Otto inaugurou a conexão Recife-Espaço Sideral com seu álbum de estreia, “Samba Pra Burro”

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No Walkman, por Luis Bortotti

Otto caminha em direção a câmera por um calçadão de Copacabana dos anos 70 desfocado e em retrocesso. Otto é o único que caminha para frente. E então, temos uma ciranda na praia, cheia de pessoas das mais diversas tribos. A mensagem diz: o Recife é a cidade que vai fazer a cultura do país andar para frente. A nova praia é aqui, o Recife. E olhe ao seu redor o quanto de cultura nós temos para oferecer.

Este foi o cenário musical do país a partir de 1994 com a proliferação do movimento manguebeat. Entretanto, a imagem citada acima é o início do videoclipe de “Bob”, do cantor e percussionista pernambucano Otto, o primeiro do seu álbum de estreia, “Samba Pra Burro”, de 1998.

Um ano se passou da precoce morte de Chico Science e os manguezais do Recife ainda estavam começando a borbulhar. E Otto é um músico que acompanhou desde o início a cena musical do Recife e tudo o que aprendeu e ajudou a criar está presente neste disco.

Fugindo um pouco da sonoridade padrão dos trabalhos por que passou, Nação Zumbi e Mundo Livre S.A., Otto mergulha até a raiz da música eletrônica e cria uma harmônica mistura de folclore e drum’n’bass, criando versões espaciais de maracatu, samba e ciranda.

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O álbum foi muito bem aceito e sua primeira faixa, “Bob” (um dueto com Bebel Gilberto), explodiu comercialmente. Otto agora também era mangue. E também colocaria “TV a Cabo/O Que Dá Lá É Lama” e “Café Preto” nas paradas nacionais e internacionais.

A obra, toda composta com o magnífico trabalho de parceria entre Otto e o produtor Apollo 9, é uma viagem eletrônica por ritmos brasileiros e fases da vida do cantor, passando pelos versos eternizados por Chico Science, em “Bob”, e chegando às origens africanas do Brasil em duas músicas cantadas em francês (Otto morou 2 anos na França), “Low” e “Change tout”, que formam uma incrível lama melódica.

Otto canta o Recife, São Paulo, Paris. Ao mesmo tempo em que toca África, Brasil, Vênus. Com letras que caminham descalças pelos lugares de sua vida, Otto mostra a situação social do país em sua época, através de cenas, fatos e narrações de uma vida simples e cotidiana brasileira que aos poucos ganha injeções das tecnologias dos anos 2000 (TVs a cabo, celulares). E o estilo musical acompanha com perfeição essa temática.

Nota máxima para a estreia de Otto. “Samba pra Burro” é uma obra-prima recente da MPB e conseguiu, com incríveis sentimentos, levar para o espaço sideral a conectividade da cultura do Recife.

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Otto – Samba Pra Burro | #temqueouvir!

01. “Bob”
03. “TV a Cabo/O Que Dá Lá É Lama”
04. “Renault/Peugeot”
07. “Café Preto”
08. “Ciranda de Maluco”
11. “O Celular de Naná”

Otto – Samba Pra Burro | #singles

Otto“Bob”

Otto“TV a Cabo”

Otto – Samba Pra Burro | #ouçaagora!

Marcelo Mara ressuscita acervo de música independente e underground no Disco Furado

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Marcelo Mara, do Disco Furado
Marcelo Mara, do Disco Furado

Desde 2011 o blog Disco Furado faz um verdadeiro serviço aos fãs de música independente e alternativa e desenterra pérolas que não são de fácil acesso desde seu lançamento. Discos raros, bandas do underground, fitas demo e vídeos de programas como Lado B e Musikaos são apenas algumas das coisas que Marcelo Mara oferece a seus leitores e seguidores do canal do Youtube do blog. “Hoje o blog tem 6 anos e mais de 500 discos disponibilizados. Ainda tenho uma boa quantidade de material para resenhar e outras coisas que procuro para por no blog e para minha coleção”, conta.

Bandas como Ack, Pin Ups, Bloco Vomit, Thee Butchers Orchestra, Bois de Gerião e Dash, entre muitas outras, aparecem no canal do Youtube do blog com discos completos que são difíceis de se encontrar na internet. “Dou preferência aos discos independentes lançados depois de 1977, o que me dá oportunidade de pesquisar vários cenários independentes, da turma do Antonio Adolfo, passando pelo pessoal da Vanguarda Paulistana, os punks, os pós punks da segunda metade dos 80, da cena independente de 1993, das fitas e fanzines, e dos anos 2000, com um cenário diverso, espalhado e, de certa forma, sustentável”. Nada contra os novos serviços de streaming, porém. “Tenho usado o Youtube com essa intenção, mas é um processo um pouco lento quando feito por uma única pessoa. Espero que em breve surja oportunidade de estrear numa plataforma de streaming”, afirma Marcelo.

Conversei com ele sobre o Disco Furado, sua coleção de CDs, K7s e vinis, o retorno das fitas K7 e os discos raros que merecem ser garimpados:

– Como começou o projeto Disco Furado?

Desde 1995 que eu me interesso por discos independentes, catálogos de selos, coisas obscuras. Com o tempo fui adquirindo CDs, LPs, K7s de bandas independentes que eu via nas revistas Dynamite, Bizz, Rock Press, Underguide e fanzines. Pensava em fazer um blog – sobre resenhas póstumas desses discos dos anos 80, 90 e 00 – desde 2009 e para começar a escrever os textos revirei todo material impresso que acumulei, escaneei tudo que interessava e ali estava o banco de dados de pesquisa para os textos. Em 2011, fiz o blog Disco Furado e o canal no Youtube. A ideia era escrever sobre os discos, ter algo de inédito no texto e disponibilizar as músicas para download. Hoje o blog tem 6 anos e mais de 500 discos disponibilizados. Ainda tenho uma boa quantidade de material para resenhar e outras coisas que procuro para por no blog e para coleção.

– Você tem ideia do tamanho da sua coleção física de CDs, discos e fitas? Tem muito material ainda pra jogar lá?

De discos independentes, que são a grande maioria, deve ter uns 3 mil títulos entre CDs e LPs. K7 deve ter uns 500 e eu estou digitalizando as K7s agora, mas estas vão só para o Youtube. A ideia é encerrar o blog quando chegar aos 1000 discos, ainda tem muita coisa para entrar, muito disco de metal, coisas extremas e MPB underground, que só não estão disponíveis em maior quantidade porque eu não tenho domínio para escrever/descrever alguns estilos musicais, daí por medo de escrever bobagens acabo deixando sempre para uma próxima. Mas a maioria dos discos que publico são coisas que eu gosto e ouço em casa, mas tem umas bizarrices, coisas horríveis às vezes, que valem a pena receber texto e estarem disponíveis gratuitamente.

– Como você faz para disponibilizar o download, já que os serviços sempre acabam tirando os arquivos do ar de tempos em tempos?

Isso é um dos maiores problemas, pois é a parte do serviço do blog. Desisti de arrumar link por link em cada postagem, ter de entrar em cada postagem e consertar o link leva muito tempo, costumo fazer isso quando aparecem pedidos nos comentário de postagens. E volta e meia tenho de encontrar servidor novo, pois os links antigos expiram. É um saco fazer isso.

Marcelo Mara, do Disco Furado

– Você já pensou em ir atrás de disponibilizar os discos em streaming? Muitas das bandas não existem mais e seria ótimo poder achar esses trabalhos neste tipo de serviço…

Sim, é mais uma plataforma para disponibilizar. Tenho usado o Youtube com essa intenção, mas é um processo um pouco lento quando feito por uma única pessoa. Espero que em breve surja oportunidade de estrear numa plataforma de streaming.

– Alguma banda já entrou em contato com você depois de seu post sobre ela?

Sim, algumas. Quando o texto não agrada as bandas, elas tendem a entrar em contato com mais frequência. Eu acho isso bem maneiro, é esse feedback que motiva a publicação. Noutros casos, algumas bandas entram em contato para que eu disponibilize o material delas, já fiz isso algumas vezes, mas ultimamente prefiro explicar que a proposta do blog é de resenhas de discos não atuais.

– Você dá preferência a bandas da cena independente da geração anterior à atual. Até que ano vão os discos que você costuma postar? Quando esta cena independente começou a se dispersar?

Dou preferências aos discos independentes lançados depois de 1977, o que me dá oportunidade de pesquisar vários cenários independentes, da turma do Antonio Adolfo, passando pelo pessoal da Vanguarda Paulistana, os punks, os pós punks da segunda metade dos 80, da cena independente de 1993, das fitas e fanzines, e dos anos 2000, com um cenário diverso, espalhado e, de certa forma, sustentável. Não consigo analisar um cenário independentes como um todo, ele passa por transformações que são seguidas pelo meio em que se propaga o cenário, a mudança de mídias, a derrocada de algumas plataformas e ascensão de outras. Separo os cenários em marcos de início e fim, às vezes seguidas por novos cenários ou por hiatos pouco classificáveis.

– O que você acha deste retorno das fitas K7? Tem banda fazendo lançamento em K7 hoje em dia, além da grande redescoberta de fitas (demo ou não) que estavam encostadas por aí…

Acho muito bom. Apesar de as fitas agora não desempenharem a mesma função de antes: quem se atreveria a fazer uma mixtape em K7 hoje em dia? Elas são uma ótima plataforma para ter um trabalho disponível em formato físico. Uma pena não se poder fazer isso com um custo mais baixo, e nem que todos consigam ouvi-las em boa qualidade, mas funciona. Para quem gosta de discos, colecionadores velhos e jovens, a fita tem bastante importância. Gostaria de ter mais discos nesse formato.

– Você também pretende postar discos que estão disponíveis somente em vinil? (Ou já fez isso e eu não me liguei?)

Sim, tem várias discos no blog que só existem em vinil. Daí eu ripo o LP para mp3, às vezes fica bom.

– Fala uma lista de 5 discos que você subiu no canal que são indispensáveis, na sua opinião, e porque.

Tá, vamos lá.
Fellini, “Amor Louco” – o quarto disco do Fellini, o melhor produzido, tem ótimas letras e uma pesquisa de ritmos e timbres que valorizam muito a produção.
Júpiter Maçã, “A Sétima efervescência” – um dos principais discos psicodélicos brasileiros, letras divertidas, arranjos fantásticos. Esse disco beira a perfeição.
Patife Band, “EP” – é o primeiro disco da Patife Band, tem 6 músicas, incluindo as clássicas “Tô Tenso” e “Pesadelo”, além de uma versão bem legal para a jovem guarda/brega “Tijolinho”.
V.A. “Não São Paulo Vol. 1” – Coletânea linda com quatro post punks paulistanos, dos experimentos jazzisticos/kraut do Akira S & As Garotas Que Erraram, passando pelo trip hop do Chance, pelo som denso do Muzak e pelo quase pop Ness. Um disco bastante diverso, que cobre muito bem um cenário marcado no tempo.
Vellocet, “Demonstration Tape n.01” – um EP-demo do Vellocet que tem “Inside My Mind (Again)”, música que roubou os corações e ouvidos de muita gente ligada nos sons do underground brasileiro por volta de 1999/2000.

