Lennon Fernandes tira seus diversos sons da gaveta em primeiro trabalho solo, “Abstrato Sensível”

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Lennon Fernandes já passou por bandas que fizeram barulho no cenário independente, como Tomada, Os Skywalkers, Andeor, Baleia Mutante e diversas outras. Em 2017, chegou a hora do músico e compositor navegar pela primeira vez em caminhos solo, tirando da gaveta tudo o que produziu desde o início de sua carreira musical. Desta escavação musical saiu “Abstrato Sensível”, álbum em que gravou todos os instrumentos.

“Eu fiz os arranjos, gravei os instrumentos e mixei tudo sozinho. E pensei bastante nessa questão de “unidade”. Tinha essa preocupação, de vibrar como um álbum de uma banda”, conta. “Fui até o técnico de gravação! Engraçado que eu estava no processo de me “aceitar” como artista solo que eu nem falei nada pra ninguém”.

Conversei com ele sobre sua carreira e a investida solo:

– Quando você começou sua carreira e como começou?

Em 2017 lancei meu primeiro trabalho solo, meio sem querer, gravando umas músicas que estavam “na gaveta”. Mas desde 97… 98 toco em bandas. Nesse meio tempo toquei nas bandas Tomada, Os Skywalkers, Andeor, Baleia Mutante entre outras.

– E como foi a transição das bandas pro trabalho solo?

Teve dois momentos. Primeiro vi que eu tinha muitas músicas paradas, que não cabiam nas bandas que eu participava. Segundo tive que me “aceitar” como artista solo. Quando entendi isso foi escolher algumas composições e começar a gravar.

– E como rolou esse mais recente disco? Ele tem muitos estilos diferentes condensados em uma só obra, e mesmo assim tem uma unidade…

Costumo falar que o “Abstrato Sensível” teve um processo de criação parecido com de um pintor em seu atelier, produzindo sozinho uma tela. Eu fiz os arranjos, gravei os instrumentos e mixei tudo sozinho. E pensei bastante nessa questão de “unidade”. Tinha essa preocupação, de vibrar como um álbum de uma banda.

– Mas então ele é realmente um álbum solo literalmente, né. Você fez tudo praticamente sozinho!

Isso. Fui até o técnico de gravação! Engraçado que eu estava no processo de me “aceitar” como artista solo que eu nem falei nada pra ninguém. Minha família, meus amigos, sabiam que eu passava horas no estúdio mas nem imaginavam que eu estava gravando um álbum. Quando ficou pronto foi uma surpresa pra todos.

– Me conta mais sobre o processo de composição desse disco.

Pra mim é como uma coletânea. Cada composição é de uma fase da minha vida. Por exemplo “Viajante do tempo” e “Sempre” são de 2006 e 2008. “Fios elétricos” é de 2015. Mas todas foram compostas num formato simples violão e voz.

– E as influências também são bem variadas, pelo que notei. De Hendrix a MPB…

Sim! Gosto muito do rock entre 67 e 72. Gosto muito de Clube da Esquina também. Eu, quando estava selecionando o repertório pro disco, pensei nessas influências que queria mostrar. Mas tem outras que gosto muito como Neil Young e Arrigo Barnabé que não consegui colocar dessa vez, quem sabe no próximo.

– Ou seja: já está pensando no próximo! Pode adiantar um pouco do que está pensando para ele?

Então, estou pensando mesmo (risos)… Dessa vez estou escolhendo poucas músicas que estão na gaveta. Meu objetivo é fazer um álbum com temas que estejam mais atuais na minha vida. Retratar mais o que eu acredito no momento.

– Como você definiria sua vida como artista independente hoje em dia?

O artista independente tem que aprender a fazer tudo. E se meter em todos lugares. Eu estou nesse aprendizado. Ano passado criei o selo Parafuseta Records, convidei outros amigos para participar, hoje somos oito artistas, por enquanto, e a ideia é crescer. Fazemos constantes apresentações na Avenida Paulista e algumas praças de São Paulo e do interior de São Paulo.

– Isso está acontecendo bastante, pelo que vejo: a criação de selos, os shows nas ruas…

Então, precisamos disso. O cenário de música autoral estava num declínio. Não por falta de compositores ou bandas. Acredito que mais por falta de espaços e oportunidades. A rua é ótima porque o público que quer ouvir um som novo encontra ali, fácil, acessível, não escondido dentro de um barzinho.

– E como tem sido a recepção do disco?

A galera tem gostado bastante do álbum, da arte, do encarte do cd físico e do show. Principalmente da “Fios Elétricos” por conta do videoclipe também. E esse é um feedback importante porque motiva na continuação do trabalho.

– Quais seus próximos passos?

Atualmente estou compondo as faixas do meu segundo álbum. O objetivo é começar pensar nos arranjos e gravar ainda no primeiro semestre de 2018. E incluir algumas dessas faixas novas nos shows. Paralelamente expandir meu trabalho de produtor no selo, trazendo mais artistas pra gravar.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Essa é a pergunta mais difícil (risos) porque existem tantos nomes bons atualmente que não caberia aqui, mas vou sugerir o que tenho escutado mais e de alguma forma me inspiram:

2 de 1 (álbum “Transe”)
Bratislava (álbum “Fogo”)
Daniel Zé (álbum “Calma Karma”)
Ekena (álbum “Nó”)
Marina e os Dias (single “Can we go?”)
Marina Melo (álbum “Soft Apocalipse”)
Strawberry Licor (EP “Pupsy”)

[Exclusivo] Pata lança clipe noventista para “Monster”, faixa do EP “Wild and Cabeluda”

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Acaba de ser lançado o videoclipe da música “Monster” do trio Pata, com imagens gravadas durante o show de lançamento do primeiro EP da banda, “Wild and Cabeluda”, na Casa do Jornalista em Belo Horizonte. Misturadas à imagens do filme “Yongary” de 1967, dirigido por Kim Ki-duk, a obra oferece, segundo a vocalista e guitarrista Lúcia Vulcano, “uma analogia para os sentimentos evocados na música, que em em alguns momentos parecem conjurar a forma primitiva monstruosa que nos habita, única capaz de exteriorizar toda nossa opressão. Mas até o monstro destruidor, pode demonstrar ternura. Mas só depois do caos. E não por muito tempo”.
Assista:

– Vamos logicamente começar falando do clipe de “Monster”! Como foi que rolou esse clipe tão noventista?

Acho que foi uma estética um pouco natural quando pensamos em fazer o clipe, já que o som da banda é bastante influenciado por essa década. Quando o Fábio Belotte (diretor do clipe) veio com as ideias, fomos caminhando meio que naturalmente para isso.

– E, é claro, o clipe tem um monstro.

(Risos) Sim! É a Yongari, uma monstra (!!) do filme do sul coreano Kim Ki-duk, “Monster From the Deep”. Na época (1967), era um filme concorrente do Godzilla.

– Me conta mais sobre a letra de “Monster”. Tem uma pegada bem L7, né.

Tem bastante influência, mas acaba que a abordagem da letra é um pouco diferente. A nossa “Monster” fala mais de um conflito interno, de uma coisa que foi se construindo ao longos dos anos e subjugando a pessoa aos poucos – um tipo de hospedeiro, um verme que suga o hospedeiro e, de certa forma, rouba a forma da pessoa se transformando nela.

– Esse som faz parte do primeiro EP da banda. Como rolou esse trabalho?

Eu tinha algumas músicas compostas e queria dar um corpo para esse projeto com essas composições. Acabei criando a pata para dar vazão a essas músicas. Decidi grava-las para ter um registro e colocar o trabalho para frente. Gravei tudo em casa, eu mesma – com a ajuda de alguns amigos. Acho que o “wild and cabeluda” foi uma das coisas mais desfiantes que fiz na vida.

– Então na real o Pata é mais um projeto solo do que uma banda, certo?

Não, é uma banda mesmo. Somos um trio – Eu, o Lulu e a Beatriz. Eu só dei o primeiro passo para a tirar a pata do papel – hoje temos muito mais um pensamento coletivo na criação dos arranjos. As músicas novas estão vindo a partir dos nossos ensaios e de longas conversas.

– Aliás, me explica o nome do EP, “Wild and Cabeluda”.

Bom hehe o nome da banda, pata, veio a partir da expressão pata de camelo, ressignificando-a como um símbolo de resistência das mulheres – uma subversão da noção que o corpo da mulher deve ser escondido. Apesar de que não é preciso ter uma pata de camelo para ser mulher, existem outras formas de ser. Daí o nome do EP, selvagem e cabeluda, que confirma essa ideia de subversão.

– Como você vê o crescimento dessa onda conservadora no mundo e como isso está servindo de combustível para o contra-ataque de quem vai contra esse pensamento?

É assustador. Eu não diria que é um combustível, pois a gente funciona bem sem essa onda conservadora, mas é definitivamente um alerta.

– Seria ótimo não precisar contra-atacar, né…

Com certeza!

– Vocês já estão trabalhando em novas músicas?

Sim! Estamos idealizando o nosso primeiro álbum e tem sido bem divertido.

– Dá pra adiantar alguma coisa sobre ele?

Estamos no processo de escolher as músicas e ver o que funciona em cada uma. Já temos o nome! Mas é segredo, por enquanto (risos).

– E vocês já estão fazendo shows de divulgação do EP? Como estão rolando?

Estamos sim, inclusive nossa próxima data é no dia 30 de março aqui em BH no Saramandaia.

– Recomendem bandas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Tem a Whatever Happened to Baby Jane que é muito massa, a Bertha Lutz daqui de BH, Charlotte Matou um Cara, Demonia, Lava Divers!

Trio de Los Angeles Fragile Gang quer trazer seu shoegaze com toques de pop para o Brasil

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Formada por Aisling Cormack (guitarra e voz), Arlo Klahr (baixo e voz) e Jessica Perelman (bateria), a Fragile Gang é uma banda de Los Angeles que está na ativa desde 2003 e em cada trabalho mostra influências diferentes: dos momentos acústicos ao puro punk rock, o atual trio faz o que der na telha, desde que faça sentido para todos os membros. “Bandas são como gangues”, conta Arlo, “eles precisam uns dos outros para serem fortes”.

