A raiz da questão: Buddy Holly & The Crickets – The “Chirping” Crickets (1957)

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Ele está impregnado em nossas vidas desde que apareceu. A gente pode nem sempre notar sua presença, mas quando escutamos maneirismos no vocal de algum cantor ou cantora ocidental lá está Buddy Holly, fazendo escola com seu modo soluçado de apimentar e uma canção. Quando alguém empenha a função de frontman e guitarrista, lá está ele também, indiretamente evocado. Quando você observa as vitrines das lojas de instrumentos musicais e se depara quase que fatalmente com uma guitarra Stratocaster, lá está ele também, homenageado de modo subliminar. Ou então se você tem esse visual meio desajustado e nerd e acha que tem algo a dizer por meio das suas canções, é muito provável que seu cérebro esbarrou em algum momento nesse sujeito.

Bastou um ano e meio para que o texano Buddy Holly se tornasse um dos maiores compositores da história da música do século XX. Tratando-se de rock, talvez tal feito tenha se repetido apenas uma vez, com o surgimento dos Sex Pistols duas décadas depois.

Buddy Holly também foi um dos pioneiros no uso de técnicas de gravação alternativas, como a dobra de vocal, palhetadas em primeiro plano e uso controlado de reverb (vide como o efeito entra e sai da bateria em “Peggy Sue”). Outra coisa bastante notável é que ele ia um pouco além da fórmula do blues, ou seja, às vezes inseria um acorde inusitado na música que acabava fazendo toda diferença.

Enfim, pensando nisso vamos falar do único e sensacional álbum de Buddy Holly & The Crickets: “The “Chirping” Crickets”. Lançado em novembro de 1957, esse monumento do rock é uma espécie de síntese do que esse gênero significa. “The “Chirping” Crickets” está para a música pop como A Primeira Noite de Um Homem” (1967) está para a Nova Hollywood. Assim como o filme, tudo o que você precisa saber para entender o contexto está lá muito bem inserido. Alguém pode argumentar dizendo que o rock mudou muito, a ponto de bandas muitas vezes não terem nenhum traço dos pioneiros… Olha, sem caras como Holly, Sigur Rós não existiria nem em pensamento, pois não teria My Bloody Valentine, que por sua vez não teria assimilado Brian Eno, que por sua vez não passaria por Velvet Underground, tampouco por Bob Dylan, que por sua vez não seria quem foi sem Buddy Holly.

Algo como “Oh Boy!” vai muito além do simples sentimento de juventude. Isso é uma afirmação artística até então quase inédita, de modo que chega a soar surpreendentemente estarrecedor, se levarmos em consideração o contexto da época. Aí temos um jovem falando de algo do seu convívio para uma infinidade de jovens. Lembrem-se: antes do rock, ser menor de idade era o mesmo que não ter voz. Quanto a música pode estar atrelada a essa conquista?

Considerando a sonoridade apenas, o álbum é um trabalho incrível de ponta a ponta. “That’Il Be The Day” é um verdadeiro standard do século XX. A guitarra magra de Buddy Holly, combinada com seus vocais expressivos dão um ar cool um pouco diferente de Chuck Berry, por exemplo. Enquanto Berry investia numa sonoridade mais erótica e selvagem, Holly tinha mostrava o rock ‘n’ roll básico com uma sofisticação irresistível.

As baladas também ganham lugar de destaque, como é o caso de “An Empty Cup”, que além de mostrar o cativante feeling vocal de Holly, também indica o bom guitarrista imortalizado como o primeiro herói munido de uma Fender Stratocaster.

Todos sabem que ele foi uma das principais influências dos Beatles, e ouvindo “Maybe Baby” é fácil saber o motivo. A faixa poderia estar em qualquer disco da fase engravatada do quarteto de Liverpool. Os Stones também beberam muito dessa fonte, tanto que “Not Fade Away” foi escolhida para ser um dos primeiros singles do grupo, sendo executada ao vivo até hoje. E aqui no álbum dos Crickets a canção não tem a mesma malícia dos ingleses, mas brilha com o vocal soluçado e o clima despretensioso.

O curioso em Buddy Holly é que seu som não é tão vibrante como Little Richard, por exemplo, mas em “Rock Me My Baby” tem muito do espírito daquelas festas de salão dos anos 1950. Aliás, é uma faixa meio Elvis Presley.

“The “Chirping” Crickets” é de certa forma bastante diversificado. Seu resultado é uma salada de country com r&b e blues muito bem estruturada. Se você curte sons antigos é quase certo que vai querer repetir tudo de novo e de novo e de novo… Esse cara tem carisma! Queria voltar no tempo e escutar tudo isso pela primeira vez. Imagina?

Após sua saída dos Crickets, Buddy ainda faria mais um disco solo, igualmente excelente e ainda mais sofisticado e pop, porém um acidente de avião tiraria sua vida aos 22 anos. Mas o “estrago” já estava feito: a música jamais seria a mesma.

O som caleidoscópico do Jefferson Airplane

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Um dos motivos pelo qual estou falando sobre o Jefferson Airplane é porque aqui no Brasil parece que a banda ainda não foi completamente assimilada. É um caso muito parecido com o de outros grupos como Allman Brothers Band ou Roxy Music, que pra música pop mundial são tão influentes como aqui é pra nós os Novos Baianos ou Titãs.

Formado em 1965, em São Francisco, o grupo liderado por Marty Balin (vocais) e Paul Kantner (guitarra e vocais) foi um dos precursores do que mais tarde viria a ser chamado de rock psicodélico. Na época do “Verão do Amor”, em 1967, a banda esteve no auge e conseguiu emplacar no rádio sucessos como “Somebody to Love” e “White Rabbit”, clássicos que hoje são praticamente as únicas músicas lembradas pelo público em geral.

O Airplane sempre foi inventivo, tanto em estúdio quanto ao vivo. Jorma Kaukonen (guitarra), Jack Cassady (baixo) e Spencer Dryden (bateria) tinham inclinação para improvisos e enriqueciam o som do grupo com influências do jazz e do blues enquanto Balin e Grace Slick entrelaçavam suas vozes com a guitarra Rickenbaker de 12 cordas de Kantner. Era como se estivessem reinventando harmonias incessantemente. Considerando a influência do LSD no período, essa estranha junção soava como um casamento entre The Byrds com Cream e mais alguma coisa levemente caótica.

O grupo durou até 1974. Por conta da relativa vida curta, pode-se dizer que muitos músicos passaram pelo Jefferson Airplane, e com essa constante entrada e saída de integrantes, gradativamente, o grupo se transformou no Jefferson Starship, o qual não vale muito a pena perder tempo, com exceção de alguns poucos momentos de inspiração.

A fase áurea da banda vai de 1966 a 1969.

“Jefferson Airplane Takes Off” (1966)

O debut da banda ainda não contava com Grace Slick nos vocais e Spencer Dryden na bateria. Signe Anderson e Skip Spence (mais tarde fundador do Moby Grape) eram os donos das posições, respectivamente. Quanto à sonoridade do disco, é notável a predominância do folk rock nas canções, o que acabou resultando num ponto positivo. “Takes Off” é agradável do início ao fim e, como em grande parte das estreias musicais, é um pouco contido se comparado aos demais trabalhos. A ótima “Let Me In” mostra exatamente pra qual direção o rock‘n’roll americano estava apontando naquela época de transição, enquanto “It’s No Secret” revela a competência de Marty Balin como vocalista e fazedor de melodias pegajosas. Destaque também para a elegante “Come Up the Years”.