– Muitas vezes o Disco Furado é o único lugar onde podemos encontrar muitos discos e EPs que não estão disponíveis em nenhum outro lugar. Como você se sente sobre isso?

Penso “que bom que ninguém disponibilizou isso antes”, o que garante um ineditismo para o meu trabalho e um pouco mais de visitantes. E olha que é grande a lista de coisas que não estão na rede.

– Porque você acha que tantas boas ótimas acabaram “sumindo”, ou pelo menos seu material dando essa desaparecida?

Difícil de saber, mas ou é porque o disco tem poucas unidades (às vezes mil discos é pouco e a distribuição falha), ou porque quando lançado o disco acabou sendo pouco ouvido, daí quando é redescoberto vira uma caça ao tesouro perdido (gosto mais desses segundos casos).

– Além dos discos, você também coloca no Youtube apresentações de bandas e entrevistas em programas como o Lado B da Mtv, pérolas que muitos achavam que estavam perdidas com o fechamento da Mtv Brasil da Abril. Você tem um acervo disso? O que você acha desse fechamento da Mtv Brasil e a virada pra esta nova Mtv que mal fala de música?

Eu gravei muita coisa em VHS entre os anos de 1998 e 2005, peguei coisas fantásticas como o Musikaos, Turma da Cultura e programas de Mtv, mas naquela época eu não dava muita atenção a qualidade das cosias que gravava e para aproveitar bem as fitas acabava gravando muita coisa que ficava com a qualidade ruim, se eu soubesse que um dia isso iria sair das minhas VHS para o youtube, teria gravado melhor. Mas eu fiz isso para ouvir música e conhecer bandas, não imaginava algo como o Youtube. Creio que o modelo de music television se esgotou, e não é nem culpa da Mtv Brasil, a Mtv gringa já tinha outro formato, com programas mais voltados para comportamento e entretenimento jovem, com menos espaço pra música. O modelo chegou ao brasil com um pouco de resistência, mas se “consolidou”, teve aceitação. Logo a velha fórmula do music television caiu, VJs envelheceram rápido, e veio Marcos Mion, Adnet, uma turma que em nada tinha a ver com a proposta da emissora nos seus primeiros 10 anos. A nova MTV não tem preocupação com música, mas a tendência é esses espaços unicamente musicais na TV perderem espaço frente a autoprogramação, a possibilidade de assistir o que quer na hora que quer. O Youtube é a televisão de quem se interessa prioritariamente por música.

– Recomende bandas e artistas independentes que você descobriu nos últimos tempos e todo mundo deveria ficar de olho.

Puxa, como não estou por dentro das coisas recém lançadas, vou citar dez nomes que sempre me interesso por saber o que estão fazendo: ruído/mm, Loomer, Valv, Plato Divorak, Stela Campos, Kingargoolas, Test, Leptospirose, Anvil FX e Curumin. Ufa! (risos)

Coletânea virtual “O Pulso Ainda Pulsa” traz tributo independente aos Titãs

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O Pulso Ainda Pulsa
Capa por Leo Buccia

Os blogs Crush em Hi-Fi e Hits Perdidos lançam hoje a coletânea virtual “O Pulso Ainda Pulsa”, um tributo com 32 artistas independentes fazendo versões, covers e reconstruções de músicas de uma das maiores bandas que o rock brasileiro já ouviu: os Titãs. Uma das bandas mais camaleônicas de sua geração, o octeto permeou sua carreira indo de canções de amor à duras pauladas políticas, do punk à MPB, do experimentalismo ao rock puro. E, afinal, 30 anos depois do lançamento do clássico disco “Cabeça Dinossauro”, um verdadeiro divisor de águas na música nacional, o rock brasileiro continua vivo. O Pulso Ainda Pulsa.

O projeto é uma homenagem à obra de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer, Tony Bellotto, Charles Gavin, Sérgio Britto, Branco Mello, Nando Reis e Paulo Miklos. Nas faixas, o grupo paulistano é reverenciado em versões que vão do bluegrass ao electro, passando pelo folk, punk, hard rock e experimentalismo. O pulso ainda pulsa abaixo dos radares da grande mídia musical.

O tributo conta com a participação 33 artistas e bandas: Abacates Valvuldos, Aletrix, All Acaso, BBGG, Camila Garófalo, Cigana, Color For Shane, Danger City, Der Baum, FingerFingerrr, Giallos, Gomalakka, Horror Deluxe, Jéf, Moblins, Mundo Alto, Nãda, Não Há Mais Volta (com participação do Badauí, vocalista do CPM22), Paula Cavalciuk, Pedroluts, Penhasco, Porno Massacre, Ruca Souza, SETI, Sky Down, Subburbia, Subcelebs, The Bombers, Thrills And The Chase, The Hangovern, O Bardo e o Banjo, Ostra Brains e Videocassetes. Cada uma fez a produção de sua faixa de forma independente e mais detalhes sobre cada gravação estão disponíveis no site www.opulsoaindapulsa.com.br

Ouça aqui o tributo “O Pulso Ainda Pulsa”:

Chegou a hora de darmos mais uma chance aos discos “Load” e “Reload” do Metallica

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Metallica
O Metallica em sua fase "chic"

O polêmico e criticado disco “Load”, do Metallica, completou 20 anos na semana passada. Na época, a mudança de visual do quarteto e a inclusão de músicas como “Mama Said”, mais puxada para o country, e “Hero Of The Day”, mais “calma”, fizeram os fãs ficarem putos com a banda. Os que já tinham virado as costas para os thrashers com o lançamento do “Black Album” deram de ombros, e até alguns dos fãs que gostaram do disco de 1991 ficaram coçando a cabeça. Um ano depois saiu “Reload”, um disco do que seriam as sobras das gravações de “Load”, algo que só ajudou a continuar a fama de “vendidos” que a banda ganhou e continuou a ser apedrejada. Músicas experimentais como “Low Man’s Lyric” fizeram os mais cri-cris perguntarem “o que está acontecendo com o Metallica”?

Metallica
Muito do ódio dos fãs veio da pose “modelete” que a banda adotou na época

Pois bem: 20 anos depois, vamos rever esta dupla tão mal avaliada. Primeiramente, vamos juntar o melhor dos dois discos em um só. Assim, vamos unir tudo o que a duplinha mal falada do Metallica têm de melhor para termos um disco bom em vez de dois medianos ou fracos. Outro ponto: ele deve ser ouvido como um disco de rock, deixando um pouco de lado o thrash metal de discos como “Ride The Lightning” e “Kill ‘Em All”. Afinal, se você ouvir o “Load” e o “Reload” esperando os clássicos riffs de quebrar pescoço e bumbo duplo comendo solto, é óbvio que vai sair decepcionado. Pois é hora de abaixar suas espectativas, apurar os ouvidos e dar uma nova chance ao “Load” recauchutado, que na minha versão, fagocitará o melhor do “Reload”. Eis as eleitas do tracklist, na ordem em que eu colocaria:

“Ain’t My Bitch”, do “Load” – Acho que se este fosse o primeiro single de “Load” na época o pessoal não ia chiar tanto. Porrada, um pé na porta que abre bem o disco, com uma bela dupla de guitarras de James e Kirk.

“2×4”, do “Load” – Uma boa segunda música, podia muito bem estar no “Black Album”. Bateria clássica do Lars, mesmo na abertura já dá pra ver que é ele tocando a batida de 2×4 que dá nome à faixa.

“Fuel”, do “Reload” – Uma das poucas músicas que o Metallica manteve nos shows até hoje e uma preferida dos fãs. E, pra falar a verdade, é mesmo uma das melhores deles nessa fase. Ei, lembre-se que da fase “St. Anger” não sobrou nenhuma pra contar história nos sets atuais, certo?

“Until It Sleeps”, do “Load” – Este que foi o primeiro single lançado na época não é uma canção ruim. Mostra um pouco do direcionamento que o Metallica estava tomando, dando aquela experimentada com rock alternativo sem perder o peso. Algo entre o Alice In Chains e o Smashing Pumpkins (se é que isso é possível). Aquela fórmula verso calmo-refrão porrada-verso calmo-refrão porrada.

“King Nothing”, do “Load” – A música em que o Metallica se auto-chupa com vontade (afinal, é quase uma “Enter Sandman 2”) não é nada ruim. Um single bacana da época que podia ter sido mais bem recebido se o povo não fosse tão “tr00”.

“Hero Of The Day”, do “Load” – Um rock mais tranquilo, puxado pro hard rock. Poderia muito bem estar num dos discos noventista do Aerosmith… e isso não é uma crítica.

“Devil’s Dance”, do “Reload” – Todo mundo critica a bateria de Lars, mas nesse… digamos, funk-metal, a batida quatro por quatro cheia de groove é toda dele. Além do ritmo cadenciado que ficou ótimo até no “S&M”.

“Wasting My Hate“, do “Load” – A paulada pós-introdução dessa música é bem bacana. Essa música tem um quê de rock de arena dos anos 70.

“Bleeding Me”, do “Load” – Mais um experimento do Metallica no “Load”, e devo dizer que um dos melhores experimentos da banda nessa fase. Uma faixa lenta que não chega a ser uma balada por ser tão sofrida e tensa. Ignore o excesso dos “uô uô” do James e veja como essa música merece ser ouvida.

“Ronnie”, do “Load” – Já que é pra ter incursão pelo country, em vez de “Mama Said” (que eu, pessoalmente, acho boa, mas foi uma das mais massacradas pelos fãs) a gente deixa “Ronnie”, com influência country mas com uma pegada mais bangue bangue, mezzo ZZ Top.

“The Memory Remains”, do “Reload” – O Metallica conseguiu fazer uma música cheia de “lararara” cantado pela Mariane Faithfull que gruda na cabeça e ainda um clipe memorável daqueles que as pessoas ficaram um tempão pensando “como eles fizeram isso”? Merece ficar.

“The Unforgiven II”, do “Reload” – Esta aqui eu deixaria só pra manter a série “Unforgiven” andando (Ah, e eu colocaria a intro igual à essa em “Unforgiven III” do “Death Magnetic”, mas aí já estou divagando e indo pra outro disco).

“Low Man’s Lyric”, do “Reload” – Eu citei que essa é uma experimentação mais “mellow” do Metallica e levou umas pauladas dos fãs, mas isso mostra que o Metallica têm bastante a oferecer fora do mundo thrash metal. É perfeita para fechar um disco, e eu faria exatamente isso.

Sub Pop 200: a compilação que deu o pontapé inicial do grunge

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No Walkman, por Luis Bortotti

Hoje, começo a assinar a coluna No Walkman aqui no Crush em Hi-Fi e nela irei comentar sobre os principais, os melhores e alguns desconhecidos discos de rock alternativo dos anos 90. Lembrando que essa década engloba final dos 80 e início dos 2000. E para inaugurar a coluna, trouxe a compilação Sub Pop 200.

