Cantarolando: a música folk-rock-ambientalista de Alceu Valença em “Espelho Cristalino”(1977)

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Alceu Valença - "Espelho Cristalino"

Cantarolando, por Elisa Oieno

Conversando com alguns entusiastas da música ‘folk’ por esses dias, chegamos à conclusão de que, aqui no Brasil, não costumamos fazer uma associação direta entre música pop e o nosso folclore. Existe uma separação estética muito grande entre o folclore brasileiro e a música pop.

Porém, há exceções. Principalmente no contexto da efervescência criativa do Brasil nos anos 70, pela primeira vez na música brasileira houve um esforço consciente para trazer os sons, ritmos e temas tipicamente brasileiros e regionais ao contexto jovem, rebelde e desafiador que o rock representava.

Foi o que fez o pernambucano Alceu Valença, executando um som pesadíssimo, progressivo e ainda assim absolutamente nordestino. Com sua figura mezzo guerilheiro do sertão mezzo Ian Anderson do Jethro Tull, suas letras – escritas com erudição acadêmica e com a sagacidade herdada dos tradicionais repentistas – mesclavam fraseados libertários ‘subversivos’, críticos à ditadura militar, com temas e figuras típicas do folclore nordestino.

Além disso, eram frequentes em suas músicas também as críticas ao estilo de vida moderno e industrial, tecendo imagens vívidas da natureza brasileira em contraponto aos símbolos da cidade e ao estilo de vida frenético industrial. É o caso da faixa-título do disco “Espelho Cristalino”(1977).

Essa rua sem céu, sem horizontes
foi um rio de águas cristalinas
serra verde molhada de neblina
olho d’agua sangrava numa fonte
meu anel cravejado de brilhantes
são os olhos do Capitão Corisco
e é a luz que incendeia meu ofício
nessa selva de aço e de antenas
beija-flor estou chorando suas penas derretidas na insensatez do asfalto

Essa canção foi feita em homenagem ao ambientalista, naturalista, indigenista e especialista em beija-flores Augusto Ruschi. Ele foi uma figura muito importante em disputas contra empresas e órgãos públicos na defesa de questões do meio-ambiente, em uma época em que tais preocupações eram precariamente difundidas. Ruschi foi um dos pioneiros no combate ao desmatamento da Amazônia e um dos primeiros cientistas a alertarem sobre os impactos do uso indiscriminado de agrotóxicos.

A letra de “Espelho Cristalino”, como diversas de Alceu, é repleta de metáforas e imagens poéticas. Essa é uma das minhas letras favoritas. Viajando um pouco aqui, ela me lembra a vista da Serra do Mar aqui de São Paulo, a caminho da Baixada Santista. Da mesma forma que descreve a música, há a invasão da indústria e do “progresso” na paisagem serrana daqui, especialmente quando se chega perto de Cubatão.

Assim como no Cinema Novo de Glauber Rocha, elementos do cangaço também são frequentes nas canções de Alceu, como a alusão aos “olhos do Capitão Corisco”, que foi um dos mais famosos membros do bando de Lampião. O cangaço foi um dos principais e mais marcantes fenômenos sociais do Nordeste brasileiro, deixando marcas e memórias vívidas para toda uma cultura que, junto com outros inúmeros elementos, faz parte da nossa identidade. Tem coisa mais ‘folk-rock’ que isso?

Cantarolando: “He Was My Brother”, a homenagem a um ‘freedom rider’ de Simon & Garfunkel

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Simon e Garfunkel

Cantarolando, por Elisa Oieno

O single “He Was My Brother”, presente no disco de estréia do Simon & Garfunkel, “Wednesday Morning, 3 A.M” (1964) é uma canção folk super simples e muito comovente, não só pela melodia, mas também pelo tema: a morte de um estudante envolvido em um importante movimento pela igualdade racial e pela afirmação de direitos civis nos EUA.

Freedom rider
They cursed my brother to his face
“go home, outsider”
This town’s gonna be your burying place

“Freedom rider”, algo como “cavaleiro da liberdade”, já seria uma expressão estilosa o suficiente para falar de alguém lutando pelos direitos civis, aquela coisa romântica que fazemos com alguma figura que admiramos muito. Mas na verdade, se refere ao movimento dos “Freedom Riders”, pessoas que viajavam pelos EUA para se dirigir aos hostis terrenos do Sul, não com seus cavalos – ou motocicletas, como o nosso inconsciente pode presumir -, mas de ônibus interestaduais, com a finalidade de forçar o cumprimento de uma decisão inédita da Suprema Corte dos EUA.

Esse novo precedente da Suprema Corte reconhecia que leis estaduais de políticas de segregação racial – as quais ainda eram vigentes em diversos estados no Sul dos Estados Unidos – não se aplicavam em estabelecimentos localizados em terminais rodoviários, uma vez que a segregação racial em ônibus interestaduais já era considerada inconstitucional. Tratou-se de um primeiro passo para o enfraquecimento de leis racistas naqueles territórios.

Assim, os Freedom Riders, compostos necessariamente por negros e brancos sentados em bancos misturados nos ônibus, cruzavam o país de ônibus e se dirigiam aos estabelecimentos que serviam as rodoviárias para simplesmente exercerem seu direito de, por exemplo, sendo negros, sentarem-se em uma área do balcão da lanchonete “só para brancos” e serem servidos normalmente. Claro que os donos de estabelecimentos, moradores e autoridades locais não gostaram muito da idéia, causando a hostilização e a prisão e de diversos riders.

Houve também a reação violenta de grupos organizados, as mobs, tais como o infame Ku Klux Klan, responsáveis por ataques ferozes aos ônibus, linchamentos e até mortes. Como foi o caso de três ativistas, mortos em 1964, no Mississipi. Entre eles, estava Andrew Goodman, que era amigo e colega de faculdade de Paul Simon e Art Garfunkel. Apesar de não se saber ao certo se a música foi escrita antes ou após o incidente da morte, a homenagem ao amigo é óbvia.

