido muito bem:


1) Humiliation. A décima primeira canção do disco mais longo da banda (“Trouble Will Find Me”, de 2013) é uma pérola escondida entre canções que empolgam mais de cara como “I Need My Girl”, “Don’t Swallow the Cap”  e “Graceless”, mas até que tem figurado nos últimos shows da banda. Pontuada por uma batida quase matemática, a canção vai recebendo os elementos que a compõe aos poucos, primeiro com os acordes em pedal dos efeitos de teclado, depois com o baixo que lhe concede mais peso e as “raspadinhas” em palm mute da guitarra que também desfere alguns licks johnnymarrianos abrindo terreno para o hammond tomar conta da sonoridade ao final, enquanto a melodia cantada vai perdendo sua característica redundante pra dar lugar ao coro da letra que define a perfeita dialética de forma e conteúdo do tema da canção.

Under the whithering white skies of humiliation é a letra que fecha o refrão da canção como um estatuto de uma tese. O desconforto de quem sobrevive a jantares (“I survived the dinner”, verso que abre a canção) e que se morresse nesse instante provavelmente só figuraria uma lista (“If I die this instant / Taken from a distance / They would probably list it down / Among other things ’round town”) é a catarse da ameaça branca (the white menace, mais conhecido como tédio), bem representada no coro com a letra “She wore blue velvet / Said she can’t help it.

2) Lemonworld. É difícil encontrar uma música não tão conhecida no “High Violet”. O disco arrebatou a banda para outras paradas de sucesso, mas talvez sua sétima canção seja aquela daquele disco famoso que você ouve sempre, mas nunca lembra o nome. Para mim, é uma das favoritas do disco com sua introdução de levada de violão com harmônicos de guitarra dando a entender um hit pop, mas cuja melodia cantada apenas reproduz o tédio da vida comum (assim como em humiliation acima).

“Losing my breath, dododododo” é refrão da canção que encena uma autoanálise sobre os sentimentos de alguém que está cansado ou entediado demais prum encontro de família (“you and your sister live in a lemonworld / I wanna sit here and die”). O tema é corriqueiro e banal, mas a catarse do dododododo é carregada de ironia e efetividade.

3) Thirsty. É talvez uma das canções mais bonitas e clássicas do The National. Possivelmente muito executada nos primórdios da banda, já que faz parte de seu segundo disco (“Sad Songs for Dirty Lovers” de 2003), é uma canção country que ainda tem muito do formato canção que a banda se valeu muito no primeiro disco e que foi abandonando pelos discos, apostando nas músicas que terminam abruptamente geniais como um episódio de Sopranos. Thirsty tem uma melodia acompanhada por um clássico dedilhado de guitarra apoiado por uma batida sincopada de bumbo e vassourinha na caixa. Culmina na repetição até o fim do verso mais importante da canção.

I don’t have a hawk in my heart, no dumbass dove in my dumbass brain. Não possuo um falcão em meu coração nem um pombo estúpido no meu cérebro estúpido. A letra não importa tanto, já que nem é tão longa assim (talvez quem sabe os versos em que Matt diz ter percebido que não é uma princesa?), mas a repetição desse verso enfatiza a vontade não atendida de alguém que está “sedento” nem que seja por um refrão que se repita ad nauseam. A náusea aqui reproduz o moto perpetuo das canções tristes para amantes sujos que o disco sugere. A imperfeição, a sede, a vontade de tudo.

4) City Middle. Para mim essa é a canção mais representativa do tema muito abordado no disco “Alligator”  de 2005. É uma balada no melhor estilo The National, pequenas progressões dedilhadas de guitarra e uma melodia circular de canção popular culminando num coro sem letra, tudo cantado numa oitava mais baixa, causando a estranheza e, no caso, enfatizando a ansiedade do narrador.

I think I’m like Tennessee Williams, I wait for the click, I wait, but it doesn’t kick in. O que eu acho curioso nessa letra é como a ansiedade é transfigurada na repetição dos versos que citam cidades e carros e urbanidade. No verso apontado, Matt cita o dramaturgo americano Tennesee Williams conhecido pela peça de 47 A Streetcar Named Desire (Um Bonde Chamado Desejo) que foi adaptada para o cinema em 51 pelo excelente diretor Elia Kazan, com Marilyn Monroe e Marlon Brando, e cuja temática é justamente o desconforto suburbano das relações sociais. Na verdade, a citação lembra outra peça de Williams, a Cat on a Hot Tin Roof (Gata em Teto de Zinco Quente) que também virou filme, onde um personagem sempre espera pelo “click”. A ansiedade do narrador parece ser aplacada em lugares onde tudo é “common versus common” como nas lembraças esquisitas que tem da Karen, sua interlocutora, onde ela parece mijar numa pia. O prosaico sugerido na ansiedade disso tudo é o que torna a melodia genial dessa canção.

5) Guest Room. Essa canção do quarto disco da banda (“Boxer”, de 2007) repete alguns versos do disco, técnica que parece pontuar a obra prima da banda e caracterizar a intertextualidade entre suas canções. A canção é, como grande parte do disco, bem melodiosa e fácil de cantar e, mais uma vez, Matt usa de sua voz de barítono pra ironizar com melodrama a futilidade do desconforto do conforto, dessa vez problematizado pela temática de “Boxer” que é a passagem do tempo e a depressão causada pela frustração mais do que premeditada da luta contra ele.

We miss being ruffians / going wild and bright In the corners of front yards / getting in and out of cars / We miss being deviants.” o termo rufiões, que será utilizado em “Racing Like a Pro” mais tarde no disco é o que Matt escolheu pra definir com ironia aquilo que define uma massa de pessoas encalacradas no próprio conforto de um status bem sucedido e entediado da vida. Da perspectiva de um homem branco de classe média, all buttoned up como o próprio Matt define, o movimento de ironizar a futilidade dessa vida (pós) moderna é um mea culpa cínico e desesperado. Nesse ponto, as letras do National são extremamente Baudelairianas. O frugal da vida (pós) moderna em situações ridículas super expostas como o próprio Matt diz no verso desta canção: “They’ll find us here / here in the guest room / where we’ll throw money at each other and cry, oh my” são de fato o Guest Room para essa catarse estranhamente deliciosa.