O Século XX animado e musicado na animação “American Pop” (1981)

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American Pop

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

American Pop (American Pop)
Lançamento: 1981
Diretor: Ralph Bakshi
Roteiro: Roni Kern
Elenco Principal: Mews Small, Ron Thompson, Jerry Holand

O bisneto no fundo; o bisavô na frente.

Fugindo do Pogron russo de 1903, uma mãe e seu filho chegam nos EUA sem nada e começam a trabalhar: a mãe com costura e o filho distribuindo panfletos num bar. Ela morre e a criança passa a viver com o homem que o contratara. A partir disso, o órfão começa a frequentar os palcos do bar, sempre na cochia, até que por convívio com o universo dos shows começa a se apresentar. Vai pra primeira guerra, volta vivo, continua a cantar, se envolve com a máfia (seu “tutor” era parte dessa), se casa e tem filhos.

Seus filhos tem filhos e esses também tem. É por esse fio genealógico que corre o filme, contando a história americana do século XX (até a década de 80, quando o filme foi feito), através de hits da música pop de cada época, sempre se encaixando na vida do protagonista da vez (o filme conta com um protagonista para cada uma das quatro gerações), misturando o som com as situações vivenciadas por cada um, que de modo geral representam as vivenciadas pelos jovens da geração representada.

Desde um jazz que antecede (e muito) o be-bob do Thelonious Monk até uma proto new-wave, o filme passa por músicas famosas (afinal, foram hits), de conhecimento mais que popular, como “Sing, Sing Sing”, de Benny Goodman, “Somebody to Love” de Jefferson Airplane, “This Train” de Peter, Paul and Mary, “Take Five” de David Brubeck Quartet, “Turn Me Loose” de Fabian e “Don’t Think Twice” de Bob Dylan, dentre várias outras, sempre compondo junto a ilustração fantástica dos filmes de Ralph Bakshi (que faz uma ponta no filme, como o pianista que diz à mulher do órfão que seu som será um hit), cenas psicodélicas e absurdamente lindas. Contudo, é interessante dizer que nos créditos, a autoria das músicas é dada a personagens ficcionais!

Os filhos e netos, porém, apesar de sua sempre muito forte relação com as notas (de qualquer instrumento que fosse), nunca conseguem alcançar a fama e passam a vida nos bastidores, por motivos diversos, relacionados à guerras, abuso de drogas, máfia e etc. (Vale dizer, os mesmos que os levam ao universo musical). Cabe ao bisneto tentar virar o jogo…

Segue o link para o filme completo (numa versão meio bosta, mas tá aí…):

Cantarolando: o folk torto de “Cyanide Breath Mint”, do Beck (1994)

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Beck

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção cantarolada de hoje faz parte do disco “One Foot In The Grave”, de 1994 – o quarto álbum de Beck, gravado e lançado pelo selo independente K Records. Esse disco foi gravado logo antes, porém lançado depois de “Mellow Gold” (1994), o improvável álbum de sucesso completamente anti-comercial que contém o hit ‘Loser’, talvez até hoje o refrão mais conhecido de Beck.

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Diferente de “Mellow Gold”, que incorpora em seu som elementos do folk, rock, psicodelia e hip-hop, “One Foot…” é essencialmente um disco folk. Prioriza as letras e as levadas simples acústicas e a estética lo-fi. Porém, com aquela vibe forte dos anos 90, de uma aparente – e completamente calculada – displicência, desencantamento e decadência, com letras irônicas e imagens ácidas e desiludidas. Muito de Dylan e muito de Nirvana.

Também diferente de “Mellow Gold”, o álbum foi um fracasso comercial, não emplacando nenhum single em parada de sucesso, apesar de ter ganhado a atenção da crítica.

“Cyanide Breath Mint” é uma das minhas favoritas do Beck, e talvez seja especial para ele também. Isso porque foi o nome que ele escolheu para sua própria editora de música, Cyanide Breath Mint Music, através da qual publicou e distribuiu diversos dos seus próprios álbuns e singles, além de trabalhos de outros artistas como Jon Spencer Blues Explosion e até um disco do Johnny Cash.

Beck

Talvez a escolha do nome para a editora também esteja relacionada com o sentido da própria canção, que possivelmente se refere à indústria de música. Meio que como um veneno que faz você ficar cheiroso e apresentável, a balinha de menta de cianeto.

Logo de cara, a primeira frase da canção é altamente identificável por qualquer adolescente e jovem adulto em praticamente qualquer situação: “Definitivamente este é o lugar errado para se estar”, mostrando imagens de decadência como sangue no colchão e um moleque bebendo fogo, talvez uma referência ao uso de drogas e à molecada meio perdida, cenário muito presente na música alternativa desiludida com o estilo de vida dos anos 90.

Depois, uma sequência de imagens que por incrível que pareça, faz muito sentido. Especialmente as pessoas apertando as mãos delas mesmas e cuidando delas mesmas. Uma imagem forte tanto de uma sociedade individualista, quanto de uma indústria ensimesmada, tal como a da música.

