Cantarolando o antigo cântico fúnebre de “Lyke Wake Dirge”, do Pentangle (1968)

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Pentangle
Pentangle

Cantarolando, por Elisa Oieno

Pentangle era uma banda fascinada por temas medievais, pela mitologia e música tradicional britânicas. O som deles é tão distinto que a classificação ‘folk-jazz’ parece muito simplista, mas até que dá uma boa ideia. A marcante voz feminina do grupo pertence a Jacqui McShee, co-fundadora do grupo ao lado do violonista John Rebourn.  Àquela altura, John já dividia um flat com Bert Jansch e os dois já se apresentavam em diversos cafés, os pequenos ‘clubes de folk’ pela Inglaterra, os recantos hipsters da época. Com um estilo de violão de escola clássica e tradicional, mas combinada com o moderno jazz e incorporando elementos do blues, Bert e John formariam uma parceria ilustre no mundo do ‘folk revival’ dos anos 60 [a propósito, já falei um pouco sobre ‘folk revival’e do Bert Jansch aqui nesta coluna há um tempinho, vejam lá!]. Naturalmente, Bert passou a integrar a formação do Pentangle.

John Rebourn e Bert Jansch

Vale lembrar que Bert Jansch foi um dos mais influentes artistas do folk britânico. Ele muitas vezes cantava e tocava canções antigas e tradicionais fazendo-as soar modernas e ‘cool’, ao invés de teatrais e bobinhas. Isso tudo com uma habilidade impressionante no violão, mas que passa longe, muito longe do firulento. A influência do Bert Jansch também ultrapassa o estilo meramente ‘folk’ – Jimmy Page, Johnny Marr, Paul Simon e Neil Young, por exemplo, já se declararam fãs e admitiram influência dele em seus próprios estilos. Certa vez, Neil Young afirmou que o Bert Jansh está para o violão assim como o Jimi Hendrix está para a guitarra elétrica.

Dito isso, vamos à canção cantarolada de hoje. Apesar da distinta cama de violões do Pentangle e de sua ‘cozinha’ jazzística do contra-baixo de Danny Thompson e da bateria de Terry Cox, o forte da faixa “Lyke Wake Dirge” é a longa melodia e as vozes em coro. A parte instrumental é singela, e serve apenas para dar um suporte ao tom solene e ancestral desse cântico fúnebre.

“Lyke Wake Dirge” é tipicamente uma canção folk. A letra é em inglês arcaico, um dialeto da região de Yorkshire, norte da Inglaterra. O sotaque do pessoal dessa região é fortemente influenciado por esse dialeto. Trata-se de um poema tradicional medieval, porém é provável que tanto o poema quanto o cântico tenha origens pré-Cristãs, ou seja, deve ter surgido originalmente de um ritual ou tradição do povo celta. Do jeitinho que os artistas do folk revival gostam.

Porém, as imagens e a idéia da letra que se tem registro é totalmente cristã. É um cântico para ser entoado no momento em que se vela um falecido. A palavra ‘lyke’ significa cadáver, inclusive uma de suas variações é “lich”, uma criatura mitológica do morto-vivo, o ser cadavérico, como o Lich da Hora da Aventura, por exemplo. Mas nesse caso quer dizer simplesmente ‘morto’ mesmo. “Wake” é no sentido de ‘watch’, velar o corpo. E ‘dirge’, traduz-se como hino fúnebre.

A mensagem não é lá muito confortante, como era de se esperar, já que é um cântico da Idade das Trevas. É meio que um aviso que se você, no caso o falecido, não levou uma vida de caridade, irá espetar os pés nos espinhos do pântano do purgatório. E vai doer. Você também não conseguirá passar pela ponte estreita em direção aos céus, e irá cair em chamas. Porém, os versos sempre terminam com a reza “E que Cristo receba sua alma” [And Christe receive thy saule]. Quem fica, pelo menos está na torcida pra que dê tudo certo para o coitado.

Apesar de a temática ser fúnebre e sombria, a Lyke Wake Dirge do Pentangle não se esforça para manter um tom soturno e triste, mas sim preza pela beleza da melodia e pela homenagem à tradição. E faz isso de uma maneira inconfundível. A faixa está no disco ESSENCIAL “Basket of Light”, de 1969.

