O som caleidoscópico do Jefferson Airplane

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Um dos motivos pelo qual estou falando sobre o Jefferson Airplane é porque aqui no Brasil parece que a banda ainda não foi completamente assimilada. É um caso muito parecido com o de outros grupos como Allman Brothers Band ou Roxy Music, que pra música pop mundial são tão influentes como aqui é pra nós os Novos Baianos ou Titãs.

Formado em 1965, em São Francisco, o grupo liderado por Marty Balin (vocais) e Paul Kantner (guitarra e vocais) foi um dos precursores do que mais tarde viria a ser chamado de rock psicodélico. Na época do “Verão do Amor”, em 1967, a banda esteve no auge e conseguiu emplacar no rádio sucessos como “Somebody to Love” e “White Rabbit”, clássicos que hoje são praticamente as únicas músicas lembradas pelo público em geral.

O Airplane sempre foi inventivo, tanto em estúdio quanto ao vivo. Jorma Kaukonen (guitarra), Jack Cassady (baixo) e Spencer Dryden (bateria) tinham inclinação para improvisos e enriqueciam o som do grupo com influências do jazz e do blues enquanto Balin e Grace Slick entrelaçavam suas vozes com a guitarra Rickenbaker de 12 cordas de Kantner. Era como se estivessem reinventando harmonias incessantemente. Considerando a influência do LSD no período, essa estranha junção soava como um casamento entre The Byrds com Cream e mais alguma coisa levemente caótica.

O grupo durou até 1974. Por conta da relativa vida curta, pode-se dizer que muitos músicos passaram pelo Jefferson Airplane, e com essa constante entrada e saída de integrantes, gradativamente, o grupo se transformou no Jefferson Starship, o qual não vale muito a pena perder tempo, com exceção de alguns poucos momentos de inspiração.

A fase áurea da banda vai de 1966 a 1969.

“Jefferson Airplane Takes Off” (1966)

O debut da banda ainda não contava com Grace Slick nos vocais e Spencer Dryden na bateria. Signe Anderson e Skip Spence (mais tarde fundador do Moby Grape) eram os donos das posições, respectivamente. Quanto à sonoridade do disco, é notável a predominância do folk rock nas canções, o que acabou resultando num ponto positivo. “Takes Off” é agradável do início ao fim e, como em grande parte das estreias musicais, é um pouco contido se comparado aos demais trabalhos. A ótima “Let Me In” mostra exatamente pra qual direção o rock‘n’roll americano estava apontando naquela época de transição, enquanto “It’s No Secret” revela a competência de Marty Balin como vocalista e fazedor de melodias pegajosas. Destaque também para a elegante “Come Up the Years”.

“Surrealistic Pillow” (1967)

Muitos são os motivos pra este trabalho ser considerado o ponto alto do Jefferson Airplane. A cena de São Francisco estava ainda mais efervescente, as composições eram mais coesas, o então novo baterista Spencer Dryden era mais adequado à sonoridade dos demais músicos e a entrada de Grace Slick de fato transformou o grupo em algo maior. O disco é excelente de ponta a ponta e não é exagero afirmar que o resultado final é um dos melhores da história do rock. Basta escutar o início de “She Has Funny Cars” e se entregar ao repertório, que vai da sutileza acústica de “How Do You Feel” e “Comin’ Back To Me”, às mais roqueiras “1/3 of a Mile in 10 Seconds” e o hit “Somebody to Love”, que chegou a entrar no Top 10 das rádios. Tem a também clássica “Plastic Fantastic Lover”, com participação de Jerry Garcia, do The Grateful Dead, no violão, e a obra-prima “White Rabbit”, onde a banda – sobretudo Grace – alcança um resultado ímpar que sobreviveu ao tempo. “Surrealistic Pillow” foi um grande sucesso, vendendo mais de um milhão de cópias na época do lançamento e transformando o Jefferson Airplane numa sensação nos EUA. Referência de um dos períodos mais prolíferos da música Pop. Perfeito.

“After Bathing at Baxter’s” (1967)

Quando se fala de alternative rock é fácil vir em mente grupos como Sonic Youth. Por que não Jefferson Airplane? Contradizendo ao título do álbum anterior, “After Bathing at Baxter’s” é mais surrealista e pode ser tido como exemplo de como um produto de sucesso pode se transformar em algo mais difícil de digerir, no bom sentido. Tirando “Martha”, que de certa forma repete a fórmula dos dois primeiros, este LP é muito mais agressivo que os anteriores e é mais próximo de como soavam nos palcos, talvez por isso seja o favorito de muita gente. E desta vez está escancarada nas músicas a influência do LSD sobre a banda, basta ouvir “Two Heads” ou a muito bem construída “Won’t You Try/Saturday Afternoon”, que divide com “The Ballad of You & Me & Pooneil” o posto de melhor canção do álbum. Vale lembrar também de “Young Girl Sunday Blues”, que é um rock irresistível. Outro ponto a favor é o baixo de Jack Cassady, que se destaca ao longo das canções e culmina na “Watch Her Ride”, um dos singles escolhidos pra promover o disco. Tem umas doideiras que muita gente desacostumada com sons psicodélicos julgará pura bobagem, como a colagem de bizarrices em “A Small Package of Value Will Come to You, Shortly” e o improviso “Spare Chaynge”, mas em “Baxter’s” o Airplane definitivamente está mais solto.

“Crown of Creation” (1968)

A faixa-título é um bom pretexto pra apresentar a banda a alguém que nunca escutou nada deles. “The House at Pooneil Corners” tem uma atmosfera furiosa e densa, enquanto por outro lado há algumas canções com a roupagem mais enxuta, o que dá pra notar em “Lather” – com direito a solo de nariz – e na ótima balada “Triad”, composta por David Crosby. “Greasy Heart” é uma daquelas que agradam logo na primeira audição, sem muitas firulas. Há também um pouco da estranheza, como em “Would You Like a Snack” e “The Saga of Sydney Spacepig”. “Crown of Creation” segue a linha de “Baxter’s”, apesar de parecer um pouco menos caleidoscópico.