O ano é 1988. O quê futuramente viria a ser conhecido como grunge dava os seus primeiros passos. Na verdade, uma fértil leva de bandas de rock alternativo já existia em Seattle, porém, sem apoio de grandes gravadoras e selos comerciais.

Com a visão da força daquele cena musical que se criava, Bruce Pavitt e Jonathan Ponemam transformaram seu fanzine, Subterranean Pop, na gravadora Sub Pop, sendo esse o selo que abraçaria todas as bandas da região e permitiria que elas lançassem os seus discos.

Um dos primeiros discos lançados pela Sub Pop foi o Sub Pop 200, uma compilação que reunia as principais bandas da gravadora. Na lista, nomes bem conhecidos da noite de Seattle, como: Beat Happening, Soundgarden, Green River, Mudhoney e TAD.

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O disco é um repertório de microfonias, fuzz e barulho ao melhor estilo grunge. Logo de cara temos a injeção do medo em forma de notas, com o peso do TAD em “Sex God Missy”. Em seguida, “Is It Day I’m Seeing”, do The Fluid, mostra o quanto diferente cada banda de Seattle soava, uma verdadeira mistura de punk rock e heavy metal com palhetadas de rock clássico e barulheiras do rock alternativo de 80.

A terceira faixa pode ser considerada a cereja do bolo, afinal, “Spank Thru” é considerada a primeira música do Nirvana. Na época em que Sub Pop 200 foi lançado, a banda de Kurt Cobain era o patinho feio da cena, porém, a situação iria mudar nos meses seguintes com as gravações de “Bleach”, o primeiro disco do Nirvana.

Os grandes nomes eram o Mudhoney e Soundgarden, que no disco marcam presença com “The Rose” e “Sub Pop Rock City”, respectivamente. A primeira, uma dose misturada de fuzz e esteira da caixa de bateria, a segunda, uma sátira ao clássico do Kiss “Detroit Rock City”, que tenta traduzir o que rolava em Seattle na época, principalmente, com a pequena Sub Pop.

O disco vai tocando e as boas faixas continuam. “Swallow My Pride”, talvez o primeiro hino grunge (original do Green River e que já foi tocada por Soundgarden e Pearl Jam), ganha uma versão menos agressiva com os longos vocais de Kim Warnick dos punks do The Fastbacks, um verdadeiro cruzamento da velha e nova geração de bandas de Seattle.

O Green River, considerada a primeira banda do movimento e que originou o Mudhoney e o Mother Love Bone, figuram com a hipnótica “Hangin’ Tree”, e o Screaming Trees, liderados por Mark Lanegan, dão rouquidão a “Love Or Confusion” de Jimi Hendrix, até então, um dos poucos ídolos da cidade de Seattle.

O disco, que no formato original foi lançado em 3 EP’s, é uma excelente terapia para quem deseja se aprofundar no estilo grunge. Bandas boas que pouca gente conhece estão ali, como por exemplo: Beat Happening, Blood Circus e Girl Trouble.

Sub Pop 200 é uma compilação obrigatória para fãs do bom rock alternativo e apresenta bandas que marcariam presença diária na MTV nos anos 90 em seus melhores momentos embrionários. Apenas, ESCUTE!

sub pop 200 produção

SUB POP 200 | Curiosidades

– A ilustração da capa foi feita pelo cartunista Charles Burns, que frequentemente realizava trabalhos para a Sub Pop, como capas e posters.

– Apenas 5000 cópias foram feitas do set com 3 EP’s que ainda incluía um pequeno livro de 20 páginas.

– A versão de “Spank Thru” foi gravada no dia 11 de Julho de 1988 no Reciprocal Recordings, em Seattle, e conta com Chad Channing na bateria e os backing vocals do produtor Jack Endino.

SUB POP 200 | OUÇA AGORA!

A epopeia musical de “O Lobo de Wall Street” de Martin Scorsese

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O Lobo de Wall Street
Leonardo DiCaprio em "O Lobo de Wall Street"

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Hoje vamos falar sobre a trilha de um filme que é um tremendo absurdo ter saído do Oscar de mãos vazias. Perseguição por parte da academia de seu diretor? Talvez. Ter um ator da magnitude de Leonardo DiCaprio no elenco e até então – Antes do O Regresso” não ser premiado? Outra possibilidade válida. Ter competido com um filme em que todos apostavam as fichas (Gravidade”)? Provavelmente um belo de um azar no quesito timing.

Já que o filme foi indicado para o Oscar nas categorias:

1- Melhor Filme
2- Melhor Diretor
3- Melhor Roteiro
4- Melhor Ator (Leonardo Di Caprio)
5- Melhor Ator Coadjuvante (Jonah Hill)

O filme não ganhou em nenhuma categoria. O prêmio de consolação de DiCaprio foi ter sido nomeado – e vencido – na disputa para melhor ator na categoria filme musical ou comédia na edição daquele ano (2014) do Globo de Ouro. Porém, entre os críticos, o filme foi bastante aceito e prestigiado. O roteiro é agressivo e bem anti-heroi, algo que Hollywood não costuma premiar. Prefere dar prêmios para os bons “moços”, vai entender, né?

Ao menos eu não engoli até hoje terem dado Oscar para o vazio – metido a intelectual mas comum – Her” e deixarem esse tremendo drama/comédia biográfica que foi “O Lobo de Wall Street” (2013). O filme é baseado no livro The Wolf Of Wall Street”, uma autobiografia escrita por Jordan Belford, lançada em 2007.

Leonardo DiCaprio is Jordan Belfort in the movie THE WOLF OF WALL STREET, from Paramount Pictures and Red Granite Pictures. TWOWS-FF-002R

Para não me alongar muito em descrever o roteiro do filme e dar maior atenção para a trilha, segue a sinopse redigida pelo pessoal do excelente AdoroCinema:

“Durante seis meses, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) trabalhou duro em uma corretora de Wall Street, seguindo os ensinamentos de seu mentor Mark Hanna (Matthew McConaughey). Quando finalmente consegue ser contratado como corretor da firma, acontece o Black Monday, que faz com que as bolsas de vários países caiam repentinamente. Sem emprego e bastante ambicioso, ele acaba trabalhando para uma empresa de fundo de quintal que lida com papéis de baixo valor, que não estão na bolsa de valores.

É lá que Belfort tem a ideia de montar uma empresa focada neste tipo de negócio, cujas vendas são de valores mais baixos mas, em compensação, o retorno para o corretor é bem mais vantajoso. Ao lado de Donnie (Jonah Hill) e outros amigos dos velhos tempos, ele cria a Stratton Oakmont, uma empresa que faz com que todos enriqueçam rapidamente e, também, levem uma vida dedicada ao prazer.”

A montagem, a escolha de elenco, a trama, a narrativa dos altos e baixos e a energia de instantâneo Blockbuster já deveria ser aplaudida. Além de claro, sua trilha. Aliás trilha sonora é a praia de seu diretor, Martin Scorsese. Não é de se surpreender que ele neste ano tenha se envolvido com Mick Jagger para o audacioso e ferroz “Vinyl”, série transmitida pelo HBO.

A trilha sonora do filme conta com 54 canções ao longo das mais de 3 horas de trama. Destas 54, 16 foram selecionadas para estrelar a versão física do disco que foi lançado em dezembro de 2013 via Virgin. Logo, antes de adentrar ao seleto grupo das 16 que contemplam o disquinho, falarei por alto das que não entraram no álbum, porém estão no filme.

Temos a clássica “Dust My Broom” e “Dust My Blues” de um dos reis da guitarra, Elmore James, “Hit Me with Your Rhythm Stick” do astro do punk Ian Dury e seus Blockheads e “Movin’ Out (Anthony’s Song)” do clássico The Stranger” (1977)  de Billy JoelMalcolm McLaren, um dos maiores ícones da música mundial – empresário dos Sex Pistols e de uma vasta legião de bandas – em 1983 lançou Duck Rock” este que continha a canção “Double Dutch”, que Scorsese escolheu para a trilha do filme.

A refinada “No Greater Love” (1958), do pianista de jazz Ahmad Jamal Trio, também figura na trilha, assim como John Lee Hooker com o clássico do blues “Boom”, uma das 500 músicas da lista da fama da revista Rolling Stone. Johnn Lee inclusive ganhou 2 Grammys como melhor álbum de blues tradicional pelos trabalhos I’m in the Mood” (1990) com Bonnie Raitt e Don’t Look Back” (1998). Teve a sorte de ter seu trabalho reconhecido em vida. Faleceu em 2001.

“Mongoloid” dos nerds mais cools do rock, o DEVO, e seus sintetizadores e epifanias preenchem uma das cenas mais malucas do filme. Me First And The Gimme Gimmes aparecem na trilha fazendo cover de Beach Boys, Mais precisamente da canção “Sloop John B”, escrita pelo lengendário Brian Wilson. O filme se passa em Nova Iorque e seria uma tremenda bola fora deixar a galera do rap fora dessa. Então vamos de clássico! Scorsese escolheu “Hip Hop Hooray” do grupo Naughty By Nature para deixar tudo nos conformes. Outro grande pianista do jazz também entra na trilha, Charles Mingus, com sua envolvente “Wednesday Night Player Meeting”.

O hit do italiano Umberto Tozzi, “Gloria” de 1979, também faz parte. Duvido que nunca escutou a canção do músico na Antena 1. Mas temos new wave também, sim, por favor! Com o grupo francês Plastic Bertrand e “Ça Plane Pour Moi” (1978), um hit de discoteca que tem versões interessantes de grupos como Sonic Youth, Nouvelle Vague The Presidents Of The United States Of America. Uma curiosidade é que poucos meses antes dos vocais da canção serem gravados, a gravadora usou a mesma trilha com os mesmos músicos para lançar “Jet Boy, Jet Girl”. Os vocais da versão em inglês são de Alan Ward, que para quem não sabe é o vocalista do Elton Motello.Uma curiosidade é que poucos meses antes dos vocais da canção serem gravados, a gravadora usou a mesma trilha com os mesmos músicos para lançar “Jet Boy, Jet Girl”. Os vocais da versão em inglês são de Alan Ward, que para quem não sabe é o vocalista do Elton Motello

Uma das curiosidades da trilha foi essa participação do ator Matthew McConaughey na faixa “The Money Chant” composta por ele em parceria com Robbie Robertson, um dos fundadores do The Band. Saiba mais aqui.

A dupla de eletrônica Dimitri Vegas & Like Mike inclusive fez uma versão insana e a apresentou no Tomorrowland de 2014.

Caso queira saber mais sobre a trilha completa, basta uma rápida pesquisa na rede social, IMDB. Então, finalmente vamos chegar ao seleto grupo das 16 faixas do disco da Virgin.

Lançado logo após o filme, no dia 17 de Dezembro de 2013, é em geral uma coletânea bastante eclética, assim como as anteriores que falamos por aqui. O que só deixa ela ainda mais interessante.

