Festival PIB – Produto Instrumental Bruto comemora 10 anos de resistência

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O PIB – Produto Instrumental Bruto é um festival de bandas instrumentais que acontece desde 2007 e visa promover a cultura da música instrumental contemporânea e inovadora em toda a sua diversidade de estilos musicais. Nesses 10 anos, o festival já apresentou 65 shows de 52 novas bandas instrumentais de 14 estados brasileiros e em 2017 completa 10 anos, sempre em busca de um panorama atual da nova música instrumental brasileira. O Festival PIB  desde sua primeira edição trouxe um novo olhar para a música instrumental, fazendo um contraste entre o primitivo e o moderno, o bruto e o lapidado, a natureza e a cultura.

O Festival realizará uma edição comemorativa de 10 anos, que acontecerá no dia 08 de outubro, das 16h as 22h, na Casa das Caldeiras e apresentará os shows das bandas: Amoradia do Som (SP/ SP), E a Terra Nunca me Pareceu tão Distante (SP/SP), Ema Stoned (SP/SP), Mais Valia (Jau / SP) e Rocktrash (Guarulhos / SP). Além dos shows, o festival terá outras atividades ao longo do dia. A exposição deste ano apresentará trabalhos de artistas visuais que também são músicos de bandas da cena: Andre Astro da banda O Grande Ogro apresentará suas fotografias e Yuri Sopa, da banda Kaoll apresenta seu trabalho de ilustrações de lendas brasileiras. Completam o festival: a oficina de percussão em sucata com Loop B e uma feira cultural. Todas as atividades do festival são gratuitas e a censura é livre. Atualmente o festival está em campanha pelo Catarse para arrecadar fundos para realizar esta edição. Apoie: https://www.catarse.me/festival_pib_10_anos_a84d

Desde 2014, a curadoria do projeto é assinada por Inti Queiroz, produtora executiva e criadora do festival e que também participou das curadorias anteriores. Conversamos com ela sobre o festival e o atual momento da produção cultural no Brasil. Confira:

– A música instrumental brasileira sempre teve uma imagem muito tradicional. Como foi criar o Festival Pib e ajudar a desconstruir isso?

Uma das missões quando criamos o Festival era justamente mostrar que existia uma nova música instrumental sendo feita que ia muito além do choro e do jazz brasileiro, ou mesmo do jazz contemporâneo. Em 2006 já existiam algumas bandas deste tipo, então o PIB veio para tentar unir essas bandas que surgiam com essa nova sonoridade. Na primeira edição em 2007, tivemos 45 inscrições de bandas, sendo que metade tinha esse viés novo. Em 2015, tivemos 208 inscrições e 67 bandas com esse novo viés. Nesta edição de 2017, fizemos um mapeamento com sugestões do público. Tivemos mais de 500 sugestões e destas conseguimos extrair 252 bandas com essa nova sonoridade. Isso é um crescimento e tanto. Acho que cooperamos para isso. Não somos contra a música instrumental tradicional longe disso. Mas achamos importante ter esse espaço para essa nova sonoridade. Hoje em dia até os festivais de música instrumental mais tradicional já estão aceitando bandas com essa nova sonoridade. Isso deixa a gente bem feliz. Estamos rompendo a hegemonia.

– Depois de 10 anos recebendo inscrições para a programação, você acha que as bandas evoluíram na forma como apresentam seus trabalhos para esse tipo de curadoria e seleção? Qual o papel da internet nisso?

Sem dúvida a internet ajudou bastante nessa evolução. Em 2007, primeiro ano de festival, ainda estávamos no início do Facebook e de aplicativos de música para bandas independentes. Até 2011 fizemos as inscrições com materiais enviados pelo correio. A partir de 2012 as inscrições eram via internet, ou com formulário ou pelo email. Ficou muito mais fácil e melhor fazer a curadoria e conhecer mais a fundo as bandas. Nem todas as bandas apresentam um material realmente satisfatório. Mas a grande maioria é bastante profissional quanto a isso. Se compararmos a 10 anos atrás fica ainda mais nítida a melhora. Até porque me parece que as bandas puderam conhecer o modelo de divulgação de outras bandas e assim tornar ainda melhor a forma de apresentar seus trabalhos e se divulgar. Com isso ganhamos muito nos materiais recebidos cada vez melhores. Mas a concorrência entre as bandas também aumenta. Pena que a grana é pouca e não dá pra chamar todo mundo pra tocar.

– O Festival Pib está com um projeto de apoio através do Catarse. Quais as dificuldades em se fazer cultura no país? Acha que o financiamento coletivo surge como opção definitiva para suprir uma lacuna criada pelo Estado no setor cultural?

De uns 5 anos para cá ficou bem mais difícil conseguir fazer um festival com apoio público. A primeira edição do PIB em 2007 foi feito via edital do Proac e já tivemos bons patrocínios. Mas isso foi antigamente. Além da concorrência ter aumentado bastante, a verba pública para cultura só tem diminuído. Para quem trabalha com música independente, sem viés comercial é ainda mais difícil. Quando optamos pelo Catarse, pensamos que pelo menos nos ajudaria um pouco. Mas mesmo assim ainda é bem difícil. Raramente as pessoas apoiam. Acaba ficando muito na bolha dos amigos mais próximos. Hoje eu vejo muitas bandas gravando seus CDs via campanhas colaborativas e tem dado certo. Provavelmente esse tipo de campanha seja uma modalidade quase que obrigatória daqui pra frente. Com os cortes no setor da cultura chegando ao patamar quase zero, talvez seja a única alternativa, já que bilheteria não consegue pagar um festival.

– O que podemos esperar para a próxima edição? Alguma mudança com relação as edições anteriores?

Esta é uma edição comemorativa de 10 anos. Será apenas um dia de shows como foi em 2011 e 2014 e tivemos um público bem grande. A grande novidade desta edição é que pela primeira vez teremos uma banda 100% feminina, a Ema Stoned. Era nosso sonho ter uma banda só de mulheres no Festival, afinal o PIB é um festival produzido principalmente por mulheres. Até então nunca tinha aparecido uma com a sonoridade buscada entre as bandas inscritas. Isso pra gente é um presente de 10 anos de batalha! E que surjam outras bandas de mulheres para as próximas edições.

McGee and the Lost Hope reverencia os deuses do rock com o pé na porta no EP “Sensitive Woman”

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McGee and the Lost Hope
McGee and the Lost Hope

Mezzo-carioca, mezzo-norte americana, McGee and the Lost Hope surgiu da união de dois músicos apaixonados pelas raízes do rock and roll e do blues, a vocalista de Seattle Mauren McGee e o guitarrista Bernardo Barbosa, ou B.B, como prefere ser creditado, que já rodou a Europa tocando com o bluesman Gwyn Ashton. Com muitas afinidades musicais, como o amor por Led Zeppelin, The Doors, Creedence Clearwater Revival e Suzi Quatro, entre muitos outros deuses do rock, a dupla firmou a banda no começo deste ano e já saiu em turnê para mostrar seu som em alto volume. O som é uma mistura do classic rock com momentos blueseiros e influências notáveis de psicodelia e stoner rock.

O EP “Sensitive Woman” mostra um pouco disso, com quatro faixas que pisam fundo na melancolia blueseira sem deixar de lado o peso dos pedais do rock e do stoner. A voz de McGee casa perfeitamente com o estilo, transparecendo todo o sentimento que um verdadeiro blues deve ter. A banda já prepara seu segundo trabalho, que deve ser lançado ainda este ano.

– Como a banda começou?

McGee: A banda começou quando nos conhecemos em um show de rock e percebemos instantaneamente a conexão musical entre nós. De lá pra cá fizemos músicas, gravamos e fizemos muitos shows juntos.

– Como surgiu o nome da banda?

McGee: Essa parte do nome da banda foi sugerida pelo B.B, e estou fazendo o meu melhor para que a sua esperança realmente não seja perdida (risos). Mas tenho certeza de que nada está perdido por aqui, muito pelo contrário, estamos embarcando em uma longa estrada cheia de surpresas e conquistas!

BB: Pode ter vários significados, inclusive pra nós que criamos. Mas particularmente pra mim tem um significado muito forte, que remete a quando nos conhecemos, de alguma forma eu sabia que havia encontrado a minha esperança perdida em achar uma grande vocalista capaz de interpretar e representar tão bem essas canções.

– Quais as suas principais influências?

McGee: Os clássicos do rock’n’roll não podem ficar de fora nessa lista: Neil Young, Hendrix, Janis Joplin, Led Zeppelin, Suzi Quatro, The Doors, você sabe… Mas também estamos bem antenados em bandas contemporâneas como os Spiders, Blues Pills, Wucan, Electric Citizen

– Como vocês definiriam o som da banda pra alguém que nunca ouviu?

McGee: Rock and roll, baby! Com umas pitadas de stoner, psicodelia e blues, é o som perfeito pra se divertir. 🙂

McGee and the Lost Hope

– Contem mais sobre o material que vocês já lançaram.

