Canções inspiradas pelo mundo incrível das histórias em quadrinhos

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Sinestesia, por Rafael Chiocarello

Quadrinhos colecionáveis possuem versões raras e uma legião de fãs. A Comic Con de San Diego (Califórnia) é uma das feiras mais famosas do mundo. Por aqui temos a versão brasileira e eventos que também dão espaço para a cultura geek (Fest Comix, Bienal de Quadrinhos, Festival Guia de Quadrinhos, Bienal do Livro…), além das livrarias, sebos e eventos especializados de menor escala.

Uma paixão sem limites e os épicos personagem e super heróis estão na linha de frente dos preferidos da galera. Não é por acaso que tamanha obsessão chegasse ao mundo da música. Afinal de contas, as artes sempre se complementam. Hoje conheceremos algumas canções que mergulharam nas páginas das HQ’s mais populares do mundo. Marvel ou DC? Bom, essa treta deixamos para vocês decidirem o lado da força que mais lhe agrada…

butcher-batman
O designer brasileiro Butcher Billy costuma fazer crossovers entre músicas e o universo dos quadrinhos

Batman Nã Nã Nã Nã Nã!

O Rancid pode não ser uma das primeiras bandas que pensaríamos no universo geek, mas em 1994, no lançamento do Let’s Go” – álbum que tem “Radio”, composição feita pelo vocalista Tim com Billie Joe (Green Day) – temos “Sidekick”.

Na letra, Tim Armstrong se auto-intitula Tim Drake e tem o papel de mostrar personagens secundários dos HQ’s. No caso o exemplo de Robin, fiel escudeiro de Batman sempre à margem de colher os louros. Outro citado na letra é Wolverine.

Um dos álbuns mais clássicos do The Jam, In The City” (1977), traz “Batman Theme”. Sim, literalmente o tema da saga em uma versão mod rock revival com pézinho na simplicidade do punk rock 77. Paul Weller dá todo um tom vintage ao clássico tema da saga do morcego.

O The Who, em 1966, também deixou seu registro, porém com uma linha mais  lisérgica e cheia de enfoque na bateria energética. Uma versão com um ar de surf rock e garagem um tanto quanto interessante.

Mas a minha versão favorita do clássico sempre será essa pérola gravada por um baita guitarrista, diga-se de passagem. Em 1989, a lenda Link Wray também quis deixar sua versão instrumental e dançante para o hit mais famoso de Gotham City.

Mas quem levou Batman para as pistas de dança foi Prince, com classe, funk e ousadia como sempre fez. A canção “Batdance” foi feita especialmente para o filme da saga de 1989. As guitarradas são um show a parte, com grooves e solos vibrantes.

Em 2002, Snoop Dogg se aventurou a homenagear o homem morcego. Só que dessa vez ele não deixou o Robin de lado e ao lado de Lady Of Rage Rbx fez uma versão mega original com rimas de tirarem o fôlego.

“No one, can save the day like Batman
Robin, will make you sway like that and
Beat for beat, rhyme for rhyme
Deep in Gotham, fightin crime
No one, can save the day like Batman”

Ainda no mundo do rap, Bow Wow em 2011 fez uma versão hip hop e agressiva para Batman. Com uma versão cheia de escárnio e quebrando toda a áurea celestial que o herói tem, os Garotos Podres vem para tirar a máscara de Bruce Wayne com sua releitura sarcástica de “Batman”.

“Hey seus bat palhaços, quem de vocês
Ainda não se lembra daquele idiota bat programa,
Que passava naquele imbecil bat canal,
Naquele cretino bat horário?

Há! velhos tempos, hein.
Quantas belas vomitadas nós dávamos quando assistíamos toda aquela idiotice,
Por isso agora escrachamos aquele bat retardado
Defensor do sistema, Batman!

Bat era um bom menino
Defendia Gotham City
Enquanto seu amigo Robin
Lhes botava um bat-chifre…”

De tanto fãs de Batman alimentarem que “I Started a Joke” dos Bee Gees ter referências a um dos maiores vilões da história em quadrinhos, as pessoas chegaram a acreditar que se tratava de uma letra homenageando o Coringa, um dos antagonistas mais queridos da história do cinema. Claro que a equipe do Esquadrão Suicida estava ciente de tal “menção” e em um dos 5000 trailers que soltaram antes do filme – o primeiro deles – contava com uma regravação de Becky Hanson.

Spider Man, Spider Man!

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O Homem-Aranha é um dos mais carismáticos quadrinhos da Marvel e um dos super heróis mais conhecidos. A lenda de Peter Parker ganha terreno no mundo da música até nos dias mais atuais.

É o caso do Black Lips, que em 2011 chegou com “Spidey’s Curse” no disco Arabia Mountain”, um blues garageiro moderno cheio de referências ao personagem por trás da roupa vermelha.

“Peter Parker’s life is so much darker than the book I read
‘Cause he was defenseless, so defenseless when he was a kid
It’s your body, no one’s body, but your’s anyways
So Peter Parker don’t let him mark ya, it’s so much darker
Don’t let him touch ya, he don’t have to stay!
Don’t fill a spider up with dread

Spidey’s got powers, he takes all of the cowards
And he kills them dead
But when he was younger, an elder among him messed him in the head
So Peter Parker don’t let him mark ya, it’s so much darker
Don’t let him touch ya, he don’t have to stay!”

Claro que nessa lista o clássico dos clássicos dos sons inspirados em quadrinhos não ia faltar. A versão dos Ramones para o tema de Spider-Man não poderia ficar de fora de maneira alguma, esta que foi gravada quase no fim da carreira da “Happy Family”, em 1995.

Uma das bandas que marcaram o movimento noventista das riot girls, Veruca Salt tem uma canção com referências ao Homem-Aranha, “Spiderman 79”.

“You’re so nice,
you tie me in a web
and cradle me till dawn.
You’re so deadly
that I can see your breath
beneath me when you’re gone.
You’re so windy,
I’d like to pin you down
and tack you to the wall.
Spiderman”

SUPERMAN!!

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Se tem um personagem que é amado e odiado por muita gente é o Superman. Gostando ou não, ele é um dos mais marcantes e perde seu poder com a terrível kryptonita. É não deve ser fácil defender o sua por trás de sua capa.

Uma canção que cita a capacidade de voar do super herói é “Hit The Ground (Superman)” do The Big Pink. A canção está presente no álbum Future This” (2011) e inclusive estrelou a trilha de uma das edições dos jogos FIFA.

“…But if I fall off this cloud
If I fall off, oh superman
Oh Superman
I don’t wanna hit the ground (X3)
Oh Superman”

Outra canção que fala do super herói e marcou a geração viciada em vídeo games de console foi “Superman” dos ska/punkers do Goldfinger. Presente na primeira edição do jogo Tony Hawk’s Pro Skater, a canção fazia qualquer um terminar a fase do jogo se sentindo o verdadeiro Super Man!

“…So here I am
Doing everything I can
Holding on to what I am
Pretending I’m a Superman
I’m trying to keep
The ground on my feet
It seems the world’s
Falling down around me”

Os estranhões mais queridos do rock alternativo, The Flaming Lips, também prestam homenagem ao personagem na melancólica “Waitin’ For Superman” presente no álbum The Soft Bulletin” (1999).

“…Tell everybody
Waitin’ for Superman
That they should try to
Hold on
Best they can
He hasn’t dropped them
Forgot them
Or anything
It’s just too heavy for Superman to lift
Is it gettin’ heavy?
Well, I thought it was already as heavy as can be”

Em 1977, quem cedeu a voz para homenagear o homem voador foi Barba Streisand na bela “Superman”. O vozeirão transformou a odisseia do super herói em uma balada desesperada. A metáfora do herói de plano de fundo para uma paixão ardente.