“Mercy, Mercy, Mercy” do Cannonball Adderley Quintet, liderado por Julian Edwin “Cannonball” Adderley, um jazzísta e mestre do saxophone da hard bop era (50’s, 60’s). Inclusive este é o single que mais o tornou conhecido, além, claro, de seu trabalho ao lado de Miles Davis – ele fez parte do lendário álbum Kind Of Blue” (1959) do astro do jazz. A canção conta na banda com seu irmão na corneta, Nat Adderley, e foi lançada no formato de quinteto no ano de 1966, gravada no Capitol Studios de Los Angeles. É um jazz classudo e visceral, um clássico.

Em seguida temos Elmore James com a canção que já falamos acima, a belíssima “Dust My Bloom”. A próxima é “Bang, Bang” de Joe Cuba, um americano descendente de porto riquenho que com sua ginga fez a América dançar com sua envolvente salsa!

“Movin’ Out (Anthony’s Song)”, de Billy Joel, é a seguinte na trilha, e na sequência temos a maravilhosa canção burlesca que flerta com jazz “C’est Si Bon” da americana Eartha Mae Keith. Uma voz delicada e autêntica, ela tem origens do teatro e era cantora de musicais, comediante de stand-up, ativista e dançarina. Ufa, alguém com muito a nos acrescentar e de quem vale a pena conhecer a história. A canção em francês foi lançada no ano de 1953.

“Goldfinger” é um cover, originalmente estrelada por Shirley Bassey na trilha de 007, tema do filme de mesmo nome. Porém, a versão que captou o coração de Scorsese feito uma flecha foi a performada por Sharon Jones & the Dap-Kings, um grupo de funk/soul do bairro do Brooklyn, com influência do melhor do gênero nos anos 70. Um ano após o lançamento da trilha, o grupo foi nomeado para o Grammy.

Sou suspeito demais para falar sobre a próxima faixa, pois envolve um dos meus músicos favoritos de todos os templos, o mestre Bo Diddley. A canção do bluseiro escolhida pelo diretor foi “Pretty Thing”, de 1955. Curiosidade: Foi seu primeiro single a emplacar nas paradas do UK.

O pianista de jazz Ahmad Jamal emplacou mais uma faixa na trilha, Moonlight In Vermont”, uma densa faixa trabalhada no piano e com potencial de te levar para outro plano. É calma, cadenciada, ao mesmo tempo em que é criativa.

A próxima faixa é uma tremenda covardia com as demais, um senhor hit do melhor do blues já feito em Chicago: Smokestack Lightning”, performada por uma das vozes mais marcantes daquela geração, Howlin’ Wolf. A canção está presente no álbum do músico From Moanin’ In The Moonlight” (1959).

Se a próxima música não te colocar para dançar, nenhuma outra o fará. Quem vem com seu funk/disco energético direto do túnel do tempo dos anos 60 quebrar tudo é o saxofonista Jimmy Castor Bunch com “Hey Leroy, Your Mama’s Calling You”, do ábum Leroy” (1968).

Em seguida temos a já comentada “Double Dutch” de Michael McLaren. Logo depois temos mais uma canção new wave/post punker: “Never Say Never”do Romeo Void de 1981. Vocal feminino, beats dançantes e muita fúria degenerativa direto dos criativos anos 80. Voltamos para os dias de hoje com a ultrajante, american rock & blues, caipirona e competente banda 7horse. Recomendo ouvir Meth Lab Zoso Sticker” bebendo um drink com Jack Daniels – ou depois de uma maratona de Breaking Bad. A vibe se transforma no meio do caos hibilly. O primeiro álbum do grupo, Let the 7Horse Run”, veio ao mundo no ano de 2011 e te convida a balançar os quadris.

Eu vou até vou dispensar comentários sobre “Road Runner” de Bo Diddley, pois acredito que um clássico fala por si só.

“Mrs. Robinson” é uma canção originalmente composta pelo duo Simon & Garfunkel em 1968 – e teve seu álbum altamente premiado. Porém, a versão que marcou a geração dos anos 90 foi a dos The Lemonheads, e esta foi escolhida pelo time de Scorsese para o filme. Já para quem é mais velho, deve lembrar da belíssima versão que Frank Sinatra fez em My Way” (1969). Os estranhos do folk/punk Andrew Jackson Jihad também tem uma versão digna. Já os hard rockers do Bon Jovi vira e mexe em shows costumam tocá-la.

Para fechar a trilha com dignidade, calmaria e classe temos Allen Toussaint, um mestre da soul music/R&B/funk/blues/jazz da cidade da música, New Orleans. “Cast Your Fate To The Wind” (1962) do astro do jazz Vince Guaraldi e seu Trio. Através dela mostram o poder da música em expressar sentimentos através de suas notas. 

wolf

A trilha merece ser ouvida e reouvida com certa periodicidade para que assim seja possível extrair seu melhor. Ela é difícil para pessoas que não estão acostumadas com o encanto do jazz, do blues e da soul music, porém ela é urgente. Não deixe de também usar esse texto como abertura para se aventurar pelo jazz. Em São Paulo, por exemplo, temos O JazzB (Vila Buarque) e o Bourbon Street (Moema), onde podemos desfrutar do estilo. No sábado (18), no Dia da Música, o Parque Villa Lobos receberá a segunda edição do festival BB Seguridade de Blues e Jazz, mais uma dica para quem quer aproveitar a cultura da cidade com entrada 0800. E agora o que nos resta é saber qual vai ser a próxima epopeia musical de Martin Scorcese

Trainspotting: uma overdose de boa música

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Trainspotting

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Alguns filmes apelam para filosofia por meio da degradação humana. Mostram o lado mais cru, escatológico, lisérgico, perturbado, sexual e caótico do ser humano. E os junkies sempre estão lá, caindo pelas beiradas, vivendo aquele “fix” como se fosse o último sentimento de prazer e fúria que vão encontrar. Poderia passar uma lista maravilhosa com filmes que exploram esse universo mas vou citar alguns que basicamente me vieram na ponta da língua: Requiem For A Dream (2000), Paraísos Artificiais (2012), Scarface (1983), Medo e Delírio (1998), Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998), Eu, Christiane F., 13 anos, Drogada e Prostituída (1981), Enter The Void (2009), Boogie Nights (1997), Gummo (1997) e Spun (2002).

Todos esses, além de envolverem uma história interessante que merece ser estudada e ter sua discussão estendida em mesas de bar, contam com trilhas sonoras nota 10. Mas talvez nenhuma tão marcante como a do filme de que falaremos hoje: Trainspotting (1996).

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O filme de 1996, baseado no livro de mesmo nome do irlandês Irvine Welch, lançado três anos antes, é sempre lembrado nas principais listas de melhores soundtracks da história da sétima arte. Em 2007, sua trilha sonora alcançou a sétima posição em uma lista feita pela revista Vanity Fair. Já a Entertainment Week, em sua lista de 100 trilhas, colocou o filme na décima sétima posição.

Mas antes de entrar na trilha, vamos entender um pouco do contexto histórico do filme. O roteiro cinematográfico foi escrito por John Hodge, e nele ele tenta contar a história de um grupo de viciados em heroína no fim dos anos 80 numa depressiva e melancólica Edimburgo. Assim, ele foca na vida desses indivíduos, suas passagens, transformações e sonhos. Tudo isso sob a perspectiva do vício em drogas, pobreza urbana, decadência humana e mostrando fragmentos da rica cultura da cidade.

Um roteiro tão rico colidindo com um livro tão profundo não poderia ter outro destino quando caiu nas mãos de Danny Boyle: virar ouro. Ele soube tirar o melhor dos personagens e explorar o melhor dos atores. Tem gente por aí que parece que tenta imitar o estilo de vida, visual e preferências musicais à partir desse filme. É até fácil identificar pela rua afora como esse filme foi importante e transgressor culturalmente.

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No casting principal temos:

  • Ewan McGregor como “Rent Boy” Renton
  • Ewen Bremner como Daniel “Spud” Murphy
  • Jonny Lee Miller como Simon “Sick Boy” Williamson
  • Robert Carlyle como Francis “Franco” Begbie
  • Kevin McKidd como Thomas “Tommy” MacKenzie

A trama gira em torno desta gangue de viciados com histórias de vida completamente fora do comum. Algo como se fosse uma recriação dos clubes dadaístas do começo do século XX. Aquele mesmo espírito de poesia, orgias, cabarés, artistas plásticos, bebedeiras e escritores.

Tudo isso com uma visão que mostra a outra ponta do século, seu final. Com um ambiente e mundo que enfrentam outros problemas, pesadelos, anseios e medos. O filme explora temas como a abstinência, a experimentação de drogas sintéticas, entre outros. Se nos séculos XVIII ao começo do XX a busca pelo conhecimento e encontrar os céus era regada a absinto, essa outra geração é testada pelo uso de sintéticos feito ratos de laboratório e uma indústria ainda mais poderosa por trás.

E a alienação é explorada de cabo a rabo, podemos ver pensamentos das vanguardas modernistas e pensadores do século XX nessa narrativa, como por exemplo Nietzsche e seu existencialismo e na falha pela procura por Deus. O tema da rehab, overdose, ansiedade e dificuldade em largar o vício e a crescente propagação da AIDS através de sexo desprotegido e agulhas compartilhadas não fica fora da agenda do filme.

Um filme que com certeza devia passar nas escolas como exemplo para discussões mais profundas sobre os efeitos das drogas e falta de cuidado nas relações sexuais e suas graves consequências. Temos que parar de por uma venda nos olhos e achar que não mostrando o podre, dificultamos o acesso. Menos hipocrisia e mais educação. Fica aqui registrado o desabafo.

Após anos de discussão se o filme deveria ou não ter continuação, Danny Boyle e os atores originais da saga resolveram atender os pedidos. Então, coloca na agenda que o dia chegou: 27/01/2017 entra em cartaz no Reino Unido Trainspotting 2. Já os norte-americanos terão que aguardar até dia 03/02 para assistir o cômico drama.

Os principais atores inclusive retornarão e já estão escalados. Quem participa e também e é homenageado com um personagem na continuação é o escritor do livro, Irvine Welsh, que no filme interpretará Mikey Forrester.

Mas estamos aqui para comentar da trilha sonora, altamente elogiada mundo afora, então vamos lá!

A trilha sonora foi lançada em um disco no dia 9 de julho de 1996, junto do filme. Porém, com a paixão do público por ela e algumas faixas executadas no filme não estando presentes, foi decidido lançar o volume II. Este que veio ao mundo no dia 21/10/1997, com o bônus de conter canções que não necessariamente estrelaram no longa mas que foram utilizadas nos primeiros atos com intuito de inspirar os diretores. A EMI, querendo explorar ainda mais a coletânea, em 2003 lançou uma segunda re-edição do primeiro disco.