 

He was singing on his knees
An angry mob trailed along
They shot my brother dead
Because he hated what was wrong

Apesar da reprovação massiva da mídia, tratando o movimento como “suscitação à violência”, “incentivo à perturbação da paz” – ainda bem que isso não acontece por aqui, né – , e com as autoridades do Sul contando com uma bela ‘passada de pano’ do governo Kennedy, os Freedom Riders abriram caminho para mudanças reais e o fortalecimento de diversos movimentos Black Power e da influência do discurso de Martin Luther King.

Assim, mais do que uma canção simpática a uma causa, seguindo o protocolo do quase sempre obrigatório engajamento do artista folk dos anos 60, “He Was My Brother” é um relato meio emocionado e comovido, cheio de admiração sobre um amigo que simplesmente não se conformava com o que estava errado. Esse sentimento ainda soa tão atual, e pelo menos em mim dá aquele misto de inconformação, emoçãozinha e esperança.

Cantarolando: as cenas bucólicas de “Diamond Day”, de Vashti Bunyan (1970)

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British folk singer Vashti Bunyan, May 1965. (Photo by Evening Standard/Hulton Archive/Getty Images)

Cantarolando, por Elisa Oieno

Ouvindo essa linda melodia de apelo pop e imergindo em suas imagens sinceras pontualmente rurais e pastoris, é difícil entender porque na época do seu lançamento, em 1970, a canção “Diamond Day”, presente no disco “Just Another Diamond Day”, não se tornou um sucesso instantâneo e um hit que acompanharia a crista da onda do folk britânico.

Muito difícil entender, ainda mais considerando que o disco foi produzido pelo experiente Joe Boyd, que reuniu arranjadores de cacife que tinham expertise no gênero como Robin Williamson, do Incredible String Band, e Dave Swarbrick e Simon Nicol do Fairport Convention – bandas que estavam no auge e tinham importante relevância na disseminação do folk britânico para o mundo.

Não deu certo, pelo menos não até mais ou menos 35 anos depois do lançamento, quando o disco retomou a atenção da crítica e adquiriu um improvável público com seu status de clássico cult. Hoje em dia, por causa desta “redescoberta” de seu disco, a cantora até eventualmente faz pequenas em turnês e lançou outros álbuns: “Lookaftering” (2005) e “Heartleap” (2014).

Mas na época, isso foi uma grande decepção para a jovenzinha Vashti Bunyan, que já havia se decepcionado antes, com o total fracasso comercial do single “Some Things Just Stick In Your Mind” (1965), canção assinada por Jagger/Richards e produzida por Andrew Loog Oldham com a intenção de tornar Vashti uma nova Marianne Faithfull.

Desiludida com a indústria da música e seguindo suas inclinações mais reclusas, Vashti então partiu para uma road trip a cavalo e carroça com seu namorado e um cachorro através da Inglaterra para se instalar em uma comunidade “hippie” organizada pelo músico Donovan. A viagem durou quase um ano e meio, e, apesar de não ter alcançado o destino planejado – a idéia da ‘comuna’ não chegou a prosperar – rendeu a Vashti diversas canções que fariam parte do Diamond Day. Por causa disso, as cenas típicas da vida do campo no disco são bastante literais e cantadas com intimidade.

Just another field to plough
Just a grain of wheat
Just a sack of seed to sow
And the children eat
(só mais um campo para arar/só um grão de trigo/ só um saco de sementes para semear/ e as crianças comem)

Curiosamente, Vashti afirma que naquela época estava buscando uma carreira como cantora pop, e chegou a se decepcionar com o som alcançado em “Diamond Day”, que ficou com uma abordagem muito mais folk. Naquela época, os arranjos das músicas pop eram orquestrados e elaborados, em contraponto aos arranjos minimalistas e intimistas de “Diamond Day”.

Porém, hoje sabe-se que o disco não poderia servir melhor à personalidade e à voz de Vashti, que nesta canção soa tão íntima e sincera, com uma vibe campestre difícil de se conseguir a não ser que você realmente tenha estado lá, como ela esteve.

No fim das contas, na verdade, ouvindo “Diamond Day” é difícil imaginar Vashti Bunyan vivendo qualquer outra vida senão a que ela vive: longe do showbizz, praticamente reclusa e feliz no campo com sua família.

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Júlio Victor, do Sasha Grey As Wife e do canal Tá Na Capa

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Júlio Victor
Júlio Victor, do Sasha Grey As Wife

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje o convidado é Júlio Victor, da banda Sasha Grey As Wife e do canal do Youtube Tá Na Capa.

Malice Mizer“Syunikiss ~Nidome no Aitou~”

“Meu interesse pela música francesa começou com o Malice Mizer, uma finada banda japonesa muito importante tanto pela musicalidade como pelo conceito estético que influenciou uma geração, sendo um dos pioneiros do movimento visual kei. Após a morte do baterista Kami a banda definhou até deixar de existir, é uma pena, pois é um dos bateristas que mais gosto, ele tem muita personalidade. A mistura dos sons vai desde o eletrônico francês até ritmos e instrumentos tradicionais”.

Baton Rouge“Côte du Py”

“Descobri essa banda pois o guitarrista da primeira banda que gravei na vida me passou sua pasta inteira de músicas. Conheci muita coisa por lá, mas Baton Rouge foi uma das mais valiosas. Uma espécie de de post punk com hardcore e uma pitada daquele real emo. Gravações grosseiras, vocais gritados e aquele ar de sofisticação ainda. É um som agridoce e pouco conhecido, do tipo que tu sabe que só vai poder ver ao vivo se sair do país e der sorte”.