“Baby I can fly like a bird
When you touch me with your eyes
Flying through the sky
I’ve never felt the same
But I am not a bird and I am not a plane
I’m superman
When you love me it’s easy
I can do almost anything
Watch me turn around, one wing up and one wing down
I never thought I could fall in love for good
I’m superman…”

Os anos 90 nos apresentaram o Spin Doctors e em 1993 eles lançaram “Jimmy Olsen Blues” que tinha como plano de fundo o universo do Homem de Aço.

“Lois Lane please put me in your plan
Yeah, Lois Lane you don’t need no Superman
Come on downtown and stay with me tonight
I got a pocket full of kryptonite
He’s leaping buildings in a single bound
I’m reading Shakespeare in my place downtown
Come on downtown and make love to me”

Existem homenagens interessantes ao azulão pelo Stereophonics, Taylor Swift, Eminem, 3 Doors Down, T. Pain, Alanis Morissete, Hank Williams Jr e até do Matchbox Twenty, mas para fechar as canções que homenageam o super herói eu escolhi o The Kinks. No fim dos anos 70 eles gravaram “(Wish I Could Fly Like) Superman” para o disco Low Budget” (1979).

Quadrinhos e Desenhos

bat

Debbie Harry e o grupo pop Aqua optaram por não darem nomes aos homenageados em fizeram homenagens um pouco mais genéricas. A estrela do Blondie vem com “Comic Books” onde eterniza sua paixão pelo mundo dos quadrinhos e sua adolescência. Já grupo de europop Aqua (sim, aqueles mesmos de “Barbie Girl”) são mais claros quando o assunto são “Cartoon Heroes” (1999).

“Long before I was 12 I would read by myself.
Archie, Josie, super-heroes.
I would read them by myself.
I had the stars on my wall.

14 was a gas for me.
Batman on tv.
I would cheer the super-heroes.
They were all I wanted to be.
I had the stars on my wall.

18 I was guaranteed.
I would lose my teenage dream.
But it’s so funny how I got to look.
Like all the people in my comic books.
Now I’m a star on my wall.

Comic books.”

“…We are the Cartoon Heroes – oh-oh-oh
We are the ones who’re gonna last forever
We came out of a crazy mind – oh-oh-oh
And walked out on a piece of paper

Here comes Spiderman, arachnophobian
Welcome to the toon town party
Here comes Superman, from never-neverland
Welcome to the toon town party

We learned to run at speed of light
And to fall down from any height
It’s true, but just remember that
What we do is what you just can’t do

And all the worlds of craziness
A bunch of stars that’s chasing us
Frame by frame, to the extreme
One by one, we’re makin’ it fun”

Flaaaaaash!

flash

The Flash, o personagem que gostaríamos de ver competindo com Bolt também foi alvo de homenagens no mundo da música. “The Ballad of Barry Allen” (2003) do Jim’s Big Ego narra a trajetória da persona que dá vida ao Flash, Barry Allen.

“….And I’ll be there before you know it
I’ll be gone before you see me
And do you think you can imagine
Anything so lonely
And I know you’d really like me
But I never stick around
Because time keeps dragging on
And on…”

Capitão América

O herói mais patriota da história dos quadrinhos, Capitão América, não ia ficar fora das referências. Na canção do Moe. “Captain America” também tem homenagem ao Superman.

“Captain America said you gotta be like me
Or you’re gonna wind up dead last
At the end of your rope
Flat broke
Down and tired
You sleepy head
Won’t you go to bed
Let me run your life
Lies

Clark Kent ran for president
No one knew about the secrets locked in his head
Friends tried to take his life
Accusations flew
Flew like Kryptonite
Clark still looking good
What you gonna say
To make everything alright
Lies”

O Justiceiro

Outro personagem da Marvel a ganhar notoriedade no universo da música foi O Justiceiro. Quem presta o tributo são os caras do Megadeth em “Holy Wars…The Punisher Due” (1990). E de quebra, para uma canção totalmente politizada, pois denuncia a violência dos conflitos na Irlanda do Norte conhecido como “The Troubles”. Aliás, o próprio U2 tem uma música sobre o assunto, é claro.

Ainda no mundo do metal temos o guitarrista Joe Satriani com sua homenagem ao Surfista Prateado em “Surfing With The Alien”. Ouça e flutue nessa viagem espacial.

Motoqueiro Fantasma

O Motoqueiro Fantasma ganhou uma homenagem que também entrou na trilha de “Taxi Driver”. A canção presente no primeiro álbum dos punks do Suicide (1977) tem uma alta voltagem e vive perigosamente assim como o personagem.

O pesquisador musical Henry Rollins, ex-Black Flag e Rollins Band também regravou uma interessante versão do clássico do Suicide.

Mas vamos fechar com um verdadeiro “achado” das HQ’s. Um rap que adapta Guerras Secretas originais da Marvel. Mas mais do que isso, a faixa possui uma colaboração do mestre Stan “the man” Lee. A faixa do The Last Emperor contém parte 1 e parte 2.

“Almost Famous”: o espírito sexo, drogas e rock’n’roll à flor da pele

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Almost Famous, Quase Famosos

Depois de duas longas semanas sem posts por aqui, quem volta com tudo é a Sinestesia. Tem sido tudo muito louco desde que O Pulso Ainda Pulsa, um projeto elaborado pelo Hits Perdidos e o Crush em Hi-Fi, ganhou vida. Mas voltemos ao que interessa nesta coluna!

Nada como um filme que tenta – e consegue – nos levar direto para os anos 70, mais precisamente no “boom” da indústria fonográfica. Cheio de rock stars, jornalistas e chairmans de gravadoras nadando literalmente em dinheiro.

O funk ostentação é troco de pinga perto do que estes junkies, rockers e groupies viveram 24/7 durante aqueles anos de ouro. “Almost Famous” (“Quase Famosos”, de 2000tem o papel de retratar toda essa loucura rock’n’roll e todo seu entorno de maneira criativa e envolvente.

ALMOST BUS

“Um fã ávido por rock’n’roll consegue um trabalho na revista americana Rolling Stone para acompanhar a banda Stillwater em sua primeira excursão pelos Estados Unidos. Porém, quanto mais ele vai se envolvendo com a banda, mais vai perdendo a objetividade de seu trabalho e logo estará fazendo parte do cenário rock dos anos 70″ – Sinopse por Adoro Cinema

O que as pessoas muitas vezes deixam de saber são curiosidades sobre este filme que chegou a ganhar até Oscar. Primeiramente, o filme é praticamente autobiográfico – com uma dose de fantasia, claro – sobre as histórias e experiências pessoais como jornalista juvenil na revista Rolling Stone do diretor, Cameron Crowe, que contou para o site The Uncool sobre nomes terríveis que ele pensou antes de chegar ao “Almost Famous”“My Back Pages” foi o primeiro e convenhamos seria um título um quanto óbvio. “The Uncool” foi outro um pouco melhorzinho, mas ainda fraco, baseado numa fala de Lester Bangs – lendário crítico da revista. Alguns outros já caíram no contexto musical, como “Tangerine”, uma canção do Led Zeppelin – que inclusive toca nos letreiros finais do filme – e “A Thousand Words”: título do primeiro artigo escrito pelo protagonista, William Miller, em resenha feita sobre um show do Black Sabbath.

Guita

Mas vamos à trilha sonora – e que baita trilha, diga-se de passagem.

O pontapé inicial da soundtrack lançada no dia 12 de setembro de 2000 via Dream Works é com “America” do Simon & Garfunkel. A canção foi composta para o álbum Brokends” (1968) e produzida pelo duo e Rory Halee. Assim como o livro “On The Road”, a canção fala sobre dois jovens apaixonados cruzando os Estados Unidos à procura da “América” nos sentidos literal e figurativo.  A inspiração é genuína, visto que em 1964, Simon fez esta viagem com sua namorada, Kathy Chitty. O amor é lindo, não é mesmo?

TOMMY

Logo na segunda faixa já vem um petardo com selo Tommy” (1969) de qualidade. Sim, The Who para ninguém botar defeito com um dos maiores discos de ópera rock de todos os tempos. A densidade de “Sparks” te faz viajar por outras dimensões e poderia ter entrado até na trilha de “Stranger Things”.