Sendo assim, nesse texto tentarei falar um pouco das faixas presentes nos discos, já que ambos têm uma tracklist e uma riqueza de artista que deixa muito filme ganhador de Globo de Ouro jogado na sarjeta.

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A primeira canção é “Lust For Life”, do Iggy Pop em sua carreira solo. Bom, para quem não sabe, essa canção veio ao mundo no ano 1977 e foi co-escrita por ninguém mais ninguém menos que David Bowie. É considerada uma das melhores músicas de todos os tempos pela Rolling Stone. Então, quem sou eu para me atrever a falar mal dela? É inclusive impossível não associar a canção ao filme e nossos desordeiros de primeira. Ela tem um swing, uma batida e deixa qualquer um tentando imitar o mestre Iggy Pop. As cadeiras não ficam paradas, né, Vinny? Você fica alucinado com a percussão, guitarra e vocais quase sussurados de Iggy. Ela te induz à loucura e é um convite para o caos.

Em seguida temos outro querido de David Bowie, Brian Eno. Aliás, um dos que fez uma das mais bonitas homenagens através de uma singela carta divulgada pela imprensa no leito de morte de Bowie. Ele e David trocavam e-mails periodicamente cheios de piadas e confissões. “Deep Blue Day” foi lançada originalmente em 1983 para o álbum Apollo: Atmospheres and Soundtracks. Brian é um homem a frente de seu tempo e em 1983 estava se aventurando pela música experimental ambiente. Ela parece narrar um dia na Terra vista direto do espaço sideral. Quem sabe influenciado por David Bowie em “Space Oditty” (1969)?

Em seguida temos “Trainspotting” do Primal Scream. Composta especialmente para a trilha, ela viaja pelos mesmos devaneios do icônico álbum Screamadelica” (1991) e seu acid house psicodelico. Ela viaja pelo campo tribal e ao longo dos seus 10 minutos e meio conduz a levada psicodélica alucinógena. É perfeita para o filme pois de certa forma tenta traduzir os efeitos das drogas no organismo. A guitarra somada aos beats eletrônicos combinados aos tambores da percussão e seus teclados criam uma atmosfera entorpecente.

“Atomic” é uma canção escrita por Debbie Harry e Jimmy Destri para o álbum “Eat To The Beat” do Blondie, lançado em 1979. Como a banda não autorizou Danny Boyle e sua trupe a utilizar a canção, o diretor mexeu seus pauzinhos e convocou o grupo Sleeper – uma banda de brit pop do começo dos anos 90 que durou pouco tempo – para regravá-la. É inclusive interessante ouvir as duas canções. Uma com uma levada total new wave (Blondie) com os ânimos à flor da pele, outra mais introspectiva e britânica (Sleeper). A versão do Sleeper parece influenciada por grupos como Jesus And Mary Chain, com um baixo marcante, sem deixar de prestar uma digna homenagem a disco music, visto que o recurso dos sintetizadores não é deixado de lado.

Para não sair do contexto anos 80 do filme, logo em seguida temos New Order com “Temptation”, single do grupo lançado em 1982 pelo selo emblemático Factory Records. Dançante e obscura, a faixa te conduz para uma tempestade de emoções. É interessante ver como a banda ainda estava numa levada Joy Division nessa faixa, bem diferente dos hits pop do grupo. Dã! É quase a mesma banda, mas ouvindo ela você vai entender a transição que estou dizendo. É uma balada apocalíptica, triste e densa.

Em seguida temos “Nightclubbing” do Iggy Pop (mais uma vez). Faixa presente no primeiro disco solo do artista, The Idiot” (1977), produzido por David Bowie. Ele inclusive escreveu essa música em parceria com Iggy. A faixa já ganhou versões de grupos como The Human League, Grace Jones, Trent Reznor (NIN), Peter Murphy (Bauhaus). O hit “Closer” do Nine Inch Nails contém samples do baixo e bateria da canção. Essa levada discoteca pode colocar na conta do Bowie mais uma vez. Conseguir transformar aquele Stooge sujo em um showman dos dance clubs é em parte mérito do músico. As performances de Iggy quando ele performa essa canção são impagáveis e impossíveis de ser repetidas. Ele dança literalmente no swing da batida como fosse um animal selvagem pronto para o acasalamento.

“Sing”, presente no disco Leisure” (1991) do Blur, é a próxima canção do disco. O curioso é que a canção sequer foi lançada como single no trabalho dos ingleses. Ela é praticamente um B-Side ou música para rechear o disco para quem olha o disco por cima e não o vê como single de trabalho. Para mim esse fato me motiva mesmo a conferir a canção. Ela é uma balada de 6 minutos, pesada, densa e cheia de recursos como teclado, guitarra viajante e intervenções. Ela é psicodélica, ao mesmo tempo em que flutua num mar de calmaria. Não conheço a obra completa do conjunto, mas posso me arriscar a dizer que é uma das mais diferentes e bem construídas em termos de atmosfera da trupe de Damon Albarn.

Em seguida a gente tem aquela faca enfincando no peito que é “Perfect Day” do Lou Reed. Lançada como lado B do single “Walk On The Wild Side” em 1972, a canção que entrou em Transformer” (1972) é com certeza uma das grandes contribuições e legado que Lou deixou para o mundo. Tanto que, em 1995, até o Duran Duran resolveu até regravá-la o que os levou para o vigésimo lugar das paradas do UK naquele ano. A poesia de Lou é de certa forma transgressora e diferente do que as pessoas estão acostumadas: ela coloca o dedo na ferida, debocha, humilha, maltrata e extrai uma verdade sob seu olhar perante a sociedade. A “Perfect Day” pode ser interpretada de várias formas, como uma balada romântica ou como uma grande ironia de um romance mal acabado. E essa é a genialidade de Lou, saber trabalhar com a dualidade do mundo e deixando isso aberto para seu ouvinte explorar da maneira que melhor lhe couber.

“Mile End” é a nona canção da trilha. A canção do Pulp é leve, te convida para um passeio a céu aberto. As vezes fico triste em ver como o Pulp é pouco lembrado, citado ou valorizado no Brasil. Essa canção tem um quê de The Cure indo de encontro com Bowie somado ao espírito boêmio inglês.

Logo em seguida temos “For What You Dream Of”, uma parceria do Bedrock com a participação de KYO. Sim, chegamos ao campo da música eletrônica tão efervescente no UK. A canção é um trance/house e mostra ritmo extenuante de nossos personagens. Principalmente para traduzir a relação deles com os sintéticos, é como um mergulho no mundo das anfetaminas.

“2:1” da Elastica retrata o lado do rock alternativo do UK no começo dos anos 90, aquela confusão entre punk rock, post-punk e rock alternativo. A canção é agradável e passa uma sensação de perdido no tempo e no espaço. Aliás, vale a pena conferir os discos da banda, é bastante bem feito e serve de registro para toda uma época “esquecida”.

Quem também aparece na trilha é a banda Leftfield com a canção “A Final Hit”, um trip-hop que faz um elo com o house progressivo. A sensação que a canção te passa é a de navegar pelas ondas eletromagnéticas do autoconhecimento. Ela te perturba e viaja também utilizando recursos oriundos do Drum & Bass.

A canção te prepara para o petardo que está por vir, a clássica “Born Slippy. NUXX” do Underworld. Uma canção que eu acho um tremendo escândalo em formato de música, ela consegue misturar o melhor do mundo da eletrônica. E o mais engraçado é que a música foi criada feito uma piada interna. Inclusive por conta disso se assustaram quando a canção começou a ter atenção da mídia. Em entrevista para o The Guardian eles inclusive disseram que era para soar como um diálogo de um alcóolatra. Já o sufixo .NUXX em seu fim é inspirado em um erro de computador. Afinal de contas em 1996 tínhamos que conviver – diariamente – com os bugs do Windowns 95, não é mesmo?

Damon Albarn, bem antes de se arriscar a lançar álbuns de estúdio solo, já lançava algumas canções soltas. Uma delas entrou na trilha de Trainspotting: “Closet Romantic”. Uma aterrorizante canção estilo anos 20, que poderia ter entrado na trilha de algum filme p&b. Tem barulhos de carrossel, é orquestrada e é conduzida por um violino. Ah, tudo isso com intervenções de seu vocal característico. Uma viagem sem fim.

Para não cansar vocês, vou apenas citar por cima alguns destaques do segundo álbum lançado em 1997. “Choose Life” do PF Project, por exemplo, conta com trechos das falas de Ewan McGregor em um remix disruptivo:

Iggy Pop (“The Passenger”), Underworld (“Dark & Long”, “Born Slippy.NUXX (Darren Price Remix)”), Primal Scream (“Come Together”) e Sleeper (“Statuosque”) voltam a emplacar outras músicas nesse segundo disco. A ópera “Carmen Suite N0. 2” de Georges Bizet também dá o tom na trilha.

Era mais do que obrigatório ter ao menos uma canção de David Bowie na trilha sonora depois de tudo que escrevi sobre ele e sua influência em tantas faixas. E a escolhida foi “Golden Years”, uma dançante canção lançada em 1975 para o disco Station To Station”. É um funk de primeira, com o ritmo conduzido por um potente baixo. E para combinar com o filme, essa música foi lançada durante o pico de seu vício em cocaína.

Representando a “breguice” da música dos anos 90, uma música que podia ser tocada após Scatman, temos Ice MC com “Think About The Way”, com sotaque jamaicano, beats de música eletrônica de rave e vocal que bebe do soul. Sim, tudo muito brega mas duvido ficar parado.

Outra pérola da trilha é “Our Lips Are Sealed” de 1983, que ilustra bem a transição da New Wave para a disco. Ela é viajante e te conduz para a pista de dança junto ao curioso grupo, Fun Boy Three. O visual dos integrantes não poderia ser menos característico.

Temos também uma canção que veio a se tornar um clássico do Joy Division, “Atmosphere”. Os versos que falam sobre o perigo te transmitem a sensação de conforto e destruição entre uma dose a mais de droga e outra. A vida por um fio, assim como foi a vida de Ian Curtis e suas crises de epilepsia. A música age como uma overdose de morfina em suas veias.

Para fechar a segunda trilha, temos “Inner City Life” do Goldie. Um dos mestres dos DJs icônicos da era rave inglesa, ele prezava pela mistura entre estilos como jungle e drum & bass. A curiosidade é que ele é tão simbolo na cultura do UK que chegou a fazer uma pontinha nos filmes James Bond – O Mundo Não é o Bastante” (1999) e em Snatch” (2000).

Agora é aguardar para ver se tanto a trilha como o segundo filme irão estar à altura do clássico. Esperamos que sim! Que venha (logo) Trainspotting 2.

Conheça 10 das capas mais horrendas já criadas para discos da música brasileira

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A banda se esforça, cria canções com refrões ganchudos, riffs memoráveis, acordes complexos e músicas que grudam na cabeça. Porém, muitas delas acabam deixando de lado um fator importante: a capa do disco. Nisso surgem verdadeiras obras horrendas e bizarras, às vezes com a melhor das intenções, outras feitas às pressas… Além, é claro, daquelas que as bandas defendem com unhas e dentes, apesar de serem mais horripilantes que ser acordado às 6 da manhã de um domingo por ET e Rodolfo com buzinas em seu ouvido.