McGee: O EP “Sensitive Woman” foi nosso pontapé inicial, através dele mostramos ao público nossas composições e influências. É um convite para os shows ao vivo, onde todos podem conhecer mais e curtir altas jams com a gente, nenhum show é igual ao outro!

– O que vocês acham da cena independente hoje em dia?

McGee: É demais! Conhecemos ótimas bandas, tocamos em lugares que nos acolhem muito bem e o público sempre se deixa envolver pela atmosfera de rock’n’roll presente nos nossos shows. É claro que poderia ser maior e movimentar mais grana, mas estrutura vem com o tempo.

– Porque o rock está tão fora das paradas de sucesso hoje em dia?

McGee: O eock incomoda. É muito passional, muito agressivo e sempre passa uma mensagem de liberdade e rebeldia e isso não é muito bom para a manutenção do status quo. O que o mainstream prego é justamente o oposto do eock, não nos surpreende que ele esteja longe do mainstream atualmente.

– Vocês estão planejando lançar um disco completo em breve? Vocês acham que a cultura do disco morreu com a chegada dos serviços de streaming?

McGee: Nosso próximo lançamento será um EP. Álbuns ainda são relevantes, mas precisam ser especiais, devem fazer sentido como um todo e não apenas um punhado de canções – queremos lançar um album que faça as pessoas quererem ouvir aquelas músicas como um álbum, seja lá como elas escolherem o formato físico ou serviço de streaming. Independente disso, nossos shows continuarão cheios de energia rock’n’roll e visceralidade, como sempre fazemos!

McGee and the Lost Hope

– Quais os próximos passos da banda?

McGee: O lançamento do nosso próximo single e o nosso próximo EP, que sairá em breve!

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamara sua atenção nos últimos tempos.

McGee: Carbo, Old Shack Band, Blind Horse, LoFi, Deb and The Mentals, Hammerhead Blues, Stone House on Fire, Gods and Punks e todas as outras bandas que trombamos pela estrada, essa galera é demais – pode confiar!

Mannequin Trees mescla psicodelia e ares oitentistas no EP “Cavalo Sessions”

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Mannequin Trees
Mannequin Trees

Unindo a atmosfera da música dos anos 80 com ares da retomada da psicodelia atual, a banda Mannequin Trees é um projeto solo do compositor, guitarrista e vocalista sergipano Ícaro Reis que lançou neste ano seu primeiro EP “Cavalo Sessions”, com quatro faixas gravadas ao vivo na Cavalo Estúdio: “Daydream”, com destaque para a linha de baixo, “Remember”, que conta com toda a vibração do rock oitentista, “Tonight”, que fala sobre o futuro em meio à synths, e “Chances and Changes”, com momentos de violência e calmaria.

Para a produção do álbum, Ícaro chamou Gabriel Olivieri (O Grande Babaca), Teago Oliveira (Maglore), Leon Perez e Marco Trintinalha, que se revezaram nos instrumentos. O trabalho teve mixagem do próprio Ícaro. “As letras foram baseadas no meu dia a dia. São rotineiras e contam a história de duas garotas. Tudo sob o ponto de vista do cotidiano de uma pessoa comum. Não pensava em tocar ao vivo. Era apenas para ter o material gravado, mas fui mostrando a amigos e todos foram gostando e apoiando. Com essa resposta, resolvi reunir uma banda”, contou ao site Bolha Musical.

– Como a banda começou?

Comecei a compor as músicas, fui gravando e mostrando pra amigos. eles foram dando apoio, incentivando a formar a banda, e aí resolvi reunir a galera.

– De onde surgiu o nome da banda?

O nome veio a partir de uma visão minha, da padronização de coisas que nasceram pra ser diferentes, diversificadas!


– Quais são as suas principais influências musicais?

John Frusciante, Supertramp, Homeshake.

– Me fale um pouco sobre o material que já lançaram até o momento.

Lançamos 4 vídeos inéditos, ao vivo no Cavalo Estúdio. São musicas que farão parte do nosso primeiro CD, e que apresentam um pouco do que a banda é.

– Este trabalho pode ser visto como uma ópera-rock, por contar a história de duas garotas?

Não creio que seja uma ópera rock. São apenas letras que tem ligação uma com a outra.

– A internet ajudou a unir a cena independente mundial ou atrapalha por oferecer muitas opções para quem quer ouvir música?

Ajuda! Tem espaço pra todo mundo. se detalharmos nossa busca pela internet, encontraremos bandas bem especificas pro que procuramos… acho isso muito bacana. Você escuta o que você quiser.

– A mudança na forma das pessoas ouvirem música, preferindo serviços de streaming à discos físicos, ajuda ou atrapalha a música, na sua opinião?

Acho que um pouco dos dois… o processo de impressão do disco físico é bem caro. Mas é onde a banda consegue ter algum lucro, vendas de CD e vinil. Por outro lado, os serviços de streaming são muito mais fáceis de manusear, e de encontrar qualquer banda que queira. 

– Como a mídia poderia ajudar a dar mais força para a cena independente hoje em dia, com a queda das grandes gravadoras?

A mídia poderia focar menos nas bandas que já são autossuficientes, e investir na nova geração. Não digo apenas no quesito música, mas todos que fazem arte. Ligamos a TV e vemos os mesmos rostos há mais de 25 anos. Pra o som independente se manter, não é preciso apenas sair em jornal/revista/site. É necessário união de todas as bandas, das que já estão há muito na estrada, e das que acabaram de começar.

Mannequin Trees

– Quais os próximos passos da banda?

Vamos lançar clipe, lançar CD. ainda não temos datas definidas, mas já tá quase tudo pronto.

– Recomendem bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Homeshake é o meu vício há mais de 1 ano (risos). E é claro o som dos amigos: Giovani Cidreira, Maglore, Alaska

Lara Aufranc se desprende das amarras do passado em seu primeiro disco solo, “Passagem”

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Lara Aufranc
Lara Aufranc

Antes líder da banda Lara e os Ultraleves, Lara Aufranc decidiu que era hora de se desprender das amarras do passado e se lançar ao mar para navegar mares mais ousados, com a liberdade que só seu nome permite. O álbum “Passagem” é a primeira amostra dessa nova forma de velejar da cantora, que agora “encara o próprio sobrenome”, segundo o Trabalho Sujo, deixando a introversão natural um pouco de lado e encarando o público de peito aberto.

O primeiro single, “Passagem”, fala sobre o cotidiano do paulistano e o deslocamento de pessoas e vontades. A faixa é a ligação ideal entre o álbum anterior com a banda Os Ultraleves (“Em Boa Hora”) e o novo trabalho, indo organicamente do piano e voz da MPB para os sintetizadores e guitarras do rock. O clipe foi inspirado por filmes soviéticos da década de 20 como ”Aelita, a Rainha de Marte” e “Um Homem com uma Câmera” e retrata a cidade como uma engrenagem formada por pessoas. “Existe uma solidão no movimento circular e repetitivo das cidades, ao mesmo tempo em que estamos cercados de gente”, comenta ela. O clipe foi realizado pela EdMadeira Filmes, dirigido e fotografado por Freddy Leal. A cantora assina o roteiro, a edição e a produção do projeto.

Conversei com ela sobre a nova fase da carreira e o passado com os Ultraleves, o disco “Passagem”, sua introversão e como ela influencia o trabalho e o clipe para a faixa-título:

– Como você resolveu se lançar em carreira solo?

Olha, na verdade eu já estava em carreira solo. Até na matéria do Matias ele usou essa frase, eu achei boa:
“Assume o seu sobrenome, ao invés do nome que fazia seu trabalho solo parecer uma banda”. Desde 2015 já estava claro pra mim e pros meninos que era o meu projeto de vida, a minhas músicas, o meu investimento
mas pro público continuava parecendo uma banda… Por isso resolvi mudar. Isso e o fato de que estava na hora de me aventurar pelo mundo. Eu sou mais pra introvertida. acho que no começo me sentia protegida com esse nome, dava a impressão de não estar sozinha.

– Realmente, pra mim parecia uma banda, mesmo… E como você superou essa introversão para ganhar o mundo nessa nova fase?

Foram 2 anos né? desde o primeiro disco autoral. 2 anos de shows, tive que encontrar o meu lugar no palco. Fui ficando mais forte. Foi ficando mais claro quem eu sou e o que eu quero dizer como artista. Pensando bem, eu não acho que superei uma introversão. Ser introvertido é uma característica, não é um defeito. O Ney é introvertido e tem uma puta performance de palco. Eu acho que eu fui me encontrando como artista. E que esse suporte do nome Lara e os Ultraleves deixou de ser necessário.

– Sim, acredito que o Criolo também. No palco vira outra pessoa.

Exato.  Inclusive a banda continua a mesma. Já faz um tempo que são os mesmos caras.