A próxima canção é uma das queridinhas do pessoal da Rolling Stone: Todd Rundgren com It Wouldn’t Have Made Any Difference”, faixa título do álbum duplo lançado em 1972. As ondas do rock progressivo a la Yes dão o tom da batida. Este som foi gravado no ano anterior em Los Angeles, Nova Iorque e em Woodstock. Todd toca as guitarras e os teclados no álbum. Sucesso na crítica e aclamado pela Billboard, além de conseguir posição 173 entre os 500 melhores álbuns de todos os tempos na lista da Rolling Stone.

E já que falamos em Yes, adivinhem quem aparece na próxima faixa? Eles mesmo com “I’ve See All Good People: Your Move”. Sua primeira aparição foi no The Yes Album” (1971) e originalmente foi lançada apenas a segunda parte da canção como “single”, o que fez alcançar um número significativo no top 40 da Billboard. A canção usa a metáfora de comparar os relacionamentos com jogos de xadrez, tendo seu destaque nas harmonias de um rock progressivo viajante e sem freios. Em 1991, quando todos integrantes originais se reuniram para o DVD da turnê “The Union”, a canção não ficou de fora do set!

Saindo do progressivo e encontrando as ondas da praia temos uma das maiores bandas injustiçadas do rock sessentista – sim, pelo episódio The Pet Sounds” (1966) x Beatles – os Beach Boys com uma canção lançada para o disco Surf’s Up” (1971), “Feel Flows”. A música flerta com a surf music, psicodelia e flautinhas folclóricas.

A próxima canção é simplesmente genial por um fator ímpar: é de uma banda ficcional feita especialmente para o filme. A Stillwater, banda com quem o protagonista viaja e realiza suas desaventuras rock’n’roll – e serve como mote – consegue imprimir em sua faixa “Fever Dog” uma energia similar a do Led Zeppelin. E sinceramente eu acredito que se o Led estivesse na ativa, o diretor teria convidado eles para se auto-interpretar.

Inclusive em sua história original, o jornalista acompanhou o Led, The Allman Brothers Band, Lynyrd Skynyrd, Poco The Eagles em turnês. Eu imagino que por impasse de “ficar em cima do muro” e facilitar as gravações ele optou por montar uma banda especialmente para o longa – como registro de um tempo rock’n’roll que não volta mais.

O single “Every Picture Tells A Story” do inglês Rod Steward não fica de fora da trilha. Gravada em 1971 para um álbum de mesmo nome em parceria com Ron Wood, a canção foi lançada como single na Espanha tendo como lado B “Reason To Believe”.

Em sua letra, “Every Picture Tells A Story” conta suas aventuras com mulheres ao redor do mundo – tão rock’n’roll este lado mulherengo – e fala sobre o retorno para casa após aprender diversas lições de moral.

A próxima banda deveria ter mais atenção porque é APAIXONANTE. The Seeds é mais uma daquelas que vieram para chacoalhar tudo, destruir os quartos de hotel e sair após atear fogo. O espírito rock’n’roll mais destruidor vive em sua essência de uma maneira que a música que entrou na soundtrack  tem até polêmica envolvida em sua história.

DRUGS

Enquanto o mundo tava naquele clima paz e amor dos Beatles, eles estavam sendo BANIDOS da rádio com o single “Mr. Farmer”. Muito mais garageiro e sujo que os meninos de Liverpool. Lançada em 1967, a razão pela repressão foram as menções à drogas nas letras. Alguns interpretam o nome como “apologia aos fazendeiros plantadores de maconha”.

A canção foi escrita por Sonny Boy Williamson II e outra lenda do R&B, Elmore James, e foi lançada originalmente abaixo do nome G.L. Crockett. Porém quem fez esta pérola da música mundial ganhar a atenção que merecia foi o The Allman Brothers Band.

Uma banda que não poderia ficar de fora da trilha do filme é o Lynyrd Skynyrd. Tanto por Crowe ter se atirado na estrada com eles na década de 70, como por sua importância no cenário pós-Woodstock no contexto da história do rock americano.

A canção escolhida para a trilha foi “Simple Man”, uma das preferidas dos fãs. Tanto que não é de se surpreender que ela foi escolhida para entrar no jogo “Rock Band”, na série “Supernatural” e ter ganhado versões do Deftones e do Shinedown.

A próxima é uma pedrada na cara, afinal se trata de um hit do Led Zeppelin. Escrita por duas lendas do rock, Jimmy Page e Robert Plant, ela entrou no clássico “Led Zeppelin III” (1970). Com uma levada mais folk/rock, violão e voz é uma das mais melosas da carreira da banda.

Segundo Page a canção foi escrita no País de Gales naqueles dias após uma longa caminhada de volta para casa vindo do campo. “Tínhamos uma guitarra conosco, estávamos cansados da caminhada, e paramos para nos sentar. Eu toquei um acorde e Robert cantou o primeiro verso ‘na lata’. Nós tínhamos um gravador de fita conosco, e gravamos aquele esboço ali mesmo.”

O mestre do piano vermelho, Elton John, também não fica de fora de “Almost Famous”. A canção escolhida desta vez inicialmente não era um single inicialmente, porém depois de ganhar certa popularidade se tornou um.

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“Tiny Dancer”, que viria a se tornar um dos maiores clássicos do Elton John, foi escrita por Bernie Taupin. Nela, Bernie captou o espírito dos anos 70 na Califórnia no qual ele conheceu muitas mulheres bonitas. Nos créditos do álbum Madman Across The Water” (1971), Bernie dedicou a música a sua primeira mulher, Maxine Feibelman.

Dave Grohl e Red Hot Chilli Peppers já fizeram versões deste clássico. No vídeo abaixo, Dave Grohl inclusive conta que conheceu a canção através da trilha sonora de “Almost Famous” e agradece ao diretor Cameron Crowe por isto. Além de comentar algumas cenas no vídeo, vale a pena ver o vídeo inteiro.

Nancy Wilson, que também foi a compositora das canções da Stillwater – banda de mentirinha do filme – também tem uma canção própria na trilha sonora: “Lucky Trumble”, composição instrumental de violão flertando com teclados.

Para quem viu o filme sabe que David Bowie aparece “fugindo dos jornalistas”, e claro que ia ter Bowie na trilha sonora do filme de uma forma ou de outra. A “sacada” genial foi a escolha de uma canção escrita por Lou Reed (Velvet Underground), “Waiting For The Man” para a trilha.

A versão que toca no filme é ao vivo em Santa Mônica (Califórnia) em 1972.  “Por coincidência”, naquele ano Lou Reed lançava um dos seus discos solos mais aclamados: Transformer”.

A próxima canção é de Cat Stevens, mais precisamente do álbum Teaser And The Firecat” (1971). Mas erra quem pensa que a canção está entre os três considerados hits do disco. Porém o crítico da Rolling Stone Timothy Crouse gostou do aspecto distinto e introspectivo de “The Wind”. Uma outra curiosidade é que o álbum foi lançado juntamente com um livro infantil escrito e ilustrado pelo próprio Cat Stevens.

Quem vem em seguida é Clarence Carter com “Slip Away” (1968), um dos grandes sucessos da carreira do artista que se destaca dentro do blues/soul. O músico de 80 anos – que lançou seu primeiro disco em 1968 – ainda está na ativa tendo lançado o álbum Dance To The Blues” no ano passado.

Para fechar com chave de ouro essa incrível trilha sonora nada como um pouco mais de Pete Townshend. Mas não estamos falando de uma canção do The Who, e sim de seu outro projeto “One Hit Wonder”, Thunderclap Newman.

O projeto ainda conta em sua formação o “manager” do The Who, Kit Lambert, e Jimmy McCulloch, músico do projeto The Wings do Paul McCartneyJohn David Percy “Speedy” Keen, que ficou mais conhecido por este projeto paralelo do líder do Who.