Por isso, o Crush em Hi-Fi (com auxílio de diversas sugestões colhidas nas redes sociais) te leva agora à uma lista com 10 das capas mais feias que a música brasileira já teve coragem de colocar em discos. Prepare seus olhos e deixe o senso estético na porta!

Um adendo: este post não quer em nenhum momento denegrir as músicas contidas nos álbuns em questão! O foco aqui são apenas as capas, okay?

“Pt qQ cOizAh”, Raimundos (2005)

Com a saída do vocalista Rodolfo, o Raimundos se reergueu e lançou “Kavookavala” (2002), com uma divertida capa com inspiração no clássico Rat Fink e músicas que, apesar que não serem as melhores da banda, se sustentam muito bem. Mas daí veio a saída do baixista Canisso e com o ex-Rumbora Alf no baixo e backings, a banda lançou o EP “Pt qQ cOizAh“, com músicas que lembram o hardcore “raimundístico”, mas que veio com uma das capas mais horríveis e preguiçosas de todos os tempos. Parece que uma criança de 5 anos ficou uns 10 minutos na frente do Paint e criou essa obra.

Raimundos Pt qQ cOizAh

“As Novas Aventuras do DJ L”, Latino (2005)

Sabe aquelas caricaturas que os artistas oferecem em feirinhas hippie? No disco que sucedeu o sucesso de “Festa No Apê”, parece que Latino achou uma boa ideia colocar isso como capa. Dá até vergonha de ver. Talvez ele já tivesse se ligado na queda da cultura do álbum e o crescimento dos singles e mp3… acho que é o único jeito de defender essa atrocidade.

As Novas Aventuras do DJ L Latino

“Agora Sai”, Lagoa (1996)

O Lagoa 66 era uma banda elogiada do underground paulistano. Depois de muitas tentativas de lançar um disco, o grupo abandonou seu som característico e apostou em algo mais “Mamonas Assassinas”, que estava em alta na época. A capa segue a mesma tosquice do disco dos Mamonas: uma montagem horrenda com a cara dos integrantes em um fundo “animado”. E ainda inspiraram o patinho da FIESP.

Lagoa Agora Sai

“Os Invisíveis”, Ultraje a Rigor (2002)

É deste disco um dos últimos hits autorais do Ultraje, “Me Dá Um Olá”, que tocou bastante nas rádios. Como o disco tem bastante influência da surf music, a capa mais preguiçosa que você depois de uma pratada de feijoada é apenas uma onda com um efeito “swirl”. E pronto. Hoje em dia com o Snapchat tá pra criar uma capa melhor que essa. Aliás, na época dava pra criar capa melhor em uns 40 minutos.

Ultraje a Rigor Os Invisíveis

“Fabio Jr”, Fábio Junior (1995)

Fábio Junior é gato, Fábio Junior é ídolo, Fábio Junior é o terror das mulheres, Fábio Junior deixa sua mãe morrendo de amores todas as vezes que aparece na TV cantando “Alma Gêmea” ou “Pai”. Mas essa capa pelado agachadinho no canto não dá, né? Parece que ele tá soltando um suntuoso barro e alguém o pegou no flagra e, em vez de ficar bravo, ele resolveu flertar com o paparazzo.

Fabio Junior

“Mamonas Ao Vivo”, Mamonas Assassinas (2006)

Não que a capa do primeiro e único disco oficial dos Mamonas Assassinas seja boa (não é), mas esta aqui faz o mesmo esquema da primeira (o rosto dos integrantes com intervenções em ilustração), só que faz bem pior. Um desenho infantil do quinteto no céu, representando-os após sua trágica morte. Além do desenho horrendo, é de certo mau gosto.

Mamonas ao Vivo

“Música Calma Para Pessoas Nervosas”, Ira! (1993)

Em 1993, o Ira! fez uma capa com fotos desfocadas de seus integrantes (mal dá pra saber quem é quem) com pintura a dedo no fundo e um pouco de WordArt daqueles que faziam os trabalhos da escola parecerem “profissionais” lá na 3ª série.

Música Calma Para Pessoas Nervosas Ira!

“Com a Cabeça no Lugar”, Velhas Virgens (2003)

Vocês sabem o teor das letras das Velhas Virgens. Sim, a capa combina com o que eles cantam em praticamente todas suas músicas. Mas convenhamos que é uma capa feia pra caceta. Olha essa fonte do nome da banda. Olha a fonte ali embaixo. O negócio foi aplicado no Paint lá no Windows 95. Só pode. Sim, o Paulão deve ter adorado fazer a foto.

Velhas Virgens Com a Cabela No Lugar

“Sarniô”, Naldo Benny (2015)

Não preciso nem comentar essa capa do Naldo feita pelo Romero Britto, né? Acho que não.

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“With Lasers”, Bonde do Rolê (2006)

Tá, o Bonde do Rolê é uma banda “engraçadinha” e a capa não poderia ser séria, mas isso aqui é muito feio. Aquele recorte mal feito em cima da cabeça do Cristo. Essa fonte “radical”. A caveirinha feita com guache por uma criança no jardim da infância…

Bonde do Rolê With Lasers

E pra você, qual é a capa de disco mais feia já lançada na música brasileira? Deixe sua sugestão aqui nos comentários! Denuncie todas as ~artes~ que fizeram seu estômago revirar na loja de discos!

E se os Beatles não tivessem acabado? Conheça os discos que o Fab Four podia ter lançado nos anos 70

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The Beatles 70s

O blog Albums That Never Were, cujo blogueiro usa o pseudônimo soniclovenoise, tenta criar versões reais para discos que nunca saíram do papel ou mesmo da imaginação dos fãs. Discos como “Sheep” (a versão “tru” de “Nevermind”, do Nirvana, imaginada e rascunhada por Kurt Cobain) ou “Smile”, dos Beach Boys (a obra maluca de Brian Wilson que deveria ter saído logo após a explosão de “Sgt Pepper Lonely Hearts Club Band” dos Beatles) são criados por ele, que compila as músicas e explica como o álbum “imaginário” foi criado. Uma de suas experiências mais interessantes foi a criação de cinco discos que mostram uma realidade alternativa onde os Beatles continuaram juntos como banda nos anos 70.

O criador uniu as músicas solo que mais condizem com o “espírito Beatle” em suas versões que mais soam como um disco completo e ajustou volume, pitch e etc. para deixar tudo o mais correto, coeso e próximo possível de um disco real. Nesse clima de “What If”, confira os cinco álbuns que os rapazes de Liverpool poderiam ter criado se o sonho não tivesse acabado:

(post traduzido do blog Albums That Never Were)

The Beatles – Instant Karma! (1970)

The Beatles Instant Karma

 

Lado A
1. Instant Karma! (We All Shine On) (Lennon)
2. All Things Must Pass (Harrison)
3. Every Night (McCartney)
4. I Found Out (Lennon)
5. Beware of Darkness (Harrison)
6. Working Class Hero (Lennon)
7. Momma Miss America (McCartney)

Lado B
8. It Don’t Come Easy (Starr)
9. Isolation (Lennon)
10. Junk (McCartney)
11. My Sweet Lord (Harrison)
12. Maybe I’m Amazed (McCartney)
13. Love (Lennon)
14. Hear Me Lord (Harrison)

Nesta realidade alternativa, em 1970 os quatro lançariam um álbum chamado “Instant Karma!”, um disco introspectivo e sombrio, cheio de canções enxutas de John e Paul e as músicas grandiosas e produzidas de George e Ringo. Sonoramente, ele ficaria em algum lugar entre o “White Album” em seus contrastes e “Abbey Road” em a sua majestade épica. Todas as músicas são de diferentes perspectivas, ainda que sugiram a mesma coisa: um desejo para a compreensão das essências da natureza humana básica e a busca pela própria alma. As músicas parecem criar uma narrativa especial: os membros da banda engajando-se em seu próprio diálogo com eles mesmos, tentando recuperar o vínculo entre eles que tinha se perdido ao longo dos 4 anos anteriores.

Então, imaginem que, nesta linha de tempo alternativa, em algum momento de 1970, os Beatles demitiram Allen Klein e de alguma forma entraram em um acordo de como gerenciar a Apple Records, permitindo que os membros da banda separassem a música do negócio, evitando a destruição da banda. Com o sucesso de “Here Comes The Sun” e “Something” e seu incrível catálogo de músicas não utilizadas e novas, George finalmente conseguiria uma parcela igual de suas próprias canções sendo apresentadas juntamente com as de Lennon/McCartney (com a garantia de que Linda e Yoko fossem permitidas no círculo íntimo dos Beatles, se necessário). Satisfeito com o trabalho de Phil Spector em “Let It Be”, os Beatles optariam por tê-lo produzindo a maior parte de suas gravações em toda a década de 1970 (apesar da relutância de McCartney). John concordaria, mas gostaria de usar o som despojado de banda ao vivo, como nas sessões de “Get Back” no ano anterior, pelo menos em suas próprias composições escritas em suas sessões de terapia de grito primal. Ringo, como sempre, estaria apenas feliz por estar lá.

“Instant Karma!” faria sucesso comercial e de crítica, restabelecendo os Beatles como uma força musical dominante na década de 70. Três singles seriam lançados a partir deste álbum em 1970 e início de 1971: “Instant Karma”, com o B-side “That Would Be Something”, “Maybe I’m Amazed” com o B-side “Apple Scruffs” e “My Sweet Lord”, com o B-side “Well Well Well”. O sucesso de “Instant Karma!” daria uma nova confiança para a banda que estava tão perto de terminar, especialmente com um novo produtor, um papel mais forte para o seu guitarrista como compositor e a incerteza da relevância da banda em uma nova década. Reagrupando no verão de 1971 com um novo conjunto de canções e um novo sentido de unidade, os Beatles tentariam gravar seu segundo álbum da década de 1970. Você pode imaginar?

(Baixe “Instant Karma” em Mp3 320kps aqui)

The Beatles – Imagine Clouds Dripping (1971)

The Beatles Imagine Clouds Dripping

 

Lado A:
1. Power To The People (Lennon)
2. What is Life (Harrison)
3. Dear Boy (McCartney)
4. Bangla Desh (Harrison)
5. Jealous Guy (Lennon)
6. The Back Seat of My Car (McCartney)

Lado B:
7. Imagine (Lennon)
8. Another Day (McCartney)
9. Art of Dying (Harrison)
10. Oh My Love (Lennon)
11. Uncle Albert/Admiral Halsey (McCartney)
12. Isn’t It A Pity? (Harrison)

O segundo disco é “Imagine Clouds Dripping”, uma citação surreal de Yoko Ono que  John achou foi particularmente inspiradora e define o tom para um álbum bastante colorido. As músicas foram escolhidos não só pela qualidade, mas para o que poderia continuar a levar “a tocha Beatles ‘. Musicalmente, o disco abandonaria a sonoridade mais crua do anterior e re-imaginaria os luxuosos arranjos que George pedia a Phil Spector para suas canções.