“Surrealistic Pillow” (1967)

Muitos são os motivos pra este trabalho ser considerado o ponto alto do Jefferson Airplane. A cena de São Francisco estava ainda mais efervescente, as composições eram mais coesas, o então novo baterista Spencer Dryden era mais adequado à sonoridade dos demais músicos e a entrada de Grace Slick de fato transformou o grupo em algo maior. O disco é excelente de ponta a ponta e não é exagero afirmar que o resultado final é um dos melhores da história do rock. Basta escutar o início de “She Has Funny Cars” e se entregar ao repertório, que vai da sutileza acústica de “How Do You Feel” e “Comin’ Back To Me”, às mais roqueiras “1/3 of a Mile in 10 Seconds” e o hit “Somebody to Love”, que chegou a entrar no Top 10 das rádios. Tem a também clássica “Plastic Fantastic Lover”, com participação de Jerry Garcia, do The Grateful Dead, no violão, e a obra-prima “White Rabbit”, onde a banda – sobretudo Grace – alcança um resultado ímpar que sobreviveu ao tempo. “Surrealistic Pillow” foi um grande sucesso, vendendo mais de um milhão de cópias na época do lançamento e transformando o Jefferson Airplane numa sensação nos EUA. Referência de um dos períodos mais prolíferos da música Pop. Perfeito.

“After Bathing at Baxter’s” (1967)

Quando se fala de alternative rock é fácil vir em mente grupos como Sonic Youth. Por que não Jefferson Airplane? Contradizendo ao título do álbum anterior, “After Bathing at Baxter’s” é mais surrealista e pode ser tido como exemplo de como um produto de sucesso pode se transformar em algo mais difícil de digerir, no bom sentido. Tirando “Martha”, que de certa forma repete a fórmula dos dois primeiros, este LP é muito mais agressivo que os anteriores e é mais próximo de como soavam nos palcos, talvez por isso seja o favorito de muita gente. E desta vez está escancarada nas músicas a influência do LSD sobre a banda, basta ouvir “Two Heads” ou a muito bem construída “Won’t You Try/Saturday Afternoon”, que divide com “The Ballad of You & Me & Pooneil” o posto de melhor canção do álbum. Vale lembrar também de “Young Girl Sunday Blues”, que é um rock irresistível. Outro ponto a favor é o baixo de Jack Cassady, que se destaca ao longo das canções e culmina na “Watch Her Ride”, um dos singles escolhidos pra promover o disco. Tem umas doideiras que muita gente desacostumada com sons psicodélicos julgará pura bobagem, como a colagem de bizarrices em “A Small Package of Value Will Come to You, Shortly” e o improviso “Spare Chaynge”, mas em “Baxter’s” o Airplane definitivamente está mais solto.

“Crown of Creation” (1968)

A faixa-título é um bom pretexto pra apresentar a banda a alguém que nunca escutou nada deles. “The House at Pooneil Corners” tem uma atmosfera furiosa e densa, enquanto por outro lado há algumas canções com a roupagem mais enxuta, o que dá pra notar em “Lather” – com direito a solo de nariz – e na ótima balada “Triad”, composta por David Crosby. “Greasy Heart” é uma daquelas que agradam logo na primeira audição, sem muitas firulas. Há também um pouco da estranheza, como em “Would You Like a Snack” e “The Saga of Sydney Spacepig”. “Crown of Creation” segue a linha de “Baxter’s”, apesar de parecer um pouco menos caleidoscópico.

“Volunteers” (1969)

A essa altura o Airplane havia alcançado o topo da maturidade, e ao mesmo tempo iniciara o processo de auto-destruição. Jorma Kaukonen e Jack Cassady já tinham começado a tocar paralelamente com o Hot Tuna, Marty Balin há tempos não contribuía tanto nas composições e Spencer Dryden já estava de saída pra dar lugar a Joey Covington. Apesar do clima tempestuoso, a banda lançou um dos seus trabalhos mais aclamados pela crítica e público. Dá vontade de escutá-lo novamente assim que termina. “We Can Be Together” é um hino pacifista que para alguns pode parecer meio datado, mas a melodia arrebatadora fala mais alto. “Wooden Ships” é especial por ser de longe o momento mais emotivo da carreira do Jefferson Airplane. Outras faixas, como “Eskimo Blue Day” e “The Farm” mantém o ouvinte satisfeito, mas o ponto alto é a faixa-título. Escrita por Balin, “Volunteers” é dois minutos de um rock direto e que curiosamente tem como base praticamente o mesmo riff de “We Can Be Together”, uma espécie de auto-homenagem. A banda soa mais habilidosa do que em qualquer outro disco anterior a esse, e a guitarra de Jorma Kaukonen tem presença decisiva em praticamente todas as faixas.

Após esses LPs, o Airplane começaria a se desmantelar, a começar pela saída de Marty Balin, um dos fundadores. Lançariam “Bark” (1971) e “Long John Silver” (1972), que também são bacanas, mas aí a banda já não era mais a mesma. No início de 1974 foi anunciado oficialmente o fim. Em 1989 houve uma reunião do grupo com a formação clássica e o lançamento de um álbum homônimo, o qual jamais deveria ter sido lançado.

Além dos trabalhos de estúdio, a banda tem bons discos ao vivo lançados oficialmente: “Bless It’s Pointed Little Head” (1969), “Thirty Seconds Over Winterland” (1973), “2400 Fulton Street” (1987) e “Live at The Fillmore East” (1998).

Pra conhecer melhor a banda, vale a pena o DVD “Fly Jefferson Airplane”, com entrevistas, apresentações de TV e clipes, além da leitura da biografia escrita por Jeff Tamarkin chamada “Got a Revolution! – The Turbulent Flight of Jefferson Airplane”.

Renascimento doloroso: John Lennon – “Plastic Ono Band” (1970)

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Poucas vezes uma obra foi tão determinante para me fazer entender que a música é, primeiramente, algo de extrema intimidade, pessoal por essência. Fazer dessa qualidade uma reafirmação é muito difícil, ainda mais sendo uma das pessoas mais famosas do mundo e recém ex-beatle. Coragem define este disco.

Seco, extremamente enxugado, quase esvaziado, melancólico, desesperado, reflexivo e redentor. Assim é Plastic Ono Band”, essa obra-prima sem igual.

O que mais me impressiona neste disco é que, ao contrário dos trabalhos mais emblemáticos do início da carreira solo de seus ex-companheiros de banda (como é o caso dos também incríveis Ram” e All Things Must Pass”, de Paul McCartney e George Harrison, respectivamente), John parece não ter feito um enorme esforço para tirar da cabeça essas canções. Tudo parece ser bem natural, espontâneo, de coração e em um nível genial. Claro que houve ajuda para fazer este disco sair do papel. Phil Spector, que assina a produção, foi esperto e manteve seu temperamento musical discreto. Ou seja, em “Plastic Ono Band” você não terá nada de “wall of sound” e aquela porrada de músicos tocando em mono. O LP é extremamente básico, porém de um modo original. Pegue como exemplo “Hold On”: guitarra, baixo, bateria e voz embalados por uma letra claramente voltada para o próprio autor. A temática do trabalho é John Lennon, do início ao fim.

