A construção de “Sure Shot” (1994), dos Beastie Boys

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Beastie Boys

O Beastie Boys nasceu no Brooklyn, em 1981, como uma banda punk hardcore, e entrou pra história como uma das maiores bandas de hip-hop do planeta. Ela se consagrou com Mike D, Ad-Rock e MCA, este último falecido em 2012, vítima de complicações decorrentes de um câncer. Esse também foi o ano em que o fim da banda foi decretado, e que seus membros foram induzidos ao Rock and Roll Hall of Fame, sendo o terceiro grupo de hip-hop a receber tal honra, após Run-DMC e Grandmaster Flash.

“Ill Communication”, lançado em 1994, foi o segundo disco da banda a alcançar o primeiro lugar na parada americana da Billboard, e já começava com uma grande música, “Sure Shot”. Com uma letra quilométrica, que cita desde coisas do cotidiano, apoio às mulheres, a uma declaração de amor ao vinil, a música é composta de 6 samples, e conheceremos alguns deles agora.

O primeiro sample é “Howling for Judi”, do flautista de jazz nova iorquino Jeremy Steig, lançada em 1970. Ele começa nos 20 primeiros segundos do vídeo e é, curiosamente, também a base da música de Steig. Durante seus 4 minutos e 38 segundos, a faixa vai repetindo as mesmas notas, que recebem uma camada extra de flautas virtuosas.

O sample de bateria é um trecho curtíssimo da música “ESG”, do UFO. Tida como uma das mais influentes bandas de rock de todos os tempos, os ingleses permanecem na ativa. A faixa original foi produzida por Martin Hannett, conhecido como o criador do som de Manchester, e também é um dos principais nomes por trás do lendário Joy Division.

Outro sample que compõe a faixa, mas que aparentemente não está disponível para o Brasil em plataforma alguma, é do disco “The Funny Sides”, da comediante Jackie “Moms” Mabley. Na música a citação aparece em um scratch aos 1:48. Moms nasceu na Carolina do Norte em 1894, ou seja, 100 anos antes do lançamento da música dos Beastie Boys.

Vale a pena citar também “Rock the House”, do Run-DMC. Ela aparece na última parte de “Sure Shot”, iniciando aos 2:58. O trio iniciou suas atividades também em 1981, e entrou para o estrelato pop ao ajudar o Aerosmith a voltar para os holofotes em 1985, quando resolveram adicionar uma nova batida a “Walk This Way”, lançada originalmente em 1975. A mistureba deu tão certo que levou o Run-DMC ao quinto lugar do Billboard Hot 100, um feito inédito pra um grupo de hip-hop.

O resultado de “Sure Shot” você confere no vídeo abaixo.

“Good Times” virou “Rapper’s Delight” e se transformou em “2345Meia78”, “Aserejé” e “Ragatanga”

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O Chic é uma das bandas mais importantes da era disco. Criada pelo super guitarrista Nile Rogers e pelo baixista Bernard Edwards em 1975, o grupo criou vários hinos como “Le Freak” e “Good Times”. No ano de 1979, o trio Sugarhill Gang resolveu usar “Good Times” como base para “Rapper’s Delight”, com um detalhe interessante: ambas as músicas foram lançadas em 1979. A música também virou um hit, chamando a atenção de Rogers e Edwards, que entraram com um processo judicial e ganharam a co-autoria da música.

Com uma letra gigante, que poderia servir inclusive como capítulo de um livro, e 14 minutos na versão original, “Rapper’s Delight” foi um sucesso tão grande que continuou servindo como base para muitas músicas, sendo sampleada por artistas como Gabriel o Pensador, em 2345Meia78″, e virando base para uma língua inventada em 2002 pelo trio de irmãs Las Ketchup em “Aserejé”, também conhecida como “The Ketchup Song”.

A letra de “Aserejé” é muito bem humorada, e conta a história de Diego, uma pessoa nascida na Espanha, que não sabe nada de inglês, tipo a Sol do BBB, esperando sua música preferida na balada. No refrão das Ketchup, o rapaz cantarola “Aserejé, ja deje dejebe tude jebere / Sebiunouba majabi an de bugui an de buididipí” ao invés de “I said a hip hop / Hippie to the hippie / The hip, hip a hop, and you don’t stop, a rock it out / Bubba to the bang bang boogie, boobie to the boogie / To the rhythm of the boogie the beat.” Quem nunca?

No Brasil, a música ganhou uma versão “em portunhol” feita em conjunto com as meninas do Rouge, com o nome de “Ragatanga”, e também foi sucesso absoluto. Essa versão ajudou inclusive a impulsionar as vendas das Ketchup!

Construindo Fu_k the Zeitgeist: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Construindo F_ck the Zeitgeist

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o F_ck the Zeitgeist, de Porto Alegre. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Tobacco“Gods in Heat”
Eu conheci o trabalho do Tom Fec/Black Moth Super Rainbow pelo fantástico podcast “Song Exploder”, justamente dissecando esta faixa. Foi um daqueles sons que mudou meu jeito de produzir. Eu já vidrado em K7/lo-fi, mas aí eu chutei o balde de vez, comprei um Tascam Portastudio e comecei a usar direto nas minhas faixas.

Nine Inch Nails“The Hand That Feeds”
Quando se fala em Nine Inch Nails, geralmente se celebra a fase mais antiga em torno ali do “Downward Spiral”. Curto muito, mas confesso que tenho uma atração forte pelo NIN mais recente, mais eletrônico. Essa faixa me pegou de jeito desde a primeira vez que ouvi. Sempre acabo voltando nela.

Autolux“Soft Scene”
Eu já era super fã da banda desde os outros dois albuns, mas este terceiro acima de tudo me apresentou o trabalho do Boots como produtor. É um cara que venho seguindo a carreira de perto desde então, muito inspirador. Essa foi a primeira faixa que ouvi do “Pussy’s Dead” e nunca mais me saiu da cabeça.

Peter Gabriel“Darkness”
Sendo “do contra” mais uma vez meu album preferido do mestre é o “Up”, o último album de estúdio valendo dele. Essa faixa de abertura acho avassaladora. Mexeu bastante comigo e me abriu a cabeça pro uso de samples estratégicos na minha música.

Silverchair“Across the Night”
O Silverchair “grunge” dos primeiros discos nunca me atraiu, mas quando ouvi o “Diorama” levei uma voadora. Arranjos de cordas de Van Dyke Parks + produção do David Bottrill também não fazem mal algum. Ouvi um podcast com David recentemente onde ele comentou que o Daniel nem sabia tocar piano quando fez este álbum, aprendeu na raça. Abrir um álbum com um épico destes é o sonho de qualquer artista (o meu ao menos).