O mais recente trabalho do trio, “For Esme”, é um tributo a Esme Barrera, um ícone da cena musical underground de LA que trabalhava incansavelmente nos bastidores, seja em projetos como o Girls Rock Austin ou simplesmente sendo uma figura que levantava o moral dos músicos locais com seu bom humor e otimismo. O disco traz canções emocionais e doces e é um bom cartão de visitar. Agora, eles trabalham no novo disco, que será lançando em 2018. Conversei com um pouco com Arlo sobre a carreira da banda:

– Contem um pouco mais sobre seu novo álbum!

O novo disco! Estamos tocando com a Jessica (na bateria) por cerca de um ano e meio agora. Muito do novo álbum sai de uma formação sólida e ensaios todas semanas e fazer vários shows. Também tem a influência de eu tocar mais baixo (eu costumo tocar guitarra) e Aisling tocando mais a guitarra principal. Gravamos ele principalmente em novembro, no estúdio de um amigo, e estamos terminando pequenas partes agora. Tem também algumas surpresas, esperamos, com os novos instrumentos que estamos experimentando. Nós colocamos muita emoção nisso e estamos ansiosos para ver o que sai disso.

– Como surgiu o nome Fragile Gang?

“Fragile Gang” é o nome de uma música da banda escocesa The Pastels. Escute a música e eles. Nós os amamos, mas além da música em si, que é ótima e  gentil – e parte de um ótimo álbum – o nome significou algo para nós e ainda o faz.

– Quais são suas principais influências musicais?

Se eu tivesse que escolher apenas por quantidade de horas ouvidas, provavelmente os Beatles, Bob Dylan, Neil Young, Bob Marley, talvez Fela Kuti, graças aos meus pais, e coisas como Carter Family, música tradicional irlandesa, Leadbelly, Miles Davis. Ah, e Lungfish. Ouvimos eles por horas e horas por muitos anos e vimos muitos dos seus shows e eles são definitivamente uma grande influência para mim e Aisling. Falando em outras bandas, David Bowie, Velvet Underground, The Clash, The Smiths, Wire, Galaxie 500, Fugazi, Unwound, Blonde Redhead, Pastels, Replacements, Big Star, Bikini Kill/Le Tigre, Nation of Ulysses/Makeup, Otis Redding, My Bloody Valentine, Public Enemy, Metallica do começo, the Clean, soul music… Basicamente qualquer coisa e tudo, e está sempre crescendo, então sinto que essa longa lista está diluindo a força de qualquer coisa que eu tenha a dizer, então vou ficar quieto agora…

– Como descreveria seu som para alguém que nunca ouviu falar?

Este é difícil: agora as pessoas dizem algo como “pop-gaze” de nossas performances ao vivo, ou algo no espírito de Yo La Tengo… E isso poderia ser bom o suficiente, mas eu realmente nunca sei o que somos. E isso também pode ser uma coisa boa: somos uma banda que sempre está olhando, espero que continuemos sempre crescendo, mudando e sendo inspirados! Tentando ouvir nossos sentimentos, bem como olhar para o exterior para nos surpreender e inspirar.

– Me conte mais sobre o material que vocês lançaram até agora.

Nós lançamos o que eles podem chamar nos EUA de “uma bagunça total” de álbuns. Muitos, e talvez não sejam suficientemente bagunçados. Os favoritos de algumas pessoas são o nosso primeiro, “Valley of Static”, que é muito lo-fi, gravado em uma antiga fábrica de alimentos para cães e em um gravador de cassetes de 4 pistas em nosso banheiro, etc. Eles também gostam de um chamado, apropriadamente o suficiente, “Aisling & Arlo”. É tudo violão acústico e violão basicamente, e a gente cantando, tão simples e puro quanto pudemos. E então, nossos dois últimos, “For Esme” e “Twister in the Ocean”, que são mais uma banda de rock.

– O que você pensa da cena independente musical hoje em dia?

Nós amamos a cena musical independente. Pode ser tão emocionante, íntima, crua e próxima, e basicamente é o único tipo de cena que já conhecemos. Quero dizer, vamos a shows de todos os tamanhos e escutamos todos os tipos de bandas, mas os shows que fazemos e as pessoas de que estamos perto são quase todos parte das comunidades independentes e DIY.

– Você acha que o rock alcançará o mainstream novamente como antes?

É difícil saber onde o rock irá como um gênero. A música popular sempre está mudando e “hibridando”, então pode acontecer de alguma forma. Aposto que o Nirvana e essa época foram uma grande surpresa e você nunca sabe quais surpresas estão sendo preparadas nas comunidades subterrâneas neste momento.

– A era do streaming é boa ou ruim para o artista independente?

O streaming parece ser uma benção mista: nos permitiu encontrar muitas bandas e cenas e selos e até nos ajudou a fazer nossa turnê no Japão (e conhecer grandes bandas e amigos lá) e encontrar shows no Canadá para tocar. Todos podem encontrar todos. As pessoas podem ouvir nossa música no Brasil, por exemplo! Ou ao lado de nós. Isso é incrível. É uma merda que geralmente é na plataforma de outra pessoa (grandes conglomerados de tecnologia). Isso não parece tão independente. Também é verdade que os pequenos artistas ainda estão e sempre acham dificuldade se sustentar. Mas talvez haja um equilíbrio que o mundo da música vai encontrar em algum momento. Enquanto isso, ainda podemos vender nossas fitas, CDs, camisas e shows e fazê-lo dessa forma.

– Los Angeles sempre foi conhecida por ser um bom lugar musicalmente. Como está hoje em dia?

LA é um lugar emocionante para a música. Muitas bandas surgem aqui, então é bom. E pessoas de diferentes culturas e origens se inspiram. As culturas da indústria cinematográfica e da mídia às vezes permeiam as cenas menores e vice-versa. Pode ser surpreendente saber quem conhece quem e quem vai aos shows. Mas tudo isso sendo dito, alguns de nossos shows favoritos foram muito semelhantes aos que teríamos feito em El Paso, um bom grupo de bandas e pessoas em um espaço de tamanho médio a pequeno, apenas tocando música e curtindo. É mais sobre como se juntar.

– Quais são os seus próximos passos?

Queremos ir ao Brasil! Sério, mande uma mensagem para nós se você pode nos ajudar a fazer um show ou recomendar alguém para conversar ou qualquer lugar por aí para tocar! Foi assim que tocamos no Japão e foi ótimo. Além disso, queremos levar o nosso novo álbum para o maior número possível de pessoas e depois fazer outro álbum e nos surpreender. Fazer mais shows. Talvez construir um pequeno estúdio em casa?

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Alguns de nossos amigos daqui: Young Jesus, Joe Gutierrez do Steady Lean, Young Lovers, Pastel Felt, Nick Flessa, Pig Pen, Ryan Reidy, Total Heat… Alguns de nossos amigos com quem  tocamos no Japão: Boyfriend’s Dead, Yukino Chaos, Vanellope. Alguns amigos de longa data com bandas: Kid Congo and the Pink Monkey Birds, Knife in the Water, the Crack Pipes, Hairy Sands. Também curtimos novas bandas como Jo Passed, RL Kelly, Ian Sweet. E bandas com quem fizemos turnê: Clarke and the Himselfs, Little Star, Didi e muitas, muitas outras!

Tupimasala encontra sua personalidade cheia de synths e mensagem forte no disco “Vênus”

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Tupimasala

Na ativa desde 2014, o Tupimasala se encontrou definitivamente com seu som em “Vênus”, disco de 2017 recheado de synths e sonoridade oitentista, mas sem perder a brasilidade latente da masala tupiniquim do quarteto. Formada por Samantha Machado (voz), Sabrina Homrich (bateria e voz), Adam Esteves (guitarra, voz e sintetizadores) e Hector de Paula (baixo e sintetizador), a banda teve seu álbum considerado um dos melhores de 2017 pela Billboard Brasil.

Criado como uma ópera-rock, o trabalho se divide em três atos: “Eclipse”, que compreende o entender-se mulher e suas implicações sociais, sendo introspectivo e contemplativo, e tendo como enfoque o eclipsamento feminino, “Trânsito de Vênus”, que propõe o levante e a libertação feminina através da imperatividade, com canções fortes e agressivas, e “Estrela D’Alva”, mais festivo, com exaltação ao autoconhecimento do corpo. Todas as faixas do disco possuem nomes de mulheres e falam de questões que infelizmente ainda são consideradas tabu na sociedade, como depressão (“Branca”), masturbação (“Gabriela”), violência policial (“Graça da Sé”) e a liberação da maconha (“Joana Paraná”), por exemplo.

No dia 07/02 (quarta-feira) a banda se apresenta na Contramão Gig, no Bar da Avareza, juntamente do quarteto Der Baum, que lança o single “Pra Inglês Ver”. Conversei com Samantha e Adam sobre a carreira da Tupimasala e o encontro com a nova sonoridade em “Vênus”:

– Me contem primeiro um pouco mais sobre o disco “Vênus”!

Samantha: O “Vênus” foi o resultado de bastante tempo olhando pra dentro da gente… Estética e criativamente
O ano de 2016 inteiro a gente se dedicou a entender a nossa linguagem e o que a gente queria com esse trampo novo. A gente tem um trabalho anterior muito diferente, que a gente fez quando ainda tava se entendendo enquanto músico. O “Vênus” é um trabalho mais consciente da nossa estética e da nossa mensagem.

– E como foi a composição e gravação desse álbum?

Adam: A gente viajou pra Salvador com a ideia de passar um tempo lá pra compor. Ficamos um mês por lá, bem internalizados mesmo, e voltamos com umas 12 músicas.

Samantha: A gente tava bem nesse momento de encontrar nosso espaço enquanto músicos, e isso me fez esbarrar em uma porrada de questões de gênero, como toda mina que faz música esbarra em algum momento.

Adam: Chegando em São Paulo, fizemos um tempo de pré-produção com a banda e depois entramos no estúdio para fazer a pré-produção com o produtor também.

Samantha: Por ser a principal compositora, isso acabou refletindo no conceito do trampo de um modo geral.

Adam: Sobre o processo da gravação especificamente, nos reunimos pra fazer a pré-produção com o Pipo Pegoraro (da Aláfia) e as gravações foram no Navegantes, estúdio onde foi gravado o Francisco El Hombre, Luisa Maita, etc

– Como vocês definiriam o som da banda?

Samantha: Comé que cê define o som da banda, bucha?

Adam: Ah, eu definiria como eletropop! Mas é uma definição que limita um pouco

Samantha: É, então.

Adam: Pois também temos influência de rock, de música brasileira (na “Graça da Sé”, “Janaína” e na “Joana Paraná” isso fica bem evidente).

