Distorção Criativa: Hüsker Dü – “New Day Rising” (1985)

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Husker Du - New Day Rising

 

Antes de mais nada gostaria de comentar como as coisas são estranhas e interligadas por uma energia inexplicável. Foi uma baita coincidência quando decidi aleatoriamente escrever esse texto, sendo que NO MESMO DIA eu fico sabendo que o baterista Grant Hart morreu. Que triste. Enfim, vamos ao que se pode.

Hüsker Dü é uma banda estranha, ao menos para mim. Aquela guitarra ardida, um som azedo e pulsante… Alguma coisa no tempero do trio faz a gente querer se aprofundar naquela atmosfera. Essa mistura de agressividade com ordem e uma dose cavalar de talento melódico fez a cabeça de muita gente na época e ainda hoje. Poucas vezes o hardcore atingiu essa maturidade estética.

Formado em Minneapolis, Estados Unidos, em 1979, o Hüsker Dü é Bob Mould (guitarrista e vocalista), Grant Hart (baterista e vocalista) e Greg Norton (baixista). Dois ótimos compositores apresentam propostas diferentes de estética, sendo Hart mais voltado para uma pegada pop e Mould com os pés na estética bruta do hardcore. Essa rivalidade por si só já é um aspecto fundamentalmente rico desse trio, embora isso e as drogas tenham posto um ponto final nessa história.

Mesmo quem não seja apegado ao punk, hardcore e suas vertentes reconhece facilmente no grupo uma unidade poderosa. Não à toa saiu daí inúmeros filhotes e influências indiretas: Dinosaur Jr., Mudhoney, Nirvana, Weezer, Pixies, Jesus and Mary Chain e a lista não acaba.

A banda foi construindo tijolo por tijolo uma reputação invejável no circuito das rádios universitárias e no cenário alternativo como um todo, sendo que no início os trabalhos eram mais sujos, com uma sonoridade mais voltada para bandas contemporâneas como Minor Treat e Black Flag, o que foi sendo refinado para um viés mais acessível – às vezes quase pop – ao longo da carreira. Muito disso se deve à influência das bandas psicodélicas de folk rock dos anos 1960, sobretudo Beatles e Byrds. Isso apareceu com muita força no Zen Arcade” (1984), LP duplo com uma impressionante personalidade, misturando punk com folk, pop e até mantra hindu. Há quem diga que este seja o trabalho mais contundente do Hüsker Dü, mas estou aqui para falar do seu sucessor, New Day Rising” (1985).

A tracklist é redonda, uma faixa melhor que a outra, um som de molecagem super maduro, se que isso faz algum sentido…. mas é esse o espírito da coisa. 15 músicas para ouvir no repeat. O trio sabia o que estava fazendo e sabiam do potencial daquelas composições. Harmonias bem estruturadas, dramaticidade e, na medida do possível, mais requinte nos pequenos detalhes. Isso faz toda a diferença. Por exemplo, em “Celebrated Summer” a banda intercala a sujeira com uma vibe mais romântica ao longo da música, e para isso se dá ao luxo de criar uma atmosfera mais intimista com um violão de 12 cordas. Parece pouca coisa, algo banal e batido, mas pense como isso deveria soar na época, naquele contexto. E como dá certo!

“I Apologize” é um como uma meta para toda banda que segue essa pegada. Uma combinação perfeita de refrão grudento, guitarra pulsante e harmonia vocal fácil de assimilar. Desacelera isso e você tem um power pop dos bons. “If I Told You” segue o mesmo espírito.

“The Girl Who Lives On Heaven Hill” está entre as melhores gravações da banda. E embora seja tão simples e direta, não saberia definir o que é exatamente aquele som. Ouça, apenas.

Em “Books About UFOs” eles até arriscam um piano. Aquela levada irrestível, que escutamos inúmeras vezes em músicas de sunshine pop, mas completamente recontextualizada ali. É aí que dá para perceber a importância de cada membro enquanto instrumentistas: o baixo de Norton, sempre intuitivo e melódico, conversa fácil com a bateria honesta de Grant Hart, e aí vem a guitarra de Mould, que tinge tudo de uma cor cítrica, como um spray. E ainda tem a ótima voz de Hart para embalar tudo. Hüsker Dü é a prova cabal de que não precisa inventar a roda para ser foda.

Em “Perfect Example” percebemos um quê de R.E.M., contemporâneos e colegas de estrada. Guitarras dobradas com violão também eram uma tendência no período. A faixa-título, “Watcha Drinkin” e “Plans I Make” carregam aquela persona da primeira fase do Hüsker Dü, estimuladas mais pela ferocidade, o que dá certo fôlego para o LP, tornando esse pacote todo capaz de agradar praticamente qualquer que curta um som com guitarras. Pelo menos uma das 15 faixas você vai gostar, é quase certo.

Hüsker Dü era uma banda prolífera e muito criativa, ainda faria mais alguns álbuns excelentes, cada vez mais extensos, como “Warehouse: Songs And Stories”, o último, de 1987.

Embora extremamente influentes, ainda falta muita gente saber do que isso se trata. Se você é uma dessas pessoas, comece por “New Day Rising”.

É uma pena que muitas bandas e artistas consigam aquele status de referência inabalável somente após a morte. Mas sim, livre de hype, desejo muito que as pessoas saibam o que foi essa banda e quem foi Bob Mould, Greg Norton e – que descanse em paz – Grant Hart. O tempo matura tudo. Temos aí uma das bandas mais importantes dos últimos 40 anos.

Em terreno bizarro: Rolling Stones – “Their Satanic Majesties Request” (1967)

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Their Satanic Majesties Request

Bolachas Finas, por Victor José

O tema dessa coluna de hoje é certamente um dos discos mais injustamente subestimados do panteão do alto escalão do rock. Trata-se daquele que é o mais estranho álbum dos Stones, o controverso Their Satanic Majesties Request”.

Totalmente desconexo das raízes da banda – que sempre se manteve calcada no blues e suas vertentes mais próximas –, esse trabalho vem sendo assimilado com má vontade desde seu lançamento. Isso porque a imprensa insistiu em classificar esse LP como “uma resposta ao Sgt. Pepper`s”, o que é uma grande bobagem.

Além disso, a própria banda passava por um momento complicado. Embora para quase todo mundo da música pop 1967 tenha sido um ano mágico, para os Stones não foi bem assim. Brian Jones, Mick Jagger e Keith Richards haviam sido presos por porte de drogas, fazendo com que a fama de bad boys chegasse em um nível nocivo para eles, botando em cheque o futuro do trabalho que vinham fazendo.

Talvez as incertezas do momento tenham resvalado na obra, que ganhou uma forma bastante diferente de seu antecessor, o excelente Between The Buttons”, que por sua vez já era ligeiramente ousado se comparado com trabalhos anteriores.

