Canções inspiradas pelo mundo incrível das histórias em quadrinhos

Read More

Sinestesia, por Rafael Chiocarello

Quadrinhos colecionáveis possuem versões raras e uma legião de fãs. A Comic Con de San Diego (Califórnia) é uma das feiras mais famosas do mundo. Por aqui temos a versão brasileira e eventos que também dão espaço para a cultura geek (Fest Comix, Bienal de Quadrinhos, Festival Guia de Quadrinhos, Bienal do Livro…), além das livrarias, sebos e eventos especializados de menor escala.

Uma paixão sem limites e os épicos personagem e super heróis estão na linha de frente dos preferidos da galera. Não é por acaso que tamanha obsessão chegasse ao mundo da música. Afinal de contas, as artes sempre se complementam. Hoje conheceremos algumas canções que mergulharam nas páginas das HQ’s mais populares do mundo. Marvel ou DC? Bom, essa treta deixamos para vocês decidirem o lado da força que mais lhe agrada…

butcher-batman
O designer brasileiro Butcher Billy costuma fazer crossovers entre músicas e o universo dos quadrinhos

Batman Nã Nã Nã Nã Nã!

O Rancid pode não ser uma das primeiras bandas que pensaríamos no universo geek, mas em 1994, no lançamento do Let’s Go” – álbum que tem “Radio”, composição feita pelo vocalista Tim com Billie Joe (Green Day) – temos “Sidekick”.

Na letra, Tim Armstrong se auto-intitula Tim Drake e tem o papel de mostrar personagens secundários dos HQ’s. No caso o exemplo de Robin, fiel escudeiro de Batman sempre à margem de colher os louros. Outro citado na letra é Wolverine.

Um dos álbuns mais clássicos do The Jam, In The City” (1977), traz “Batman Theme”. Sim, literalmente o tema da saga em uma versão mod rock revival com pézinho na simplicidade do punk rock 77. Paul Weller dá todo um tom vintage ao clássico tema da saga do morcego.

O The Who, em 1966, também deixou seu registro, porém com uma linha mais  lisérgica e cheia de enfoque na bateria energética. Uma versão com um ar de surf rock e garagem um tanto quanto interessante.

Mas a minha versão favorita do clássico sempre será essa pérola gravada por um baita guitarrista, diga-se de passagem. Em 1989, a lenda Link Wray também quis deixar sua versão instrumental e dançante para o hit mais famoso de Gotham City.

Mas quem levou Batman para as pistas de dança foi Prince, com classe, funk e ousadia como sempre fez. A canção “Batdance” foi feita especialmente para o filme da saga de 1989. As guitarradas são um show a parte, com grooves e solos vibrantes.

Em 2002, Snoop Dogg se aventurou a homenagear o homem morcego. Só que dessa vez ele não deixou o Robin de lado e ao lado de Lady Of Rage Rbx fez uma versão mega original com rimas de tirarem o fôlego.

“No one, can save the day like Batman
Robin, will make you sway like that and
Beat for beat, rhyme for rhyme
Deep in Gotham, fightin crime
No one, can save the day like Batman”

Ainda no mundo do rap, Bow Wow em 2011 fez uma versão hip hop e agressiva para Batman. Com uma versão cheia de escárnio e quebrando toda a áurea celestial que o herói tem, os Garotos Podres vem para tirar a máscara de Bruce Wayne com sua releitura sarcástica de “Batman”.

“Hey seus bat palhaços, quem de vocês
Ainda não se lembra daquele idiota bat programa,
Que passava naquele imbecil bat canal,
Naquele cretino bat horário?

Há! velhos tempos, hein.
Quantas belas vomitadas nós dávamos quando assistíamos toda aquela idiotice,
Por isso agora escrachamos aquele bat retardado
Defensor do sistema, Batman!

Bat era um bom menino
Defendia Gotham City
Enquanto seu amigo Robin
Lhes botava um bat-chifre…”

De tanto fãs de Batman alimentarem que “I Started a Joke” dos Bee Gees ter referências a um dos maiores vilões da história em quadrinhos, as pessoas chegaram a acreditar que se tratava de uma letra homenageando o Coringa, um dos antagonistas mais queridos da história do cinema. Claro que a equipe do Esquadrão Suicida estava ciente de tal “menção” e em um dos 5000 trailers que soltaram antes do filme – o primeiro deles – contava com uma regravação de Becky Hanson.