“Volunteers” (1969)

A essa altura o Airplane havia alcançado o topo da maturidade, e ao mesmo tempo iniciara o processo de auto-destruição. Jorma Kaukonen e Jack Cassady já tinham começado a tocar paralelamente com o Hot Tuna, Marty Balin há tempos não contribuía tanto nas composições e Spencer Dryden já estava de saída pra dar lugar a Joey Covington. Apesar do clima tempestuoso, a banda lançou um dos seus trabalhos mais aclamados pela crítica e público. Dá vontade de escutá-lo novamente assim que termina. “We Can Be Together” é um hino pacifista que para alguns pode parecer meio datado, mas a melodia arrebatadora fala mais alto. “Wooden Ships” é especial por ser de longe o momento mais emotivo da carreira do Jefferson Airplane. Outras faixas, como “Eskimo Blue Day” e “The Farm” mantém o ouvinte satisfeito, mas o ponto alto é a faixa-título. Escrita por Balin, “Volunteers” é dois minutos de um rock direto e que curiosamente tem como base praticamente o mesmo riff de “We Can Be Together”, uma espécie de auto-homenagem. A banda soa mais habilidosa do que em qualquer outro disco anterior a esse, e a guitarra de Jorma Kaukonen tem presença decisiva em praticamente todas as faixas.

Após esses LPs, o Airplane começaria a se desmantelar, a começar pela saída de Marty Balin, um dos fundadores. Lançariam “Bark” (1971) e “Long John Silver” (1972), que também são bacanas, mas aí a banda já não era mais a mesma. No início de 1974 foi anunciado oficialmente o fim. Em 1989 houve uma reunião do grupo com a formação clássica e o lançamento de um álbum homônimo, o qual jamais deveria ter sido lançado.

Além dos trabalhos de estúdio, a banda tem bons discos ao vivo lançados oficialmente: “Bless It’s Pointed Little Head” (1969), “Thirty Seconds Over Winterland” (1973), “2400 Fulton Street” (1987) e “Live at The Fillmore East” (1998).

Pra conhecer melhor a banda, vale a pena o DVD “Fly Jefferson Airplane”, com entrevistas, apresentações de TV e clipes, além da leitura da biografia escrita por Jeff Tamarkin chamada “Got a Revolution! – The Turbulent Flight of Jefferson Airplane”.

Construindo Juvenil Silva: conheça as 20 músicas que mais influenciaram seu som

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Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o cantor e compositor pernambucano Juvenil Silva, que indica suas 20 canções indispensáveis. “Minha lista fala de primeiros impactos e encontros com obras e artistas que viriam muito, de modo geral, me influenciar na música. Fazer essa listinha foi revirar um baú de memórias saborosas que há tempos não mexia. Foi um prazer. Algumas coisas ficaram de fora mas é a vida… Ninguém vai morrer”. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Bob Dylan “Mr Tambourine Man”
Era um atípico dia cinza e de chuva em Recife, a capital tropical do país. Eu havia trazido pra casa uma fita k7 com uma coletânea de Dylan. Seria nosso primeiro encontro. Quando “Mr Tambourine Man” ecoou, algo além daquela voz de areia e mel me transpassou o corpo. Eu sabia que eu nunca mais seria o mesmo depois daquilo. Prossegui meu caminho deglutindo tudo que me era possível encontrar da obra dele. Nunca me senti tão bem alimentado, preenchido.

The Who“My Generation”
Quando conheci The Who, através dessa bomba, fudeu, eu queria ser mod! (Risos) Mesmo morando em Hellcife, que é a porra de um lugar super quente. Eu catava terninhos coloridos em brechós e outros acessórios que me remetia aquela vibe. Logo além da grande influência sonora, se falando principalmente pelo modo de tocar e compor de Pete Townshend, abria-se pra mim todo um novo e maravilhoso universo estético que abracei por uma determinada época.

Ave Sangria“Dois Navegantes”
Meus amigos haviam alugado um CD que era um CD gravado de um vinil, tinha um som todo meio agudo e havia chiado de vinil. Quando o play foi dado e a introdução de Dois Navegantes, faixa abre alas do único disco da banda mais fantástica de minha terrinha, aquele som divino me embebedou, me enfumeceu embelezando minhas asas com novas e coloridas penugens. Ave Sangria.

Mutantes“Don Quixote”
Um vinil, na contra capa, seres do outro mundo… Era o segundo dos Mutantes, o que na frente Rita tá de noiva. Por intermédio dele me entrou Arnaldo Baptista, todo aquele universo de arranjos genias de orquestras, as guitarras lindas e inimagináveis de Serginho, Rita Lee e suas potências criativas. Toda aquela orgia sonora embaralhava de forma maravilhosa minha cabeça. “Palmas para Don Quixote que ele merece”.

The Beatles“I’m Only Sleeping”
Conhecia a fase “iê iê iê” dos Beatles, quando o “Revolver” entrou na jogada, me expandiu para um outro universo Beatle. “I’m Only Sleeping” vinha com aquela preguiça e falsa despretensão de ser uma das minhas canções preferidas deles. Fiquei fissurado na brincadeira de guitarras reversas e nessas harmonias derretidas. Amo a melodia vocal!

Love“Alone Again Or”
Num certo e idiota momento em que eu achava que nada mais me surpreenderia tanto… Em que eu já achava que conhecia todos meus deuses… Me aparece Arthur Lee. “ Alone Again Or” abre a porta pra “Mudanças Eternas”.

Sá, Rodrix e Guarabyra“Desenhos no Jornal”
Lembro como hoje, era noite, havia saído de um ensaio num estúdio do centro. Um amigo estava com uns vinis na mão, entre eles o “Terra” de Sá, Rodrix e Guarabyra. Nunca vou entender o porque, até porque ele gostava de som bom. Talvez ele quiser legal comigo ou estivesse afim de comer um cachorro quente, ou estava sem passagem pra voltar pra casa. Bem, não sei. Mas ele me vendeu o vinil por três reais. E foi assim que eu adentrei no mundo maravilhoso do que chamam “Rock Rural”. Essa música me deita num cama bem fofinha e decola pra mim pelo cosmo entre sensações orgasmáticas e delírios de amores.

Serge Gainsbourg “Intoxicated Man”
Sem perceber a gente vai se apegando ao habitual, o que nos vem. Em relação a música, a gente fica meio que nessa, musica em português, musica em inglês… Serge chegou trazendo outro idioma, sonoridade, dimensão… “Intoxicated Man“ me chapa, me dilui e me funde a cores mais opacas com duras e finas texturas. Abordagens peculiares em outras estéticas sonoras e melódicas.