Sim, a influência dos Beatles foi grande, tanto que os fab four estão na capa do álbum, escondidos. A homenagem foi uma forma de agradecimento, isso porque em “Sgt. Pepper’s”, lançado meses antes, continha uma boneca vestindo uma roupa com a escrita “Welcome The Rolling Stones”.

A ambição dos Stones com esse LP estava na vontade de “entrar na onda” da psicodelia, e mergulharam de cabeça, ao mesmo tempo em que não sabiam muito bem para onde ir. Aliás, esse é o primeiro trabalho da banda sem a produção de Andrew Loog Oldham, o empresário do grupo. Isso inclusive fez com que os Stones experimentassem ao máximo as capacidades de um estúdio, produzindo eles mesmos.

A começar por “Sing This All Together”, uma faixa meio bizarra com atmosfera hippie, cantanda num coro (pouca gente sabe, mas Paul McCartney e John Lennon estão lá) e acompanhada por uma parafernalha de instrumentos conduzidos por Brian Jones. Vale falar sobre a incrível capacidade de Brian de tirar som de praticamente qualquer instrumento. Nesse disco ele toca guitarra, violão, mellotron, órgão, percussão, trompete, flauta e sei lá mais o quê.

“Citadel” é um rock de primeira, carregada de peso e um riff encorpado, talvez a faixa que mais lembre Stones em todo o disco. A surreal “In Another Land” é a única música cantada e composta por Bill Wyman em todos os álbuns da banda. O vocal cheio de trêmolo, guiado por um cravo rococó, leva qualquer conhecedor superficial do trabalho da banda em um terreno completamente inexplorado. Aquilo está muito, mas muito longe de “Start Me Up”, por exemplo.

“2000 Man”, que chegou a ser regravada pelo Kiss, pousa no folk rock, fazendo dessa um dos melhores momentos do LP. “Sing This All Together (See What Happens)” é nada mais nada menos que piração, que acaba como uma espécie de reprise lento da faixa de abertura.

Chegamos na belíssima “She’s A Rainbow”, um grande êxito artístico dos Rolling Stones, com uma ajuda de John Paul Jones – sim, aquele do Led Zeppelin –, que fez os arranjos de cordas. Poucas vezes essa banda soou tão bela.

“The Lantern” apresenta uma proposta bem embalada de folk, mas que ganha cores de gospel com o piano de Nick Hopkins (músico de estúdio decisivo para a sonoroidade desse disco). “Gomper” flerta com a sonoridade oriental, que só ganhou vida por conta da parede de instrumentos que Brian Jones construiu, com sarode, cítara, dulcimer, baixo, órgão, flauta etc.

“2000 Light Years From Home” retoma o ritmo inconfundível da bateria de Charlie Watts mas com um pé no sci-fi. Um clássico da música psicodélica e considerado por muitos a primeira faixa de space rock. Por fim, “On With The Show” encerra o disco de maneira estranhíssima nos padrões de Stones com um Jagger todo circense, talvez já flertando com a ideia do antológico Rock and Roll Circus”.

“Their Satanic Majesties Request” foi concebido de maneira torta, sem direção, talvez por isso tenha resultado em um LP confuso – o que está longe de significar ruim – e vulnerável. A banda já mencionou algumas vezes que pouco antes da data do lançamento eles não tinham ideia do que lançar e que “Their Satanic” foi no fim das contas um catadão de gravações e pirações. Keith, Bill e Brian criticaram muitas vezes o disco, e até hoje não executam as músicas ao vivo (salvo raras vezes “She’s A Rainbow” e “2000 Light Years From Home”).

50 anos depois fui surpreendido pelo anúncio de um box especial comemorativo de “Their Satanic”… Será que mudaram de ideia ou seria apenas manobra caça-níquel de gravadora? Bom, o que eu sei é que sempre que falo desse disco por aí a reação é quase sempre entusiasmada. Eu, que tenho os Rolling Stones como banda favorita, vejo esse trabalho como algo extremamente inusitado, inédito e sim, muito bom em uma porção de momentos e positivamente curioso nas partes mais bizarras. Não existe nada como esse LP, e isso por si só é um triunfo. 1967 foi generoso até nos fracassos.

Maneiras de xingar: Titãs – “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” (1991)

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Bolachas Finas, por Victor José

Após uma trinca de álbuns lendários e obrigatórios (Cabeça Dinossauro”, Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas” e Õ Blesq Blom”), os Titãs estavam naquela posição que toda banda almeja: não precisavam mais mostrar o seu valor. Afinal, quem é que contestaria naquela altura do campeonato a importância daqueles oito rapazes para a música popular brasileira?

“Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” veio em uma época em que a política do país – pra variar – estava em frangalhos. A “Era Collor”, mais precisamente. Falta de perspectiva, desemprego e aquela sensação de que todo mundo foi roubado e feito de idiota. Tudo isso deve ter feito a cabeça da banda, que não economizou na grosseria e lançou um disco bem no espírito do “foda-se”.

Bem, nem todo mundo curte esse álbum. A própria banda diz ser um dos trabalhos mais confusos, mas eu vejo de outra maneira. A época pedia isso, precisava disso. Obviamente, todos esperavam mais um trabalho coeso como “Õ Blesq Blom”, mas Titãs (naqueles tempos) não era uma banda muito adepta ao lugar comum, então nada de repetir fórmulas por conta do sucesso comercial.

Há uma coisa muito importante no disco logo de cara: Liminha não foi o produtor. Essa parceria brilhante, que rendeu a fase de ouro da banda se desfez nesse período, voltando somente no lendário Acústico MTV”. Sendo assim o grupo arriscou na produção e gravou numa casa alugada.

Na obra há uma unidade forte. Pela primeira vez o grupo inteiro assina todas as 15 faixas. Além disso arranjaram em conjunto, frisando a força das guitarras de Toni Bellotto e Marcelo Fromer.

Eles ousaram em lançar “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora”, ainda mais porque ali há letras escrachadas como ”Clitóris”, “Saia de Mim” e “Isso Para Mim É Perfume”, essa última com um irreconhecível Nando Reis cantando versos como “amor, eu quero ver você cagar”… Também há aquela brincadeira com palavras, como no caso de “Obrigado”, “Uma Coisa de Cada Vez” e “Não É Por Não Falar”. Também destaco as performances de Branco Mello, que achou neste disco um tom certeiro, como pode ser conferido em “Filantrópico” e “Flat-Cemitério-Apartamento”.

A respeito do som, dá para dizer que você pode esperar uma música pesada, carregada de guitarras sujas, um rock sem muita lapidação e que combina muito bem com um dia de revolta. Sim, esse disco é pra ser escutado alto, bem alto. É uma espécie de Titanomaquia” (seu sucessor) tosco. O teor das letras chega a ser meio juvenil e jocoso.

É óbvio que a mídia caiu em cima e criticou bastante o disco, que por fim apresentou vendas modestas. Mas acho que até eles mesmos sabiam que seria assim. O que faz desse trabalho ainda mais especial.