Spider Man, Spider Man!

dance

O Homem-Aranha é um dos mais carismáticos quadrinhos da Marvel e um dos super heróis mais conhecidos. A lenda de Peter Parker ganha terreno no mundo da música até nos dias mais atuais.

É o caso do Black Lips, que em 2011 chegou com “Spidey’s Curse” no disco Arabia Mountain”, um blues garageiro moderno cheio de referências ao personagem por trás da roupa vermelha.

“Peter Parker’s life is so much darker than the book I read
‘Cause he was defenseless, so defenseless when he was a kid
It’s your body, no one’s body, but your’s anyways
So Peter Parker don’t let him mark ya, it’s so much darker
Don’t let him touch ya, he don’t have to stay!
Don’t fill a spider up with dread

Spidey’s got powers, he takes all of the cowards
And he kills them dead
But when he was younger, an elder among him messed him in the head
So Peter Parker don’t let him mark ya, it’s so much darker
Don’t let him touch ya, he don’t have to stay!”

Claro que nessa lista o clássico dos clássicos dos sons inspirados em quadrinhos não ia faltar. A versão dos Ramones para o tema de Spider-Man não poderia ficar de fora de maneira alguma, esta que foi gravada quase no fim da carreira da “Happy Family”, em 1995.

Uma das bandas que marcaram o movimento noventista das riot girls, Veruca Salt tem uma canção com referências ao Homem-Aranha, “Spiderman 79”.

“You’re so nice,
you tie me in a web
and cradle me till dawn.
You’re so deadly
that I can see your breath
beneath me when you’re gone.
You’re so windy,
I’d like to pin you down
and tack you to the wall.
Spiderman”

SUPERMAN!!

super-man

Se tem um personagem que é amado e odiado por muita gente é o Superman. Gostando ou não, ele é um dos mais marcantes e perde seu poder com a terrível kryptonita. É não deve ser fácil defender o sua por trás de sua capa.

Uma canção que cita a capacidade de voar do super herói é “Hit The Ground (Superman)” do The Big Pink. A canção está presente no álbum Future This” (2011) e inclusive estrelou a trilha de uma das edições dos jogos FIFA.

“…But if I fall off this cloud
If I fall off, oh superman
Oh Superman
I don’t wanna hit the ground (X3)
Oh Superman”

Outra canção que fala do super herói e marcou a geração viciada em vídeo games de console foi “Superman” dos ska/punkers do Goldfinger. Presente na primeira edição do jogo Tony Hawk’s Pro Skater, a canção fazia qualquer um terminar a fase do jogo se sentindo o verdadeiro Super Man!

“…So here I am
Doing everything I can
Holding on to what I am
Pretending I’m a Superman
I’m trying to keep
The ground on my feet
It seems the world’s
Falling down around me”

Os estranhões mais queridos do rock alternativo, The Flaming Lips, também prestam homenagem ao personagem na melancólica “Waitin’ For Superman” presente no álbum The Soft Bulletin” (1999).

“…Tell everybody
Waitin’ for Superman
That they should try to
Hold on
Best they can
He hasn’t dropped them
Forgot them
Or anything
It’s just too heavy for Superman to lift
Is it gettin’ heavy?
Well, I thought it was already as heavy as can be”

Em 1977, quem cedeu a voz para homenagear o homem voador foi Barba Streisand na bela “Superman”. O vozeirão transformou a odisseia do super herói em uma balada desesperada. A metáfora do herói de plano de fundo para uma paixão ardente.

“Baby I can fly like a bird
When you touch me with your eyes
Flying through the sky
I’ve never felt the same
But I am not a bird and I am not a plane
I’m superman
When you love me it’s easy
I can do almost anything
Watch me turn around, one wing up and one wing down
I never thought I could fall in love for good
I’m superman…”

Os anos 90 nos apresentaram o Spin Doctors e em 1993 eles lançaram “Jimmy Olsen Blues” que tinha como plano de fundo o universo do Homem de Aço.

“Lois Lane please put me in your plan
Yeah, Lois Lane you don’t need no Superman
Come on downtown and stay with me tonight
I got a pocket full of kryptonite
He’s leaping buildings in a single bound
I’m reading Shakespeare in my place downtown
Come on downtown and make love to me”

Existem homenagens interessantes ao azulão pelo Stereophonics, Taylor Swift, Eminem, 3 Doors Down, T. Pain, Alanis Morissete, Hank Williams Jr e até do Matchbox Twenty, mas para fechar as canções que homenageam o super herói eu escolhi o The Kinks. No fim dos anos 70 eles gravaram “(Wish I Could Fly Like) Superman” para o disco Low Budget” (1979).