O sucesso da faixa “Something in the Air” (1969) foi tão enorme que a faixa além de alcançar o primeiro lugar das paradas no UK, recheou diversas coletâneas, comerciais e trilhas sonoras. Quem canta a faixa não é Pete Townshend e sim Speedy Keen. O grupo lançou apenas um álbum em sua curta carreira: Holllywood Dream” (1969).

Jimmy veio a falecer em 1979 através de uma overdose de heroína aos 26 anos de idade. Nada mais sexo, drogas e rock’n’roll do que esse desfecho, não é mesmo?

A viagem no túnel do tempo da trilha sonora de “As Vantagens de Ser Invisível”

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The Perks Of Being a Wallflower

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Hoje vamos falar sobre um filme voltado para o público adolescente. Mas nem por isso a trilha deixa a desejar. Muito pelo contrário, assim como “500 Dias Com Ela”, apesar de ser um drama/romance que flerta com comédia, a trilha é uma tremenda viagem no tempo e traz excelentes hits do dream pop, new wave e do rock alternativo.

“The Perks of Being a Wallflower”, em português “As Vantagens de ser Invisível”, é um longa metragem lançado em 2012 pelo diretor Stephen Chbosky. Dessa vez ele não procurou ou foi procurado por ninguém para fazer o filme. Afinal de contas, ele é baseado num livro de sua autoria lançado em 1999. Foi sucesso comercial devido a alguns fatores além de uma boa história sobre a juventude com todos seus dramas, passagens e percalços: a boa escolha do elenco e a sua trilha sonora. Afinal de contas, para quem já viu o filme, fica difícil esquecer o momento em que Sam (Emma Watson) sai pelo teto solar do carro – dentro do túnel – e começa a cantar “Heroes” do David Bowie, não é mesmo?

Emma

Sinopse por AdoroCinema: “Charlie (Logan Lerman) é um jovem que tem dificuldades para interagir em sua nova escola. Com os nervos à flor da pele, ele se sente deslocado no ambiente. Sua professora de literatura, no entanto, acredita nele e o vê como um gênio. Mas Charlie continua a pensar pouco de si… até o dia em que dois amigos, Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), passam a andar com ele.”

O filme se passa em Pittsburg, na Pensilvânia, e alguns de seus dramas passam por temas “bobinhos” como o dilema do primeiro beijo, as paixonites de adolescência, fins de relacionamento e o drama da dança de formatura (Saddie Hawkins Dance), temida e amada por muitos americanos, super tradicional e “cafona”, diga-se de passagem. Mas tradições, né? Vamos falar o quê? Apenas aceitamos. Mas também temos bons ganchos, como quando a turma no colégio ensaia para apresentar sua versão da peça The Rocky Horror Picture Show. (Inclusive aqui na SINESTESIA já falamos sobre a novela original que deu origem a peça, o musical, suas homenagens, tributo, filme e remake a caminho!)

Porém, a trama também toca em temas bastante delicados e importantes, como a homofobia e o abuso sexual sofrido durante a infância. Esses conjuntos de fatores que eu acho super importantes de serem discutidos nessa faixa etária para que a intolerância aos poucos vire um problema do passado. Tão triste ver os acontecimentos recentes e a estatística alta de mortes e agressões por motivo de opção sexual. Um dia chegamos lá!

O filme conta com uma trilha maravilhosa – que você pode conferir direto da página da IMDB. Vamos focar nas 12 faixas que compõe o disco lançado pela Atlantic Records no dia primeiro de agosto de 2012. Impressiona, pois esta coletânea chegou a sétima posição das melhores trilhas sonoras publicadas no período entre 2012/2013 da Billboard.

Cantar

A faixa que abre o disco é do The Samples com Could It Be Another Change, que sinceramente eu desconhecia. São da época do college rock pelo que parece, uma mistura de The Police com Grateful DeadAgradável, mas nada de mais. Influências de folk e reggae são perceptíveis em sua sonoridade. A banda existe até hoje, mas com apenas um membro original, o vocalista Sean Kelly.

Em seguida temos uma canção tão clássica que periga você estar na Tiger Robocop 90 (que rola no Lab Club) e ouvir tocando a versão que a banda de ska – Save Ferris – fez nos anos 90. Bem, na trilha contamos com a versão original da banda de Birmingham Dexy’s Midnight Runners, que impressiona pela versatilidade de estilos, abraçando o folk, o ska, influenciado pelo “Combat Rock” do The Clash, e a música folclórica irlandesa, popularizada pelo The Pogues naquela década. Com o artifício de violinos, batida new waver, teclados e um pouco de música caipira a canção justifica a fama das pistas de dança. É envolvente como os vocais dialogam e você se vê levado pela canção sem titubear.

Em seguida temos um verdadeiro clássico do dream Pop/shoegaze, “Tugboat”, da emblemática e meteórica Galaxie 500. Influenciados por Velvet Underground, Spacemen 3 e Jonathan Richman, em apenas 5 anos viram sua estrela cadente virar história. O grupo durou de 1986 a 1991 e deixou um legado de bandas que foram influenciadas pelo som deles como Sonic Youth, Liz Phair, Neutral Milk Hotel, British Sea Power, Joanna Gruesome, The Submarines e tantas outras. A canção tem uma atmosfera meio My Bloody Valentine encontra The Pastels enquanto toma um café com Lou Reed. Ou seja: coisa mais do que boa.

A próxima música é do New Order, a dançante e emblemática “Temptation” que inclusive também entrou na trilha de Trainspotting. (filme que comentamos a trilha outro dia por aqui). Lançada originalmente em 1982, ela ganhou em 2013 este clipe:

“Evensong”, da pouco conhecida The Innocence Mission tem uma atmosfera densa a la Cocteau Twins, Mazzy Star e PJ Harvey. Ou seja, aquela vibe rock alternativo/dream pop flutuante do começo da década de 90. Cheia de angústia, a canção controla os ânimos do espectador, já que é sofrida e introspectiva. 

The Smiths

O clássico ~das bads~ “Asleep” do The Smiths não poderia ficar de fora da confusa e triste história de Charlie. É o hino dos dilemas pessoais, das desilusões com o mundo exterior. A vontade de se isolar, se trancar no quarto, deitar na cama e nunca mais acordar. A faixa foi originalmente como um B-Side do single “The Boy with the Thorn in His Side” e mostra uma atmosfera mais dark que o piano que acompanha Morrissey nos leva direto para o fundo do poço. Talvez um dos seus trunfos seja fazer com que os ouvintes chorem e afoguem suas mágoas.

Ainda no ritmo do slowcore/dream pop – e provavelmente da adolescência do diretor do filme – temos Low com “Cracker”. Influenciados por post-rock, blues e Neil Young, vemos os contrastes que isso adiciona ao som que tem a cara da época pré explosão do grunge.

Logo em seguida vem uma canção que eu sou mais do que suspeito para comentar, “Teenage Riot”. De um disco que eu tive que comprar o box de vinil para apreciar todas versões e mixagens, Daydream Nation” (1988). A canção é o primeiro single escolhido para divulgar o disco produzido pelo emblemático produtor Nick Sansano, um cara que pouco antes tinha se envolvido com bandas de rap do calibre do Public Enemy e quando pegou essa encrenca não manjava nada do tipo de som do Sonic Youth. Segredo para o sucesso? Talvez. O grupo teve um ganho criativo que depois desse disco os conduziu para o estrelato. Depois ele foi até chamado para produzir o Goo” (1990) e o resto é história.

“Dear God” do XTC é daquelas músicas que eu conheci assistindo as madrugadas da MTV Brasil – ah, que saudade desses tempos. Um one hit wonder de uma injustiçada banda com outros potenciais hits pops. Uma letra forte e dura sobre ateísmo e uma levada folk/new waver/pop barroco lançada em 1986, sendo censurada e proibida em diversas rádios ao redor do mundo por fazer apologia ao ateísmo com sua falta de Deus. Sem usar nenhuma palavra de baixo calão. Quão punk é isso?

