Desperte a lua em você com Linda Perhacs, “Moons and Cattails” (1970)

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Linda Perhacs
Linda Perhacs

A canção cantarolada de hoje, “Moons and Cattails”, está em um dos discos mais femininos que já ouvi, o Parallelograms” (1970), de Linda Perhacs. É o primeiro disco dela, que, assim como a Vashti Bunyan, só lançaria seu próximo álbum mais de 40 anos depois, em 2014.

Uma das coisas que mais gosto desse disco é que a energia feminina nas músicas é escancarada e colocada como protagonista. Mas antes de falar da música em si, só vou esclarecer rápida e superficialmente o que será considerado aqui neste texto como “energia feminina” ou “energia masculina”.

Lembremos que todos nós – assim como todas as coisas na Natureza – carregamos tanto energias masculinas quanto femininas. Algumas características de cada energia podem aparecer mais ou aparecer menos em cada indivíduo, o que não tem nada a ver com gênero ou sexualidade. Nossos aspectos masculinos, associados ao arquétipo do Sol, ou energia yang, seriam no sentido da iniciativa, ação, objetividade, proteção, poder, inteligência intelectual. Em desequilíbrio, podem levar à agressividade, opressão, violência, frieza, rigidez, etc. Já nossos aspectos femininos, representados pela Lua, ou energia yin, têm a ver com a nutrição, beleza, receptividade, sedução, acolhimento, sensibilidade, conexão com a Natureza. O desequilíbrio da energia feminina pode nos levar à fúria absoluta e irracional, assim como a uma excessiva passividade.

Logo de cara, dá para perceber que o nosso modo de vida, baseado no patriarcado, faz com que essas energias sejam desequilibradas em cada um de nós, de modo que temos essas energias polarizadas e em conflito. No caso, vivemos em uma lógica que tem em vista e prestigia muito mais aspectos masculinos do que femininos, resultando nos problemas todos que conhecemos muito bem, desde a opressão do machismo, até a nossa desconexão com a natureza.

Mas o que isso tem a ver com a canção “Moons and Cattails”, da Linda Perhacs? Primeiro, porque sua voz é completamente feminina, sem medo de parecer frágil e sem grandes arrobos técnicos, e ainda assim é forte e acolhedora. Mas, principalmente, esta canção remete tipicamente ao universo da “bruxaria”, ou de rituais ancestrais pagãos. A ideia da “bruxa” – historicamente atribuída como algo pejorativo, reforçando o desequilíbrio que falei acima – é tipicamente feminina, e vive em total congruência com a natureza, observando seus fenômenos e os aplicando na vida. Não à toa, as canções desse disco foram escritas por ela após um período de imersão no mato.

Nessa canção, talvez nem intencionalmente, ela lembra do aspecto cíclico da luz e da sombra, o Sol e a Lua, pela pedra basalto. Basalto é uma pedra vulcânica negra, formada a partir do magma, ou seja, do fogo.

Come along Back to dark nights… To the heavy sleep of fire To the naked blackness Of basalt [“Venha de volta às noites escuras, para o sono profundo do fogo, para a escuridão pura do basalto”]

 

Essa canção representa muito bem o que seria um som intimamente feminino. Nesse sentido, a pioneira foi Joni Mitchell, que abriu o campo para as outras cantoras/compositoras da época, fora do estilo country e soul, segundo afirma a própria Linda. Para competir com Joni Mitchell, a Warner Bros. assinou com Linda Perhacs, porém esta não alcançou o sucesso comercial esperado.

Por aqui, 40 anos depois, no cenário da música independente, muitas artistas estão surgindo com uma proposta voltada para um sentido parecido com esse: o do autoconhecimento atrelado à busca da valorização do feminino, a conexão com a natureza e os aspectos místicos e lunares da vida. É o caso de artistas como a Ava Rocha, a Papisa e o disco da Cinnamon Tapes.

Daniel Johnston e a sublime arte de domar demônios

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Conheci Daniel Johnston não exatamente ouvindo ele. “Speeding Motorcycle”, uma das faixas mais bonitas do álbum de covers do Yo La Tengo (“Fakebook”, 1990), é delicada e fofa como tudo que Ira Kaplan e companhia costumam criar. Mas aquela canção com acordes simples dedilhados tinha uma coisa a mais. Um je ne sais quoi. Era inocente. Não tinha a pretensão de fazer uma metáfora rebuscada sobre a vida ou sobre o amor. Era um cara cantando sobre sua lambreta veloz. Esse cara e esse charme ingênuo (pelo menos aparente), era Daniel.