Na comovente “Mother”, Lennon exorciza seus traumas de infância e chega a partir nosso coração com versos como “Mama don’t go, daddy come home”. Não restam dúvidas de que John vivia um período muito complicado. Mesmo que ele não quisesse dar o braço a torcer (algo que ficou muito claro na lendária entrevista publicada na revista Rolling Stone em 1970), o fim dos Beatles foi uma verdadeira porrada na alma daquele que fundou o maior fenômeno da história da cultura pop.

Beirando os 30 anos, Lennon atravessou essa difícil fase como pôde. Até que acabou embarcando numa espécie de terapia alternativa chamada “grito primal”, onde o paciente é encorajado a reviver e a expressar seus sentimentos básicos e que o terapeuta considera que podem ter sido reprimidos. O psicanalista americano Arthur Janov, criador dessa terapia, teve Lennon como paciente, e sobre isso disse certa vez: “Nunca vi tanta dor em toda a minha vida! Toda a dor de não ter sido amado fica gravada no cérebro, nos músculos, nos ossos das pessoas”. Agora, voltando para “Mother”, podemos perceber como tudo isso se encaixa: observe como é descarnado de qualquer tipo de filtro de ego aqueles berros no final da canção… se ainda estivesse nos Beatles muito provavelmente essa música não seria gravada.

Em “Isolation”, outra canção de apertar o coração, mostra Lennon guiado por poucas notas do seu piano enquanto observa o comportamento das pessoas em geral. E a letra é tão honesta que não há como fugir da mensagem. Pouca gente nesse mundo é capaz disso, esse incrível dom de saber abrir a cabeça das pessoas com poucas palavras.

Em tempo, vale ressaltar o trabalho impecável de Ringo Starr e Klaus Voormann na bateria e no baixo, respectivamente. Sem a simplicidade dos dois amigos de longa data de John (Ringo não precisa apresentar, já o alemão Klaus é o sujeito que fez a capa do LP Revolver” (1966), camarada de Lennon e dos Beatles desde os tempos de Hamburgo), talvez “Plastic Ono Band” teria resultado em “apenas” um excelente disco.

Em dois momentos cruciais do LP não é Lennon quem pilota o piano. Em “Love”, uma canção absurdamente linda sobre o que é o amor, é Spector quem guia John. Um dos clássicos do catálogo de sua carreira solo, “Love” é limítrofe: alguns podem achar piegas, outros podem passar despercebido por esse adjetivo fácil e notar que afinal, o que ele canta ali é fundamental. Algo tão certeiro quanto a letra de “Imagine”. Como ele conseguia fazer isso?

Em “God”, com Billy Preston no piano, John joga o famoso balde de água fria nos fãs dos fab four: “I don’t believe in Beatles/ I just believe in me/ Yoko and me/ And that’s reality/ The dream is over… Na verdade, é uma letra duríssima que não deixa passar despercebido nem Dylan, nem a Yoga, nem Elvis, nem Jesus e tampouco Deus. Nem precisa mencionar o tipo de discussão que essa música gerou, ainda mais vindo de um cara que quatro anos antes havia dito que “os Beatles são mais populares que Jesus Cristo”.

A pegada iconoclasta também dá as caras em “I Found Out”, com um jeito mais rock ‘n’ roll, o que ele sentia mais a vontade de fazer. A faixa pode ser considerada o resultado de uma década na qual o compositor passou por diversos gurus em busca da iluminação, com meditação, drogas e a Terapia Primal. Na música ele deixa de lado esta série de falsos ídolos que ele tinha acumulado ao longo dos anos e os rejeita. A guitarra de John soa excelente, assim como em “Well Well Well”, outro rock mais direto e com direito a berros que chegam a parecer Kurt Cobain em seus melhores momentos.

“Look At Me” tem aquele dedilhado tão característico que pinta as faixas “Julia” e “Dear Prudence”, do White Album” (1968), e a melodia é de uma melancolia verdadeiramente dolorida. Esta poderia estar em um hipotético trabalho dos Beatles, assim como “Remember”, que de certa forma traz a pulsação de “I Found Out” e a reflexão de todo o resto do trabalho. Um belo registro.

“Working Class Hero” é um dos melhores momentos da carreira de John. Um simples folk onde ele destila todo seu lado amargo de ver o mundo em uma letra espetacular e atemporal. Apenas por essa já valeria a pena dar uma chance para esse disco, mas “Plastic Ono Band” é um desfile de clássicos geniais.

O disco acaba com a triste “My Mummy’s Dead”, uma quase vinheta lo-fi, sem pretensão alguma de soar maior que aquilo. É apenas um adorno.

O LP foi recebido com elogios. No começo de 1971 o álbum chegou ao número oito no Reino Unido e foi para o número seis nos Estados Unidos, passando 18 semanas no Top 100.

“Plastic Ono Band” é figura presente em praticamente todas as listas de melhores discos.

Em 2000 a revista Q colocou o trabalho no 62º lugar na sua lista dos 100 Maiores Álbuns Britânicos de todos os tempos. Em 1987, foi classificado como o 4º na lista da Rolling Stone dos 100 melhores álbuns do período entre 1967 e 1987. Em 2003, ele foi colocado no 22º posto na lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, também da Rolling Stone. Em 2006 “Plastic Ono Band” foi escolhido pela Time como um dos 100 melhores de todos os tempos.

Este é um trabalho irretocável de um dos maiores artistas da História. Sempre que alguém questionar a importância dos Beatles ou a qualidade de Lennon como compositor, diga apenas: “Plastic Ono Band”.

A beleza do fim: Beck – “Sea Change” (2002)

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Beck Sea Changes

Considerando a cena do pop rock, pouca gente consegue soar tão convincente e ao mesmo tempo tão livre quanto Beck. Pensa bem, quantos têm essa habilidade incrível? Bowie, Björk, Kate Bush… Dá para contar nos dedos.

Beck transmite aquela sensação rara que nos dá a impressão de que ele é capaz de fazer qualquer coisa soar bem. Não é nada fácil brincar com gêneros, transformá-los em grandes álbuns e praticamente reinventar algo firmemente estabelecido, o que pôde se percebido em Mellow Gold” (1994) e na obra-prima Odelay” (1996). Que diabo é aquilo? Rock, rap, blues, folk… Aquilo é Beck. Talvez inconscientemente, ele, mais do que ninguém, apontou para o hibridismo sugerindo ser este o caminho a ser explorado no futuro.

E na virada do milênio Beck estava com uma carreira consolidada, recheada de bons discos, premiações e alguns milhões de cópias vendidas. O grande público comprou sua ideia maluca, e cada trabalho era uma verdadeira surpresa, como Midnite Vultures” (1999), uma releitura de sons da música negra, como funk e soul. Eis que em 2002 ele surge completamente diferente, com um dos discos mais lindos das últimas décadas.