North Atlantic Oscillation“Drawing Maps From Memory”
Eu já não nutro mais aquela ansiedade da juventude sobre novos discos, mas esta banda foi uma das últimas que eu pré-comprei o primeiro album e esperei babando a chegada tendo ouvindo apenas uma faixa (“Drawing Maps From Memory”). Quando o  CD (“Grappling Hooks”) chegou, viciei instaneamente e eventualmente acabei fazendo até remixes pros caras. O baterista deles até participa numa faixa do meu próximo album.

Genesis“Entangled”
Muita gente me olha torto quando eu digo que minha fase favorita do Genesis é 1975-1980 quando o Phil Collins assume os vocais. “A Trick of the Tail” é um disco maravilhoso e o mellotron de coro do Tony Banks no final dessa faixa é fácil das coisas mais lindas já gravadas. 

Refused“New Noise”
Punk rock é um tipo de som que eu nunca consegui me interessar muito. Mas esta banda é uma bela exceção. “A Shape of Punk to Come” é um album que eu descobri na base da curiosidade. Ele estava destacado no site All Music um determinado dia que eu tive a sorte de passar por lá. Eu resolvi procurar algo na web e tomei um nocaute que ainda não me recuperei. Escolhi essa faixa porque foi a primeira que ouvi. Amo este album de ponta a ponta. 

Som Imaginário“Armina”
Quando faço uma lista de músicas assim sempre tem um camarada pra dizer: “E as bandas brasileiras, cadê?”. Então aqui vai uma faixa do meu disco brazuca predileto de todos os tempos, “A Matança do Porco”. Um sonho: remixar esse disco para um relançamento.

I Mother Earth“Meat Dreams”
Essa é a banda obscura que eu mostro pra todo mundo esperando que todos amem o tanto quanto eu e ninguém liga a mínima. Ele foi produzido/mixado pelo gigante David Bottrill mais ou menos na época que ele também fez o “Lateralus” do Tool. Pra mim é um encontro de Tool com Jane’s Addiction e não tem um milésimo de segundo deste album que eu não adore. Esta faixa é o “épico prog” do disco.

Radiohead“The National Anthem”
Quando eu era bem jovem eu tinha um gosto musical bastante diferente e detestava Radiohead. Felizmente eu amadureci e rapidamente se tornou uma das minhas bandas prediletas. Essa faixa foi uma das primeiras a me fazer mudar de ideia.

King Crimson“Indiscipline”
Eu confesso que as letras das músicas são o último elemento que eu levo em consideração. Mas como o King Crimson é uma banda que acho todos os discos bons (desde 69 nenhuma bola fora!), vou trazer essa faixa que tem minha letra favorita de todos os tempos. Vale muito procurar a história por trás dela! 

St. Vincent“Black Rainbow”
Annie Clark é amor a primeira ouvida, né? Que artista extraordinária! “Black Rainbow” é outra, que assim como “Entangled”, tem uma seção final avassaladora. Uso este aspecto então pra me ajudar a escolher uma faixa apenas num cânone tão rico.

David Bowie“Subterraneans”

Eu me tornei fã do camaleão do jeito mais “errado” possível. Eu vivia meio alheio ao trabalho dele até que um grande amigo e colaborador me sugeriu assistir “O Homem Que Caiu na Terra”, filme que imediatamente se tornou um dos meus favoritos. Pesquisando sobre a obra, descobri que David compusera faixas para a trilha e elas acabaram não sendo usadas. Só que parte do material acabou reciclado no “Low” e aí tava feito o estrago.

Frank Zappa“Florentine Pogen”
Escolher uma do mestre é barra, mas “Florentine Pogen” é uma daquelas que contém tudo que eu adoro na obra dele. Tem um tema lindaço, tem humor, tem vocais destruidores, quebradeira e locuragem. Minha formação favorita dos Mothers e meu disco predileto, o “One Size Fits All”.

Steven Wilson“The Raven That Refused to Sing”
Steven Wilson foi meu “guru” por muitos anos, o cara que me direcionou nesta carreira de artista/produtor/multintrumentista. O meu trabalho favorito dele é o album “Grace For Drowning” de 2011, mas esta faixa pra mim é a mais incrível composição de toda a carreira dele (incluindo o Porcupine Tree).

Chrisma“Sharon Tate”
Esta composição do meu amado Diego Medina neste duo brilhante com o Michel Vontobel é minha composição brasileira favorita dos últimos 30 anos (talvez mais). Não vou nem falar do clipe genial.  Agora que temos uma nova banda juntos, estou na torcida por fazermos uma versão ao vivo desta pepita.

OSI“Wind Won’t Howl”
Sou fã de carteirinha do Kevin Moore desde que ele abandonou o prog metal pra se tornar a mente por trás do Chroma Key e eventualmente metade da identidade do OSI. Uma das minhas maiores frustrações na vida é não saber cantar e se eu soubesse e tivesse um bom timbre, gostaria de usar a voz desta maneira fria e quase monotônica que ele usa. “Wind Won’t Howl” é uma daquelas faixas que eu queria ter composto. 

Susanne Sundfor“The Silicone Veil”
A essa altura já deu pra perceber que composicões/produções “over the top” são minha kryptonita e a parte final desta faixa é incrível. Este clima Kate Bush escandinava deste disco me atrai muito. Ela está mais eletrônica atualmente, mas sigo gostando de tudo que ela lança. Voz belíssima.

Bjork“Bachelorette”
Uma das minhas assinaturas de produção mais recorrentes é usar tímpanos de orquestra nas músicas. Adiciono sempre que possível, sem moderação. Como é muito difícil escolher uma faixa da Bjork, vou me apegar a este aspecto pois este combo beat eletrônico + orquestra deste som é impressionante e uma referência constante pra mim.

Entre o Machado de Assis e de Xangô, Baco Exu do Blues marca o rap nacional com “Esú”

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Primeiro álbum de Baco Exu do Blues, Esú

Na última semana viralizou nas timelines de quem nem é habituado a ouvir rap a música “Te amo Disgraça”. Pessoas de vários nichos sociais diferentes estão compartilhando e escutando rap e, dessa vez, não é não é um cantor classe média, não é um rapper diplomático que só conversa com universitários e, principalmente, não é um grupo de brancos falando de futilidades e nem alguém do sudeste. É um negro, nordestino, que fala de forma suja ainda que cante sobre literatura. É o rap sujismundo, como ele mesmo diz em uma das músicas que canta e traduz bem a realidade que o leva a compor.