Quadrinhos e Desenhos

bat

Debbie Harry e o grupo pop Aqua optaram por não darem nomes aos homenageados em fizeram homenagens um pouco mais genéricas. A estrela do Blondie vem com “Comic Books” onde eterniza sua paixão pelo mundo dos quadrinhos e sua adolescência. Já grupo de europop Aqua (sim, aqueles mesmos de “Barbie Girl”) são mais claros quando o assunto são “Cartoon Heroes” (1999).

“Long before I was 12 I would read by myself.
Archie, Josie, super-heroes.
I would read them by myself.
I had the stars on my wall.

14 was a gas for me.
Batman on tv.
I would cheer the super-heroes.
They were all I wanted to be.
I had the stars on my wall.

18 I was guaranteed.
I would lose my teenage dream.
But it’s so funny how I got to look.
Like all the people in my comic books.
Now I’m a star on my wall.

Comic books.”

“…We are the Cartoon Heroes – oh-oh-oh
We are the ones who’re gonna last forever
We came out of a crazy mind – oh-oh-oh
And walked out on a piece of paper

Here comes Spiderman, arachnophobian
Welcome to the toon town party
Here comes Superman, from never-neverland
Welcome to the toon town party

We learned to run at speed of light
And to fall down from any height
It’s true, but just remember that
What we do is what you just can’t do

And all the worlds of craziness
A bunch of stars that’s chasing us
Frame by frame, to the extreme
One by one, we’re makin’ it fun”

Flaaaaaash!

flash

The Flash, o personagem que gostaríamos de ver competindo com Bolt também foi alvo de homenagens no mundo da música. “The Ballad of Barry Allen” (2003) do Jim’s Big Ego narra a trajetória da persona que dá vida ao Flash, Barry Allen.

“….And I’ll be there before you know it
I’ll be gone before you see me
And do you think you can imagine
Anything so lonely
And I know you’d really like me
But I never stick around
Because time keeps dragging on
And on…”

Capitão América

O herói mais patriota da história dos quadrinhos, Capitão América, não ia ficar fora das referências. Na canção do Moe. “Captain America” também tem homenagem ao Superman.

“Captain America said you gotta be like me
Or you’re gonna wind up dead last
At the end of your rope
Flat broke
Down and tired
You sleepy head
Won’t you go to bed
Let me run your life
Lies

Clark Kent ran for president
No one knew about the secrets locked in his head
Friends tried to take his life
Accusations flew
Flew like Kryptonite
Clark still looking good
What you gonna say
To make everything alright
Lies”

O Justiceiro

Outro personagem da Marvel a ganhar notoriedade no universo da música foi O Justiceiro. Quem presta o tributo são os caras do Megadeth em “Holy Wars…The Punisher Due” (1990). E de quebra, para uma canção totalmente politizada, pois denuncia a violência dos conflitos na Irlanda do Norte conhecido como “The Troubles”. Aliás, o próprio U2 tem uma música sobre o assunto, é claro.

Ainda no mundo do metal temos o guitarrista Joe Satriani com sua homenagem ao Surfista Prateado em “Surfing With The Alien”. Ouça e flutue nessa viagem espacial.

Motoqueiro Fantasma

O Motoqueiro Fantasma ganhou uma homenagem que também entrou na trilha de “Taxi Driver”. A canção presente no primeiro álbum dos punks do Suicide (1977) tem uma alta voltagem e vive perigosamente assim como o personagem.

O pesquisador musical Henry Rollins, ex-Black Flag e Rollins Band também regravou uma interessante versão do clássico do Suicide.

Mas vamos fechar com um verdadeiro “achado” das HQ’s. Um rap que adapta Guerras Secretas originais da Marvel. Mas mais do que isso, a faixa possui uma colaboração do mestre Stan “the man” Lee. A faixa do The Last Emperor contém parte 1 e parte 2.

Garimpo Sonoro #12 – Estudando Tom Zé: 5 vezes em que Tom Zé foi nota 10!