Cantarolando: os climas pesados de “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones (1969)

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Rolling Stones

Cantarolando, por Elisa Oieno

O ambiente da clássica “Gimme Shelter” é tenso. Uma eletricidade estática no ar, um clima carregado como naqueles momentos antes de cair uma tempestade. Também pudera, já que os tempos estavam começando a ficar sombrios: era o auge da Guerra do Vietnã, a garotada estava sendo convocada pra morrer, protestos violentamente reprimidos ao redor do mundo.

Esse contexto geral influenciou o mood do disco “Let it Bleed”, mas também havia o clima interno da banda, que estava meio pesado com a expulsão de Brian Jones em razão de sua deterioração física e psicológica por conta do abuso das drogas. Um mês após sua demissão, Brian Jones morreu – ou foi assassinado, como alguns afirmam.

Para coroar, no fim daquele ano ocorreu o Festival de Altamont, que reuniu alguns dos principais artistas da época e uma multidão de jovens. A intenção era ser como um outro Woodstock, mas algo havia mudado. O clima não era mais de paz e amor, era de revolta e desilusão. Estava carregado de tensão e hoje o festival é mais lembrado como um evento violento e trágico. Durante os shows estavam surgindo diversos focos de brigas e confusão. Até que no show do Rolling Stones, um rapaz que supostamente estava armado foi espancado até a morte pelos seguranças – aliás, a segurança era feita pelo grupo de motoqueiros Hell’s Angels, conhecidos pela conduta violenta… alguma merda ia dar, né. Além da morte desse rapaz, houve um atropelamento e um afogamento durante o festival.Resultado de imagem para rolling stones altamont 1969

Mas, além do cenário apocalíptico, das imagens violentas e do clima tenso e elétrico de Gimme Shelter, a gravação desta faixa também tem uma peculiaridade sombria, especificamente na desoladora e brilhante performance da cantora de soul Merry Clayton, que canta o refrão da música.

 

Merry foi chamada por acaso para a gravação dos vocais, no meio da madrugada. Eles precisavam uma voz feminina para o refrão e a cantora que queriam não estava disponível. Mesmo estando em um estágio avançado da gravidez, ela aceitou. Apareceu no estúdio com bobes nos cabelos e um barrigão, terminou a gravação em apenas três takes. Queria voltar logo para casa e dormir, e entregou uma performance de deixar o queixo caído. Neste áudio isolado dos vocais, dá para ouvir os Stones impressionados no estúdio.

Porém, pouco depois de voltar para casa, Merry sofreu um aborto espontâneo, o que a fez passar por um período extremamente difícil. Ela afirma que passou anos sem conseguir ouvir a Gimme Shelter, após alguns anos acabou superando o trauma e até passou a cantar sua própria versão de Gimme Shelter, a canção que a fez famosa.

Merry Clayton fez sua carreira como cantora de suporte de diversos artistas como Ray Charles e Carole King, sendo uma voz muito reconhecida. Está na ativa até hoje, porém desde 2015 se recupera de um acidente de carro que a fez ter suas duas pernas amputadas. Pesado.


“Gimme Shelter” é totalmente conectada com o que estava acontecendo ao seu redor quando foi escrita, tanto que é tida como um dos símbolos do fim da era hippie “paz e amor”. E ainda permanece impactante, como uma canção clássica consegue.

As minas do rock de “Gente Fina é Outra Coisa” (1973), das Cilibrinas do Éden

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Cilibrinas do Éden
Cilibrinas do Éden

Cantarolando, por Elisa Oieno

Após sair – ou ser saída – dos Mutantes, Rita Lee teve que começar tudo de novo. Desta vez, representando definitivamente sua emancipação musical e cortando o cordão umbilical que ainda restava com os irmãos Baptista, voltou de um período sabático em Londres com o icônico cabelo vermelhaço e foi convidada para fazer um show em um mega festival da gravadora Philips, ocasião em que pensou ser uma boa para montar uma banda nova.