Baco Exú do Blues é um compositor impecável, está acima de muitos compositores da música de elite e a importância sociocultural de um artista do rap, música de favela, ter esse nível, tem que ser reconhecida. Em tempos onde as composições ficam cada vez mais rasas, com conteúdos que falam de uma realidade que soa distópica, a profundidade vir dos ditos “marginais” é um fenômeno social, é uma revolução.
“Esú”, o primeiro álbum de Baco, é mergulhado em referências da literatura brasileira, com grande ênfase na obra de Jorge Amado. Ele é filho de professora de literatura, o que deixa claro que essa influência não é proveniente de prepotência intelectual alguma, mas da vivência pessoal do autor, além do quê, a própria obra de Jorge Amado, que influenciou muito a construção de “Esú”, é um ode à Bahia e ao Nordeste em sua forma mais nua e crua, com louvores à tudo que é visto de maneira marginalizada pelo sudeste, essa mesma intenção foi refletida em cada detalhe do álbum.

Baco consegue levar o privilégio do conhecimento que tem à todos os públicos. Sem ser pedante e elitizado, ele consegue falar, entre tantas outras coisas, de Almodóvar, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Baden Powell, mitologia grega, negritude, desigualdade social, distúrbios psicológicos e suicídio. Muitas vezes a música e a arte em geral não conversam com todos, principalmente com a periferia, mas a linguagem, a simplicidade e a genuinidade que ele carrega na atitude, leva essas mensagens à lugares onde não existe o debate sobre esses temas. Essa linguagem aparentemente “chula” que Baco adota propositalmente é no mínimo genial e faz parte desse ato. Ela incomoda, ela traz desconforto, principalmente para os ouvidos do sudeste ou de quem não pertence à realidades marginalizadas, parar para refletir sobre os porquês desse incômodo é fundamental para quebrar barreiras de comunicação, é um desaforo aos preconceitos linguísticos. Ela conversa com um público além dos universitários e bem-letrados, ela transmite informação para fora dos nichos sociais de praxe, coisa que muitos artistas, inclusive do rap, pararam de fazer. Esse compartilhamento de informações que quase sempre são restritas à classe média, vai na contramão do comportamento de muitos artistas e pseudo-intelectuais. Hoje vemos pessoas com ciúmes dos seus autores, artistas e bandas favoritos, rindo da cara de quem não tem o mesmo conhecimento musical, com toques de preconceito linguístico, usando de “privilégios intelectuais” para se sobressair socialmente, como se quem não conhecesse milhares de livros ou músicos requintados fossem menores, ignorando o fato de que nem todos têm o mesmo acesso cultural e a mesma realidade social.

Baco sempre criticou todo tipo de segregação sociocultural, estourou ano passado com a música “Sulicídio”, feita em parceria com Diomedes Chinaski, com produção de Mazili e Sly. A diss virou o rap nacional de cabeça pra baixo ao questionar de forma agressiva como o rap nordestino era desvalorizado enquanto o do sudeste era supervalorizado, atacando diretamente os grandes rappers que estavam em evidência. A intenção era mostrar como existem barreiras sociais que impedem a música nordestina de ter o devido reconhecimento e, só um grito escandaloso poderia acordar o país para essa questão. Com “Sulicídio”, o rap do nordeste voltou a ter visibilidade e o questionamento sobre a segregação no hip hop veio à tona, paralelamente, Baco recebeu uma grande notoriedade acompanhada de ameaças, um paradoxo de amor e ódio que o levou à uma depressão, descrita em vários momentos nas faixas de “Esú”. Essa crise ficou clara em En Tu Mira, que foi divulgada em prelúdio para o álbum, ali ele falava das cobranças e conflitos durante o processo criativo e sobre o tão falado “ano lírico” que foi prometido em Poetas no Topo 2, uma provocação às composições rasas que estavam no mainstream do rap nacional. De fato, 2017 trouxe composições mais profundas, protagonizadas por diversos artistas do rap, Baco veio com Esú para coroar de vez esse ano como lírico.

A intro, de cara, traz scratches de KL Jay (Racionais MC´s), participação da Orquestra Afro Brasileira e beat feito por Scooby Mauricio. A criação dos beats das outras músicas do álbum ficou por conta de Nansy Silvvs que ousou em trazer cânticos em Iorubá, maracatu, guitarra baiana e batuques de candomblé. As fotografias do livro “Laróyè”, de Mario Cravo Neto compõem a parte artística, cada imagem traz um significado único às faixas com maestria. Em tempos conservadores e de intolerância religiosa, uma obra que ataca os pilares racistas, religiosos e morais da sociedade desde a arte da capa até os beats, é um ato revolucionário.

Sobre as faixas, vale destacar três:

“Esú”:
Música destaque do álbum. Novos Baianos sendo homenageados no sample, letra impecável repleta de referências e versos de peso:

“Garçom, traz outra dose, por favor, que eu tô entre o Machado de Assis e de Xangô”

“Dance com as musas entre os bosques e vinhedas. Nesse sertão veredas e sentir é um mar profundo, nele me afundo até o fundo, insatisfeito com o tamanho do mundo”

“Capitães de Areia”:
Título que homenageia a maravilhosa obra de Jorge Amado que contesta as diferenças sociais em Salvador. Clara referência musical à Nação Zumbi e ao mangue beat. Essa música mostra que o álbum utiliza em vários pontos a mesma fórmula de “Da Lama Ao Caos” . A letra ataca sem piedade:

“Eu tô brindando e assistindo um homofóbico xenófobo apanhando de um gay nordestino. Eu tô rindo vendo uma mãe solteira espancando o PM que matou seu filho. Me olho no espelho, vejo caos sorrindo”



“Te Amo Disgraça”:
A música mais popular do álbum, acredito que por falar de amor e sexo de uma forma escrachada, sem ser pudico. Fez muito sucesso entre mulheres que, com certeza, estão cansadas de canções que falam de romances perfeitos e triviais. Ninguém quer mais ser a “Minha Namorada” de Vinícius de Moraes, os tabus foram quebrados e os relacionamentos não têm mais a obrigatoriedade do moralismo. A priori, o termo “disgraça” (com essa grafia mesmo) chocou alguns, mas Baco já explicou que esse é um termo comum em sua região. Inserir um termo tão chocante, ao meu ver, é parte da construção lírica e da intenção dessa música.

