Filosophone: Tom Zé, o homem que nasceu póstumo – Quando o público não entende seu gênio

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Tom Zé

Filosophone, por Matheus Queirozo

“Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si

para dar à luz uma estrela cintilante.”

(“Assim Falou Zaratustra” – Friedrich Nietzsche)

 

Ser um grande artista às vezes custa caro. Calma. Deixe-me pensar: teimo em acreditar que seja uma tarefa fácil ser um grande artista, mas como pode existir alguma exceção dentro disso, deixo então em aberto quando digo às vezes. Como acho realmente que ser um grande artista não é nada fácil, reformularei o começo deste texto, vamos lá: ser um grande artista, na maioria das vezes, custa muito caro! Pronto, talvez agora eu tenha conseguido repassar a intensidade da ideia de dificuldade que é ser um grande artista nesse mundo interminável da arte. Não é todo dia que nasce um gênio. E com certeza não há fórmula que mostre o caminho mais fácil. A genialidade é capaz de tornar um artista um ser atemporal, um imortal, assim como Machado de Assis na nossa literatura brasileira, um escritor que foi além do seu tempo, que através das letras conseguiu dar a sua contribuição intelectual para construir a nossa cultura. O gênio se destaca. O gênio sobressai em meio aos iguais, em meio àqueles que não apresentam o novo para o povo que anseia com a sede dos desertos mais caudalosos por uma arte que os preencha, que os satisfaça nesse rastejar misto de alegria e dor que é a vida. Como diria nosso filósofo otimista – otimista foi uma ironia só pra descontrair antes do grande pessimismo – Arthur Schopenhauer, a vida é dor e sofrimento. E em meio a dor e sofrimento, de tempos em tempos, surge um grande artista. E ser um grande artista, um gênio, nem sempre é sinônimo de felicidade, Tom Zé que o diga isso. Baiano nascido no município de Irará, localizado na nossa Grécia brasileira, fonte de arte e de sabedoria, a Bahia de Jorge Amado e Glauber Rocha, Tom Zé é hoje aplaudido, pode-se dizer, no mundo todo, um artista de uma originalidade tremenda que o elevou a gênio. Mas nem sempre foi assim.

Sabemos que em julho do ano de 1968, Tom Zé e os demais baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, juntamente com Nara Leão, Os Mutantes, além dos poetas Capinam e Torquato Neto, sob a regência sobre-humana do maestro Rogério Duprat, compunham um dos maiores discos já feito na história da música, o grandioso “Tropicália ou Panis et Circencis”.

Tom Zé no canto superior direito.

Foi o momento de glória estética! Nesse mesmo ano de 68, momento do ápice tropicalista, Tom Zé lança seu álbum de estreia, o “Grande Liquidação”, que abre com a canção “São São Paulo”. Nesse disco, o baiano de Irará escreve um texto na contracapa, e no final deixa registrado para a posteridade: “A sociedade vai ter uma dor de barriga moral”. Gravem bem esta frase, pequena, mas contundente.

Continuando a consolidação do artista: é nesse mesmo ano, mais precisamente em novembro/dezembro de 1968, que Zé tem a graça de ter sua música “São São Paulo” em quinto lugar no IV Festival de Música Popular Brasileira. Os louros ao baiano de Irará! “Palmas ao Dom Quixote que ele merece!”. Segundo o maestro e arranjador Júlio Medaglia, em entrevista para o programa musical O Som do Vinil do Canal Brasil, “São São Paulo” é o “verdadeiro hino paulista, porque tem a ironia que vê a cidade com um olhar crítico, mostra os extremos daquela loucura maravilhosa que é São Paulo”.

Tom Zé no IV Festival de Música Popular Brasileira, recebendo das mãos de Júlio Medaglia o prêmio pela canção “São São Paulo”, que ganhou o 5º Lugar.

 

 

 

 

 

 

 

 

“São oito milhões de habitantes

De todo canto em ação

Que se agridem cortesmente

Morrendo a todo vapor

E amando com todo ódio

Se odeiam com todo amor”

(São São Paulo, canção de Tom Zé, do álbum “Grande Liquidação”, 1968)

 

A genialidade de Tom Zé consiste na sua complexidade diante da sociedade composta pela massa. A massa é feita de cada pessoa que passa a vida em busca de sua identidade, é uma busca tão dedicada que alguns chegam a vender suas almas em troca de uma tribo, tudo para fazer parte de um grupo, tudo para fazer parte daquilo da galera que ouve os mesmos sons, que lê os mesmos livros, que fala as mesmas palavras, e tudo isso forma a massa, a massa que exige que você deixe de lado a sua identidade, aquilo que identifica você enquanto único em troca de uma vida massificada. É nesse momento que as pessoas perdem a sua identidade e são engolidas pela massa até se perderem dentro dela, até formarem algo unilateral, com os mesmos pensamentos, com a mesma visão de mundo, com os mesmos desejos programados. Diante de uma sociedade massificada, a genialidade de Tom Zé foi sendo aos poucos ignorada pelo público consumidor. Isso é comum com pessoas de personalidade autêntica, a peculiaridade as exclui da massa. Num planeta de enlatados, em que só é preciso requentar a comida feita anos trás, botar no prato e comer, porque é mais cômodo viver assim, o produto que cheira como diferente de tudo isso já soa como uma ameaça aos preguiçosos mentais, uma ameaça àqueles que sonham em morrer em suas zonas de conforto. O novo sempre vem para abalar as estruturas, “mas as pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”.