O nome escolhido para a banda foi Cilibrinas do Éden, inicialmente uma dupla formada por Rita Lee e Lucia Turnbull. As canções eram acústicas e valorizavam as vozes de Rita e Lucia, com beleza e sutileza. As letras tinham uma conotação rebelde e o ponto de vista era sempre feminino, como nessa “Gente Fina é Outra Coisa”:

 

E eu sei que você está com medo de dar
E o que vão pensar
Não vá se misturar com esses meninos cabeludos
Que só pensam em tocar
E você escuta o papai dizendo

Que gente fina é outra coisa
Mas gente fina é outra coisa

Esse trecho representa praticamente todas as meninas adolescentes se rebelando contra os pais, que acabaram de descobrir o rock, e, consequentemente descobriram os meninos cabeludos que tocam rock. Na canção, uma garota está tentando convencer o amigo a não se render aos valores ‘caretas’ do pai dele. Nas palavras do censor – sim, a música foi censurada: “Na letra em exame, uma jovem insurge-se contra o pátrio-poder, ao tentar persuadir um amigo a desacreditar de seu pai para juntar-se a um grupo juvenil de comportamento duvidoso”.

A apresentação de estréia do Cilibrinas do Éden no festival foi um fracasso. Talvez porque em 1973 o público não estava em clima de sutilezas, as ‘minas do rock’ foram vaiadas impetuosamente. Possivelmente foi um problema parecido com a apresentação do Incredible String Band no Woodstock, sobre a qual eu já falei nessa coluna um tempo atrás..Image result for cilibrinas do éden phono 73

A própria Rita Lee, em sua biografia, diz que a apresentação foi frívola, tolinha, coisa de menininha, estando inclusive usando uma tiara de joaninha e Lucia, asas de anjinho no show – apesar de as músicas não terem nada de tolinho.

Porém, vale dizer que algo ser feminino e sutil é muito diferente de ser bobinho. Mas em 1973 – e, cá entre nós, até hoje é meio assim – o rock ainda não tinha percebido isso direito, então as mulheres tinham que fazer barulho e terem uma postura mais agressiva para serem ouvidas. Se uma mulher se metesse a tocar violão ou guitarra, ela tinha que ser a fodona para ser levada a sério. E Lucia Turnbull era – inclusive, na época em que andava com os Mutantes, sempre era desafiada por Sergio Dias, sabidamente vaidoso com sua habilidade no instrumento. Lucia é considerada a primeira guitarrista mulher do Brasil.

Então, após a apresentação do festival, Rita e Lucia resolveram deixar a banda mais elétrica e mais rock’n’roll. Convidou Luis Sérgio Carlini e do baixista Lee Marcucci e entraram no estúdio para gravar. Terminadas as sessões de gravação regadas a ácido, o resultado foi um disco que nunca foi lançado. Esse disco se tornou uma raridade, e foi relançado em 2000 como pirata, pelo selo Nosmokerecords.

Essa formação é o que viria a se tornar o Tutti Frutti, tendo a Rita Lee como destaque da banda, por imposição da gravadora. Isso acabou gerando desconfortos, e Lucia deixou o grupo após o primeiro disco “Atrás do Porto Tem Uma Cidade” (1974).

A partir de então, Rita Lee se tornou a Rita Lee popstar que conhecemos hoje. Lucia continuou gravando, e participou de discos importantes de diversos artistas, desde Guilherme Arantes até Gilberto Gil, mas hoje leva uma vida mais lo profile.

Rita Lee tem um papel importante e, durante muito tempo, quase que exclusivo no rock nacional: o de ser uma referência feminina dentro de um estilo tão masculino. Referências femininas ajudam a vida das meninas que querem – e precisam – se rebelar, se emancipar. Assim como a moça roqueira da “Gente Fina É Outra Coisa”, as referências femininas, em qualquer área da vida, são aquela voz amiga que não te deixa se conformar com valores ultrapassados, e te ajuda a se libertar. O que mais quer uma mina do rock, afinal?

Cantarolando: o folk torto de “Cyanide Breath Mint”, do Beck (1994)

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Beck

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção cantarolada de hoje faz parte do disco “One Foot In The Grave”, de 1994 – o quarto álbum de Beck, gravado e lançado pelo selo independente K Records. Esse disco foi gravado logo antes, porém lançado depois de “Mellow Gold” (1994), o improvável álbum de sucesso completamente anti-comercial que contém o hit ‘Loser’, talvez até hoje o refrão mais conhecido de Beck.