Ainda vale a experiência de ouví-lo, justamente porque este é o último álbum com a formação clássica. Isso porque Arnaldo Antunes pularia fora em 1992, para a tristeza de muita gente que, como eu, ama os Titãs desse período.

Talvez você deteste, talvez ame, não sei. O que eu sei é que esse disco é uma obscuridade que merece uma chance. Quem teria coragem de lançar isso hoje?

O futuro que já foi: Chemical Brothers – “Surrender” (1999)

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Chemical Brothers

Bolachas Finas, por Victor José

Apesar de considerar Dig Your Own Hole” (1997) o ápice criativo do Chemical Brothers, Surrender” (1999), além de também ser excelente, me marcou mais. Esse, que é o terceiro álbum da dupla, talvez tenha sido o primeiro disco que me fez voltar os olhos para a música eletrônica.

O som idealizado por Tom Rowlands e Ed Simons vai muito além das efêmeras batidas de pista de dança. O eco psicodélico de influências sessentistas, a euforia da Madchester e o tom melodioso do contemporâneo britpop dão ao Chemical Brothers um forte tempero exótico, credenciando o duo como um dos mais importantes e influentes grupos do gênero Big Beat, representado também por Prodigy e por Fatboy Slim. Por um momento, esse foi o som mais convicto do futuro.

Em “Surrender” temos uma banda recém-consagrada e ávida por atenção, ou seja, aquele era o momento essencial para não deixar a peteca cair. Sabendo disso, percebe-se como esse trabalho foi pensado com cautela e consequentemente importante tanto para o gênero quanto para a dupla.

Dá para dizer que esse é o disco mais popular da dupla, isso porque pelo menos dois hits de grande sucesso estão na tracklist. Além disso, as participações especiais de peso chamam atenção até mesmo do público que não se liga em música eletrônica. Por exemplo, a irresistível e já clássica “Let Forever Be”, com vocais de Noel Gallagher (Oasis), é algo extremamente memorável entre os hits dos anos 1990. A lisergia a la “Tomorrow Never Knows” combinada com a bateria dançante embalam até hoje uma infinidade de discotecagens por aí. Ainda dá certo e tudo indica que sempre dará.

Mesmo se não fosse um dos êxitos comerciais de “Surrender” “Out Of Control” continuaria sendo um destaque. Também conta com participações, dessa vez com os vocais de Bernard Summer e Bobby Gillespie, New Order e Primal Scream, respectivamente. Isso por si só já é histórico. Aquele baita groove mais parece um Depeche Mode com esteróides.

Orange Wedge” e seu baixão dá uma cadência ao álbum, descendo os BPMs. De uma forma mais chapada, o duo monta um crescendo em “Sunshine Undergound” e nos quase nove minutos dá uma aula de rave.

Coloridas, vibrantes e preenchidas de um ritmo inteligente, “Music: Response”, “Under The Influence” “Got Hint?” e “Surrender” apresentam a possibilidade de música dançante com notável criatividade. Pouca gente é capaz de fazer isso soar coisa séria, e ao mesmo temo é muito difícil ouvir cada um desses sons sem mover minimamente o corpo.

As participações continuam a colorir “Surrender” em “Asleep From Day”, desta vez com Hope Sandoval (Mazzy Star) nos vocais, em um dos momentos mais bonitos e relaxados do LP.

Mas para muita gente todos os holofotes se voltam para o super hit “Hey Boy Hey Girl”, uma espécie de hino de nicho. Dá até pra arriscar dizer que todo mundo que saiu alguma vez na vida na ~night~ ouviu essa música, se empolgou e acabou dançando, ao menos batendo o pé. Para o bem ou para o mal (isso para quem torce o nariz para o eletrônico) esse pode ter sido o último grande sucesso dos anos 1990, haja vista que foi lançado como single em maio de 1999.

Para encerrar o álbum, o Chemical Brothers vai de “Dream On”, com outra participação. Jonathan Donahue (Mercury Rev) faz os vocais, violão e piano. O LP encerra gerando boa impressão. Por fim, “Surrender” consegue manter a gigante reputação do duo, consolidada em “Dig Your Own Hole”, e ao mesmo tempo abocanha mais público com hits relevantes.

Mesmo que não seja amplamente reconhecido dessa forma, este é sim um trabalho fundamental para se compreender toda uma época, quando na virada do milênio as coisas no mundo da música pareciam meio caóticas e sem uma direção a ser tomada (o que permeia até hoje). É um bom disco para recomendar para quem nunca prestou atenção no Big Beat. E, além dos rótulos, é um bom disco por si só.

Reconhecimento tardio: Big Star – “Radio City” (1974)

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Big Star Radio City

Bolachas Finas, por Victor José

Se tivesse que apontar para “a banda mais injustiçada” de toda a trajetória do rock, sem dúvida essa seria Big Star. Com suas melodias absurdamente lindas, composições de alto nível, sonoridade direta e uma dupla de compositores de mão cheia, o quarteto de Memphis, Estados Unidos, e principal expoente do chamado power pop foi tudo isso, exceto um caso de sucesso.

Extremamente mal divulgado pela Ardent, o grupo não deslanchou, o que resultou em um injusto marasmo em termos de recepção do público. Dizem que o selo, que era subsidiária da Stax – uma gravadora predominantemente de black music –, não soube bem como vender o peixe daquele quarteto de rock. No caso do primeiro trabalho deles, o ótimo “#1 Record” (1972), a zica foi tamanha a ponto de o LP não ser encontrado nas lojas por conta de problemas com a distribuição. Chegou ao ponto de o público local sequer conseguir achar os álbuns para comprar. Sendo assim, as vendas daquele que álbum que um dia se tornaria um clássico obscuro foram ínfimas.

Para ajudar, Chris Bell, guitarrista e vocalista, já andava sofrendo de depressão e se viu desmotivado com aquele enorme fracasso, por isso abandonou o barco para seguir carreira solo. A banda chegou a ficar uns meses sem trabalhar em coisa alguma. Quase não rolava shows e o futuro era incerto. Mas eis que nesse cenário de deterioração, os remanescentes Andy Hummel (baixo), Jody Stephens (bateria e vocais) e o lendário Alex Chilton (guitarra e vocais) juntaram os cacos para fazer mais um álbum e tentar a sorte outra vez. Para isso banda apostou em um som mais roqueiro e agressivo, sem tantas melodias na tracklist e um clima mais solto. O resultado foi Radio City” (1974), um registro também antológico e para muito ainda melhor que seu antecessor.

Apesar de todos contribuírem para as composições, sabe-se que desde o início Bell e Chilton formavam uma dupla prodigiosa, como uma espécie de Lennon e McCartney fracassada em termos de reconhecimento. Com a saída de Bell, Alex Chilton imprimiu ainda mais sua vibe discretamente excêntrica.