Samantha: Mesmo porque eu acho o som mais rock que pop. Synth-rock-pop-dream-samba-electro-funk!

Adam: Isso! Seria o rótulo ideal (risos)

– Como a banda começou?

Adam: Começamos eu e a Samy como um duo, ironicamente, de voz e violão, em 2014. E cada vez mais fomos sentindo necessidade de dar mais corpo ao nosso som. Foi aí que entrou o Hector, no contra-baixo e bass synth. Nesse meio tempo algumas pessoas passaram pela banda e depois de fazer muita experimentação a gente encontrou nosso lugar no som mais sintético. Acreditamos que aí é um lugar onde conseguimos fazer a diferença. Quando encontramos essa personalidade no nosso som, lançamos o “Vênus”, em 2017.

– Quais as principais influências musicais da banda?

Samantha: Acho que da banda, de modo geral, Tame Impala, Metronomy, MGMT, Novos Baianos, Lady Gaga, The Dø, Jungle, General Elektrik.

Adam: Daft Punk, super importante (risos)!

Samantha: SIIIIM! FKA Twigs

– Vocês se consideram uma banda política?

Adam: Considero que qualquer ato é politico. O ato de se colocar como apolítico é político.

Samantha: Fazer música é político, falando de política ou não.

Adam: Então, sim, somos uma banda política, assim como a Disney e a Coca-Cola também fazem política, enfim.

– Como vocês veem a atual cena musical independente hoje em dia?

Adam: Acho que é uma das cenas mais incríveis que já tivemos. A cena independente conseguiu subir muito a qualidade da música. Tem bandas como Aláfia, As Bahias e a Cozinha Mineira, Mdnght Mdnght, Geo, que tem uma qualidade incrível de som e show. Isso é muito importante, pois antes um bom show com som e estrutura de qualidade era relegado somente a bandas do mainstream e acho que o cenário independente tem provocado até mesmo mudanças no mainstream.

Samantha: Tenho uma imensa admiração pelo cenário independente atual, porque o nível de qualidade sempre sobe, tem uma galera altamente criativa, além de mobilizações de grupos femininos, LGBTs, gordos, pretos, periféricos pra marcar presença no mercado musical, que é tão branco e masculino.

– Mas o objetivo ainda é chegar ao mainstream e “estourar” ou com a queda da indústria musical isso mudou?

Adam: O objetivo e ter o trabalho reconhecido e com um nível de visibilidade que permita a banda conseguir viver de maneira sustentável. Às vezes o mainstream facilita esse caminho, mas nem sempre. Como por exemplo em casos em que as grandes gravadoras assinam com um artista “pequeno”, mas não colocam o disco dele no mercado, não impulsionam a carreira e inviabilizam parcerias desse artista. Ou seja, acabam deixando estagnada a carreira desse artista.

– Me contem mais sobre como é um show da Tupimasala.

Samantha: A gente tem um rolê com artistas performáticos, como a Lady Gaga, o Kiss, o Ney Matogrosso. A gente acredita que um show tem que preencher a audiência não só auditivamente, mas visualmente também.

Adam: Temos vários formatos. Mas sem dúvida, meus favoritos são o trio eletrônico, em que tocamos eu a Samy e o Hector. A energia é bem forte com uma performance bem gostosa e que é um formato mais intimista. E o “Espetáculo Vênus” que é a leitura do disco “Vênus” para o teatro. Ou seja, levamos a experiência sonora do disco, que é uma opereta, para o palco.

– O que podemos esperar da apresentação de vocês na Contramão Gig?

Samantha: Vários timbrão loko, muita energia na performance e a gente bem brilhosa.

– Aliás, uma curiosidade minha: de onde surgiu o nome Tupimasala?

Samantha: Surgiu quando a gente morava na Índia. Masala é um tempero de lá, e eles colocam esse tempero nas coisas pra dar um Spice it up. Então surgiu daí: música brasileira com um temperinho!

Adam: É uma música feita por brasileiros porém, com um tempero apimentado em cima.

Samantha: Com uma apimentadeenha!

Adam: É mais uma dessas misturas clássicas, tipo Brasil com Egito, sushi com feijoada.

– Chiclete com Banana!

Adam: (risos) Isso!

– Vocês acham que realmente existe um levante conservador no nosso país ou é apenas algo que rola na internet?

Adam: Rola sim! As minorias começaram a ganhar espaço e a ter seus direitos reconhecidos (ainda que de maneira bem sutil) e isso vem incomodando muita gente, infelizmente. É uma fase meio Reagan né? muito conservadorismo e muito sintetizador ao mesmo tempo

– Já estão trabalhando em novas músicas?

Adam: Sim! lançaremos um novo single entre abril e maio. Vai ter muita novidade sobre a banda nesses meses. Ainda estamos fechando alguns detalhes mas em breve divulgamos tudo tudinho.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Adam: A Geo com o EP que ela lançou recentemente, o “Salva-Vidas”. A Marcelle com o disco “Equivocada”. A Olympyc, banda que tem um som bem oitentão gostoso. Mdnght Mdght, que é uma galera lá de Brasília que faz um som bem bacana também. A banda irmã dela que é a Cabra Guaraná.

Samantha: Marina Melo que tá lançando o “Nuvem”. A Trouble and the New Brazilians, que tá com um trampo folk bem interessante e bem diferente do que se vem fazendo no gênero aqui no Brasa. A Labaq, que tem uma sonoridade dream bem linda, que ela tira sozinha em alguns shows.

Adam: A própria Der Baum que vai fazer o som com a gente no dia 7, é ótima! Tem uma pegada muito gostosa também.

Samantha: Obirin Trio, que tem um trampo de arranjo de vozes que é a coisa mais linda desse mundo.

Adam: Se deixar a gente fica até amanhã aqui! (risos) É muita coisa boa!

– Podem continuar!

Samantha: Tem a Black Cold Bottles, que é uma banda de rock bem maravilhosa. Tem quem mais? O projeto Sauna, que é uma banda de internet…

Adam: Rodrigo Alarcon e Abacaxepa, o primeiro numa pegada mais MPB, já a banda numa pegada que me lembra uma mistura de Novos Baianos, Barão Vermelho com Itamar Assumpção.

Samantha: Bem 80’s com uma vibe bem engraçada. Tem a MANA, que é um duo de meninas que cantam sua vida doméstica…

Humberto Finatti e a sua “Escadaria para o Inferno”

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Humberto Finatti é um personagem impar da cena musical brasileira. O jornalista começou na imprensa musical em 1986 e passou pelas redações (como repórter ou colaborador) de revistas como Somtrês, IstoÉ, Bizz, Interview e Rolling Stone Brasil, e também pelos jornais O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Folha da Tarde, Folha de São Paulo e Gazeta Mercantil. Atualmente é conselheiro edital da ONG Associação Cultural Dynamite e editor do site de cultura pop Zap’n’roll (www.zapnroll.com.br )

Em novembro do ano passado, Finatti lançou seu primeiro livro, intitulado “Escadaria para o inferno”, numa agradável noite de autógrafos realizada na Sensorial Discos, com shows das bandas Psychotria, Jonnata Doll & Os Garotos Solventes e Jenni Sex. O jornalista conversou sobre seu livro, jornalismo musical, financiamento coletivo e redes sociais. Confira:

– Depois de tantos anos e histórias no jornalismo musical, você nos brinda com a publicação do seu primeiro livro “Escadaria para o inferno”. Como surgiu essa idéia?

É um projeto que começou a ser gestado há alguns anos já. Na verdade eu tive uma existência pessoal e profissional bem maluca (risos). E não foi que eu quis ter vivido dessa forma, eu não planejei viver assim. As coisas simplesmente foram acontecendo ao longo da minha vida. Sempre tive uma formação intelectual sólida (por conta da mãe artista plástica e do pai publicitário) e uma educação bastante liberal em casa, em termos comportamentais. De modos que já na adolescência (por volta dos 16 anos de idade) comecei a enfiar o pé na lama em álcool e maconha (risos). E quando comecei no jornalismo em 1986, com 23 anos de idade, esse comportamento algo loki continuou me acompanhando. Vai daí que ao longo de três décadas atuando na grande imprensa como jornalista da área de música e cultura, comecei a colecionar uma série de histórias verdadeiramente malucas, algumas quase surreais de tão inacreditáveis. E todas existiram e aconteceram de fato, isso que é o mais incrível (risos). Histórias envolvendo consumo pesado de álcool, drogas (especialmente cocaína), sexo desenfreado etc. E muitas dessas histórias envolvendo gente conhecida do rock brasileiro e até internacional. Aí passamos então ao detalhe que me motivou a pensar no livro: toda vez que eu mencionava ou contava algumas dessas histórias para alguém, a reação era sempre a mesma: espanto total e a frase inevitável “isso dá um livro e você precisa escrever ele!”. Foi aí que, há uns 4 anos já, fiz uma primeira versão desse livro. Uma versão meio “preguiçosa” eu diria, pois resolvi apenas compilar uma série de posts do meu blog, o Zapnroll (um dos 4 mais acessados da web BR na área de rock alternativo e cultura pop, há 15 anos no ar já e com cerca de 70 mil acessos mensais), tal como eles foram publicados e onde eu invariavelmente contava essas histórias malucas. Reuni esse material e percorri algumas editoras pequenas, mostrando o que havia compilado. Foi quando o Marcelo Viegas, amigo meu há mais de 15 anos e ex-diretor editorial da Ideal Edições, um dia veio falar comigo me dando o toque: “Finas, o material é muito bom mas acho que você deveria mudar o foco da apresentação dele. Ao invés de reproduzir num livro exatamente o que você já postou no seu blog, seria muito mais interessante você pegar essas histórias malucas e reescrevê-las em forma de contos/crônicas curtas, romanceando um pouco o texto mas mantendo a essência e a narrativa factual do que rolou com você”. Segui o conselho dele e mudei tudo na parte narrativa do livro. Foi assim que ele nasceu tal como foi publicado e posso dizer que fiquei bastante satisfeito com o resultado.

– Fale um pouco sobre o processo de assinar com a Editora Kazuá. Como chegou até eles e como foi a recepção com o seu trabalho?