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Diferente de “Mellow Gold”, que incorpora em seu som elementos do folk, rock, psicodelia e hip-hop, “One Foot…” é essencialmente um disco folk. Prioriza as letras e as levadas simples acústicas e a estética lo-fi. Porém, com aquela vibe forte dos anos 90, de uma aparente – e completamente calculada – displicência, desencantamento e decadência, com letras irônicas e imagens ácidas e desiludidas. Muito de Dylan e muito de Nirvana.

Também diferente de “Mellow Gold”, o álbum foi um fracasso comercial, não emplacando nenhum single em parada de sucesso, apesar de ter ganhado a atenção da crítica.

“Cyanide Breath Mint” é uma das minhas favoritas do Beck, e talvez seja especial para ele também. Isso porque foi o nome que ele escolheu para sua própria editora de música, Cyanide Breath Mint Music, através da qual publicou e distribuiu diversos dos seus próprios álbuns e singles, além de trabalhos de outros artistas como Jon Spencer Blues Explosion e até um disco do Johnny Cash.

Beck

Talvez a escolha do nome para a editora também esteja relacionada com o sentido da própria canção, que possivelmente se refere à indústria de música. Meio que como um veneno que faz você ficar cheiroso e apresentável, a balinha de menta de cianeto.

Logo de cara, a primeira frase da canção é altamente identificável por qualquer adolescente e jovem adulto em praticamente qualquer situação: “Definitivamente este é o lugar errado para se estar”, mostrando imagens de decadência como sangue no colchão e um moleque bebendo fogo, talvez uma referência ao uso de drogas e à molecada meio perdida, cenário muito presente na música alternativa desiludida com o estilo de vida dos anos 90.

Depois, uma sequência de imagens que por incrível que pareça, faz muito sentido. Especialmente as pessoas apertando as mãos delas mesmas e cuidando delas mesmas. Uma imagem forte tanto de uma sociedade individualista, quanto de uma indústria ensimesmada, tal como a da música.

Definitely this is the wrong place to be

There’s blood on the futon

There’s a kid drinking fire

Going down to the sea

They got people to meet

Shaking hands with themselves

Looking out for themselves

Uma das minhas frases favoridas da letra é: “I’ve got a funny feeling, they got plastic in the afterlife” (eu tenho uma sensação estranha, que eles têm plástico na vida após a morte). O que ele vê é tão sintético e falso que dá a impressão até de ultrapassar a vida, como se o falso, ao menos para eles, fosse maior e mais importante que o verdadeiro. Isso pode ser encarado tanto como uma crítica ao estilo de vida de consumo, quanto à superficialidade do showbizz.

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Como vocês devem ter percebido, dá para ficar viajando nessa letra, assim como dá para achar significados tanto pessoais quanto sociais e específicos nas letras de Bob Dylan. Mas o mais interessante aqui é o tom de sinceridade e confidencialidade, o que torna efetivamente “Cyanide Breath Mint” uma canção folk que reflete com precisão o espírito de um jovem “perdedor” observando o mundo, não com melancolia, mas simplesmente de saco cheio.

Cantarolando: o sermão de “God is Alive, Magic is Afoot”, de Buffy St. Marie (1969)

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Buffy St. Marie
Buffy St. Marie

Cantarolando, por Elisa Oieno

Originalmente escrita por Leonard Cohen, a letra dessa canção é na verdade um poema que faz parte do livro “Beautiful Losers”, romance escrito em 1966, antes de ele ingressar na carreira de cantor/compositor. O trecho, chamado “God Is Alive”, tem todo um jeito de sermão, de pregação, até mesmo de mantra. É um belo exemplo da a habilidade lírica de Cohen, às vezes misteriosa e mística, às vezes meio maldita e crítica ou, nesse caso, tudo isso ao mesmo tempo. Esse texto é considerado pela crítica literária um dos melhores de Leonard Cohen.

O poema virou canção interpretada pela conterrânea de Leonard Cohen, Buffy St. Marie. A cantora canadense folk foi popular nos anos 60, além de ser uma das grandes expoentes no mundo pop da etnia indígena Cree, nativos da América do Norte. Ela foi representante do movimento Red Power, que reivindicava o reconhecimento de direitos civis e de territórios indígenas. Os movimentos indígenas eram sistematicamente atacados e silenciados pelo governo. Por causa disso, no início dos anos 70, a cantora entrou para a ‘lista negra’ das rádios americanas, através de avisos enviados diretamente do governo aos DJ’s e apresentadores dos programas. Ou seja, sua música foi praticamente banida em território americano durante o período.