Read More
Tom Zé

De maneira dolosa, Tom Zé sempre se vendeu como o Vagabundo enquanto seus atos explicitavam seu dom chaplinesco. Em meio século de carreira, o artista vindo da hipercitada Irará-BA se formou em música na renomada Faculdade de Música da UFBA e usufruiu desta base técnica com tanto primor quanto sua abordagem criativa com as palavras e sons.

Precisaria de muitos caracteres para discorrer sobre o caráter artístico do Senhor Zé – incluindo sua relevância na Tropicália – por isso, como de praxe, resumirei em apenas cinco amostras:

“Tô” – Quando se vê toda a carreira de Tom Zé, “Tô” se mostra muito mais do que um manifesto: é uma cartilha que Tom Zé segue à risca.

Plágio – Em 1990, Tom Zé expôs um pouco do tortuoso caminho criativo cheio de dialogismos que ele costuma usar em sua obra. Aqui, ironiza uma acusação de plágio ao fazer uma música em que quase nada é seu.

“Estudando o Pagode” – Há 11 anos, Tom Zé levantava parte da bandeira do feminismo sob o véu de sua releitura sobre o pagode. O álbum, em forma de operetta em três atos, conta a história da opressão à mulher, sua relação com o homem e a distorção do amor. O disco todo vale a pena, mas aqui ilustro com “Proposta de Amor”.

“Tropicalea Jact Est” – Apesar de não incluir na série “Estudando”, Tom Zé revisita a evolução da Bossa Nova em um belíssimo disco que conta com participações atuais, como Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante, Pélico e Emicida.

João da Esquina – No seu livro “Tropicália Lenta Luta”, Tom Zé mistura sua biografia com uma releitura sobre a vida de todos. Ao final, compilou alguns artigos que ele publicou em jornais diversos. Um deles, de 2001, homenageia João Gilberto ao mesmo tempo que consegue traçar um paralelo genial entre a Bossa Nova e a fórmula de Einstein E=MC²

Este não tem vídeo, mas leia o artigo (http://navegandonavanguarda.blogspot.com.br/2009/07/artigos-extraordinarios.html) enquanto ouve a instrumental “Toc”:

Garimpo Sonoro #11 – Engov We Trust: 5 Músicas sobre Ressaca

Read More
Homer Simpson

O Brasil só começa depois do Carnaval, mas dependendo do seu uso do feriado, sua vida parece acabar depois de tanta festividade. Há quem se programe para terminar cedo e curtir uma quarta-feira de cinzas mais tranquila. Contudo, os imprevistos da vida às vezes te chamam para beber numa terça de Carnaval com a desculpa que não é preciso trabalhar na manhã seguinte. E você ainda acredita.

Eis que você acorda sem saber se morreu, sem saber que horas são e tendo que esperar alguns segundos até que seu cérebro acesse sua própria identidade e te diga quem você é.

Para quem se encontrava nesta situação ontem, ou quem ainda não sarou de tanta inconsequência, eis cinco canções que ilustram o pesadelo pós-esbórnia.

Matanza – “Ressaca Sem Fim”: É difícil não falar de álcool sem falar de Matanza. A banda consegue fazer um som foda e uma letra precisa:

Muzzarelas – “I’ll Never Drink Again”: quem nunca falou para Deus, mãe ou a si próprio que nunca mais encostaria em uma bebida? Nem uma semana já tá dando trabalho de novo…

Janis Joplin – “What Good Can Drinkin’ Do”: um blues que questiona os porquês desse mal que ingerimos e que não deixaremos de ingerir.

Johnny Cash – “Sunday Morning Coming Down”: um domingo normal para aqueles desfrutam do prazer de se destruir com uma rotina ébria.

Tom Waits – “Bad Liver & Broken Heart”: impossível deixar Mr. Waits de lado e é mais impossível escolher uma única canção. Mas talvez esta frase seja uma ótima para terminar esta coluna: “Eu não tenho problemas com bebida, apenas quando não consigo uma”.

Garimpo Sonoro #10 – ISCA: 5 amostras de como o Ska te pesca com facilidade

Read More

Estou em uma semana nostálgica. Talvez seja pelo começo do ano; talvez por ciclos naturais da vida; ou seja porque achei uma pasta com fotos do Orkut que eu salvei antes da morte da rede social. O fato é que uma coisa levou a outra e eu relembrei da época em que jogava video-game. Nunca fui um bom ~gamer~, tanto por falta de habilidade, quanto falta de devoção. Mas alguns jogos me fisgaram: Need For Speed, Road Rage e Tony Hawk’s Pro Skater.