Quem diria, o gênio de Irará, em meados de 1972, lança sua pérola “Se O Caso É Chorar”, seu terceiro álbum, recheado das suas complexidades populares, que só o gênio autêntico possui. No programa O Som do Vinil, Tom Zé fala sobre a música título do disco: “em 1973, ela ficou na parada (de sucessos) durante uns seis meses e um dia ela foi primeiro lugar na parada da Rádio Nacional. E naquele tempo, você concorria com os Beatles, com Rolling Stones, com todo mundo, era uma parada só”.

“É somente requentar
E usar,
É somente requentar
E usar,
Porque é made, made, made, made in Brazil
Porque é made, made, made, made in Brazil”

(“Parque Industrial”, canção de Tom Zé, do álbum “Grande Liquidação”, 1968)

Com o álbum “Todos Os Olhos”, de 1973, é confirmado o aforismo do filósofo alemão Nietzsche, que diz: “há homens que já nascem póstumos”. Tom Zé nasceu póstumo. O gênio nasce incompreendido pelo seu tempo. Tom Zé, mesmo depois de todo o movimento tropicalista, teimou em continuar sendo Tom Zé, teimou em ser artista experimental do som e das palavras. A sua obra poética e sonora, cheia de jogos de palavras, repletas de experimentações inusitadas, lhe rendeu o exílio artístico. A massa não conseguiu engolir Tom Zé. A massa não tinha sistema digestivo competente para entender um homem póstumo. Ele era intragável para a sociedade.

Quando nasceu enquanto artista, nos idos de 1968, ele já havia previsto seu hiato: “A sociedade vai ter uma dor de barriga moral”. E a sociedade teve essa dor de barriga. Com isso, a massa expulsa o seu poeta da ágora tropical, condenando-o a tomar a mesma cicuta que levou Sócrates à morte. Mas a cicuta do gênio de Irará o leva a uma morte dos meios de comunicação, que é a reclusão das grandes mídias.

O diferente assusta, causa temor, tira qualquer um da sua zona de conforto. O novo amedronta, causa nervosismo, faz um rebuliço, causa até dor de barriga, porque o homem, depois que passou do estágio de nomadismo em que era um destemido andarilho pela natureza em busca da sua subsistência, perdeu a coragem de ver o mundo por novas perspectivas. Seu prazer agora se concentra naquilo que lhe parece mais seguro, por isso se prende a rotinas, a mesmices, a comportamentos cíclicos. A novidade é difícil de ser decodificada porque exige um esforço intelectual. Fazer parte de grupos é importante, pois, segundo o psicólogo russo Lev Vygotsky, o desenvolvimento intelectual do ser humano se dá através de suas interações sociais. O problema é quando o indivíduo perde a sua individualidade, enquanto identidade que lhe define, no meio de uma massa de pessoas que pensam do mesmo jeito, que se comportam da mesma maneira. É muito importante ser autêntico, ser original. A liberdade de pensamento só existe quando nós somos autônomos, quando somos donos de nós mesmos.

Tom Zé foi longe. Sua obra sempre foi permeada de experimentalismos tanto vocabulares quanto instrumentais. Ouvir sua música é uma viagem única. E quem embarcou nessa viagem e gostou foi o norte-americano David Byrne, ex-integrante da banda The Talking Heads, que redescobriu Tom Zé no final dos anos 80, numa viagem que fez ao Rio de Janeiro.

A história nos conta que Byrne, andando pelo Rio, queria conhecer um pouco mais do samba da nossa terra, bateu então os olhos num disco de capa branca que tinha apenas o nome e um desenho de arames, coisa simples. Ouviu e adorou. Era o quarto álbum de Tom Zé, “Estudando O Samba”, de 1976.

Daí por diante, o anarquista de Irará ficou conhecido nos Estados Unidos, depois na Europa e voltou a ser notícia.

Considero Tom Zé o artista mais tropicalista da Tropicália. Sem dúvida é o único do movimento que tem a alma tropicalista e que continua produzindo regularmente com toda sua carne e sangue tropicais, ele é aquele que nunca, jamais, perdeu o espírito tropical de poeta zombeteiro e ácido. Ave Tom Zé!

Racionais MC’s como crítica social: Diário de Um Sobrevivente do Inferno

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Racionais MCs

Filosophone, por Matheus Queirozo

“O ser humano é descartável no Brasil”

(Racionais MC’s – “Diário de Um Detento”)

Inferno. O que é o inferno? Essa é uma questão relativa. Não existe uma resposta única, pronta, acabada, esgotada, que dê fim a essa pergunta. A religião, a filosofia, a Teologia, todas essas áreas de uma forma ou de outra falam do inferno, o inferno como lugar de morada dos mortos, lugar de penitência pelos atos cometidos enquanto se vivia a vida terrena, inferno como lugar de sofrimento e dor. Vulgarmente falando, o inferno para algumas pessoas e aqui mesmo na terra, lugar de morte e dor; para outros, inferno é não poder entrar na internet, é não ter um bom celular, é não conseguir estar na moda, com os sapatos tendência, com o corte de cabelo do momento; inferno para outros é não ter o que comer, é viver em condições sub-humanas, é não ter uma boa educação, não ter uma boa família. Esse último é o inferno de quem vive na periferia. Aliás, de quem sobrevive na periferia, porque não é fácil.