Louvamos Kendrick Lamar, mas no Brasil temos material à altura. “Esú” é, sem dúvidas, um dos álbuns do ano. Um marco não só no rap nacional mas também na música. Baco Exu do Blues de fato é o karma da cena, criado pela cena pra matar a cena, que precisa morrer para renascer lapidada e sem cabresto social.

O álbum completo está disponível gratuitamente em diversas plataformas virtuais: https://onerpm.lnk.to/BacoExuDoBlues

Sugiro conhecer o álbum através do Youtube, acompanhando as fotografias de Mario Cravo Neto e as letras simultaneamente:

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Adailton Moura, do RAPresentando

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Adailton Moura, do RAPresentando
Adailton Moura, do RAPresentando

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje o convidado é Adailton Moura, do RAPresentando:

Princess Nokia“Tomboy”
“A MC Princess Nokia já tem três discos caseiros no currículo. Mas somente agora está conseguindo se destacar. Sempre presente nas festas undergrounds de Nova York, ela chamou a atenção da Rough Trade Records. Agora, com o aporte do selo, Nokia tem conquistado seu espaço. Em suas letras, a rapper fala do machismo que impera no rap, a cultura do estupro e do tratamento dispare entre homens e mulheres”.

Leaf“Gone”
Leaf faz uma ponte entre o rap e o r&b. A voz dela é potente. Formada na LaGuardia, famosa escola de artes de NY, a cantora colocou recentemente nas ruas o disco ‘Trinity’. A sonoridade é incrível. Uma obra de arte”.

Paulo Microfonia“Mudanças, Novidades, Surpresas: Possibilidades”
“O Paulo Microfonia está debutando com o EP “Mudanças, Novidades, Surpresas: Possibilidades”. O trabalho levou cerca de quase quatro anos para ficar pronto. É viciante. Ele está na música há um bom tempo e participa ativamente do cenário independente da região de Campinas, SP. O Microfonia é um poeta. Ele sabe usar muito bem as palavras”.

Madame Gandhi – “Get It Girl”
“A Madame Gandhi é uma DJ e produtora de EDM baseada em LA. Gandhi também foi baterista da cantora M.I.A. Ativista das causas femininas, ela soltou o EP “Voices”. O objetivo dela é dar voz e enaltecer todo o poder feminino”.

Wiki“Pretty Bull”
Wiki tem 23 anos. Ele quebra padrões e alguns esteriótipos do rap, mas entrega um trabalho sólido, reflexivo. “No Mountains in Manhattan” é seu álbum de estreia. Nele, Wiki fala sobre seus vícios, relacionamentos, identidade e responsabilidade. O primeiro projeto dele, a mixtape “Lil Me”, foi apresentado em 2015. Sua energia conquistou o público do senário underground. Agora, ele está alçando voos mais altos, deixando de vez seu território de atividades artísticas: Manhattan, em NY”.

Racionais MC’s como crítica social: Diário de Um Sobrevivente do Inferno

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Racionais MCs

Filosophone, por Matheus Queirozo

“O ser humano é descartável no Brasil”

(Racionais MC’s – “Diário de Um Detento”)

Inferno. O que é o inferno? Essa é uma questão relativa. Não existe uma resposta única, pronta, acabada, esgotada, que dê fim a essa pergunta. A religião, a filosofia, a Teologia, todas essas áreas de uma forma ou de outra falam do inferno, o inferno como lugar de morada dos mortos, lugar de penitência pelos atos cometidos enquanto se vivia a vida terrena, inferno como lugar de sofrimento e dor. Vulgarmente falando, o inferno para algumas pessoas e aqui mesmo na terra, lugar de morte e dor; para outros, inferno é não poder entrar na internet, é não ter um bom celular, é não conseguir estar na moda, com os sapatos tendência, com o corte de cabelo do momento; inferno para outros é não ter o que comer, é viver em condições sub-humanas, é não ter uma boa educação, não ter uma boa família. Esse último é o inferno de quem vive na periferia. Aliás, de quem sobrevive na periferia, porque não é fácil.

Nos anos noventa, o mundo da música já tinha passado por vários momentos de estilo musical. Aqui no Brasil, nos nossos anos cinquenta, era de ouro, tivemos os cantores de rádio cantarolando com aqueles vozeirões; tivemos o samba do morro, depois a bossa nova, que pregava um basta na saudade – “chega de saudade!” –; vieram, perto do fim dos anos sessenta, os grandes festivais de música onde a MPB começou a se consolidar, pegamos em 1964 um duro golpe, instaurou-se a Ditadura Militar, de censura artística completa. Resultado em face disto, tentando ludibriar os censores: surgiram músicas de crítica ao regime, mas uma crítica sutil, inteligente; nesses mesmos anos setenta, surgiu a galera da Jovem Guarda, a galera da psicodelia, do rock progressivo, a música nordestina invadindo o planeta Brasil; já nos anos oitenta, ocorreu a explosão do rock nacional, o chamado BRock; e em fins dos anos noventa, o hip hop e o rap se consolidam como música de protesto, se utilizando da realidade sem fantasia como matéria para as suas rimas.

Racionais MCs
Em 1997, o grupo de rap Racionais MC’s, considerado o grupo mais popular e influente dos nossos tristes trópicos, lança o disco que faz com que os membros do grupo fiquem conhecidos no Brasil todo, que é o “Sobrevivendo no Inferno”. O disco todo pode ser definido como rap político, muito inteligente, recheado de referências culturais, de críticas ao preconceito racial e exclusão social. O disco fala do que é o inferno para quem vive na periferia, o que é o inferno para quem é preto, pobre e não tem poder aquisitivo.

Interessante que, mesmo tendo sido lançado por uma gravadora independente, esse álbum alcançou a vendagem de 1.500.000 cópias vendidas. Com certeza é um disco antológico do rap. Quer dizer, não só do rap – seria reduzi-lo demais. Corrigiria dizendo: disco antológico da história da música.

A sétima música do disco, “Diário de Um Detento”, talvez seja a música mais conhecida até hoje, ganhou até clipe, conta o drama do brasileiro que vive num sistema opressor, que se mete no mundo da criminalidade, e preso e se depara com o sistema penitenciário e suas mazelas. A música conta, em primeira pessoa, a história de um sujeito que viveu na pele a vida de prisioneiro, vendo a olho nu uma vida atolada pela miséria, que deixou de viver para sobreviver no inferno.