Sport“Ulrike Maier”

“Primeira banda francesa que vi um show na vida e pasmem, foi aqui na minha cidade, Volta Redonda, interior do Rio de Janeiro. Eles fizeram uma tour gigante, na raça, na unha. Todos integrantes muito felizes e com calor pra cacete. As letras falam muito sobre convivência e a experiência dessa apresentação foi linda. Rolou em uma praça, puxando energia do poste, várias bandas do gênero, crianças passando, brincando na grama enquanto o show rolava, galera cantando à plenos pulmões. Aquela ocasião que tu não consegue tirar o celular do bolso e guarda tudo na memória”.

Zaz“Je Veux”

Zaz é uma daquelas artistas pops que mais o país dela conhece do que o mundo por completo. No Brasil temos vários assim, isso acontece por conta de não cantar em inglês, mas em seu idioma natal. Para mim é uma daquelas recordações que “sobram” de um relacionamento, a pessoa se vai e ficar uma banda, uma música, um show. Até rupturas trazem coisas boas. A música ‘Je Veux’ é engraçada pois exalta uma simplicidade que lembra bastante a temática de ‘Royals’ da Lorde, só que de maneira mais simples ainda, mais pé no chão. Gosto desse tipo de mensagem, exaltando uma vida simples e tal. Ouça Zaz para cozinhar, é inspirador”.

Alcest“Autre Temps”

“As pessoas falam que eu pareço o vocalista e de fato pareço. As pessoas falam que minha banda, Sasha Grey As Wife, lembra Alcest e de fato lembra. O som deles é folk, pesado, intenso, catártico, letras dramáticas e cheias de referências. Acho que foi a melhor referência que tive para incluir minha paixão pela música francesa dentro do meu som, pois, os objetivos musicais são parecidos. Gosto também como eles se renovam à cada disco, parece sempre algo novo, sem limites, do ambiente acústico aos gritos”.

Perfeição: Joni Mitchell – “Blue” (1971)

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Bolachas Finas, por Victor José

Hoje vou falar de algo extremamente consagrado e que por algum motivo absurdo não tem o devido reconhecimento no Brasil.

Recentemente escutei “Blue” (1971) três vezes seguidas e não encontrei um erro sequer, nada fora do lugar, nenhuma nota mal executada. A qualidade das faixas sempre me impressiona. Isso sem contar toda aquela sensibilidade em ebulição durante seus 35 minutos e poucos. São canções que emocionam facilmente qualquer um disposto a relaxar e curti-las, seja pelas melodias, seja pelas letras ou por qualquer outro detalhe. Analisando a esfera da música folk/pop rock, é muito justo afirmar que pouquíssimos artistas alcançaram excelência semelhante.

Naquela época de sua carreira, Joni Mitchell passava por mudanças significantes. Por conta do grande sucesso alcançado nos anos anteriores ao “Blue”, a cantora, sempre avessa à grandes públicos, havia decidido parar de se apresentar por um tempo. Além disso, ela havia terminado um longo relacionamento com Graham Nash, do grupo Crosby, Stills, Nash & Young e ex-The Hollies. Com isso, ela tirou umas férias e foi à Europa para acalmar os ânimos, e foi lá que ela escreveu quase todas as canções do álbum.

Em uma entrevista para a revista Rolling Stone em 1979, ela disse: “’Blue’ foi um momento decisivo de muitas maneiras. No Blue, quase não há uma nota desonesta nos vocais. Naquela época da minha vida, não possuía defesas pessoais. Me sentia como papel celofane num maço de cigarros. Sentia como se não tivesse segredos do mundo, e não pudesse fingir que minha vida era forte. Mas a vantagem disso na música era de que não havia defesas ali também”.

É justamente essa vulnerabilidade que seduz o ouvinte logo na primeira audição. Em “Blue”, Mitchell interpreta temas reflexivos como relacionamentos, solidão e anseios pessoais de modo tão honesto que passamos a aceitar a melancolia como um ingrediente extremamente agradável.

Apesar de vez ou outra conter nas faixas alguns músicos a mais (dentre eles, James Taylor nos violões), “Blue” é basicamente a voz de Joni Mitchell acompanhada por seu piano, violão ou às vezes um instrumento chamado dulcimer. O disco é essencialmente folk, mas nota-se também uma pitada de jazz nas estruturas musicais, detalhe que culminaria anos depois em álbuns com forte sonoridade fusion, como o “Hejira”, de 1976.

O disco começa com “All I Want”, perfeita para um início. Aqueles acordes de dulcimer misturados com a melodia entram na cabeça e custam a sair. A música, que como sugere o título trata de anseios pessoais, também parece ser um relato de alguém buscando uma identidade.

Depois vem a ingênua “My Old Man”. Apoiada pelo piano, Mitchell fala dubiamente sobre seu antigo relacionamento com Graham Nash, de modo que os versos exaltam os momentos em que ele esteve presente e o estribilho cai para o vazio de estar sozinha.

Sabe-se que “Little Green” foi composta em 1967, portanto fica sendo provavelmente a canção mais antiga do álbum. Mesmo estando um pouco distante das demais composições em relação a tempo, a música, a mais folk dentre todas, se encaixou perfeitamente à atmosfera de “Blue”. Por outro lado, ela contém a letra mais subjetiva do disco, que permite diferentes interpretações.

Já em “Carey”, Mitchell está acompanhada de uma banda acústica e vocais fazem harmonias, a alegria dá as caras no tom desta faixa com jeito de road movie. “Carey” fala sobre despedidas de maneira leve. É evidente nesta composição a influência de suas férias na Europa quando ela canta: “Maybe I’ll go to Amsterdam, or maybe I’ll go to Rome”.