Você logo de cara nota a diferença de timbres nas guitarras. Vale dizer isso desde já: provavelmente esse é o único disco que você vai escutar com esse som específico. A mixagem é um monumento por si só, e mesmo soando bastante limpa, em muitos momentos soa como uma porrada. A bateria é explosiva, a guitarra é cortante e o baixo aglutina tudo de modo que a gente pode falar de boca cheia que isso é um power trio.

“O My Soul” abre o disco com tudo. Apontando para uma direção mais direta e bastante diferente da onda prog da época, o Big Star parecia não ter medo de soar direto revisitando o rock básico. E com um compositor tão criativo como Alex Chilton, o resultado não poderia ser mais adequado. “Life Is White” seria extremamente segura e pop se não fosse aquela gaita estridente que chega a ser excessiva, mas parece que essa era a intenção. Essa banda tem dessas coisas, brinca com elementos sutis para de certa forma camuflar seu som extremamente pop.

Stephens assume os vocais em “Way Out West” e resulta em um dos melhores momentos do disco. Uma faixa com clima estradeiro e com um refrão que lembra muito (até demais) a “Primavera” de Vivaldi.

Um romantismo dilacerante toma conta da alma de Chilton quando canta na semiacústica “What’s Going Ahn”, uma faixa incrível, com um riff de guitarra choroso e a bateria solta, igualmente emotiva. As melodias costuradas entre os vocais e a guitarra conseguem te segurar firme do início ao fim sem qualquer dificuldade. Fechando o lado A, “You Get What You Deserve” também apresenta riffs pegajosos, e você nota muito facilmente de onde o R.E.M. tirou boa parte da inspiração.

“Mod Lang” é a mais roqueira e previsível de “Radio City”, embora nesse caso isso não significa desprestígio. Cumpre seu papel divertido. Depois disso vem aquela que talvez seja a melhor faixa do disco, “Back Of A Car”. Com uma guitarra incrível e a bateria cheia de energia, acho muito difícil alguém escutar isso e não gostar minimamente. Há quem diga que Chris Bell ajudou nessa composição, embora não creditado. Não há muitos erros para apontar na obra do Big Star, e essa música talvez sintetize o que o grupo criou em “#1 Record”, “Radio City” e no derradeiro e bem estranho “Sister Lovers”.

Um clima ameno (talvez psicodélico?) dá início à montanha russa que é “Daisy Glase”, algo que consigo imaginar o Wings fazendo com um pouco mais de retidão. Em “She’s A Mover” o Big Star volta a apostar no rockão com pegada sessentista e de novo abre alas para uma pérola: “September Gurls”, aquela que talvez seja o hino do gênero power pop. A faixa é um memorável caso de amor entre The Byrds e The Beatles, o que parece bastante óbvio, mas a música exatamente é isso. Um pop irresistível, como poucas vezes se ouviu. Ali há ecos de uma infinidade de bandas posteriores. Com essa música Big Star fez escola.

O disco encerra com duas baladas curtinhas, as belas “Morpha Too” e “I’m In Love With A Girl”, que soam como resquício da doçura do álbum de estreia. Mas fato é que “Radio City” encerra e você percebe que ouviu algo acessível, ao mesmo tempo diferente, pegajoso, profundo… e quem sabe ele não te conquista como conquistou Jeff Buckley, Teenage Fanclub, Lemonheads, Kurt Vile, Bangles, Dinosaur Jr., Pixies etc.

O disco naufragou da mesma forma que o primeiro, o que no fim das contas acarretou na saída de Andy Hummel. Como uma dupla, Chilton e Stephens gravaria o bizarro e interessantíssimo “3rd/Sister Lovers” em 1975, que por sua vez só sairia como um lançamento oficial em 1978. Apesar disso, a banda era vista como promissora pela crítica especializada, e ainda é, haja vista que esses três álbuns são citados vez ou outra entre os melhores de todos os tempos. Big Star é a prova de que o reconhecimento vem quando a criação de fato tem valor relevante. Indispensável para qualquer um que acredita na força das boas melodias e nas canções simples.

Texano de alma europeia: Scott Walker – “Scott 4” (1969)

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Scott Four - Scott 4

Bolachas Finas, por Victor José

Quando se trata de música pop, poucas vezes a gente vai se deparar com algo tão melodioso quanto essa obra prima do excêntrico Scott Walker, um dos cantores/compositores mais enigmáticos de seu tempo. Seu quarto disco é um fiel retrato de beleza sonora, saturado de dramaticidade, lirismo, arranjos e uma atmosfera quase erudita. Por tanto cuidado com esses detalhes, as canções beiram a periferia da cafonice, há nelas tudo aquilo que poderia transformar a sonoridade em algo piegas, mas é aí que entra a genialidade de Walker: ele sabe ser empolado e soar perfeitamente adequado.

A qualidade da gravação é de impressionar qualquer um interessado nas possibilidades do pop. São dez músicas exemplares, de uma exposição melódica sem par.

Para situar o momento do álbum, é importante citar a prolífera carreira que o cantor vinha trilhando desde 19??, primeiramente com o Walker Brothers. Apesar de serem dos Estados Unidos, o grupo estourou mesmo no Reino Unido, chegando até mesmo a ter o maior fã clube oficial da Inglaterra, por volta de 1966. A voz floreada de barítono e seu ar de galã fez de Scott Walker um ídolo teen, embora fosse um cara muito tímido, recluso, sempre mais interessado no lado intelectual das coisas. Existencialista confesso (ávido leitor de Sartre e apreciador do cinema de Ingmar Bergman), sempre teve como ponto de partida em sua música a possibilidade de agregar referências que vinham de fora da esfera musical.

Problemas internos, a depressão de Scott e a guinada psicodélica puseram um ponto final no Walker Brothers. Livre das exigências do grupo, em 1967 iniciou as composições de seu primeiro trabalho solo, fortemente influenciado pelo belga Jacques Brel e climas orquestrais, algo que iria marcar com força os quatro primeiros discos de Walker. A aceitação foi imediata, e alcançou o segundo lugar nas paradas britânicas, ficando atrás somente do Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”.

Em seguida vieram mais dois excelentes álbuns, Scott 2 e Scott 3″. Curiosamente, na medida em que o compositor vinha refinando a qualidade de seus lançamentos, o distanciamento com o público se tornava mais evidente, o que de certa forma deve ter sido um alívio para ele, que sempre detestou os holofotes. Em 1969 foi lançada sua obra-prima, Scott 4″, que é uma espécie de síntese amadurecida dos três LPs anteriores, um pouco menos pomposo, porém permeado de composições intensas e interessante de cabo a rabo.

A começar pela épica “The Seventh Seal”, faixa claramente inspirada no filme O Sétimo Selo de Bergman e na atmosfera das lendárias trilhas sonoras estilo western do italiano Ennio Morricone.