Nos anos noventa, o mundo da música já tinha passado por vários momentos de estilo musical. Aqui no Brasil, nos nossos anos cinquenta, era de ouro, tivemos os cantores de rádio cantarolando com aqueles vozeirões; tivemos o samba do morro, depois a bossa nova, que pregava um basta na saudade – “chega de saudade!” –; vieram, perto do fim dos anos sessenta, os grandes festivais de música onde a MPB começou a se consolidar, pegamos em 1964 um duro golpe, instaurou-se a Ditadura Militar, de censura artística completa. Resultado em face disto, tentando ludibriar os censores: surgiram músicas de crítica ao regime, mas uma crítica sutil, inteligente; nesses mesmos anos setenta, surgiu a galera da Jovem Guarda, a galera da psicodelia, do rock progressivo, a música nordestina invadindo o planeta Brasil; já nos anos oitenta, ocorreu a explosão do rock nacional, o chamado BRock; e em fins dos anos noventa, o hip hop e o rap se consolidam como música de protesto, se utilizando da realidade sem fantasia como matéria para as suas rimas.

Racionais MCs
Em 1997, o grupo de rap Racionais MC’s, considerado o grupo mais popular e influente dos nossos tristes trópicos, lança o disco que faz com que os membros do grupo fiquem conhecidos no Brasil todo, que é o “Sobrevivendo no Inferno”. O disco todo pode ser definido como rap político, muito inteligente, recheado de referências culturais, de críticas ao preconceito racial e exclusão social. O disco fala do que é o inferno para quem vive na periferia, o que é o inferno para quem é preto, pobre e não tem poder aquisitivo.

Interessante que, mesmo tendo sido lançado por uma gravadora independente, esse álbum alcançou a vendagem de 1.500.000 cópias vendidas. Com certeza é um disco antológico do rap. Quer dizer, não só do rap – seria reduzi-lo demais. Corrigiria dizendo: disco antológico da história da música.

A sétima música do disco, “Diário de Um Detento”, talvez seja a música mais conhecida até hoje, ganhou até clipe, conta o drama do brasileiro que vive num sistema opressor, que se mete no mundo da criminalidade, e preso e se depara com o sistema penitenciário e suas mazelas. A música conta, em primeira pessoa, a história de um sujeito que viveu na pele a vida de prisioneiro, vendo a olho nu uma vida atolada pela miséria, que deixou de viver para sobreviver no inferno.

Segundo alguns sociólogos, a sociedade humana pode ser dividida em superestrutura e infraestrutura, sendo o primeiro acima do segundo. A superestrutura do Estado é o nível jurídico-político e ideológico, ou seja, onde estão aqueles que fazem as leis, aqueles que executam a lei e aqueles que veiculam as informações (parte ideológica), as mídias, os jornais, as revistas, os sites. Na parte abaixo, na infraestrutura, estão as relações de produção de uma sociedade, ou seja, aqueles que fazem a economia funcionar de, o patrão e o empregado, o empresário e o trabalhador assalariado. Quem sustenta toda essa pirâmide social quase medieval é o trabalhador que acorda às cinco horas da manhã, se desloca da parte periférica da cidade para o centro, para mover as produções, para limpar a casa da classe média, para ficar enclausurado numa forma de trabalho estressante, nada criativa. Em cima deles, desses que precisam do emprego miserável, já que não tiveram uma boa escola no bairro, já que não tiveram familiares ricos e influentes, em cima desses é que o empresário lucra, em cima deles é que um político deita a cabeça no travesseiro e acorda com a conta cheia de dinheiro desviado da educação, da saúde e da segurança, em cima desse trabalhador da periferia que as notícias deitam e rolam contando mentiras, em cima desses que o Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do mundo.

O Estado, por exemplo, não é um aparelho neutro, a serviço de toda a sociedade, como os capitalistas nos pretendem fazer crer. O Estado, no fundamental, sempre tem servido os interesses daqueles que detêm o poder econômico. 

(…) Os donos dos meios de produção, tendo nas suas mãos o Estado com todo o seu aparelho: exército, polícia, tribunais, funcionários públicos, etc., tem nas suas mãos portanto não só o poder econômico como também o poder político” (URIBE, Gabriela; HARNECKER, Marta. Exploradores e Explorados. São Paulo: Global Editora, 1979, p. 38).

É uma grande farsa essa a de que cadeia serve para reestruturar o ser humano. A cadeia não passa de uma lata de sardinha onde vale a lei do mais forte, o presídio é uma sociedade que existe dentro da sociedade, com suas regras próprias, sua moral própria, sua ética, cunhada empiricamente por prisioneiros e para todos os prisioneiros. Lá dentro não existe a moral universal kantiana (“Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”), não existe a justa medida aristotélica. Não existe essa moral alcançada pela razão filosófica. A prisão brasileira não tem a menor condição humana de devolver o detento reestruturado à sociedade. Isso é uma grande piada. E a cadeia só existe para os mais pobres. Rico fica em prisão domiciliar, principalmente se for político.

O médico Drauzio Varella, autor do Best-seller “Estação Carandiru” de 1999, viu de perto a situação mórbida da antiga Casa de Detenção Carandiru. Começou a trabalhar no sistema penitenciário, na parte médica, em 1989, ano em que chegou ao Carandiru. O médico, pesquisador profundo na área de estudos de câncer e AIDS, comenta em um vídeo de 2015, no seu canal, a atrocidade que era a situação dos presos consumidos pelas complicações da AIDS: “Era uma tragédia coletiva. Eu cheguei a perder, na minha enfermaria do Carandiru quatro, cinco doentes por semana. E não é perder porque um dia a pessoa morre, como todos nós vamos morrer. É uma morte muito sofrida, emagrecendo, passando mal, incapaz de comer, e trancados em celas. Foram as mortes mais tristes que eu vi na minha vida, foram lá no antigo Carandiru”.