– Agora, me conta mais sobre esse clipe que saiu agora! A estética P&B, com esse toque de azul… O que ele significa pra você?

Nossa, eu to muito feliz com esse clipe! Eu já conhecia o Freddy (diretor) de um outro programa que a gente gravou juntos, o Mulheres Fora da Caixa. Me lembro de ter visto um vídeo dele com a Sara não tem nome – que tinha só uma guitarra azul. As maiores referências estéticas do clipe são os filmes: “Aelita, a Rainha de Marte” e “Um Homem com uma Câmera” – ambos soviéticos e dos anos 20. Ou seja, os dois são PB e mudos (no youtube você assiste com música). Então de certa forma a estética PB já estava incorporada nesse clipe, depois foi a sacada da maquiagem azul.

Lara Aufranc

– Porque o azul? O que ele simboliza pra vocês?

Eu já tinha usado essa maquiagem numa sessão de fotos como José de Holanda, e gostei demais do resultado. Foi justamente quando resolvi renovar a imagem e o nome. E precisava de novas fotos. Poderia ter sido de outra cor, mas o azul caiu como uma luva. Foi uma escolha estética que eu fiz antes do clipe, antes do single, foi o começo de tudo. Gostei tanto que quis incorporar essa brisa no clipe e na capa do CD. Tô a fim de usar no show de lançamento também. Mais do que o azul, pra mim foi sair de maquiagens “mulherzinha” pra um lance criativo. O meu trabalho não deveria ser sobre beleza, e no entanto tem muita pressão em cima das cantoras.

– Como você vê essa pressão por beleza que ainda rola em cima das cantoras? O machismo continua em alta no mundo da música?

O machismo tá em alta no mundo, e na música não é diferente. Por exemplo, recentemente eu gravei um programa de TV. Você chega lá e tem uma equipe que fica 2 horas brincando de boneca com a sua aparência. Eu me sinto deformada, como se não pudesse aparecer na TV com a minha própria cara. Eu acho engraçado como as pessoas acham que os artistas são sempre pessoas mais legais, esclarecidas. Quando obviamente tem artista de todo jeito, inclusive escroto e machista. Não existe um lugar onde só tem gente legal. O mundo é lugar complexo.

– Algo que não acontece com artistas do sexo masculino.

Sim! Os caras da banda passam um pózinho na cara pra não brilhar e pronto, vai pra câmera. Eu tava cansada de ter que ser diva. Eu fazia os shows de salto e hoje faço descalça. Eu acho que maquiagem pode ser um troço maravilhoso, mas não quando vira obrigação de estar num padrão. Quero poder ser eu mesma, e me sinto muito mais eu nessa flecha azul.

– Me fala um pouco mais sobre esse seu primeiro trabalho como Lara Aufranc.

O disco tá quase pronto. É bem diferente do outro, mais esquisito, ousado. Cheio de synths, guitarras… é um disco mais rock (mas também sem se prender nesse nome – afinal o que é rock hoje em dia?). Eu mesma to experimentando umas distorções na voz, coisa que eu nunca tinha feito antes. Eu gosto muito de soul e fazia sentido lançar um disco mais próximo disso em 2015. Mas hoje estou em outra fase, e as músicas refletem isso.

– O disco já tem nome? Como ele está sendo produzido?

Sim, vai se chamar Passagem. O clipe é a faixa-título. Foi gravado na YB, pela Matarca Records (selo e gravadora). Eu to curtindo muito fazer parte de um selo, ainda mais por ser um grupo relativamente pequeno, próximo. Não tem um produtor contratado. Eu fiz os arranjos e a produção do disco ao lado dos músicos, foi bem coletivo esse processo. Maravilhoso.

Lara Aufranc

– Como você vê a cena independente hoje em dia?

Tem muita coisa. De todos os gêneros musicais. É uma profusão tão grande que o público as vezes fica perdido. Mas é legal que tanta gente tenha a oportunidade de gravar, coisa que teria sido impossível na época das gravadoras. De 2015 pra cá – quando eu oficialmente passei a trabalhar e viver de música – conheci muitas bandas, artistas, tem muita cosa legal rolando. É questão de procurar, ir num show sem saber qualé, tem boas surpresas por aí.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Negro Leo, Letrux, Tika, Giovani Cidreira, Porcas Borboletas… Esses eu vi / ouvi recentemente!

Ucraniana MaHa Rocks segue os passos de seus ídolos em suas músicas raivosas

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Maha Rocks
Maha Rocks
Mary Dovgopoliuk cresceu em uma família que trabalhava com arte, onde absorveu um amor pela música desde que se entendia por gente. Quando ouviu rock pela primeira vez, sua vida mudou: aquele estilo que tocava seu coração. A ucraniana decidiu que era aquilo que faria, começou a tocar guitarra com 14 anos e nunca mais parou. Em 2011, lançou seu primeiro disco, “In My Mind”, já com o nome MaHa Rocks. Algumas músicas do álbum chegaram a aparecer no Top 100 da NBTRadio de Berlim, aparecendo na lista novamente em 2015, e ela foi finalista da competição “Hottest New Artist” da ASCAP em 2012.
Em 2014, MaHa lançou novas versões de suas músicas “Deep Trip” e “In Mind” e suas colaborações com o compositor Kevin Nevel “I Am A Ukrainian” e “The Same Old Thing”. Em novembro de 2015 foi lançado o clipe de “I Am Ukrainian”, com imagens relacionadas ao terrorismo, guerras e agressão militar, ganhando o prêmio de Melhor Clipe Pop pela Akademia Music Awards em 2016 e conseguindo mais de 80 mil visualizações no Youtube. “Eu escolho o tema de uma música primeiro e normalmente é algo que realmente me incomoda”, conta, evidenciando que não devemos esperar por canções de amor nos seus planos.

– Como você começou sua carreira?

Eu fiz aulas de guitarra na escola quando tinha 14 anos e realmente me apaixonei pela música. Eu tocava muito e fui guitarrista solo na minha primeira banda. Mas depois que eu escrevi minha primeira música, “Corner”, descobri que isso é o que eu quero fazer na minha vida e resolvi fazê-lo profissionalmente.

– Então o Maha Rocks é um trabalho solo ou uma banda?

Um trabalho solo.

– Então porque o nome Maha Rocks?

Porque Maha é meu apelido desde minha adolescência e “rocks”… Bom, isso é o que eu amo fazer, sabe, tocar rock. Quando escrevo letras, elas sempre são bem puxadas pro rock e muito expressivas. A segunda definição do nome “MaHA Rocks” é “Saint Rocks” – é o meu conceito de vida, o que significa que é importante seguir seus sonhos e ir atrás deles não importa o quão difíceis eles pareçam ser. Escalando!

– Quem são suas principais influências musicais? Bandas, artistas, amigos, filmes, livros…

Todos que me fizeram sentir a música: Slash, Zakk Wylde, John 5, Eric Clapton, AC/DC, Black Sabbath, Robert Plant, Metallica, Joan Jett, Bonnie Rait, Nickelback, Incubus, Rob Zombie, KoRn, Five Finger Death Punch, HIM, The 69 Eyes, Stone Sour, Limp Bizkit, Dommin, Bullet for My Valentine, e muitos mais. Filmes? Talvez a série “Nashville”.

Maha Rocks
Maha Rocks

– Me conta mais sobre o material que você lançou até agora.

Lancei meu álbum de estréia, chamado ‘In My Mind’. Foi gravado na Ucrânia, na minha cidade natal. Tem 12 canções e tem riffs de guitarra fortes misturados com otimismo e esperança nas letras. Duas músicas desse álbum, ‘Deep Trip’ e ‘In Mind’, têm novas versões, que foram regravadas em estúdios profissionais de Nova York e Dubai. Além disso, quando estudei no Berklee College of Music, colaborei com compositores e lançamos as músicas “I Am Ukrainian” e “The Same Old Thing”. Tenho clipes para as músicas de ‘In Mind’, ‘The Same Old Thing’ e “I Am Ukrainian”.

– Como você definiria a cena musical independente em seu país?

Eu vejo algumas mudanças na cena musical independente ucraniana. Por exemplo, agora estou participando de um concurso que tem como objetivo encontrar os melhores artistas ucranianos independentes e dar-lhes público e a oportunidade de serem ouvidos. É a primeira vez que esse concurso é realizado. Então, acho que é uma jogada positiva.

– Quais bandas e artistas ucranianos você acha que o mundo inteiro deveria ouvir?

MaHA Rocks, claro (risos).

– Ei, aí não vale! (Risos) Por favor, outros exemplos!

Ok, talvez Onuka. O mundo inteiro a viu quando este ano no Eurovision que foi realizado na Ucrânia. Sua música é EDM.

– Como é o seu processo de composição?

Eu escolho o tema de uma música primeiro e normalmente é algo que realmente me incomoda. Então eu escrevo letra e música, gravo um rascunho e trabalho nisso. Uso guitarra acústica e piano para compor.