E de clássico em clássico do rock alternativo a lista do disco vai ficando ainda mais interessante. O próximo é Pearly Dewdrops’ Drops”, a banda de post-punk inglês Cocteau Twins é fruto da mistura de influências de The Birthday Party com Siouxsie and The Banshees e a delicadeza da estrela do pop Kate BushPara quem desconhece a origem do nome do grupo, eis a resposta: vem de uma canção do Simple Minds. O Cocteau Twins nesta canção tem sua marca no vocal que ecoa no ar – a la coral de igreja – e traz os beats e as trevas dos sintetizadores. Ah, os anos 80!

A próxima canção no filme chamada de “Charlie Last Letter” foi composta pelo guitarrista de música ambient, experimental e instrumental Michael Brook. Ela é rápida e meio “chatinha”. Originalmente ela chama “Pouter”, mas para o filme foi renomeada para encaixar com a parte mais dramática da trama. Michael é conhecido por gravar guitarras para trilhas de filme e por ter colaborado com artistas como David Sylvain e Brian Eno. Inclusive já ganhou um Grammy por co-compor “Night Song” do paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan e teve a trilha de “Into The Wild”, composta por ele, nomeada como melhor trilha.

Para fechar a trilha com chave de ouro, temos talvez uma das canções mais fantásticas escritas do rock: “Heroes”, do David Bowie. Para quem não sabe, a música fala sobre um amor dividido pelo nefasto muro de Berlim, onde o namorado e a namorada estão separados pelo muro, um morando na Berlim Oriental e outro na Berlim Ocidental.

A música é tão poderosa e emblemática para a cidade de Berlim que em janeiro deste ano, após saber da morte de David Bowie, o governo da Alemanha agradeceu ao artista com os seguintes dizeres: “Por ter ajudado a derrubar o muro de Berlim”. E dizendo: “você agora está entre os heróis”.

E é dessa maneira emotiva e cheia de sentimentalismo que terminamos o post de hoje. Afinal de contas, “Heroes” entrou na trilha não só por ser uma simples canção de amor sem limites mas como uma canção de emancipação do ser sem limites. É, o cara sabia compor como poucos.

A epopeia musical de “O Lobo de Wall Street” de Martin Scorsese

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O Lobo de Wall Street
Leonardo DiCaprio em "O Lobo de Wall Street"

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Hoje vamos falar sobre a trilha de um filme que é um tremendo absurdo ter saído do Oscar de mãos vazias. Perseguição por parte da academia de seu diretor? Talvez. Ter um ator da magnitude de Leonardo DiCaprio no elenco e até então – Antes do O Regresso” não ser premiado? Outra possibilidade válida. Ter competido com um filme em que todos apostavam as fichas (Gravidade”)? Provavelmente um belo de um azar no quesito timing.

Já que o filme foi indicado para o Oscar nas categorias:

1- Melhor Filme
2- Melhor Diretor
3- Melhor Roteiro
4- Melhor Ator (Leonardo Di Caprio)
5- Melhor Ator Coadjuvante (Jonah Hill)

O filme não ganhou em nenhuma categoria. O prêmio de consolação de DiCaprio foi ter sido nomeado – e vencido – na disputa para melhor ator na categoria filme musical ou comédia na edição daquele ano (2014) do Globo de Ouro. Porém, entre os críticos, o filme foi bastante aceito e prestigiado. O roteiro é agressivo e bem anti-heroi, algo que Hollywood não costuma premiar. Prefere dar prêmios para os bons “moços”, vai entender, né?

Ao menos eu não engoli até hoje terem dado Oscar para o vazio – metido a intelectual mas comum – Her” e deixarem esse tremendo drama/comédia biográfica que foi “O Lobo de Wall Street” (2013). O filme é baseado no livro The Wolf Of Wall Street”, uma autobiografia escrita por Jordan Belford, lançada em 2007.

Leonardo DiCaprio is Jordan Belfort in the movie THE WOLF OF WALL STREET, from Paramount Pictures and Red Granite Pictures. TWOWS-FF-002R

Para não me alongar muito em descrever o roteiro do filme e dar maior atenção para a trilha, segue a sinopse redigida pelo pessoal do excelente AdoroCinema:

“Durante seis meses, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) trabalhou duro em uma corretora de Wall Street, seguindo os ensinamentos de seu mentor Mark Hanna (Matthew McConaughey). Quando finalmente consegue ser contratado como corretor da firma, acontece o Black Monday, que faz com que as bolsas de vários países caiam repentinamente. Sem emprego e bastante ambicioso, ele acaba trabalhando para uma empresa de fundo de quintal que lida com papéis de baixo valor, que não estão na bolsa de valores.

É lá que Belfort tem a ideia de montar uma empresa focada neste tipo de negócio, cujas vendas são de valores mais baixos mas, em compensação, o retorno para o corretor é bem mais vantajoso. Ao lado de Donnie (Jonah Hill) e outros amigos dos velhos tempos, ele cria a Stratton Oakmont, uma empresa que faz com que todos enriqueçam rapidamente e, também, levem uma vida dedicada ao prazer.”

A montagem, a escolha de elenco, a trama, a narrativa dos altos e baixos e a energia de instantâneo Blockbuster já deveria ser aplaudida. Além de claro, sua trilha. Aliás trilha sonora é a praia de seu diretor, Martin Scorsese. Não é de se surpreender que ele neste ano tenha se envolvido com Mick Jagger para o audacioso e ferroz “Vinyl”, série transmitida pelo HBO.

A trilha sonora do filme conta com 54 canções ao longo das mais de 3 horas de trama. Destas 54, 16 foram selecionadas para estrelar a versão física do disco que foi lançado em dezembro de 2013 via Virgin. Logo, antes de adentrar ao seleto grupo das 16 que contemplam o disquinho, falarei por alto das que não entraram no álbum, porém estão no filme.

Temos a clássica “Dust My Broom” e “Dust My Blues” de um dos reis da guitarra, Elmore James, “Hit Me with Your Rhythm Stick” do astro do punk Ian Dury e seus Blockheads e “Movin’ Out (Anthony’s Song)” do clássico The Stranger” (1977)  de Billy JoelMalcolm McLaren, um dos maiores ícones da música mundial – empresário dos Sex Pistols e de uma vasta legião de bandas – em 1983 lançou Duck Rock” este que continha a canção “Double Dutch”, que Scorsese escolheu para a trilha do filme.

A refinada “No Greater Love” (1958), do pianista de jazz Ahmad Jamal Trio, também figura na trilha, assim como John Lee Hooker com o clássico do blues “Boom”, uma das 500 músicas da lista da fama da revista Rolling Stone. Johnn Lee inclusive ganhou 2 Grammys como melhor álbum de blues tradicional pelos trabalhos I’m in the Mood” (1990) com Bonnie Raitt e Don’t Look Back” (1998). Teve a sorte de ter seu trabalho reconhecido em vida. Faleceu em 2001.

“Mongoloid” dos nerds mais cools do rock, o DEVO, e seus sintetizadores e epifanias preenchem uma das cenas mais malucas do filme. Me First And The Gimme Gimmes aparecem na trilha fazendo cover de Beach Boys, Mais precisamente da canção “Sloop John B”, escrita pelo lengendário Brian Wilson. O filme se passa em Nova Iorque e seria uma tremenda bola fora deixar a galera do rap fora dessa. Então vamos de clássico! Scorsese escolheu “Hip Hop Hooray” do grupo Naughty By Nature para deixar tudo nos conformes. Outro grande pianista do jazz também entra na trilha, Charles Mingus, com sua envolvente “Wednesday Night Player Meeting”.