Definitely this is the wrong place to be

There’s blood on the futon

There’s a kid drinking fire

Going down to the sea

They got people to meet

Shaking hands with themselves

Looking out for themselves

Uma das minhas frases favoridas da letra é: “I’ve got a funny feeling, they got plastic in the afterlife” (eu tenho uma sensação estranha, que eles têm plástico na vida após a morte). O que ele vê é tão sintético e falso que dá a impressão até de ultrapassar a vida, como se o falso, ao menos para eles, fosse maior e mais importante que o verdadeiro. Isso pode ser encarado tanto como uma crítica ao estilo de vida de consumo, quanto à superficialidade do showbizz.

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Como vocês devem ter percebido, dá para ficar viajando nessa letra, assim como dá para achar significados tanto pessoais quanto sociais e específicos nas letras de Bob Dylan. Mas o mais interessante aqui é o tom de sinceridade e confidencialidade, o que torna efetivamente “Cyanide Breath Mint” uma canção folk que reflete com precisão o espírito de um jovem “perdedor” observando o mundo, não com melancolia, mas simplesmente de saco cheio.

Cantarolando: o sermão de “God is Alive, Magic is Afoot”, de Buffy St. Marie (1969)

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Buffy St. Marie
Buffy St. Marie

Cantarolando, por Elisa Oieno

Originalmente escrita por Leonard Cohen, a letra dessa canção é na verdade um poema que faz parte do livro “Beautiful Losers”, romance escrito em 1966, antes de ele ingressar na carreira de cantor/compositor. O trecho, chamado “God Is Alive”, tem todo um jeito de sermão, de pregação, até mesmo de mantra. É um belo exemplo da a habilidade lírica de Cohen, às vezes misteriosa e mística, às vezes meio maldita e crítica ou, nesse caso, tudo isso ao mesmo tempo. Esse texto é considerado pela crítica literária um dos melhores de Leonard Cohen.

O poema virou canção interpretada pela conterrânea de Leonard Cohen, Buffy St. Marie. A cantora canadense folk foi popular nos anos 60, além de ser uma das grandes expoentes no mundo pop da etnia indígena Cree, nativos da América do Norte. Ela foi representante do movimento Red Power, que reivindicava o reconhecimento de direitos civis e de territórios indígenas. Os movimentos indígenas eram sistematicamente atacados e silenciados pelo governo. Por causa disso, no início dos anos 70, a cantora entrou para a ‘lista negra’ das rádios americanas, através de avisos enviados diretamente do governo aos DJ’s e apresentadores dos programas. Ou seja, sua música foi praticamente banida em território americano durante o período.

A versão gravada pela Buffy St. Marie é basicamente uma declamação desse poema, mas com toda a força e carga energética que a sua interpretação carrega. Para acompanhar sua voz de entonação poderosa, um violão expressivo e eventualmente alguns efeitos sintéticos na voz, algo raramente utilizado entre os cantores folk. Aliás, o álbum “Illuminations”, de que faz parte esta faixa, é um disco folk considerado experimental, pelo uso de sintetizadores e sons não convencionais, e foi o primeiro disco estéreo quadrofônico – que atualmente chamamos de “surround 4.0”.

 

“Magic is Afoot, God is Alive”, no fim das contas, é tão forte que não é necessário literalmente compreender um sentido para perceber o impacto de seu conteúdo. É possível que esteja falando ou não de um Deus. Pode estar falando de mágica bíblica, cristã, pagã, ancestral, ou de mágica nenhuma. Mas sem dúvida, dá aquela sensação meio hipnotizante típica de quando se ouve um sermão muito bem pregado, ou um mantra muito sonoro, daqueles que te levam para um estado profundo de atenção e reflexão.

O paulistano Limonge mistura doses de grunge em seu folk rock de um homem só

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Limonge

O paulista Limonge começou sua carreira musical como quase todos: fazendo parte de diversas bandas de garagem. Como em todos projetos havia as tradicionais discussões entre membros, sua paciência se esgotou e ele resolveu, então, que a carreira solo seria seu melhor caminho. O cantor, compositor e multi-instrumentista de 29 anos leva o conceito de “one man band” ao extremo, assinando a produção total de todos os seus trabalhos lançados até hoje (da gravação de todos os instrumentos até a concepção artística dos álbuns). Para facilitar o processo de criação musical, montou um pequeno estúdio em casa para produzir e lançar seu primeiro álbum completo intitulado “É A Nossa Voz (Éramos Nós, Sempre Seremos)”, sucessor dos EPs “Tão Normal” (2015) e “O Tempo” (2016).

Ao vivo, ele é acompanhado por PC na guitarra e Mau na bateria e percussão, tendo se apresentado em festivais independentes como NIG Time 4 Music, Ponto Pro Rock e chegando à final do concurso “Energia Me Ouve” da rádio Energia 97. Com influências de Pearl Jam, Neil Young, Oasis, Beatles, The Who, Gin Blossoms, Foo Fighters, Nirvana, Soundgarden, Dave Matthews Band, Alanis Morissette, Bruce Springsteen, KT Tunstall, Lenine, Lulu Santos, Legião Urbana e Cazuza, ele define seu som como um folk rock com um pouco de grunge, um de seus estilos preferidos. Conversei um pouco com ele sobre sua carreira, os trabalhos já lançados e a sempre polêmica cena independente atual:

– Como começou sua carreira?