T.Rex“Jeepster”
Com essa Marc Bolan me seduziu, me excitou e me desflorou pro seu universo glam e peculiar. Gosto como soa e é usada a voz, como funciona a fusão percussão + guitarras, a produção e tudo que envolve essa e outras tantas do T.Rex, que definitivamente é uma de minhas maiores influências.

David Bowie “Life On Mars”
Lembro de ter em meu walkman uma fita abafada do “Hunky Dory” quando saí pleno livre das garras do quartel. Fui dispensado. Saí, era cedo dia, desci numa praça antes da minha parada habitual. Quando terminava essa música eu rebobinava e ouvia de novo, olhando sempre por nada específico que era o tudo de bonito que aquela manhã me proporcionava. “Life on Mars” é uma composição incrível, amo a forma como cresce, explode, surpreende mirando e acertando em cheio num infinito de beleza me fazendo bem. Eu me lasco todo de emoção!

Gilberto Gil – “Cérebro Eletrônico”
Gil arregaçando o irreal entre o balanço na viola, aqueles órgãos pastosos e alucinantes, guitarras futuristas, letras que me levavam além e no geral ter a convicção que ouvir Gilberto Gil era ter uma aula intensa de composição. Esse disco de 69, e o de 68 me fez conhecer uma outra faceta do Baiano e da música brasileira em si. Foi a tal da Tropicália e suas bananas ao vento que me sopraram por novos caminhos também.

Sérgio Sampaio“Eu Sou Aquele Que Disse”
Sampaio entrou na minha vida pra ficar e me arrastar pra universos ainda mais belos e sombrios em termos de poesia e canção. “Eu Sou Aquele Que Disse” está no primeiro álbum que tive contato, o primeiro de sua carreira, produzido por ninguém menos que Raul Seixas. Assim como essa, enumeras outras composições de Sérgio me fazem a cabeça e o coração.

Itamar Assumpção “Presadíssimos Ouvintes”
A dimensão de um groove totalmente novo e único pra mim. Entre a voz, baixo, batidas, escalas nas guitarras… Aquela narrativa peculiar contida na letra e acompanhada por arranjos incríveis e super complexos mesmo dendro, passeando numa harmonia simples. Piro em Itamar e em toda uma turma da chamada Lira Paulistana.

Reginaldo Rossi“Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme”
A real é a seguinte, tem coisa que se entranha em sua essência quando você é criança e em relação a música, o brega era algo que meu pai ouvia muito nos fim de semanas em casa. Seja tomando umas ou se arrumando pra sair para dançar nas gafieiras.“Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme” é só uma entre um enxurrada de hits de Rossi que habitam em mim desde sempre, que por muito ficou guardado mas que depois voltou a tona.

Chet Baker“But Not For Me”
Uma pluma que me envolve em ligeiros e sutis encantamentos. Baker é meu prefiro no universo do jazz. Amo como ele usa a voz e o trompete, amo “But Not For Me” e outras tantas desse esplendor.

MC5“Kick Out The Jams”
Dos tempos de furia e algazarra juvenis. Eu alucino na energia e na violência proferida em cada fragmento de kick out the jams.

Belchior“Coração Selvagem”
Meu beeem… Essa sim eu posso dizer sem titubear que é a minha canção preferida desse filosofo foda que é Belchior. Cruel e amável, primitivo e a frente do tempo ao mesmo tempo. A letra dessa música é um manifesto da paixão pela simples alegria de ser.

Nick Drake“Pink Moon”
Eu já conheço Drake há um certo tempo, mas do ano passado pra cá se intensificou meu amor pela obra dele. Lembro de dias em que todas as noites antes de dormir eu o colocava pra tocar, embalar minha mente me lubrificando para sonhos doces e fantásticos. Essa canção e de um beleza harmônica e estética sonora muito peculiar do universo dele.

Sly and the Family Stone“I Want To Take You Higher”
Foi através dessa pedrada que embarquei no mundo de Sly e outras tantas pérolas do soul, como as do Stevie Wonder e no Brasil, Tim Maia, Toni Tornado… Sou apaixonado por soul music e essa música em especifico me deu o estalo pra compor uma canção que se tornou uma espécie de hino no underground que se chama “Eu Vou Tirar Você Da Cara”, que é foi até regravada e adentrou na trilha sonora do filme “Tatuagem”. Sly é um Deus demônio genial!

Raul Seixas“A Maçã”
Por último, mas poderia está em primeiro, Raul Seixas. Algo que levo carimbado em meu dna sonoro. É incrível que até hoje em dia (que escuto bem menos Raul, por ser algo que ouvia muito na adolescência) quando mostro canções minhas pra algumas pessoas, elas percebam Raul ali no meio… “A Maçã” é um hino do amor livre de padrões. Amo essa letra, harmonia, arranjo e a impecável interpretação do Raul.

Kera and the Lesbians tenta ver o mundo com otimismo no single “Bright Future Ahead”

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Quando Kera Armendariz ganhou seu primeiro violão e começou a arranhar o instrumento no seu quarto, com 13 anos de idade, o embrião da banda californiana Kera and the Lesbians já estava formado. Em sua adolescência em San Diego, procurava criar uma banda punk só de mulheres, mas quem cruzou seu caminho foi Phil MacNitt, que começou imediatamente a trabalhar em músicas junto com ela. Logo apareceu Michael Delaney, um baterista que além de destruir na percussão ainda ajudou a criar os clipes e o logo da banda. E assim, estava formada a banda, que a líder descreve como “bipolar folk”.

 

O trio já lançou um EP em 2014, “Year Past 23”e um disco, auto-intitulado, em 2016. Agora, a banda prepara um curta-metragem, “Fall. Apart” para o começo do ano que vem, com três novas músicas. A LA Weekly chegou a falar que a banda era uma das principais da cena de Los Angeles para ficar de olho em 2015, o que catapultou Kera para shows dividindo o palco com Heathers, Girlpool e Devendra Banhart, que ela diz ser seu “guru”. Conversei com ela sobre a carreira da banda, o novo single “Bright Future Ahead” e os planos para o futuro:

 

 

– Como você começou sua carreira?
Eu acho que poderia dizer que começou no dia em que meus pais me compraram meu primeiro violão de Natal, daí eu tive meu começo precoce em vários projetos. Na verdade não existe dinheiro na música, então eu acho que você poderia dizer que este é meu projeto de paixão por enquanto. No entanto, estou esperando fazer mais turnês sob meu nome em um futuro próximo!