A versão gravada pela Buffy St. Marie é basicamente uma declamação desse poema, mas com toda a força e carga energética que a sua interpretação carrega. Para acompanhar sua voz de entonação poderosa, um violão expressivo e eventualmente alguns efeitos sintéticos na voz, algo raramente utilizado entre os cantores folk. Aliás, o álbum “Illuminations”, de que faz parte esta faixa, é um disco folk considerado experimental, pelo uso de sintetizadores e sons não convencionais, e foi o primeiro disco estéreo quadrofônico – que atualmente chamamos de “surround 4.0”.

 

“Magic is Afoot, God is Alive”, no fim das contas, é tão forte que não é necessário literalmente compreender um sentido para perceber o impacto de seu conteúdo. É possível que esteja falando ou não de um Deus. Pode estar falando de mágica bíblica, cristã, pagã, ancestral, ou de mágica nenhuma. Mas sem dúvida, dá aquela sensação meio hipnotizante típica de quando se ouve um sermão muito bem pregado, ou um mantra muito sonoro, daqueles que te levam para um estado profundo de atenção e reflexão.

Cantarolando: o Sex Pistols pós-punk de “Religion II” (1978), do PIL

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PIL

Cantarolando, por Elisa Oieno

Essa canção provavelmente seria dos Sex Pistols, caso eles tivessem continuado. Foi escrita por John Lydon – o então Johnny Rotten – durante a turnê dos Sex Pistols nos Estados Unidos. Naquele ponto, pouco antes de a banda se separar no auge do sucesso comercial, eles já estavam minguando sem interesse de debuçarem em novas composições.

Os versos revoltados de “Religion II” são resultado de um período altamente criativo que acometeu Lydon durante aquela época, e que seria posteriormente direcionado para o PIL:

Vitrais mantém o frio lá fora enquanto os hipócritas se escondem dentro

Com as mentiras de estátuas em suas mentes

Onde a religião cristã os deixou cegos

Onde eles se escondem e rezam para Deus de uma cadela escrita ao contrário [dog], não por uma raça, um credo, um mundo, mas por dinheiro. Eficaz. Absurdo!

O único Pistol que se mostrou entusiasmado com a canção foi Sid Vicious, mas antes que fosse possível concretizar sua primeira contribuição criativa ao lado de Rotten, ele mergulhou fundo demais na heroína desembocando num estado caótico e o trágico resto da história vocês já sabem.

Após o fim dos Pistols, quebrado, John Lydon conseguiu reunir Keith Levene, um dos fundadores do Clash, na guitarra, o fã de rock progressivo Jah Wobble no baixo, e Jim Walker na bateria. Essa foi a primeira das inúmeras formações do PIL, mas pode-se dizer que é a formação “clássica”, já que as contribuições dos três membros para dar suporte à voz e aos versos incisivos de Lydon foram essenciais para o desenvolvimento da identidade sonora da banda.

A ideia era romper definitivamente com a experiência dos Sex Pistols enquanto banda, e ao mesmo tempo se aproveitar dela. A capa do disco, remetendo a uma capa de revista estampando o conhecido rosto de John Lydon, com um escrito enorme “imagem pública”, é certamente uma referência ao que os Sex Pistols se tornaram para ele, com a ajuda de Malcolm McLaren: uma questão de imagem, fama, moda. Ele dizia que estavam virando um Kiss. Essa provocação também está no próprio nome da banda, “Imagem Pública Ltd.”, parecendo a razão social de uma empresa, escancarando o que uma banda de rock realmente é, meio que como uma meta-crítica, para romper com qualquer discurso de hipocrisia.

O som desse primeiro disco do PIL é muito simbólico quanto à transição do Sex Pistols para essa outra coisa, mais experimental e artística. Uma transição do punk para o que seria chamado de pós-punk. Aliás, é um registro muito preciso do nascimento desse novo estilo que seria um dos mais importantes dos anos 80.