Segundo alguns sociólogos, a sociedade humana pode ser dividida em superestrutura e infraestrutura, sendo o primeiro acima do segundo. A superestrutura do Estado é o nível jurídico-político e ideológico, ou seja, onde estão aqueles que fazem as leis, aqueles que executam a lei e aqueles que veiculam as informações (parte ideológica), as mídias, os jornais, as revistas, os sites. Na parte abaixo, na infraestrutura, estão as relações de produção de uma sociedade, ou seja, aqueles que fazem a economia funcionar de, o patrão e o empregado, o empresário e o trabalhador assalariado. Quem sustenta toda essa pirâmide social quase medieval é o trabalhador que acorda às cinco horas da manhã, se desloca da parte periférica da cidade para o centro, para mover as produções, para limpar a casa da classe média, para ficar enclausurado numa forma de trabalho estressante, nada criativa. Em cima deles, desses que precisam do emprego miserável, já que não tiveram uma boa escola no bairro, já que não tiveram familiares ricos e influentes, em cima desses é que o empresário lucra, em cima deles é que um político deita a cabeça no travesseiro e acorda com a conta cheia de dinheiro desviado da educação, da saúde e da segurança, em cima desse trabalhador da periferia que as notícias deitam e rolam contando mentiras, em cima desses que o Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do mundo.

O Estado, por exemplo, não é um aparelho neutro, a serviço de toda a sociedade, como os capitalistas nos pretendem fazer crer. O Estado, no fundamental, sempre tem servido os interesses daqueles que detêm o poder econômico. 

(…) Os donos dos meios de produção, tendo nas suas mãos o Estado com todo o seu aparelho: exército, polícia, tribunais, funcionários públicos, etc., tem nas suas mãos portanto não só o poder econômico como também o poder político” (URIBE, Gabriela; HARNECKER, Marta. Exploradores e Explorados. São Paulo: Global Editora, 1979, p. 38).

É uma grande farsa essa a de que cadeia serve para reestruturar o ser humano. A cadeia não passa de uma lata de sardinha onde vale a lei do mais forte, o presídio é uma sociedade que existe dentro da sociedade, com suas regras próprias, sua moral própria, sua ética, cunhada empiricamente por prisioneiros e para todos os prisioneiros. Lá dentro não existe a moral universal kantiana (“Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”), não existe a justa medida aristotélica. Não existe essa moral alcançada pela razão filosófica. A prisão brasileira não tem a menor condição humana de devolver o detento reestruturado à sociedade. Isso é uma grande piada. E a cadeia só existe para os mais pobres. Rico fica em prisão domiciliar, principalmente se for político.

O médico Drauzio Varella, autor do Best-seller “Estação Carandiru” de 1999, viu de perto a situação mórbida da antiga Casa de Detenção Carandiru. Começou a trabalhar no sistema penitenciário, na parte médica, em 1989, ano em que chegou ao Carandiru. O médico, pesquisador profundo na área de estudos de câncer e AIDS, comenta em um vídeo de 2015, no seu canal, a atrocidade que era a situação dos presos consumidos pelas complicações da AIDS: “Era uma tragédia coletiva. Eu cheguei a perder, na minha enfermaria do Carandiru quatro, cinco doentes por semana. E não é perder porque um dia a pessoa morre, como todos nós vamos morrer. É uma morte muito sofrida, emagrecendo, passando mal, incapaz de comer, e trancados em celas. Foram as mortes mais tristes que eu vi na minha vida, foram lá no antigo Carandiru”.

Cada detento uma mãe, uma crença

Cada crime uma sentença

Cada sentença um motivo, uma história de lágrima

sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio, sofrimento,

desprezo, desilusão, ação do tempo

Misture bem essa química

Pronto: eis um novo detento

Lamentos no corredor, na cela, no pátio

Ao redor do campo,

em todos os cantos

Mas eu conheço o sistema, meu irmão,

Aqui não tem santo

No meio de tantos detentos e tantas histórias, sentenças e motivos, eis a história de um cidadão comum, é o Jocenir Prado. Preso por receptação de carga roubada e formação de quadrilha, condenado a oito anos e três meses, dos quais cumpriu quatro anos, Jocenir viveu alguns anos no Carandiru. Em entrevista a Jô Soares em seu programa, Jocenir Prado alega que foi pego como bode expiatório (expressão popular utilizada para definir uma pessoa que sobre a qual recai toda a culpa alheia, mesmo que esse alguém seja inocente) da polícia. Jocenir, nessa mesma entrevista, comenta: “Eu sofri uma série de agressões, agressões físicas mesmo, agressão moral. Então, praticamente isso fazia com que, cada vez que eu fosse dormir, eu rezava pra não acordar, só de imaginar que o dia seguinte seria a mesma coisa. (…) E quando veio minha condenação de oito anos e três meses, me bateu o desespero, então eu sabia que eu tinha que tomar alguma atitude. E eu tinha três alternativas: ou praticaria o suicídio, que é uma coisa normal dentro na prisão e pouco divulgada; ou deixava me levar pelo mundo das drogas; ou procurava de alguma forma conquistar a massa carcerária (os detentos)”.

Tem uma cela lá em cima fechada

Desde terça-feira ninguém abre pra nada

Só o cheiro de morte e Pinho Sol

Um preso se enforcou com o lençol

Qual que foi? Quem sabe? Não conta

Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta

Nada deixa um homem mais doente

Que o abandono dos parentes

Aí moleque, me diz: então, cê qué o quê?

A vaga tá lá esperando você

Pega todos seus artigos importados

Seu currículo no crime e limpa o rabo

A vida bandida é sem futuro

Sua cara fica branca desse lado do muro

 

Jocenir optou pela terceira alternativa. Ganhou popularidade se utilizando do conhecimento que tinha, do estudo que teve durante a vida, coisa que poucos ali dentro possuíam devido às baixas condições econômicas que tinham. Jocenir passou a escrever as cartas para aqueles que não sabiam escrever, que era a maioria. Com isso, foi ganhando respeito, isso antes de ser transferido para a casa de detenção. Após uma rebelião traumática, Jocenir prado foi transferido para a casa de detenção de São Paulo, o famoso Carandiru.

Acertos de conta tem quase todo dia

Tem outra logo mais, eu sabia

Lealdade é o que todo preso tenta

Conseguir a paz, de forma violenta

Se um salafrário sacanear alguém

leva ponto na cara igual Frankestein

Nesse período, ele já tinha algum prestígio entre os presos, era conhecido como “o tiozinho que escrevia as cartas”. Para quem não sabe, a autoria de “Diário de Um Detento” é creditada a Mano Brown e a Jocenir, que foi autor de um diário o qual inspirou a música. Jocenir viveu na pele a vida de um prisioneiro.

