Marcelo Mara ressuscita acervo de música independente e underground no Disco Furado

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Marcelo Mara, do Disco Furado
Marcelo Mara, do Disco Furado

Desde 2011 o blog Disco Furado faz um verdadeiro serviço aos fãs de música independente e alternativa e desenterra pérolas que não são de fácil acesso desde seu lançamento. Discos raros, bandas do underground, fitas demo e vídeos de programas como Lado B e Musikaos são apenas algumas das coisas que Marcelo Mara oferece a seus leitores e seguidores do canal do Youtube do blog. “Hoje o blog tem 6 anos e mais de 500 discos disponibilizados. Ainda tenho uma boa quantidade de material para resenhar e outras coisas que procuro para por no blog e para minha coleção”, conta.

Bandas como Ack, Pin Ups, Bloco Vomit, Thee Butchers Orchestra, Bois de Gerião e Dash, entre muitas outras, aparecem no canal do Youtube do blog com discos completos que são difíceis de se encontrar na internet. “Dou preferência aos discos independentes lançados depois de 1977, o que me dá oportunidade de pesquisar vários cenários independentes, da turma do Antonio Adolfo, passando pelo pessoal da Vanguarda Paulistana, os punks, os pós punks da segunda metade dos 80, da cena independente de 1993, das fitas e fanzines, e dos anos 2000, com um cenário diverso, espalhado e, de certa forma, sustentável”. Nada contra os novos serviços de streaming, porém. “Tenho usado o Youtube com essa intenção, mas é um processo um pouco lento quando feito por uma única pessoa. Espero que em breve surja oportunidade de estrear numa plataforma de streaming”, afirma Marcelo.

Conversei com ele sobre o Disco Furado, sua coleção de CDs, K7s e vinis, o retorno das fitas K7 e os discos raros que merecem ser garimpados:

– Como começou o projeto Disco Furado?

Desde 1995 que eu me interesso por discos independentes, catálogos de selos, coisas obscuras. Com o tempo fui adquirindo CDs, LPs, K7s de bandas independentes que eu via nas revistas Dynamite, Bizz, Rock Press, Underguide e fanzines. Pensava em fazer um blog – sobre resenhas póstumas desses discos dos anos 80, 90 e 00 – desde 2009 e para começar a escrever os textos revirei todo material impresso que acumulei, escaneei tudo que interessava e ali estava o banco de dados de pesquisa para os textos. Em 2011, fiz o blog Disco Furado e o canal no Youtube. A ideia era escrever sobre os discos, ter algo de inédito no texto e disponibilizar as músicas para download. Hoje o blog tem 6 anos e mais de 500 discos disponibilizados. Ainda tenho uma boa quantidade de material para resenhar e outras coisas que procuro para por no blog e para coleção.

– Você tem ideia do tamanho da sua coleção física de CDs, discos e fitas? Tem muito material ainda pra jogar lá?

De discos independentes, que são a grande maioria, deve ter uns 3 mil títulos entre CDs e LPs. K7 deve ter uns 500 e eu estou digitalizando as K7s agora, mas estas vão só para o Youtube. A ideia é encerrar o blog quando chegar aos 1000 discos, ainda tem muita coisa para entrar, muito disco de metal, coisas extremas e MPB underground, que só não estão disponíveis em maior quantidade porque eu não tenho domínio para escrever/descrever alguns estilos musicais, daí por medo de escrever bobagens acabo deixando sempre para uma próxima. Mas a maioria dos discos que publico são coisas que eu gosto e ouço em casa, mas tem umas bizarrices, coisas horríveis às vezes, que valem a pena receber texto e estarem disponíveis gratuitamente.

– Como você faz para disponibilizar o download, já que os serviços sempre acabam tirando os arquivos do ar de tempos em tempos?

Isso é um dos maiores problemas, pois é a parte do serviço do blog. Desisti de arrumar link por link em cada postagem, ter de entrar em cada postagem e consertar o link leva muito tempo, costumo fazer isso quando aparecem pedidos nos comentário de postagens. E volta e meia tenho de encontrar servidor novo, pois os links antigos expiram. É um saco fazer isso.