A faixa “Religion II” é um belo exemplo disso. Escrita com a pungência lírica de um Johnny Rotten dos Sex Pistols, irritado com a hipocrisia da Igreja Católica, especialmente no contexto do extenso e sangrento conflito civil entre Reino Unido e Irlanda, o resultado é o de uma canção incisiva, impactante e extremamente consciente, que nos entrega um John Lydon do PIL: a banda com um som completamente novo e experimental.

A canção espacial filhote de Syd Barrett: “Far Out”, do Blur (1994)

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Blur

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção de hoje está no disco “Parklife” (1994), um clássico do britpop dos anos 90. A singela faixa, descaradamente barretteana, é a única do disco escrita e cantada pelo baixista Alex James.

A semelhança desta faixa às canções do Syd Barrett é talvez a primeira coisa que logo de cara chama a atenção: o estilo da melodia, a voz com aquele sotaque britânico carregadão, a temática espacial. Tãão Syd. Difícil não gostar. Isso tudo condensado em pouco mais de um minuto e meio. “Far Out” é daquelas pequenas joias musicais que vira e mexe aparecem em grandes álbuns. Apesar de curtas, são muito redondinhas e suficientes.

De fato, essa faixa é um belo trabalho de edição, já que decidiram retirar o refrão da versão original. O refrão é bem bom, na verdade, e originalmente a canção é mais rápida e energética (veja aqui). Mas a versão curtinha que entrou para o disco, na minha opinião, ficou mais interessante justamente por ter fugido um pouco do formato pop mais previsível, o que realçou a letra e principalmente a vibe.

A letra, uma lista bem-bolada de nomes de luas e estrelas, foi feita por um Alex James visivelmente entusiasta da astronomia:

I spy in the night sky, don’t I?
Phoebe, Io, Elara, Leda, Callisto, Sinope, 1980, S, 2, 7, Janus, Dione, Portia – so many moons!
Quiet in the sky at night, hot in the milky way
Outside in
Vega, Capella, Hadar, Rigel, Barnard’s Star, Antares, Aldebaran, Altair, Wolf 359, Betelgeuse, Sun

Aliás, o Blur é tão entusiasta de astronomia, que eles ajudaram a financiar e a popularizar o projeto da Agência Espacial Britânica chamado “Beagle 2”, o qual em 2003 levou um pequeno veículo espacial – vou chamar carinhosamente aqui de ‘carrinho’ – para Marte a fim de pesquisar sobre novas formas de vida. Nesse projeto, a banda compôs uma canção que seria levada pelo Beagle 2 até Marte, para tocar assim que o carrinho atingisse o solo marciano, avisando à base na Terra que chegou intacto para completar a missão. Infelizmente, o carrinho perdeu contato com a Terra, porém 12 depois, em 2015, a NASA o encontrou. Então provavelmente os marcianos puderam apreciar a canção do Blur, afinal.

Veja abaixo a versão ‘cheia’ de “Far Out”, mesclada à música de Marte. Curtinha ou ‘normal’, essa música é um belo britpop espacial, que às vezes é esquecida no meio dos 52 minutos intensos de Parklife.

Cantarolando: a rotina de um músico de estúdio em “Session Man”, do Kinks (1966)

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Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção de hoje é “Session Man”, que está no álbum “Face To Face” (1966). É uma descrição da rotina de um músico de estúdio, aquele profissional que não faz parte das bandas, mas participa das gravações e álbuns tocando e criando arranjos de algum instrumento, geralmente de forma rápida e eficiente dadas suas habilidades técnicas enquanto músicos.

Alguns desses músicos acabavam ficando conhecidos por ter um estilo próprio bem marcante, como o pianista Nicky Hopkins, que gravou diversos discos do Kinks, e sobre quem eu já falei aqui nesta coluna há um tempinho. Outros acabam deixando a profissão para seguir carreira com suas próprias bandas, como fez o Jimmy Page, que também tocou em algumas faixas dos Kinks.

Existe alguma controvérsia sobre se esta singela canção de pouco mais de dois minutos de duração se refere aos músicos de estudio em geral, ou a um músico específico. É possível também ouvir a música de duas maneiras, uma mais inocente e literal. A outra, em tom sarcástico e ácido.