Foi algo bem natural. Música é algo que me mantem de pé desde que me conheço por gente, então o objetivo de ter uma carreira é sonho de criança. Tive algumas bandas no meio do caminho mas acabei me encontrando mesmo na carreira solo, que pouco a pouco vem crescendo muito bem!

– E como decidiu sair da vida de bandas e seguir solo?

Engraçado que não foi algo muito “pensado”; as bandas sempre acabaram naquele chavão de ” horários não batem” ou “idéias não batem”… Como minha rotina apertou também, resolvi montar um home studio pra produzir minhas coisas sozinho, no meu tempo, acabei gostando do resultado e publiquei algumas músicas. A aceitação foi muito boa, tanto que me fez assumir essa faceta e querer cada vez mais…

– Me conta mais sobre o trabalho que você já lançou.

Esse primeiro álbum nasceu da junção de 2 EPs que lancei anteriormente mais algumas músicas que deixei na gaveta por algum tempo. Como gravei todos os instrumentos, voz, editei, produzi, mixei e masterizei, não foi tão difícil fazer soar uniforme (risos). E tentei ser coeso também ao explorar um tema central que passa de forma direta e indireta por todas as faixas, que é a percepção da passagem do tempo. Sou fã de LPs, então esse lance de ter um álbum com uma historia por trás é uma necessidade latente.

– Algo que não anda tão em alta hoje em dia, né. A cultura do álbum. Com o streaming o povo tem a tendência a ouvir mais músicas soltas.

Exato, hoje existe a supervalorização do single. Pouca gente da valor a uma obra completa, degustar uma ideia de cabo a rabo, e algumas bandas já seguem essa tendencia. Eu insisto em remar contra essa maré, acho que a música pode ser muito mais do que algo supérfluo, e um single também é muito mais do que uma música solta, mas uma degustação do que você pode consumir do artista como um todo

Limonge

– Quais as suas principais influências musicais para sua carreira solo?

Diria que eu bebo muito de muitos lugares. Pra citar alguns exemplos, os solos de Eddie Vedder, Noel Gallagher, Chris Cornell (um dos meus maiores ídolos, que nos deixou há pouco, infelizmente), Dave Matthews, Bob Dylan e muito de pop/rock nacional, de Lulu Santos a Skank.

– E como você definiria seu som pra quem nunca ouviu?

Diria que um MPB pop/rock grunge com pitadas de folk talvez (risos).

– Como você vê a cena independente hoje em dia? Como você se desdobra nesse cenário atual?

Tem muita vertente, muita gente boa, muita opção pro público, mas ao meu ver, falta um pouco de união entre as bandas. Isso inclusive é uma das minhas conversas recorrentes com a Pri da Geração Y, como fazer para criar um movimento em que as bandas se abracem e não comecem a competir umas com as outras.

– Você acha que ainda existe essa mentalidade de que uma banda tira espaço da outra?

Confesso até pouco tempo achava isso babaquice, mas senti na pele alguns casos bem bizarros, então me soa como um preconceito velado. não é algo que ocorre a todo instante, mas temos 2 pontos pra explorar nisso:
1. Bandas que querem surfar na carona das outras mas não necessariamente agregam em algo.
2. Bandas que realmente acham que público é dividido e entendem gosto como competição.
Nos dois casos, precisamos buscar soluções pois, no fim, os prejudicados somos nós mesmos.

– Então uma das maneiras de fazer essa cena crescer seria uma maior união entre as bandas, na sua opinião. Como isso pode ser alcançado?

A criação de uma cena acho que passa por inúmeros pontos. Desde a aproximação para eventos como um auxílio para a expansão mútua do som. Você fazer o público rodar entre as bandas através de eventos em diversas partes do país já é algo que pode estimular um alcance maior pra todos, e de quebra, aumentar as chances de expansão. Mas tudo isso começa em uma cena, uma união, que até existe, mas de forma bem segmentada… dá pra ser muito mais.

Limonge

– Você já está trabalhando em novas músicas?

Sim, iniciei o processo pra um novo álbum há cerca de um mês… tenho já demos das músicas fechadas, em breve vou entrar em estúdio (dessa vez terá produção e será um pouco mais rebuscado) pra começar as gravações, acredito que até agosto deva pintar algo por aí.

– Pode adiantar alguma coisa sobre esse novo trabalho? 

Diria que é uma evolução/continuação do primeiro trabalho, mais maduro, um tema ainda mais firme, to bem feliz com o que rolou até aqui. Posso adiantar que serão 9 músicas, mas ainda tem um bom caminho até mostrar algo mais concreto… assim que tiver prometo que solto pra você com exclusividade (risos)!

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos e todo mundo deveria conhecer!

Gosto muito de Zimbra, Capela, BTRX, Caike Falcão, Supercolisor, Gabi e os Supersônicos, Guilherme Eddino, LTDA… ufa… tem muita gente boa, acho que essa nova leva tá incrível, temos muito o que conhecer ainda!

O lado bom da tristeza: Nick Drake – “Five Leaves Left” (1970)

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Nick Drake - Five Leaves Left

Bolachas Finas, por Victor José

Quando se fala de Nick Drake, a pergunta é sempre a mesma: como esse sujeito não conseguiu fazer um pingo de sucesso em sua época? Afinal, ele era um incrível compositor, talentosíssimo letrista, criativo no uso de afinações alternativas, dono de uma voz agradável e boa pinta. Tinha tudo que a maioria dos artistas se mata para conseguir ter.