Marcelo Mara, do Disco Furado

– Você já pensou em ir atrás de disponibilizar os discos em streaming? Muitas das bandas não existem mais e seria ótimo poder achar esses trabalhos neste tipo de serviço…

Sim, é mais uma plataforma para disponibilizar. Tenho usado o Youtube com essa intenção, mas é um processo um pouco lento quando feito por uma única pessoa. Espero que em breve surja oportunidade de estrear numa plataforma de streaming.

– Alguma banda já entrou em contato com você depois de seu post sobre ela?

Sim, algumas. Quando o texto não agrada as bandas, elas tendem a entrar em contato com mais frequência. Eu acho isso bem maneiro, é esse feedback que motiva a publicação. Noutros casos, algumas bandas entram em contato para que eu disponibilize o material delas, já fiz isso algumas vezes, mas ultimamente prefiro explicar que a proposta do blog é de resenhas de discos não atuais.

– Você dá preferência a bandas da cena independente da geração anterior à atual. Até que ano vão os discos que você costuma postar? Quando esta cena independente começou a se dispersar?

Dou preferências aos discos independentes lançados depois de 1977, o que me dá oportunidade de pesquisar vários cenários independentes, da turma do Antonio Adolfo, passando pelo pessoal da Vanguarda Paulistana, os punks, os pós punks da segunda metade dos 80, da cena independente de 1993, das fitas e fanzines, e dos anos 2000, com um cenário diverso, espalhado e, de certa forma, sustentável. Não consigo analisar um cenário independentes como um todo, ele passa por transformações que são seguidas pelo meio em que se propaga o cenário, a mudança de mídias, a derrocada de algumas plataformas e ascensão de outras. Separo os cenários em marcos de início e fim, às vezes seguidas por novos cenários ou por hiatos pouco classificáveis.

– O que você acha deste retorno das fitas K7? Tem banda fazendo lançamento em K7 hoje em dia, além da grande redescoberta de fitas (demo ou não) que estavam encostadas por aí…

Acho muito bom. Apesar de as fitas agora não desempenharem a mesma função de antes: quem se atreveria a fazer uma mixtape em K7 hoje em dia? Elas são uma ótima plataforma para ter um trabalho disponível em formato físico. Uma pena não se poder fazer isso com um custo mais baixo, e nem que todos consigam ouvi-las em boa qualidade, mas funciona. Para quem gosta de discos, colecionadores velhos e jovens, a fita tem bastante importância. Gostaria de ter mais discos nesse formato.

– Você também pretende postar discos que estão disponíveis somente em vinil? (Ou já fez isso e eu não me liguei?)

Sim, tem várias discos no blog que só existem em vinil. Daí eu ripo o LP para mp3, às vezes fica bom.

– Fala uma lista de 5 discos que você subiu no canal que são indispensáveis, na sua opinião, e porque.

Tá, vamos lá.
Fellini, “Amor Louco” – o quarto disco do Fellini, o melhor produzido, tem ótimas letras e uma pesquisa de ritmos e timbres que valorizam muito a produção.
Júpiter Maçã, “A Sétima efervescência” – um dos principais discos psicodélicos brasileiros, letras divertidas, arranjos fantásticos. Esse disco beira a perfeição.
Patife Band, “EP” – é o primeiro disco da Patife Band, tem 6 músicas, incluindo as clássicas “Tô Tenso” e “Pesadelo”, além de uma versão bem legal para a jovem guarda/brega “Tijolinho”.
V.A. “Não São Paulo Vol. 1” – Coletânea linda com quatro post punks paulistanos, dos experimentos jazzisticos/kraut do Akira S & As Garotas Que Erraram, passando pelo trip hop do Chance, pelo som denso do Muzak e pelo quase pop Ness. Um disco bastante diverso, que cobre muito bem um cenário marcado no tempo.
Vellocet, “Demonstration Tape n.01” – um EP-demo do Vellocet que tem “Inside My Mind (Again)”, música que roubou os corações e ouvidos de muita gente ligada nos sons do underground brasileiro por volta de 1999/2000.

– Muitas vezes o Disco Furado é o único lugar onde podemos encontrar muitos discos e EPs que não estão disponíveis em nenhum outro lugar. Como você se sente sobre isso?