Outra looooongaaaaa história (risos). Foram três anos enviando os originais do livro para algumas editoras. Algumas sequer retornaram meu contato. Uma adorou e queria publicar mas não tinha dinheiro para bancar a impressão e queria que eu enfiasse a mão no meu bolso nesse sentido, sendo que ela cuidaria da divulgação, vendas e distribuição. Eu disse que não tinha como bancar (e não tinha mesmo, sou um jornalista loki e falido aos 5.5 de vida e que vive com a corda no pescoço (risos)) e que buscava justamente uma editora que acreditasse no livro e bancasse os custos de produção e impressão do mesmo. Uma segunda editora também se animou mas achou o conteúdo algo “pesado” demais (risos) e queria mudar muita coisa na narrativa dos capítulos, inclusive sugeriu um título menos “sinistro” para a obra, hihi. Recusei, óbvio, pois não queria mudar uma vírgula no que concebi de texto para ser publicado. Foi quando entrou finalmente em cena a Kazuá, selo modesto da capital paulista mas que possui um grande apuro e cuidado gráfico e editorial com o acabamento final de cada lançamento deles. Cheguei até a editora através de um amigo de muitos anos, um músico e professor universitário de Letras e que iria lançar (lançou, no final do ano passado) seu terceiro livro de poemas pela Kazuá. Um dia, tomando uma cerveja com ele, me disse: “Finatti, acho que achei o lar ideal para o seu livro. Procura o Evandro, dono da Kazuá e por onde vou publicar meu novo livro, e explica pra ele o que é o seu livro. Ele vai abraçar a ideia, com certeza”. E assim foi: liguei um dia pra lá, pra falar com o Evandro. Esse meu amigo já tinha falado também com ele ao meu respeito. Expliquei o que era o livro, como foi minha trajetória no jornalismo etc. Marcamos um encontro pessoal e fomos tomar umas cervejas num dia à noite. Ao final desse encontro o Evandro, um gaúcho altão e que é formado em filosofia e cinema, me disse: “confio em você e no livro. Vamos publicar ele”. Isso foi em outubro do ano passado. No meio de novembro o livro estava pronto. E eu gosto da turma da editora porque eles pensam como eu, comportamentalmente, socialmente, culturalmente e ideologicamente. Turma maluca da porra (risos). A diretora de arte é uma gatona de 30 e poucos anos de idade, toda tatuada e que toca guitarra. A outra editora é uma gaúcha quase sessentona, atriz de teatro e loki também (risos). O Evandro é um maluco ao cubo e inteligentíssimo. E todos, claaaaaro, são politicamente de esquerda, odeiam esse (des) governo de merda ao qual todos nós estamos submetidos nesse triste momento do país tropical não abençoado por nenhum deus (risos). Posso dizer que hoje dou razão ao meu amigo músico, poeta e professor: encontrei o melhor lar editorial que poderia para publicar o livro. Claro, há sempre uma rusga aqui e ali, alguns arranca-rabos acontecem eventualmente entre eu e a editora. Qual relação de amor, amizade e profissional onde nunca sai uma briguinha? Mas são encrencas pontuais e que rapidamente se resolvem com uma boa conversa.

– Quando você anunciou a publicação do seu primeiro livro, a repercussão na internet foi enorme. Como foi receber isso? Esperava um retorno tão rápido?

Foi mesmo enorme? (Risos) Se você está dizendo… (risos). Falando sério, sim, a repercussão foi muito boa, mas precisa melhorar ainda mais (risos). E recebi isso sem expectativa na verdade. Achei que alguma repercussão com certeza haveria, afinal eu sou um jornalista bastante conhecido (sendo que metade da humanidade me ama, a outra metade me odeia (risos)) na minha área de atuação e ao longo dos anos fui colecionando amigos (alguns bem famosos como os meninos da banda Ira!, o Frejat que foi durante 30 anos vocalista e guitarrista do Barão Vermelho, o Clemente dos Inocentes, o músico e apresentador de TV João Gordo etc, etc, além de muitos anônimos) e inimigos na mesma proporção. Então eu sabia que iria repercutir de alguma forma e em algum momento, mas não sabia qual seria o tamanho dessa repercussão. Como na real não sei ainda até onde esta repercussão chegará.

– “Escadaria para o inferno” reúne muitas histórias envolvendo celebridades. Sofreu algum tipo de censura por parte dos envolvidos? Alguma história prevista inicialmente ficou de fora?

Por partes: primeiramente nope, nenhuma das “celebridades” mencionadas nas histórias do livro se incomodou, ao menos até o momento. Um exemplo: quando eu estava com o livro pronto e oferecendo o dito cujo a editoras, fui num show do Ira! Depois da apresentação da banda, já no camarim, comentei com o Nasi (vocalista do grupo e meu amigo pessoal há pelo menos 35 anos) que uma das histórias que eu narrava em um dos capítulos havia rolado na casa dele, durante uma entrevista que fui fazer com ele, isso lá por 1993 (lá se vão 25 anos…). Perguntei se ele se incomodava em eu contar essa história. A resposta dele: “de forma alguma. Todo mundo sabe como foi minha vida e tudo o que rolou comigo eu mesmo já contei na minha biografia”. E ainda completou, rindo: “aliás Finatti, eu já levei alguns processos por conta da minha biografia. E você, está com quantas ações judiciais nas costas?”. (risos) Fora ele há episódios envolvendo gente como o americano Evan Dando (que foi vocalista dos Lemonheads) e o “pai dos punks”, o John Lydon (que um dia foi Johnny Rotten, quando cantou nos Sex Pistols). Mas como duvido que algum dia eles cheguem a ter conhecimento do livro… por fim tem mr. Lobão, né? (risos) Sobre minha briga com ele e como eu a mostro no livro (dedicando palavras e comentários nada abonadores ao músico), chegou a haver um certo receio por parte do departamento jurídico da Kazuá, quando eles leram os originais. Mas como o Lamartine, diretor jurídico da editora, também é do rock (risos), ele um dia me disse durante uma reunião com ele: “foda-se, vamos em frente e seja o que Deus quiser”. Segundamente: olha, tenho uma tonelada de histórias bizarras que rolaram comigo ao longo da minha trajetória profissional. E essas histórias dariam com folga mais uns 2 ou 3 livros. Mas a prioridade nessa estreia literária era fazer relatos de casos em que me envolvi com gente muito conhecida, até pela questão de marketing editorial, certo? Afinal as pessoas gostam de saber de “fofocas” envolvendo gente conhecida, né. É da natureza humana ser assim, ter essa curiosidade pelos bastidores “sórdidos” (risos) de quem é famoso. Posto isso, selecionei e escrevi 20 capítulos redondos. Poderia ter sido mais mas eu queria que o livro tivesse isso, 20 capítulos. De modos que ficaram de fora dois capítulos que podem muito bem entrar como adendo numa segunda edição/reimpressão do livro, se ela acontecer. São dois capítulos também muito engraçados. Um deles conta o “pelé” que dei uma vez numa entrevista marcada com o genial e querido Tom Zé, sendo que eu iria entrevistá-lo para fazer uma matéria para a célebre revista Bizz. Pois na véspera da entrevista fui pra “night” e enfiei o pé na lama, claro. No dia seguinte eu estava literalmente fora de combate e a entrevista foi pro saco, ahahahaha. Tive que ligar pra ele, inventei uma história de que havia passado mal de saúde (o que não deixou de ser verdade, hihi) e felizmente consegui remarcar a entrevista, sendo que na segunda tentativa não furei e deu tudo certo (risos). A outra história que ficou de fora foi um bate-boca que tive com o Lulu Santos ainda no comecinho da minha carreira de jornalista. Foi durante uma entrevista coletiva com ele onde eu perturbei o cantor carioca o tempo todo, ahahaha. Perturbei tanto que a ex-mulher dele, a finada Scarlet Moon, perdeu a paciência comigo e disse: “se você não parar de provocá-lo vou pedir que se RETIRE da sala!”. Levantei no mesmo instante e respondi: “não precisa pedir, já estou de saída”. E levantei e fui embora, ahahahaha.

– O guitarrista e co-fundador da Legião Urbana, Dado Villa-Lobos, disse num comentário sobre você “Às vezes ele é um imbecil, mas necessário. O último jornalista do Rock”. Concorda com a afirmação? O que você acha que o motivou para tal afirmação?

ahahahaha, eu sei exatamente o que motivou esse comentário dele (a frase dele foi dita pro meu queridíssimo amigo pessoal e músico Jonnata Araújo, vocalista da banda Jonnata Doll & Os Garotos Solventes, uma das poucas bandas que valem a pena no atual cenário rock alternativo BR; e o “Joninha” me contou depois sobre a declaração dele e achei que a mesma cairia bem na contra-capa do livro). Na real conheço o Dado desde que a Legião começou e lançou seu primeiro disco, no final de 1984. No auge da banda e quando eu trabalhei na revista IstoÉ, chegamos a ser bem próximos, embora eu tenha sido de fato amigo do Renato Russo. Pois bem. Renato se foi, a Legião idem e Dado seguiu em frente, tocando seus projetos musicais solo, cuidando de um selo independente (o Rock It, que não existe mais) etc. Até que lá por 2009 ele lançou um disco solo, que era trilha sonora de um filme nacional (não me lembro agora o nome, acho que era “Lisbela e o prisioneiro”). O cd veio parar na minha mão e fiz a resenha dele para a revista Rolling Stone Brasil, onde eu estava colaborando. E na resenha falei que o disco era ok musicalmente mas que não dava pra tangenciar o fato de que Dado NÃO nasceu pra CANTAR – ele cantava (canta) em duas faixas do cd (se me lembro bem) e de maneira bastante sofrível, eu diria. E ele ficou realmente PUTO quando leu aquilo e levou anos pra me desculpar, ahahaha. Aliás nem sei se desculpou (risos). Chegou a me mandar um e-mail (que tenho guardado até hoje) me espinafrando por causa da resenha publicada na RS. Mas enfim, nos reencontramos tempos atrás quando ele lançou sua auto-biografia, e ele me tratou com simpatia. Até tiramos uma foto juntos, ahahaha. E se concordo com o que ele disse ao meu respeito? Ora, quem nunca foi um IMBECIL em algum momento de sua vida? Então eu concordo (risos). Fora que é uma ótima frase de efeito e que mereceu entrar na contra capa do livro (risos).

– Humberto Finatti é uma lenda na cena musical. Você divide opiniões entre os que te amam e os que te odeiam. Como lida com isso?