“Blue, songs are like tattoos”. Essa frase justifica toda a densidade do disco. O tal “Blue” que ela cita é David Blue, um expoente compositor de música folk da cena de Greenwich Village, em Nova Iorque. A canção pode ser interpretada como um ponto de vista da desesperança que assolou grande parte daquela geração no pós-hippie. Piano e voz fecha o lado A.

A honesta “California” talvez seja a melhor canção sobre esse estado norte-americano. Segue a linha nostálgica e road de “Carey”, além da banda acústica que a acompanha e o tom levemente descontraído.

A batida com afinação aberta de “This Flight Tonight” lembra bastante o que ela vinha fazendo anteriormente em sua carreira, como no hit “Big Yellow Taxi”. Dá a impressão de que esta seja a faixa mais descompromissada de “Blue”, o que dá uma sensação de respiro entre toda a emoção das demais músicas. Curiosamente, o grupo escocês Nazareth regravou alguns anos mais tarde “This Flight Tonight” de modo completamente distinto, versão que vale a pena ser conferida.

A partir de “River”, chegamos à parte mais dolorosa de “Blue”. “River” é atemporal, sua melodia é irresistível e funcionaria para qualquer época após seu lançamento. Dizem que nesta faixa, Joni Mitchell quis abordar sobre seu desconforto com o sucesso e a vontade de querer escapar da fama.

A preferida de muita gente, “A Case of You” permanece sendo um dos maiores clássicos da carreira de Mitchell. Regravada por uma série de cantores como Prince, Tori Amos e James Taylor (que participou das gravações), a música é explicitamente voltada para seu relacionamento com Graham Nash e escancara a habilidade da compositora em escrever letras capazes de proporcionar ao público uma identificação imediata com algum momento da vida.

“Blue” encerra com a melhor performance de Joni Mitchell no álbum. “The Last Time I Saw Richard” é a mais difícil de escutar, é preciso passar por todas as outras para chegar a esta obra-prima e assimilá-la bem. Sua letra corrida, novamente acompanhada apenas por piano e voz, parece ser sobre alguém caindo na real e tendo que mudar de postura para encontrar a felicidade. É bem claro que tudo foi feito para si mesma.

Blue foi um grande sucesso de crítica e público, chegando a vender mais de um milhão de cópias. Nas paradas de sucesso, “Blue” alcançou o 15º lugar na Billboard e o 3º nas paradas inglesas. “Carey” foi selecionada para ser o single de promoção.

Muitas vezes, o álbum é citado como um dos melhores de todos os tempos, como na lista de 2003 da Rolling Stone dos melhores discos, obtendo a 30ª posição. Recentemente, a revista fez outra lista, desta vez com os 50 melhores álbuns femininos da história da música, e Blue ficou em 2º lugar.

Alguns afirmam que, por ser delicado demais, este é um LP mais voltado para o público feminino. Pura bobagem. “Blue” se encaixa perfeitamente em qualquer apreciador do bom folk, pop rock ou para qualquer um disposto a se emocionar com música que não morre com o tempo.

Eu Sou o Gabe: música deprê-cômica feita por um cara cômico-deprê

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Eu Sou o Gabe
Gabe Cielici

Talvez você conheça Gabe Cielici por vê-lo às vezes pelas ruas com sua mesa com a plaquinha “Piadas de Graça”, ou talvez o tenha visto saindo vencedor do Prêmio Multishow de Humor de 2015. Ou, quem sabe, você nunca tenha ouvido falar do rapaz barbado que sempre começa suas apresentações com a alcunha que usa artisticamente: Eu Sou o Gabe.

Em 2015 ele lançou seu EP “Músicas Para Ex-Namoradas”, um disco com algo de folk e muito de histórias de amores desfeitos e ressentimento. Apesar de se tratar de um trabalho humorístico, recebeu diversas críticas pelos retratos de pensamentos violentos (como os Mamonas Assassinas já fizeram em “Uma Arlinda Mulher”). Hoje o próprio compositor acha que são coisas a serem deixadas para trás. “Eu entendi que a maior parte do problema estava sobre eu não saber lidar com os sentimentos, acho que muita gente passa e passou por isso. Hoje eu não conseguiria escrever músicas sobre ex-namoradas, hoje só consigo olhar pros meus próprios fracassos e julgá-los”, explica.

Suas novas músicas tratam de depressão e tristeza de uma forma que pode-se dizer bem-humorada. É algo que fica entre a trilha sonora para o suicídio e um álbum de humor. Em músicas como “Gabeer” e “Cáries e um Cupido” dá pra notar que a comédia auto-depreciativa é o foco do trabalho de Gabe atualmente. Em breve ele lançará seu próximo EP, “Bueiro das Barganhas”, em homenagem à boêmia Rua Augusta e seus frequentadores.

Conversei com ele sobre sua carreira, o EP “Músicas Para Ex-Namoradas” e sua recepção, a influência do punk rock e seu futuro:

– Como você começou sua carreira musical?

Eu comecei em 1998 influenciando pelo álbum “Nimrod” do Green Day. Meu pai me levou na extinta W&K Music em Santos e me comprou uma Epiphone Special Sunburst pra que eu treinasse ao invés de ficar tocando guitarra virtual na frente do espelho enquanto meus irmãos me zoavam. Aí eu comecei a fazer aulas de guitarra com um grande música da Baixada Santista, o Reinaldo Andrade. 1 mês depois eu já tinha uma banda chamada Memphis (o nome dos prédio onde eu morava e ensaiava no salão de festas).

– E como era o som da Memphis?

Um punk rock melódico bem simples 4/4, como ainda é hoje. O meu animal interior é uma música de punk rock melódico simples.

– E como esse som se transformou no projeto Eu Sou o Gabe?