“Speeding Motorcycle” foi o mais próximo que Daniel Johnston chegou de um hit. Em julho deste ano, o músico anunciou sua última turnê – que termina em novembro –, mas deixou bem claro que vai continuar escrevendo. Sua esperança é de que ainda saia “o grande sucesso”, confessou em entrevista recente ao New York Times. Mas quem conhece a história dele sabe que seu impulso criativo incessante tem outras razões.

No documentário The Devil and Daniel Johnston”, de 2006, conhecemos um artista divido entre extremos: de um lado uma pureza quase infantil, de outro uma confusão típica de quem não se sente adequado. Para Daniel, se encaixar no tal ‘mundo adulto’ sempre foi um desafio muito maior do que esse de fazer música. A arte, na verdade, foi a forma que encontrou para passar por tudo isso. O documentário deixa isso claro; não se trata de um relato sobre um músico dando duro para se lançar, mas sobre enfrentar seus próprios demônios. No caso de Daniel, um diagnóstico de transtorno bipolar e esquizofrenia.

Suas músicas sempre refletiram muito isso. As letras de Johnston são cartas abertas. Recortes curtos, diretos e de uma honestidade crua e certeira. Há quem o chame de gênio – pessoalmente, acho que não combina com a despretensão de sua essência artística. Há quem considere suas composições ‘rasas’ demais –  eu acho ótimo, para variar, ouvir um músico despido de ‘bandeiras’ e de peito escancarado.

No documentário, somos apresentados a algumas das inspirações de Daniel. A motocicleta foi uma delas. Sem avisar a família, Johnston partiu para um rolê pelo país e se juntou a uma companhia de circo. Em flashes de filmes originais gravados com sua super 8, conhecemos o grande amor da vida do cantor, quem o inspirou a compor. Foi para Laurie Allen um tímido, corajoso e apaixonado “Hi, How Are You?” que marcou sua história como músico.

Seu amor  não correspondido nunca foi encarado com amargura. Daniel não escolheu o caminho mais fácil, o da sofrência. Mesmo de coração partido, se preocupou em aquietar os corações melindrosos de um bando de adultos desiludidos, com uma promessa em forma de canção. “True Love Will Find You In The End” é a cantiga de ninar de uma geração teimosa que ainda acredita no amor em tempos de Tinder.

A música, como todas dele, tem acordes simples, mas inconfundíveis. Você percebe pelas batidas urgentes e às vezes dessincronizadas sua inquietação. No palco, sem o violão, suas mãos dançam dentro do bolso. Cantar ao vivo, aliás, é sempre um grande passo para Daniel. Curvado e acanhado, sua presença diante do público está longe de ser de rock star. Mas nem por isso encanta menos. A apresentação que fez em São Paulo em 2013 recebeu uma porrada de críticas positivas. Sua turnê atual, segundo o The Guardian, “decolou depois de um começo atrapalhado”.

Herói lo-fi de músicos como Jeff Tweedy, Beck e Kurt Cobain, Daniel Johnston tem inspirado como pode. Alguns com a sinceridade de seu trabalho, outros com a simplicidade com que cria, e muitos (como eu), com tudo isso mais a forma como lida com seus monstros. Quisera eu transformar os meus em música. Por enquanto, conto com a poesia dele (e de tantos outros talentosos e corajosos) para mantê-los longe. Obrigada, Daniel <3

A beleza do fim: Beck – “Sea Change” (2002)

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Beck Sea Changes

Considerando a cena do pop rock, pouca gente consegue soar tão convincente e ao mesmo tempo tão livre quanto Beck. Pensa bem, quantos têm essa habilidade incrível? Bowie, Björk, Kate Bush… Dá para contar nos dedos.

Beck transmite aquela sensação rara que nos dá a impressão de que ele é capaz de fazer qualquer coisa soar bem. Não é nada fácil brincar com gêneros, transformá-los em grandes álbuns e praticamente reinventar algo firmemente estabelecido, o que pôde se percebido em Mellow Gold” (1994) e na obra-prima Odelay” (1996). Que diabo é aquilo? Rock, rap, blues, folk… Aquilo é Beck. Talvez inconscientemente, ele, mais do que ninguém, apontou para o hibridismo sugerindo ser este o caminho a ser explorado no futuro.

E na virada do milênio Beck estava com uma carreira consolidada, recheada de bons discos, premiações e alguns milhões de cópias vendidas. O grande público comprou sua ideia maluca, e cada trabalho era uma verdadeira surpresa, como Midnite Vultures” (1999), uma releitura de sons da música negra, como funk e soul. Eis que em 2002 ele surge completamente diferente, com um dos discos mais lindos das últimas décadas.

Embora pareça desconexo na discografia de Beck até então, Sea Change” pode ser visto como uma evolução do compositor, que nunca escondeu sua queda por violões e melodias mais explícitas, como podemos conferir no incrivelmente tosco One Foot In The Grave” (1994), trabalho com pegada lo-fi voltado ao folk torto que ele gostava de assumir.