Este último, além de ser um divertido jogo de manobras e missões voltadas ao mundo do skate, também trazia uma trilha sonora com coisas bem bacanudas. Daí me lembrei de uma, Goldfinger, que abriu a mente para o tema da semana: SKA!

Ao contrário do que muita gente imagina, o Ska é antecessor do Reggae. Primeiro surgiu o ritmo mais animado e rápido, com a guitarra fazendo os acordes no contratempo. O reggae é uma releitura, com uma abordagem mais vagarosa, criando uma névoa sonora propícia a muitas atividades recreativas.

A seleção abaixo não é pela importância de cada banda, mas uma mescla de coisas mais clássicas a coisas mais famosas que eu fui lembrando ao longo dessa viagem que começou com um jogo de Playstation (sim, o primeiro!).

Voodoo Glow Skulls – “Shoot The Moon”: no disco, a voz da introdução é nada mais, nada menos, do que um trecho de Up In Smoke, da dupla maconheira Cheech & Chong. O Voodoo Glow Skulls fazendo um ska-core agressivo e divertido ao mesmo tempo. Ótimo para dar aquela acordada no meio da tarde de trabalho.

Toots & The Maytals – “Monkey Man”: não, essa música não era da Amy Winehouse. Este grupo jamaicano surgiu nos anos 60, quando o ska começava a esquentas as pistas do país. Ao ouvir, é fácil entender a razão do sucesso. Impossível ficar parado.

Sublime – “Wrong Way”: Aaaah, os anos 90. MTV, clipes divertidos, tardes ociosas… Tão sublime (RÁ!). Quem nunca ouviu “Santeria”, do Sublime?

Skuba – “Não Existe Mulher Feia”: no final dos anos 90, o Brasil produziu uma safra de bandas do estilo com trocadilhos no nome. Skuba, Skamoondongos e Skabong. Skuba foi uma das mais famosas, numa época em que a MTV era um ponto de referência. Assim, uma música divertida com um clipe criativo era uma ótima receita.

The Mighty Might Bosstones – “The Impression that I Get”: ouvindo essa música me vem à cabeça as coletâneas em CD da 89FM. Comprava sempre que as via – um garimpo analógico, apesar de já ser na era do CD.

Lembra de mais algum ska bacanudo? Divida com a gente!

Garimpo Sonoro #9 – A Vida é Obra de David Bowie (1947-2016)

Read More
David Bowie

Ainda está fresca a notícia da morte de David Bowie… e Bowie andava fresco em minha mente. Coincidentemente, estava justamente numa fase bowiesca… No final do ano ouvi por completo com amigos o disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars; na semana passada estava ansioso para ouvir na íntegra sua última obra, mas enquanto não era liberada, me continha com um show de ‘72; na sexta ouvi algumas vezes Blackstar, seu agora disco-testamento, e gostei muito.

Mesmo sem pensar, recentemente apreciei Bowie como se deve: por completo. Ouvir faixas isoladas é a maneira mais viável – ainda mais neste mundo ansioso que vivemos -, mas algumas artes só são perfeitamente absorvidas em sua totalidade.

E Bowie é um artista completo. Tão completo que transformou sua própria morte em um capítulo de seu último trabalho. Pensando friamente, o enredo não poderia ser mais perfeito: lanço um aperitivo com um mês de antecedência, com um clipe sombrio que se tornaria profético. Presenteio a todos, no dia do meu aniversário, com um álbum denso, pesado e diferente. Dou três dias para um primeiro contato, para que todos possam se familiarizar com as músicas. Então, como um epílogo surpreendente de um livro clássico, adiciono a morte do protagonista.

E não é a primeira vez que Bowie se mata. Lembremos de Ziggy Stardust, cuja última aparição foi em julho de 1973.

Como um artista real, seu principal objetivo não era o agrado da audiência, mas o respeito à suas crenças. É creditada a ele a frase: “Eu não sei para onde eu estou indo daqui, mas eu prometo que não será entediante”. Dylan, tão referência para Bowie que foi sua musa em “Song for Bob Dylan”, uma vez disse que um artista não pode se confortar com um momento, tendo sempre que estar num estado de constante mudança. Algo tão coerente sobre Dylan, quanto sobre Bowie.