Na breve carreira do britânico – três LPs ao todo – só tem pérolas. Não existe música ruim no universo de Nicholas Rodney Drake. Por outro lado, a felicidade quase inexiste e a melancolia reina absoluta, fato que por si só assombra uma boa parcela do público mais sedento por agitação. Além disso, demasiadamente recluso, quase não se apresentava ao vivo, o que deixava tudo mais difícil.

Estudante de literatura e esporádico atleta (classificado pelos colegas de rugby como um “calmo autoritário”), o jovem Nick sempre foi extremamente reservado, tímido e impenetrável. Dizem por aí que nunca chegou a ter um relacionamento amoroso, muito embora atraísse atenção por parte do público feminino. O cara era fechado mesmo. Quem o conhecia dizia que na poesia e na música é que se percebia sua alma mais evidente, seja tocando violão, piano ou até mesmo saxofone e clarinete.

Foi por volta de 1967 que ele viria a se arriscar em apresentações em pequenos clubes e cafés de Londres, e foi num desses shows que Ashley Hutchings, integrante do Fairport Convention, o descobriu. Passado algum tempo descolou um contrato com o selo Island Records e em 1969 saiu sua primeira gravação.

“Five Leaves Left”, álbum de estreia de Drake, é uma obra de arte irretocável. Fundamental para quem se liga em sons mais delicados, de caráter intimista. Você escuta qualquer música do disco e tudo o que você pensa é em bucolismo, outono, inverno, esse tipo de coisa. Traz um conforto inevitável. Seu refinado violão é um espetáculo por si só, e, como se não bastasse, Nick Drake juntou um time de primeira para fazer o acompanhamento da maioria das canções. Ali você pode conferir gente como Richard Thompson (Fairport Convention) nas guitarras e Danny Thompson (Pentangle) no baixo, além dos emocionantes arranjos orquestrais de Robert Kirby e Harry Robinson.

O produtor do LP, Joe Boyd, responsável por alguns trabalhos do Pink Floyd, Jimi Hendrix e R.E.M., já chegou a dizer que havia conflitos entre ele e Drake por conta da direção que o álbum deveria tomar. Enquanto Boyd defendia a ideia de explorar mais as possibilidades de estúdio, o músico queria um disco mais seco e orgânico. No fim resultou em um belo trabalho equilibrado, onde a voz do cantor e seu violão ganham o destaque absoluto, embora vez ou outra os arranjos de cordas conseguem nos deixar de boca aberta.

Essa fusão atinge a perfeição em “River Man”. Essa canção é simplesmente uma das coisas mais bonitas que já ouvi. Meu Deus… o que é aquilo? Uma faixa soturna, triste, como de praxe no catálogo do cantor, mas nesse caso acredito que até quem não se liga em sons melancólicos vai dizer que é uma baita música. Não tem como repreender uma coisa dessas. Apenas ouça.

“Three Hours” e seu ritmo de congas é outro ponto alto. A sonoridade, sempre de altíssimo requinte, nos hipnotiza enquanto Drake canta suas reflexões profundas. A faixa faz um par muito coerente com outra pérola, “’Cello Song”, que, como o próprio título diz, gira em torno de uma maravilhosa linha de violoncelo.

Como dito anteriormente, a tristeza é uma máxima no som do rapaz, de fato. É como se a vulnerabilidade que ali está fosse um sutil chamado de socorro. Ele sofria de depressão, o que mais tarde viria a ser determinante para o seu (suposto) suicídio. E “Way To Blue” é uma dessas canções que só quem está nessa vibe poderia fazer-la tão sincera. A orquestra que o acompanha é de chorar. Essa não é para os fracos, mesmo.

“Man In a Shed” traz alguma alegria em seu ritmo suave, o que faz um ótimo contraponto na tracklist, do mesmo modo que “The Thoughs Of Mary Jane” apresenta um som mais doce e diversifica a maneira de Nick Drake interpretar suas belas letras. “Fruit Tree”, assim como “Time Has Told Me” servem em alto nível um letrista inspiradíssimo, que somente por essas músicas já teria uma cadeira cativa entre os maiores cantores/compositores de seu tempo.

Igualmente interessante é a agridoce “Saturday Sun”, que encerra o álbum com um clima leve. Nick abandona o violão e vai para o piano, e a sensação que fica é a de que Nick Drake, com seu jeito nada incisivo e ao mesmo tempo absurdamente expressivo, nos prendeu sem nenhuma dificuldade por pouco mais de 40 minutos. E você vai querer escutar tudo de novo, pouco importa a quantidade de melancolia. É bonito demais.

“Five Leaves Left” não fez o menor sucesso. Uma série de fatores o levou a isso. Um deles foi a demora da gravadora ao lançá-lo e promove-lo. Além disso, Nick Drake fez poucas apresentações, e quando o fez foi para um público desinteressado, que não sacou muito bem qual era a daquele cara grandalhão que nem dizia “oi” para a plateia. Antes de cada bendita canção interpretada tinha que afinar diferente seu violão, o que quebrava o ritmo do show e irritava os presentes, já impacientes com sua suposta indiferença.