Cada detento uma mãe, uma crença

Cada crime uma sentença

Cada sentença um motivo, uma história de lágrima

sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio, sofrimento,

desprezo, desilusão, ação do tempo

Misture bem essa química

Pronto: eis um novo detento

Lamentos no corredor, na cela, no pátio

Ao redor do campo,

em todos os cantos

Mas eu conheço o sistema, meu irmão,

Aqui não tem santo

No meio de tantos detentos e tantas histórias, sentenças e motivos, eis a história de um cidadão comum, é o Jocenir Prado. Preso por receptação de carga roubada e formação de quadrilha, condenado a oito anos e três meses, dos quais cumpriu quatro anos, Jocenir viveu alguns anos no Carandiru. Em entrevista a Jô Soares em seu programa, Jocenir Prado alega que foi pego como bode expiatório (expressão popular utilizada para definir uma pessoa que sobre a qual recai toda a culpa alheia, mesmo que esse alguém seja inocente) da polícia. Jocenir, nessa mesma entrevista, comenta: “Eu sofri uma série de agressões, agressões físicas mesmo, agressão moral. Então, praticamente isso fazia com que, cada vez que eu fosse dormir, eu rezava pra não acordar, só de imaginar que o dia seguinte seria a mesma coisa. (…) E quando veio minha condenação de oito anos e três meses, me bateu o desespero, então eu sabia que eu tinha que tomar alguma atitude. E eu tinha três alternativas: ou praticaria o suicídio, que é uma coisa normal dentro na prisão e pouco divulgada; ou deixava me levar pelo mundo das drogas; ou procurava de alguma forma conquistar a massa carcerária (os detentos)”.

Tem uma cela lá em cima fechada

Desde terça-feira ninguém abre pra nada

Só o cheiro de morte e Pinho Sol

Um preso se enforcou com o lençol

Qual que foi? Quem sabe? Não conta

Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta

Nada deixa um homem mais doente

Que o abandono dos parentes

Aí moleque, me diz: então, cê qué o quê?

A vaga tá lá esperando você

Pega todos seus artigos importados

Seu currículo no crime e limpa o rabo

A vida bandida é sem futuro

Sua cara fica branca desse lado do muro

 

Jocenir optou pela terceira alternativa. Ganhou popularidade se utilizando do conhecimento que tinha, do estudo que teve durante a vida, coisa que poucos ali dentro possuíam devido às baixas condições econômicas que tinham. Jocenir passou a escrever as cartas para aqueles que não sabiam escrever, que era a maioria. Com isso, foi ganhando respeito, isso antes de ser transferido para a casa de detenção. Após uma rebelião traumática, Jocenir prado foi transferido para a casa de detenção de São Paulo, o famoso Carandiru.

Acertos de conta tem quase todo dia

Tem outra logo mais, eu sabia

Lealdade é o que todo preso tenta

Conseguir a paz, de forma violenta

Se um salafrário sacanear alguém

leva ponto na cara igual Frankestein

Nesse período, ele já tinha algum prestígio entre os presos, era conhecido como “o tiozinho que escrevia as cartas”. Para quem não sabe, a autoria de “Diário de Um Detento” é creditada a Mano Brown e a Jocenir, que foi autor de um diário o qual inspirou a música. Jocenir viveu na pele a vida de um prisioneiro.

“Diário de Um Detento” é um relato dramático de alguém que optou pela vida sem futuro do crime, é a denúncia de como o Estado se livra daquilo que não sabe lidar, de como o Estado se comporta diante daqueles que vivem à margem da sociedade e da lei. O Estado esperou uma boa oportunidade, uma rebelião, usou isso como uma ótima justificativa para sentar o cacete em todo mundo e, de xeque-mate, provocar uma carnificina, sabe pra quê? Pra eliminar gastos, pra se livrar de uma responsabilidade social.

Foto que registra o resultado do massacre na Casa de Detenção do Carandiru ocorrido em 1992.

Dois ladrões considerados passaram a discutir

Mas não imaginavam o que estaria por vir

Traficantes, homicidas, estelionatários

Uma maioria de moleque primário

Era a brecha que o sistema queria

Avise o IML, chegou o grande dia

Depende do sim ou não de um só homem

Que prefere ser neutro pelo telefone

Ratatatá, caviar e champanhe

Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!

Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo

Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!

Sobre a música, Jocenir Prado comenta no Programa do Jô: “Na casa de detenção, nessa rotina em que eu fazia versos e cartas, eu escrevi alguns versos e em cima desses versos criou-se o ‘Diário de Um Detento’ gravado pelos Racionais MC’s. Ele (Mano Brown) fez algumas adaptações e gravou”.

Nas palavras de Drauzio Varella, em entrevista de maio de 2017 para o canal do Youtube Nexo Jornal, anos depois do grande massacre do Carandiru: “A população carcerária aumentou e as cidades continuam inseguras… ficaram mais inseguras ainda porque, antes, as cidades inseguras eram São Paulo, Rio, agora é o Brasil inteiro. (…) Então acho que a violência se disseminou pelo país, o que mostra que o aprisionamento não traz segurança. Aquele bandido que tá na rua assaltando vai preso, ele para de assaltar, mas isso não significa que haja uma diminuição da violência como um todo, que é o que a sociedade imagina, né? A sociedade acha que prendendo todos os bandidos e todos os traficantes, as cidades vão ficar seguras e os filhos das famílias não vão usar droga, o que e uma visão irreal, uma visão fantasiosa do problema”.