Embora pareça desconexo na discografia de Beck até então, Sea Change” pode ser visto como uma evolução do compositor, que nunca escondeu sua queda por violões e melodias mais explícitas, como podemos conferir no incrivelmente tosco One Foot In The Grave” (1994), trabalho com pegada lo-fi voltado ao folk torto que ele gostava de assumir.

Em “Sea Change” temos uma quantidade absurda de emoção, arranjo de cordas, grandes vocais e um Beck mais maduro, sério e melancólico. Pode ter certeza que ninguém esperava um disco como este.

Naquele período o cantor enfrentava o fim de um relacionamento que durou nove anos, o que logo de cara fez muita gente comparar “Sea Change” com Blood on the Tracks” (1975), emblemático álbum de Bob Dylan que também foi inspirado em uma separação. Na verdade, nem é preciso saber dessa informação para sentir isso nas faixas. Beck traduziu essa situação com uma rara habilidade. É um disco fácil de ouvir e assimilar, e embora tenha essa densa carga de lágrimas ele emana esse forte magnetismo que as melodia tocantes carregam. Tudo é bonito: os vocais, as letras, as cordas, a simplicidade da banda e a incrível produção de Nigel Godrich. Vale destacar seu papel nesse trabalho, isso porque há por trás de praticamente todas as faixas uma atmosfera muito sutil e peculiar, e pode ter certeza que esse resultado vem da mão de Nigel, que já trabalhou com nomes de peso como Paul McCartney, R.E.M., Radiohead e Roger Waters.

Perceba em “The Golden Age” a carga daquele som. Tão simples e tão cheio, coeso, bonito e direto. É um belo jeito de abrir um disco. Esta já é um clássico contemporâneo. Você que conhece o trabalho de Beck antes de “Sea Change”, imagina a estranheza que deve ter sido escutar essa beleza logo de cara? A maturidade sonora é gritante (não confundir aqui com simplicidade).

Uma espécie de groove sombrio dita as regras em “Paper Tiger”, uma das melhores da track list. Um arranjo de cordas absurdo dá uma cor inédita em qualquer canção já feita por Beck até então.

“Guess I’m Doing Fine” meio que reassume a roupagem de “The Golden Age”, quase que uma música irmã. Outro sucesso, outra grande música, outro momento deparada obrigatória no catálogo do compositor. Com uma melodia dessa grandeza é muito difícil dar um tiro fora.

O momento mais tocante do álbum está reservado para “Lonesome Tears”, que faz jus ao título e realmente emociona. São vários os motivos para te levar a este estado de espírito, seja a letra escancaradamente pessoal, o modo que ele canta, o arranjo de cordas choroso, a dinâmica sinuosa… Essa é difícil de passar ileso, sério.

“Lost Cause”, outro grande sucesso, ainda soa adequada ao contemporâneo (o disco todo na verdade). Uma assumida desilusão encarna no espírito de Beck com uma forte convicção, o que reforça a assinatura autobiográfica em “Sea Change”­ – só tendo vivido aquilo de fato para fazer coisas como “Lost Cause” se mostrar como algo real. Esse mesmo estado de espírito soa forte em “Already Dead” e seu interessante arranjo de violão.

Seguindo a mesma pegada quase “road movie” de “The Golden Age” e “Guess I’m Doing Fine” temos outra excelente faixa, “End Of The Day”. E aqui fica evidente que este disco é bom justamente porque é bom por si só. Não se trata de novidades atrás de novidades, como nos outros álbuns de peso de Beck. Em “Sea Change” as coisas funcionam porque são orgânicas, os sentimentos não estão encobertos, e é isso que fascina.

Com um lindo arranjo de cordas fornecido por David Campbell, pai de Beck, “It’s All In Your Mind” vem como um ressurgimento. Isso porque ela já havia sido lançada como single em 1995, sendo uma sobra das gravações de “One Foot In The Grave”. E isso é muito curioso, porque comparando as duas podemos ver como existem várias personas em Beck: enquanto que a versão de 1995 soa como uma demo atraente, a faixa de 2002 é um artista por inteiro. Grande momento.

É inevitável não o comparar com Nick Drake em “Round The Bend”. A densidade da orquestra que preenche a faixa e até mesmo a melodia lembram muito “River Man”, clássica canção do cantor britânico. Mas mesmo que soe parecido, não é um caso constrangedor.

Dá até para achar um resquício de Coldplay (da fase boa) em “Sunday Sun”, que com sua batida eletrônica se mostra como o momento mais destoante de “Sea Change”, ainda que muito bem assimilado por todo o restante do trabalho. O refrão é arrebatador.

Ainda que realmente boas, sinto as duas últimas, “Little One” e “Side Of The Road”, meio que sobrando na tracklist. Mas merecem atenção, sobretudo a última, pelo trabalho de slide e aquele pouco de blues que persiste em Beck Hansen, esse artista incrível.

Há quem diga que este seja o melhor trabalho dele, há quem ache esse disco meio fora da curva, há quem considere “Sea Change” um dos melhores discos da década, assim como tem gente que considere este como um dos melhores álbuns de todos os tempos (como foi o caso da Rolling Stone e outras revistas).

De certa forma, o fim do relacionamento fez muito bem a Beck, que conseguiu ainda mais sucesso com esse trabalho e mostrou ao mundo talvez a única persona que ele ainda precisava escancarar: aquela do homem vulnerável perante os sentimentos.

Megalomania: Emerson, Lake & Palmer – “Brain Salad Surgery” (1973)

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ELP Brain Salad Surgery

 

Um disco como Brain Salad Surgery” ainda faz sentido hoje? Bem… até onde eu sei, música não tem idade, e o que hoje é considerado datado amanhã será a fonte de inspiração para uma galera totalmente repaginada. E não sou eu quem está dizendo isso. Ouça os maneirismos dos anos 1980 berrando a todo vapor em produções mais recentes, como vem acontecendo de uns anos para cá em trabalhos de nomes como Daft Punk, Lady Gaga ou Rihanna. Para muita gente pode parecer que não, mas por um bom tempo – talvez por quase toda a década de 1990 e um pouco de 2000 – esses timbres que agora fazem a cabeça de muita gente eram tidos como algo ridículo, sem a mínima chance de voltar a ser moda. Pois bem, a música pop lambeu suas feridas e aí está, mais uma vez: baterias eletrônicas exageradamente encharcadas de eco, palminhas falsas, teclados a la Alpha FM e aquela frivolidade tão polêmica. Agora, dizer se isso é bom ou ruim não é inteligente, mas cabe ao artista saber inserir esses elementos, certo?

E o que isso tem a ver com Emerson Lake & Palmer? Tudo! Afinal, estou me referindo ao modo de revisitar coisas que no fundo sempre estiveram disponíveis e vivas. Basta alguém pegar uma ideia qualquer para percebermos que tudo se trata da mesma coisa.

Aliás – é impressionante pensar nisso em 2017 –, em 1973, ano em que o rock progressivo atingiu seu auge, LPs contendo faixas com quase meia hora de duração chegavam a liderar a lista da Billboard. Isso significa que as pessoas tinham saco para ouvir toda aquela complexidade em uma proporção de cultura de massa. O jeito de se curtir um som era completamente diferente: você já deve ter ouvido alguém com mais de 50 anos dizer que chamava os amigos em casa para apagar as luzes e escutar faixa a faixa de Dark Side Of The Moon”, e depois discutir aquilo como se fosse um filme.