Desde sempre continuei tendo bandas e tocando. E as partes que eu mais gostava dos shows, era no intervalo entre uma música e outra que eu falava alguma coisa, algum pensamento ou só apenas besteira no microfone. Aí quando teve o boom do Stand Up Comedy no Brasil eu 2009-2011, eu já tinha morado no Texas com minha tia e primos, e lá eu consumia muito Stand Up. E nessa época eu tava parado com banda, deprimido, sem emprego, então me joguei pra SP pra tentar a vida autoral na comédia. Passei 1 ano dormindo na rodoviária da Barra Funda todos os dias, tomava banho na casa de amigos, fazia show e ia pra rodoviária. Aí desenvolvendo as piadas em palcos, não demorou pra eu abrir meu hardcase do violão, o empunhar e tentar escrever canções pra compor meus sets de piadas e musicáliza-las.

– E foi aí que surgiu o EP “Músicas Para Ex-Namoradas”?

Sim sim, falei dos meus relacionamentos e da maneira como eu não sabia lidar com sentimentos, eu era imaturo, ainda sou, mas hoje prefiro ficar sozinho pra não atrapalhar a vida de ninguém. Nunca fiz nada grave e nem traía, mas eu sempre projetava algo que eu não era pra me sentir aceito e isso eventualmente acarretava problemas, eu vivia fugindo de uma bola de neve que ia crescendo e eu era bola de neve.

Eu Sou o Gabe

– Seu EP chegou a receber acusações de ser machista por causa das letras.

Sim, chegou. O que é normal ao se ouvir uma música sobre trancar sua ex na geladeira, é uma visão bem psicótica. Mas eu nunca falei de todas as mulheres em geral, e a música falava da ideia de congelar o sentimento, o momento, eu não tranquei ninguém em frigorífico algum. E com certeza minha visão mudou desde a época que eu compus o EP, eu entendi que a maior parte do problema estava sobre eu não saber lidar com os sentimentos, acho que muita gente passa e passou por isso. Hoje eu não conseguiria escrever músicas sobre ex namoradas, hoje só consigo olhar pros meus próprios fracassos e julgá-los.

– Ganhar o prêmio Multishow de humor te deu mais força pra continuar fazendo música?

Deu sim, foi nele que eu voltei a me apegar a minha música mais do que nunca. Foi quando eu descobri o câncer da minha mãe, e eu estava numa depressão pesada, e durante o Prêmio Multishow eu me uni de uma maneira com meu violão e minhas piadas como nunca tinha feito antes, como se fosse a última vez que eu estivesse fazendo aquilo. E estou assim desde então.

– As suas músicas são todas autobiográficas ou você se inspira em coisas que acontecem com outras pessoas também?

São todas autobiográficas de coisas que aconteceram ou eu senti. Eu tava passando por um bloqueio criativo recentemente, pois ando passando por situações mais tristes do que o comum, e não tava querendo falar sobre isso pra não me expor no fundo do poço, mas eu lembrei que eu estou aqui pra cantar sobre minha vida, não importa onde eu estiver. E foi daí que veio minha última música “Gabeer – Cerveja & Solidão”. É a realidade que eu tenho vivido, madrugadas nos bares da Augusta depois de sair dos meus shows de Comédia, pensando com o copo na mão e o cotovelo apoiado no balcão. Eu tava querendo emagrecer e viver novas histórias saudáveis pra contar, e dizer que eu saí da Depressão e vai ficar tudo bem, mas pelo jeito esse tipo de composição não vai sair tão cedo.

– Você já pensou em fazer algo com banda novamente?

Penso todas vezes que eu empunho o violão, penso o como seria bom um baixo pesado pra me arrepiar e uma bateria pra fazer minha cabeça sacudir, mas eu tô pra montar uma banda com uma galera, vamos ver.

Eu Sou o Gabe

– Já está compondo para um novo EP?

Sim, o “Bueiro das Barganhas” (apelido carinhoso que dou pra Augusta) sai no dia 11/05. Vai ser produzido pelo Tavares.

– Opa, me fala mais sobre ele! Como foi a composição desse EP? Por que usar a Augusta como tema?

Esse EP é uma crônica musical sobre a minha relação com a Augusta. Eu moro no centro no pé da Augusta, tudo que eu faço, pela Augusta eu passo. Quando vou contar piadas de graça na Paulista, eu subo pela Augusta. Os dois bares que eu me apresento faz 3 anos, ficam na Augusta, eu vou andando pros meus locais de trabalho, pra rua contar piadas e pros bares pra tocar e musicalizar as piadas. Tem madrugadas eu sou tomado por uma inquietação dentro meu kitinete, e então eu calço meus sapatos e vou caminhar na Augusta pra pensar, parar no Bar do Bahia e uma cerveja tomar, a Augusta tem sido a rua da minha vida nos últimos anos. E então, desde que tudo aconteceu, minha carreira de comédia em SP, o Prêmio Multishow, a Comedy Central, desde antes, durante e depois, eu já estava subindo e descendo a Augusta, colando cartazes de shows na ruas, entregando panfletos de shows, conversando com donos de bares pra conseguir fechar shows, os mesmos proprietários de bares que hoje são meus colegas de trabalho e amigos. E é sobre isso que eu estou escrevendo pra poder cantar.

– Quais as suas maiores influências musicais?

The Get Up Kids, Laura Stevenson, Millencolin e Chuck Ragan.

– Você já fez apresentações só musicais, sem stand-up junto?

Não desde que não tenho mais banda.

– Quais os seus próximos passos em 2017?

Emagrecer.

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes!) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Bomb The Music Industry e Title Fight, da gringa, e BaySide Kings e BlackJaw de Santos!