Em “Sea Change” temos uma quantidade absurda de emoção, arranjo de cordas, grandes vocais e um Beck mais maduro, sério e melancólico. Pode ter certeza que ninguém esperava um disco como este.

Naquele período o cantor enfrentava o fim de um relacionamento que durou nove anos, o que logo de cara fez muita gente comparar “Sea Change” com Blood on the Tracks” (1975), emblemático álbum de Bob Dylan que também foi inspirado em uma separação. Na verdade, nem é preciso saber dessa informação para sentir isso nas faixas. Beck traduziu essa situação com uma rara habilidade. É um disco fácil de ouvir e assimilar, e embora tenha essa densa carga de lágrimas ele emana esse forte magnetismo que as melodia tocantes carregam. Tudo é bonito: os vocais, as letras, as cordas, a simplicidade da banda e a incrível produção de Nigel Godrich. Vale destacar seu papel nesse trabalho, isso porque há por trás de praticamente todas as faixas uma atmosfera muito sutil e peculiar, e pode ter certeza que esse resultado vem da mão de Nigel, que já trabalhou com nomes de peso como Paul McCartney, R.E.M., Radiohead e Roger Waters.

Perceba em “The Golden Age” a carga daquele som. Tão simples e tão cheio, coeso, bonito e direto. É um belo jeito de abrir um disco. Esta já é um clássico contemporâneo. Você que conhece o trabalho de Beck antes de “Sea Change”, imagina a estranheza que deve ter sido escutar essa beleza logo de cara? A maturidade sonora é gritante (não confundir aqui com simplicidade).

Uma espécie de groove sombrio dita as regras em “Paper Tiger”, uma das melhores da track list. Um arranjo de cordas absurdo dá uma cor inédita em qualquer canção já feita por Beck até então.

“Guess I’m Doing Fine” meio que reassume a roupagem de “The Golden Age”, quase que uma música irmã. Outro sucesso, outra grande música, outro momento deparada obrigatória no catálogo do compositor. Com uma melodia dessa grandeza é muito difícil dar um tiro fora.

O momento mais tocante do álbum está reservado para “Lonesome Tears”, que faz jus ao título e realmente emociona. São vários os motivos para te levar a este estado de espírito, seja a letra escancaradamente pessoal, o modo que ele canta, o arranjo de cordas choroso, a dinâmica sinuosa… Essa é difícil de passar ileso, sério.

“Lost Cause”, outro grande sucesso, ainda soa adequada ao contemporâneo (o disco todo na verdade). Uma assumida desilusão encarna no espírito de Beck com uma forte convicção, o que reforça a assinatura autobiográfica em “Sea Change”­ – só tendo vivido aquilo de fato para fazer coisas como “Lost Cause” se mostrar como algo real. Esse mesmo estado de espírito soa forte em “Already Dead” e seu interessante arranjo de violão.

Seguindo a mesma pegada quase “road movie” de “The Golden Age” e “Guess I’m Doing Fine” temos outra excelente faixa, “End Of The Day”. E aqui fica evidente que este disco é bom justamente porque é bom por si só. Não se trata de novidades atrás de novidades, como nos outros álbuns de peso de Beck. Em “Sea Change” as coisas funcionam porque são orgânicas, os sentimentos não estão encobertos, e é isso que fascina.

Com um lindo arranjo de cordas fornecido por David Campbell, pai de Beck, “It’s All In Your Mind” vem como um ressurgimento. Isso porque ela já havia sido lançada como single em 1995, sendo uma sobra das gravações de “One Foot In The Grave”. E isso é muito curioso, porque comparando as duas podemos ver como existem várias personas em Beck: enquanto que a versão de 1995 soa como uma demo atraente, a faixa de 2002 é um artista por inteiro. Grande momento.

É inevitável não o comparar com Nick Drake em “Round The Bend”. A densidade da orquestra que preenche a faixa e até mesmo a melodia lembram muito “River Man”, clássica canção do cantor britânico. Mas mesmo que soe parecido, não é um caso constrangedor.

Dá até para achar um resquício de Coldplay (da fase boa) em “Sunday Sun”, que com sua batida eletrônica se mostra como o momento mais destoante de “Sea Change”, ainda que muito bem assimilado por todo o restante do trabalho. O refrão é arrebatador.

Ainda que realmente boas, sinto as duas últimas, “Little One” e “Side Of The Road”, meio que sobrando na tracklist. Mas merecem atenção, sobretudo a última, pelo trabalho de slide e aquele pouco de blues que persiste em Beck Hansen, esse artista incrível.

Há quem diga que este seja o melhor trabalho dele, há quem ache esse disco meio fora da curva, há quem considere “Sea Change” um dos melhores discos da década, assim como tem gente que considere este como um dos melhores álbuns de todos os tempos (como foi o caso da Rolling Stone e outras revistas).