Vieram mais dois trabalhos: “Bryter Layter” (1971) e “Pink Moon” (1972). Não dá para dizer qual é o melhor dos três, todos são incríveis. Mas do mesmo modo que são um grande feito artístico, também são fracassos descomunais de vendas, o que feriu Drake bem no âmago.

Ele viria a falecer em 1974, com 26 anos. Infelizmente não pode ver a lenta aceitação de seu trabalho, que agora é lembrado por gente como Elton John, Norah Jones e The Mars Volta como um dos melhores catálogos da música folk/rock. Hoje em dia todos os seus três LPs são aclamados pela crítica e constantemente presentes em listas de melhores álbuns de todos os tempos.

Enquanto houver pessoas dispostas a ouvir reflexões, haverá espaço para a música sinceramente melancólica. Espero que seja para sempre.

Cantarolando: a música folk-rock-ambientalista de Alceu Valença em “Espelho Cristalino”(1977)

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Alceu Valença - "Espelho Cristalino"

Cantarolando, por Elisa Oieno

Conversando com alguns entusiastas da música ‘folk’ por esses dias, chegamos à conclusão de que, aqui no Brasil, não costumamos fazer uma associação direta entre música pop e o nosso folclore. Existe uma separação estética muito grande entre o folclore brasileiro e a música pop.

Porém, há exceções. Principalmente no contexto da efervescência criativa do Brasil nos anos 70, pela primeira vez na música brasileira houve um esforço consciente para trazer os sons, ritmos e temas tipicamente brasileiros e regionais ao contexto jovem, rebelde e desafiador que o rock representava.

Foi o que fez o pernambucano Alceu Valença, executando um som pesadíssimo, progressivo e ainda assim absolutamente nordestino. Com sua figura mezzo guerilheiro do sertão mezzo Ian Anderson do Jethro Tull, suas letras – escritas com erudição acadêmica e com a sagacidade herdada dos tradicionais repentistas – mesclavam fraseados libertários ‘subversivos’, críticos à ditadura militar, com temas e figuras típicas do folclore nordestino.

Além disso, eram frequentes em suas músicas também as críticas ao estilo de vida moderno e industrial, tecendo imagens vívidas da natureza brasileira em contraponto aos símbolos da cidade e ao estilo de vida frenético industrial. É o caso da faixa-título do disco “Espelho Cristalino”(1977).

Essa rua sem céu, sem horizontes
foi um rio de águas cristalinas
serra verde molhada de neblina
olho d’agua sangrava numa fonte
meu anel cravejado de brilhantes
são os olhos do Capitão Corisco
e é a luz que incendeia meu ofício
nessa selva de aço e de antenas
beija-flor estou chorando suas penas derretidas na insensatez do asfalto

Essa canção foi feita em homenagem ao ambientalista, naturalista, indigenista e especialista em beija-flores Augusto Ruschi. Ele foi uma figura muito importante em disputas contra empresas e órgãos públicos na defesa de questões do meio-ambiente, em uma época em que tais preocupações eram precariamente difundidas. Ruschi foi um dos pioneiros no combate ao desmatamento da Amazônia e um dos primeiros cientistas a alertarem sobre os impactos do uso indiscriminado de agrotóxicos.

A letra de “Espelho Cristalino”, como diversas de Alceu, é repleta de metáforas e imagens poéticas. Essa é uma das minhas letras favoritas. Viajando um pouco aqui, ela me lembra a vista da Serra do Mar aqui de São Paulo, a caminho da Baixada Santista. Da mesma forma que descreve a música, há a invasão da indústria e do “progresso” na paisagem serrana daqui, especialmente quando se chega perto de Cubatão.

Assim como no Cinema Novo de Glauber Rocha, elementos do cangaço também são frequentes nas canções de Alceu, como a alusão aos “olhos do Capitão Corisco”, que foi um dos mais famosos membros do bando de Lampião. O cangaço foi um dos principais e mais marcantes fenômenos sociais do Nordeste brasileiro, deixando marcas e memórias vívidas para toda uma cultura que, junto com outros inúmeros elementos, faz parte da nossa identidade. Tem coisa mais ‘folk-rock’ que isso?

Cantarolando: “He Was My Brother”, a homenagem a um ‘freedom rider’ de Simon & Garfunkel

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Simon e Garfunkel

Cantarolando, por Elisa Oieno

O single “He Was My Brother”, presente no disco de estréia do Simon & Garfunkel, “Wednesday Morning, 3 A.M” (1964) é uma canção folk super simples e muito comovente, não só pela melodia, mas também pelo tema: a morte de um estudante envolvido em um importante movimento pela igualdade racial e pela afirmação de direitos civis nos EUA.

Freedom rider
They cursed my brother to his face
“go home, outsider”
This town’s gonna be your burying place

“Freedom rider”, algo como “cavaleiro da liberdade”, já seria uma expressão estilosa o suficiente para falar de alguém lutando pelos direitos civis, aquela coisa romântica que fazemos com alguma figura que admiramos muito. Mas na verdade, se refere ao movimento dos “Freedom Riders”, pessoas que viajavam pelos EUA para se dirigir aos hostis terrenos do Sul, não com seus cavalos – ou motocicletas, como o nosso inconsciente pode presumir -, mas de ônibus interestaduais, com a finalidade de forçar o cumprimento de uma decisão inédita da Suprema Corte dos EUA.