Joia esquecida: Roy Harper – “Stormcock” (1971)

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Roy Harper - Stormcock

Bolachas Finas, por Victor José

Na primeira vez que ouvi este álbum, ficou claro que havia acabado de me deparar com uma obra-prima relativamente desconhecida. Stormcock” se resume a isso. É uma pérola injustiçada pela ação do tempo. Lançado em 1971, o quinto trabalho de Roy Harper é um daqueles discos especiais, que de uma forma ou de outra vai te surpreender artisticamente. A começar pela pequena quantidade faixas. São apenas quatro canções, todas longas, todas fantásticas, seja pelo som como pelas letras contundentes.

Pode-se dizer que o LP apresenta um caso incomum de folk progressivo. A combinação de arranjos elaborados com a simplicidade daquele típico som trovador predominante no folk britânico dá ao trabalho aquele sabor de algo inusitado, ao mesmo tempo em que soa absurdamente certeiro.

Mais conhecido pelos vocais em “Have A Cigar” do Pink Floyd e pela menção de seu nome na faixa “Hats Off to (Roy) Harper”, do Led Zeppelin, o músico é considerado uma lenda pelo público britânico. Desde o início de sua carreira, em meados da década de 1960, Roy vinha lançando discos de folk rock de relativo sucesso, dividindo a cena com nomes como Donovan, Bert Jansch e Fairport Convention. É curioso como Roy era bem relacionado, cheio de medalhões participando de seus trabalhos, e mesmo assim não conseguiu emplacar.

De Sophiticated Beggar” (1967) até Flat Baroque and Berserk” (1970), seus álbuns eram regulares, com um momento ou outro de grande impacto. Porém, foi somente com a chegada de “Stormcock” que ele iria realmente surpreender.

O álbum foi gravado estúdio Abbey Road, com uma equipe de primeira na produção e na engenharia de som. Entre os envolvidos estava Alan Parsons, o mesmo que produziu o clássico Dark Side of The Moon” e lançou em carreira solo vários singles de sucesso ao longo dos anos 1970.

A começar por “Hors d’œuvres”, você nota que vem pela frente uma forte dose de emoção. A música fala de um homem no corredor da morte, bastante inspirada no caso de Caryl Chessman, o “Bandido da Luz Vermelha” norte-americano, que estudou Direito na cadeia, dispensou advogados e fez sua própria defesa. Eu realmente não tenho muito o que dizer sobre essa música porque ela dispensa qualquer comentário. A simplicidade, a singularidade e o forte sentimento da gravação são capazes de nos remeter aos grandes momentos do folk ou do rock em geral, sem exagero.

Roy mantém o nível lá em cima com “Same Old Rock”, uma belíssima trama de violões com ninguém mais ninguém menos que Jimmy Page. A música passa por uma série de climas, e é impressionante o que acabou saindo daquela dupla. Talvez seja o ponto alto de “Stormcock”, em termos de instrumental e energia. No encarte do LP, Page foi creditado com o nome S. Flavius Mercurius, por questões contratuais.


Com seu violão agressivo, “One Man Rock And Roll Band” é exatamente o que o título menciona. Você consegue imaginar facilmente uma banda à la Zeppelin na base, mas Roy consegue sustentar tudo sozinho e não dá tempo de sentir falta de coisa alguma. Aliás, esse vazio permeia por todas as faixas e é uma das belezas do disco. Dá para afirmar que se trata de folk, mas a produção soa como rock.

Com pouco mais de 13 minutos, a épica “Me and My Woman” encerra o LP com grandiosidade. A música também passeia por diferentes emoções, com seu bem trabalhado arranjo de cordas e uma estrutura complexa. A extensa letra fala basicamente de meio ambiente. Sobre ela, Roy comentou uma vez: “Qual é o nosso destino? Importa? Está ligado ao ‘nosso’ planeta? Na minha opinião, sim”.

Assim como toda a carreira de Roy Harper, o disco vendeu modestamente, mas a crítica o recebeu com entusiasmo, amplamente apontado como o trabalho definitivo do cantor/compositor. Na verdade, o selo de Harper, a Harvest Records, não fez o menor esforço para divulgá-lo, e o disco vendeu muito pouco. Nas palavras do próprio músico: “Eles [o selo] odiaram. Nenhum single. Não havia como promover o disco no rádio”.

Pessoas como Johnny Marr (Smiths) e a banda norte-americana Fleet Foxes já mencionaram “Stormcock” como um de seus álbuns prediletos. A revista NME, em sua lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos divulgada em outubro de 2013, colocou “Stormcock” na 377ª posição.

Faz o seguinte: senta numa poltrona, coloca esse disco e presta atenção. Vale cada segundo.

Cantarolando: Incredible String Band – “No Sleep Blues” (1967)

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Cantarolando, por Elisa Oieno

“No Sleep Blues” do Incredible String Band talvez seja uma das minhas canções favoritas. É uma bela e sincera descrição de não conseguir dormir, naquele ponto em que ficamos meio dormindo e meio acordados, fazendo com que as coisas que vemos no nosso quarto se misturem com imagens da nossa cabeça e pensamentos aleatórios e trocadilhos bobos, daqueles que fazemos quando nossa mente está a mil por hora enquanto todos dormem.

As fendas estalam as janelas, os uivos prendem o assoalho
A chuva apodrece as vigas
e você tem mesmo que roncar?
É um clima muito inclemente, para a estação da noite
Aquele rato está jogando futebol? Oh, eu pensei que eles não gostavam da luz

O refrão é meio que um resmungo do coitado sujeito tentando dormir, que está começando a sentir aquela “tristezinha”, ou simplesmente o “blues” da insônia. Isso tudo em uma melodia que é super inusitada, como a maioria das músicas do Incredible String Band:

E o amanhecer vem entrando de fininho quando ele pensa que eu não estou vendo
Eu estou começando a sofrer, cara
eu sabia mas agora eu acredito, cara, dizem que dormir é um barato
Eu quero deitar, mas desculpe se te acordei, é que eu estou com o “blues” de não dormir.