De certa forma, o fim do relacionamento fez muito bem a Beck, que conseguiu ainda mais sucesso com esse trabalho e mostrou ao mundo talvez a única persona que ele ainda precisava escancarar: aquela do homem vulnerável perante os sentimentos.

A poderosa imagem de Patti Smith segundo KT Tunstall em “Suddenly I See”

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KT Tunstall
KT Tunstall

Eu sempre achei essa música, “Suddenly I See”, legal. Isso mesmo: apenas legal, agradável, uma bela canção pop com pegada meio bluesy ou soul – soul de branco, mas ainda soul. É daquelas que você fica cantarolando o dia inteiro sem perceber, e que sempre que toca no rádio dá um ânimo e uma alegriazinha. A letra sempre me remeteu à descrição de uma garota independente e jovem, mas de uma maneira meio genérica.

Porém, ao descobrir a verdadeira inspiração de KT Tunstall para escrever seu maior hit, a singela canção torna-se muito mais do que genericamente “legal”, mas uma comovente declaração sobre inspiração e referência artística. É um daqueles casos em que saber o real significado da canção para o autor contribui e muito para a beleza da letra. De fato, ela fala sobre uma garota independente e jovem, mas sobre uma específica: Patti Smith.

A letra de “Suddenly I See” descreve o momento em que KT, com seus 27 anos, descobre o porquê de estar fazendo o que ela está fazendo, e buscando o que estava buscando. No caso, ela estava há quase dez anos vivendo uma vida de perrengue, abrindo mão de dinheiro, viagens, conforto, para se dedicar à música, tocando em barzinhos e na rua. Até que ela decidiu que deveria gravar um disco e buscar um contrato em uma gravadora. É aquele ponto em que sentimos uma necessidade estranha de justificar nossas escolhas, tanto perante o mundo, quanto perante nós mesmos, e decidimos dar um passo adiante. Isso a fez refletir algo do tipo “Afinal, que tipo de artista eu quero ser?”. E, segundo a cantora, a resposta veio através da capa do “Horses” (1975).

Patti Smith é uma das artistas favoritas de KT. Naquele momento de reflexão, enquanto contemplava a capa de “Horses”, a icônica foto da Patti Smith mostrou uma jovem cheia de ‘maturidade e sabedoria’ [palavras da própria KT, estilosa e convicta. Suddenly I see this is what I want for me/ De repente eu vejo que é isso que eu quero para mim.

A partir daí, a letra de “Suddenly I See” surgiu como uma declaração de admiração, e com um tom afirmativo do que a artista não só admira, mas também busca para ela mesma. A maneira fascinada com que a jovem KT descreve a jovem Patti chega a ser comovente e contagiante. E, principalmente, é linda a maneira com que sua heroína lhe inspira e dá forças.

And she’s taller than most
And she’s looking at me
I can see her eyes looking from a page in a magazine

[Adoro essa última parte:]

She makes me feel like I could be a tower
A big strong tower, yeah
The power to be
The power to give
The power to see

[E ela é mais alta que a maioria/e ela está olhando para mim/eu consigo ver seus olhos me olhando de uma página em uma revista/ela me faz sentir como se eu pudesse ser uma torre, uma torre grande e forte/o poder de ser/ o poder de dar/ o poder de ver]

Afinal, a melhor admiração é aquela que, além de nos inspirar, nos faz sentir fortes e nos ajuda a encontrarmos a nossa própria essência. E é essa a lição que KT Tunstall nos ensina com sua homenagem à ‘ídola’ Patti Smith.

Cantarolando: os imigrantes durões em “Immigraniada” (2010), de Gogol Bordello

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Gogol Bordello
Gogol Bordello

Cantarolando, por Elisa Oieno

Gogol Bordello é uma banda formada para ser provocativa e divertida. Provocativa, porque traz à tona os temas mais pertinentes da era globalizada, como o combate ao racismo e xenofobia. A composição da banda em si já é uma afirmação disso: todos os membros são imigrantes e carregam sotaques pesados de vários cantos do mundo. E são muitos membros. A banda é bem grande, atualmente com nove integrantes, boa parte deles de países do leste europeu como Russia e Bielo-Russia, Ucrânia, e também da América do Sul, África e Ásia.

Essa pluralidade dos integrantes da banda também ajudam a trazer para o som da banda diversos elementos e influências, não só pelo uso de instrumentos tradicionais mas pelas diferentes referências, também. Você sente notas latinas entre um violino russo, um acordeom francês e percussão asiática. À primeira vista, isso pode causar uma idéia de algo forçado, tão eclético que se torna genérico. Mas, pelo contrário, eles conseguem fazer um som bem característico permeando diferentes estilos de maneira muito natural e orgânica, e uma vibe meio maldita, marginal. Talvez seja pelas influências centrais da banda, como The Clash, Manu Chao e Fugazi.