Esse novo precedente da Suprema Corte reconhecia que leis estaduais de políticas de segregação racial – as quais ainda eram vigentes em diversos estados no Sul dos Estados Unidos – não se aplicavam em estabelecimentos localizados em terminais rodoviários, uma vez que a segregação racial em ônibus interestaduais já era considerada inconstitucional. Tratou-se de um primeiro passo para o enfraquecimento de leis racistas naqueles territórios.

Assim, os Freedom Riders, compostos necessariamente por negros e brancos sentados em bancos misturados nos ônibus, cruzavam o país de ônibus e se dirigiam aos estabelecimentos que serviam as rodoviárias para simplesmente exercerem seu direito de, por exemplo, sendo negros, sentarem-se em uma área do balcão da lanchonete “só para brancos” e serem servidos normalmente. Claro que os donos de estabelecimentos, moradores e autoridades locais não gostaram muito da idéia, causando a hostilização e a prisão e de diversos riders.

Houve também a reação violenta de grupos organizados, as mobs, tais como o infame Ku Klux Klan, responsáveis por ataques ferozes aos ônibus, linchamentos e até mortes. Como foi o caso de três ativistas, mortos em 1964, no Mississipi. Entre eles, estava Andrew Goodman, que era amigo e colega de faculdade de Paul Simon e Art Garfunkel. Apesar de não se saber ao certo se a música foi escrita antes ou após o incidente da morte, a homenagem ao amigo é óbvia.

 

He was singing on his knees
An angry mob trailed along
They shot my brother dead
Because he hated what was wrong

Apesar da reprovação massiva da mídia, tratando o movimento como “suscitação à violência”, “incentivo à perturbação da paz” – ainda bem que isso não acontece por aqui, né – , e com as autoridades do Sul contando com uma bela ‘passada de pano’ do governo Kennedy, os Freedom Riders abriram caminho para mudanças reais e o fortalecimento de diversos movimentos Black Power e da influência do discurso de Martin Luther King.

Assim, mais do que uma canção simpática a uma causa, seguindo o protocolo do quase sempre obrigatório engajamento do artista folk dos anos 60, “He Was My Brother” é um relato meio emocionado e comovido, cheio de admiração sobre um amigo que simplesmente não se conformava com o que estava errado. Esse sentimento ainda soa tão atual, e pelo menos em mim dá aquele misto de inconformação, emoçãozinha e esperança.

Cantarolando: as cenas bucólicas de “Diamond Day”, de Vashti Bunyan (1970)

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British folk singer Vashti Bunyan, May 1965. (Photo by Evening Standard/Hulton Archive/Getty Images)

Cantarolando, por Elisa Oieno

Ouvindo essa linda melodia de apelo pop e imergindo em suas imagens sinceras pontualmente rurais e pastoris, é difícil entender porque na época do seu lançamento, em 1970, a canção “Diamond Day”, presente no disco “Just Another Diamond Day”, não se tornou um sucesso instantâneo e um hit que acompanharia a crista da onda do folk britânico.

Muito difícil entender, ainda mais considerando que o disco foi produzido pelo experiente Joe Boyd, que reuniu arranjadores de cacife que tinham expertise no gênero como Robin Williamson, do Incredible String Band, e Dave Swarbrick e Simon Nicol do Fairport Convention – bandas que estavam no auge e tinham importante relevância na disseminação do folk britânico para o mundo.

Não deu certo, pelo menos não até mais ou menos 35 anos depois do lançamento, quando o disco retomou a atenção da crítica e adquiriu um improvável público com seu status de clássico cult. Hoje em dia, por causa desta “redescoberta” de seu disco, a cantora até eventualmente faz pequenas em turnês e lançou outros álbuns: “Lookaftering” (2005) e “Heartleap” (2014).

Mas na época, isso foi uma grande decepção para a jovenzinha Vashti Bunyan, que já havia se decepcionado antes, com o total fracasso comercial do single “Some Things Just Stick In Your Mind” (1965), canção assinada por Jagger/Richards e produzida por Andrew Loog Oldham com a intenção de tornar Vashti uma nova Marianne Faithfull.

Desiludida com a indústria da música e seguindo suas inclinações mais reclusas, Vashti então partiu para uma road trip a cavalo e carroça com seu namorado e um cachorro através da Inglaterra para se instalar em uma comunidade “hippie” organizada pelo músico Donovan. A viagem durou quase um ano e meio, e, apesar de não ter alcançado o destino planejado – a idéia da ‘comuna’ não chegou a prosperar – rendeu a Vashti diversas canções que fariam parte do Diamond Day. Por causa disso, as cenas típicas da vida do campo no disco são bastante literais e cantadas com intimidade.

Just another field to plough
Just a grain of wheat
Just a sack of seed to sow
And the children eat
(só mais um campo para arar/só um grão de trigo/ só um saco de sementes para semear/ e as crianças comem)

Curiosamente, Vashti afirma que naquela época estava buscando uma carreira como cantora pop, e chegou a se decepcionar com o som alcançado em “Diamond Day”, que ficou com uma abordagem muito mais folk. Naquela época, os arranjos das músicas pop eram orquestrados e elaborados, em contraponto aos arranjos minimalistas e intimistas de “Diamond Day”.