Penso “que bom que ninguém disponibilizou isso antes”, o que garante um ineditismo para o meu trabalho e um pouco mais de visitantes. E olha que é grande a lista de coisas que não estão na rede.

– Porque você acha que tantas boas ótimas acabaram “sumindo”, ou pelo menos seu material dando essa desaparecida?

Difícil de saber, mas ou é porque o disco tem poucas unidades (às vezes mil discos é pouco e a distribuição falha), ou porque quando lançado o disco acabou sendo pouco ouvido, daí quando é redescoberto vira uma caça ao tesouro perdido (gosto mais desses segundos casos).

– Além dos discos, você também coloca no Youtube apresentações de bandas e entrevistas em programas como o Lado B da Mtv, pérolas que muitos achavam que estavam perdidas com o fechamento da Mtv Brasil da Abril. Você tem um acervo disso? O que você acha desse fechamento da Mtv Brasil e a virada pra esta nova Mtv que mal fala de música?

Eu gravei muita coisa em VHS entre os anos de 1998 e 2005, peguei coisas fantásticas como o Musikaos, Turma da Cultura e programas de Mtv, mas naquela época eu não dava muita atenção a qualidade das cosias que gravava e para aproveitar bem as fitas acabava gravando muita coisa que ficava com a qualidade ruim, se eu soubesse que um dia isso iria sair das minhas VHS para o youtube, teria gravado melhor. Mas eu fiz isso para ouvir música e conhecer bandas, não imaginava algo como o Youtube. Creio que o modelo de music television se esgotou, e não é nem culpa da Mtv Brasil, a Mtv gringa já tinha outro formato, com programas mais voltados para comportamento e entretenimento jovem, com menos espaço pra música. O modelo chegou ao brasil com um pouco de resistência, mas se “consolidou”, teve aceitação. Logo a velha fórmula do music television caiu, VJs envelheceram rápido, e veio Marcos Mion, Adnet, uma turma que em nada tinha a ver com a proposta da emissora nos seus primeiros 10 anos. A nova MTV não tem preocupação com música, mas a tendência é esses espaços unicamente musicais na TV perderem espaço frente a autoprogramação, a possibilidade de assistir o que quer na hora que quer. O Youtube é a televisão de quem se interessa prioritariamente por música.

– Recomende bandas e artistas independentes que você descobriu nos últimos tempos e todo mundo deveria ficar de olho.

Puxa, como não estou por dentro das coisas recém lançadas, vou citar dez nomes que sempre me interesso por saber o que estão fazendo: ruído/mm, Loomer, Valv, Plato Divorak, Stela Campos, Kingargoolas, Test, Leptospirose, Anvil FX e Curumin. Ufa! (risos)

O rock setentista segue vivão e vivendo depois de 2010

Os infinitos garimpos musicais nos trazem surpresas incríveis, para bem ou mal. Nas minhas peregrinações em bandas novas, encontrei (ou me indicaram) algumas que têm o som calcado lá nos anos 70. Cheios de inspirações de Black Sabbath, Led Zeppelin, Rolling Stones e Deep Purple, estes caras mantêm o rockão setentista vivo e chutando bundas depois de 40 anos. Separei três que me chamaram a atenção e não consigo parar de ouvir.

Kadavar – Até o logo da banda é mais anos 70 que calça boca-de-sino e bigode. Vindo da Alemanha, o Kadavar bebe bastante na fonte do Black Sabbath, sendo que algumas músicas não fariam feio dentro de álbuns como “Sabotage” ou “Vol. 4”. A banda de Berlin é formada por Lupus Lindemann na voz e guitarra, Simon “Dragon” Bouteloup no baixo e  Tiger na bateria. O trio começou em 2010 e tem dois discos: Kadavar, de 2012, e Abra Kadavar, de 2013. Tony Iommi e Geezer Butler ficariam orgulhosos.

Horisont – Se você vir alguma foto da banda sueca Horisont, vai jurar que eles vieram diretamente de 1976. Bigodes, cabelos compridos, coletes e jaquetas surradas fazem parte do visual do quinteto, que conta com Axel Söderberg nos vocais, Charlie Van LooKristofer Möller nas guitarras, Magnus Delborg no baixo e Pontus Jordan na bateria. As influências mais aparentes no som são o proto-metal do começo dos 70s e bandas como Thin Lizzy.