O vocalista super performático que beira à hiperatividade no palco é Eugene Hutz, imigrante ucraniano. Descendente de ciganos da tribo Roma, ele e sua família assentaram-se nos EUA após terem

passado por diversos países da Europa, refugiados do desastre de Chernobyl.

Hutz é um ativista da cultura cigana dos Roma e aponta pelos direitos civis desta etnia, historicamente perseguida e marginalizada na Europa, e dizimada durante o Holocausto nazista. Vale lembrar que até hoje os ciganos são alvo de discriminação e de estereótipos pejorativos. Pouco se difunde realmente sobre a cultura cigana, a começar pelo fato de que não existe apenas uma cultura, e sim diversas tribos com características culturais e étnicas diferentes.

Por isso mesmo, a idéia de trazer a cultura cigana – especificamente a Roma – e chamar atenção para isso na música pop é uma grande afirmação. Lembro de uma camiseta que eles vendiam, em que tinha um desenho de uma moça cigana com os dizeres: “You love our music, but you hate our guts” (algo como “você ama nossa música, mas nos odeia pra caralho”). Ouch! A frase é um trecho da música deles “Break The Spell”, muito direta sobre o preconceito e a ignorância a respeito da cultura dos roma. Não à toa, a banda é considerada como gypsy-punk, ou ‘punk cigano’.

Porém, apesar de todo o peso dessa questão cultural, étnica e social, a idéia da banda é tratar desses temas sem nunca deixar de ser otimista e se divertir. Isso fica evidente na canção de hoje, “Immigraniada (We’re Coming Rougher)”. Essa música é um bom resumo da ideia que a banda defende, a de uma ‘cidadania universal’. O clipe até termina com a pertinentíssima frase “No Human Being is Illegal”, e um link para uma organização de direitos civis, que dá suporte a imigrantes.

O tom de “vocês vão ter que nos engolir” de “Immigraniada”, lançada em 2010 no disco “Trans-Continental Hustle”, ainda é – senão mais ainda do que antes – bastante oportuno, inclusive aqui no Brasil atualmente, já que o fluxo de imigrantes de diversos países tem aumentado bastante. Em épocas de Trump, bizarrices neo-nazistas e num momento em que discussões sobre se o nazismo foi de direita ou de esquerda se tornam mais importantes do que salientar a inadmissibilidade de qualquer violação humanitária, um bando de imigrantes gritando “Nós estamos chegando cada vez mais fortes!” é uma bela atitude punk.

“Harold and Maude” (1971) – Um filminho feliz com musikitchas felizes

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Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Harold And Maude (Ensina-me A Viver)
Lançamento: 1971
Diretor: Hal Ashby
Roteiro: Colin Higgins
Elenco Principal: Ruth Gordon, Bud Cort e Vivian Pickles

Pra curte a brisa hippie diboísta do Cat Stevens, esse é o melhor filme, já que além das músicas do próprio, o enredo em si também é absurdamente lindjo e diboistão.

Tem um cara que vive só com a mãe (o pai morreu) numa mansão gigante, sempre em meio a jantares e ocasiões sociais supérfluas. Cansado dessa futilidade burguesa e com um estranho fetiche pela morte, ele forja suicídios pra mama (ela já nem dá bola, acostumada com a estranha mania do filho) e curte dá uns rolê indo por aí em funerais aleatórios. A mãe “preocupada”, esperando que o filho tenha mais “responsabilidade e ambição”, manda o garoto pro psicólogo, tenta meter ele no exército e fica tentando achar uma mina pra ele em estranhos sites de namoro. O cara contudo tá tacando o foda-se na melhor expressão niilista e num dos funerais que vai, encontra uma simpática senhora que assalta carros pra voltar pra casa e devolve no dia seguinte, quando depois da cerimônia o carro roubado é o seu, ele vai reclamar com a velha e ela acaba pedindo uma carona. O cara topa, leva ela em casa (um antigo vagão de trem, encostado num canto da estrada) e recusa a oferta pra entrar e tomar um chá, prometendo voltar outro dia.

<3

por dentro!

Ele volta, conhece a casa, toma um gostoso chá de vó com a maluca, dança (por insistência da senhora que mata o jeito quebradão do cara) e acaba obviamente se apaixonando, com seus vinte e poucos anos, pela hippie quase octogenária. A doida bem loka e feliz que faz por sinal, qualquer um se apaixonar, ao longo da semana quando se passa o longa e que é a última dos seus 79, tira cada vez mais o cara do seu jeito tímido e apático pra apresentá-lo ao fantástico mundo da louca e linda felicidade rebelde, simples e magnífica (tipo Mogli e Baloo: eu uso o neeeecessário!), que manda pra casa do caralho todas suas “angústias” existencialistas.