Hoje em dia procuro lidar da melhor forma possível (risos). É a velha questão de você se tornar uma persona pública, né – e jornalistas, a partir do momento que expõem suas opiniões sobre algum assunto para que pessoas o leiam em algum veículo de mídia (impressa, virtual, seja o que for), se tornam personas públicas. E angariam amor e ódio, simpatia e antipatia em proporções equânimes, e de quem sequer conhecemos pessoalmente. De modos que hoje em dia lido bem com essa dualidade de opiniões sobre o que faço e escrevo. Mas houve uma época, há uns dez anos eu diria, que era foda. A perseguição em cima de mim chegou a ser tão cruel e violenta que até comunidade no falecido Orkut criaram, com o objetivo de me foder o mais que pudessem. Era uma comunidade repleta de fakes, de postagens anônimas, e onde ninguém tinha coragem de mostrar a fuça para dizer o que dizia ao meu respeito mostrando a cara. Me xingavam de tudo ali (risos). E inventavam as maiores barbaridades e bizarrices ao meu respeito. Teve uma época que aquilo chegou a começar a me fazer mal, emocionalmente falando. Mas como tudo acaba um dia, o Orkut foi pro saco e com ele também a tal comunidade. Mas aquilo no final das contas foi um aprendizado pra mim e me ensinou a lidar melhor com esse tipo de situação e com criticas e comentários negativos ao meu respeito. Também fizeram um Twitter falso meu, que no fundo era até divertido e eu dava muita risada com alguns tuites (risos). Agora como esse bando de covardes e cuzões não têm mais onde latir contra mim na covardia (assinando com perfil fake), eles vivem tentando me insultar no painel do leitor do meu blog, o Zapnroll. Só que lá eles se fodem porque eu é quem modero os comentários e então somente eu posso lê-los na íntegra, editá-los e publicá-los, se eu quiser. E acredite, pinta cada asneira e vomitório imundo lá que chega a me espantar. Fico espantado com o nível de inveja, psicopatia e ódio gratuito (e covarde, é sempre bom frisar, já que quem manda esse tipo de mensagem escrota nunca se identifica com o nome verdadeiro) dos caras. É assustador às vezes.

– Você transitou entre as mais renomadas publicações musicais do Brasil. Como você descreve o jornalismo musical atual?

Eu e mestre Luis Antonio Giron (o autor do prefácio do meu livro, atual editor de Cultura da revista IstoÉ, um dos maiores nomes do jornalismo cultural brasileiro e quem carinhosamente me abriu as portas do Caderno 2 do jornal Estadão, quando trabalhei lá em 1988) temos a mesma opinião: o jornalismo cultural/musical acabou. Morreu na era da web. Hoje qualquer um tem blog e posta suas opiniões (na maioria das vezes completamente rasa, estúpida e sem profundidade e conhecimento algum do que se está opinando) em qualquer lugar, no FaceTRUQUE etc. Talvez eu tenha feito parte (e com orgulho digo isso) da última grande geração do jornalismo cultural brasileiro, aquela que teve o próprio Giron, o Fernando Naporano, André Forastieri, André Barcinski, Ademir Assunção, Alessandro Gianini, Luiz Cesar Pimentel (autor do texto que está na “orelha” do meu livro) e mais alguns poucos. Todos queridos amigos meus, inclusive. Foi uma geração que se formou solidamente na questão cultural/intelectual, que possuía um texto brilhante e que buscava se informar e se formar lendo toneladas de livros de importância capital na literatura mundial, assistindo clássicos cinematográficos aos montes e ouvindo todos os grandes discos que importavam e importaram na história da música, especialmente na MPB e no rock. Hoje tudo isso acabou, né. As pessoas possuem toda a informação do mundo nas mãos, ao alcance de um click no computador ou no celular, e no entanto só ficam obcecadas em postar e ler imbecilidades no FaceCU, no Twitter e no whats porra app. Assim ninguém se aprofunda em nada e isso se reflete na cultura pop e na música atual, que nunca esteve tão irrelevante e ruim, qualitativamente falando. Não é à toa também que, pouco antes de morrer, o gênio e filósofo italiano Umberto Eco disparou uma frase que já se tornou um clássico do pensamento da era da internet: “a era da web produziu uma legião de IDIOTAS”. Simples assim.

– Você sempre levantou a bandeira do rock e ajudou a impulsionar a carreira de vários novos nomes. Como você encara isso? Se sente reconhecido pelos nomes que impulsionou?

Sempre encarei de maneira normal e como fazendo parte do meu oficio como jornalista. Claro que sempre amei e continuo amando rock, de modos que eu unia e uni o útil (minha paixão pelo rocknroll) ao agradável (trabalhar como jornalista), mesmo que isso não tenha lá me trazido grande retorno financeiro. Se me sinto reconhecido pelo que fiz e por ter ajudado um monte de bandas? Sim e não. Sim, porque fiz ótimas amizades no meio e que sempre têm um carinho enorme por mim. E não porque observo que o ser humano está mais egoísta e individualista do que nunca nos tempos atuais. Então o que mais continuo recebendo quase todos os dias são pedidos de bandas (por e-mail, pelo FB) para que eu ouça o trabalho delas, dê uma força e tal. Mas basta eu precisar de uma força igual de algum artista (como no caso do financiamento coletivo que acabei de abrir para levantar uma grana que me permita cobrir os custos de novas noites de lançamento do livro, que precisarei fazer o mais breve possível) que todo mundo literalmente some.

– Quem te acompanha nas redes sociais sabe que sua relação com a internet parece conturbada. O que te incomoda na rede e como mudar?

Já sou um sujeito “véio”, Hani fofo (risos). E como tal sou cada vez mais rabugento, ranzinza, azedo e avesso a tecnologia e redes sociais, aplicativos, smartphones etc, sendo que tenho tudo isso porque sou praticamente obrigado a ter e a utilizar essas ferramentas, por conta do meu trabalho como jornalista, blogueiro e agora também escritor. Mas faço minha a frase dita pelo personagem Paterson, do filme homônimo (belíssimo por sinal, o mais recente dirigido pelo genial Jim Jarmush): “o mundo era melhor sem smartphones”, hahahaha. E era mesmo: as pessoas se encontravam mais pessoalmente, rolava mais paquera de verdade, amigos iam em grupos ao cinema, a shows, museus, exposições, teatros, em baladas, beber nos bares e restaurantes. Hoje você reúne uma turma de, vá lá, quatro amigos, e sai com eles pra ir tomar uma breja por exemplo. Dali a pouco você olha em volta na mesa em que você está com esses amigos (onde quer que seja) e cada um está lá, com seu celular na mão, completamente absorto nele e alheio ao resto, e teclando freneticamente nos apps ou em alguma rede social, e que se foda quem estiver ao lado dele (risos). Na verdade a internet e as redes sociais são uma ferramenta e tanto de comunicação, interação e divulgação para tudo, não há dúvida quanto a isso. O que me irrita nela e a falsidade, o mundo ilusório e do faz de conta, onde todos são mega felizes e estão de bem com a vida em todos os sentidos, o tempo todo. Ou seja: todo mundo querendo fazer INVEJA uns nos outros, sendo que sabemos que a humanidade está longe de ser esse paraíso idílico e total cor-de-rosa. Muito pelo contrário: o mundo e o Brasil estão passando por momentos sinistros ao cubo, com crises de toda ordem. Fora a gigantesca onda moralista babaca, conservadora e reacionária ao extremo que está tomando conta da sociedade aqui e lá fora, e levando a raça humana a níveis de (in) civilidade dignos da Idade Média, isso em pleno século XXI. Então eu não caio nessa onda de que tudo é lindo e todos são felizes e estão super de bem com a vida nas redes sociais mais falsas que Judas (risos). Pelo contrário, sou um inimigo feroz desse tipo de atitude e comportamento digital. Daí minha birra com redes sociais e afins. Como melhorar esse panorama? Sinceramente acho muito difícil que ele melhore, pelo menos a curto prazo.

– Essa semana foi lançado um financiamento coletivo visando arrecadar fundos para realizar novos lançamentos do livro “Escadaria para o inferno”. Como você enxerga o financiamento coletivo? Acha que é a solução num cenário cada vez mais independente?

Não sei se é a solução ideal, mas é a que tenho nesse momento. E estou torcendo para que dê certo porque estou realmente precisando (risos). Por isso aproveito para pedir que todos me deem essa força e colaborem com esse financiamento coletivo que lancei.

– Tenho certeza que existem mais histórias em suas gavetas. Cogita dar continuidade e lançar um novo livro? Quais seus planos profissionais?

Parte dessa pergunta (das histórias que ainda tenho pra contar) já está respondida mais aí em cima (risos). Meus planos profissionais? Ahahahahaha, ganhar na mega sena, comprar uma casa na praia, outra em São Thomé Das Letras, sumir de São Paulo e ir morar na Islândia, meu sonho de consumo (risos). E lá passar o que me resta de vida curtindo frio intenso (amo!) eterno, uma linda islandesa, vinho e marijuana diariamente. Se eu conseguir isso, será ótimo e irei embora desse hospício chamado Terra plenamente satisfeito (risos).

Para colaborar com o financiamento coletivo lançado pelo autor, acesse: https://www.kickante.com.br/campanhas/lancamentos-do-livro-escadaria-inferno

Foto: Jairo Lavia

Sit’n’Spin: o programa de rádio universitário de Nova Jérsei que virou banda

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Sit'n'Spin

A banda Sit ‘n’ Spin começou sua carreira da forma mais noventista possível: em uma rádio universitária em New Brunswick, Nova Jérsei. O programa de Heidi Lieb (guitarra e vocal) e Sue Stanley (baixo) chamava Sit ‘n’ Spin e como cada uma tocava um instrumento, chamaram a baterista Poot McKenna e a guitarrista Mony Falcone, reuniram suas infuências de RamonesRonettes, Link Wray e Chuck Berry e seguiram em frente com sua versão de carne e osso de Josie e as Gatinhas, fazendo um som que já foi descrito como “a epítome da diversão”.

Com três discos na bagagem (“Pappy’s Corn Squeezin” (1997), “Enjoy the Ride” (2000), e “Doin ‘Time with Sit n’ Spin” (2004)) e diversos singles, a banda agora faz shows quando dá na telha e não planeja o futuro. “Nenhum plano específico”, contou Heidi. Veja mais de minha conversa com a líder da banda:

– Como começou a banda?
A Sit n ‘Spin começou na cidade universitária de New Brunswick, Nova Jérsei, onde todos estavam em uma banda. Eu costumava fazer um programa de rádio com minha amiga Sue, que estava aprendendo baixo enquanto eu estava aprendendo guitarra. Sua colega de quarto era baterista. Nós três decidimos tentar escrever músicas, e assim fomos!