– Então você costuma usar suas músicas para se expressar sobre o que te incomoda?

Certo.

– Então não devemos esperar uma música de amor de você, certo?

Absolutamente certo!

– Se você pudesse trabalhar com qualquer pessoa do mundo da música, quem seria?

Rick Barker, Dave Kusek, Tom Jackson, Zakk Wylde

– Você está atualmente trabalhando em músicas novas?

Sim. Estou trabalhando em novas músicas que eu gostaria de gravar totalmente no meu controle, tocando todas as partes da guitarra, percussão e misturando/dominando tudo na produção. É uma nova experiência e quero ter mais tempo para experimentar.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção ultimamente!

Eu acho que o último é Matt Jordan. Orianthy e Jared James Nicols também.

Nosso Querido Figueiredo lança uma infinidade de singles, EPs e discos gravados no escuro do seu quarto

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Nosso Querido Figueiredo
Nosso Querido Figueiredo

O Nosso Querido Figueiredo é um projeto solo de experimentalismo e música lo-fi de Porto Alegre nascido em 2008 em um pequeno quarto, quando o músico Matheus Borges aproveitou uma grande decepção amorosa e o segundo turno das eleições municipais para começar a compor.

Desde então, foram muitos (muitos mesmo!) singles, EPs, clipes, vídeos e tudo o que sair da cabeça de Matheus. “Tem gente que acha que é por causa do General Figueiredo, mas não tem nada a ver”, explica. “Tudo bem que, com o passar dos anos, eu fui falando mais de política, mas mesmo assim. Uma vez um cara disse para eu trocar o nome para Saudades do Figueiredo”. Até o momento, o último álbum lançado por ele foi Eu Não Estou Em Sintonia”, em 2015, mas ele já está trabalhando em um novo disco, que provavelmente será lançado ainda este ano.

– Como esse projeto começou?

Em outubro de 2008, eu gravei umas cinco músicas, que na verdade eram poemas que eu tinha escrito, gravei esses poemas acompanhados de violão. Acontece que eu não sei tocar violão. Eu tinha 15 anos. No ano seguinte eu comecei a mexer com softwares, sintetizadores, sequenciadores, etc. Aí foi evoluindo. Os primeiros álbuns são bem rudimentares, acho que não são nem experimentais, são só empíricos mesmo.
A partir de 2012, acho eu, eu já tinha mais uma noção do que eu tava fazendo.

– E como surgiu o nome Nosso Querido Figueiredo?

Disso eu lembro mais ou menos, foi meio que um monte de coisa junto. A primeira ideia era uma banda com um nome muito ruim, um nome que não fosse nem comercial e nem instigante por ser provocativo. Depois eu ouvi alguém falando “ah o nosso querido fulano de tal” e aquilo me deu um estalo, que até hoje eu não sei se foi bom ou ruim. Fui testando um nome aqui, outro ali, para ser acoplado ao Nosso Querido. Não lembro mesmo como cheguei em “Figueiredo”. Tem gente que acha que é por causa do General Figueiredo, mas não tem nada a ver.

– Eu achei que tinha alguma relação com isso, mas as músicas indicavam que realmente não tinha nada a ver.

Não tem, nem de longe. Tudo bem que, com o passar dos anos, eu fui falando mais de política, mas mesmo assim. Uma vez um cara disse para eu trocar o nome para Saudades do Figueiredo.

– Você considera o Nosso Querido Figueiredo um projeto solo ou uma banda?

Eu acho que é um projeto solo, pelo menos é solo agora e tem sido nos últimos nove anos. Mas já tentei montar uma banda, acho que foi em 2012 ou 13. A gente ensaiou algumas vezes, fizemos arranjos novos para composições minhas. Mas também tem algumas faixas com mais gente em alguns álbuns do Figueiredo. “Blues do Recesso” no álbum “Cavá-lo”, “O Que Me Resta” no “Nossa Cidade 16”. São voz e violão/guitarra. Como eu não toco nenhum dos dois instrumentos, as duas faixas têm participações de amigos meus.

– Então é meio que um projeto com formação flutuante, que pode ter só você ou o número de integrantes que calhar em cada som. E você é o cabeça.

Acho que sim, mas na maior parte do tempo é uma cabeça sem corpo. (Risos)

– Quais as suas principais influências musicais pra esse projeto?

Bah, deixa eu pensar… Isso é complicado, tem muita coisa, e muita coisa diversa. Mas acho que nas últimas gravações, de 2015 pra cá, tenho pensado muito no Belchior e no Lou Reed. Não que haja alguma semelhança, mas tenho pensado muito em músicas deles. Isso para escrever. Agora quanto à produção, penso muito em Brian Eno e música alemã dos anos 70, algo de hip hop também.

– Me conta um pouco dessa infinitude de EPs, singles e discos que você lançou.

Bom, cada caso é um caso, mas eu me sentia muito atraído à ideia de álbum conceitual e durante muito tempo eu fiz isso, estendia conceitos em 11, 12 canções. Em 2012 eu gravei dez álbuns. Tens uns bons, outros nem tanto. Mas eu gostava mesmo de estender as ideias, de gravar ao vivo mesmo, cantando sobre a base, o looping, ir improvisando. Era bem mais rápido de gravar assim. Um desses álbuns de 2012, “A Noite do Homem Morto”, eu gravei em uma madrugada. Mas aí eu comecei a trabalhar mais nos instrumentais, editar as vozes, etc. Mais foco, mais trabalho.  No tempo que eu levava para gravar dez álbuns, agora eu gravo dez canções.

Nosso Querido Figueiredo

– Antes era uma coisa mais imediata, mostrando o que inspirou o som, né.

Sim, era bem mais imediato e bem mais associado a um gênero, ou industrial ou rock ou até mesmo samba. Acho que funcionava naquele momento da minha vida, porque eu era adolescente e é isso que adolescente faz, ficar tentando se encontrar o tempo inteiro e de um jeito meio impaciente. Agora eu tenho uma ideia melhor do que eu sou e de que tipo de música eu posso fazer. Então as músicas novas, as que eu tô gravando agora, têm muito mais da minha experiência pessoal do que de pastiche.

– Me fala mais dessas músicas novas.

O último álbum que eu lancei, álbum álbum mesmo, com músicas novas e tal, foi o “Eu Não Estou Em Sintonia”, em 2015. Logo depois que eu lancei o “Sintonia”, larguei mais dois EPs, um de outtakes do disco e um de variações da faixa “Os Dragões”. Entrei 2016 zerado, sem nenhuma gravação que pudesse lançar, nada novo — e essa foi a primeira vez que isso aconteceu. Logo depois, meu microfone estragou. Então em 16 fiz outras coisas, editei um álbum antigo, o “Nossa Cidade”. Gravei com meu amigo Bruno um LP de nossa banda Creepypasta, produzi o EP do Tiago Félix, que é um poeta lá de Portugal que veio falar comigo. Mas não tinha um microfone. Aí no começo do ano ganhei um microfone novo e comecei a tentar gravar coisas novas. Em consequência da mudança de microfone, acho que minha voz tá melhor nessas músicas novas, mais relaxada, mais natural. Lancei “Para vencer na vida não precisa ser rebelde”e Isso sim é revolução! em junho. Tô colocando elas na internet à medida que o álbum vai sendo gravado. É quase como um álbum novo sendo construído em público mesmo.

– E você às vezes lança também clipes para as músicas. É tudo produzido por você mesmo?

Clipe é uma coisa que eu faço de vez em quando, mas que eu gosto muito de fazer. Nos últimos anos, desde 2014 pelo menos, tenho feito sempre um clipe para cada álbum. Faço eu mesmo, sim. Antes eu gostava de mexer com imagens de arquivo, fiz assim vídeos para “Cavalo Horse” (2013), “A Arma e o Band-Aid” (2014), “Os Dragões” (2015). Em 2016 eu e a minha namorada, Carolina Vicentini, fizemos um vídeo para “Fantasma no Ouvido”, uma das músicas da Creepypasta. E não usamos imagens de arquivo, fizemos tudo em casa, cenários, luzes, ela esculpiu duas cabeças de argila, catamos uns pés de galinha sujos de sangue.
(“Dragões”, “Fantasma” e “Band-Aid” estão aqui: https://vimeo.com/matheusmedeborg)

– Como você vê a cena independente hoje em dia?

Eu ouço bastante alguns artistas independentes brasileiros, mas não sigo religiosamente a cena e a verdade é que eu saio muito pouco de casa. Nos últimos tempos eu vi alguns bons shows de bandas daqui – Mar de Marte e Musa Híbrida, particularmente – mas não me considero parte da cena, não sei. Enfim, meu último show foi em 2011. Às vezes penso em fazer outros shows, mas ainda não me resolvi. Figueiredo sempre foi eu, gravando no meu quarto, divulgando do meu quarto, aí quem quiser ouvir, ouve. Quem quiser falar comigo, fala. Isso desde 2008. Eu tenho a impressão de que eu peguei o modelo de banda de um homem só e transformei na cena de um homem só.