O hit do italiano Umberto Tozzi, “Gloria” de 1979, também faz parte. Duvido que nunca escutou a canção do músico na Antena 1. Mas temos new wave também, sim, por favor! Com o grupo francês Plastic Bertrand e “Ça Plane Pour Moi” (1978), um hit de discoteca que tem versões interessantes de grupos como Sonic Youth, Nouvelle Vague The Presidents Of The United States Of America. Uma curiosidade é que poucos meses antes dos vocais da canção serem gravados, a gravadora usou a mesma trilha com os mesmos músicos para lançar “Jet Boy, Jet Girl”. Os vocais da versão em inglês são de Alan Ward, que para quem não sabe é o vocalista do Elton Motello.Uma curiosidade é que poucos meses antes dos vocais da canção serem gravados, a gravadora usou a mesma trilha com os mesmos músicos para lançar “Jet Boy, Jet Girl”. Os vocais da versão em inglês são de Alan Ward, que para quem não sabe é o vocalista do Elton Motello

Uma das curiosidades da trilha foi essa participação do ator Matthew McConaughey na faixa “The Money Chant” composta por ele em parceria com Robbie Robertson, um dos fundadores do The Band. Saiba mais aqui.

A dupla de eletrônica Dimitri Vegas & Like Mike inclusive fez uma versão insana e a apresentou no Tomorrowland de 2014.

Caso queira saber mais sobre a trilha completa, basta uma rápida pesquisa na rede social, IMDB. Então, finalmente vamos chegar ao seleto grupo das 16 faixas do disco da Virgin.

Lançado logo após o filme, no dia 17 de Dezembro de 2013, é em geral uma coletânea bastante eclética, assim como as anteriores que falamos por aqui. O que só deixa ela ainda mais interessante.

“Mercy, Mercy, Mercy” do Cannonball Adderley Quintet, liderado por Julian Edwin “Cannonball” Adderley, um jazzísta e mestre do saxophone da hard bop era (50’s, 60’s). Inclusive este é o single que mais o tornou conhecido, além, claro, de seu trabalho ao lado de Miles Davis – ele fez parte do lendário álbum Kind Of Blue” (1959) do astro do jazz. A canção conta na banda com seu irmão na corneta, Nat Adderley, e foi lançada no formato de quinteto no ano de 1966, gravada no Capitol Studios de Los Angeles. É um jazz classudo e visceral, um clássico.

Em seguida temos Elmore James com a canção que já falamos acima, a belíssima “Dust My Bloom”. A próxima é “Bang, Bang” de Joe Cuba, um americano descendente de porto riquenho que com sua ginga fez a América dançar com sua envolvente salsa!

“Movin’ Out (Anthony’s Song)”, de Billy Joel, é a seguinte na trilha, e na sequência temos a maravilhosa canção burlesca que flerta com jazz “C’est Si Bon” da americana Eartha Mae Keith. Uma voz delicada e autêntica, ela tem origens do teatro e era cantora de musicais, comediante de stand-up, ativista e dançarina. Ufa, alguém com muito a nos acrescentar e de quem vale a pena conhecer a história. A canção em francês foi lançada no ano de 1953.

“Goldfinger” é um cover, originalmente estrelada por Shirley Bassey na trilha de 007, tema do filme de mesmo nome. Porém, a versão que captou o coração de Scorsese feito uma flecha foi a performada por Sharon Jones & the Dap-Kings, um grupo de funk/soul do bairro do Brooklyn, com influência do melhor do gênero nos anos 70. Um ano após o lançamento da trilha, o grupo foi nomeado para o Grammy.

Sou suspeito demais para falar sobre a próxima faixa, pois envolve um dos meus músicos favoritos de todos os templos, o mestre Bo Diddley. A canção do bluseiro escolhida pelo diretor foi “Pretty Thing”, de 1955. Curiosidade: Foi seu primeiro single a emplacar nas paradas do UK.

O pianista de jazz Ahmad Jamal emplacou mais uma faixa na trilha, Moonlight In Vermont”, uma densa faixa trabalhada no piano e com potencial de te levar para outro plano. É calma, cadenciada, ao mesmo tempo em que é criativa.

A próxima faixa é uma tremenda covardia com as demais, um senhor hit do melhor do blues já feito em Chicago: Smokestack Lightning”, performada por uma das vozes mais marcantes daquela geração, Howlin’ Wolf. A canção está presente no álbum do músico From Moanin’ In The Moonlight” (1959).

Se a próxima música não te colocar para dançar, nenhuma outra o fará. Quem vem com seu funk/disco energético direto do túnel do tempo dos anos 60 quebrar tudo é o saxofonista Jimmy Castor Bunch com “Hey Leroy, Your Mama’s Calling You”, do ábum Leroy” (1968).

Em seguida temos a já comentada “Double Dutch” de Michael McLaren. Logo depois temos mais uma canção new wave/post punker: “Never Say Never”do Romeo Void de 1981. Vocal feminino, beats dançantes e muita fúria degenerativa direto dos criativos anos 80. Voltamos para os dias de hoje com a ultrajante, american rock & blues, caipirona e competente banda 7horse. Recomendo ouvir Meth Lab Zoso Sticker” bebendo um drink com Jack Daniels – ou depois de uma maratona de Breaking Bad. A vibe se transforma no meio do caos hibilly. O primeiro álbum do grupo, Let the 7Horse Run”, veio ao mundo no ano de 2011 e te convida a balançar os quadris.

Eu vou até vou dispensar comentários sobre “Road Runner” de Bo Diddley, pois acredito que um clássico fala por si só.

“Mrs. Robinson” é uma canção originalmente composta pelo duo Simon & Garfunkel em 1968 – e teve seu álbum altamente premiado. Porém, a versão que marcou a geração dos anos 90 foi a dos The Lemonheads, e esta foi escolhida pelo time de Scorsese para o filme. Já para quem é mais velho, deve lembrar da belíssima versão que Frank Sinatra fez em My Way” (1969). Os estranhos do folk/punk Andrew Jackson Jihad também tem uma versão digna. Já os hard rockers do Bon Jovi vira e mexe em shows costumam tocá-la.

Para fechar a trilha com dignidade, calmaria e classe temos Allen Toussaint, um mestre da soul music/R&B/funk/blues/jazz da cidade da música, New Orleans. “Cast Your Fate To The Wind” (1962) do astro do jazz Vince Guaraldi e seu Trio. Através dela mostram o poder da música em expressar sentimentos através de suas notas. 

wolf

A trilha merece ser ouvida e reouvida com certa periodicidade para que assim seja possível extrair seu melhor. Ela é difícil para pessoas que não estão acostumadas com o encanto do jazz, do blues e da soul music, porém ela é urgente. Não deixe de também usar esse texto como abertura para se aventurar pelo jazz. Em São Paulo, por exemplo, temos O JazzB (Vila Buarque) e o Bourbon Street (Moema), onde podemos desfrutar do estilo. No sábado (18), no Dia da Música, o Parque Villa Lobos receberá a segunda edição do festival BB Seguridade de Blues e Jazz, mais uma dica para quem quer aproveitar a cultura da cidade com entrada 0800. E agora o que nos resta é saber qual vai ser a próxima epopeia musical de Martin Scorcese

Donnie Darko: A lua sangrenta, o coelho das trevas e a trilha apocalíptica para o fim do mundo

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Donnie Darko
arte por Rogue Wombat

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Filmes muitas vezes por mais ~sessão da tarde~ que aparentem ser, podem conter trilhas sonoras um tanto quanto maravilhosas e cheias de pérolas musicais. Alguns são mais lembrados que outros, outros são imortalizados por alguma espécie de cult hype.

Donnie Darko (2001)

E esse é o caso de Donnie Darko!

Eu sei que alguns amam esse filme e outros ficam confusos, tanto com a trama quanto por seu desfecho. O filme de 2001 mescla estilos como ficção científica, drama e terror e não teve sucesso comercial imediato. Porém, com o passar dos anos, numa espécie de boca-a-boca, foi resgatado e ganhou ares de “clásssico cult”.

Boa parte disso é por conta da obra ser a primeira aventura cinematográfica de Richard Kelly. O filme chegou até a estrelar e ganhar várias premiações técnicas pela trama, e principalmente por ela… Sua incrível e respeitável trilha sonora.