Porém, hoje sabe-se que o disco não poderia servir melhor à personalidade e à voz de Vashti, que nesta canção soa tão íntima e sincera, com uma vibe campestre difícil de se conseguir a não ser que você realmente tenha estado lá, como ela esteve.

No fim das contas, na verdade, ouvindo “Diamond Day” é difícil imaginar Vashti Bunyan vivendo qualquer outra vida senão a que ela vive: longe do showbizz, praticamente reclusa e feliz no campo com sua família.

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Júlio Victor, do Sasha Grey As Wife e do canal Tá Na Capa

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Júlio Victor
Júlio Victor, do Sasha Grey As Wife

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje o convidado é Júlio Victor, da banda Sasha Grey As Wife e do canal do Youtube Tá Na Capa.

Malice Mizer“Syunikiss ~Nidome no Aitou~”

“Meu interesse pela música francesa começou com o Malice Mizer, uma finada banda japonesa muito importante tanto pela musicalidade como pelo conceito estético que influenciou uma geração, sendo um dos pioneiros do movimento visual kei. Após a morte do baterista Kami a banda definhou até deixar de existir, é uma pena, pois é um dos bateristas que mais gosto, ele tem muita personalidade. A mistura dos sons vai desde o eletrônico francês até ritmos e instrumentos tradicionais”.

Baton Rouge“Côte du Py”

“Descobri essa banda pois o guitarrista da primeira banda que gravei na vida me passou sua pasta inteira de músicas. Conheci muita coisa por lá, mas Baton Rouge foi uma das mais valiosas. Uma espécie de de post punk com hardcore e uma pitada daquele real emo. Gravações grosseiras, vocais gritados e aquele ar de sofisticação ainda. É um som agridoce e pouco conhecido, do tipo que tu sabe que só vai poder ver ao vivo se sair do país e der sorte”.

Sport“Ulrike Maier”

“Primeira banda francesa que vi um show na vida e pasmem, foi aqui na minha cidade, Volta Redonda, interior do Rio de Janeiro. Eles fizeram uma tour gigante, na raça, na unha. Todos integrantes muito felizes e com calor pra cacete. As letras falam muito sobre convivência e a experiência dessa apresentação foi linda. Rolou em uma praça, puxando energia do poste, várias bandas do gênero, crianças passando, brincando na grama enquanto o show rolava, galera cantando à plenos pulmões. Aquela ocasião que tu não consegue tirar o celular do bolso e guarda tudo na memória”.

Zaz“Je Veux”

Zaz é uma daquelas artistas pops que mais o país dela conhece do que o mundo por completo. No Brasil temos vários assim, isso acontece por conta de não cantar em inglês, mas em seu idioma natal. Para mim é uma daquelas recordações que “sobram” de um relacionamento, a pessoa se vai e ficar uma banda, uma música, um show. Até rupturas trazem coisas boas. A música ‘Je Veux’ é engraçada pois exalta uma simplicidade que lembra bastante a temática de ‘Royals’ da Lorde, só que de maneira mais simples ainda, mais pé no chão. Gosto desse tipo de mensagem, exaltando uma vida simples e tal. Ouça Zaz para cozinhar, é inspirador”.

Alcest“Autre Temps”

“As pessoas falam que eu pareço o vocalista e de fato pareço. As pessoas falam que minha banda, Sasha Grey As Wife, lembra Alcest e de fato lembra. O som deles é folk, pesado, intenso, catártico, letras dramáticas e cheias de referências. Acho que foi a melhor referência que tive para incluir minha paixão pela música francesa dentro do meu som, pois, os objetivos musicais são parecidos. Gosto também como eles se renovam à cada disco, parece sempre algo novo, sem limites, do ambiente acústico aos gritos”.

Perfeição: Joni Mitchell – “Blue” (1971)

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Bolachas Finas, por Victor José

Hoje vou falar de algo extremamente consagrado e que por algum motivo absurdo não tem o devido reconhecimento no Brasil.

Recentemente escutei “Blue” (1971) três vezes seguidas e não encontrei um erro sequer, nada fora do lugar, nenhuma nota mal executada. A qualidade das faixas sempre me impressiona. Isso sem contar toda aquela sensibilidade em ebulição durante seus 35 minutos e poucos. São canções que emocionam facilmente qualquer um disposto a relaxar e curti-las, seja pelas melodias, seja pelas letras ou por qualquer outro detalhe. Analisando a esfera da música folk/pop rock, é muito justo afirmar que pouquíssimos artistas alcançaram excelência semelhante.

Naquela época de sua carreira, Joni Mitchell passava por mudanças significantes. Por conta do grande sucesso alcançado nos anos anteriores ao “Blue”, a cantora, sempre avessa à grandes públicos, havia decidido parar de se apresentar por um tempo. Além disso, ela havia terminado um longo relacionamento com Graham Nash, do grupo Crosby, Stills, Nash & Young e ex-The Hollies. Com isso, ela tirou umas férias e foi à Europa para acalmar os ânimos, e foi lá que ela escreveu quase todas as canções do álbum.