Ou seja, o problema só aumenta. A violência ganha cada vez mais proporções alarmantes. Segundo o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, de 2016, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil (fonte: BBC Brasil, 6 de junho de 2016). A educação e a saúde públicas, dois pilares fundamentais para a gestão do bem público, não melhoram nunca e os políticos desviam cada vez mais dinheiro que deveria ser direcionado a programas sociais, às políticas públicas. O Estado, então, não cumpre seu papel. Acho, portanto, que precisamos romper esse contrato social, Sr. Thomas Hobbes e Sr. Jean-Jacques Rousseau.

Ratatatá, Fleury e sua gangue

vão nadar numa piscina de sangue

Mas quem vai acreditar no meu depoimento?

Dia 3 de outubro, diário de um detento

(Todos os versos citados nesse texto são trechos da música “Diário de Um Detento”).

Filosophone: O Canibalismo Tropicalista d’Os Mutantes

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Os Mutantes

Filosophone, por Matheus Queirozo

Para fazer uma música bem feita, não tem fórmula, não tem receita, não tem uma bula, não tem uma matemática exata, não tem um “modo de fazer”. Os ingredientes que podem ser utilizados são muitos. O que vale é o resultado final da gororoba toda, de letra, melodia, ritmo, instrumentos, tom, entre outras coisas. Claro que o resultado final depende muito dos componentes usados. Mas o que mais influi na finalização de uma obra é, sem dúvida, o autor ou autora ou autores. São eles que dão a sua impressão àquela obra, são eles que mastigam o mundo ao seu redor e cospem, da sua maneira, em um acorde, em uma música, em uma letra, em um disco, por fim, em uma discografia. Esses cozinheiros, quer dizer, esses autores podem ter métodos, podem ter uma peculiaridade que se transforma na marca registrada deles. Mas pode ser também que eles não tenham uma marca fixa, pode ser que eles se transformem a cada disco, numa transformação bem mutante mesmo, se tornando essa mudança sempre criativa a sua essência estética. E quem mais mutante do que os próprios Mutantes? Quem se puser a ouvir toda a discografia da banda, desde o primeiro compacto ainda, “Suicida/Apocalipse” de 1966, quando a banda ainda se chamava O’Seis e tinha integrantes a mais, vai perceber o quanto os Mutantes mudam de acorde em acorde, num experimentalismo difícil de se comparar no cenário da música mundial. Eu, mero escritor e apreciador de música, não ousaria comparar a singularidade deles com artista/banda nenhum(a), porque, como ficou dito, eles são singulares. Se tentarmos uma classificação, uma espécie de catalogação, seria: singular. Estão na prateleira das artes singulares.

Antes de serem Os Mutantes, e já cheios de mutações sonoras, eles eram Os Bruxos. Que nome louco! O cantor Ronnie Von despontou no cenário da música nos anos 60 no Brasil. O rapazinho, queridinho da galera, que balançava o cabelo sedoso pra lá e pra cá quando entoava “Meu beeeeeem… Meu beeeem” (uma versão bonitinha da música bonitinha “Girl” dos Beatles), ganhou um programa de televisão chamado O Pequeno Mundo de Ronnie Von.

Sim, o nome do programa é uma certa alusão ao clássico infantil (Será infantil? Tão psicodélico!) “Pequeno Príncipe” do francês Antoine de Saint-Exupéry. Isso porque a apresentadora Hebe, numa entrevista, achou o Ronnie, que falava que tinha como gosto a aviação, parecido, não com o aviador, mas com o personagem principal do livro. A imprensa, na época, criou uma espécie de competição entre Roberto Carlos, o rei, e Ronnie, o príncipe. No programa do Ronnie, só ia quem não fosse ao programa Jovem Guarda do Roberto Carlos, assim em vice-versa. Mas, como Ronnie mesmo disse, rindo, no documentário sobre sua trajetória “Quando Éramos Príncipes“, tudo era fruto de marketing, publicidade, polêmicas para gerar audiência, venda de discos, revistas, e jornais e otras cositas más. N’O Pequeno Mundo de Ronnie Von, quem ficou como banda de apoio foi uma tal de Os Bruxos.

Esses Os Bruxos eram bem irreverentes musicalmente. Além do talento sonoro, tinham uma apresentação performática bem peculiar. Depois de ler o livro de ficção científica O Império dos Mutantes do francês Stefan Wul, Ronnie decidiu que o nome da banda de apoio de seu programa seria Os Mutantes.

E o nome pegou! Grudou! Os artistas que se apresentavam no programa, adoravam a banda. Adoravam tanto que um baiano resolveu chamá-los para tocar a música “Domingo no Parque” no Festival da Record de 1967.

A música ficou em segundo lugar. Mas o que saiu mesmo em primeiro lugar desse festival foi a ideia de romper com as estruturas! O baiano de “Domingo no Parque” era Gilberto Gil, se juntou com outro baiano cabeludo chamado Caetano Veloso e encabeçaram o que o mundo todo hoje conhece como Tropicalismo. Chamaram os três guris para fazerem parte do movimento. Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, que começaram timidamente na adolescência com o grupo Six Sided Rockers, depois viraram O Conjunto, mais adiante passaram a ser O’Seis, gravando um compacto, depois viraram Os Bruxos, como banda de apoio, logo depois Os Mutantes, protagonizaram a cena tropicalista. Não tinham nada a perder comparados a Beatles e Rolling Stones. Eram iguais em grandeza, tinham irreverência e uma forma satírica de criar. Essa é uma característica que os Beatles e os Rolling Stones nunca dominaram: o humor ferino, a sátira ácida, a ironia inteligente. Outra coisa que os Beatles e os Rolling Stones não tinham era a Rita Lee, uma garota cheia de talento e vigor, com uma voz capaz de encaixar em qualquer música, de alma artística, com um desempenho performático múltiplo. Quer dizer, além de uma boa cantora, além de uma compositora inteligente, era também uma ótima intérprete. Em 1968, é lançado o disco Tropicália ou Panis et Circences que destaque a participação ativa dos Mutantes.