Blackberry Smoke – Essa já bebe bem na fonte do AC/DC lá do começo, Lynyrd Skynyrd e ZZ Top. Americanos de Atlanta/Georgia, o quinteto começou em 2004 e tem três discos lançados: Bad Luck Ain’t No Crime (2004), Little Piece of Dixie (2009) e The Whippoorwill (2012). Formada por Charlie Starr (vocal/guitarra), Richard Turner (baixo/backings), Brit Turner (bateria), Paul Jackson (guitarra/backings) e Brandon Still (teclados), o Blackberry Smoke já participou até de um evento beneficiente com  todo o elenco da série Sons of Anarchy em 2012. Fazem parte do elenco da gravadora de Zac Brown, líder da Zac Brown Band.

Conheça Chase Marie, a transgênera que faz barulho com o duo Siamese Spots

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A recém-formada dupla Siamese Spots, de Tulsa, Oklahoma, começou a fazer seu barulho no final de 2014. Juntando riffs poderosos e girl power, a banda já começou sua carreira com o pé na porta com o single “Banter”.

A dupla é formada por Chase Marie e Tahlia, que escrevem todas as canções e se revezam nos instrumentos. Juntas, elas fazem um som competente que remete ao começo dos anos 2000, com riffs bem arquitetados que grudam na cabeça sem dó e mudanças de andamento que remetem ao stoner rock. Ouça o single “Banter” aqui:

Conversei com as meninas e elas falaram um pouco sobre suas influências, rock e o disco que está por vir.

– Quais são suas principais influências?

Sleater-Kinney, St.Vincent, Queens of The Stone Age, Kate Moss.

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– Chase, o fato de ser transgênera afeta sua música de alguma maneira?

Acho que afeta principalmente na profundidade das letras, às vezes, mas isso é um tópico pessoal demais para se falar. Mas na maior parte do tempo, fazemos músicas como qualquer pessoa que não seja transgênera ou homossexual.

– Muitas pessoas continuam com o velho papo de que o rock está morto, e dá pra perceber que o estilo não alcança mais o topo das paradas como antigamente. O que você acham disso?

Independente do que está no rádio ou não, o verdadeiro rock sempre terá um lugar na música. É um gênero que compila cinco outros gêneros dentro de si, de modo que ele é meio que obrigado a seguir em frente. Mesmo que o que toca no rádio seja basicamente lixo a maior parte do tempo…

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– O que vocês diriam para jovens músicos que, como vocês, estão começando?

Sempre seja destemido, sempre continue quando os outros disserem que não, sempre defenda o que você acredita. Eu sei que soa brega, mas é verdade. O verdadeiro sucesso está na perseverança, e naqueles que se respeitam.

– Quando o primeiro disco vai sair? Podem me adiantar algo sobre ele?

Nós estamos nos estágios iniciais de pré-produção, atualmente. Temos uma parte do álbum já escrita, por isso esperamos tê-lo em mãos por volta do meio do ano de 2015. Mas você também pode esperar alguns novos vídeos este ano, através de nossa nova conta VEVO que será lançada dia 20 de janeiro.

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Bárbara Sweet prepara seu primeiro disco e combate machismo com improviso

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Bárbara Sweet tem 28 anos, sendo que 11 foram passados rimando. Seja na rua, com coletivos ou em eventos de rap, Sweet reforça a presença feminina no mundo do rap, combatendo o machismo presente nas rimas de alguns rappers de forma inteligente durante suas participações em batalhas de MCs.

O vídeo que revelou Sweet para o mundo, em que ela destrói dois MCs em uma batalha de freestyle na Santa Cruz, mostra que, quando as ofensas comuns do evento se transformam em injúrias machistas, a MC desfere fatalitys muito bem inseridos. Quando Pasquim diz que “homem sofre mais violência doméstica que mulher, isso é estatística” e “foda-se as feministas”, Sweet vira Hulk. Ou melhor, Mulher Hulk.

“É mulher que sofre violência doméstica, é mulher que sofre violência estética, é mulher que sofre violência do dia-a-dia. Você é branco e hétero, não sabe qual que é a da minoria”

Como você entrou no mundo do rap?