– Quais são suas principais influências musicais?
Isso varia e é muito difícil para mim escolher em um gênero. O que encontrei com artistas que admiro não é necessariamente a música, mas mais do que eles representam e como eles optam por expressá-la.

– Como descreveria seu som para alguém que nunca ouviu falar?
No passado descrevi minha música como bi-polar folk, mas sinto que meu som ainda está evoluindo. É tudo subjetivo, então deixarei o indivíduo decidir.

– Me conta mais sobre o material que você lançou até agora.
Eu lancei muito poucas coisas, mas tudo o que lancei me deixam muito orgulhosa. Eu nunca quero me sentir obrigada a escrever uma música. Até agora, eu lancei o EP “Year Past 23”, um disco completo e no início do próximo ano vou lançar meu primeiro curta, intitulado “Fall. Apart”, com três músicas novas!

– Você acabou de lançar “Bright Future Ahead”. O que você pode nos contar sobre essa música?
Eu escrevi essa música em um momento em que me senti mais vulnerável e sem esperança. Eu posso ser muito difícil para mim mesma, e de certa forma me lembrou de ter mais auto-compaixão para mim e para os outros. Eu escrevi isso como uma lembrança do empoderamento, especialmente nestes tempos sombrios.

– Você vê um futuro brilhante à nossa frente?
É tudo uma escolha de acreditar ou não na esperança ou sucumbir a ela. Eu escolho acreditar na esperança e no futuro brilhante.

– O mundo está mostrando aos poucos sua pior face e vemos muito preconceito se espalhando hoje em dia. Como você luta contra isso?
Esses preconceitos sempre existiram, e a retórica do racismo neste país, especialmente, nunca foi abordada diretamente. Eu tive que me perguntar em qual moral escolho viver, e como eu acho que os outros devem ser tratados. Eu não sou perfeita. É tudo um processo, mas eu escolho lutar contra isso tudo tentando o meu melhor para viver apaixonada.

– O que você acha sobre a indústria musical hoje em dia?
Uma piada.

– Quais são os seus próximos passos?
Eu adoro tocar com os outros, então vou fazer mais disso, e também lançar alguns singles novos.

– Recomende algumas bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção ultimamente.
Miya Folick, Molly Burch, Szalt (Companhia de Dança) e Jackie Shane.

Desperte a lua em você com Linda Perhacs, “Moons and Cattails” (1970)

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Linda Perhacs
Linda Perhacs

A canção cantarolada de hoje, “Moons and Cattails”, está em um dos discos mais femininos que já ouvi, o Parallelograms” (1970), de Linda Perhacs. É o primeiro disco dela, que, assim como a Vashti Bunyan, só lançaria seu próximo álbum mais de 40 anos depois, em 2014.

Uma das coisas que mais gosto desse disco é que a energia feminina nas músicas é escancarada e colocada como protagonista. Mas antes de falar da música em si, só vou esclarecer rápida e superficialmente o que será considerado aqui neste texto como “energia feminina” ou “energia masculina”.

Lembremos que todos nós – assim como todas as coisas na Natureza – carregamos tanto energias masculinas quanto femininas. Algumas características de cada energia podem aparecer mais ou aparecer menos em cada indivíduo, o que não tem nada a ver com gênero ou sexualidade. Nossos aspectos masculinos, associados ao arquétipo do Sol, ou energia yang, seriam no sentido da iniciativa, ação, objetividade, proteção, poder, inteligência intelectual. Em desequilíbrio, podem levar à agressividade, opressão, violência, frieza, rigidez, etc. Já nossos aspectos femininos, representados pela Lua, ou energia yin, têm a ver com a nutrição, beleza, receptividade, sedução, acolhimento, sensibilidade, conexão com a Natureza. O desequilíbrio da energia feminina pode nos levar à fúria absoluta e irracional, assim como a uma excessiva passividade.

Logo de cara, dá para perceber que o nosso modo de vida, baseado no patriarcado, faz com que essas energias sejam desequilibradas em cada um de nós, de modo que temos essas energias polarizadas e em conflito. No caso, vivemos em uma lógica que tem em vista e prestigia muito mais aspectos masculinos do que femininos, resultando nos problemas todos que conhecemos muito bem, desde a opressão do machismo, até a nossa desconexão com a natureza.

Mas o que isso tem a ver com a canção “Moons and Cattails”, da Linda Perhacs? Primeiro, porque sua voz é completamente feminina, sem medo de parecer frágil e sem grandes arrobos técnicos, e ainda assim é forte e acolhedora. Mas, principalmente, esta canção remete tipicamente ao universo da “bruxaria”, ou de rituais ancestrais pagãos. A ideia da “bruxa” – historicamente atribuída como algo pejorativo, reforçando o desequilíbrio que falei acima – é tipicamente feminina, e vive em total congruência com a natureza, observando seus fenômenos e os aplicando na vida. Não à toa, as canções desse disco foram escritas por ela após um período de imersão no mato.

Nessa canção, talvez nem intencionalmente, ela lembra do aspecto cíclico da luz e da sombra, o Sol e a Lua, pela pedra basalto. Basalto é uma pedra vulcânica negra, formada a partir do magma, ou seja, do fogo.

Come along Back to dark nights… To the heavy sleep of fire To the naked blackness Of basalt [“Venha de volta às noites escuras, para o sono profundo do fogo, para a escuridão pura do basalto”]

 

Essa canção representa muito bem o que seria um som intimamente feminino. Nesse sentido, a pioneira foi Joni Mitchell, que abriu o campo para as outras cantoras/compositoras da época, fora do estilo country e soul, segundo afirma a própria Linda. Para competir com Joni Mitchell, a Warner Bros. assinou com Linda Perhacs, porém esta não alcançou o sucesso comercial esperado.

Por aqui, 40 anos depois, no cenário da música independente, muitas artistas estão surgindo com uma proposta voltada para um sentido parecido com esse: o do autoconhecimento atrelado à busca da valorização do feminino, a conexão com a natureza e os aspectos místicos e lunares da vida. É o caso de artistas como a Ava Rocha, a Papisa e o disco da Cinnamon Tapes.