Depois desse álbum, o trio mutante começa, digamos, a sua independência fonográfica, lançando no mesmo ano de 68 Os Mutantes, o primeiro disco só deles, depois lançamMutantes em 1969 e A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado em 1970. Mas, mesmo depois desses discos de distância do “Panis et Circences”, que todo mundo chama de disco manifesto, Os Mutantes continuaram sendo tropicalistas, entretanto com elementos sempre novos, numa espécie de tropicalismo sempre inovador. O disco “A Divina Comédia” carrega muito de tropicalismo ainda. O conceito utilizado pelo movimento tropicalista é a reciclagem, aquela ideia de recriar um clássico, recriar um sucesso popular, enfim, quer seja da elite ou das massas, o objetivo é devorar a realidade, fazer uma digestão artística e, em seguida, pôr para fora em forma de arte. Não tem como não lembrar a primeira geração do Modernismo de 22, que se caracterizaram pela busca da instauração de uma cultura genuinamente brasileira através da antropofagia artística, de devorar e, a partir daí, recriar.

A começar pelo nome e pela capa do disco “A Divina Comédia”, já notamos uma antropofagia: o nome faz referência a um clássico da literatura mundial, “A Divina Comédia” do italiano Dante Alighieri, e a capa é a recriação de uma ilustração do século XIX de Gustave Moré para a parte do Inferno dessa mesma obra literária.

Os Mutantes se utilizam da sua ousadia estética e com humor mordaz criam uma das capas de discos mais icônicas da história da música mundial. Por aí já se percebe que o grupo mantém a alma tropicalista. Outro exemplo dessa alma tropical são as onze músicas do álbum que fazem uma mistura de um cem números de ritmos, desde o popular, ao rock até chegar em música clássica, com, claro, o gênio Rogério Duprat fazendo todo o arranjo orquestral, deixando um disco popularmente erudito. Mas, meus amigos e amigas, uma música em especial chama a atenção deste que vos escreve: “Chão de Estrelas”. Ela é uma regravação da clássica seresta, de mesmo nome, composta por Orestes Barbosa e Silvio Caldas. Meus caros, que petulância a desses Mutantes! Quanta blasfêmia foi para os apreciadores da seresteira original “Chão de Estrelas” quando ouviram a regravação desses tais de Mutantes! Comeram até esse clássico dos rádios! Oh Céus! Essa canção registrada no disco “A Divina Comédia” eu diria que é a mais genuína amostra do canibalismo tropicalista dos Mutantes. A composição original é tão mumificada que foi criada por Orestes Barbosa com o intuito de ter versos decassílabos. Os Mutantes quebram essa coisa caquética, recriam a canção e infestam-na de reproduções de sons engraçados. É como se eles ridicularizassem tanto a música quanto o próprio personagem dela, tanto é que Arnaldo Baptista, quando canta, incorpora o eu lírico de uma forma sentida e faz uma voz empachada, uma sátira aos cantores de rádio. Confesso que quando ouvi pela primeira vez, na minha tenra adolescência mutante, caí no riso.

Quando penso nessa recriação de “Chão de Estrelas”, lembro do que o modernista Oswald de Andrade fez com uma poesia de 1843 do poeta romântico Gonçalves Dias. Lembram-se do poema “Canção do Exílio”?

[Canção do Exílio]

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
(in Nossos Clássicos, Poesia. Rio de Janeiro: Agir, 1979).

Oswald de Andrade, por sua vez, faz uma paródia se utilizando de uma técnica chamada de intertextualidade, com fins de criticar o texto original:

[Canto de Regresso À Pátria]

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não catam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a rua 15
E o progresso de São Paulo
(in Poesias Reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971).

Enquanto o primeiro respira a saudade pelas terras e sua paisagem vegetal, o outro quer voltar, antes da morte, para ver o progresso da cidade cinza.

Os conservadores e puristas devem ter enlouquecido com esses deboches estéticos. Mas é justamente isso que faz d’Os Mutantes um grupo inteligente, quer dizer, não só são gênios musicais, mas também entendiam o que faziam, tinham consciência do início, meio e fim do seu próprio trabalho, e faziam disso um meio para desencaretar a arte, deixa o mundo menos bundão. Acho que precisamos de mais canibalismo tropical dos Mutantes hoje em dia, pra ver se o mundo volta a ser um lugar mais suportável de se viver, com mais humor e irreverência inteligente.

Filosophone: A Antropofagia Robótica de Belchior

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Belchior
Belchior

Filosophone, por Matheus Queirozo

Para que levar a vida assim tão a sério?

Afinal, a vida é mesmo uma aventura da qual não sairemos vivos

(Belchior. Romance de Um Robô Goliardo, 1984)

De geração em geração, sabemos, tudo vai mudando. Aquela velha roupa dá sempre lugar a outra moda. Aqui ou acolá, surge sempre um novo corte de cabelo, um novo jeito de falar (os chamados dialetos e códigos de grupo), surge um novo modo de estar no espaço e no tempo. “O que há algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer”, cantava o jovem Belchior em sua canção “Velha Roupa Colorida”, no seu disco “Alucinação” de 1976. Nos anos setenta, muita coisa apareceu. Em termo de arte, então, ficaríamos o dia todo elencando quanta coisa foi produzida. Uma das décadas mais ricas. Belchior pintou no cenário musical com um disco meio caipira futurista, meio ficção científica nordestina, o disco “Mote e Glosa” de 1974.