“Diário de Um Detento” é um relato dramático de alguém que optou pela vida sem futuro do crime, é a denúncia de como o Estado se livra daquilo que não sabe lidar, de como o Estado se comporta diante daqueles que vivem à margem da sociedade e da lei. O Estado esperou uma boa oportunidade, uma rebelião, usou isso como uma ótima justificativa para sentar o cacete em todo mundo e, de xeque-mate, provocar uma carnificina, sabe pra quê? Pra eliminar gastos, pra se livrar de uma responsabilidade social.

Foto que registra o resultado do massacre na Casa de Detenção do Carandiru ocorrido em 1992.

Dois ladrões considerados passaram a discutir

Mas não imaginavam o que estaria por vir

Traficantes, homicidas, estelionatários

Uma maioria de moleque primário

Era a brecha que o sistema queria

Avise o IML, chegou o grande dia

Depende do sim ou não de um só homem

Que prefere ser neutro pelo telefone

Ratatatá, caviar e champanhe

Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!

Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo

Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!

Sobre a música, Jocenir Prado comenta no Programa do Jô: “Na casa de detenção, nessa rotina em que eu fazia versos e cartas, eu escrevi alguns versos e em cima desses versos criou-se o ‘Diário de Um Detento’ gravado pelos Racionais MC’s. Ele (Mano Brown) fez algumas adaptações e gravou”.

Nas palavras de Drauzio Varella, em entrevista de maio de 2017 para o canal do Youtube Nexo Jornal, anos depois do grande massacre do Carandiru: “A população carcerária aumentou e as cidades continuam inseguras… ficaram mais inseguras ainda porque, antes, as cidades inseguras eram São Paulo, Rio, agora é o Brasil inteiro. (…) Então acho que a violência se disseminou pelo país, o que mostra que o aprisionamento não traz segurança. Aquele bandido que tá na rua assaltando vai preso, ele para de assaltar, mas isso não significa que haja uma diminuição da violência como um todo, que é o que a sociedade imagina, né? A sociedade acha que prendendo todos os bandidos e todos os traficantes, as cidades vão ficar seguras e os filhos das famílias não vão usar droga, o que e uma visão irreal, uma visão fantasiosa do problema”.

Ou seja, o problema só aumenta. A violência ganha cada vez mais proporções alarmantes. Segundo o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, de 2016, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil (fonte: BBC Brasil, 6 de junho de 2016). A educação e a saúde públicas, dois pilares fundamentais para a gestão do bem público, não melhoram nunca e os políticos desviam cada vez mais dinheiro que deveria ser direcionado a programas sociais, às políticas públicas. O Estado, então, não cumpre seu papel. Acho, portanto, que precisamos romper esse contrato social, Sr. Thomas Hobbes e Sr. Jean-Jacques Rousseau.

Ratatatá, Fleury e sua gangue

vão nadar numa piscina de sangue

Mas quem vai acreditar no meu depoimento?

Dia 3 de outubro, diário de um detento

(Todos os versos citados nesse texto são trechos da música “Diário de Um Detento”).

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por João Perreka, da João Perreka e os Alambiques

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João Perreka
João Perreka

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, o convidado é João Perreka, líder da banda João Perreka e os Alambiques.

RPW“Pule ou Empurre”
“Vamos começar pelas origens. Em 1996, o garoto aqui vivia com skate de baixo do braço e colava nos bailes de rap e nas festas de pichador, onde rolava o som alucinante do grupo RPW formado em São Paulo, pelo trio Rúbia, DJ Paul e W-Yo e botava geral pra bater cabeça. Foi nesta época, que criei os primeiros vínculos com a galera de outras quebradas e conheci muito grupo de rap”.

Mental Abstrato“Jazzeira”
“Tai uma banda que até esses dias não conhecia, mas hoje é uma das minhas preferidas, pois uma galera me falava para ouvir e tive a honra de sacar a primeira vez ao vivo. O som do Mental Abstrato é difícil de descrever, pois faz um jazz, porém caminha por vários, seguimentos musicais (vários mesmo!), e cada instrumentista vai mandando tua onda boa no som”.

Marsa“Vermelhos”
Marsa é uma banda que todos precisam ouvir vindo da nova geração musical pernambucana que tanto aprecio desde os tempos de Chico Science e Fred 04. Thiago Martins, linha de frente da Marsa, tem uma voz sensacional que transcende com a sensibilidade do som da banda”.

Edgar“Te Dei Amor e Catuaba”
“Musico místico, criador de letras, figurinos, documentários e instrumentos fantásticos e cada dia que passa evolui no que faz, e nos presenteia ainda mais com seu som inovador”.

Samuca e a Selva“Madurar”
“Uma trupe genial de músicos fora de série, destaque pro swing e carisma do vocalista Samuca e para som pra lá de animado. O show deles é uma grande festa, e dificilmente quem ouve fica parado”.

“Sou e continuarei sendo resistência no rap e na música, campo minado de machista”, brada a rapper BrisaFlow

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BrisaFlow
BrisaFlow

Filha de chilenos e nascida em Belo Horizonte, Brisa De La Cordillera é conhecida como Brisa Flow e apesar de se focar no hip hop, tem uma musicalidade livre, misturando em seu caldeirão sonoro música latinoamericana, rap, reggae, eletrônica e até pitadas de punk rock. Sua carreira começou em 2010, participando da cena cultural mineira, mudando-se em 2012 para São Paulo, onde participou de diversos projetos e eventos relacionados a música e aos direitos das mulheres. Sua música “As de Cem” ficou entre as virais do Spotify em 2015 e ela recebeu o prêmio Olga “Mulheres Inspiradoras”.

Em 2016 lançou seu primeiro disco completo, “Newen”, de forma independente. O trabalho, com direção musical de Dia Chocolate Studio, mixagem de Givnt e masterização de Luis, da Flapc4, apareceu nas listas de melhores discos do ano do Estadão, Brasileiríssimos e Noticiário Periférico. Agora, Brisa prepara um novo projeto para os próximos meses. “Quero misturar os instrumentos que toco com meu som e mais uns parceiros”, conta. “Quero usar o que estou aprendendo na facul pra mesclar com o rap”.

Conversei com ela sobre a mulher no universo do hip hop, o disco “Newen”, o rap no topo das paradas e mais:

– Como você começou sua carreira?