– E de onde surgiu o nome da banda, Sit n’ Spin?
Nosso programa de rádio na rádio da faculdade chamava Sit n ‘Spin. Uma de nós “sentava” e a outra “girava” os discos. Assim, Sit n ‘Spin. Sit n ‘Spin também é um brinquedo de criança no qual você se senta e gira. É incrível e divertido, como a nossa música.

Sit ‘n’ Spin

– Quais são as principais influências da banda?
São tantas. British invasion (The Kinks, The Who), rock’n’roll dos 50’s (Chuck Berry, Eddie Cochran), girl groups (Shangri-las, Ronettes) e um pouco de punk dos anos 70, como Ramones.

– Me contem um pouco mais sobre o material que vocês já gravaram.
Temos três discos: “Pappy’s Corn Squeezin” (1997), “Enjoy the Ride” (2000), e “Doin ‘Time with Sit n’ Spin” (2004). Além disso, temos um monte de singles e estamos em muitas compilações.

– E já estão trabalhando em novos sons?
Não, no momento não. Acabamos de voltar a nos reunir para comemorar o 20º aniversário do nosso primeiro CD, então estamos nos concentrando no nosso catálogo existente.

– Como é o processo de composição da banda?
Principalmente as letras primeiro, mas às vezes a melodia vem primeiro. Eu sugiro uma ideia, faço uma demo, trago para a banda, e então todos ajustamos juntos.

Sit ‘n’ Spin

– Qual é a sua opinião sobre a era de streaming em que vivemos?
Ótimo para os fãs de música! Bom para as bandas serem ouvidas sem precisar de uma gravadora. Ruim para bandas que não estão vendo dinheiro de downloads/streaming. O processo parece tão misterioso. Nós temos música para venda, mas não tenho idéia de quem está recebendo o dinheiro quando as pessoas compram do iTunes, Spotify, etc.

– Descreva um show para alguém que nunca viu.
O objetivo é se divertir – para nós e para o público. Principalmente para nós, aliás.

– Talvez possamos ver vocês no Brasil algum dia?
Se alguém quiser nos levar, gostaríamos de ir!

– Quais são os seus próximos passos musicais?
Nós estamos fazendo shows ocasionais. Nenhum plano específico.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção ultimamente.
Acabamos de ir para Atlanta para tocar com duas das nossas bandas favoritas, Tiger! Tiger! e Subsonics, ambos incríveis e também as pessoas mais bonitas da Terra.

Conheça as canções cheias de mistério e humor afiado do Compositor Fantasma no EP “Avenida Contramão”

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Compositor Fantasma

De onde saiu Compositor Fantasma, que lançou seu primeiro EP, “Avenida Contramão”, neste mês? Ninguém sabe, na verdade. Aliás: Gabriel Serapicos pode até saber, mas pra nós, disse que não. Ele que encontrou o material perdido, em um lugar que ele prefere não revelar, na forma de calhamaços de partituras e letras empoeiradas. Conversei com ele sobre o misterioso artista desconhecido, o EP com a voz de Laya, Zi Vasconcellos e Natália Pavan e as outras diversas canções que ainda estão na gaveta:

– De onde surgiu o Compositor Fantasma?

Encontrei calhamaços de partituras e letras empoeiradas em um lugar que prefiro não revelar ainda. Acho muito cedo. Conforme fui tocando ao piano essas músicas, vi que havia algo interessante ali, um personagem. Todas estão assinadas como Compositor Fantasma. Não é possível afirmar que todas as canções foram escritas pela mesma pessoa mas, pelo senso de humor, é bem provável.

– E foi você que gravou tudo? Ou já havia alguma fita ou outro material já registrado?

Gravei tudo com ajuda da Laya, Zi Vasconcellos e Natália Pavan que interpretaram essas primeiras canções. Não havia registro de áudio então foi meio como reinterpretar uma sonata de Beethoven, guardadas as devidas proporções.

– E como rolaram essas gravações?

Rolou tudo no meu estúdio ao longo de novembro/dezembro. Foi bem agitado em paralelo com a melancolia de final de ano. Queria terminar todas as gravações em 2017 como meta pessoal.

– Então todas as músicas já foram gravadas? Ou ainda tem material?

Ainda tem muito material. Calculo que dá para produzir 500 canções. Algumas não estão em perfeitas condições materiais então talvez precisem ser restauradas. Outras são curtas e podem ser encaixadas como uma centopéia para gerar uma música maior na linha rock psicodélico. É um trabalho, em parte, de arqueólogo.

– E como você escolheu quem iria te acompanhar nesse projeto?

Já conhecia as cantoras e gosto muito do forma que cantam e interpretam. O trabalho acaba sendo uma experimentação para trabalhar com novas pessoas. Em cada novo lançamento, vou chamar intérpretes diferentes. Mulheres e homens.

– Já tem uma previsão pra esse próximo lançamento?

Depois do EP de estréia “Avenida Contramão”, já tem um single engatado para o Carnaval. o interessante da obra do Compositor é a enorme abrangência de temas.

– E como rolou esse primeiro clipe?

eu não posso informar como conseguimos as imagens mas posso assegurar que não foi fácil. O Marcelo Perdido fez um ótimo trabalho de montagem com o material que tínhamos a disposição. São filmagens reais do Compositor Fantasma em estúdio mas é difícil precisar a data.

– Me fala mais dessa gama de assuntos que os materiais se referem. Como são essas composições que ainda não saíram?

Ainda estou escavando os papéis, muitos são fragmentos de idéias. São rascunhos de uma vida inteira, então, as músicas falam sobre assuntos pertinentes a fases boas e ruins. Para o próximo, escolhi letras que falam sobre dívidas, términos de namoro e fracassos pessoais. Não foi uma vida fácil.

– Quando veremos esses novos sons?

Um EP a cada 2 meses até o final do ano. Eventualmente, vão pipocar uns singles como o do Carnaval.

– Pode adiantar algo sobre esse single de Carnaval?

O cantor é um cara bem carismático. E é uma canção melancólica mas positiva. Poderia ter sido um hino religioso.

Gwyn Ashton faz blues de raiz e deixa sua paixão pela guitarra ser a guia em seus diversos projetos

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O guitarrista e compositor galês Gwyn Ashton foi para Adelaide, Austrália do Sul, na década de 1960, e logo começou sua jornada musical. Passou por diversas bandas, gravou muitos discos solo e dividiu o palco com gente como Mick Fleetwood, Hubert Sumlin, Marc Ford e Canned Heat e abriu para Rory Gallagher, Ray Charles, Robin Trower, Vanilla Fudge, Wishbone Ash, Van Morrison, Jeff Healey, Tony Joe White, Johnny Winter Mick Taylor, Peter Green, John Hammond e Pat Travers.

Este ano, Gwyn lançou “Solo Elektro”, seu primeiro disco como one man band, além de já estar trabalhando em muitos outros projetos, indo da psicodelia ao blues de raiz, passando pelo garage rock e muitos outros estilos. Conversei com ele sobre sua carreira, a paixão pelo blues e como ele vê a música nos dias de hoje:

 

– Como começou sua carreira?
Eu tinha cerca de 16 anos e entrei na minha primeira banda em Adelaide, Austrália do Sul. Não gostava de escola e tudo o que queria era tocar violão. Eu respondi um anúncio para um guitarrista no jornal local e conheci essas pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu. Comecei a escrever músicas e eventualmente me mudei para Sydney, onde entrei em outra banda. Depois de alguns anos tocando com várias bandas, acabei mudando-me para Melbourne e gravando meus dois primeiros álbuns. Sou obcecado com música e a guitarra e isso é tudo o que sempre quis fazer. Eu não queria estar em uma banda cover, o que às vezes significa que sua área local nem sempre é o melhor lugar para trabalhar, então você precisa estar preparado para se mudar um pouco. Foi o que eu fiz e ainda faço.

– Você toca blues e rock old school. Como você se sente sobre o futuro desses gêneros?
Eu tento não apenas ser só um artista retro, é importante manter-se fresco e desenvolver novas idéias. Não é tão saudável como já foi, tantos locais estão fechando em todo o mundo. A internet paralisou muitas coisas, incluindo o valor das pessoas na música. Todo mundo quer isso de graça, então precisamos criar maneiras de ganhar dinheiro com isso. É um negócio difícil de entrar. Eu tento escrever e tocar música que é relevante para os dias de hoje e ainda há pessoas que querem boa música honesta. Você normalmente precisa viajar e levar a música para eles.

– Quais as suas principais influências musicais?
Basicamente todo mundo que toca ou tocou guitarra e gravou discos. Gosto de Son House, Lightnin’ Hopkins, Muddy Waters, Hank Marvin, mas também dos Beatles e muita coisa das bandas de pop e rock dos anos 60. Hendrix, Gallagher, Marriott – Gosto de músicas com melodia e poder. Gosto de compositores como Tom Petty, Steve Earle, Lennon/McCartney. Também gosto de Kenny Burrell, Miles Davis, Buddy Guy e Bob Dylan. É tudo música para mim.

– Me conta mais sobre o material que você lançou até hoje.
Sempre fiz rock com forte influência de blues, embora eu também tenha gravado dois álbuns acústicos, meio “raízes”. Meus dois primeiros álbuns foram feitos com músicos australianos locais, mas aí me mudei para a Inglaterra e me juntei a um grupo de instrumentistas que estiveram em alguns dos meus discos favoritos e já tocaram em meus álbuns. Eu sou extremamente sortudo por ter gravado com músicos das bandas de Rory Gallagher e Robert Plant e junto com caras do The Fabulous Thunderbirds, Deep Purple, Whitesnake e Rainbow.

– Está trabalhando em novas músicas?
Estou sempre escrevendo e gravando e muito preocupado em manter minha música atual. Meu último projeto é meu álbum de one man band ‘Solo Elektro’ e eu estou tocando esse projeto na Europa e Austrália por cerca de cinco anos. Eu toco violão e canto enquanto toco as linhas de baixo com o meu polegar e piso em um kick drum. Eu desenvolvi um show em torno das limitações de ser solo, mas acho mais gratificante e satisfatório fazer isso do que ter uma banda. Eu posso ser mais experimental e porque escutei muita música diferente, posso misturar elementos de muitos estilos e lugares, incluindo dança e música psicodélica com blues e criar algo mais contemporâneo do que se eu ficasse mais em um ambiente de banda tradicional. Estou vendo muito mais jovens indo aos meus shows e isso é bom.