Importante pensarmos no jeitão do vocalista Ray Davies e a vibe especialmente britânica dos Kinks, que sempre tem uma pontinha de cinismo e sarcasmo, muitas vezes sobre os próprio ‘english way’ de se viver, e geralmente vêm embalados por ótimas melodias. Essa coisa bem britânica e irônica, também muito presente no The Who e no Blur, por exemplo, me faz acreditar mais no tom sarcástico de “Session Man” do que no descritivo neutro que a interpretação literal pode induzir.

Há quem diga que a canção se refere ao Nicky Hopkins. Ele é quem toca habilidosamente o cravo da breve introdução da música. Aliás, o cravo permanece ali, bem no fundo da música mas dando uma ‘graça’, tipicamente como um arranjo de ‘session man’.

Jimmy Page

Há quem diga, ainda, que se refere ao Jimmy Page. Especialmente porque Ray Davies já expressou algumas vezes sua opinião sobre Page: “He’s an asshole”. Eu gosto de ingleses, porque eles ficam se desentendendo o tempo todo e se xingam publicamente com frequência, rendendo boas polêmicas para nós, fãs. Em uma entrevista, Ray Davies contou alguns episódios de Page no estúdio, por exemplo o dia em que os Kinks gravavam a canção “All Day and All of The Night” (1964). Segundo ele, na hora do solo de guitarra do irmão Dave Davies, Page entrou no estúdio e começou a rir e caçoar de suas habilidades na guitarra.

Sendo sobre Hopkins, Page ou ninguém em especial, certamente é possível imaginar tanto a figura de um músico convencido e arrogante, quanto simplesmente a de um profissional com uma relação pragmática com a música, em tom de admiração ou sarcasmo, escolha a que preferir e divirta-se com Kinks.

Cantarolando: A teia de guitarras de “Rain On Tin”, do Sonic Youth (2002)

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Sonic Youth

Cantarolando, por Elisa Oieno

Sabe aquelas músicas que dá um orgulhinho de ouvir? Daquelas que, ao terminar de escutar, dá vontade de chegar na banda, dar um abraço em cada um, e falar em tom embasbacado ‘pô, caras, é isso aí, muito bom mesmo, muito obrigada’. É assim que funciona – pelo menos comigo – com “Rain On Tin”, do disco de 2002 “Murray Street”, do Sonic Youth.

Dá para dizer que “Rain On Tin” é como um resumo de Sonic Youth. Uma definição super-simplificada do que está no prato sonoro servido pela banda ao longo da carreira seria algo como melodia, tensão e improvisações livres. Nisso, “Rain On Tin” é quase literal. Praticamente instrumental, exceto por uma breve introdução cantada por Thurston Moore, para a partir daí desembocar em uma teia de linhas de guitarra muito mais nítidas do que as que se costuma ouvir em trabalhos anteriores, mas que a banda já vinha indicando claramente no disco “A Thousand Leaves” (1998).

Essa teia de guitarras é o que mais soa diferente e maduro, apesar de manter o ponto central do que sempre foi o inconfundível som do Sonic Youth. Um fator que com certeza ajudou a dar aquela expandida nos som da banda foi a entrada de Jim O’Rourke e seu background experimental e improvisacional, formando um conjunto de três guitarras e um baixo.

Desta vez, a banda desenvolve as partes instrumentais de jams com linhas muito mais melódicas e menos noise do que se ouvia anteriormente, esticando as músicas de uma forma muito mais ‘tradicional’ enquanto banda de rock improvisacional. Tanto que a influência de Grateful Dead, por exemplo, se torna bastante evidente no som do Sonic Youth. Lee Ranaldo já se declarou um ‘deadhead’ – alcunha dada aos fãs de Grateful Dead – em diversas ocasiões, e confirmou a referência como algo que ele sempre buscou com os improvisos do SY. Junta-se isso com a escola ‘no wave’, experimentações artísticas e começa a ficar muito claro o mapa sonoro fascinante dessa banda. Sim, estou babando ovo.

A letra da música fala do ataque de 11 de Setembro, que foi responsável pela destruição do estúdio em que eles estavam gravando o disco, localizado na Rua Murrey, próxima às Torres Gêmeas, onde inclusive caiu um pedaço do motor de um dos aviões, representada pela foto de sua placa amassada na contra-capa. A letra simples tem uma imagem forte, do pessoal estarrecido entrando em contato com parentes e amigos, com vontade de ficar juntos abrigados da chuva.