A música, nesse filme, que inclusive é parte importante da introdução do Harold (o garotinho) ao mundo dos felizes, é lado a lado com as cambalhotas que o casal inter geracional dá no mato, a responsável pelo clima good vibes. A trilha com músicas do Cat Stevens (e alguns clássicos do séc. XIX), deixa qualquer um chapadão num clima bem gostosinho e alegrinho (como sempre fazem as músicas dele).

Com letras que resumem bastante a filosofia da velha, a parte sonora do musical desafia qualquer tipo de “grande filosofia” e sorri boba um sorriso apaixonado, gostoso e aconchegante, cantando músicas como “If You Want To Sing Out” e “Don’t Be Shy” que dizem dos modos mais profundos e poéticos possíveis, exatamente o que se propõe nos títulos e inspiram o espectador a pular por aí cantando alto (como se faz no filme).

 

Segue em link o filme completo e a trilha sonora.

Filme:

Trilha (em playlist):

https://www.youtube.com/playlist?list=PL02CB3E1F7937EF4F

Ouçam, assistam e curtam!

Valeu!

Cantarolando o antigo cântico fúnebre de “Lyke Wake Dirge”, do Pentangle (1968)

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Pentangle
Pentangle

Cantarolando, por Elisa Oieno

Pentangle era uma banda fascinada por temas medievais, pela mitologia e música tradicional britânicas. O som deles é tão distinto que a classificação ‘folk-jazz’ parece muito simplista, mas até que dá uma boa ideia. A marcante voz feminina do grupo pertence a Jacqui McShee, co-fundadora do grupo ao lado do violonista John Rebourn.  Àquela altura, John já dividia um flat com Bert Jansch e os dois já se apresentavam em diversos cafés, os pequenos ‘clubes de folk’ pela Inglaterra, os recantos hipsters da época. Com um estilo de violão de escola clássica e tradicional, mas combinada com o moderno jazz e incorporando elementos do blues, Bert e John formariam uma parceria ilustre no mundo do ‘folk revival’ dos anos 60 [a propósito, já falei um pouco sobre ‘folk revival’e do Bert Jansch aqui nesta coluna há um tempinho, vejam lá!]. Naturalmente, Bert passou a integrar a formação do Pentangle.

John Rebourn e Bert Jansch

Vale lembrar que Bert Jansch foi um dos mais influentes artistas do folk britânico. Ele muitas vezes cantava e tocava canções antigas e tradicionais fazendo-as soar modernas e ‘cool’, ao invés de teatrais e bobinhas. Isso tudo com uma habilidade impressionante no violão, mas que passa longe, muito longe do firulento. A influência do Bert Jansch também ultrapassa o estilo meramente ‘folk’ – Jimmy Page, Johnny Marr, Paul Simon e Neil Young, por exemplo, já se declararam fãs e admitiram influência dele em seus próprios estilos. Certa vez, Neil Young afirmou que o Bert Jansh está para o violão assim como o Jimi Hendrix está para a guitarra elétrica.

Dito isso, vamos à canção cantarolada de hoje. Apesar da distinta cama de violões do Pentangle e de sua ‘cozinha’ jazzística do contra-baixo de Danny Thompson e da bateria de Terry Cox, o forte da faixa “Lyke Wake Dirge” é a longa melodia e as vozes em coro. A parte instrumental é singela, e serve apenas para dar um suporte ao tom solene e ancestral desse cântico fúnebre.

“Lyke Wake Dirge” é tipicamente uma canção folk. A letra é em inglês arcaico, um dialeto da região de Yorkshire, norte da Inglaterra. O sotaque do pessoal dessa região é fortemente influenciado por esse dialeto. Trata-se de um poema tradicional medieval, porém é provável que tanto o poema quanto o cântico tenha origens pré-Cristãs, ou seja, deve ter surgido originalmente de um ritual ou tradição do povo celta. Do jeitinho que os artistas do folk revival gostam.

Porém, as imagens e a idéia da letra que se tem registro é totalmente cristã. É um cântico para ser entoado no momento em que se vela um falecido. A palavra ‘lyke’ significa cadáver, inclusive uma de suas variações é “lich”, uma criatura mitológica do morto-vivo, o ser cadavérico, como o Lich da Hora da Aventura, por exemplo. Mas nesse caso quer dizer simplesmente ‘morto’ mesmo. “Wake” é no sentido de ‘watch’, velar o corpo. E ‘dirge’, traduz-se como hino fúnebre.