Uma levada que lembra a vibe das músicas de Serge Gainsbourg embala “The Old Man`s Back Again”. As apaixonadas opiniões políticas de esquerda de Scott Walker não eram segredo quando essa faixa foi gravada, mas nesse caso ele critica o lado tirano do governo esquerdista. O subtítulo, “Dedicated to the Neo-Stalinist Regime” refere-se especificamente ao governo repressivo checo que derrubou a era da Primavera de Praga em 1968 com ajuda militar soviética. O “velho” seria o fantasma de Stalin.

“Boy Child” é uma música sem par, um daqueles casos irretocáveis de beleza. A sonoridade tem essa qualidade capaz de impressionar. Talvez seja a melhor faixa de todo o vasto catálogo de Scott Walker.

“Angels Of Ashes” e “On Your Own Again” esbanjam estilo. A sensação é a de que você está em uma outra época, num ambiente suntuoso, cheio de detalhes. Pode ser que isso acabe incomodando algumas pessoas, porque de fato Walker propõe (e consegue) elevar a estética do estado de beleza ao limite do pop.

O cantor brinca com as referências e faz um mundo inteiramente pessoal. Em “Get Behind Me” visita o gospel, já em “Rhymes Of Goodbye” redefine uma proposta country, enquanto que “Hero of The War” há um flerte com a levada primitiva do pioneiro Bo Diddley.

“Duchess” e “World’s Strongest Man” mostram como Walker vinha lapidando seu modo de soar acessível, aliviando consideravelmente a afetação vocal que antes se ouvia com frequência nos primeiros trabalhos.

“Scott 4” não foi um sucesso. Demorou um bom tempo para enxergar esse LP com a devida atenção. Com o passar dos anos, Scott Walker se tornou cada vez mais obscuro, recluso e experimental, tão avant garde a ponto de lançar álbuns com músicas de mais de 20 minutos de experimentos, como o ótimo Bish Bosch”, de 2012. Vale dizer que essa fase é igualmente interessante.

Atualmente houve uma renovação no interesse em torno do lendário texano com alma de europeu. Em 2014 Lançou com o Sunn O))) o Soused”, um ótimo disco, muito aclamado pela crítica e pelo público. E ao se deparar com esses trabalhos mais recentes e depois rever o contexto de “Scott 4″, fica uma pergunta muito difícil de responder: quem, além dele, conseguiu passear por essas vertentes com esse nível de qualidade?

Celebração baiana: “Doces Bárbaros” (1976)

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Doces Bárbaros

Bolachas Finas, por Victor José

Certa vez perguntaram a Milton Nascimento como era possível haver tantas parceiras entre músicos brasileiros, e o cantor simplesmente respondeu: “Porque a gente gosta disso”. Essa frase cabe perfeitamente no encontro dos baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, o que resultou no “Doces Bárbaros”. Se separados eles já ditavam tendências, lotavam shows e rendiam notícias, juntos então, eram capazes de soar como um divisor de águas da MPB.

Ao longo dos anos anteriores, uma série de espetáculos reuniu os medalhões no palco. Em LP, Domingo” (1967), Tropicália ou Panis et Circencis” (1968), Barra 69″ (1972) e Temporada de Verão” (1974) já haviam mostrado que a afinidade entre esses músicos ia além da amizade que cultivavam fora dos palcos.

Já estava comprovado que parcerias agradavam o público. Por isso, em 1976, o selo Philips – naquele momento, dona de um catálogo absurdamente fantástico – voltaria a investir na fórmula apresentando ao público outra faceta da MPB: um raro caso brasileiro de supergrupo, ou seja, conjunto cujos integrantes já são reconhecidos por outros trabalhos.

A convocação dos Bárbaros partiu de Maria Bethânia. Conversando com o irmão Caetano, pediu para ele fazer a melodia de uma letra de sua autoria, intitulada “Pássaro Proibido”, a qual acabou se tornando uma das canções do grupo. Papo vai, papo vem e Bethânia conta que havia sonhado com a reunião daqueles quatro amigos no palco, uma possibilidade antiga que já vinha sendo alimentada principalmente por Caetano e Gil, que chegaram a cogitar algumas vezes formar uma “banda de brincadeira”, mas esperavam pelo momento certo para concretizar a ideia.

A parceria entre eles não poderia ter sido escolhida num período melhor. Com sucesso estabilizado e reconhecidos pelo público e pela crítica, os quatro atravessavam uma fase prolífera em suas respectivas carreiras solo. O quarteto podia gozar da livre e espontânea vontade de se curtirem, sem a obrigação de criar um disco inovador.

Sobre o nome, Caetano disse: “Após o exílio em Londres, eles retomaram uma linha de ataque contra nós, focando principalmente no fato de nós sermos baianos. Então fizeram um apelido, chamaram a gente de ‘baiunos’, deplorando que o Rio tivesse sido invadido por esses bárbaros. Foi aí que eu tive a ideia de chamar a gente de Doces Bárbaros”.

Um ano antes, Gil inaugurou a trilogia “Re” com o muito elogiado LP Refazenda”, no qual revisitou suas raízes e reinventou sua sonoridade. Posteriormente, Gil colhia os frutos do trabalho de estúdio com uma longa turnê pelo País.

Gal Costa investia no repertório do conterrâneo Dorival Caymmi. Ela havia estourado nas rádios e na televisão com “Modinha Para Gabriela”, o famoso tema de novela. Logo depois lançou o álbum Gal Canta Caymmi”, que renderia um show com o compositor.

Após dois anos de jejum fonográfico, Caetano matava a fome de seus fãs com Jóia” e Qualquer Coisa”, de 1975, discos mais acessíveis ao grande público e menos arrojados em relação à proposta estética, se comparados aos trabalhos anteriores, como o experimental Araçá Azul”.

Já Maria Bethânia se desvinculava gradualmente dos álbuns teatrais que marcaram o início de sua trajetória. Um ano antes tinha subido ao palco com Chico Buarque, encontro que renderia um LP de muito sucesso. E no começo de 1976, lançava Pássaro Proibido”, um marco que a consagraria definitivamente como cantora popular.

Apesar de alegarem que estavam comemorando dez anos de carreira solo, cronologicamente, o ano de 1976 estava fora de contexto. Bethânia tinha discos gravados há mais de onze anos. Gil iniciou sua discografia em 1963 com Gilberto Gil – Sua Música, Sua Interpretação”, lançado pela JS Discos. Caetano teve o primeiro compacto nas lojas em 1965, com “Cavaleiro / Samba em Paz”. Já a estreia solo de Gal Costa aconteceria somente em 1969, em LP homônimo.

A concepção era ambiciosa no formato e consistia em uma maratona de shows em diversas capitais, um álbum duplo e um documentário. A produção do espetáculo ficou por conta do empresário Guilherme Araújo, e a estreia do grupo aconteceu no dia 24 de junho de 1976, no Anhembi, em São Paulo.