Como MC comecei em 2003, rimando na rua mesmo. Em 2005 me juntei ao coletivo Ponta Pronta de Belo Horizonte junto com a MC Paula Ituassu. Aí, criamos o Controversas. Neste ano, fizemos uma festa regular, a H2 Grrls, só com atrações femininas do rap.

Você acha que o rap ainda é um meio machista?

Bastante, e homofóbico e lesbofóbico também. Mas tenho visto mudanças significativas. Vejo a chegada de mais mulheres com um discurso forte, mesmo que não seja “feminista”, de comportamento. Outros MCs também estão se posicionando como gays, como o Rico Dasalam. Vejo um crescimento de debates sobre isso no movimento, além de mais minas nas batalhas, que sempre foi meu sonho.

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O quanto você acha que os vídeos das batalhas no Youtube onde o machismo é combatido são responsáveis pelo aumento do número de mulheres no rap e esta mudança de atitude no meio?

Acho que ajuda, sim. Na real eu não vejo. Pelos comentários e porque eu odeio me ver no vídeo, mesmo os que eu ganhei. Acho desconfortável. Mas sei que alguns tem mais de 100 mil plays e sei que muitas minas veem como um incentivo ter essa referência. Eu mesma vi muito vídeo da Negra Re, da Stefanie e até da Flora batalhando antes de pôr a cara…

Você está trabalhando só com improviso e batalhas ou vem um disco por aí?

Na verdade tô dando um tempo nas batalhas e dedicando ao meu disco, que deve sair até o meio do ano. Já tenho alguns sons gravados no http://soundcloud.com/ba-Sweet

O nome do disco é D.O.C.E. – Dose Ostensiva de Caligrafia Explícita, é meu primeiro disco e eu tô no processo de pré produção, separando as letras, escolhendo os beats e parcerias.

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Quais são suas principais referências musicais?

Bom, a Dina Di foi a mina que eu ouvi primeiro no rap, então ela é muito relevante pra mim. Me inspiro muito na Lurdez da Luz, na Kat Dahlia, Akua Naru, Apani, Dynasty… São várias.

Shaw MC tem em seu novo EP a frase “me dá vontade de fazer igual o goleiro Bruno / Falar que tu viajou e te mandar pra outro mundo”, Maomé da Cone Crew Diretoria postou que “mulher tem que aprender a ser mulher dentro de casa” e Eminem ameaça Iggy Azalea de estupro na faixa “Vegas” (“Larga essa merda, Iggy. Você não vai querer soprar o apito de estupro comigo. Grita! Eu adoro”). O que você acha deste tipo de expressão no rap?

Bom, o Eminem sempre foi assim, eu admiro muito a capacidade de flow, métrica e rima dele, mas não me identifico com a mensagem, então não é uma artista que eu consumo mais. Digo o mesmo sobre a Cone. Respeito os caras pelo corre deles, mas também não tenho nenhum link com aquilo que é dito. O Shaw eu sempre fui fã, desde o Quinto Andar e achei a mix tape muito boa e bem produzida, mas me decepcionei como fã ao ouvir essa faixa que banaliza tanto o feminicidio. Menos um no meu play. Quero articular com outras MCs pra que possamos fazer uns sons satirizando isso. Acho que a melhor forma de informar e expressar é essa. É uma ideia em construção que já tá em andamento, se tudo virar mesmo, logo mais tem essa aí.

Tipo uma mixtape só de minas?

Sim, pensei em uns 2 sons Inicialmente, mas se fluir, queremos fazer com mais minas e mais sons.

Ouça “Depende”, de Bárbara Sweet:

Nelisa apresenta seu “quase-folk proibidão” em “Músicas de Amor & Putaria”

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Nelisa é Ana Elisa Zanchetta, de 20 anos. Com seu violão a tiracolo e voz suave, canta músicas com os inacreditáveis títulos “Você é a Razão das Punhetas de Alguém”, “Pessoas que eu Chamaria para uma Suruba” e o direto ao ponto “Blues do Cu”. Com seu EP “Músicas de Amor & Putaria”, de 2014, Nelisa conseguiu uma boa repercussão de suas letras cheias de sacanagem e criatividade.