Daniel Johnston e a sublime arte de domar demônios

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Conheci Daniel Johnston não exatamente ouvindo ele. “Speeding Motorcycle”, uma das faixas mais bonitas do álbum de covers do Yo La Tengo (“Fakebook”, 1990), é delicada e fofa como tudo que Ira Kaplan e companhia costumam criar. Mas aquela canção com acordes simples dedilhados tinha uma coisa a mais. Um je ne sais quoi. Era inocente. Não tinha a pretensão de fazer uma metáfora rebuscada sobre a vida ou sobre o amor. Era um cara cantando sobre sua lambreta veloz. Esse cara e esse charme ingênuo (pelo menos aparente), era Daniel.

“Speeding Motorcycle” foi o mais próximo que Daniel Johnston chegou de um hit. Em julho deste ano, o músico anunciou sua última turnê – que termina em novembro –, mas deixou bem claro que vai continuar escrevendo. Sua esperança é de que ainda saia “o grande sucesso”, confessou em entrevista recente ao New York Times. Mas quem conhece a história dele sabe que seu impulso criativo incessante tem outras razões.

No documentário The Devil and Daniel Johnston”, de 2006, conhecemos um artista divido entre extremos: de um lado uma pureza quase infantil, de outro uma confusão típica de quem não se sente adequado. Para Daniel, se encaixar no tal ‘mundo adulto’ sempre foi um desafio muito maior do que esse de fazer música. A arte, na verdade, foi a forma que encontrou para passar por tudo isso. O documentário deixa isso claro; não se trata de um relato sobre um músico dando duro para se lançar, mas sobre enfrentar seus próprios demônios. No caso de Daniel, um diagnóstico de transtorno bipolar e esquizofrenia.

Suas músicas sempre refletiram muito isso. As letras de Johnston são cartas abertas. Recortes curtos, diretos e de uma honestidade crua e certeira. Há quem o chame de gênio – pessoalmente, acho que não combina com a despretensão de sua essência artística. Há quem considere suas composições ‘rasas’ demais –  eu acho ótimo, para variar, ouvir um músico despido de ‘bandeiras’ e de peito escancarado.

No documentário, somos apresentados a algumas das inspirações de Daniel. A motocicleta foi uma delas. Sem avisar a família, Johnston partiu para um rolê pelo país e se juntou a uma companhia de circo. Em flashes de filmes originais gravados com sua super 8, conhecemos o grande amor da vida do cantor, quem o inspirou a compor. Foi para Laurie Allen um tímido, corajoso e apaixonado “Hi, How Are You?” que marcou sua história como músico.

Seu amor  não correspondido nunca foi encarado com amargura. Daniel não escolheu o caminho mais fácil, o da sofrência. Mesmo de coração partido, se preocupou em aquietar os corações melindrosos de um bando de adultos desiludidos, com uma promessa em forma de canção. “True Love Will Find You In The End” é a cantiga de ninar de uma geração teimosa que ainda acredita no amor em tempos de Tinder.

A música, como todas dele, tem acordes simples, mas inconfundíveis. Você percebe pelas batidas urgentes e às vezes dessincronizadas sua inquietação. No palco, sem o violão, suas mãos dançam dentro do bolso. Cantar ao vivo, aliás, é sempre um grande passo para Daniel. Curvado e acanhado, sua presença diante do público está longe de ser de rock star. Mas nem por isso encanta menos. A apresentação que fez em São Paulo em 2013 recebeu uma porrada de críticas positivas. Sua turnê atual, segundo o The Guardian, “decolou depois de um começo atrapalhado”.

Herói lo-fi de músicos como Jeff Tweedy, Beck e Kurt Cobain, Daniel Johnston tem inspirado como pode. Alguns com a sinceridade de seu trabalho, outros com a simplicidade com que cria, e muitos (como eu), com tudo isso mais a forma como lida com seus monstros. Quisera eu transformar os meus em música. Por enquanto, conto com a poesia dele (e de tantos outros talentosos e corajosos) para mantê-los longe. Obrigada, Daniel <3

A beleza do fim: Beck – “Sea Change” (2002)

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Beck Sea Changes

Considerando a cena do pop rock, pouca gente consegue soar tão convincente e ao mesmo tempo tão livre quanto Beck. Pensa bem, quantos têm essa habilidade incrível? Bowie, Björk, Kate Bush… Dá para contar nos dedos.

Beck transmite aquela sensação rara que nos dá a impressão de que ele é capaz de fazer qualquer coisa soar bem. Não é nada fácil brincar com gêneros, transformá-los em grandes álbuns e praticamente reinventar algo firmemente estabelecido, o que pôde se percebido em Mellow Gold” (1994) e na obra-prima Odelay” (1996). Que diabo é aquilo? Rock, rap, blues, folk… Aquilo é Beck. Talvez inconscientemente, ele, mais do que ninguém, apontou para o hibridismo sugerindo ser este o caminho a ser explorado no futuro.

E na virada do milênio Beck estava com uma carreira consolidada, recheada de bons discos, premiações e alguns milhões de cópias vendidas. O grande público comprou sua ideia maluca, e cada trabalho era uma verdadeira surpresa, como Midnite Vultures” (1999), uma releitura de sons da música negra, como funk e soul. Eis que em 2002 ele surge completamente diferente, com um dos discos mais lindos das últimas décadas.

Embora pareça desconexo na discografia de Beck até então, Sea Change” pode ser visto como uma evolução do compositor, que nunca escondeu sua queda por violões e melodias mais explícitas, como podemos conferir no incrivelmente tosco One Foot In The Grave” (1994), trabalho com pegada lo-fi voltado ao folk torto que ele gostava de assumir.

Em “Sea Change” temos uma quantidade absurda de emoção, arranjo de cordas, grandes vocais e um Beck mais maduro, sério e melancólico. Pode ter certeza que ninguém esperava um disco como este.