– Quais os seus próximos passos, musicalmente?

Primeiro, vou terminar de fazer esse disco. Do jeito que está agora, acho que tenho com uns 40% dele prontos. Depois, ainda não sei. Talvez eu insista na possibilidade de fazer shows. Show ou shows, mas não uma turnê.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Bom, eu falei ali da Mar de Marte e da Musa Híbrida, então aí já tem dois. Sei que a Chapa Mamba vai lançar um álbum novo agora e estou ansioso para ouvir. Tem um músico aqui de Porto Alegre, o Guilhermo, ele faz umas coisas bem interessantes dentro de eletrônica. Tem tudo no Soundcloud dele.
https://soundcloud.com/guilhermo-gil/bangbang

The Lonesome Duo preparam blues cheio de grandiosidade e storytelling em “Smokey Dawn”

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The Lonesome Duo
The Lonesome Duo

Rennan Martens (voz) e Luiz Masi (voz e violão) resolveram, em 2009, se unir para fazer música, sem nenhuma pretensão. Influenciados pela cena blues norteamericana e por performances de rua, a dupla acabou formando então o The Lonesome Duo, que bebe de fontes tradicionais do folk, música cigana, gospel, voodoo e todo o imaginário do submundo boêmio. Em 2014 lançaram “Debut”, seu primeiro disco, com 8 faixas em inglês que mostram bem todas as influências citadas, além de muita criatividade nos arranjos.

Acompanhados (ou não) pelos Lonesome Balladeers Carlos Masi (voz e guitarra), Augusto Passos (voz, baixo elétrico, baixo acústico e teclas), Pedro Penna (voz, guitarra, mandolim e banjo), Pedro Falcão (voz, bateria e percussão) e Nathanael Sousa (acordeom e teclas), a banda se apresenta também em formatos acústicos. Hoje, a banda prepara seu segundo trabalho, “Smokey Dawn”, que segundo eles será uma bela mudança em relação à estreia. Confira uma entrevista com a dupla:

– Como a banda começou?

Luiz: Acho que era 2008, nós nos reencontramos por acaso depois de uns dois anos sem nos vermos. O Rennan comentou que tinha umas músicas novas e que queria fazer uma banda. Eu também tinha algumas. Nos reunimos na minha casa, gravamos algumas coisas, dividimos algumas influências. No fim tínhamos um cover de Howlin’ Wolf (a música era “Spoonful”) e “St. James Infirmary Blues”, um folksong clássico americano, num gravador de 4 canais. E a partir daí nunca mais paramos de falar sobre a dupla.Nosso processo criativo, inclusive de pesquisa, envolvia muito o ambiente. Passávamos tardes de bar em bar, cantando, escrevendo por horas, conhecendo pessoas. foi uma época muito frutífera, quando criou-se o núcleo que acabou virando o Lonesome Duo. Daí fazíamos pequenos shows, nos apresentávamos de mesa em mesa nos bares, com os violões, cantando. Lá pra 2011 decidimos montar uma banda completa.

Rennan: E mesmo depois de dois anos sem contato, nesse reencontro (que acabou fundando o Duo) percebemos que compartilhávamos muitos aspectos de nosso gosto musical, de nosso senso estético e mesmo de nossas expectativas em relação à música.

Luiz: Pois é. Ficamos um tempão separados e quando nos reencontramos estávamos na mesma página.
E esse gosto musical era uma espécie de obsessão pelo blues e pelo folk.Pela qualidade mitológica/histórica.

– E de onde surgiu o nome The Lonesome Duo?

Rennan: Sim, e na mesma época nos aprofundávamos na criação musical de brass bands ciganas, no jazz manouche. Por fim, prometemos um ao outro que escreveríamos um disco; e que o dedicaríamos ao Vivian Stanshall, figura que muito nos inspirava.

Luiz: Acho que “Lonesome” era uma palavra que ao mesmo tempo em que traduzia um pouco das nossas músicas, estava em muitas das canções de Hank Williams, que na época era um dos nossos heróis.
“Alone”, “lonely” e “lonesome” tem significados parecidos.

Rennan: E parte de nossas músicas já existia em nossos projetos individuais, de modo que, ao nos unirmos, criamos uma dupla composta de dois trabalhos solos.

Luiz: Mas lonesome é um solitário triste, sem esperança, como eram mais ou menos essas músicas.
Exato. No começo era mais fácil distinguir que música era de cada um hoje em dia mesmo que eu escreva uma música sozinho, já tento incluir nela a cara do Rennan, pra que soe como uma música nossa. Ainda mais por termos vozes complementares.

Rennan: E personalidades complementares, de certa maneira. Sobre o nome, acho que é isso.

Luiz: Muitas vezes já escrevo uma melodia pensando em como ela se encaixaria na voz dele (que no caso é um tenor, enquanto que eu sou barítono).

– Eu sei que vocês já citaram algumas, mas me digam quais são suas maiores influências musicais!

Rennan: Individuais?

Luiz: No meu caso: Gringas: David Bowie, Paul McCartney, Tom Waits, Hank Williams, Howlin’ Wolf, Nick Drake, Viv Stanshall & Neil Innes (dos Bonzos). Nacionais: Chico, Cartola, Silvio Caldas, Francisco Alves, Nelson Gonçalves.

Rennan: De modo geral, a “Anthology of American Folk” é um importante fantasma rondando a música do Duo.

Luiz: Sim. Harry Smith, é nosso ponto principal de contato. Alan Lomax… Esses grandes pesquisadores da música folk. Acho que esse caráter mitológico da música folk e dos early blues permeia muito o nosso imaginário
Os lendários Stagger Lee, John Henry.

Rennan: Sim. A partir disso acrescentamos nossas visões pessoais. Posso estar ouvindo elementos que não fazem parte de nosso universo, por exemplo. Contudo, ensaiar, compor e tocar com o Lonesome Duo são elementos que acabam me trazendo de volta a esse ponto inicial. A música folk, o gospel, as histórias ancestrais.

Luiz: Sim. E tem esse flerte com a música cigana também, que influenciou todo o folk em dado momento da história.

– Como vocês definiriam o som da banda?

Rennan: Não consigo (risos).

Luiz: Por alguns anos definimos como Blues elétrico cigano. mas já mudou tanto. Hoje em dia é uma mistura de tudo: blues, jazz, country, folk, canção…

Rennan: Fico muito contente quando fazem isso. Quando me dizem o que parece, o que lembra, o que sentem ao ouvir. É algo que não consigo fazer estando aqui, na parte de dentro.

Luiz: Eu consigo identificar os elementos que eu mesmo coloco nas composições, mas muitas vezes a visão das pessoas é diferente. Por exemplo: quando eu coloco elementos de música tradicional grega, ou alguma coisa do klezmer, e a pessoa identifica como rockabilly ou dixieland jazz.

Rennan: Particularmente gosto da ideia de que quando o trabalho está concluído ele não me pertence mais. Muitas vezes falho em reconhecer elementos. Meus, dos outros. Por isso essa dificuldade em definir. Da minha parte.

Luiz: Sim, acho que vc tem uma visão mais social da coisa, e eu mais estrutural. Uma relação, no caso.

The Lonesome Duo

– Me contem um pouco mais sobre o trabalho que vocês já lançaram!

Luiz: Então, a gente estreou com um EP de 4 músicas, gravado ao vivo no estúdio NaCena (a sessão teve 8 músicas no total). Reúne nossas canções mais antigas, do jeito que elas soavam nos shows. Além da banda tivemos a participação do Reinaldo Soares (Destemido Rei) e do Rob Ashtoffen, do Chaiss na Mala, tocando trompete e sax tenor, respectivamente. A produção ficou por conta do Nuno Bianchi e a gravação pelo João Milliet (com assistência do Tico Prates).

Luiz: Foi uma consolidação do nosso repertório autoral, que já tocávamos em shows há mais de 3 anos.
Fizemos o lançamento online com as 8 músicas, diferente do disco físico. Lançamos elas em pares, reunidas pelo tema das músicas “Recklessness & Regret”, “Sweet Medicine Mama”, “Hope & Helplessness” e “The Fortune Teller”. Lembrando agora, uma das primeiras influências do duo eram os Medicine Shows, aqueles antigos espetáculos de rua que vendem produtos milagrosos.

– Me conta mais dessa influência dos Medicine Shows. Como assim?

Luiz: Tinha muito a ver com o imaginário e com a estética os malandros, mendigos, ciganos, viajantes. Os charlatães ficavam fazendo esses pequenos shows de rua, em caravana, sobrevivendo da lábia. Era a identidade perfeita. enquanto nos apresentávamos de mesa em mesa, a gente contava um grande mito sobre nossas origens
o publico se encantava com as mentiras. Acho que aí que tá a identificação com os medicine shows. Era meio o que a gente era. Dois bêbados eloquentes, cantando sobre histórias impossíveis. Busking também, sempre foi uma coisa q me fascinou.