Essa banda se tornou um grande expoente do folk britânico nos anos 60, mais conhecida como um duo, formado por Robin Williamson e Mike Heron. O som do Incredible String Band é muito característico, abrangendo melodias com influência folk celta e utilizando instrumentos orientais, como a cítara.

Mike Heron, Robin Willianson, Licorice McKechnie e Rose Simpson em sua fazenda comunitária

Considerados como uma banda de “folk psicodélico”, eles faziam parte do movimento de contracultura britânica. Tanto que, na época em que alcançaram prestígio no mainstream e emplacaram nas paradas britânicas e americanas com os discos “The Hangman’s Beautiful Daughter” (1968) e “Wee Tam and The Big Huge” (1969), eles estavam vivendo em uma fazenda com estido de vida comunitário no País de Gales, junto com suas namoradas Licorice McKechnie e Rose Simpson, que à esta altura já faziam parte da banda, participando das gravações dos discos e apresentações ao vivo.

Nesta época, eles foram convidados a participar do Woodstock, porém dizem que fizeram o pior show do festival. Isso aconteceu porque a apresentação deles foi prejudicada pelo fato de que eles tocaram em um dia bem rock do festival, em meio a bandas mais pesadas e elétricas, como Santana, Canned Heat, Janis Joplin e The Who. Totalmente outra vibe, dando meio que o efeito “Carlinhos Brown no Rock in Rio 2001”. Na verdade, eles estavam inscritos para tocarem no dia anterior, em que haviam bandas folk e outras performances acústicas, como Bert Sommers e Arlo Guthrie, mas a banda se recusou a tocar embaixo da chuva do dia, por medo de eletrocutamento. A apresentação deles acabou nem entrando para o filme, uma pena.

Apresentação no Woodstock

A partir do ano seguinte, o Incredible String Band entrou em um declínio criativo, e acabou se separando em 1974. Durou pouco, mas fez um belo barulho. A música “No Sleep Blues” está no disco “The 5000 Spirits or the Layers of the Onion” (1967), que sempre aparece em alguma lista dos “discos que você precisa conhecer” ou “melhores discos dos anos 60” e afins. Sim, o álbum é tão legal quanto a capa, vale a pena de verdade.

Toda uma banda em um violão: John Fahey – “The Dance of Death & Other Plantation Favorites” (1965)

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John Fahey - The Dance of Death and Other Plantation Favorites

Bolachas Finas, por Victor José

Expoente e precursor daquilo que nos EUA se chama de “American Primitive Guitar”, John Fahey (1939-2001) é um desses notáveis pouco badalados. Mesmo distante do grande público, o violonista é constantemente citado como grande referência por gente como David Gilmour, Pete Townshend e Thurston Moore. Até mesmo a revista Rolling Stone o elegeu como um dos melhores guitarristas de todos os tempos.

O que mais impressiona ao escutar qualquer som de Fahey é perceber como as tradições musicais dos EUA se aproximam de coisas como a música caipira do Brasil ou a guarânia paraguaia com tanta propriedade. Os sons mais ancestrais de qualquer país parecem vir de uma única fonte desconhecida. Seria isso produto do se chama de inconsciente coletivo? Quem sabe… talvez The Dance of Death & Other Plantation Favorites”, terceiro álbum do músico, possa ser um exemplo concreto disso.

O LP é resultado de uma sessão realizada em 22 de agosto de 1964 no Adelphi Studios, em Silver Spring. Muito pouco se sabe sobre esse disco. John Fahey tinha a fama de ser um cara bem recluso, discreto. Mas uma vez, relembrando a gravação que resultou no álbum, ele comentou: “Foi uma sessão interessante, foi a única vez que eu gravei sob efeito de maconha e uísque, então estava bem contente, você sabe…”

Dono de um estilo único e extremamente autossuficiente, John Fahey vinha explorando diferentes afinações e mesclando gêneros com uma habilidade de causar inveja. Fica evidente que ele procura combinar tudo aquilo que há de mais rústico no interior norte-americano: blues, folk, country… E o mais incrível é que a música do sujeito consegue ser isso tudo com apenas um violão. Tanto em “Wine and Roses” como em “Variations on the Coocoo” dá para reconhecer ecos de um country acelerado e um ar soturno do blues, como se fosse uma banda de cordas de um homem só. Realmente, parece algo que já se ouviu antes, mas não. Ali tem algo único.

Por outro lado, “How Long”, ao mesmo tempo em que caminha para um blues, curiosamente se assemelha de forma absurda com o som das nossas violas caipiras do Brasil. E não tem como não mencionar a importância das afinações malucas que Fahey costumava usar. Isso fazia toda a diferença em seu som, e agora se percebe de onde Sonic Youth tirou essa ideia, mesmo que de maneira sutil.

“Poor Boy” começa como se fosse uma canção folk como qualquer outra de Elizabeth Cotten ou desse pessoal bem das antigas, mas logo Fahey introduz um slide e tudo muda para um som inclassificável, ao mesmo tempo em que se comporta como algo estritamente tradicional. “What the Sun Said” é um catado de um monte de invenções. São dez minutos de um baita violonista brincando com instrumento, vendo o que sai.

“On the Banks of the Owchita” é a única faixa que contém mais de um instrumento. Nesta, Bill Barth faz um dueto de violão com Fahey. Outra pérola é “Dance of Death”, música que encerra o disco. Nela, o músico passeia por um bocado de variações e no fim parece que você já está escutando outra canção. Vale destacar o som gasto presente em todo o álbum. É uma mixagem que dá um charme ainda mais pitoresco ao registro. No fim das contas, o disco vibra ligeiramente sombrio mesmo sem parecer triste e brilhante mesmo sem soar feliz. É uma combinação equilibrada e muito bonita.