E você se lembra do começo desse texto, quando eu disse que atualmente há um interesse no ar pela sonoridade da década de 1980? Pois veja que o ELP (sigla para o nome do grupo) passava por esse mesmo tipo de transformação, haja vista que apontavam seus interesses para a música clássica, sinfônica (o disco Pictures At Na Exibition”, de 1971, é uma releitura de uma suíte de mesmo nome, composta pelo russo Modest Mussorgsky em 1874). Isso significa que essas coisas meio “cerebrais” combinavam com a vibe de parte da galera jovem da época, que curtia um pouco de complexidade e divagações vagarosas.

A ideia por trás do trio formado por Keith Emerson (piano e teclados), Greg Lake (vocais, baixo, violão e guitarra) e Carl Palmer (bateria), embora extravagante e pomposa, nunca foi segredo para ninguém: expandir os limites do rock ‘n’ roll, fazendo música sinfônica com apenas três peças. Hoje isso pode soar meio bobo, mas deu certo e conquistou um enorme público, chegando a ser uma das bandas mais lucrativas do mundo em sua época. Emerson, Lake & Palmer foi um verdadeiro fenômeno, e “Brain Salad Surgery” foi o pico criativo do trio.

Na época de seu lançamento, em 1973, o grupo havia lançado quatro excelentes álbuns de sucesso, e este quinto LP viria a ser seu ápice estético, inserindo naquele som o que havia de mais moderno em termos de eletrônica a partir do uso e abuso de sintetizadores Moog, sendo Emerson o primeiro e único músico a utilizar o protótipo Constellation, apresentando pela primeira vez um sintetizador polifônico.

As cinco faixas do disco (sendo uma delas uma suíte de quase 30 minutos) são impressionantes. Todas apresentam uma sonoridade corajosa, tentando empurrar ao máximo os limites dessa formação de rock sem guitarra elétrica (salvo uma hora ou outra). “Brain Salad Surgery” poderia ser definido em três palavras certeiras: virtuosismo, melodia e dramaticidade.

A abertura fica por conta de “Jerusalem”, releitura completamente transformada de uma das músicas tradicionais mais famosas da Grã-Bretanha, algo que o ELP sabia fazer com excelência. O sempre belo vocal de Greg Lake contrapõe a massa sonora formada pelos sintetizadores e órgãos de Keith, enquanto que a bateria de Carl Palmer – um dos maiores bateristas da história do rock – remonta essa peça de um jeito incrivelmente inventivo. A faixa chegou a ser lançada como single, mas, embora tenha chamado atenção do público, foi muito mal nas rádios britânicas, que se recusaram a tocar esse “sacrilégio”, um verdadeiro hino tido como um patrimônio cultural remexido de modo tão fora dos padrões. Até a BBC baniu.

Em seguida vem “Toccata”, outra releitura, desta vez do argentino Alberto Ginastera (que aprovou a versão, dizendo pessoalmente a Keith Emerson que eles haviam capturado a essência da composição ‘como ninguém jamais havia feito’). Caótica, frenética, urgente e intensa. É uma verdadeira porrada na cabeça. Um peso real sem guitarras. Sim, esse é um som muito nerd, mas é impressionante… lembre-se que são três caras fazendo essa barulheira (e reproduziam a mesma coisa ao vivo). Há espaço para um baixão espetacular, sintetizadores com sons de trompete, solo de tímpanos e uma parte bizarra – que chega a ser cômica – de bateria, onde Carl Palmer utiliza programação eletrônica de sons MIDI para criar um ambiente sci-fi, algo quase impensável na época. É a vanguarda flertando com o rock em um nível controverso. Dá para fazer um nó na cabeça com esse som.

Como era praxe nos álbuns anteriores, Greg nos dá uma trégua e apresenta uma daquelas indescritíveis baladas que ele fez. “Still… You Turn Me On”, guiada por um belo violão, é um daqueles momentos memoráveis dos anos 1970, quando era comum se deparar com melodias de cair o queixo aliadas a uma inocência típica daquela fase. Se alguém soube fazer bem isso, esse alguém foi Greg Lake, dono de uma voz incrível e também de grande esperteza: todo mundo sacava que ter essas baladas entre esse monte de maluquice sonora também garantiria um grupo de pessoas a fim de escutar algo romântico. Deu muito certo.

“Benny The Bouncer” traz ao LP um pouco de descontração, com aquele som de piano de bordel, uma pegada meio jazzy e um vocal escrachado. A letra fala de Benny, um segurança de balada que, ao se encontrar com Sidney, o beberrão, entra em uma briga e é morto por um golpe na cabeça. No céu, arranja um bico como segurança de Jesus.

O lado B inteiro é dedicado àquela que talvez seja o maior feito artístico da banda: “Karn Evil 9”. Dividida em “First Impression”, “Second Impression” e “Third Impression”, esta suíte vai além dos limites de uma composição de rock. Fico imaginando como foi possível eles juntarem tudo aquilo e lembrar como se toca ao vivo (vale destacar que existem imagens disponíveis do trio ensaiando essa música para ser gravada, o que, para os músicos que estão lendo isso, é um documento fascinante). “Karn Evil 9” emociona, empolga, intriga, irrita, acalma, mete medo e euforia. Keith Emerson mostra todo seu brilhantismo e versatilidade no Moog, no piano, órgão Hammond; Greg Lake, sempre muito seguro, toca um baixo incrível e depois vai para a guitarra, fazendo solos dignos daquele período com tantos guitar heroes; Carl Palmer praticamente reinventa o modo de tocar bateria em uma banda de rock, seu estilo é único. Ali tudo funciona do jeito mais ELP de ser: megalomaníaco. É nesta faixa que está o verso “Welcome back my friends to the that never ends”, obrigatória na abertura das apresentações do grupo.

Também vale a pena falar da arte da capa, desenvolvida pelo artista plástico H. R. Giger, famoso por desenhar nada mais nada menos que o visual do filme “Alien – O Oitavo Passageiro”.

“Brain Salad Surgery” fez grande sucesso, tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, o que resultou em uma turnê mundial. Com o passar dos anos, o desgaste do sucesso e a mudança de comportamento do público em geral, o Emerson, Lake & Palmer foi decaindo até praticamente não fazer mais sentido. Novas vertentes, principalmente o punk, meteram o pé na bunda da maioria dessas bandas hoje consideradas “cabeças-de-chave” daquele período. Da mesma forma, a sonoridade e a proposta artística daquilo que ofereciam foi simplesmente deixada bem lá no fundo do baú dos excessos, mofando ao lado de muitas outras coisas que tiveram o mesmo destino, como as bandas de new romantic dos anos 1980.

Neste momento que estamos vivendo uma ebulição de bons e maus ressurgimentos, creio que seja questão de tempo ver novas bandas com essa proposta repaginada. Por enquanto, o que resta é esse fóssil do rock ‘n’ roll, com o atual status de fascinantemente inadequado e que já chegou a soar como as trombetas do futuro. Queira ou não queira, o ELP é gigante na história.