Em uma das viagens da turnê, aconteceu um imprevisto que levaria o grupo à manchete dos jornais de Florianópolis e do Brasil. Gil e o baterista Chiquinho Azevedo foram presos por porte de maconha. A notícia causou tanto alvoroço quanto o show e si. Recolhido em uma cadeia pública, por decreto de um juiz, Gil foi internado no Instituto Psiquiátrico São José, próximo a capital catarinense, onde ficaria recluso por cerca de duas semanas, para que em seguida se submetesse a tratamento ambulatorial no Sanatório Botafogo, no Rio de Janeiro.

Algum tempo depois da interrupção das apresentações, o Doces Bárbaros retomou os palcos e iniciou uma bem sucedida temporada no Canecão, do Rio de Janeiro, onde ficariam em cartaz por cerca de dois meses, com direito a recorde de bilheteria.

Embora naturalmente sobressaísse o espírito aberto e festivo de estarem juntos no mesmo palco, o espetáculo também continha outros grandes momentos. Lampejos de talento vocal e performático, com “Os Mais Doces dos Bárbaros” e “Fé Cega, Faca Amolada”, cantado por todos juntos com um entusiasmo arrebatador, ou em casos mais tranquilos, como “Esotérico”, composição de Gil interpretada por Gal e Bethânia com um quê de sensualidade desconcertante que as duas intérpretes gostavam de imprimir.

Gil e Caetano desejavam gravar o repertório em estúdio, mas Gal e Bethânia insistiram que fosse lançado ao vivo, e foi assim que aconteceu. Mesmo com a decisão de captar o clima do show, quatro das canções contidas no tracklist do LP foram gravadas em estúdio: “Esotérico”, “Chuckberry Fields Forever”, “São João Xangô Menino” e “O Seu Amor”, as quais também sairiam em compacto duplo em julho do mesmo ano.

O álbum duplo traz dezessete canções distribuídas em dezoito faixas, sendo quase todas até então inéditas e compostas, em grande parte, ou por Caetano ou por Gil. Apenas três fogem da regra: “Fé Cega, Faca Amolada” (Milton Nascimento / Ronaldo Bastos), “Tarasca Guidon” (Waly Salomão) e “Atiraste Uma Pedra” (Herivelto Martins / David Nasser).

O disco foi sucesso comercial, mas não vingou aos olhos da crítica. Naquela altura da década de 1970, quando se falava de alguma obra do time da MPB, se esperava algo esteticamente rico, intrínseco, e não aquela imagem abusivamente festiva celebrada pelos baianos.

Tanto o espetáculo quanto o LP foram duramente criticados, sendo taxados de algo sem profundidade, raso, uma manifestação Flower Power fora de época. “Não se fazem mais baianos como os de antigamente?”, publicaria Walter Silva, o ferrenho crítico da Folha de São Paulo.

Ruy Castro também foi severo e cobrou mais respeito da trupe aos espectadores, que presenciaram alguns imprevistos no palco. Ele também pediria para os baianos ensaiar antes de entrar em cena. “De preferência, sem a presença do público, nem cobrando 80 cruzeiros por cabeça. Tropeçar nos fios e derrubar microfones não devia fazer parte da coreografia. Os quatro continuam a ser artistas extraordinários, mas cada qual no seu canto. Por enquanto, os Doces Bárbaros são apenas uma doce ilusão”, publicaria na época.

Talvez seja exatamente isso que o quarteto tenha significado: uma celebração despretensiosa no sentido estético e mais voltada à pura e simples curtição, ou seja, o contrário do que foi o Tropicalismo e todo seu engajamento, o oposto do que se esperava daquelas estrelas naquele momento de ditadura militar.

Mas o tempo foi o melhor remédio para apagar os preconceitos. Mesmo com todos os problemas técnicos e a estigma de soar escapista, o LP “Doces Bárbaros” acabou ganhando o devido reconhecimento de obra importante da discografia brasileira. Hoje ele é tido como um registro fonográfico histórico e único de um momento áureo, e, quem sabe, o último suspiro da linguagem abertamente hippie na música brasileira.

Mulheres no comando: L7 – “Bricks Are Heavy” (1992)

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Bolachas Finas, por Victor José

L7 foi talvez a banda inteiramente feminina mais importante dos anos 1990. Isso por si só faz desse grupo interessante. Na primeira metade de 1992, no auge da onda Nevermind”, Donita Sparks (vocal e guitarra), Suzi Gardner (vocal e guitarra), Jennifer Finch (baixo e vocais) e Demetra Plakas (bateria e vocais) apresentaram ao cenário grunge seu terceiro álbum e mais emblemático: Bricks Are Heavy”.

Embora a banda californiana tenha em suas raízes mais básicas o punk e o hardcore, neste disco elas colocam a estrutura do heavy metal na linha de frente, o que era de praxe naquela fase do rock. Dessa forma, o L7 conseguiu se aproximar da linguagem de contemporâneos como Soundgarden, Mudhoney e Nirvana, conseguindo um som pesado e ao mesmo tempo “radio friendly”.

Um dos aspectos que certamente fez a diferença no resultado final foi a escolha de Butch Vig (Nirvana, Smashing Pumpkins, Sonic Youth e Garbage) como produtor, que além de saber como fazer uma banda soar como um grunge mainstream sem perder a compostura, o hype em torno dele estava bastante alto. Fica bem evidente a mão de Vig em “Pretend We’re Dead”, o hit do LP. Uma produção caprichada, que empurra a potência da banda até um limite ainda não explorado por elas, com ênfase nas melodias e nos riffs mais cadenciados. Acabou se tornando um dos maiores clássicos de uma época.

Mas é claro que o tradicional ar punk do L7 – ainda que haja guitarras com timbre de heavy metal – ganha corpo ao longo de “Bricks Are Heavy”, como se percebe nas faixas “Slide”, “Mr Integrity”, “Shitlist” e na ótima “Everglade”, esta última sendo outro single de destaque do disco.

Por outro lado, as faixas “Wargasm”, “Diet Pill” e “Monster” (outro clássico alternativo dos anos 1990) se rendem à atmosfera do metal com muita personalidade e sem medo de soar acessível. Aliás, esse trabalho tem toda uma tracklist convidativa: cheia de melodia, riffs pegajosos, ritmos básicos e excelente qualidade. Na cena grunge, enquanto um monte de marmanjo adorava choramingar suas desgraças – o que não deixa de ser um recurso interessante –, o L7 decidiu trilhar um caminho mais coeso, direto, sem um pingo de frescura.

Depois de todo esse tempo, ao ouvir hoje “Bricks Are Heavy” e todas as suas ótimas 11 faixas, percebo como é difícil pensar em algum disco desse período que seja tão redondo como este. É certamente um dos melhores momentos do rock dos anos 1990, que mesmo não sendo pioneiro em algo específico mostrou o rock de uma perspectiva feminina. E isso se mostrava ainda mais intenso no palco, com shows cheios de energia, numa cena inegavelmente predominante de homens. A banda, feminista atuante, sempre deixou clara sua posição sobre o assunto e fazia questão de ressaltar isso em algumas letras. De fato essa não é uma banda “quadrada”, como sugere a gíria que dá título à banda.