Quanto lirismo tem nessa obra! Um disco que fala de máquinas, de hora do almoço, de senhor dono da casa, de juventude toda suja de batom, fala de sofrimento a palo seco. Palo seco, aquele cântico entoado com a garganta seca, com a voz sozinha, sem instrumento musical, é a vida como ela é, a vida como ela é em meio às mudanças industriais. Eu tentaria definir (que pretensão mais vaidosa a minha!) esse disco como um cante à palo seco na cidade grande. E como não pensar na poesia cálida, desnuda de qualquer doçura melodiosa, de João Cabral de Melo Neto:

“Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;

Se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.

O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;

É o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.”

(Trecho de “A palo seco” do livro “Quaderna”, 1960).

Já em 1976, Belchior lança o álbum “Alucinação”. A partir desse trabalho, ele é consagrado na cena musical dos anos setenta. Saudosista? Não, Belchior não era do tipo saudosista, daqueles que se enchem de vaidade e de desgosto pela atualidade para dizerem que “na minha época”, “no meu tempo”. Percebe-se que a apologia ao novo, à mudança, à renovação, é uma constante na sua obra, esse canto sobre a mudança dos tempos. Belchior sempre se reinventa de disco em disco, ele sabia que as coisas tinham um motivo para mudar: “Tudo muda! E com toda razão” (“Rapaz Latino-Americano”, 1976). Isso fez dele um eterno jovem docemente rebelde, amargamente apaixonado pela vida: “Sim, já é outra viagem. E o meu coração selvagem tem essa pressa de viver” (Coração Selvagem, 1977).

Então, depois de tanta bossa nova, depois de Woodstock, de paz e amor, depois de tanta Tropicália, Clube da Esquina, psicodelia, rock progressivo e pessoal do ceará, chegam os anos oitenta. Eu diria que é a década de prova de fogo para os setentistas. Quem conseguiria sobreviver à enxurrada de BRock que invadia as rádios e gravadoras? Um cenário dominado agora por muitos RPM’s, Legiões Urbanas, Titãs, Engenheiros dos Hawaiis, a televisão sendo invadida pelo rock daqueles moleques. O teste: sobreviver ao modismo oitentista. Muita coisa se perdeu, muita coisa ficou nos anos setenta, muito artista não suportou e não conseguiu atravessar a ponte dos tempos. Mas o rapaz latino-americano vindo se Sobral, no interior do Ceará, com aquele bigodão quase nietzschiano, que tem como filosofia de vida “amar e mudar as coisas me interessa mais”, como um periscópio artístico, observador das novas mídias, consegue entender muito bem o seu novo tempo e em 1984 lança um disco, quase que uma ópera rock, em que mistura ficção científica e nordeste, chamado “Cenas do Próximo Capítulo”.

Eu imagino Belchior discursando para toda a nova geração BRock:

Alô rapaziada! Alô gente fina! Alô moçada!
Eu sei que vocês estão com a vida que pediram a Deus
E ele deu
Muito que bem! Por isso espero tudo de vocês
Mas não confiem em mim: Eu não existo!

Sou apenas um personagem que diz isto
E não me chame irresponsável
Para que levar a vida assim tão a serio?
Afinal, a vida é mesmo uma aventura da qual não sairemos vivos

Ah! Tudo já é outra viagem!
Abra com meu velho canivete seu jovem coração de lata
Entre no barco eletrônico da emoção barata
Vamos, na crista da onda

Dar um balanço cibernético nas horas!
Pulsars, quasars, buracos negros, astros, guerra e paz
Amor nas super-estrelas
Robô goliardo deste tempo
Narro a minha vida começando pelo fim
É bem melhor assim
Vou contar pra vocês a vida que eu inventei pra mim

(Trecho inicial de “Romance de Um Robô Goliardo”, do mesmo disco).

Belchior mostra que não deve nada pra ninguém, mostra que sua poesia de coração selvagem continua acesa. A sonoridade do disco guarda a essência nordestina do artista, mas é um nordeste renovado, tecnológico, um apanhado de canções nordestinamente robóticas (ouçam, por exemplo, “Forró no Escuro” do grande Gonzagão, regravada neste disco de 1984 em forma rock star). O filósofo alemão Friedrich Nietzsche tem um conceito chamado Eterno Retorno, onde – numa explicação bem básica – tudo, na história, se repete, mas de uma maneira renovada, o mesmo evento se apresenta, tempos depois, com uma nova roupagem. Assim é esse disco. Ele não é velho, não é passageiro, não é um disco temporal, ele pode ser ouvido em qualquer época, ele fala de juventude, fala “das deusas que eu amei com as mãos” (“Beijo Molhado”), fala de paixão sem ser antiquado, fala de amor sem ser piegas. É um disco de antropofagia robótica, é como se Belchior fosse um androide, tivesse absorvido toda a cultura dos anos setenta, tivesse transformado-a dentro de si e cuspido, renovada, na década de oitenta.