We all hope
To signal kin
Rays of gold
Now rain on tin
Gather round
Gather friends
Never fear
Never again

Nós esperamos    
Sinalizar parentes
Raios dourados
Agora chuva na lata
Reunirmos
Juntar amigos
Nunca sentir medo
Nunca mais

É muito inspirador saber que, após mais de 20 anos juntos, uma banda ainda foi capaz de criar algo tão forte e revigorante quanto os trabalhos do começo da carreira, no começo da juventude deles. E, ao invés de apenas repetir uma fórmula criada por eles mesmos, ou de começar a abraçar as referências de rock clássico e começarem a soar como ‘tiozões’ do rock, eles olham para si próprios e se aprimoram, dando a cara do que seria um Sonic Youth maduro e convicto, presente nos álbuns seguintes até o fim da banda.

Cantarolando: a música folk-rock-ambientalista de Alceu Valença em “Espelho Cristalino”(1977)

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Alceu Valença - "Espelho Cristalino"

Cantarolando, por Elisa Oieno

Conversando com alguns entusiastas da música ‘folk’ por esses dias, chegamos à conclusão de que, aqui no Brasil, não costumamos fazer uma associação direta entre música pop e o nosso folclore. Existe uma separação estética muito grande entre o folclore brasileiro e a música pop.

Porém, há exceções. Principalmente no contexto da efervescência criativa do Brasil nos anos 70, pela primeira vez na música brasileira houve um esforço consciente para trazer os sons, ritmos e temas tipicamente brasileiros e regionais ao contexto jovem, rebelde e desafiador que o rock representava.

Foi o que fez o pernambucano Alceu Valença, executando um som pesadíssimo, progressivo e ainda assim absolutamente nordestino. Com sua figura mezzo guerilheiro do sertão mezzo Ian Anderson do Jethro Tull, suas letras – escritas com erudição acadêmica e com a sagacidade herdada dos tradicionais repentistas – mesclavam fraseados libertários ‘subversivos’, críticos à ditadura militar, com temas e figuras típicas do folclore nordestino.

Além disso, eram frequentes em suas músicas também as críticas ao estilo de vida moderno e industrial, tecendo imagens vívidas da natureza brasileira em contraponto aos símbolos da cidade e ao estilo de vida frenético industrial. É o caso da faixa-título do disco “Espelho Cristalino”(1977).

Essa rua sem céu, sem horizontes
foi um rio de águas cristalinas
serra verde molhada de neblina
olho d’agua sangrava numa fonte
meu anel cravejado de brilhantes
são os olhos do Capitão Corisco
e é a luz que incendeia meu ofício
nessa selva de aço e de antenas
beija-flor estou chorando suas penas derretidas na insensatez do asfalto

Essa canção foi feita em homenagem ao ambientalista, naturalista, indigenista e especialista em beija-flores Augusto Ruschi. Ele foi uma figura muito importante em disputas contra empresas e órgãos públicos na defesa de questões do meio-ambiente, em uma época em que tais preocupações eram precariamente difundidas. Ruschi foi um dos pioneiros no combate ao desmatamento da Amazônia e um dos primeiros cientistas a alertarem sobre os impactos do uso indiscriminado de agrotóxicos.

A letra de “Espelho Cristalino”, como diversas de Alceu, é repleta de metáforas e imagens poéticas. Essa é uma das minhas letras favoritas. Viajando um pouco aqui, ela me lembra a vista da Serra do Mar aqui de São Paulo, a caminho da Baixada Santista. Da mesma forma que descreve a música, há a invasão da indústria e do “progresso” na paisagem serrana daqui, especialmente quando se chega perto de Cubatão.

Assim como no Cinema Novo de Glauber Rocha, elementos do cangaço também são frequentes nas canções de Alceu, como a alusão aos “olhos do Capitão Corisco”, que foi um dos mais famosos membros do bando de Lampião. O cangaço foi um dos principais e mais marcantes fenômenos sociais do Nordeste brasileiro, deixando marcas e memórias vívidas para toda uma cultura que, junto com outros inúmeros elementos, faz parte da nossa identidade. Tem coisa mais ‘folk-rock’ que isso?