– Como é seu processo criativo?
Varia. Normalmente eu tenho um riff de guitarra e começo a escrever a partir daí. As letras são importantes. Eu tento não ser muito previsível, mas ainda mantê-las simples o suficiente para as pessoas se relacionarem, especialmente porque muito da minha audiência não fala inglês ou é uma segunda ou terceira língua para eles. Eu tenho um parceiro de composição (Garry Allen) em Melbourne e jogamos muitas idéias no mesmo quarto quando estou na Austrália ou pela internet.

– O que você acha da cena musical independente hoje em dia?
Há música excelente por aí, e na superfície parece saudável, mas muitas bandas jovens são forçadas a fazer muitos shows de graça ou “pagar para tocar”, então a realidade é que eles estão sendo roubados. Isso também não ajuda todos nós que estamos na estrada tentando sobreviver, quando o lugar sabe que eles podem conseguir uma banda de graça. Por sorte, eu tenho um bom público em muitos países, que eu tenho desenvolvido lentamente por muitos anos, mas não ajuda as jovens bandas que querem ganhar a vida com a música deles. Existem mais estações de rádio comunitárias que tocam músicas não convencionais e acho que mais pessoas estão dispostas a aceitar diferentes estilos de música do que no passado. Eu acho que as pessoas estão se tornando mais abertas à música e à arte.

– O que você acha da explosão do streaming no mundo da música?
É um mal necessário. Se você não estiver nos servidores de streaming ninguém vai descobrir você, mas eles não pagam bem. Os principais selos controlam o que todos escutam de qualquer maneira, então as chances de se tornar viral são pequenas se você não estiver sendo promovido por um selo.

– Conta pra gente como é o seu show.
O mais importante é ter uma boa música que as pessoas vão embora cantando em suas cabeças. Eu também sou influenciado por tantas músicas baseadas em guitarra e gosto de pensar que isso está nas minhas músicas, seja um som de slide no estilo delta blues ou um  rock and roll mais pesado. O tom de guitarra e os efeitos sonoros também são importantes para mim. Eu gosto de mexer em alguns sons para se encaixar no material, então meu pedalboard tem uma montagem bastante divertida. As raízes do meu show são blues, mas eu passo através de música elétrica psicodélica com um segmento acústico. Eu uso um monte de guitarras no palco em diferentes afinações. Eu tenho guitarras elétricas, algumas slide, acústicas, 12 cordas, lap slide Weissenborn e instrumentos de ressonância. Eu quero manter as raízes intactas e expandi-las, conhecendo as regras antes de quebrá-las. Eu tento manter as coisas interessantes, seja pensando em Son House, Ry Cooder ou em Black Sabbath no momento.

– Quais os seus próximos passos?
Meu foco principal agora é no meu álbum “Solo Elektro”. Estou trabalhando em alguns projetos, incluindo um álbum novo deste projeto. Eu também tenho um álbum acústico como compositor na minha cabeça agora. Garry e eu temos tantas músicas, estamos apenas ensaiando para ver qual formato elas soam melhor – solo ou como banda. Estou prestes a lançar um álbum acústico de world music que gravei com alguns amigos na Austrália, além de ter um álbum de blues e garage bem bacana pronto pra sair, com Garry Allen nos vocais e o baterista que tocou com o Bon Scott em 1970, John Freeman. Não há escassez de música aqui.

 – Recomende bandas e artistas que chamaram sua atenção nos últimos tempos.
Eu não vou atrás de ouvir muitos artistas modernos hoje em dia, já que minhas influências são realmente das décadas de 30 a 60, então me vejo mais ouvindo músicas antigas para evitar copiar mais escritores e artistas contemporâneos. Eu tenho que roubar da fonte! Para blues puro, há vários artistas ótimos por aí. Na Califórnia, eu realmente gosto dos The 44s, Kid Ramos, Junior Watson, Chris Cain. Ledfoot (Tim Scott McConnell) é um artista poderoso, meu amigo e ocasional parceiro de jams, e Marc Ford é um monstro. Há tantos grandes compositores e guitarristas em toda a América do Norte, tocando em bares e clubes que ninguém provavelmente nunca ouvirá, o que é um crime. Na Austrália, temos muitos grandes artistas – Chris Finnen, Jeff Lang, Kevin Borich, Ian Moss, Shannon Bourne, Dusty Lee Stephenson, Stefan Hauk podem escrever uma ótima música e tocar para caramba.

Italianos The Devils não economizam na blasfêmia e no rock’n’roll sujo no disco “Iron Butt”

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A ala conservadora e recatada que têm ganhado as ruas do Brasil ia ficar bem brava caso o duo italiano The Devils realmente viesse para cá, como dizem querer. Formada por Erica Toraldo (voz e bateria) e Gianni Pregadio (voz e guitarra), a banda faz shows cheios de esculacho, vestidos de freira e padre, com um nada discreto consolo gigantesco preso à bateria, além de às vezes darem uns amassos nada comportados entre as músicas. Tudo isso ao som de muito rock’n’roll clássico, psychobilly e o fuzz abençoando o barulho.

Recentemente a dupla de Nápoles lançou seu mais novo disco, “Iron Butt”, pela Voodoo Rhythm Records. Produzido por Jim Diamond (The Dirtbombs, White Stripes), o disco mostra a parede monstruosa de fuzz, vocais primitivos e maldosos e uma barulheira que não deixa ninguém sentir falta de um baixo. O duo pecaminoso já tocou em festivais como Azkena Rock Festival, Cosmic Trip Festival, Munster Raving Looney Party, Subsonica Women In Rock, Beaches Brew e Clanx Festival, entre outros, e atualmente está em turnê, além de começando a maquina músicas para seu terceiro álbum. Quem se habilita a trazer os capetas italianos para o país tropical para chocar a família brasileira, hein?

– Me contem sobre o single que vocês lançaram recentemente, “Red Grave”!

Erica: “Red Grave” é nossa homenagem a Vanessa Redgrave, a linda estrela do filme “The Devils” de 1971, de Ken Russell, de onde tiramos o nome da banda. Ele fala dos eventos reais ocorridos em 1634, é um filme que faz você se perguntar como poderia ser possível que em 400 anos nada tenha mudado. Realmente nos impressionou porque é definitivamente realista, e ainda hoje um terço da população do mundo é manipulado por um estado soberano de 605 habitantes que usa um espantalho chamado Satanás para pegar todos pelas bolas e gerenciar seu poder. Sendo ateus e desprezando a educação católica depois de assistir a este filme, não poderíamos deixar de ficar muito animados com o single.

– E o último disco, “Iron Butt”?

Erica: O novo álbum é muito mais selvagem, alto, insano e bem tocado. É uma imagem mais clara do que fazemos, o primeiro registro foi mais uma “wild card”. Não foi tão difícil de conseguir… Na verdade, veio naturalmente. Nós tocamos tanto que as músicas surgiram facilmente. Durante passagens de som ou na estrada, escrevemos muitas idéias. Na verdade, já estamos fazendo algumas músicas para um terceiro álbum.

– E como começou a história do The Devils?

Erica: Nós crescemos em um orfanato católico, então um dia encontramos no porão o filme “The Devils” e desde então começamos a infernizar as irmãs. Então fomos enviados para um colégio interno, mas também fomos expulsos, então eles nos trancaram por muitos anos em uma câmara secreta do Vaticano, mas em 2015 nós saímos e decidimos que não queríamos trabalhar em uma Apple Store ou um bar para sobreviver, então nós apenas roubamos um violão e uma bateria.

– Quais são as principais influências musicais da banda?

Gianni: Sou muito influenciado por blues e pornografia, a Erica é mais influenciada pelo rock’n’roll e pela violência deste mundo.

– Conte-me mais sobre o material que você lançou até agora.

Erica: No início, ‘Sin You Sinners’, nosso primeiro disco, foi mais uma demo registrada em nossa garagem com apenas dois microfones. Então decidimos fazer um álbum real, conhecemos Jim Diamond e, depois de o subornar com algumas garrafas de vinho, ele aceitou trabalhar conosco.

– Como é seu processo de composição?

Gianni: Não temos um processo de composição definido, é algo mágico. Às vezes, apenas assistimos a um filme, lemos um poema, olhamos desenhos ou ouvimos a Radio Maria da Itália ou, obviamente, ouvimos mais músicas. A melhor faísca para criar algo vem quando menos esperamos.

– O que vocês acham da cena musical independente hoje em dia?

Gianni: Somos muito sortudos porque temos o prazer de trabalhar com pessoas que dedicaram todo o seu tempo ao rock’n’roll, ao custo de suas próprias vidas. É autêntico, porque não há negócios de grande dinheiro, então é uma cena feita por pessoas com uma grande paixão por rock’n’roll.

– Qual a sua opinião sobre o mundo musical baseado em streaming?

Gianni: Streaming é uma merda, é o pior áudio de todos os tempos. Mas é útil na estrada, durante a turnê, para que possamos ouvir tudo o que queremos durante algumas viagens infinitas.

– Conte como é um show da banda pra quem ainda não viu. Talvez algum dia possamos ver vocês no Brasil?

Erica: Nosso show consiste em 2 caras que gritam da maneira mais violenta possível seus problemas psicológicos para o universo, até que suas cabeças explodam. Definitivamente, não podemos esperar para ir ao Brasil! Também porque ouvimos dizer que os homens brasileiros são bem dotados e as mulheres brasileiras possuem as bundas mais bonitas do mundo…

– Quais os próximos passos da banda?

Gianni: Estamos fazendo uma turnê européia para o lançamento do próximo álbum e quando ninguém mais quiser entrar em contato para shows e acabarmos sem dinheiro, faremos nossos votos de verdade para que o Vaticano providencie a nossa manutenção.

– Recomendem bandas ou artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Erica: Eu estou apaixonada por uma banda espanhola chamada Guadalupe Plata. Eles são tão maus, um som incrível!

Para os goianenses do Two Wolves, a palavra “pop” não deve ser mais um palavrão

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Two Wolves

Formada por Mauricius Wolf (guitarra) e Lineker Lancellote (vocal), a Two Wolves é uma banda de Senador Canedo, em Goiás. Foi formada em 2011, quando o vocalista compunha em inglês mesmo sem dominar muito bem o idioma. Após uma temporada na Europa, esse obstáculo ficou para trás e a banda se solidificou, deixando de ser um duo e lançando seu primeiro disco, “Just Listen To”, de 2014, pela Monstro Discos.