Perder um Bowie é perder um artista em constante ressignificação. Contudo, é também um momento para refletirmos sobre o que somos e o que queremos ser. A pergunta que ele fez décadas atrás pode ser adaptada para hoje: existe vida na Terra?

E o quê podemos tirar de bom em tudo isso? O senso de missão artística que sempre pairou sobre Bowie. O artista imortal venceu o homem moribundo. Ao saber de seu fim, escolheu curtir a vida através de um último suspiro como David Bowie. Um David Bowie que quis amenizar as dores de David Jones e sua família.

Assim, podemos afirmar: esta foi a última transformação do eterno Camaleão.

Ou a primeira, esteja onde estiver.

Garimpo Sonoro #8 – O Mito da Caverna: 5 vozes graves que cantam pro eu interior

Read More
Leonard Cohen
Leonard Cohen

A voz grave é um charme desde sempre. Dos cantores de barbershop a Barry White, qualquer um fica impressionado quando ouve um barítono de responsa. Se o tom agudo representa uma técnica impecável, o grave é o controle da essência, tão técnico mas mais intenso – pelo menos quando feito com o âmago.

Abaixo, uma seleção de músicos que tenho ouvido ultimamente – alguns garimpos recentes e outros pérolas clássicas.

Tem alguma indicação? Manda pra cá!

1- Sean Rowe: com uma voz volumosa, a primeira impressão é de que ele está com uma bola na boca. Depois, quando se acostuma com o timbre, a sensação é de tranquilidade, mesmo que com ares melancólicos.

2- Laura Marling: eu nunca me esqueço da primeira vez que a ouvi. Nos primeiros segundos, me impressonei pela habilidade no violão de uma moça tão pura, angelical. Daí veio a voz e tive que me lembrar de respirar. Suas feições pareciam não bater com sua voz. Era como se uma regra fosse quebrada e a partir daí, tudo era possível. E sem regras, no escuro, não nos resta nada a fazer a não ser apreciar e contemplar, sem a necessidade de entender.

3- Bill Callahan: a seneridade na melodia e na letra combinam tanto com o timbre quanto a ambiência criada por todos os outros elementos. Ouvir Bill Callahan é ouvir a si próprio, como se o que ele criasse não fosse música, mas o silêncio necessário para se escutar.

4- Leonard Cohen: não há dúvidas, aqui ouvimos a voz de Deus. Não há espaço nem para ouvir a si mesmo, não há tempo de ficar parado. É necessário sair de si, abraçar-se e transformar-se em um andarilho enquanto a música durar. É ser um peripatético, trilhando um caminho enquanto raciocina sobre a trilha que se forma.

5- Johnny Cash: talvez uma das vozes graves mais famosas e mais influentes. The Man in Black dialoga com os demônios de todos – pois saiba que todos temos um espaço para eles. E ao falar com este lado, o resultado varia. Para alguns é domar os riscos, para outros é acender a faísca do veneno. Seja como for, não há volta.

Garimpo Sonoro #7 – Mete o dedo nesse órgão: 5 sons fodásticos de Hammond

Read More
Booker T Hammond

John Medeski considera o órgão elétrico como “a big band do pobre”. Criado por Laurens Hammond e John M. Hanert nos anos 30, o órgão Hammond tinha como público-alvo igrejas que precisavam de um órgão mais barato do que os gigantes usuais. Nos anos 50, porém, o instrumento ganhou espaço no jazz, sendo depois difundido para outros estilos.

O instrumento hoje ganhou releituras tal qual guitarras, com inserção de efeitos e distorções. Um aliado do Hammond com tanta fama quanto o próprio é a caixa Leslie, com falantes rotativos que criam um som trêmulo muito louco.

Listo aqui 5 músicos fodões que vieram a minha cabeça como referência do Hammond:

1) Jimmy Smith: juntando o jazz com o groove do funk, Jimmy Smith trouxe não só uma nova sonoridade, mas também uma malandragem muito interessante para o jazz. Saca só:

2) Booker T Jones: outra referência fodástica do Hammond. Aqui, temos um Booker T solitário, sem seus MG’s, mostrando boa parte do potencial do Hammond a partir do seu talento. Outra parte foda do vídeo abaixo é ver o instrumento despido, só, e em ótima resolução tanto de som quanto imagem.

3) Não um, mas dois! Orgel Vreten é o mais recente que conheci. Como são alemães, não sei se são um duo ou uma banda completa, mas o resultado sonoro é uma porrada instrumental com groove, peso e malandragem, espalhados em dois órgãos, baixo, bateria e até trombone.