“Bricks Are Heavy” foi um sucesso de crítica e público, alcançando o número 160 no Billboard 200, algo extremamente louvável para uma banda vinda do underground. Fizeram uma extensa turnê mundial e vieram parar aqui no Brasil no início de 1993, no fatídico Hollywood Rock. Abriram para o Nirvana com um setlist maravilhoso e ainda no fim tiveram a ousadia de tirar a roupa enquanto o show estava sendo transmitido ao vivo pela Globo.

Depois disso o L7 experimentou um pouco da fama e continuou lançando álbuns até 1999. O grupo parou em 2000 e voltou a se apresentar somente em 2014, com a formação clássica. Hoje o L7 é reverenciado como um ícone importante da força da mulher na música, sendo que poucas vezes se viu no rock um grupo feminino com tanta estatura. “Bricks Are Heavy” é um disco obrigatório.

Quando o pop ficou difícil: Jethro Tull – “Thick As A Brick” (1972)

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Jethro Tull - Thick As A Brick

Bolachas Finas, por Victor José

Toda banda de relevância tem um momento especial na carreira no qual tudo parece dar certo. Ian Anderson, o cabeça por trás do Jethro Tull, experimentou esse gosto no início da década de 1970. Após ter lançado o excelente e praticamente perfeito Aqualung” (1971), como o compositor poderia manter o nível? Pois a resposta veio no ano seguinte com um trabalho bastante ousado, seja na sonoridade como nas letras ou na arte gráfica.

Por um lado, como manda a cartilha do rock progressivo, Thick As A Brick” é sim um disco excessivo e cheio de cacoetes particulares daquele período, por outro lado, o que isso importa? O disco é ótimo e descreve muito bem uma época. Afinal, cabe complexidade no rock da mesma forma que cabe uma porção de artistas geniais que praticamente não sabem tocar. E isso é o que faz desse gênero tão incrível.

Enfim, esse é um álbum conceitual até a medula. Em “Aqualung” – ainda que Anderson negue até hoje – o grupo já estava experimentando ingressar nesse caminho ao abandonar a pegada de blues rock dos três primeiros LPs para canções com relativa relação entre elas. O grupo faria outros trabalhos com essa veia conceitual, embora nesse sentido “Thick As a Brick” seja o ápice, de longe.

Uma infinidade de músicos passou pelo Jethro Tull, mais ou menos uns 30. Para esse disco a formação foi com Martin Barre (guitarra e alaúde), John Evan (piano, órgão e cravo), Jeffrey Hammond-Hammond (baixo e vocais), Barriemore Barlow (bateria, percussão e tímpanos) e Ian Anderson (vocais, violão, flauta, violino, saxofone e trompete).

“Thick As A Brick” é composto por duas faixas (se fosse lançado na era do CD certamente seria somente um), sendo que cada face do vinil passa dos 20 minutos de uma piração muito bem delineada de hard rock, folk britânico e uma pitada de avant garde encharcado num prog meio sinfônico. Uma das coisas mais intrigantes do disco está ligada aos créditos da longa canção. Anderson divide a autoria da faixa-título (algo que seria traduzido como “Burro Feito Uma Porta”) com Gerald Bostock ou “Little Milton”, um suposto garoto prodígio de oito anos de idade que escrevera esse longo poema sobre o estranho processo de viver e a influência negativa da sociedade sobre as pessoas, de maneira a não permitir que elas pensem por elas mesmas.

Esse trabalho demanda paciência. É um tanto desafiador e difícil de escutar. Cheio de texturas, mudanças de ritmo, tonalidade e dinâmica, é capaz que a música que ali está seja capaz de afastar o ouvinte menos acostumado com esse tipo de coisa. Esse LP realmente exige de você, e dá até para ficar meio cansado no meio do processo, mas vale muito a pena. É daqueles que a gente leva tempo para assimilar por inteiro, e só depois disso que ele vai te fisgar. Vejo essa “aceitação gradual” como uma qualidade das mais difíceis de um artista conseguir.

Aliás, pode parecer estranho, mas apesar da sonoridade tão carregada de expressão, considero esse álbum mais voltado para as letras. Procure acompanhar os versos ou a tradução do que Anderson canta, é incrível. De fato o “garoto Bostock” fez um belo trabalho.

O projeto gráfico foi bastante ambicioso. A capa e o encarte formam uma espécie de jornal de 12 páginas chamado The St. Cleve Chronicle, claramente satirizando os tablóides britânicos. A manchete é sobre o garoto Gerald Bostock, que recebe uma premiação pelo controverso poema “Thick as a Brick”, no entanto o prêmio é anulado logo após Gerald tê-lo lido durante uma transmissão pela televisão.

Com uma boa ajuda da tendência da época, “Thick As a Brick” deu muito certo e o LP chegou ao primeiro lugar das paradas da Billboard. Não consigo imaginar isso acontecendo hoje de maneira nenhuma: um álbum em forma de tablóide com duas faixas de mais de 20 minutos ganhando disco de ouro. Vale só por essa curiosidade.

Como outros momentos da carreira do Jetrho Tull, “Thick As A Brick”, talvez o mais conceitual da era dos discos conceituais, precisa ser apreciado ao menos uma vez com atenção. Afinal, há muita gente que considera esse como um dos melhores de todos os tempos.

Alegria em estado bruto: Gilberto Gil & Jorge Ben – “Ogum Xangô” (1975)

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Bolachas Finas, por Victor José

Quando não é preciso provar mais nada, fazer o que der na telha é a melhor das escolhas.

Em meados dos anos 1970, já não restavam mais dúvidas da importância de Gilberto Gil e Jorge Ben. Oito anos depois da última grande revolução da MPB, o baiano que ajudou a universalizar a música feita no Brasil e o carioca que modificou o jeito de tocar violão gravariam mais uma vez seus nomes na arte, criando uma obra-prima impregnada de uma espontaneidade até hoje inigualável.

Há muito tempo os músicos se conheciam. A admiração era mútua, evidente até para quem não os conhecia a fundo. Suas carreiras se encontravam de tempos em tempos, como no programa Divino, Maravilhoso, no qual ambos se apresentavam, ou na versão de “País Tropical” presente no LP psicodélico de Gal, onde Gil e Caetano participam nos vocais.

Era inevitável a proximidade, estava certo que uma hora ou outra algo vindo dos dois viria à luz. A integralidade nordestina de Gil atrelada a estéticas modernas e o balanço essencialmente brasileiro e inconfundível Jorge desaguavam no mesmo lugar: uma fonte inesgotável de musicalidade, imagem e produto altamente criativo.