Sons de desespero: Led Zeppelin – “Presence” (1976)

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Led Zeppelin Presence

Existem raros casos em que a obra completa de um determinado grupo ou artista é praticamente irretocável, incontestável em termos de importância histórica e cultural, quase imune ao ranço daqueles que insistem em torcer o nariz. O Led Zeppelin é um desses exemplos.

Tenho ouvido muito toda a obra da banda, mas muito mesmo, como há tempos não fazia com tanta intensidade. Então naturalmente quis escrever algo sobre, mas logo veio uma dúvida pertinente… Como falar dessa banda sem se repetir? Como abordar esse tema tão dissecado sem chover no molhado? Eis que descobri a resposta: Presence”.

Em sua curta trajetória devastadora, o Zeppelin produziu oito álbuns, todos excelentes, a grande parte deles fundamentais. Mas “Presence” sempre foi aquele LP meio negligenciado, o patinho feio que ninguém liga muito. Que injustiça.

Após Physical Graffiti” (1975) consagrar Jimmy Page (guitarra), Robert Plant (vocais), John Paul Jones (baixo e teclados) e John Bonham (bateria) como “a banda da década”, estava claro que não precisavam provar mais nada para ninguém. O quarteto havia realizado uma dezena de turnês, recorde após recorde, vendas absurdas, seis álbuns excelentes, chegando ao ponto de se tornarem lendas precocemente. O mais bizarro é que jamais tiveram apoio da crítica especializada (que insistia em descer a lenha no trabalho do grupo) e de adventos tão indispensáveis para uma banda divulgar seu trabalho, como singles, clipes e aparições em programas de TV. Naquela altura tudo ia bem, não havia como melhorar, porém, todo império tem seu fim, e no caso do Led, o começo da queda ladeira abaixo foi exatamente este período.

A zica que viria a persistir até o fim da banda – com a morte de Bonham – começou com um grave acidente de carro. Em 4 de agosto de 1975 Plant e sua família estavam de férias na Grécia, quando o carro que dirigia derrapou para fora da estrada e rolou a ribanceira. O acidente deixou Plant e sua esposa Maureen bastante feridos, entretanto os filhos escaparam do pior e sofreram apenas alguns arranhões. O vocalista quebrou um tornozelo e um cotovelo, que custaram mais de dois anos de recuperação total. O cantor passou um tempo em uma cadeira de rodas, o que afetou diretamente os planos futuros do Led Zeppelin, fazendo com que o grupo cancelasse uma turnê mundial.

Durante um período em convalescença Plant escreveu algumas letras e, quando Jimmy Page juntou-se com ele estas composições foram concretizadas. Os dois prepararam material suficiente para os ensaios, período que durou um mês.

“Presence” foi gravado no prazo de três semanas no Musicland Studios em Munique, Alemanha, com Plant em uma cadeira de rodas. Esta gravação foi a mais rápida desde “Led Zeppelin I”. Uma parte da pressa em gravar o álbum se deu pelo fato do Led ter reservado o estúdio antes dos Rolling Stones, que gravariam o álbum Black and Blue” logo em seguida. Ao chegar no local para iniciar os trabalhos, os Stones ficaram espantados, pois o Led havia gravado o álbum em apenas 17 dias.

Para Jimmy Page o trabalho foi ainda mais intenso, que além de assinar a produção do álbum ficou acordado dois dias para gravar os overdubs de guitarras. Ele inclusive chegou a dizer que trabalhou de 18 a 20 horas por dia para concluir as mixagens.

Talvez pela pressa de ter que concluir logo o trabalho ou talvez pelo período de ansiedade, “Presence” apresenta uma tracklist direta, crua, o que faz deste o disco mais hard rock da discografia do Led. São sete músicas que trazem um pouco daquela energia intensa dos primeiros trabalhos, mas com uma sonoridade mais polida.

De todas, a dolorosa “Achilles Last Stand” destoa como o grande trunfo. Essa porrada de estatura épica dura pouco mais de dez minutos e representa uma banda buscando atingir a força máxima. É como se eles quisessem deliberadamente compensar o hiato forçado pelo acidente de Robert com um som de assimilação instantânea e impressionante. A cozinha formada pela bateria impecável de Bonham lado a lado com o baixo galopante de John Paul Jones serve os vocais melancólicos de um Plant menos agressivo como de costume, enquanto que Jimmy Page constrói uma parede de guitarras incríveis, como uma espécie de orquestra. Para quem curte solos, isso aqui é uma coisa única. Um dos pontos máximos do Led Zeppelin.

“For Your Life” é um hard rock básico com um pouco de funk, uma faixa sem aquele brilho intenso de sempre, mas que ao mesmo tempo é ótima. A banda, mesmo em desvantagem, consegue entregar algo que ainda hoje quase nenhum grupo de renome consegue: esse som cru, bem tocado, ao mesmo tempo bem arranjado e criativo no modo de abordar um gênero básico. Led Zeppelin tem muito dessa excelência inata, justificada pela capacidade técnica dos quatro membros, extremamente capazes em seus respectivos papeis, a ponto de agradar vários nichos: músicos exigentes, músicos toscos, ouvintes desinteressados, saudosistas, moderninhos e os aficionados mais xiitas.

O groove certeiro de “Royal Orleans” mais parece uma prova de evolução e maturidade. Olhando para trabalhos anteriores com essa pegada funk (“The Crunge”, “Trampled Under Foot” etc.) percebe-se que ao chegarem em “Presence” o ritmo cadenciado flui naturalmente, afiado e extremamente competente, embora sem aquela vitalidade radiante dos primeiros anos. Já “Nobody’s Fault But Mine” é um rock de saltar às vistas. Cheio, pesado e certeiro, essa releitura completamente remodelada da faixa homônima do bluesman Blind Willie Johnson é o Led que estamos acostumados. O peso do riff de Page dita o caminho que toda a banda segue em linha reta, sem falhas e vibrante. Ótima música ao vivo.

O rock ‘n’ roll dos anos 1950 é revisitado em “Candy Store Rock”, que já dá pistas do viria a ser In through The Outdoor” (1979), o último disco do Zeppelin. Plant encarna um Elvis dos tempos de Sun Records, com direito a eco na voz e tudo. É uma faixa segura, sem grandes emoções. Um rock ‘n’ roll que não compromete e pouco acrescenta, para falar a verdade. Mas é uma boa faixa, apesar da falta de ímpeto.

Bonham brilha em “Hots On For Nowhere”, que literalmente salva a canção. Se não fosse as alterações que ele propõe ao longo dos quase cinco minutos talvez essa seria a música capaz de pôr em cheque a fidelidade de “Presence”. Ainda bem que não é o caso, no fim das contas é um momento agradável.

Quando a gente começa a achar que o disco vai derrapar na pista a banda apresenta essa verdadeira aula de blues. “Tea For One” – que no fundo é uma irmã caçula de “Since I’ve Been Loving You”, do III” (1970) – encerra o LP com o que parece ter significado para aqueles quatro caras o esforço de produzir algo novo quando as coisas pareciam estar ruindo. Um sentimento de melancolia extremamente adequado ao contexto em que o Led estava inserido. Page faz um trabalho de mestre e põe tudo de si naqueles fraseados tristes.