Então sente-se, relaxe e imagine o seguinte: depois do sucesso de seu primeiro álbum dos anos 1970, “Instant Karma!”, os Beatles se reuniriam e concentrariam-se em um novo álbum com alguns dos suas mais fortes canções desde “Abbey Road”, muitas vezes com arranjos grandiosos do produtor Phil Spector. Em meio à gravação do álbum, George fica sabendo da tragédia em Bangla Desh e rapidamente escreve uma canção em homenagem, que os Beatles gravariam e lançariam como single. George organizaria o Concerto para Bangladesh, onde os Beatles fariam sua primeira apresentação ao vivo em dois anos, A experiência positiva do show daria aos Beatles, particularmente George e John, a coragem de começar uma turnê européia no final de 1971. Na turnê, haveria também a participação dos velhos amigos Billy Preston nos teclados e Klaus Voormann tocando baixo quando Paul estivesse tocando guitarra ou piano.

A crítica citaria “Imagine Clouds Dripping” como um dos pontos mais altos da carreira dos Beatles, comparando-o a um segundo “Sgt. Peppers”. Há uma série de singles de sucesso durante 1971, incluindo “Imagine” com o B-side “Monkberry Moon Delight”, “Another Day” com o B-side “Crippled Inside” e “Jealous Guy” com o B-side “I Dig Love”. E, como já mencionado, “Bangla Desh” seria lançada como um single para promover o seu concerto, com o B-side sendo a única contribuição de Ringo para as sessões do disco, “Choochy Coochy”. Enquanto “Bangla Desh” entraria no álbum, “Coochy Coochy” não. O sucesso dos Beatles na turnê européia de 1971 os estimularia a planejar uma turnê americana em 1972, e uma necessidade de novo material – no mundo material …

(Baixe “Imagine Clouds Dripping” em Mp3 320kps aqui)

The Beatles – Living In The Material World (1972)

The Beatles Living In The Material World

 

Lado A:
1. Back Off Boogaloo (Starr)
2. Hi, Hi, Hi (McCartney)
3. John Sinclair (Lennon)
4. Get On The Right Thing (McCartney)
5. Who Can See It (Harrison)
6. Woman Is The Nigger Of The World (Lennon)

Lado B:
7. Live and Let Die (McCartney)
8. New York City (Lennon)
9. Living In The Material World (Harrison)
10. Single Pigeon (McCartney)
11. Happy Xmas (War Is Over) (Lennon)
12. My Love (McCartney)

“Living In The Material World” seria o azarão desta pós-vida dos Beatles. Algo como um primo do “Magical Mistery Tour”. Um disco menor, mas agradável. Bote a imaginação pra funcionar novamente: depois do sucesso dos Beatles em sua turnê européia no final de 1971, eles planejam uma nos Estados Unidos no início de 1972. As primeiras datas da tour são um sucesso tão imediato e tão agradável para os Beatles que os quatro membros e suas famílias encontram-se em uma residência temporária em Nova York e planejam uma “interminável” tour no continente durante o resto do ano. O Fab Four então é tomado por um desejo imediato de novo material e elabora rapidamente e registram “Living In The Material World”, novamente com Phil Spector produzindo. A demanda para o produto de forma que coincidisse com a tour “interminável” de 1972 pelos EUA obriga a gravadora a incluir muitos B-Sides e canções dos Beatles que já estavam encaminhadas, junto com o material recém-gravado.

O único single das novas canções gravadas em New York do álbum seria “Back Off Boogaloo”, de Ringo, com o B-side “Big Bard Bed”, recebendo críticas mistas, muitos se perguntando por que a superior “My Love” de Paul não era lançada como single. O próprio Lennon afirmou que “Woman Is The Nigger of The World” deveria ter sido o primeiro single, mas o resto da banda se recusou, por razões óbvias. Paul alegou que era suicídio comercial e nem queria incluí-la no álbum. Um acordo foi feito quando Lennon permitiu “Live and Let Die”, no álbum, uma canção que ele detestava e executada puramente por razões contratuais (embora ele entendesse que era importante do ponto de vista da venda do álbum e até mesmo admitido gostar de James Bond). Phil Spector sugeriria o hino feministade Lennon para o final do lado A no LP, para que os ouvintes sensíveis poderia simplesmente parar e mudar de lado se eles se sentissem ofendidos. Os DJs pareciam fazer exatamente isso.

Os críticos seriam muito duros com “Living In The Material World”, chamando-o de caça-níqueis e simplesmente uma desculpa para estender sua turnê da América (em vez de o contrário). Seria observado que o álbum parecia ser principalmente para a tour em si do que um disco de verdade, e a orientação política das canções de Lennon. Os críticos também apontariam a inclusão de músicas mais pop para completar o álbum fraco, como “Live and Let Die” e o single de dezembro de 1971 “Merry Xmas (War is Over)” com o B-Side “C Moon”. A Rolling Stone até mesmo apelidaria o álbum de “Filler In The Material World”. Os Beatles levariam a crítica muito mal, refletindo em sua tour e suas suposta cada vez mais excessivas festas no backstage e abuso de drogas. Encerrando sua turnê norte-americana no final de 1972, os Beatles ponderariam o próximo passo: como manter sua banda em fuga?

The Beatles – Band On The Run (1973)

The Beatles Band On The Run

 

Lado A:
1. Mind Games (Lennon)
2. Jet (McCartney)
3. One Day At A Time (Lennon)
4. Mrs. Vanderbilt (McCartney)
5. Photograph (Ringo)
6. Be Here Now (Harrison)

Lado B:
7. Band On The Run (McCartney)
8. I Know, I Know (Lennon)
9. No Words (McCartney)
10. Out Of The Blue (Lennon)
11. The Day The Earth Gets Round (Harrison)
12. Let Me Roll It (McCartney)

Este seria provavelmente um dos melhores discos desta vida setentista dos quatro rapazes de Liverpool. O álbum resultante desta experiência do Albums That Never Were foi tão coesa que metade das músicas parecia estar no mesmo tom, o que permitiu que a primeira metade do lado B tivesse um crossfade continuamente! Note que a faixa-título é irmã de canções como “I Know, I Know” e “No Words” com ela conduzindo o lado B em vez do lado A, pois o álbum parecia precisar de um soco dinâmico de esquerda e direita de “Mind Games” e “Jet” para iniciar o registro.

Após a longa tour norte-americana em 1972, os Beatles fariam um retiro em um estúdio nigeriano isolado para escrever e gravar músicas para seu próximo álbum. A serenidade após uma turnê agitada e cheia de festas tornaria a banda mais focada e unida em seus esforços. o single não incluso no disco “Give Me Love (Give Me Peace On Earth)” com “Picasso’s Last Words (Drink To Me)”, gravado durante estas sessões, tornaria-se um hit número um, enquanto os Beatles terminariam o restante do álbum em Londres. “Band On The Run” seria finalmente lançado em 1973, para enorme aclamação crítica e comercial, saudado como o “novo Abbey Road”.

Visto não apenas como seu melhor álbum na década de 1970, mas um dos melhores álbuns da carreira dos Beatles, “Band On The Run” recuperaria qualquer força perdida a partir do ano anterior com “Living In The Material World”. Dois singles de sucesso viriam com “Band On The Run”: “Mind Games”, com o B-side “Helen Wheels” e “Jet” com o B-side “Meat City”. Eles então embarcariam em uma turnê mundial em setembro de 1973. Seria agridoce, porém, como na conclusão das sessões de gravação de “Band on the Run” quando John entrou no que ficou conhecido como seu “fim de semana perdido”, que se estendeu durante toda a tour e para o próximo ano. Exasperado pelo comportamento selvagem e deslealdade eminente durante a turnê de 1972 da América do Norte de John, Yoko Ono se separaria do cantor, presumivelmente para permitir-lhe uma “despedida de solteiro estendida” para exorcizar seus demônios. John abraçou sua liberdade recém-descoberta com entusiasmo, e o sucesso comercial de “Band On The Run” e da turnê mundial resultante era um palco para isso. Apenas em 1974 Paul reconheceria a espiral descendente de John, e esperaria que houvesse uma maneira de impedir que os Beatles dissessem boa noite…

(Baixe “Band On The Run” em Mp3 320kps aqui)

The Beatles – Good Night Vienna (1974)

The Beatles Good Night Vienna

 

Lado A:
1. Venus and Mars/Rock Show (McCartney)
2. Whatever Gets You Thru The Night (Lennon)
3. Love In Song (McCartney)
4. So Sad (Harrison)
5. Steel and Glass (Lennon)

Lado B:
6. Junior’s Farm (McCartney)
7. (It’s All Down To) Good Night Vienna (Lennon/Starr)
8. Dark Horse (Harrison)
9. #9 Dream (Lennon)
10. You Gave Me The Answer (McCartney)
11. Nobody Loves You (When You’re Down and Out) (Lennon)
12. Venus and Mars (reprise) (McCartney)

Como todos poderiam supor, em certo ponto a vida da banda já não seria possível, já que Lennon deixou de fazer (lançar comercialmente) música em 1975, aposentando-se para se tornar um pai/dono de casa. Teríamos três opções para continuar a série de álbuns dos Beatles de 1970: 1) continuar sem John Lennon; 2) continuar esta série com contribuições de Lennon sendo suas “Dakota demos” acústicas emparelhando com o material de Paul, George e Ringo; 3) interromper a série por completo. Por mais que isso possa ser uma decepção para você, o editor do Albums That Never Were optou pela opção 3, presumindo que os Beatles teriam um hiato indefinido em 1975, permitindo aos outros três para perseguir suas carreiras solo. Terminaria com a aposentadoria de John Lennon. Além disso, após este ponto, Paul e os álbuns solo de George diminuíram em qualidade.

Use a imaginação e vamos lá: Após o sucesso do álbum de 1973 “Band On The Run”, John continuaria o que é chamado de seu “fim de semana perdido”. Depois de uma turnê mundial no início de 1974, os Beatles fariam um retiro para gravar outro álbum naquele verão, mas as sessões seriam conturbadas graças a um Lennon desajustado, preocupado apenas com festas ao lado de suas celebridades-amigas, isso sem mencionar um súbito ataque de laringite para George, impedindo-o de contribuir em qualquer número de novas canções que ele havia escrito para o álbum. A liderança de Paul vê a banda com dificuldades para completar o álbum, incentivando um disco gravado principalmente ao vivo, com “Venus and Mars” abrindo e fechando o álbum. A capa contaria com Linda McCartney e os Beatles representando a letra de “Junior’s Farm”.