A “Clarice Falcão da putaria” já participou de eventos como o Espetacular Hora da Comédia no Frey Café e Youtube Space. Conheça um pouco mais dela e suas canções proibidas para menores:

Quando você começou a escrever músicas? O tema foi sempre o “amor e putaria”?

Não, antes eu fazia umas musiquinhas bem bobinhas mesmo de amor, eu nem imaginava que poderia começar a fazer músicas voltadas pro humor. Sempre gostei de “fazer humor”, mas nunca soube como. As “Músicas de Amor & Putaria” foram um bom jeito que eu achei de fazer as pessoas rirem.

Quem você citaria como inspiração para as suas músicas?

Antes de tudo o Gabe Cielici. Conheci o trabalho dele ano passado e achei a ideia das músicas pra ex-namoradas simplesmente genial. Ele é o mestre. Também não posso negar a semelhança das minhas músicas com a Clarice Falcão, até já me apelidaram de Clarice Falcão da putaria”, mas é mais em relação ao estilo musical mesmo. E em relação à putaria, Valesca Popozuda é a rainha e me inspiro muito não só no tema putaria dos proibidões do funk como também na libertação feminina. Eu sei que é meio porre falar disso, fico parecendo até uma intelectual, mas várias meninas escutam as minhas músicas e vêm me agradecer e parabenizar por ter coragem de falar desse tipo de coisa, porque no mundo que a gente ainda vive eu sou a menininha pequenininha e por isso não posso falar de caralhos e bucetas.

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Muita gente te enche o saco pelo teor das canções? Tem gente que vem dar em cima de você por causa das músicas sobre sexo, ou criticar o tema das canções?

Tem muito cara que dá em cima sim nos comentários no YouTube ou nos grupos que eu costumo compartilhar as músicas, mas eles são todos muito respeitosos e nunca passaram muito dos limites, o que pra mim foi uma surpresa, considerando o conteúdo das músicas. Sobre críticas, sim, tem alguns poucos que criticam, mas não dá pra fugir disso, vida que segue. Só me irritou uma vez um cara dizendo que os outros caras só gostavam das minhas músicas porque eu sou uma “menininha bonitinha” que fala de sexo e porque eles sentem que teriam chance comigo, ou sei lá. Mas falando com ele, entendi que ele se incomodava com o fato de eu ser mulher mesmo. Se fosse um cara cantando as mesmas músicas, talvez ele nem ligasse e isso é foda, porque parece que só porque eu sou mulher o meu trabalho não tem valor nenhum.

A recepção positiva surpreendeu ou você não liga para isso?

Olha, me surpreendeu bastante. Quando eu compartilhei “Você é a razão das punhetas de alguém” no grupo Lektronik (obrigada, Orkutão!) depois de três dias a música já tinha cerca de dez mil visualizações no SoundCloud. Eu não imaginava que a repercussão de uma coisa que eu fiz na brincadeira ia ser tão grande.

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Você pretende gravar com banda?

Eu pretendo sim, mas eu não manjo nada de arranjo e etc… Toco violão e ukulele muito meia-boca, mas seria bem bacana gravar com uma banda e gente que realmente entende de música.

O disco tem uma sonoridade meio folk.

A ideia não era ser folk não, é simplesmente como eu consigo fazer. As músicas são de uma simplicidade quase infantil (com exceção do conteúdo das letras, é claro) e fazer a melodia, pra mim, é o que dá mais trabalho, então eu deixo da maneira mais simples possível mesmo.

Qual o impacto do Youtube na repercussão de suas músicas?

Antes eu nem pensava em fazer nada pro YouTube, eu não tinha muita ambição mesmo, mas aí eu vi que o pessoal tava gostando bastante e um amigo falou da gente gravar e eu acabei gostando bastante da ideia.

Pra finalizar, recomende uma banda ou artista que só você conhece e acha que todo mundo deveria ouvir.

Eu gosto muito de uma banda que chama Saulo Duarte e a Unidade. É uma mistura de ritmos que vai do brega ao carimbó passando pelo reggae. Vale a pena procurar, são músicas bem animadas.