Mas antes disso, vamos falar do elenco de Donnie Darko, afinal de contas ele é de tamanho respeito – e de dar inveja a muito filme vencedor de Oscar. Quem ainda jovem teve a árdua tarefa de interpretar o neurótico Donnie foi ninguém mais, ninguém menos que Jake Gyllenhaal (de Brokeback Mountain, pelo qual foi indicado ao Oscar como melhor ator coadjuvante, Prince Of Persia: The Sands Of Time e O Dia Depois de Amanhã e da comédia Jimmy Bolha). O crítico de cinema Gary Mairs (CultureVulture.net) comenta:

“Gyllenhaal alça o truque difícil de parecer tanto uma pessoa suavemente normal como uma profundamente perturbada, frequentemente dentro de uma mesma cena”.

O elenco ainda conta com Drew Barrymore (E.T. (1985), Pânico, As Panteras, Batman Forever, Como Se Fosse A Primeira Vez), Ashley Tisdale (Cantora e atriz com participação em High School Musical, Todo Mundo Em Pânico 5 e vozes em Vida de Inseto e Phineas And Ferb), Noah Wyle (Piratas do Vale do Silício e do seriado de TV E.R.), Maggie Gyllenhaal (irmã de Jake e participou de vários filmes, incluindo Mais Estranho que a Ficção e Batman: The Dark Knight), Jena Malone (Jogos Vorazes, Batman Vs. Superman, Suckerpunch), Mary McDonnell (Independence Day, Pânico 4, E.R.), Daveigh Chase (O Chamado, Lilo & Stitch, Inteligência Artificial) e o ator mais icônico das décadas de 80/90, que infelizmente nos deixou, devido a um câncer, em 2009: Patrick Swayze.

Ou seja, só pelos filmes citados – alguns grandes trabalhos e atuações, outros alguns grandes blockbusters – percebemos que o filme ajudou a revelar para o mundo grandes nomes do cinema dos 00’s.

SUIT

A história de Donnie Darko se desenvolve numa cidade suburbana estadounidense, no fim dos anos 80. Donnie, é um garoto considerado problemático que inclusive já foi preso por atear fogo na casa de sua família. Certa noite, um coelho gigante todo dark ~maligno~ acorda Donnie, e o leva até um campo de golf onde ele passa a noite. Quando acorda, descobre que o coelho na verdade salvou sua vida, pois naquele noite uma turbina de avião despencou do céu caindo exatamente em sua cama. Numa espécie de Alice no País das Maravilhas, o coelho profetiza que o mundo acabará em 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos.

Tempo

Ouriçado, Donnie começa a aventura de tentar desvendar todo mistério por trás das intenções do coelho perverso. E faz todas as “loucuras” que o coelho lhe pede, como destruir o encanamento da escola durante a noite – o que causa uma enchente em grandes proporções, e queimar a casa de um palestrante motivacional.

Nessa fase nebulosa, ele questiona ao coelho se ele acredita em viagem no tempo. A partir disso, ele fica entusiasmado pelo tema e pesquisa sem parar sobre, inclusive entrando no campo de teorias de física quântica, tirando as dúvidas com seu professor. Tudo isso tendo como base o livro do lendário lorde do terror Stephen King, Uma Breve História do Tempo.

Curiosidade: O diretor Richard Kelly é filho de um físico da NASA. Ou seja, toda essa “brisa” tem sim fundamento científico qualificado. Não foi apenas uma discussão jogada ao vento.

O professor, por sua vez, vendo este interesse de Donnie, indica o livro que começa a pautar sua vida e as coincidências: o filosófico Filosofia da Viagem no Tempo – escrito por uma vizinha idosa do protagonista, Roberta Sparrow. Sendo assim, Donnie Darko é sobre o tema filosófico do existencialismo. Sobre o que é o mundo real, a noção de espaço metafísico e uma crítica sobre como vivemos nossa vida. Em certo momento do famoso diálogo entre o Coelho e Donnie podemos notar essa discussão:

“- Por que você usa essa fantasia idiota de coelho? – Por que você está vestindo essa fantasia ridícula de homem?”

O filme também tenta ditar como será o futuro de uma maneira um tanto quanto orgânica, graças às habilidades de Donnie, que através de uma bolha quase líquida que sai do seu peito indica o caminho a ser seguido.

O conflito entre o destino e o livre arbítrio. A história sobre um anti-herói que vive além dos dramas adolescentes, atrelado a um senso crítico, metódico e calculista sobre a realidade. O que só serve de combustível para se rebelar contra ela.

Como disse, o filme é um pouco complicado para quem acha que vai ser um blockbuster óbvio. Tanto é que no site do filme, após seu relançamento (2004), foram colocados trechos do livro Filosofia da Viagem no Tempo para melhor compreensão. No Youtube podemos encontrar diversos vídeos tentando ajudar os mais ~perdidos~.

PS: O vídeo abaixo contém SPOILERS. Veja apenas se já tiver assistido o filme:

A Trilha

Mas estamos para falar sobre a trilha e não para confundir vocês. E ela, meu amigo, é demais. Lançada em 2002, contando as faixas da primeira versão do filme, contém 18 canções, sendo 16 delas autorais por Michael Andrews e a originalmente escrita pelo Tears For Fears “Mad World”, originalmente na trilha de 2001 performada por Gary Jules e Michael Andrews.

Inclusive, “Mad World”, escrita por Roland Orzabel e lançada em 1982 no álbum “The Hurting” foi influenciada pelo escritor Arthur Janov,  que escreveu Primal Therapy: The Cure for Neurosis”datado de 1970, onde relata suas experiências com seus pacientes durante os meses da descoberta da terapia do grito primal.

O método “Primal Therapy” criado por Arthur argumenta que a neurose é causada pela repressão da dor durante o período da juventude, o que faz com que quem sofre dela entre num ciclo eterno em re-experimentar toda a dor que ele sentiu e foi de certa forma armazenada no subconsciente. Ou seja, é uma terapia um tanto quanto masoquista, visto que se baseia em voltar a sofrer para enfrentar seus traumas, frustrações, raivas, histeria e violência.

Algo que nos ajuda de forma involuntária a entender perfeitamente a paranoia de Donnie Darko. Sim, a música poderia facilmente ter sido composta pelo R.E.M.

Donnie Darko (2002): Soundtrack por Michael Andrews

“Carpathian Ridge” – 1:35
“The Tangent Universe” – 1:50
“The Artifact and Living” – 2:30
“Middlesex Times” – 1:41
“Manipulated Living” – 2:08
“Philosophy of Time Travel” – 2:02
“Liquid Spear Waltz” – 1:32
“Gretchen Ross” – 0:51
“Burn It to the Ground” – 1:58
“Slipping Away” – 1:17
“Rosie Darko” – 1:25
“Cellar Door” – 1:03
“Ensurance Trap” – 3:11
“Waltz in the 4th Dimension” – 2:46
“Time Travel” – 3:01
“Did You Know Him?” – 1:46
“Mad World” (regravação da música original de Tears For Fears) – 3:08
“Mad World (Alternate Mix)” (regravação da música original de Tears For Fears) – 3:37

Porém, o disco que estamos aqui para revisitar e encher de elogios é Donnie Darko (2004): Disc 2. Este que coincidiu com o relançamento de Donnie Darko, em 2004, e foi lançado como expansão de sua trilha sonora. Ele conta com hits dos anos 80 que são a marca registrada do filme cult. Vamos analisá-las então!

De cara temos “Never Tear Us Apart” do INXS. A banda australiana de 1977 perdeu seu vocalista 20 anos depois em uma morte – estranha – em um motel, envolvendo práticas sexuais nada ortodoxas segundo alguns. Outros dizem que ele tinha mesmo era uma doença grave – e resolveu por um ponto final em sua vida. A banda encerrou suas atividades em 2012. A canção é linda e perturbada, ou seja, perfeita para a profundidade da narrativa de Donnie Darko. O sax tem um ar de morte e ecoa diretamente em sua alma, na melancólica balada.