– Aliás, vocês tem dois formatos de banda, né? Como é isso?

Rennan: Sim. Nos apresentamos como dupla e também com a banda completa.

Luiz: Pois é. Por varias questões, mas principalmente praticidade e espaço. Muitas vezes o local não possibilita uma banda de 6 pessoas (ou 8 agora no show do novo disco) e muitas vezes o cachê não vale a pena pra ser dividido em tanta gente. E é o que fazíamos originalmente, vozes, violão.

– Qual a opinião de vocês sobre a cena independente hoje em dia?

Luiz: É ótima. fora de São Paulo vejo uma seriedade e um profissionalismo enormes. Aqui na capital o acesso é mais fácil, então tem bastante coisa, nem tudo tão redondo quanto o que eu venho ouvindo. Fortaleza, Rio de Janeiro. Só coisa incrível, no sentido de bem produzido, de sério. Eu produzo o festival Folia Profana, aos domingos na Paulista onde convido 6 bandas autorais independentes pra se apresentarem. E nessas eu tive acesso a essas bandas novas q sao do caralho e muito mais organizadas q muitas bandas daqui.

– E como é a aceitação com bandas que fogem do pop e do rock, como vocês, e entram em estilos mais “nicho”, mesmo que com qualidade?

Luiz: A aceitação é complicada, mas não em relação ao estilo. Acho que a maior barreira é a língua, as pessoas querem ouvir música em português, é uma coisa que sempre ouvimos do público. Mercadologicamente falando
as casas privilegiam as bandas de cover, então autoral e em inglês já são dois degraus pra baixo.

Rennan: Sobre a cena independente, vejo “cenas” distintas. Agrupamentos diferentes de bandas que dialogam entre si. Grandes trabalhos, excelentes produções. Vejo também uma dissonância em relação ao pensamento anterior de “mantenho-me no underground até que uma grande gravadora me descubra”. Muita gente consegue viver gerindo seu próprio material. Justamente por isso acredito que haja espaço para todos. A questão é compreender onde se deseja chegar com determinado tipo de música, informar a sua tia que dificilmente ela vai ver sua banda no Raul Gil. É preciso conhecer as partes boas e ruins de cada proposta.

Rennan: A tal discussão do “gosto popular”, sempre muito complicada.

Luiz: Sim. E a grande mídia privilegia alguns nichos mais alinhados com tendências mundiais do mercado
veste de maneira vendável alguns temas, e o resto é preterido. Depender de Raul Gil, Faustão, da grande mídia, é inviável.

Rennan: Acho que existe um importante conjunto a ser perseguido: qualidade musical, originalidade e alguma verdade. Todos esses atributos, aliados à boa divulgação, aliados a um bom trabalho de assessoria, abrem muitos caminhos.

Luiz: Sim. Se a coisa é incontestavelmente boa, o caminho é mais fácil. Porque o que foi percorrido durante a construção da banda também conta.

– Mas como isso pode ser melhorado, sem esse auxílio da grande mídia?

Luiz: Acho que a internet ajuda muito. E as pequenas rádios, os pequenos programas/emissoras locais de TV, todas tão atrás de conteúdo.

– Voltando, me fala mais sobre esse trabalho que você faz na Paulista. Como rola? Como é a recepção do público?

Luiz: Eu levo equipamento completo, desde PA até bateria, microfones, amplificadores. Combino com as bandas uma semana antes, elas ajudam na divulgação. Começa geralmente meio dia e vai até as 21h, e com 40min – 1h de som pra cada banda. Só autoral, só independente, qualquer estilo. E tudo grátis.

– E rola semanalmente?

Luiz: De 15 em 15 dias, sempre aos domingos. Agora só voltamos em setembro. Fiz uma pausa pra organizar o lançamento do disco novo. O público adora. todo mundo q assiste quer participar de algum jeito. As bandas sempre agradecem muito pelo espaço. É uma espécie de networking tb, colocar 6 bandas de vários cantos do país, se conhecendo, dividindo o mesmo palco.

– E como é a recepção do público? A Paulista junta gente de todo tipo, muitos dos quais nunca ouviram música independente e até os conservadores malucões…

Luiz: Pois é, o publico é bem variado e tem muita gente aos domingos. como as bandas são bem diferentes entre si, o publico vai mudando com o passar do tempo. Mas sempre tem aqueles que procuram coisa nova, que gostam de variedade. Desde moradores de rua até engravatados, sempre tem alguém que fica até o final.

– Quais são os próximos passos da banda?

Luiz: Estamos marcando o lançamento do disco novo. É um álbum conceitual, terminamos a gravação em abril.
as músicas são amarradas por um tema em comum, mas cada uma com um ponto de vista individual.

Rennan: Chama-se “Smokey Dawn”.

– Opa! E já está gravado?

Luiz: Sim. aqui no www.thelonesomeduo.bandcamp.com você consegue ouvir a primeira e a última música do disco. É um salto meio distante do que vínhamos escrevendo.

Rennan: Sim. O “Smokey Dawn” conta com elementos que até então jamais haviam aparecido em nossas gravações anteriores.

– Quais são essas diferenças?

Luiz: Arranjos de cordas, piano e metais… É um disco mais calmo, menos elétrico, permeado por uma certa angústia e com uma certa grandiosidade, diferente da simplicidade da gravação ao vivo. É um disco pretensioso, de storytelling.

Rennan: Trata-se de um trabalho um pouco mais sombrio, onde se fez presente a atenção ao mínimo detalhe. Há também uma preocupação com certa textura narrativa, como o Luiz mencionou.

Luiz: Não que seja um novo rumo pras nossas composições, acho que é uma obra que funciona sozinha, independente da história musical do duo.

Rennan: E tenho o pressentimento de que o álbum sempre existiu em algum lugar de nossa história, sendo 2017 o ano propício à sua gravação e divulgação.

Luiz: Sim. Algumas canções são de abril de 2017, outras de abril de 2007. É um tema, um conteúdo que nos acompanha há anos. E tivemos a chance de gravar exatamente como o disco exigia. Na primeira faixa, “She’s In My Garden” tem trechos com 5 trombones, trompetes, quarteto de cordas, piano, contrabaixo, simultaneamente.
Trabalho do Pedro Penna, que junto comigo produziu e arranjou o disco.

Rennan: O que de certa maneira se opõe ao Lonesome Duo em seu princípio: gravações caseiras, em dupla, mais simples.

– Por fim, recomendem bandas e artistas independentes que chamara sua atenção nos últimos tempos!

Luiz: Exato. Acho que “Smokey Dawn” representa o que estava dentro da cabeça daqueles dois meninos enquanto cantavam em dupla, com o violão debaixo do braço.

Rennan: E que os meninos não são mais meninos. Depois dos trinta as ressacas costumam durar mais.

Luiz: Rapaz, eu recomendo Verónica Decide Morrer. Recomendo o Murilo Sá e os amigos do Chaiss. Uma banda chamada Casa de Velho, lá de Fortaleza. A Mari Romano e a Mafalda Morfina. O Daniel Zé e o Lennon Fernandes. Os meninos do Highjack. E as coisas novas do Lucas Cyrne, que logo logo tão aí.

Rennan: “Tropicaos”, disco de estreia do Molodoys, aqui de São Paulo, reúne uma porção de coisas que me chamam a atenção – gosto bastante! O trabalho instrumental dos 3 Cruzeiros também é fantástico. Os shows são incríveis.

Luiz: Sim. Lançando disco novo também. Tem um monte de gente legal. João Vedana também, de Lajes para o mundo. Jonnata Doll & os Garotos Solventes!

Piadistas Th’ Losin Streaks pisam fundo no garage rock e tentam há 10 anos lançar seu 2º disco

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Th' Losin Streaks
Th' Losin Streaks

O quarteto Th’ Losin Streaks, de Sacramento, lançou em 2004 seu primeiro disco, “Sounds Of Violence”, pela Slovenly Recordings. O álbum, cheio de garage punk sessentista da melhor qualidade, levou a banda a fazer diversos shows matadores nos Estados Unidos, fazendo com que eles fossem nomeados como “melhor banda de Sacramento” pelo site News Review.

Mas desde então, os veteranos da cena Tim Foster (guitarra e vocal), Stan Tindall (baixo), Matt Shrugg (bateria) e Mike Farrell (guitarra) ainda não conseguiram lançar seu segundo álbum. Dedões quebrados, perda de fitas, prisões por contrabando de calças jeans de designers famosos e tráfico de arraias elétricas são algumas das “desculpinhas” que os quatro me deram para tanta demora para lançar novos sons. Será que algum é verdade? Bem, não importa. O importante é que a banda voltou com tudo e está “reaprendendo os sons antigos”, segundo eles, para “assassinar alguns palcos” por aí.