Ouça abaixo as canções de “Músicas de Amor & Putaria”, de Nelisa:

O rock vive com a paulada da dupla The Hunted Crows

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Depois do reconhecimento da dupla Royal Blood pela crítica e público (com um empurrãozinho de Dave Grohl, que os elogiou publicamente), encontrei outra banda ótima contendo apenas dois integrantes. O duo de Melbourne The Hunted Crows lançou seu primeiro EP auto-intitulado em setembro de 2014.

A formação tem uma peculiaridade: os vocais principais não são feitos pelo guitarrista cabeludo Luy Amiel, e sim pelo baterista Jacob Linnett. O som lembra os momentos mais barulhentos do White Stripes, com guitarras comendo soltas em riffs que grudam na cabeça e uma bateria vigorosa tocada sem medo de estourar as peles.

Ouça o EP “The Hunted Crows” abaixo e veja o clipe do primeiro single, “Sniff You Out”:

Meninas Superpoderosas

Entrei numas de ficar quase diariamente fuçando em bandas underground. Sejam novas, velhas, sem gravadora, sem dinheiro, sem instrumentos, tanto faz: o importante é que sejam legais e façam um som foda. Existe muita música boa rolando por aí enquanto o Gene Simmons insiste que o rock morreu (mas continua fazendo turnê com o KISS, afinal, foda-se a coerência).

Já que eu não gosto de guardar essas coisas maravilhosas pra mim, vou compartilhar com vocês apenas as bandas que me surgiram nos fones no dia de hoje. Todas ótimas e merecem ser ouvidas! Hoje, por um acaso são só bandas com vocais femininos, uma BEM diferente da outra.

Mother Feather – Uma das bandas que ainda acha que o visual importa tanto quanto o som. A banda nova iorquina formada por Ann Courtney e Elizabeth Carena nos vocais, Matt Basile no baixo, Chris Foley na guitarra e Gunnar Olsen na bateria está na ativa desde 2010 e bebe muito na fonte do glam rock e do som de grandes mulheres como PJ Harvey.

 

Velta – O trio do Brooklyn é mais puxado para o alternativo dos anos 90, citando como influências Superchunk, Big Star, Pavement e Fountains of Wayne. Aliás, eles se descrevem como “se o Superchunk e as Ronettes tivessem um filho”. Formada por Emmy Wildwood na guitarra e vocais, Zach Jones na bateria e voz e Derek Blauser no baixo e na ativa desde 2011.

 

Butcher Babies – Com esse nome singelo e formado por ex-coelhinhas da Playboy, essa é de longe a mais pesada das três. E a porrada come solta sem dó. Formada pelas vocalistas Heidi Shepherd e Carla Harvey, o guitarrista Henry Flury, o baixista Jason Klein e o baterista Chris Warner, a banda de Los Angeles deixa qualquer música atual do Slipknot no chinelo. Na ativa desde 2010.

Nick Waterhouse e o garimpo musical

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Nick Waterhouse
O que você aprende depois dos 30 anos de idade? Bom, se você é viciado em música e não se contenta com o que lhe é oferecido, já deve ter aprendido bem antes que o negócio é fuçar.

Sim, fuçar. Para não ficar só nos sons óbvios que as rádios e TV te oferecem e que não necessariamente são bons (basta ver o rock chorento e sem guitarras que está nos sendo vendido hoje em dia), você precisa ter algo de garimpeiro. Perguntando a amigos, pesquisando em blogs, indo a lojas de discos ou usando uma ferramenta que é muito útil nos dias de hoje: o Youtube.

Foi nele que descobri (meio sem querer) o selo Innovative Leisure, de Los Angeles. Entrei no canal deles por acaso, para ouvir a banda Bass Drum of Death. Quando eu descubro uma banda bacana como essa e o vídeo está no canal da gravadora, procuro alguma outra banda. Se essa também é boa, saio ouvindo tudo. E foi aí que achei essa pérola abaixo.

Nick Waterhouse tem cara de Buddy Holly e toca um som bem calcado no soul, sensacional. Tá na estrada desde 2010 e já tem dois discos lançados. E por isso eu digo que fuçar é saudável: se eu não tivesse fuçado, não conheceria esse som incrível até hoje:

Continuem fuçando, amiguinhos!