Em palco, o primeiro reconhecimento musical entre os dois de fato aconteceu no encontro das Semanas Afro-brasileiras, realizado no Museu da Arte Moderna de São Paulo.

E se dissessem que um mero encontro informal e improvável entre amigos desse a origem ao disco, todo mundo apostaria suas fichas: na música brasileira daquele período, para tudo se dava um jeito.

Quando o australiano Robert Stigwood, dono da gravadora RSO Records e produtor de filmes e peças como Saturday Night Fever” e Jesus Christ Superstar”, decidiu passar as férias na cidade maravilhosa com ninguém menos que o guitarrista Eric Clapton, a parceria começou se desenhar de verdade.

André Midani recebeu um telefonema do empresário informando sobre a viagem. Por camaradagem, Midani quis recepcioná-los organizando um jantar em sua própria casa. Para isso, o presidente da Philips convidou um time de primeira para passar a noite juntos: Rita Lee, Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Gil, Jorge, Nelson Motta e Armando Pittigliani foram algum dos nomes que apareceram. No final das contas, até Cat Stevens acabou indo à casa do homem.

O ambiente não poderia ser melhor. Com tanta gente interessante num lugar só, era inevitável que algo especial acontecesse. E assim foi. Em meio à celebração e bom humor, alguém sugeriu fazer um som. Pittigliani foi buscar um tambor de percussão e não demorou para que uma roda de música fosse armada.

O resultado foi uma jam session para ninguém botar defeito. Eric, com uma bela guitarra branca, dedilhava livremente seus licks blueseiros enquanto Cat seguia o ritmo com seu violão folk. De repente, Gil e Jorge, tomados por alguma epifania exclusivamente deles, roubaram a cena.

Primeiro Cat Stevens disse “Não sou guitarrista para enfrentar isso” e abandonou o navio. Reconhecendo que seu blues não cabia naquela salada sonora, Clapton largou mão da batalha para ficar observando aqueles dois monstros se desafiando, frente a frente, encharcados de suor. E quem esteve presente diz que o que se seguiu ao longo da noite foi sem sombra de dúvida um dos pontos altos da música brasileira.

Gil e Jorge compunham uma complexa jam band de dois membros capaz de fazer a cabeça de qualquer bom entendedor. Criavam e viajavam numa assombrosa velocidade de raciocínio artístico. Jorge segurava a onda com seu ritmo variável e cheio de vitalidade enquanto Gil contornava e passeava pelas batidas com um senso melódico excepcional.

A batalha resultou em empate técnico e numa plateia igualmente talentosa extasiada por ter visto algo tão encantador, sobretudo o próprio Midani, que pediu aos dois que entrassem no estúdio para repetir aquilo que acabara de presenciar. Poucos dias depois, supervisionados por Paulinho Tapajós e Perinho Albuquerque, gravariam o mítico Gil & Jorge Ogum Xangô”.

Poucas pessoas estiveram envolvidas no projeto, a ideia era justamente apontar as atenções para aquelas duas figuras carismáticas e deixar que a criatividade falasse mais alto que a lógica. Para dar liga à receita, incluíram no time somente o baixista Luís Wagner e o percussionista Djalma Correa.

Com pouco ensaio e num curto período, gravaram o LP em tomadas enormes, algumas chegando a mais de dez, quase quinze minutos. Nos estúdios da Philips, os músicos buscaram repetir a magia daquela noite, travando outra vez um dialogo desvairado, com uma fluência permitida somente a eles.

Para quem não os ouviu na lendária festa, o resultado é único. Os mestres se fundem, duelam, brincam: Gil vira Jorge, Jorge vira Gil – Ogum, Xangô, harmonia e melodia.

Apesar da alta qualidade da gravação, Midani disse: “A gravação ficou maravilhosa. Mas o estúdio só reproduziu 40%, 50% do que tinha sido aquela noite em casa”. Imagina o clima que foi essa festa.

Na religiosa “Meu Glorioso São Cristovão”, eles constroem uma prece católica quase psicodélica, de ânimo pagão e cheio de sutilezas. Jorge declama uma oração enquanto Gil a desmonta compasso a compasso sem distorcer o sentido das palavras. A dançante “Essa é Pra Tocar No Rádio” ganha uma roupagem solta e despretensiosa, ao contrário da intrincada versão jazzística e levemente caipira que entraria mais tarde em Refazenda”, o próximo trabalho de Gil.

O mesmo se dá com a épica “Taj Mahal”, que voltaria com outra roupagem um ano depois no LP África Brasil”. Como se a música não tivesse mais fim, Jorge sobrevoa montado na melodia pegajosa do seu refrão onomatopéico – o mesmo “tê, tê, teteretê” que seduziu Rod Stewart a adaptar aquela sequência de notas para a disco music safada “Da Ya Think I´m Sexy?”. Em 1978, Jorge Ben encaminhou processo contra Rod. O autor da música, Carmine Appice, foi declarado culpado pelo ocorrido. Como punição, Rod teve que concordar em doar os royalties de sua canção para a UNICEF e cantá-la no The Music for UNICEF Concert”. O show foi um sucesso, mas Jorge nunca recebeu um tostão pelo plágio.

Gil exibe vitalidade no belo afoxé “Filhos de Gandhi” e Jorge rebate munido do singelo e delicioso samba-rock “Quem Mandou (Pé na Estrada)”, com suas infinidades de “eu te amo, eu te quero”. O delírio sonoro de “Jurubeba”, também de Gil, é uma peça bem acabada da liberdade no sentido mais literal e musical possível. Flutuam no ritmo nordestino do triângulo de Djalma enquanto viajam nos multi-benefícios da planta do sertão brasileiro.

Composição de Gil nos tempos de exílio, “Nega (Photograph Blues)”, é o híbrido mais bem acabado onde tudo se encaixa perfeitamente. É nessa faixa que está destilada a essência do encontro: a versatilidade de Gil com o cadencioso ritmo de Jorge como se tudo fosse uma única coisa. Um raro presente embrulhado num inglês sobrecarregado de sotaque.

Por mais que Midani julgasse estritamente necessário que o trabalho saísse, aquele álbum duplo com apenas nove músicas obteve pouca repercussão no mercado, o que já era de se esperar. Em LP, “Gil & Jorge” nunca fora reeditado. Porém, a crítica foi generosa com o resultado, ao julgar que aquela uma hora e meia de música era pura e irretocável. De fato, a despretensão que faz deste disco mágico e único na discografia brasileira.

Ainda que impopular nas vendagens, “Gil & Jorge” se transformou em um clássico cult, sendo reconhecido até pelo público internacional como um dos pontos altos da música brasileira. Depois disso, tanto o baiano quanto o carioca passariam a buscar em suas carreiras uma trilha mais sóbria e popular: Gil revisitaria suas origens nordestinas e Jorge abraçaria de vez a guitarra elétrica.