Em uma entrevista para a revista Rolling Stone em 1979, ela disse: “’Blue’ foi um momento decisivo de muitas maneiras. No Blue, quase não há uma nota desonesta nos vocais. Naquela época da minha vida, não possuía defesas pessoais. Me sentia como papel celofane num maço de cigarros. Sentia como se não tivesse segredos do mundo, e não pudesse fingir que minha vida era forte. Mas a vantagem disso na música era de que não havia defesas ali também”.

É justamente essa vulnerabilidade que seduz o ouvinte logo na primeira audição. Em “Blue”, Mitchell interpreta temas reflexivos como relacionamentos, solidão e anseios pessoais de modo tão honesto que passamos a aceitar a melancolia como um ingrediente extremamente agradável.

Apesar de vez ou outra conter nas faixas alguns músicos a mais (dentre eles, James Taylor nos violões), “Blue” é basicamente a voz de Joni Mitchell acompanhada por seu piano, violão ou às vezes um instrumento chamado dulcimer. O disco é essencialmente folk, mas nota-se também uma pitada de jazz nas estruturas musicais, detalhe que culminaria anos depois em álbuns com forte sonoridade fusion, como o “Hejira”, de 1976.

O disco começa com “All I Want”, perfeita para um início. Aqueles acordes de dulcimer misturados com a melodia entram na cabeça e custam a sair. A música, que como sugere o título trata de anseios pessoais, também parece ser um relato de alguém buscando uma identidade.

Depois vem a ingênua “My Old Man”. Apoiada pelo piano, Mitchell fala dubiamente sobre seu antigo relacionamento com Graham Nash, de modo que os versos exaltam os momentos em que ele esteve presente e o estribilho cai para o vazio de estar sozinha.

Sabe-se que “Little Green” foi composta em 1967, portanto fica sendo provavelmente a canção mais antiga do álbum. Mesmo estando um pouco distante das demais composições em relação a tempo, a música, a mais folk dentre todas, se encaixou perfeitamente à atmosfera de “Blue”. Por outro lado, ela contém a letra mais subjetiva do disco, que permite diferentes interpretações.

Já em “Carey”, Mitchell está acompanhada de uma banda acústica e vocais fazem harmonias, a alegria dá as caras no tom desta faixa com jeito de road movie. “Carey” fala sobre despedidas de maneira leve. É evidente nesta composição a influência de suas férias na Europa quando ela canta: “Maybe I’ll go to Amsterdam, or maybe I’ll go to Rome”.

“Blue, songs are like tattoos”. Essa frase justifica toda a densidade do disco. O tal “Blue” que ela cita é David Blue, um expoente compositor de música folk da cena de Greenwich Village, em Nova Iorque. A canção pode ser interpretada como um ponto de vista da desesperança que assolou grande parte daquela geração no pós-hippie. Piano e voz fecha o lado A.

A honesta “California” talvez seja a melhor canção sobre esse estado norte-americano. Segue a linha nostálgica e road de “Carey”, além da banda acústica que a acompanha e o tom levemente descontraído.

A batida com afinação aberta de “This Flight Tonight” lembra bastante o que ela vinha fazendo anteriormente em sua carreira, como no hit “Big Yellow Taxi”. Dá a impressão de que esta seja a faixa mais descompromissada de “Blue”, o que dá uma sensação de respiro entre toda a emoção das demais músicas. Curiosamente, o grupo escocês Nazareth regravou alguns anos mais tarde “This Flight Tonight” de modo completamente distinto, versão que vale a pena ser conferida.

A partir de “River”, chegamos à parte mais dolorosa de “Blue”. “River” é atemporal, sua melodia é irresistível e funcionaria para qualquer época após seu lançamento. Dizem que nesta faixa, Joni Mitchell quis abordar sobre seu desconforto com o sucesso e a vontade de querer escapar da fama.

A preferida de muita gente, “A Case of You” permanece sendo um dos maiores clássicos da carreira de Mitchell. Regravada por uma série de cantores como Prince, Tori Amos e James Taylor (que participou das gravações), a música é explicitamente voltada para seu relacionamento com Graham Nash e escancara a habilidade da compositora em escrever letras capazes de proporcionar ao público uma identificação imediata com algum momento da vida.

“Blue” encerra com a melhor performance de Joni Mitchell no álbum. “The Last Time I Saw Richard” é a mais difícil de escutar, é preciso passar por todas as outras para chegar a esta obra-prima e assimilá-la bem. Sua letra corrida, novamente acompanhada apenas por piano e voz, parece ser sobre alguém caindo na real e tendo que mudar de postura para encontrar a felicidade. É bem claro que tudo foi feito para si mesma.

Blue foi um grande sucesso de crítica e público, chegando a vender mais de um milhão de cópias. Nas paradas de sucesso, “Blue” alcançou o 15º lugar na Billboard e o 3º nas paradas inglesas. “Carey” foi selecionada para ser o single de promoção.

Muitas vezes, o álbum é citado como um dos melhores de todos os tempos, como na lista de 2003 da Rolling Stone dos melhores discos, obtendo a 30ª posição. Recentemente, a revista fez outra lista, desta vez com os 50 melhores álbuns femininos da história da música, e Blue ficou em 2º lugar.

Alguns afirmam que, por ser delicado demais, este é um LP mais voltado para o público feminino. Pura bobagem. “Blue” se encaixa perfeitamente em qualquer apreciador do bom folk, pop rock ou para qualquer um disposto a se emocionar com música que não morre com o tempo.