“Presence” é o melhor disco do Led Zeppelin? Claro que não. Mas funciona. Perceba como deveria ser difícil para aquele grupo seguir em frente tentando superar disco após o outro. Claro que uma hora as coisas começariam a ficar escuras. Aconteceu com os Beatles em Let It Be”, com o Pink Floyd em The Final Cut…” Excesso de drogas, libertinagem, muita grana envolvida, acidentes, ego inflado até o teto. Acho que tudo isso te coloca em uma posição horrorosa de desespero, e uma hora você terá que passar por uma provação. “Presence” é isso para o Zeppelin, uma provação com nunca eles haviam passado. Talvez por isso Page considere esse o principal trabalho da banda.

Mesmo tendo se tornado o álbum com as vendas mais baixas, banda passaria por essa turbulência, mas aos poucos sucumbiria por outros motivos (morte do filho de Plant e de John Bonham, por exemplo). “Presence” é um belíssimo começo de um fim amargo.

Distorção Criativa: Hüsker Dü – “New Day Rising” (1985)

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Husker Du - New Day Rising

 

Antes de mais nada gostaria de comentar como as coisas são estranhas e interligadas por uma energia inexplicável. Foi uma baita coincidência quando decidi aleatoriamente escrever esse texto, sendo que NO MESMO DIA eu fico sabendo que o baterista Grant Hart morreu. Que triste. Enfim, vamos ao que se pode.

Hüsker Dü é uma banda estranha, ao menos para mim. Aquela guitarra ardida, um som azedo e pulsante… Alguma coisa no tempero do trio faz a gente querer se aprofundar naquela atmosfera. Essa mistura de agressividade com ordem e uma dose cavalar de talento melódico fez a cabeça de muita gente na época e ainda hoje. Poucas vezes o hardcore atingiu essa maturidade estética.

Formado em Minneapolis, Estados Unidos, em 1979, o Hüsker Dü é Bob Mould (guitarrista e vocalista), Grant Hart (baterista e vocalista) e Greg Norton (baixista). Dois ótimos compositores apresentam propostas diferentes de estética, sendo Hart mais voltado para uma pegada pop e Mould com os pés na estética bruta do hardcore. Essa rivalidade por si só já é um aspecto fundamentalmente rico desse trio, embora isso e as drogas tenham posto um ponto final nessa história.

Mesmo quem não seja apegado ao punk, hardcore e suas vertentes reconhece facilmente no grupo uma unidade poderosa. Não à toa saiu daí inúmeros filhotes e influências indiretas: Dinosaur Jr., Mudhoney, Nirvana, Weezer, Pixies, Jesus and Mary Chain e a lista não acaba.

A banda foi construindo tijolo por tijolo uma reputação invejável no circuito das rádios universitárias e no cenário alternativo como um todo, sendo que no início os trabalhos eram mais sujos, com uma sonoridade mais voltada para bandas contemporâneas como Minor Treat e Black Flag, o que foi sendo refinado para um viés mais acessível – às vezes quase pop – ao longo da carreira. Muito disso se deve à influência das bandas psicodélicas de folk rock dos anos 1960, sobretudo Beatles e Byrds. Isso apareceu com muita força no Zen Arcade” (1984), LP duplo com uma impressionante personalidade, misturando punk com folk, pop e até mantra hindu. Há quem diga que este seja o trabalho mais contundente do Hüsker Dü, mas estou aqui para falar do seu sucessor, New Day Rising” (1985).

A tracklist é redonda, uma faixa melhor que a outra, um som de molecagem super maduro, se que isso faz algum sentido…. mas é esse o espírito da coisa. 15 músicas para ouvir no repeat. O trio sabia o que estava fazendo e sabiam do potencial daquelas composições. Harmonias bem estruturadas, dramaticidade e, na medida do possível, mais requinte nos pequenos detalhes. Isso faz toda a diferença. Por exemplo, em “Celebrated Summer” a banda intercala a sujeira com uma vibe mais romântica ao longo da música, e para isso se dá ao luxo de criar uma atmosfera mais intimista com um violão de 12 cordas. Parece pouca coisa, algo banal e batido, mas pense como isso deveria soar na época, naquele contexto. E como dá certo!

“I Apologize” é um como uma meta para toda banda que segue essa pegada. Uma combinação perfeita de refrão grudento, guitarra pulsante e harmonia vocal fácil de assimilar. Desacelera isso e você tem um power pop dos bons. “If I Told You” segue o mesmo espírito.

“The Girl Who Lives On Heaven Hill” está entre as melhores gravações da banda. E embora seja tão simples e direta, não saberia definir o que é exatamente aquele som. Ouça, apenas.

Em “Books About UFOs” eles até arriscam um piano. Aquela levada irrestível, que escutamos inúmeras vezes em músicas de sunshine pop, mas completamente recontextualizada ali. É aí que dá para perceber a importância de cada membro enquanto instrumentistas: o baixo de Norton, sempre intuitivo e melódico, conversa fácil com a bateria honesta de Grant Hart, e aí vem a guitarra de Mould, que tinge tudo de uma cor cítrica, como um spray. E ainda tem a ótima voz de Hart para embalar tudo. Hüsker Dü é a prova cabal de que não precisa inventar a roda para ser foda.

Em “Perfect Example” percebemos um quê de R.E.M., contemporâneos e colegas de estrada. Guitarras dobradas com violão também eram uma tendência no período. A faixa-título, “Watcha Drinkin” e “Plans I Make” carregam aquela persona da primeira fase do Hüsker Dü, estimuladas mais pela ferocidade, o que dá certo fôlego para o LP, tornando esse pacote todo capaz de agradar praticamente qualquer que curta um som com guitarras. Pelo menos uma das 15 faixas você vai gostar, é quase certo.

Hüsker Dü era uma banda prolífera e muito criativa, ainda faria mais alguns álbuns excelentes, cada vez mais extensos, como “Warehouse: Songs And Stories”, o último, de 1987.

Embora extremamente influentes, ainda falta muita gente saber do que isso se trata. Se você é uma dessas pessoas, comece por “New Day Rising”.

É uma pena que muitas bandas e artistas consigam aquele status de referência inabalável somente após a morte. Mas sim, livre de hype, desejo muito que as pessoas saibam o que foi essa banda e quem foi Bob Mould, Greg Norton e – que descanse em paz – Grant Hart. O tempo matura tudo. Temos aí uma das bandas mais importantes dos últimos 40 anos.

Em terreno bizarro: Rolling Stones – “Their Satanic Majesties Request” (1967)

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Their Satanic Majesties Request

Bolachas Finas, por Victor José

O tema dessa coluna de hoje é certamente um dos discos mais injustamente subestimados do panteão do alto escalão do rock. Trata-se daquele que é o mais estranho álbum dos Stones, o controverso Their Satanic Majesties Request”.

Totalmente desconexo das raízes da banda – que sempre se manteve calcada no blues e suas vertentes mais próximas –, esse trabalho vem sendo assimilado com má vontade desde seu lançamento. Isso porque a imprensa insistiu em classificar esse LP como “uma resposta ao Sgt. Pepper`s”, o que é uma grande bobagem.