Naquele período o cantor enfrentava o fim de um relacionamento que durou nove anos, o que logo de cara fez muita gente comparar “Sea Change” com Blood on the Tracks” (1975), emblemático álbum de Bob Dylan que também foi inspirado em uma separação. Na verdade, nem é preciso saber dessa informação para sentir isso nas faixas. Beck traduziu essa situação com uma rara habilidade. É um disco fácil de ouvir e assimilar, e embora tenha essa densa carga de lágrimas ele emana esse forte magnetismo que as melodia tocantes carregam. Tudo é bonito: os vocais, as letras, as cordas, a simplicidade da banda e a incrível produção de Nigel Godrich. Vale destacar seu papel nesse trabalho, isso porque há por trás de praticamente todas as faixas uma atmosfera muito sutil e peculiar, e pode ter certeza que esse resultado vem da mão de Nigel, que já trabalhou com nomes de peso como Paul McCartney, R.E.M., Radiohead e Roger Waters.

Perceba em “The Golden Age” a carga daquele som. Tão simples e tão cheio, coeso, bonito e direto. É um belo jeito de abrir um disco. Esta já é um clássico contemporâneo. Você que conhece o trabalho de Beck antes de “Sea Change”, imagina a estranheza que deve ter sido escutar essa beleza logo de cara? A maturidade sonora é gritante (não confundir aqui com simplicidade).

Uma espécie de groove sombrio dita as regras em “Paper Tiger”, uma das melhores da track list. Um arranjo de cordas absurdo dá uma cor inédita em qualquer canção já feita por Beck até então.

“Guess I’m Doing Fine” meio que reassume a roupagem de “The Golden Age”, quase que uma música irmã. Outro sucesso, outra grande música, outro momento deparada obrigatória no catálogo do compositor. Com uma melodia dessa grandeza é muito difícil dar um tiro fora.

O momento mais tocante do álbum está reservado para “Lonesome Tears”, que faz jus ao título e realmente emociona. São vários os motivos para te levar a este estado de espírito, seja a letra escancaradamente pessoal, o modo que ele canta, o arranjo de cordas choroso, a dinâmica sinuosa… Essa é difícil de passar ileso, sério.

“Lost Cause”, outro grande sucesso, ainda soa adequada ao contemporâneo (o disco todo na verdade). Uma assumida desilusão encarna no espírito de Beck com uma forte convicção, o que reforça a assinatura autobiográfica em “Sea Change”­ – só tendo vivido aquilo de fato para fazer coisas como “Lost Cause” se mostrar como algo real. Esse mesmo estado de espírito soa forte em “Already Dead” e seu interessante arranjo de violão.

Seguindo a mesma pegada quase “road movie” de “The Golden Age” e “Guess I’m Doing Fine” temos outra excelente faixa, “End Of The Day”. E aqui fica evidente que este disco é bom justamente porque é bom por si só. Não se trata de novidades atrás de novidades, como nos outros álbuns de peso de Beck. Em “Sea Change” as coisas funcionam porque são orgânicas, os sentimentos não estão encobertos, e é isso que fascina.

Com um lindo arranjo de cordas fornecido por David Campbell, pai de Beck, “It’s All In Your Mind” vem como um ressurgimento. Isso porque ela já havia sido lançada como single em 1995, sendo uma sobra das gravações de “One Foot In The Grave”. E isso é muito curioso, porque comparando as duas podemos ver como existem várias personas em Beck: enquanto que a versão de 1995 soa como uma demo atraente, a faixa de 2002 é um artista por inteiro. Grande momento.

É inevitável não o comparar com Nick Drake em “Round The Bend”. A densidade da orquestra que preenche a faixa e até mesmo a melodia lembram muito “River Man”, clássica canção do cantor britânico. Mas mesmo que soe parecido, não é um caso constrangedor.

Dá até para achar um resquício de Coldplay (da fase boa) em “Sunday Sun”, que com sua batida eletrônica se mostra como o momento mais destoante de “Sea Change”, ainda que muito bem assimilado por todo o restante do trabalho. O refrão é arrebatador.

Ainda que realmente boas, sinto as duas últimas, “Little One” e “Side Of The Road”, meio que sobrando na tracklist. Mas merecem atenção, sobretudo a última, pelo trabalho de slide e aquele pouco de blues que persiste em Beck Hansen, esse artista incrível.

Há quem diga que este seja o melhor trabalho dele, há quem ache esse disco meio fora da curva, há quem considere “Sea Change” um dos melhores discos da década, assim como tem gente que considere este como um dos melhores álbuns de todos os tempos (como foi o caso da Rolling Stone e outras revistas).

De certa forma, o fim do relacionamento fez muito bem a Beck, que conseguiu ainda mais sucesso com esse trabalho e mostrou ao mundo talvez a única persona que ele ainda precisava escancarar: aquela do homem vulnerável perante os sentimentos.

A poderosa imagem de Patti Smith segundo KT Tunstall em “Suddenly I See”

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KT Tunstall
KT Tunstall

Eu sempre achei essa música, “Suddenly I See”, legal. Isso mesmo: apenas legal, agradável, uma bela canção pop com pegada meio bluesy ou soul – soul de branco, mas ainda soul. É daquelas que você fica cantarolando o dia inteiro sem perceber, e que sempre que toca no rádio dá um ânimo e uma alegriazinha. A letra sempre me remeteu à descrição de uma garota independente e jovem, mas de uma maneira meio genérica.

Porém, ao descobrir a verdadeira inspiração de KT Tunstall para escrever seu maior hit, a singela canção torna-se muito mais do que genericamente “legal”, mas uma comovente declaração sobre inspiração e referência artística. É um daqueles casos em que saber o real significado da canção para o autor contribui e muito para a beleza da letra. De fato, ela fala sobre uma garota independente e jovem, mas sobre uma específica: Patti Smith.

A letra de “Suddenly I See” descreve o momento em que KT, com seus 27 anos, descobre o porquê de estar fazendo o que ela está fazendo, e buscando o que estava buscando. No caso, ela estava há quase dez anos vivendo uma vida de perrengue, abrindo mão de dinheiro, viagens, conforto, para se dedicar à música, tocando em barzinhos e na rua. Até que ela decidiu que deveria gravar um disco e buscar um contrato em uma gravadora. É aquele ponto em que sentimos uma necessidade estranha de justificar nossas escolhas, tanto perante o mundo, quanto perante nós mesmos, e decidimos dar um passo adiante. Isso a fez refletir algo do tipo “Afinal, que tipo de artista eu quero ser?”. E, segundo a cantora, a resposta veio através da capa do “Horses” (1975).