Entre piadas, trocadilhos e zombaria, conversei com a banda sobre sua carreira, suas influências, “Sounds Of Violence”, baixos sendo lambidos, um certo ódio pelo Kiss e seu amor pelos Mutantes:

– Como a banda começou?

Mike: Éramos todos de bandas diferentes, exceto Tim e Stan. Tínhamos interesses musicais semelhantes, então pensamos “por que não?”. Acho que foi o Tim, no entanto, que inicialmente teve a ideia para a banda.

Matt: Foi ideia do Tim. Ele queria começar uma banda que tocasse algo na linha do Downliners Sect, mas na época soamos como se fôssemos os “Downliners Suct” (~os Downliners São Uma Droga~)  em vez disso.

Tim: Eu queria começar uma banda que era uma espécie de versão de do Thee Headcoats, de Sacramento: som bruto, equipamentos antigos e, como disse Matt, muito influenciou a influência de Downliners Sect.

– E como vocês se conheceram?

Mike: Nós conhecemos há muito tempo em uma festa que o Tim fez, acho. Éramos de bandas diferentes, como eu disse, e Tim era geralmente o frontman. Acho que ele queria tocar guitarra e veio pra mim um dia e perguntou se eu estaria interessado em começar uma banda com ele chamada Th ‘Losin’ Streaks. Um nome tirado de uma letra de uma música dos Rolling Stones (“Satisfaction”).

– Quais são suas principais influências musicais?

Mike: Varia. São muitas. Eu estava ouvindo Pandora e no aleatório veio uma música do Billy Childish e eu pensei que fosse uma das bandas de Tim.

Tim: Inicialmente, a Sect, o Sonics e o Billy Childish foram mais fortes – mas assim que Mike entrou, mudamos de marcha muito rápido. Dá pra notar que Stan sempre quis algo com uma pegada um pouco mais Archies.

– Atualmente, mais e mais bandas de rock estão investindo em uma abordagem mais eletrônica. Por que ir na direção contrária, tocando um som mais calcado no garage rock?

Mike: Nós temos uma abordagem eletrônica … Conectamos nossos amplificadores.

Matt: Essa merda eletrônica não tem alma.

Mike: E a gente não sabe dançar.

Tim: Eu não ouço nada disso. Acho que eles deveriam tentar algo novo com os velhos três acordes.

– Contem mais sobre o material que vocês lançaram até agora!

Matt: Está fora de catálogo.

Mike: O nosso único disco lançado até agora foi gravado quando tínhamos só duas semanas de banda, acho.

Matt: É rock de garagem eletrônico. Não compre o single. Tem uma faixa do álbum nele.

Mike: É, o remix dance com cerca de 36 minutos de duração.

Stan: Um LP até agora e mais um em que estamos trabalhando há mais de uma década.

– Então o registro contém as ideias da sua primeira música.

Mike: Sim. E alguns covers.

Matt: As masters do segundo álbum foram perdidas, mas recentemente encontramos um armário de vassouras na estação de trem da Amtrak. Foram as mesmas ideias do segundo…

Tim: Sim, primeiro LP eram músicas em que eu trabalhava há alguns anos mais algumas covers, como The Stoics e Guess Who. Foi gravado por Chris Woodhouse, com quem trabalhamos no álbum “Trouble Makers”. Naquela época, ele tinha todas as suas máquinas de gravação em algumas malas que ele levava por aí!

Th' Losin Streaks

– E porque o segundo disco está demorando tanto?

Mike: Porque a Amtrak não devolve nossas masters! Brincadeira. Porque eu fui para a cadeia por traficar jeans de designers famosos.

Matt: Explicando porque vai demorar mais: acho que a TMOQ vai lançar o segundo.

Stan: Eu acho que havia pelo menos um polegar quebrado e uma caixa de som quebrada envolvida na história.

Tim: A resposta curta é que as músicas no segundo disco são um pouco mais complicadas, e quando chegamos para a gravação, não estávamos ensaiando tanto. Então, começamos a ir em direções diferentes – Matt e Mike queriam algo com cara do Who de 1969 e eu queria que fôssemos o The South Bay Surfers. E sim, o polegar quebrado de Matt não ajudou!

Matt: Na verdade, eu queria ser o The Who de por volta de março de 68… Coisas de antes de usarem macacão!

Tim: Matt só gosta das roupas de aniversário.

Matt: Nunca fiquei muito feliz com o jeito de tocar do Mike…

Stan: Quem acordou o Matt?

Matt: Eu estou bem acordado, cara.

Mike: Caralho… nem eu estou feliz com o meu jeito de tocar.

Matt: Cala a boca, cara… Seu Jimmy Page. Ou Jimi Hendrix.

Mike: Assim é melhor!

– Como você descreveria um show de Losin Streaks para alguém que nunca assistiu?

Matt: (Ainda pensando)

Mike: Eeesh.

Matt: Uma banda de nerds de cabelos grisalhos tentando assassinar o palco. Não, uh… Desculpe, nerds de meia idade de cabelos grisalhos…

Mike: Tentando assassinar algo.

Matt: Para mim, no palco, tudo o que eu odeio são as peles da bateria e eu tento matá-las.

– Você estão trabalhando em músicas novas?

Matt: Estamos trabalhando em músicas velhas.

Tim: Ainda estamos tentando reaprender músicas de 10 anos atrás.

Mike: Verdade, verdade.

Matt: Verdade.

Tim: Tivemos cerca de 8 anos de folga, então…

Matt: Aprender algo novo pode levar uns 10 anos.

Mike: Sim, como eu disse, acabei de sair da prisão por contrabandear arraias.

– Então, o que podemos esperar da banda nos próximos meses?

Matt: Ensaios.

Mike: Verdade novamente.  Temos novas músicas a serem trabalhadas. Nós só precisamos passar a reaprender as antigas…

Tim: Nós estamos nos preparando para fazer shows na cidade natal – não tocamos em Sacramento faz um bom tempo.

Matt: Vamos tocar em nossa turnê de reunião de 2027.

Mike: (Risos)

Stan: Tenho alguns licks de baixo novos na minha cabeça.

Tim: Stan, são cowlicks (“lambidas de vaca”).

Mike: Agora nós só precisamos tirá-los da cabeça do Stan.

Matt: Você lambe seu baixo? Cara bruto…

Stan: É saboroso.

Matt: Uma ordem restritiva.

Mike: Ele acha que ele é Gene Simmons.

Stan: E eu não sou?

Tim: Mike, você acabou de descobrir isso?

Mike: Não. Eu pensei que ele era o Paul Stanley.

Tim: Eu pensei que ele era o Dot Wiggins, mas não.

Matt: Kiss é uma merda.

Tim: Obviamente.

Matt: Sem maquiagem, ninguém se importaria. OK, fim do discurso sobre o Kiss.

Th' Losin Streaks

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção ultimamente.

Stan: The Rantouls.

Matt: Dock Boggs.

Stan e Mike: Kiss.

Tim: Pergunta difícil – eu tenho fuçado em tanta coisa velha ultimamente…

Matt: Realmente não consigo pensar em ninguém… O mesmo que Tim, basicamente.

Tim: Concordo com o Rantouls, aliás.

Matt: Um mês atrás, eu teria dito Drug Apts. Mas isso foi há um mês atrás.

Stan: Nós deveríamos ter iniciado esta entrevista há um mês.

Matt: “Bodyguard” do The I.L.Y.S. é bom.

Tim: Há duas bandas locais com as quais tenho obsessão: Mental Defective League, que toca hardcore dos anos 80, e The Tropicali Flames, que faz jazz country, soam como Jimmy Bryant. Não tem nada gravado. Fora isso, eu ouço The Five Royales e The Falcons uma ou outra vez.

Matt: Agora acho que estamos só contando um pro outro o que estamos ouvindo.

Stan: Tento assistir o Giuda sempre que estão tocando por perto.

Tim: Não é tão novo, mas adoro algumas coisas do Nick Waterhouse. Gravações perfeitas.

Stan: Alguma chance de uma turnê em nosso futuro?

Matt: Você é vidente?

Tim: TODOS SEGREDOS SERÃO REVELADOS.

Stan: Eu preciso saber?

Matt: “Existe um cantor no nosso futuro?”

Tim: “Você nunca saberá”. O João está totalmente lamentando essa ideia de entrevistar a gente.

Stan: Podemos começar de novo?

Matt: Ei, o que eu faço com a senhora idosa sem cabeça? AH MERDA! Quero dizer, uh… Esquece.

Stan: Oi. Eu sou o Stan e toco o baixo.

Matt: Eu sou Matt e toco a bateria. Às vezes faço papel de babaca também.

Tim: E… fechamos.

Matt: Meu nome é Matt e eu estou aqui para dizer…

Th' Losin Streaks

– Querem mandar qualquer mensagem para os brasileiros?

Matt: Posso me mudar para aí?

Mike: Sim… queremos assassinar seus palcos por aí.

Matt: Esperamos vê-los no futuro.

Tim: Vocês não precisam de nós, você tem Os Mutantes!