A mensagem não é lá muito confortante, como era de se esperar, já que é um cântico da Idade das Trevas. É meio que um aviso que se você, no caso o falecido, não levou uma vida de caridade, irá espetar os pés nos espinhos do pântano do purgatório. E vai doer. Você também não conseguirá passar pela ponte estreita em direção aos céus, e irá cair em chamas. Porém, os versos sempre terminam com a reza “E que Cristo receba sua alma” [And Christe receive thy saule]. Quem fica, pelo menos está na torcida pra que dê tudo certo para o coitado.

Apesar de a temática ser fúnebre e sombria, a Lyke Wake Dirge do Pentangle não se esforça para manter um tom soturno e triste, mas sim preza pela beleza da melodia e pela homenagem à tradição. E faz isso de uma maneira inconfundível. A faixa está no disco ESSENCIAL “Basket of Light”, de 1969.

O Século XX animado e musicado na animação “American Pop” (1981)

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American Pop

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

American Pop (American Pop)
Lançamento: 1981
Diretor: Ralph Bakshi
Roteiro: Roni Kern
Elenco Principal: Mews Small, Ron Thompson, Jerry Holand

O bisneto no fundo; o bisavô na frente.

Fugindo do Pogron russo de 1903, uma mãe e seu filho chegam nos EUA sem nada e começam a trabalhar: a mãe com costura e o filho distribuindo panfletos num bar. Ela morre e a criança passa a viver com o homem que o contratara. A partir disso, o órfão começa a frequentar os palcos do bar, sempre na cochia, até que por convívio com o universo dos shows começa a se apresentar. Vai pra primeira guerra, volta vivo, continua a cantar, se envolve com a máfia (seu “tutor” era parte dessa), se casa e tem filhos.

Seus filhos tem filhos e esses também tem. É por esse fio genealógico que corre o filme, contando a história americana do século XX (até a década de 80, quando o filme foi feito), através de hits da música pop de cada época, sempre se encaixando na vida do protagonista da vez (o filme conta com um protagonista para cada uma das quatro gerações), misturando o som com as situações vivenciadas por cada um, que de modo geral representam as vivenciadas pelos jovens da geração representada.

Desde um jazz que antecede (e muito) o be-bob do Thelonious Monk até uma proto new-wave, o filme passa por músicas famosas (afinal, foram hits), de conhecimento mais que popular, como “Sing, Sing Sing”, de Benny Goodman, “Somebody to Love” de Jefferson Airplane, “This Train” de Peter, Paul and Mary, “Take Five” de David Brubeck Quartet, “Turn Me Loose” de Fabian e “Don’t Think Twice” de Bob Dylan, dentre várias outras, sempre compondo junto a ilustração fantástica dos filmes de Ralph Bakshi (que faz uma ponta no filme, como o pianista que diz à mulher do órfão que seu som será um hit), cenas psicodélicas e absurdamente lindas. Contudo, é interessante dizer que nos créditos, a autoria das músicas é dada a personagens ficcionais!

Os filhos e netos, porém, apesar de sua sempre muito forte relação com as notas (de qualquer instrumento que fosse), nunca conseguem alcançar a fama e passam a vida nos bastidores, por motivos diversos, relacionados à guerras, abuso de drogas, máfia e etc. (Vale dizer, os mesmos que os levam ao universo musical). Cabe ao bisneto tentar virar o jogo…

Segue o link para o filme completo (numa versão meio bosta, mas tá aí…):

Cantarolando: o folk torto de “Cyanide Breath Mint”, do Beck (1994)

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Beck

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção cantarolada de hoje faz parte do disco “One Foot In The Grave”, de 1994 – o quarto álbum de Beck, gravado e lançado pelo selo independente K Records. Esse disco foi gravado logo antes, porém lançado depois de “Mellow Gold” (1994), o improvável álbum de sucesso completamente anti-comercial que contém o hit ‘Loser’, talvez até hoje o refrão mais conhecido de Beck.

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Diferente de “Mellow Gold”, que incorpora em seu som elementos do folk, rock, psicodelia e hip-hop, “One Foot…” é essencialmente um disco folk. Prioriza as letras e as levadas simples acústicas e a estética lo-fi. Porém, com aquela vibe forte dos anos 90, de uma aparente – e completamente calculada – displicência, desencantamento e decadência, com letras irônicas e imagens ácidas e desiludidas. Muito de Dylan e muito de Nirvana.

Também diferente de “Mellow Gold”, o álbum foi um fracasso comercial, não emplacando nenhum single em parada de sucesso, apesar de ter ganhado a atenção da crítica.

“Cyanide Breath Mint” é uma das minhas favoritas do Beck, e talvez seja especial para ele também. Isso porque foi o nome que ele escolheu para sua própria editora de música, Cyanide Breath Mint Music, através da qual publicou e distribuiu diversos dos seus próprios álbuns e singles, além de trabalhos de outros artistas como Jon Spencer Blues Explosion e até um disco do Johnny Cash.