Patti Smith é uma das artistas favoritas de KT. Naquele momento de reflexão, enquanto contemplava a capa de “Horses”, a icônica foto da Patti Smith mostrou uma jovem cheia de ‘maturidade e sabedoria’ [palavras da própria KT, estilosa e convicta. Suddenly I see this is what I want for me/ De repente eu vejo que é isso que eu quero para mim.

A partir daí, a letra de “Suddenly I See” surgiu como uma declaração de admiração, e com um tom afirmativo do que a artista não só admira, mas também busca para ela mesma. A maneira fascinada com que a jovem KT descreve a jovem Patti chega a ser comovente e contagiante. E, principalmente, é linda a maneira com que sua heroína lhe inspira e dá forças.

And she’s taller than most
And she’s looking at me
I can see her eyes looking from a page in a magazine

[Adoro essa última parte:]

She makes me feel like I could be a tower
A big strong tower, yeah
The power to be
The power to give
The power to see

[E ela é mais alta que a maioria/e ela está olhando para mim/eu consigo ver seus olhos me olhando de uma página em uma revista/ela me faz sentir como se eu pudesse ser uma torre, uma torre grande e forte/o poder de ser/ o poder de dar/ o poder de ver]

Afinal, a melhor admiração é aquela que, além de nos inspirar, nos faz sentir fortes e nos ajuda a encontrarmos a nossa própria essência. E é essa a lição que KT Tunstall nos ensina com sua homenagem à ‘ídola’ Patti Smith.

Cantarolando: os imigrantes durões em “Immigraniada” (2010), de Gogol Bordello

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Gogol Bordello
Gogol Bordello

Cantarolando, por Elisa Oieno

Gogol Bordello é uma banda formada para ser provocativa e divertida. Provocativa, porque traz à tona os temas mais pertinentes da era globalizada, como o combate ao racismo e xenofobia. A composição da banda em si já é uma afirmação disso: todos os membros são imigrantes e carregam sotaques pesados de vários cantos do mundo. E são muitos membros. A banda é bem grande, atualmente com nove integrantes, boa parte deles de países do leste europeu como Russia e Bielo-Russia, Ucrânia, e também da América do Sul, África e Ásia.

Essa pluralidade dos integrantes da banda também ajudam a trazer para o som da banda diversos elementos e influências, não só pelo uso de instrumentos tradicionais mas pelas diferentes referências, também. Você sente notas latinas entre um violino russo, um acordeom francês e percussão asiática. À primeira vista, isso pode causar uma idéia de algo forçado, tão eclético que se torna genérico. Mas, pelo contrário, eles conseguem fazer um som bem característico permeando diferentes estilos de maneira muito natural e orgânica, e uma vibe meio maldita, marginal. Talvez seja pelas influências centrais da banda, como The Clash, Manu Chao e Fugazi.

O vocalista super performático que beira à hiperatividade no palco é Eugene Hutz, imigrante ucraniano. Descendente de ciganos da tribo Roma, ele e sua família assentaram-se nos EUA após terem

passado por diversos países da Europa, refugiados do desastre de Chernobyl.

Hutz é um ativista da cultura cigana dos Roma e aponta pelos direitos civis desta etnia, historicamente perseguida e marginalizada na Europa, e dizimada durante o Holocausto nazista. Vale lembrar que até hoje os ciganos são alvo de discriminação e de estereótipos pejorativos. Pouco se difunde realmente sobre a cultura cigana, a começar pelo fato de que não existe apenas uma cultura, e sim diversas tribos com características culturais e étnicas diferentes.

Por isso mesmo, a idéia de trazer a cultura cigana – especificamente a Roma – e chamar atenção para isso na música pop é uma grande afirmação. Lembro de uma camiseta que eles vendiam, em que tinha um desenho de uma moça cigana com os dizeres: “You love our music, but you hate our guts” (algo como “você ama nossa música, mas nos odeia pra caralho”). Ouch! A frase é um trecho da música deles “Break The Spell”, muito direta sobre o preconceito e a ignorância a respeito da cultura dos roma. Não à toa, a banda é considerada como gypsy-punk, ou ‘punk cigano’.

Porém, apesar de todo o peso dessa questão cultural, étnica e social, a idéia da banda é tratar desses temas sem nunca deixar de ser otimista e se divertir. Isso fica evidente na canção de hoje, “Immigraniada (We’re Coming Rougher)”. Essa música é um bom resumo da ideia que a banda defende, a de uma ‘cidadania universal’. O clipe até termina com a pertinentíssima frase “No Human Being is Illegal”, e um link para uma organização de direitos civis, que dá suporte a imigrantes.

O tom de “vocês vão ter que nos engolir” de “Immigraniada”, lançada em 2010 no disco “Trans-Continental Hustle”, ainda é – senão mais ainda do que antes – bastante oportuno, inclusive aqui no Brasil atualmente, já que o fluxo de imigrantes de diversos países tem aumentado bastante. Em épocas de Trump, bizarrices neo-nazistas e num momento em que discussões sobre se o nazismo foi de direita ou de esquerda se tornam mais importantes do que salientar a inadmissibilidade de qualquer violação humanitária, um bando de imigrantes gritando “Nós estamos chegando cada vez mais fortes!” é uma bela atitude punk.

“Harold and Maude” (1971) – Um filminho feliz com musikitchas felizes

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Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Harold And Maude (Ensina-me A Viver)
Lançamento: 1971
Diretor: Hal Ashby
Roteiro: Colin Higgins
Elenco Principal: Ruth Gordon, Bud Cort e Vivian Pickles

Pra curte a brisa hippie diboísta do Cat Stevens, esse é o melhor filme, já que além das músicas do próprio, o enredo em si também é absurdamente lindjo e diboistão.

Tem um cara que vive só com a mãe (o pai morreu) numa mansão gigante, sempre em meio a jantares e ocasiões sociais supérfluas. Cansado dessa futilidade burguesa e com um estranho fetiche pela morte, ele forja suicídios pra mama (ela já nem dá bola, acostumada com a estranha mania do filho) e curte dá uns rolê indo por aí em funerais aleatórios. A mãe “preocupada”, esperando que o filho tenha mais “responsabilidade e ambição”, manda o garoto pro psicólogo, tenta meter ele no exército e fica tentando achar uma mina pra ele em estranhos sites de namoro. O cara contudo tá tacando o foda-se na melhor expressão niilista e num dos funerais que vai, encontra uma simpática senhora que assalta carros pra voltar pra casa e devolve no dia seguinte, quando depois da cerimônia o carro roubado é o seu, ele vai reclamar com a velha e ela acaba pedindo uma carona. O cara topa, leva ela em casa (um antigo vagão de trem, encostado num canto da estrada) e recusa a oferta pra entrar e tomar um chá, prometendo voltar outro dia.