4) Ari Borger: a parcela brazuca é muito bem representada por Ari Borger e seu quarteto, que misturam jazz, samba e soul para fazer um instrumental fodástico, mesmo que sem usar um Hammond original.

5) Medeski, Martin & Wood é um trio que experimenta sons, ritmos e riffs a partir de um groove sem igual. Eles já se juntaram com o guitarrista John Scofield, produzindo algo tão bom quanto quando são trio.

Tem alguma dica de “organeiros” bons? Manda pra cá!

Garimpo Sonoro #6 – Porque os bootlegs oficiais de Bob Dylan são mais que caça-níqueis

Read More
Bob Dylan

Tenho um certo apreço pela obra de Bob Dylan. Talvez eu goste um pouco mais do que qualquer outra pessoa que você conheça. Talvez eu até tenha um blog chamado Dylanesco, focado apenas no universo deste senhor. E talvez eu cometa algumas loucuras financeiras em decorrência dos lançamentos fonográficos deste ser. Mas gostaria de contextualizar e até te convidar a entrar em parte deste universo: o da arqueologia musical.

Desde 1991 a equipe de Bob Dylan faz uma verdadeira limpa no porão fonográfico do músico e presenteia o público, e o bolso de Dylan, com boas pérolas desse verdadeiro garimpo. O próprio cantor não parece ter qualquer influência nessa coleção de discos, lançada paralelo à produção de Bob e intitulada ironicamente de Bootleg Series.

Por que ironia? Porque o termo bootleg está relacionado à produção e distribuição de whiskey ilegal (na Lei Seca dos EUA). No mundo da música, os bootlegs são os discos piratas de gravações de shows, sobras de estúdios que não foram lançadas e coisas não autorizadas pela gravadora que escapam e acabam entrando neste mercado paralelo.

Bob Dylan e sua trupe, malandros que são, institucionalizaram esta cultura. Contudo, a artimanha é realmente boa, vai muito além de um mero caça-níquel e tem se aprimorado a cada edição. Já existem 12 volumes dessa Bootleg Series e os mais recentes se especializaram em períodos específicos.

E mesmo com o fortíssimo mercado de bootlegs “reais”, essas compilações conseguem tirar leite de pedra e sempre apresentam coisas novas, que nem os bootlegers tinham. E é aí que a coisa começa a ficar interessante…

Existem dezenas de livros sobre Bob Dylan e todos se baseiam em informações oficiais e não-oficiais para tirar suas conclusões. Porém, nessas revisitações dylanescas, muitas coisas são apresentadas ao público pela primeira vez, podendo abrir espaço para uma nova interpretação da história.

São músicas que ninguém sabia que existiam; versões primitivas que mostram um novo horizonte para a canção e sua intenção; sobras de estúdio que ilustram um apreço muito maior do que se imaginava do artista. Cada volume da Bootleg Series cria um enredo próprio, que se mistura ao mesmo tempo que reescreve parte da história. E Bob Dylan talvez seja um dos poucos que possa fazer isso, por conta principalmente de seu formato de criação no estúdio.

Okay, talvez a afirmação acima seja um pouco tendenciosa. Mas deixa eu tentar explicar de um jeito didático que não pareça um físico espumando para te fazer entender sobre as teorias de Einstein. Bob Dylan trata sua obra como algo tão mutável quanto o próprio sentimento, a vida, o mundo. Uma vez, ao ser questionado porque ele não interpretava uma determinada canção do jeito que gravou, ele respondeu algo como: “Aquela gravação é só o registro daquela música, naquele dia. Você não gostaria de viver o mesmo dia mais de uma vez, gostaria?”.

E ele nem está sendo tão sincero. Seus discos não são apenas registros do dia, mas registros daquele exato momento. Uma música rápida e raivosa em um take pode se transformar em algo melancólico e suave no take seguinte. A letra pode mudar, o andamento pode mudar, os acordes podem mudar. Tudo a favor de uma Musa que não só possui sentimento, como também humor.

Para Bob Dylan, a música é um ser vivo com vida própria, que escolhe suas trilhas enquanto reconta seu enredo. E os Bootleg Series são os manuscritos das histórias registradas nos discos. Com eles, temos acesso aos bastidores da criação, vivenciamos a mutação da canção como um time-lapse da criança para o adolescente.