Beck

Talvez a escolha do nome para a editora também esteja relacionada com o sentido da própria canção, que possivelmente se refere à indústria de música. Meio que como um veneno que faz você ficar cheiroso e apresentável, a balinha de menta de cianeto.

Logo de cara, a primeira frase da canção é altamente identificável por qualquer adolescente e jovem adulto em praticamente qualquer situação: “Definitivamente este é o lugar errado para se estar”, mostrando imagens de decadência como sangue no colchão e um moleque bebendo fogo, talvez uma referência ao uso de drogas e à molecada meio perdida, cenário muito presente na música alternativa desiludida com o estilo de vida dos anos 90.

Depois, uma sequência de imagens que por incrível que pareça, faz muito sentido. Especialmente as pessoas apertando as mãos delas mesmas e cuidando delas mesmas. Uma imagem forte tanto de uma sociedade individualista, quanto de uma indústria ensimesmada, tal como a da música.

Definitely this is the wrong place to be

There’s blood on the futon

There’s a kid drinking fire

Going down to the sea

They got people to meet

Shaking hands with themselves

Looking out for themselves

Uma das minhas frases favoridas da letra é: “I’ve got a funny feeling, they got plastic in the afterlife” (eu tenho uma sensação estranha, que eles têm plástico na vida após a morte). O que ele vê é tão sintético e falso que dá a impressão até de ultrapassar a vida, como se o falso, ao menos para eles, fosse maior e mais importante que o verdadeiro. Isso pode ser encarado tanto como uma crítica ao estilo de vida de consumo, quanto à superficialidade do showbizz.

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Como vocês devem ter percebido, dá para ficar viajando nessa letra, assim como dá para achar significados tanto pessoais quanto sociais e específicos nas letras de Bob Dylan. Mas o mais interessante aqui é o tom de sinceridade e confidencialidade, o que torna efetivamente “Cyanide Breath Mint” uma canção folk que reflete com precisão o espírito de um jovem “perdedor” observando o mundo, não com melancolia, mas simplesmente de saco cheio.

Cantarolando: o sermão de “God is Alive, Magic is Afoot”, de Buffy St. Marie (1969)

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Buffy St. Marie
Buffy St. Marie

Cantarolando, por Elisa Oieno

Originalmente escrita por Leonard Cohen, a letra dessa canção é na verdade um poema que faz parte do livro “Beautiful Losers”, romance escrito em 1966, antes de ele ingressar na carreira de cantor/compositor. O trecho, chamado “God Is Alive”, tem todo um jeito de sermão, de pregação, até mesmo de mantra. É um belo exemplo da a habilidade lírica de Cohen, às vezes misteriosa e mística, às vezes meio maldita e crítica ou, nesse caso, tudo isso ao mesmo tempo. Esse texto é considerado pela crítica literária um dos melhores de Leonard Cohen.

O poema virou canção interpretada pela conterrânea de Leonard Cohen, Buffy St. Marie. A cantora canadense folk foi popular nos anos 60, além de ser uma das grandes expoentes no mundo pop da etnia indígena Cree, nativos da América do Norte. Ela foi representante do movimento Red Power, que reivindicava o reconhecimento de direitos civis e de territórios indígenas. Os movimentos indígenas eram sistematicamente atacados e silenciados pelo governo. Por causa disso, no início dos anos 70, a cantora entrou para a ‘lista negra’ das rádios americanas, através de avisos enviados diretamente do governo aos DJ’s e apresentadores dos programas. Ou seja, sua música foi praticamente banida em território americano durante o período.

A versão gravada pela Buffy St. Marie é basicamente uma declamação desse poema, mas com toda a força e carga energética que a sua interpretação carrega. Para acompanhar sua voz de entonação poderosa, um violão expressivo e eventualmente alguns efeitos sintéticos na voz, algo raramente utilizado entre os cantores folk. Aliás, o álbum “Illuminations”, de que faz parte esta faixa, é um disco folk considerado experimental, pelo uso de sintetizadores e sons não convencionais, e foi o primeiro disco estéreo quadrofônico – que atualmente chamamos de “surround 4.0”.

 

“Magic is Afoot, God is Alive”, no fim das contas, é tão forte que não é necessário literalmente compreender um sentido para perceber o impacto de seu conteúdo. É possível que esteja falando ou não de um Deus. Pode estar falando de mágica bíblica, cristã, pagã, ancestral, ou de mágica nenhuma. Mas sem dúvida, dá aquela sensação meio hipnotizante típica de quando se ouve um sermão muito bem pregado, ou um mantra muito sonoro, daqueles que te levam para um estado profundo de atenção e reflexão.