Comecei cantar pequena como diversão, transformava umas músicas em rap e gostava de pegar os rap e cantarolar. Aos 13 me envolvi com a cena underground de BH, punk e rap. Tive uma banda, fiz parte de grupo e coletivo. Comecei a cantar rap sozinha aos 19. Passei por várias quebradas pelo Brasil e aos poucos minha carreira solo criou asas.

– Quais as suas principais influências musicais?

Minhas influências são diversas e mutantes. Escuto muita música latinoamericana de protesto: fui criada ouvindo Mercedes Sosa, Silvio Rodriguez, Violeta Parra, Victor Jara, Bob Marley, The Doors, Janis Joplin. Lauryn Hill, Badu e Sade fizeram minha cabeça e ainda fazem desde a adolescência. Atualmente tô viajando ouvindo o novo do Kendrick, o disco “Djonga”, a Sza, psicodelia e uns discos de jazz. Amo muito a Alice Coltrane, ela pra mim é uma grande inspiração, compositora braba e infelizmente pouco conhecida por ter sido casada com o Coltrane. Recomendo o “Journey to Satchidananda”, discaço!

– Me fala mais sobre o trampo que você já lançou.

Ano passado lancei o “Newen”, disco com referências ameríndias e bases que misturam boom bap trap e música eletrônica. O Dia Chocolatee Studio foi o diretor musical, o Givnt fez a mix e o Luis da Flapc4 a master. Eu tentei juntar beatmakers que eu curtia espalhados pelo Brasil e minhas letras sobre a liberdade de poder ser quem somos, sendo mulheres e sendo plurais. O disco está disponível para download gratuito no site do One Rpm e pra ouvir em todas plataformas digitais.

– A internet hoje em dia é uma grande força para MCs e rappers independentes. Como você vê isso?

Acredito que com a internet podemos divulgar melhor nosso trabalho e nossa luta não é tão censurada e barrada por macho como antigamente, quando não tínhamos internet.

BrisaFlow

– Tenho visto um levante feminino no rap, um estilo que, como muitos outros, é conhecido por ter uma grande carga de machismo. Como é isso pra você?

Fui, sou e continuarei sendo resistência no rap e na música em geral, campo minado de machista!

– Como é seu processo de composição?

Depende do tipo de composição. Quando tô com a energia em baixa e sinto que preciso escrever, me fecho um pouco na minha casa, passo o dia na quebrada, ligo uns beats, instrumentos, briso na brisa. Tem dia que a música já vem com a bala na agulha, é só começar escrever que sai umas letras loucas, às vezes a beat no meio da rua ou no metrô/busão…

– Porque as letras mais politizadas e com posição não chegam tanto ao mainstream?

Letras politizadas fazem as pessoas refletirem. Imagina a rádio e a TV propagando discurso de desconstrução contra algo que eles mesmos construíram. Revolução pero no mucho. Porque será que eles não tão afim que essa mensagem chegue muito?

– Como você vê o rap voltando ao topo das paradas nos últimos anos?

Rap merece o topo. Música completa pelo tráfico de informação, fácil comunicação, cultura ao mesclar samples de outros estilos musicais e por aí vai. Fico feliz, a cultura hip hop tem muito a conquistar.

BrisaFlow

– Quais seus próximos passos?

Músicas novas estão pra sair logo mais no Spotify e tô com um projeto de misturar os instrumentos que toco com meu som e mais uns parceiros. Logo mais, novidades! Quero usar o que estou aprendendo na facul pra mesclar com o rap. Sigam o Instagram que lá rola vários livros desse projeto no embrião!

– Recomende artistas e bandas (de preferência independentes!) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Gosto de manas atuais da nossa cena que estão fazendo um lindo trabalho: Anna Trea e Tati Botelho!

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Ulisses Freitas, vocalista do Choldra

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Ulisses Freitas, do Choldra
Ulisses Freitas, do Choldra

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, o convidado é Ulisses Freitas, vocalista da banda Choldra. “Pra quem é completamente entregue à música, escolher essas 5 músicas foi uma tarefa bastante prazerosa na realidade. Claro que gostaria de fazer isso com uns 30 sons, mas creio que a brincadeira fica legal devido à pequena quantidade”, disse.

Ana Tijoux“Somos Sur” (feat. Shadia Mansour)

“Uma música que apenas pela levada, batida e flow já é viciante. Mas muito além disso, trata-se de Ana Tijoux, rapper chilena renomada em seus país e muito respeitada em vários países. Pouco conhecida por aqui, mas já fez alguns no Brasil onde tive a oportunidade vê-la duas vezes, uma em Sampa outra no Rio. Assim como Criolo, ela tem a verdade no olhar. Em tempos onde o feminismo está ganhando cada vez mais força, Anitta é sem dúvida uma grande representante do movimento. Nesse som, que questiona a opressão sentida pelos países do hemisfério sul, ela canta com Shadia Mansour, outra MC incrível, de Londres, filha de Palestinos, e que rima em árabe num flow inacreditável! Tenho amor por essa track”.

Supervielle – “Adonde Van Los Pájaros”

“Pois é, gosto muito da música latina pop como Café Tacvba, Aterciopelados, Jorge Drexler, Julieta Venegas, Zaz etc. Supervielle é dessa laia, uruguaio porém nascido na França, transitou pelo rap e até pelo coletivo Bajofondo, faz uma música pop requintada que vai do eletrônico, ao instrumental e acústico. Essa música me inspira demais. Naqueles rolês de bike por Sao Paulo, domingo a tarde, cidade vazia, vento de outono, é como se me transportasse pro lado bom da vida, onde há esperança e venceremos!”

Doves“Here It Comes”

Doves. Essa banda me faz falta. Sou viciado nos discos deles, principalmente no ‘Lost Souls’ que tem essa música. Daqueles discos que são lindos de cabo à rabo. Escolhi essa por ter feito parte da trilha sonora da primeira viagem que fiz pela Europa. Não me canso nunca dela, faz todo sentido pra mim”.

dEUS“Ghost”

“Eu brinco que dEUS é “a banda que só eu gosto”, rs. Acho bem legal seus últimos 3 discos, apesar do clássico ser o “Worst Case Scenario” de 1994. Esse som que escolhi faz parte do penúltimo disco, é bem easy listening e ouço sempre quando não quero pensar em nada, tirar onda, e o vídeo ainda tem esse Jesus sangue bom demais! Esses belgas tocaram no Sesc Pompeia em 2015 e eu não consegui ir devido a uma viagem de trabalho inoportuna”.