A resposta seria geralmente positiva para “Good Night Viena”, tanto crítica quanto comercialmente. Definitivamente não é o seu álbum mais forte até agora, mas não seria uma decepção como “Living In The Material World”. “Junior’s Farm” seria o single, junto com o B-side “Ding Dong, Ding Dong”, um sucesso em 1974. Uma breve turnê européia seria planejada junto com algumas datas americanas. A queda, em torno da época do lançamento do single de “Whatever Gets Você Thru The Night”, foi quando Paul previu a  destruição eminente do colega de banda e querido amigo pelo seu excesso de alegria turbulenta. Talvez os Beatles haviam vivido mais tempo do que deveriam? Paul perceberia que John estava simplesmente mascarando sua solidão e a perda de Yoko, a pessoa que criou o equilíbrio em sua vida. O título de seu álbum- aparentemente uma gíria para “está tudo acabado” – seria profético, sendo que Paul sabia que a única maneira de salvar John era parar a loucura dos Beatles, a entidade que tinha permitido a destruição de John.

Ao tocar as datas nos EUA, Paul orquestrou uma reunião de John e Yoko para conciliação, esperando deixar John reencontrar o equilíbrio que faltava na sua vida. O plano de Paul daria certo, e John e Yoko mais uma vez encontrariam os pedaços de si mesmos desaparecidos um no outro. O show final dos Beatles aconteceria no Madison Square Garden em 28 de novembro de 1974 (com Elton John abrindo). John e Paul decidiriam juntos que era hora de os Beatles entrarem em hiato indefinido para salvar John e libertar os outros. Vendo uma oportunidade de redenção para o seu abandono da família anterior, John, posteriormente, se aposentou da música para se concentrar em uma vida familiar e doméstica para participar mais da vida de seu segundo filho. O resto dos Beatles estaria livre para prosseguir suas próprias carreiras solo. O resto é história … Ou poderia ter sido, de qualquer maneira.

(Baixe “Good Night Vienna” em Mp3 320kps aqui)

15 artistas e bandas que mudaram seu som da água para o vinho (ou vice-versa)

Hair Pantera e Thrash Pantera / Katy Hudson e Katy Perry
Hair Pantera e Thrash Pantera / Katy Hudson e Katy Perry

Nem sempre o som de um artista se mantém o mesmo por muito tempo. Afinal, nem todo mundo consegue ser o AC/DC ou o Motörhead, que mantém o mesmo som desde o começo e continuam enlouquecendo seus fãs sem grandes surpresas. Se isso é bom ou ruim, cabe a você julgar, mas muitos artistas mudam completamente seu som em uma transformação radical que pode ou não incluir seu visual.

Listei 15 exemplos de bandas e artistas que mudaram da água para o vinho. Evitei artistas e bandas que sempre estão em mutação (e esse é o estilo deles) como Madonna ou David Bowie, já que a cada disco eles assumem um som, persona e estilo diferente (e conseguem ser geniais, na maioria das vezes).

Bee Gees
Antes: Rock psicodélico doido
Depois: A maior banda de disco music com voz fina

Antes de tocarem em todo lugar com a trilha sonora do filme de Tony Manero “Os Embalos de Sábado à Noite” e virarem os reis da disco music, o trio Bee Gees usava as vozes dos irmãos Gibb a favor da psicodelia sessentista. Ouça por exemplo “Turn Of The Century”, do primeiro disco do trio, e compare com “Night Fever”.

Roberto Carlos
Antes: O roqueiro mais famoso do Brasil
Depois: O cantor romântico que não usa marrom e come carne Friboi, se pagarem bem

No começo, Roberto Carlos bebia da fonte da british invasion do rock de terninho, e junto com Erasmo Carlos e Wanderléa foi um dos responsáveis pela criação do termo “Jovem Guarda”. Lá pelos anos 70, enveredou (muito bem, diga-se de passagem) pelo funk e soul, com o auxílio de Tim Maia, e a partir daí foi apostando cada vez mais nas baladas e menos no som rocker ou no swing do funk. Uma pena.

Katy Perry
Antes: A loirinha cristã que tocava violão
Depois: A cantor pop multicolorida das multidões

Em 2001, Katy Perry ainda se apresentava como Katy Hudson. Na época, o som se aproximava mais do rock cristão e do gospel, com músicas como “Faith Won’t Fail” e afins. Depois se tornou um dos maiores sucessos do pop atual com o disco “One Of The Boys” e a mudança completa de direção musical com “I Kissed A Girl”, que a levou ao estrelato. Fez o caminho contrário de Rodolfo Abrantes, se pensarmos bem.

Beastie Boys
Antes: O grupo de punk anárquico desafinado
Depois: O trio de rap branquelo cheio de criatividade

Antes de serem um dos grupos mais mais respeitados do rap (e do rock), Mike D, MCA e AdRock faziam um som bem punk sujo e desordenado. Contavam com Kate Schellenbach na bateria, que depois foi para o Luscious Jackson. Em 1994, os Beastie lançaram o disco “Some Old Bullshit”, uma compilação que mostrava como eram seus anos de punk gritado e cheio de barulho.

Nelly Furtado
Antes: Cantora que misturava pop, rock e folk
Depois: Cantora rebolativa com batidas Timbaland

Nelly Furtado estourou com “Like A Bird”, uma boa música pop que dominou as rádios e levou o disco “Whoa, Nelly” ao topo das paradas com sua mistura de hip hop, rock, folk e até fado português. Quando o segundo disco, “Folklore”, não foi tão bem, veio a hora de render-se ao que vende: o pop com produtores de sucesso. Deu certo: a virada pop de Mtv de Nelly gerou “Promiscuous Girl” parceria com Timbaland, seu maior sucesso.

Pantera
Antes: Hair metal pufante
Depois: Thrash metal porrada

Sim, é verdade: antes de serem os “Cowboys From Hell”, o Pantera adotava um visual meio Poison, com músicas mais direcionadas ao hair metal do que ao thrash machão que os levou ao estrelato. Sim, até Dimebag Darrell (R.I.P.) lotava o cabelo de laquê no comecinho do Pantera.

Genesis
Antes: Rock progressivo artsy-fartsy
Depois: Pop rock chumbrega para as rádios

O Genesis começou como uma banda de rock progressivo que inseria arte e teatro em seus shows, com Peter Gabriel nos vocais. Fez muito sucesso, até que Gabriel resolveu pedir as contas e o baterista Phil Collins assumiu os vocais. A partir daí a banda foi caminhando para o “jeito Collins”, ficando bem mais pop e pronta para as FMs de Adult Oriented Rock.

Kraftwerk
Antes: Experimental, avantgarde e kraut rock
Depois: Os robôs pais da música eletrônica

Sim, os robots alemães do Kraftwerk já fizeram um rock bem do hippongo! Sim, o negócio dos caras já era bem experimental e inovador desde o começo, mas antes puxava mais para a psicodelia do que para a música eletrônica (que eles ajudaram a criar).

NXZero
Antes: Hardcore melódico (ou emo, vai)
Depois: Um sub-Charlie Brown Jr.

O NXZero começou como qualquer banda de hardcore melódico: músicas rapidinhas, letras convencionais, nada de diferente. O público comprou a ideia e a gravadora os convenceu que o caminho era apostar nas baladas. Depois de algum tempo fora da mídia, a banda voltou este ano com um som que… bom, parece MUITO com Charlie Brown Jr.

Os Mutantes
Antes: Uma das bandas mais importantes do tropicalismo
Depois: Tentativa de ser o Pink Floyd brasileiro

O trio Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias foi um dos mais geniais do rock brasileiro. Ajudaram a revolucionar a música feita no Brasil e foram reconhecidos internacionalmente por sua música experimental e divertidíssima. Com a saída de Rita Lee, a banda enveredou por um caminho mais progressivo. Arnaldo Baptista também acabou saindo, e o negócio ficou mais prog ainda, com longos solos de teclado e virtuosidade máxima. Não é ruim, mas não chega aos pés do ápice criativo da banda.

Alanis Morissette
Antes: A Hannah Montana do Canadá
Depois: A garota raivosa com violão em punho

Você acha que “Jagged Little Pill” é o disco de estreia de Alanis Morissette? Nananinanão. Antes de surgir como uma garota que botava a boca no mundo com letras confessionais cheias de raiva e paixão, Alanis era apenas uma cantora de dance pop. Dois discos foram gravados com essa persona dançante: “Alanis” e “Now Is The Time”.

Shakira
Antes: A Alanis colombiana
Depois: A cantora rebolativa cujos quadris não mentem

Shakira começou com o violão sempre em mãos e letras confessionais como “Pies Descalzos”. Para as rádios, o interessante eram os remixes das músicas da morena colombiana. De repente, tudo mudou: Shakira ficou loira, aderiu ao pop dançante (com um ~quê~ colombiano, é verdade) e deixou o violão de lado, mostrando mais sua habilidade na dança do ventre do que nas cordas. Resultado: sucesso, sucesso e Waka Waka.

Vanilla Ice
Antes: Uma enganação do hip hop
Depois: Uma enganação do nu metal

Robbie Van Winkle foi uma enganação desde o começo. “Ice Ice Baby” é um rap com um sample de Queen que não empolga, mas fez grande sucesso em 1991. O ~rapper~ então fez um sofrível filme autobiográfico (“Cool As Ice”, horrendo) e apareceu no filme “As Tartarugas Ninja 2 – O Segredo do Ooze”, cantando “Ninja Rap”. Desapareceu por alguns anos, voltando no auge do nu metal tentando enganar novamente o público como um rocker angustiado que imitava Fred Durst no disco “Hard To Swallow” (o título define bem o disco). Não colou, novamente, e Ice tá sumido desde então (e todo dia a gente agradece ao Senhor por isso).

http://www.youtube.com/watch?v=wgFbSJg4XD4

Avril Lavigne
Antes: A nova aposta do punk rock para as rádios
Depois: Pop desesperado para vender (sem sucesso)

Avril Lavigne apareceu como uma “roqueirinha” para as massas, com músicas como “Sk8er Boi”, um roquinho safado que encantou todos adolescentes da época, que saíram dançando e usando gravatinhas e etc, além das baladas ao violão, que nem eram tão ruins quanto os críticos chatos falavam. Mas aí veio “Girlfriend”, uma chupada violenta de “Hey Mickey” da Toni Basil, e a partir daí Avril passou a ser a cantora pop que não consegue emplacar um sucesso pop. Taí a última tentativa, a vergonhosa “Hello Kitty”, que não me deixa mentir.

Goo Goo Dolls
Antes: Punk rock divertido e porradeiro
Depois: Rock baladeiro pronto para as rádios

Se você conheceu o Goo Goo Dolls na trilha de “Cidade dos Anjos” com “Iris” vai se surpreender, assim como os fãs de Goo Goo Dolls antes dessa música se surpreenderam quando ela saiu. No começo, a banda mandava um punk rock bem descompromissado e muito divertido, sem baladas ou violões. Fazia a cabeça do povo do skate e dos punks dos anos 90. Aí veio “Iris”… e o som mudou completamente. Os fãs punks choraram, desconsolados, enquanto o Goo Goo Dolls passou a embalar casais apaixonados e a embolsar milhões.