No final de 2017, agora com o reforço de Sérgio na guitarra, Miguel nos teclados, André na bateria e David no contrabaixo, a Two Wolves lançou o single “Howl”, que fará parte de seu próximo álbum, a ser concluído este ano. “A música é sobre uma pessoa a observar um lobo e sua família. Criando ali uma conexão extra-sensorial com o animal. Mas na verdade, talvez não seja um lobo e talvez não seja uma pessoa que a observa. Cada um vai entender de uma forma”, conta Lineker. O próximo trabalho promete trazer mais da “música triste pra dançar”, como o som do grupo já foi definido, sem medo nenhum de soar pop. “Espero ainda poder tocar no programa da Fátima Bernardes (risos)”.

– Como a banda começou?

A banda começou a partir da aposta de um produtor local, Mauricius Wolf, em um adolescente que compunha letras em inglês, mas não falava inglês, cantava, mas não muito bem, e tocava violão na praça, mas era terrível nisso. De alguma forma, Mauricius, viu potencial no garoto e o ofereceu a gravação de uma música. Com isso se iniciou uma amizade entre Mauricius Wolf e Lineker Lancellote que decidiram fundar a banda com o nome de Two Wolves. Após um ano juntos, Lineker teve a a oportunidade de se mudar para a Europa e se mudou com o intuito de se aperfeiçoar musicalmente e também aprender de verdade a língua que ele gostava de escrever suas músicas. O vocalista viveu alguns anos por lá, tocou em festivais, bares e ruas de alguns países como: Alemanha, França, Bélgica e Holanda, então decidiu-se voltar e tentar algo por aqui. No primeiro ano de volta, a dupla adicionou mais alguns integrantes à banda e gravaram seu primeiro álbum que já foi lançado em parceria com o selo Monstro Discos.

– Você costuma falar de si mesmo na terceira pessoa, assim? (Risos)

Nunca falo assim, mas estou tão acostumado a falar dos outros (meu trabalho é esse) que acabei falando assim (Risos). Esqueci que era uma entrevista (risos).

Two Wolves

– E porque o nome da banda? De onde surgiu?

(Agora falarei na primeira pessoa) Eu, desde criança, fui encantado com lobos. Passava horas desenhando lobos. Meu X-Men favorito era o Wolverine. Assim, quando chegou o momento de escolher o nome para o duo, veio em minha mente aquele ensinamento indígena sobre os dois lobos que vivem em cada um de nós e a importância de saber lidar com isso e escolher bem qual dos dois iremos alimentar. Então escolhemos o nome Two Wolves por causa da minha afinidade com a espécie, por causa do ensinamento e por sermos dois.

– Essa formação de duo ficou bem popular no mundo do rock nos últimos anos… Porque isso aconteceu? Antigamente isso era quase inimaginável!

Na verdade eu acho que não existe um plano por trás disso. Simplesmente acontece. No nosso caso foi o fato de que não conhecíamos ninguém que se encaixasse em nossa proposta. Pois, principalmente antes dessa era hipster, todo adolescente do rock só gostava de metal. O que não era o meu caso. O Mauricius é um músico extremamente virtuoso, mas nunca foi do metal. Ele gostava muito de música instrumental. Eu sempre gostei de algo mais pro lado de pop, post punk e muita música deprê.

– A banda realmente faz uma mistura de diversos estilos. Como você definiria o som do Two Wolves pra quem nunca ouviu?

Então, até hoje, ainda não fiz algo que eu gostasse de verdade. Existe uma música nova a ser lançada dia 20 que acredito ser mais próximo do que eu gostaria de fazer, mas não tenho certeza. É muito difícil definir um estilo, até porque isso acaba limitando a banda, mas baseado na mistura do que já foi feito. Acho que podemos nos chamar de pop. Pop é aquilo que poderia estar no mainstream e que ninguém sabe definir bem o que é, mas que acaba abrangendo um público de vários gostos. É como diria o grupo de rap SPFunk: “bota o nosso CD pra tocar que ele agrada até sua vó.” Estou ansioso por 2018, pois acho que agora eu acertarei a mão nas composições.

– E eu vejo que pra muita gente da dita cena independente, o nome “pop” é praticamente um palavrão, né.

Sim, concordo, por isso gosto de usar (risos). Na verdade eu passei da fase de tentar ser o diferentão da música. Também, acho que é mais fácil definir assim do que ficar procurando vertentes musicais com 6 palavras.

– Me fala mais do trabalho que vocês já lançaram, “Just Listen To”.

“Just Listen To” é a coletânea das músicas que compus enquanto estava na Europa, produzidas de forma diferente do que era pra ser. Eu compus as músicas em uma longa fase de depressão, tanto que a maioria das letras não são das mais felizes, porém, quando decidimos gravar, achamos que seria melhor deixá-las mais pra cima, assim o show seria mais divertido. Além do fato de que eu amo dançar. Isso virou uma mistura de sentimentos, o que já até foi definido por um jornal como: “Two Wolves! Tristeza para dançar.” Eu só posso dizer que adorei essa definição.

– Esse negócio de misturar letras tristes com melodias alegres sempre é interessante… ?

Sim! Está aí o The Smiths pra não nos deixar mentir.

– E muitas outras, né. E como rola esse processo de composição da banda?

Até hoje, tem partido de mim. Começo com a harmonia, melodia e letra, daí os meninos adicionam os arranjos de acordo com suas identidades e com a proposta que imaginamos. Eu tenho pegado no pé deles para que isso mude, para que tenha mais uma proposta inicial deles, talvez assim a gente faça algo melhor.

– Mas a banda na verdade não é um duo.

É, mas não é, depois que começamos a tocar com banda completa, aceitamos muito as ideias de cada um que faz a banda com a gente. Porém, ainda é originalmente um duo, pois os outros integrantes acabam sendo passageiros. São amigos de outras bandas que fazem uma parceria, ficam por um tempo, depois se vão com seus projetos.
Mudamos de integrantes frequentemente. Só fica mesmo eu e o Mauricius.

– É uma banda transitória.

No momento estamos com Sérgio na guitarra, Miguel nos teclados, André na bateria e David no contra-baixo.
Acredito que esses ficarão um bom tempo com a gente, já que foram realmente selecionados por bons motivos, entre eles o fato de estarem na faixa etária dos 50 anos. Diferente de mim que tenho 23.

– E vocês já estão trabalhando em novas músicas?

Sim, além desse novo single, tem um álbum sendo produzido.

– Me conta mais do single.

O single se chama “Howl” como o uivo de um lobo. A música é sobre uma pessoa a observar um lobo e sua família. Criando ali uma conexão extra-sensorial com o animal. Mas na verdade, talvez não seja um lobo e talvez não seja uma pessoa que a observa. Cada um vai entender de uma forma. Escrevi essa música me baseando ja forma que vejo o mundo. Sou uma pessoa que sofre com TDAH, ansiedade e depressão. Isso fez com que eu nunca visse as coisas e o mundo da forma que a maioria das pessoas o veem. Para esse single, está sendo produzido um videoclipe onde todas as pessoas participantes sofrem com as mesmas condições que eu. Foi feita uma postagem sobre o assunto e com isso recebi mais de cem mensagens de pessoas se voluntariando para participar e também me relatando sobre suas vidas.

– E esse single fará parte do álbum? Como será esse álbum?

Sim, o single fará parte do álbum. O álbum está na fase de produção e ainda pode sofrer algumas mudanças, mas de antemão posso adiantar o uso de muitos elementos eletrônicos e boas batidas.

– Uma coisa que eu normalmente pergunto para as bandas: quais as principais influências musicais do Two Wolves?

Isso também é muito difícil de definir. Eu gosto muito de cantores solos como: Matt Corby, Bon Iver e James V. Mcmorrow. O Mauricius gosta de guitarristas solo como Steve Vai, Satriani e outros. Porém, a banda já foi comparada com U2, Two Door Cinema Club, Kings of Leon, 1975… Então fica por isso aí. Não sei. (risos)

– Como você vê a cena independente hoje em dia e como a banda se encaixa nela (ou não se encaixa)?

Acho que a cena está cada vez mais fraca. Hoje, os jovens se tornam velhos muito rápidos, então já perderam o pique de ir em shows apoiar as bandas locais, já os novos jovens, os que deveriam substituir os que se cansaram, estes já mudaram de gosto musical. Os adolescentes estão ligados nessa cena nova do rap e do funk. Então não existe um público novo para o rock. Também, o independente está se tornando muito parecido com o mainstream. Aparece quem tem recursos e influência seja onde for. O que exclui muita banda boa da quebrada e levanta muita banda ruim de playboy. Eu acho que a gente não se encaixa em lugar nenhum.

– E o mainstream ainda é o objetivo para as bandas independentes ou isso já não faz sentido?

Bom, para mim, ainda é. Mas acho que não é para todos. Hoje eu tenho músicas em três grandes rádios. Gosto disso. Espero ainda poder tocar no programa da Fátima Bernardes (risos). Além do fato de que eu sinto que o mainstream me abraçaria mais do que a cena independente o fez.

– Existe um preconceito dos independentes com essa mídia tradicional?

Acaba que sim. Na verdade, eu acho que todos gostariam de estar lá, mas como não estão, preferem manter a postura de que não gostam. É meio paradoxal. Seria interessante chegar em uma banda e perguntar o que eles acham de tocar em rádio e depois de uma resposta negativa os dizer: que pena, a Jovem Pan quer tocar sua música. Assim, saberíamos por suas reações a verdadeira opinião. Ou talvez seja só eu que gosto de rádio e televisão (risos). Apesar que sempre que participo de programas em rádios ou televisão local, aparecem uma ou duas bandas me pedindo ajuda para participarem também. Com isso, acho que ainda existe quem queira estar na mídia tradicional.

– Recomendem bandas e artistas ( de preferência independentes ) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Hmmm… Gosto de uma banda nova que se chama Templates. Fazem um rock em português que me agradou muito. Gosto de Almost Down de Goiânia. Também tem a sumida Cambriana que está prestes a lançar um álbum e voltará com tudo. Tive a chance de ouvir o novo disco e garanto que é pedrada. Também gosto de artistas solo como o Caio e o Danny Queiroz. Indico todos esses!