Garage Fuzz“Cortex”

“Do disco ‘Fast Relief’, essa faixa deveria ser hit mundial. Tem tudo aqui, um trampo de guitarras que poucas bandas no estilo conseguem elaborar, baixo e bateria concisos e o Sesper mais afinado do que nunca. Uma das bandas mais legais da cena independente/underground do Brasil. Esses santistas traduzem muito bem as mentes que respiram juventude, da cultura de rua, hardcore, surf, skate, Santos e daquela vontade de viver esperançosa”.

15 discos de mashups que são verdadeiras obras-primas musicais

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Um mashup, também conhecido como mesh, mash up, mash-up, blend, bootleg e bastard pop, é uma música criada a partir da mistura de duas ou mais canções já existentes, normalmente usando o vocal de uma em cima do instrumental de outra, para que se combinem e criem algo novo. Esse tipo de criação ficou famosa no começo dos anos 2000, com a mistura de Christina Aguilera e The Strokes “A Stroke Of Genius”, que unia “Genie In A Bottle” e “Hard To Explain” e trazia à luz algo totalmente novo, unindo o rock garageiro com o pop plastificado. A partir daí os mashups tomaram o mundo, chegando até à grande mídia com discos como “Collision Course”, que unia Jay Z e Linkin Park, e o espetáculo “Love”, do Cirque du Soleil, com um grande mashup da obra dos Beatles.

Existem diversos discos completos usando o mashup como base, e alguns são verdadeiras obras-primas. Selecionei 15 deles:

Team Teamwork“Ocarina of Rhyme”

Misturar Dr. Dre, Mike Jones, Jay Z, Clipse e outros rappers renomados com a trilha sonora de Zelda é algo que só uma mente genial e divertida conseguiria fazer. Lançado em 2009, o disco é ótimo mesmo para quem não é fã da saga de Link.

DJ Danger Mouse“The Grey Album”

Hoje em dia o Danger Mouse é um reconhecido produtor e fez trabalhos como o último disco dos Red Hot Chili Peppers, “The Getaway”, do ano passado. Em 2004, no auge dos mashups, ele caía de boca unindo o disco “The Black Album” do Jay Z com o clássico “The White Album” dos Beatles, resultando no premiado “The Grey Album”. A junção de faixas como “What More Can I Say” com “While My Guitar Gently Weeps” são impecáveis.

Alex Hodowanec“Yeezer”

O estudante da Universidade de Ohio Alex Hodowanec se inspirou no “Grey Album” pra criar “Yeezer”, com 10 faixa que unem Kanye West com Weezer de uma forma nunca antes imaginada. “A primeira música que trabalhei foi misturando ‘Through The Wire’ do Kanye com ‘Beverly Hills’. Assim que essa fechou, eu pensei ‘já que fiz esse, melhor fazer mais nove, certo?'” Hoje em dia é incrivelmente difícil de achar para baixar ou assistir mesmo no Youtube.

Wugazi“13 Chambers”

Inacreditavelmente, este disco de 2011 consegue unir com perfeição os raps do Wu Tang Clan com o hardcore do Fugazi. Faixas como “Sleep Rules Everyything Around Me” são sensacionais.

Dean Gray “American Edit”

Em novembro de 2005 o Dean Gray (uma piadinha com um anagrama de Green Day) foi lançado, misturando o disco de 2003 que levou o trio de punk rock de volta aos topos das paradas com tudo o que você pode imaginar. Lógico que deu rolo com a gravadora, que fez questão de tirar do ar o disco. A faixa “Boulevard Of Broken Songs”, misturando Green Day com Oasis, chegou a ser um semi-hit.

The Kleptones“A Night At The Hip Hopera”

Misturando a música do Queen com rap e muitos trechos de filmes como “Curtindo A Vida Adoidado”, “A Night At The Hip Hopera”, de 2004, foi banido pela Hollywood Records, é claro, pelo uso de seus samples. Dá pra ouvir no Soundcloud:

Fela Soul“Amerigo Gazaway”

“Fela Soul” é, além de um ótimo trocadilho, uma união incrível. Fela Kuti com certeza é uma influência no De La Soul, então fazer essa mistura era praticamente algo natural. Ainda bem que aconteceu.

Otaku Gang“Life After Death Star”

Criado pelo rapper Richie Branson e o produtor Solar Slim, o disco reune as clássicas músicas de John Williams para a saga Star Wars com os versos pesados do Notorious B.I.G.

DJ BC“The Beastles”

Quem diria que o quarteto de Liverpool soaria tão bem quando misturado com o trio de Nova Iorque, hein? O “The Beastles” criado pelo DJ BC já tem três discos completos que misturam Beastie Boys com Beatles de forma maestral.

The Kleptones“Yoshimi Battle the Hip Hop Robots”

Uma improvável colisão entre o Flaming Lips com vários rappers e o resultado é “Yoshimi Battle The Hip Hop Robots”. Aliás, improvável na época, já que hoje em dia uma das maiores colaboradoras da banda é a super improvável Miley Cyrus.

DJ Max Tannone“Jaydiohead”

Radiohead e Jay-Z unidos pelo DJ Max Tannone, de Nova Iorque, também conhecido pelo seu antigo nome de guerra Minty Fresh Beats. Surpreendentemente bom.

Seanh2k11“Sadevillian”

O disco pega os raps pesados e inusitados de MF DOOM e traz toda a sensualidade da rainha do R&B Sade para dar o clima. Funciona perfeitamente bem. Confira nas sete faixas do álbum:

Coins“Daft Science”

O DJ e produtor de Toronto Coins ficou dois anos preparando o disco que mistura as rimas certeiras dos Beastie Boys com samples de tudo que o Daft Punk já fez. “Daft Science” foi lançado em 2016 e pode ser ouvido no Bandcamp:

Wait What“Notorious XX”

O par The XX e Notorious B.I.G. pode parecer fora do comum, mas o produtor de São Francisco Wait What conseguiu fazer com que a união parecesse feita para acontecer. Lançado em 2010, “The Notorious XX” teve mais de um milhão de downloads e ganhou do The Guardian o título de “melhor disco de mashup de 2010”.

João Brasil“Big Forbidden Dance”

O DJ brasileiro que tocou até nas Olimpíadas do Rio de Janeiro de 2016 pega um monte de funk carioca e mistura perfeitamente com Madonna, Raimundos, The Strokes, Iron Maiden, The Offspring e muito mais. Inacreditável de tão bacana. Hoje em dia tá difícil de achar pra baixar.