“The Dance of Death & Other Plantation Favorites” acabou saindo em 1965, pelo selo do próprio Fahey, o Takoma Records. Vendeu pouquíssimo, e hoje é item de colecionador. Apesar de ter sido reeditado em CD na década de 1990. Seu público era bastante restrito. Para se ter uma ideia, no lançamento de seu primeiro LP, Blind Joe Death”, foram prensadas somente cem cópias na primeira tiragem. Por algum motivo, ele acabou se tornando um daqueles gênios que acabam sendo de fato descobertos muitos anos depois. Até lá, foi uma escalada muito lenta e árdua, talvez por isso John Fahey tenha atingido status de lenda. Mas ele merece todos os elogios. É um mestre.

Ouça esse disco e tente classificá-lo. É impossível.

Construindo Serapicos: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Construindo Serapicos

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo se baseia: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o quarteto paulistano Serapicos, que indica suas 20 canções indispensáveis.

The Magnetic Fields“The Nun’s Litany”
‘Considero o Stephin Merrit, compositor do Magnetic Fields, o melhor letrista de todos os tempos. Sua obra deveria estar ao lado de Shakespeare, Camões e Cervantes. Essa canção é só uma amostra do que esse desgraçado é capaz de fazer.’

Leonard Cohen“Bird on a Wire”
‘Muito difícil escolher apenas uma música do Cohen. Mas se tivesse que apresentar apenas uma música dele para os alienígenas seria “Bird on a Wire”. Essa música é um soco no estômago, a síntese da vida de um poeta.’

Rufus Wainwright“Going to a Town”
‘O Rufus é incrível. Letrista fudido, baita cantor e uns arranjos muito cabeçudos e lindos.’

Nina Simone“Sinner Man”
‘Essa música veio de um espiritual tradicional americano. E a Nina Simone é ridícula. Que artista catártica!

Judy Garland“Somewhere Over The Rainbow”
‘O salto de oitava entre as duas primeiras notas já dá toda vibe dessa masterpiece cinematográfica. Depois fizeram aquela versão no ukulelê tirando esse salto e estragaram a música. Escrita por Harold Arlen, que também compôs “Ac-Cent-Tchu-Ate the Positive”, outra pérola.’

System of a Down“B.Y.O.B.”
‘System é uma das bandas mais criativas dos últimos 150 anos. Adoro o ritmo frenéticos de melodias diferentes, quebradas ritmicas e berros ensandecidos. Influencia muito meu pensamento de forma musical e como estruturar canções sem seguir a fórmula óbvia verso-refrão.’

Green Day“Basket Case”
‘Talvez a música que mais tenha mudado minha vida. A primeira frase da melodia acompanhada pela guitarra mutada de power-chord foi minha obsessão dos 11 aos 27 anos, quando comecei a compor.’

Tuva Semmingsen“Lascia ch’io pianga”
‘Essa é uma ária de Handel que toca na abertura do filme “Anti-Cristo” do Lars Von Trier. É uma melodia devastadora e essa música resume bem minha adoração pela música sacra.’

Bajaga“Muzika na struju”
‘Esse é um rock iogulsavo com um refrão super-catchy embora seja impossível cantar junto. Gosto bastante do sotaque musical de melodias do leste europeu. Os caras mandam bem.’

Ella Fitzgerald“Let’s Do It”
‘A Ella é uma das grandes intérpretes da obra do Cole Porter, talvez o maior compositor e letrista da primeira leva Broadway. Essa música é uma aula de como falar de putaria sem ser nada vulgar.’

Linda Scott“I’ve Told Every Little Star”
‘Essa música toca no filme “Mulholland Drive” do David Lynch. Gosto músicas que tocam em um filme e conseguem resumir toda a atmosfera da história. Escrita por Jerome Kern, outro monstro do Early Broadway.’

Adoniran Barbosa“Iracema”
‘Pra não escolher “Trem das Onze”, vou de Iracema. Melodia linda e melancólica. E o que dizer desses backings femininos que entram harmonizando em coro? Fudido.’

Rogério Skylab“Você Vai Continuar Fazendo Música”
‘Skylab é o maior poeta vivo que temos nesse país. Essa música é um super desincentivo pra quem quer ser artista.

Cérebro Eletrônico“Cama”
‘Conheci essa música ao vivo em um show do Cérebro e assim que veio o refrão pensei ‘Caralho’.

Júpiter Maçã“Um Lugar do Caralho”
‘O Júpiter foi um dos primeiros cancioneiros da música brasileira que me identifiquei. Essa música é um hino negligenciado pela grande mídia.’

“Se Essa Rua Fosse Minha”
‘Essa canção é de autoria anônima, tem cara de ser portuguesa. Que melodia assombrosa e atemporal.’

Jefferson Airplane“White Rabbit”
‘Essa música foi escrita pela Grace Slick, frontgirl do Jefferson Airplane. É a minha favorita da fase psicodélica do rock. Muito melhor que Rolling Stones.’

Johnny Cash“The Man Comes Around”
‘Nessa canção, Cash descreve o Apocalipse. Lembro de ouvir nos créditos de um filme de zumbi antes de saber quem era Johnny Cash. Esse foi o último disco dele antes de morrer e dá pra ouvir o sopro da morte saindo de voz sussurrada e salivada.’

4 Non Blondes“What’s Up?”
‘Todo mundo que nasceu em 1990 foi influenciado por essa música. Refrão grudento demais, quebrada pro falsete de eriçar os pelos da nuca. Escrita por Linda Perry.’

Enya“Orinoco Flow”
‘Essa é uma obra-prima da World Music. Melodia e arranjo hipnóticas. Parabéns para Enya.’

Frank Sinatra“My Way”
‘Essa música foi traduzida do francês pelo grande Paul Anka. Tudo é perfeito nesse arranjo cantando pelo Frank Sinatra. E é dessas canções que exemplificam perfeitamente um pensamento e uma sensação universal.’