“É isso aí, rapaziada! É isso aí, gente fina!
Talvez a gente pudesse dizer adeus de outro jeito
Mas eu sou um antropófago urbano
Um canibal delicado na selva da cidade
Mais dia menos dia… Eu como você. E você como eu!
Ora, ora! Sempre houve um lugarzinho a mais para alguém
Debaixo dos meus lençóis”

(Trecho final de “Romance de Um Robô Goliardo”, do mesmo disco)

“Cenas do Próximo Capítulo” é como uma novela de ficção científica que assistimos ansiosos querendo descobrir o que vai acontecer nas cenas que se sucedem: será que o mocinho bigodudo continua com aquele gás setentista todo? A resposta vem, dez anos depois, renovada, à maneira de um eterno retorno: “Deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida e nos carrega moço, sem ter visto a vida” (“Hora do Almoço”, 1974). Ou seja, ao invés de se repetir, ao invés de ser uma múmia de si mesmo, Belchior simplesmente foi lá e fez, chegou aos anos oitenta sem perder o lirismo, o talento, a beleza da juventude, sobrevivendo à prova de fogo, se eternizando na memória afetiva de todos nós, pobres mortais, se tornando o nosso bigodudo, o nosso poeta filosófico.

 

Filosophone: A Voz das Mulheres Em Chico

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Filosophone, por Matheus Queirozo

Já ouvi dizerem que o homem que conseguir entender uma mulher deve duvidar de seu sexo, como se entender uma mulher fosse uma proeza impossível para homens. Claro que achei um comentário bem infeliz, mas tenho para mim que o caso é que o universo feminino é mesmo muito curioso por justamente ser misterioso, e não pela suposta impossibilidade de ser compreendido. A mulher é um ser fantástico, uma verdadeira poesia e seus gestos são como a legítima arte: polissêmicos! E, por falar em poesia, existe um carioca que tem como musa inspiradora em muitas de suas canções a figura da mulher. Esse carioca, que tece poesias em torno do universo feminino, muitas vezes confundindo-se com suas personagens marcantes, se chama Chico Buarque de Hollanda. Convenhamos: um grande artista!

Nesse breve texto, falaremos, sem querer esgotar o assunto, do aspecto artístico muito único do Chico que é o de se utilizar do eu lírico feminino nas suas músicas, mostrando, sem tirar o protagonismo feminista, que a mulher deve ter sim a liberdade de gritar seus sentimentos.

A história nos mostra que a mulher não tinha vez na nossa sociedade, que a mulher sempre foi vista como inferior ao homem. Esse é o tão vergonhoso machismo, enraizado na nossa cultura há seculos! Isso só começou a mudar, aos poucos, depois que a mulher começou a se impor, mostrando que a fêmea não deve ser submissa a macho nenhum, e com todo o direito e razão. Não foi da noite para o dia que essa reivindicação foi crescendo. Foi através de muita luta! E a mulher lutou: no início dos anos 70 começaram a surgir mulheres que queriam discutir seu lugar no mundo. Nessa década, o movimento feminista começou a se propagar na América Latina.

Com o Brasil cada vez mais se modernizando, com a industrialização se instalando, a mulher sentiu necessidade de atuar dentro desse novo mercado de trabalho. A mulher queria mostrar que podia sim ajudar no orçamento familiar através de sua força de trabalho fora de casa.

As músicas mais marcantes de Chico que giram em torno da mulher foram compostas na década de 70. Direta ou indiretamente, não se pode negar que Chico contribuiu com a luta das mulheres pela vez delas na sociedade. Apesar de ele descrever algumas mulheres afetadas por paixões arrebatadoras, sem dúvida deu voz às mulheres em suas músicas, abriu o microfone para que elas pudessem vomitar tudo o que queriam falar, deixou a mulher desabafar numa época de censura irremediável. Alguns criticam Chico dizendo que suas músicas são machistas, que elas mostram a mulher do ponto de vista machista. Mas esquecem de observar o óbvio: Chico retrata a mulher como ser humano, com suas qualidades, com seus defeitos e suas fragilidades, que todo ser possui. Independente de ser homem ou mulher, todos somos frágeis. Chico deu voz às mulheres para que derramassem suas forças e fragilidades.

Cada eu lírico feminino de cada música que fala da mulher na obra de Chico pode ser visto tanto como o retrato da personalidade toda de uma mulher, quanto pode ser visto como a descrição de um momento, de alguns instantes da personalidade feminina. A mulher é um múltiplo de emoções, de ações, reações, comportamentos. E Chico conseguiu transportar isso muito bem para as suas canções.

  • – Na música “Cotidiano” (do álbum “Construção”, de 1971):
    Não é uma canção de eu lírico feminino, mas que retrata uma mulher que faz tudo, todos os dias, sempre igual, com o mesmo gás de amor sempre, como se fosse a primeira vez a cada manhã, tarde e noite, tudo para o conforto do marido, para não perdê-lo. Uma crítica ao pensamento que define a mulher como a dona de casa? Quem sabe!

  • – Na música “Atrás da Porta” (do álbum “Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo”, de 1972):
    A mulher se encontra submissa ao amado, se encontra despedaçada de amor sem aceitar a separação.

  • – Em “Olhos nos Olhos” (do álbum “Meus Caros Amigos”, de 1976):
    A mulher sofreu com o rompimento do relacionamento, mas, depois, consegue juntar forças para superar a dor e voltar a viver outros casos, outros amores, outras emoções.

  • – Em “Folhetim” (do álbum “Ópera do Malandro”, de 1979):
    É uma mulher consciente de sua autossuficiência e de seu charme entre seus amantes, adorando viver vários flertes, onde cada caso, depois, é considerado página virada em seu folhetim.

Como vimos, Chico retrata a mulher em suas mais variadas facetas. Depois desse pequeno texto, podemos ter certeza, sem receios de equívoco, que na história da música Chico foi e continua sendo o único artista no mundo que conseguiu e consegue descrever tão belamente e tão detalhadamente o universo feminino, mostrando que a mulher pode ser quem quiser, sentir as emoções que mais lhe aprouverem, com quem quiser e quantas vezes quiser. E Chico não precisou duvidar de seu sexo.