<3

por dentro!

Ele volta, conhece a casa, toma um gostoso chá de vó com a maluca, dança (por insistência da senhora que mata o jeito quebradão do cara) e acaba obviamente se apaixonando, com seus vinte e poucos anos, pela hippie quase octogenária. A doida bem loka e feliz que faz por sinal, qualquer um se apaixonar, ao longo da semana quando se passa o longa e que é a última dos seus 79, tira cada vez mais o cara do seu jeito tímido e apático pra apresentá-lo ao fantástico mundo da louca e linda felicidade rebelde, simples e magnífica (tipo Mogli e Baloo: eu uso o neeeecessário!), que manda pra casa do caralho todas suas “angústias” existencialistas.

A música, nesse filme, que inclusive é parte importante da introdução do Harold (o garotinho) ao mundo dos felizes, é lado a lado com as cambalhotas que o casal inter geracional dá no mato, a responsável pelo clima good vibes. A trilha com músicas do Cat Stevens (e alguns clássicos do séc. XIX), deixa qualquer um chapadão num clima bem gostosinho e alegrinho (como sempre fazem as músicas dele).

Com letras que resumem bastante a filosofia da velha, a parte sonora do musical desafia qualquer tipo de “grande filosofia” e sorri boba um sorriso apaixonado, gostoso e aconchegante, cantando músicas como “If You Want To Sing Out” e “Don’t Be Shy” que dizem dos modos mais profundos e poéticos possíveis, exatamente o que se propõe nos títulos e inspiram o espectador a pular por aí cantando alto (como se faz no filme).

 

Segue em link o filme completo e a trilha sonora.

Filme:

Trilha (em playlist):

https://www.youtube.com/playlist?list=PL02CB3E1F7937EF4F

Ouçam, assistam e curtam!

Valeu!

Cantarolando o antigo cântico fúnebre de “Lyke Wake Dirge”, do Pentangle (1968)

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Pentangle
Pentangle

Cantarolando, por Elisa Oieno

Pentangle era uma banda fascinada por temas medievais, pela mitologia e música tradicional britânicas. O som deles é tão distinto que a classificação ‘folk-jazz’ parece muito simplista, mas até que dá uma boa ideia. A marcante voz feminina do grupo pertence a Jacqui McShee, co-fundadora do grupo ao lado do violonista John Rebourn.  Àquela altura, John já dividia um flat com Bert Jansch e os dois já se apresentavam em diversos cafés, os pequenos ‘clubes de folk’ pela Inglaterra, os recantos hipsters da época. Com um estilo de violão de escola clássica e tradicional, mas combinada com o moderno jazz e incorporando elementos do blues, Bert e John formariam uma parceria ilustre no mundo do ‘folk revival’ dos anos 60 [a propósito, já falei um pouco sobre ‘folk revival’e do Bert Jansch aqui nesta coluna há um tempinho, vejam lá!]. Naturalmente, Bert passou a integrar a formação do Pentangle.

John Rebourn e Bert Jansch

Vale lembrar que Bert Jansch foi um dos mais influentes artistas do folk britânico. Ele muitas vezes cantava e tocava canções antigas e tradicionais fazendo-as soar modernas e ‘cool’, ao invés de teatrais e bobinhas. Isso tudo com uma habilidade impressionante no violão, mas que passa longe, muito longe do firulento. A influência do Bert Jansch também ultrapassa o estilo meramente ‘folk’ – Jimmy Page, Johnny Marr, Paul Simon e Neil Young, por exemplo, já se declararam fãs e admitiram influência dele em seus próprios estilos. Certa vez, Neil Young afirmou que o Bert Jansh está para o violão assim como o Jimi Hendrix está para a guitarra elétrica.

Dito isso, vamos à canção cantarolada de hoje. Apesar da distinta cama de violões do Pentangle e de sua ‘cozinha’ jazzística do contra-baixo de Danny Thompson e da bateria de Terry Cox, o forte da faixa “Lyke Wake Dirge” é a longa melodia e as vozes em coro. A parte instrumental é singela, e serve apenas para dar um suporte ao tom solene e ancestral desse cântico fúnebre.

“Lyke Wake Dirge” é tipicamente uma canção folk. A letra é em inglês arcaico, um dialeto da região de Yorkshire, norte da Inglaterra. O sotaque do pessoal dessa região é fortemente influenciado por esse dialeto. Trata-se de um poema tradicional medieval, porém é provável que tanto o poema quanto o cântico tenha origens pré-Cristãs, ou seja, deve ter surgido originalmente de um ritual ou tradição do povo celta. Do jeitinho que os artistas do folk revival gostam.

Porém, as imagens e a idéia da letra que se tem registro é totalmente cristã. É um cântico para ser entoado no momento em que se vela um falecido. A palavra ‘lyke’ significa cadáver, inclusive uma de suas variações é “lich”, uma criatura mitológica do morto-vivo, o ser cadavérico, como o Lich da Hora da Aventura, por exemplo. Mas nesse caso quer dizer simplesmente ‘morto’ mesmo. “Wake” é no sentido de ‘watch’, velar o corpo. E ‘dirge’, traduz-se como hino fúnebre.

A mensagem não é lá muito confortante, como era de se esperar, já que é um cântico da Idade das Trevas. É meio que um aviso que se você, no caso o falecido, não levou uma vida de caridade, irá espetar os pés nos espinhos do pântano do purgatório. E vai doer. Você também não conseguirá passar pela ponte estreita em direção aos céus, e irá cair em chamas. Porém, os versos sempre terminam com a reza “E que Cristo receba sua alma” [And Christe receive thy saule]. Quem fica, pelo menos está na torcida pra que dê tudo certo para o coitado.

Apesar de a temática ser fúnebre e sombria, a Lyke Wake Dirge do Pentangle não se esforça para manter um tom soturno e triste, mas sim preza pela beleza da melodia e pela homenagem à tradição. E faz isso de uma maneira inconfundível. A faixa está no disco ESSENCIAL “Basket of Light”, de 1969.