Tá, talvez eu tenha me empolgado.

Para terminar, meu jabá: quem quiser saber mais sobre o recente Bootleg Series do Dylan e minhas observações sobre, só acessar: http://dylanesco.com/resenha-cutting-egde-observando-o-big-bang/

Garimpo Sonoro #5 – 5th of November: 5 músicas que inspiram revolução

Read More
fawkes

Quinto Garimpo, numa quinta, no dia 5… Mais coincidência ainda é ter um tema tão bom para falar hoje. Não vou entrar nos méritos históricos, mas hoje é o dia do Guy Fawkes, para alguns um personagem real, para outros apenas um anti-herói fodástico. O fato é que ele ainda inspira muita gente e não poderia ser diferente aqui, certo?

Portanto, eis cinco músicas que inspiram a revolução, cada uma a sua maneira.

1) Bob Dylan – When The Ship Comes In

Bob Dylan usou como base “Pirate Jenny”, de Brecht, para falar de uma revolução iminente, que se vinga de quem sempre esteve no controle. Direta e poética ao mesmo tempo. Típico de Dylan.

2) Tom Waits – What Keeps Mankind Alive

Uma argumentação forte e embasada: o que mantem a humanidade viva são os inúmeros atos bestiais, e não a comida ou, HAHAHA que inocência, a moral.

3) Nina Simone – I Wish How Would Feel To Be Free

Apesar de muitas vezes espumar raiva e incitar a violência, Nina também soube abordar a revolução com certa doçura, mesmo que rara. Este é um ótimo exemplo, com uma introdução clássica e jazzy, ela não indica o caminho, mas te sugere pensar: e se não houvesse essa diferença imposta? Como seria ser livre das amarras?

4) Chico Buarque e Gilberto Gil – Cálice

Apesar da liberdade ser linda quando desenhada, pouco se sabe como ela é na vida real. E alguns arriscam experimentá-la nas horas mais oportunas – e malandras. Chico e Gil, em 1973, combinam de apenas balbuciar as palavras ácidas de “Cálice”. Chico, contudo, decide mudar o caminho e passa a cantar com todas as letras. O resultado? É cortado seu microfone, simples assim. Mais instigante, impossível.

5) Michael Jackson – Man In the Mirror

Sim, é isso mesmo. Michael Jackson fechará esta lista, que poderia perdurar por muito mais tempo (e, quem sabe, ela não perdure em breve?). Michael fala o óbvio, mas que às vezes precisamos nos lembrar: se você quer fazer do mundo um lugar melhor, olhe para si mesmo e faça uma mudança.

Quer sugerir mais canções assim? Manda pra cá!

Garimpo Sonoro #4 – 6 percussionistas que tocam violão (ou vice-versa)

Read More
Paolo Angeli

Uma informação nerd-musical: você sabia que o piano é considerado um instrumento de percussão? Ele foi rotulado dessa maneira porque não há um contato direto do pianista com as cordas – o músico “apenas” aperta uma tecla que bate numa porção de cordas. E o Garimpo Sonoro dessa semana é mais ou menos sobre isso: músicos que usam o violão como instrumento de percussão (parcial ou integralmente).

1) Raul Midon: podemos chamar Midon de um multinstrumentista de um instrumento só, por tudo o quê ele faz com apenas um violão (isso sem contar a emulação de trompete da voz, mas isso é outra história).

2) Kaki King: nos mesmos moldes de Midon, mas com um grau de dificuldade (e introspecção) um pouco maior.

3) Sam Westphalen: tentando ser um 3-em-1, Sam adaptou algumas músicas do metal, como essa do Slayer, para um único violão. O resultado é criativo, apesar de soar meio vergonha-alheia.

4) Andy McKee: este talvez tenha sido um dos primeiros com quem me deparei. Andy explora as diversas sonoridades percussivas com um arranjo muito bem harmonioso. Como se somássemos Kaki com Sam.

5) The Wood Brothers: neste trio, o único não-Wood, Jano Rix, usa um violão como seu único instrumento de percussão, sem muito hibridismo, criando uma espécie exótica de washboard.

6) Paolo Angeli: este é o mais bizonho de todos listados aqui. Paolo montou um complexo instrumento que além de ser vários em um, também possui uma vida própria, mesmo que robótica.

Conhece mais algum ~violopercussionista~? Manda pra cá!