O Tears For Fears vem em seguida para arrepiar ainda mais. “Head Over Heels” cria uma atmosfera ainda mais intimista e desesperada, soando como um conflito desde o começo de sua melodia. Ao ouvir essa música a primeira coisa que me remete é um fim de tarde de domingo chuvoso, ou seja, uma bela de uma fossa.

Para nos jogar nos subúrbios dos anos 80, na mesma linha de New Model Army, vem “Under The Milky Way”, single de 1988 do The Church, com um certo cheiro de morte e elementos que marcaram a década. Solos precisos na linha dark wave e neo-psicodelia aliados a uma interessante gaita de fole… uma viagem no tempo.

Em seguida temos duas faixas compostas por Sam Bauer e Gerard Bauer. A instrumental “Lucid Memory” conta com guitarradas e percussão com cara de trilha sonora de video-game. Já “Lucid Assembly” vem numa levada 8-Bits que me remete a esse vídeo feito por fãs da trama:

Logo depois vem a fantástica ópera “Ave Maria” composta por Giulio Caccini & Paul Prichard, em uma vibe completamente pós-apocalíptica. A bonita canção é capaz de destruir bem mais do que a turbina do avião da trama. Aliás, é bem paradoxal termos essa música na trilha, já que o filme questiona a religiosidade e a hipocrisia familiar.

Talvez a música responsável por um dos momentos mais dramáticos do roteiro seja “For Whom The Bell Tolls”. Não, não estou falando da canção do Metallica, e sim a erudita canção do duo Steve Baker & Carmen Dave. Ao final da canção você se questiona: porque você está usando essa estúpida fantasia de homem?

Ainda na linha mais Enya, temos Quito Colayco e Tony Hertz com “Show Me [Part. 1]”, com uma densa cantiga erudita. Nesta altura o tom dramático e existencial ganha outro nível de densidade. Tudo para logo depois te colocar na pista de dança ao som do potente baixo a la Flea de “Notorious”, do Duran Duran. Quer mais anos 80 que isso? Impossível. Clássico demais, a chance de você colocar no VH1 e estar passando o clipe é razoavelmente significativa. Hit que lota as festas Trash 80’s, sem sombra de dúvidas. Neste momento você se vê vestindo ombreiras e dançando com o manequim da loja que estiver passando o video.

Chover no molhado é elogiar “Stay” do Oingo Boingo. Baita canção né? Daquelas que te colocam no DeLorean a caminho dos anos 80. A balada romântica tem uma levada que brinca com a temática country e fez a alegria das pistas de dança da época. Tem até metais que me remetem ao belo ska do Madness – e sua loucura, literalmente.

Para quebrar as pernas de todo mundo, a trilha ainda tem algo para culminar com o desfecho de nosso amigo Donnie: “Love Will Tear Us Apart” do Joy Division. Um filme sobre os anos 80 com trilha post-punk e personagem com esquizofrenia não poderia JAMAIS deixar este clássico de fora. Um tremendo gol de letra da trilha. Para fechar o disco com muita dignidade e vendo o mundo desabar, nada mais NADA como “The Killing Moon”. Cheia de trevas, escuridão, apocalipse e veneno, o hit do Echo & The Bunnymen é talvez a mais lembrada e querida pelos fãs.

Em 2009 saiu uma espécie de sequência do filme, S. Darko – Um Conto de Donnie Darko, esta focada na vida da irmã de Donnie, Samantha (Daveigh Chase). A sequência foi trucidada pela crítica e não tem quaisquer relação com a obra de Richard Kelly, segundo ele mesmo. A direção do fiasco ficou por conta de Chris Fisher. Mas como não se vive do passado, vai aí uma dica para fãs da série: em março deste ano a DarkSide Books lançou uma nova edição do livro Donnie Darko. Segundo amigos que já compraram, além da incrível capa, a obra vem com um marcador de página do avião do filme. Demais, né?

O livro Donnie Darko foi lançado recentemente no país pela editora DarkSide Books
O livro Donnie Darko foi lançado recentemente no país pela editora DarkSide Books

Garimpo Sonoro #1 – 3 dicas para você começar a gostar de música clássica

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Glenn Gould

Trabalhei alguns anos numa grande livraria e durante boa parte da minha passagem fiquei na seção de Música Clássica, que era isolada do resto da loja por uma parede de vidro. Lá, tinha alguns benefícios, como: geograficamente, já havia uma pré-seleção de clientes, o que diminuia consideravelmente os aborrecimentos; sempre precisava ficar alguém na sessão, mesmo que ela estivesse sozinha, o que garantia uma mínima tranquilidade; e, talvez o mais importante, eu detinha o controle da trilha sonora da seção.

Nesse período, pude explorar todos os CDs possíveis, descobrindo coisas incríveis, sob os mais variados critérios: “que capa foda”, “que muié bonita!”, “ah, foda-se, vai ser esse mesmo” e por aí vai. Também tive as recomendações de grandes amigos que fiz por lá (Luis Cláudio e Fábio Bonillo são apenas dois dos mentores musicais dessa época).

Desse garimpo diário (seis vezes por semana, das 13h40 às 22h), guardo com grande respeito ao menos três solistas, que compartilho com vocês (para aqueles que não são tão adeptos à música clássica, um pouco de paciência e ouvidos abertos, tanto quanto os corações, por favor).

1- Glenn Gould

Glenn Gould

O pianista canadense inspira amor e ódio: há quem acredite que ele resgatou a essência de se tocar Bach (sem o jeito afetado da era Clássica, investindo numa exatidão bem Barroca); e há quem ache que ele mata qualquer paixão na música.

Mas basta ouvir algumas notas para perceber que há algo de diferente nele. As notas não se misturam, não se sobrepõe. Cada uma tem vida própria, conversam entre si numa harmonia tão fascinantemente exata. E, para os hipsters, saibam: dois anos antes dos Beatles decidirem parar de fazerem turnê, Glenn Gould já havia decidido abandonar os palcos, focando apenas em gravações e programas de rádio (vale a pena ouvir “The Idea Of North”, com uma orquestração de relatos).

Outras duas características interessantes: ele só tocava cantarolando e nunca sentou ao piano sem sua cadeira de estimação, feita pelo pai e muito baixa. Ele também arrumou muita briga com puristas por mudar os tempos das obras.

Vejam isso e me digam se não é intrigante!

2- Jacqueline Du Pre

Jacqueline Du Pre

Dela eu sei bem menos que Gould, mas a intensidade com que ela toca o cello é dilacerante. É impossível não se contaminar com a abordagem que ela dá, principalmente em sua obra prima, a interpretação do Concerto para Cello de Elgar.

Há muitos anos, escrevi o seguinte sobre os primeiros minutos do vídeo abaixo:

“Como uma súplica, as primeiras notas expressam um desespero agonizante. Após um leve sussurro dos sopros, tomado por um cansaço, o solo passa a ser menos desesperado, mas não menos triste. As violas entram para acalentar esses pensamentos e são correspondidas pela mesma melodia, carregada de sentimentos. Esse diálogo permanece e se intensifica até seu apogeu, com a entrada do tímpano e toda a orquestra seguindo o tema, escrito após o compositor acordar de uma cirurgia.”

3- Mitsuko Uchida

Mitsuko Uchida

Essa é uma diversão vê-la fazer caras e bocas enquanto sola AND rege a orquestra (algo que um músico acadêmico me disse ser altamente complexto). Além disso, nunca consegui encontrar uma versão desse Piano Concerto de Mozart que chegue perto da intensidade que Uchida conseguiu. Se precisa de uma música que te dê um gás, essa é perfeita:

Saca só:

Extra: Jacques Loussier

Jacques Loussier

Se você achou um porre as três sugestões acima, mas conseguiu se arrastar até aqui, um agrado (pelo menos para quem se interessa por jazz). Jacques Loussier resolver adaptar várias obras eruditas para um trio de jazz, dando pitacos de improviso para a exatidão militaresca da música clássica:

Tem alguma indicação de música erudita que seja bacanuda pra compartilhar? Manda pra cá!