Mike: Mas eles não estão mais juntos.

Matt: Tour conjunta! (Sem trocadilhos)

Mike: Então, sim… Os palcos aí precisam de alguém para assassiná-los?

Matt: Só agora percebi que Os Mutantes significa os mutantes… Nada mal, nada mal.

Stan: Comprem nosso disco!

Uiu Lopes lança seu primeiro EP, “Neto”, com uma boa dose de influência familiar

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Uiu Lopes
Uiu Lopes

Uiu Lopes entrou no mundo da música graças a seu pai, Wilson Lopes Jr, músico e compositor que lhe ensinou a tocar quando tinha 12 anos. Desde então, estudou canto no Auditório Ibirapuera com 19 e começou sua carreira. Depois de lançar as músicas “Que Eu Te Desenhe”, “Sei Que Há”, “O Dia Inteiro” e “Rotas do Pensamento” (disponíveis no Bandcamp), o compositor apresenta seu primeiro EP, “Neto”, gravado ano passado na ACM em São Paulo por Martin Lopes. No disco, além da guitarra, violão e vocal de Uiu, temos a participação de João Lopes tocando bateria em todas as faixas e Junior Nolasco e Jota Santana se alternando no baixo. A capa mostra os pais de Uiu na comemoração de seus 25 anos de casados.

“Esse som vem de um tempo que fui morar na Bahia, em 2013, lá em Vitória da Conquista”, conta. “Compus esses sons lá, minhas primeiras composições, que só saíram agora porque meu amigo Martin Lopes, lá de Tocantins, veio estudar áudio aqui e me usou de cobaia. Eles mudaram um pouco com esse processo de produção, que foi onde todo mundo se envolveu nas ideias”.

– Me fala um pouco mais sobre o material que cê tá lançando!

Esse som vem de um tempo que fui morar na Bahia, em 2013, lá em Vitória da Conquista. Eu compus esses sons lá, minhas primeiras composições, que só saíram agora porque meu amigo Martin Lopes, lá de Tocantins, veio estudar áudio aqui e me usou de cobaia. Tem uma relação maior comigo, num processo de descoberta mesmo, relações e tal.

– E como foi a gravação dessas composições? Elas tiveram alguma mudança desde que foram compostas até o registro?

Sim, mudaram um pouco com esse processo de produção, que foi onde todo mundo se envolveu nas ideias.
Foi uma produção coletiva: eu, Martin Lopes, João Lopes (meu irmão), Jota Santana e Junior Nolasco. Esses ultimos três são todos baianos, somos da mesma cidade.

– E como você definiria esse trabalho? Me conta mais sobre o disco.

Me vieram vários significados nessa junção toda que foi estar com meus amigos que são da mesma cidade, de gravar juntos pela primeira vez, gravando tudo mesmo, um start, eu definiria como um nascimento. Tem o lance da capa, que foi agora nos 25 anos de casados dos meus pais e minha mãe já estava em gestação… Me veio tudo isso, em conjunto com essas músicas.

– Falando nisso, como você começou sua carreira?

Comecei através de meu pai (Wilson Lopes Jr.), que também é músico/compositor e que me ensinou a tocar quando eu tinha 12 anos, aí fui estudar canto no Auditório Ibirapuera com 19 e foi onde comecei minha carreira
profissionalmente.

– Quais as suas principais influências musicais?

Meu pai, Paul McCartney e Marcos Valle. São vários, mas esses no sentido da composição me influenciaram muito.

Uiu Lopes

– Como você vê a cena independente hoje em dia?

Graças à internet, a gente pode se comunicar com diversas pessoas de diferentes lugares, o que hoje em dia tem deixado uma cena efervescente que rompe com a lógica de produção de mercado. Então a todo momento tem muita coisa sendo produzida, a mensagem hoje consegue chegar de certa forma de maneira muito mais democrática.

– E você tem usado isso para divulgar seu trabalho?

Tenho usado sim. Todas a redes sociais e tal, me dou bem com o Instagram por que gosto de foto, mas não me dou muito bem com com essa coisa de me divulgar. Às vezes é estranho, causa umas crises existenciais, faço por que é necessário…

– Quais os seus próximos passos, musicalmente?

Esse é um ano de lançamento pra mim, estou produzindo com a Thasya Barbosa, fotógrafa carioca, o clipe de “Paro Pra Pensar” e também um clipe de “Versos Que Não Fiz” com a Yasmin Mamédio, que também tem um trampo de música chamado YMA, até o fim do ano saem mais algumas faixas, e o próximo passo é um disco.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Em uma galera que eu curto muito, YMA de SP que lançou um clipe recentemente, Soledad do Ceará, Stella-Viva Curitiba, Laia Gaiatta que é lá de Salvador, galera que tive o prazer de conhecer e que eu curto muito o som!

A Band Called Love prepara disco que mostra os lados estranhos do amor em “ABC Love e o Álbum do Prazer”

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A Band Called Love

A Band Called Love é recheada de mistério, sensualidade, provocações e camadas sonoras. Até o momento, a banda não revelou a identidade de seus integrantes (ou pelo menos ainda evita falar sobre o assunto) e prefere manter o clima de mistério pairando no ar.

Este ano lançaram “Carne Viva”, clipe cheio de nudez ritualística, e “Noite Quente”, com cenas do filme “Mondo Topless” do amante dos corpos femininos voluptuosos Russ Meyer. Em setembro sai o primeiro disco da banda “ABC Love e o Álbum do Prazer”, pela Balaclava Records, mantendo a relação da banda com o cinema e suas influências de trilhas sonoras, Serge Gainsbourg, Lovage e os anos 70 e 80.

Conversei com a banda sobre sua carreira, influências, clipes sensuais e mais: 

– Como a banda começou e de onde surgiu o nome A Band Called Love?
É uma banda que nasceu pra falar de lados estranhos do amor, mas sem dar tudo “de mão beijada” pro público. É tudo tão fácil hoje que o charme se perde por aí: o ABC vem pra equilibrar isso e deixar o clima das coisas mais estranho. O nome tem seu próprio mistério também. Vai além da tradução, “Uma banda chamada amor”, pra “Um bando chamado amor”. Isso acaba estendendo o nome pro público. Gostamos disso, dessa energia criadora do amor, de trocas, de transas feitas com sedução e mistério.

– Me contem um pouco mais sobre o clipe “Carne Viva”.
É o começo de uma história. O vídeo mostra um voyeur buscando o que não teve, curioso e de alguma forma tentando resolver esse sentimento nele. É um primeiro vídeo, nosso cartão de visita apresentando o que queremos falar e como vamos falar. Conceitos do tipo “certo e errado” atrapalham e afastam as pessoas de suas essências, por isso quisemos fazer algo sem pensar muito em julgamentos.

– Tiveram algum tipo de problema com o pessoal conservador reclamando do clipe?

Que nada. Colocamos um aviso de conteúdo no começo do vídeo, assim quem passa dali dá seu consentimento pro que há de vir. A maioria dos problemas a gente consegue resolver com um bom papo aberto.
– Me contem mais sobre o álbum “ABC Love e o Álbum do Prazer”.
O álbum gira em torno da temática dos prazeres, desde os mais claros até os mais escuros e escondidos dentro de nós. É um álbum que fala de busca e libertação. Temos que entender esses desejos pra não ficarmos acorrentados a eles. Essa busca é prazerosa, libera um sentimento lisérgico e poderoso. Uma química que está dentro da gente e que tem de ser usada.
A Band Called Love

– Quais as maiores influências musicais da banda?
O estilo spoken word a la Serge Gainsbourg; a classe, groove e charme de Al Green e Marvin Gaye; timbres de Steely Dan, do tipo empoeirado, esquecido no tempo; madrugadas na Antena 1 ou Alpha FM.

– A banda não revelou até o momento o nome de seus membros. Qualé o mistério?
É um jogo de sedução, nossa história está em aberto.

– O que você têm a dizer sobre a cena independente brasileira hoje em dia?
Musicalmente é riquíssima. Bandas, casas de shows e festivais por todo lado. Muitos artistas internacionais independentes vindo com frequência. Isso deixa tudo mais acessível, a produção e a qualidade aumentam. Nesse cenário, vejo que chegou o momento de ir além: cada vez mais, teremos projetos com uma qualidade incrível e com ideias fora da caixa.

– Quais os próximos passos da banda?

Sempre queremos ir por um caminho de experiência. Tanto pelo lado de fazer algo novo, fora do padrão, quanto pra ir além da música em si. Moda, vídeo, ambiente, tudo isso é importante pra gente, faz parte da nossa arte.
E vamos fazendo isso com esse jogo de sedução. Nosso Instagram, @a.b.c._love é onde vamos soltando um gostinho do que vem, vídeos, sessions e muito love, tá tudo lá…

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.
Luiza Lian, Terno Rei, Séculos Apaixonados, Raça. São sons e shows que quem não conhece tá perdendo, uma onda boa.