Além disso, a própria banda passava por um momento complicado. Embora para quase todo mundo da música pop 1967 tenha sido um ano mágico, para os Stones não foi bem assim. Brian Jones, Mick Jagger e Keith Richards haviam sido presos por porte de drogas, fazendo com que a fama de bad boys chegasse em um nível nocivo para eles, botando em cheque o futuro do trabalho que vinham fazendo.

Talvez as incertezas do momento tenham resvalado na obra, que ganhou uma forma bastante diferente de seu antecessor, o excelente Between The Buttons”, que por sua vez já era ligeiramente ousado se comparado com trabalhos anteriores.

Sim, a influência dos Beatles foi grande, tanto que os fab four estão na capa do álbum, escondidos. A homenagem foi uma forma de agradecimento, isso porque em “Sgt. Pepper’s”, lançado meses antes, continha uma boneca vestindo uma roupa com a escrita “Welcome The Rolling Stones”.

A ambição dos Stones com esse LP estava na vontade de “entrar na onda” da psicodelia, e mergulharam de cabeça, ao mesmo tempo em que não sabiam muito bem para onde ir. Aliás, esse é o primeiro trabalho da banda sem a produção de Andrew Loog Oldham, o empresário do grupo. Isso inclusive fez com que os Stones experimentassem ao máximo as capacidades de um estúdio, produzindo eles mesmos.

A começar por “Sing This All Together”, uma faixa meio bizarra com atmosfera hippie, cantanda num coro (pouca gente sabe, mas Paul McCartney e John Lennon estão lá) e acompanhada por uma parafernalha de instrumentos conduzidos por Brian Jones. Vale falar sobre a incrível capacidade de Brian de tirar som de praticamente qualquer instrumento. Nesse disco ele toca guitarra, violão, mellotron, órgão, percussão, trompete, flauta e sei lá mais o quê.

“Citadel” é um rock de primeira, carregada de peso e um riff encorpado, talvez a faixa que mais lembre Stones em todo o disco. A surreal “In Another Land” é a única música cantada e composta por Bill Wyman em todos os álbuns da banda. O vocal cheio de trêmolo, guiado por um cravo rococó, leva qualquer conhecedor superficial do trabalho da banda em um terreno completamente inexplorado. Aquilo está muito, mas muito longe de “Start Me Up”, por exemplo.

“2000 Man”, que chegou a ser regravada pelo Kiss, pousa no folk rock, fazendo dessa um dos melhores momentos do LP. “Sing This All Together (See What Happens)” é nada mais nada menos que piração, que acaba como uma espécie de reprise lento da faixa de abertura.

Chegamos na belíssima “She’s A Rainbow”, um grande êxito artístico dos Rolling Stones, com uma ajuda de John Paul Jones – sim, aquele do Led Zeppelin –, que fez os arranjos de cordas. Poucas vezes essa banda soou tão bela.

“The Lantern” apresenta uma proposta bem embalada de folk, mas que ganha cores de gospel com o piano de Nick Hopkins (músico de estúdio decisivo para a sonoroidade desse disco). “Gomper” flerta com a sonoridade oriental, que só ganhou vida por conta da parede de instrumentos que Brian Jones construiu, com sarode, cítara, dulcimer, baixo, órgão, flauta etc.

“2000 Light Years From Home” retoma o ritmo inconfundível da bateria de Charlie Watts mas com um pé no sci-fi. Um clássico da música psicodélica e considerado por muitos a primeira faixa de space rock. Por fim, “On With The Show” encerra o disco de maneira estranhíssima nos padrões de Stones com um Jagger todo circense, talvez já flertando com a ideia do antológico Rock and Roll Circus”.

“Their Satanic Majesties Request” foi concebido de maneira torta, sem direção, talvez por isso tenha resultado em um LP confuso – o que está longe de significar ruim – e vulnerável. A banda já mencionou algumas vezes que pouco antes da data do lançamento eles não tinham ideia do que lançar e que “Their Satanic” foi no fim das contas um catadão de gravações e pirações. Keith, Bill e Brian criticaram muitas vezes o disco, e até hoje não executam as músicas ao vivo (salvo raras vezes “She’s A Rainbow” e “2000 Light Years From Home”).

50 anos depois fui surpreendido pelo anúncio de um box especial comemorativo de “Their Satanic”… Será que mudaram de ideia ou seria apenas manobra caça-níquel de gravadora? Bom, o que eu sei é que sempre que falo desse disco por aí a reação é quase sempre entusiasmada. Eu, que tenho os Rolling Stones como banda favorita, vejo esse trabalho como algo extremamente inusitado, inédito e sim, muito bom em uma porção de momentos e positivamente curioso nas partes mais bizarras. Não existe nada como esse LP, e isso por si só é um triunfo. 1967 foi generoso até nos fracassos.

Maneiras de xingar: Titãs – “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” (1991)

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Bolachas Finas, por Victor José

Após uma trinca de álbuns lendários e obrigatórios (Cabeça Dinossauro”, Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas” e Õ Blesq Blom”), os Titãs estavam naquela posição que toda banda almeja: não precisavam mais mostrar o seu valor. Afinal, quem é que contestaria naquela altura do campeonato a importância daqueles oito rapazes para a música popular brasileira?

“Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” veio em uma época em que a política do país – pra variar – estava em frangalhos. A “Era Collor”, mais precisamente. Falta de perspectiva, desemprego e aquela sensação de que todo mundo foi roubado e feito de idiota. Tudo isso deve ter feito a cabeça da banda, que não economizou na grosseria e lançou um disco bem no espírito do “foda-se”.

Bem, nem todo mundo curte esse álbum. A própria banda diz ser um dos trabalhos mais confusos, mas eu vejo de outra maneira. A época pedia isso, precisava disso. Obviamente, todos esperavam mais um trabalho coeso como “Õ Blesq Blom”, mas Titãs (naqueles tempos) não era uma banda muito adepta ao lugar comum, então nada de repetir fórmulas por conta do sucesso comercial.

Há uma coisa muito importante no disco logo de cara: Liminha não foi o produtor. Essa parceria brilhante, que rendeu a fase de ouro da banda se desfez nesse período, voltando somente no lendário Acústico MTV”. Sendo assim o grupo arriscou na produção e gravou numa casa alugada.

Na obra há uma unidade forte. Pela primeira vez o grupo inteiro assina todas as 15 faixas. Além disso arranjaram em conjunto, frisando a força das guitarras de Toni Bellotto e Marcelo Fromer.

Eles ousaram em lançar “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora”, ainda mais porque ali há letras escrachadas como ”Clitóris”, “Saia de Mim” e “Isso Para Mim É Perfume”, essa última com um irreconhecível Nando Reis cantando versos como “amor, eu quero ver você cagar”… Também há aquela brincadeira com palavras, como no caso de “Obrigado”, “Uma Coisa de Cada Vez” e “Não É Por Não Falar”. Também destaco as performances de Branco Mello, que achou neste disco um tom certeiro, como pode ser conferido em “Filantrópico” e “Flat-Cemitério-Apartamento”.

A respeito do som, dá para dizer que você pode esperar uma música pesada, carregada de guitarras sujas, um rock sem muita lapidação e que combina muito bem com um dia de revolta. Sim, esse disco é pra ser escutado alto, bem alto. É uma espécie de Titanomaquia” (seu sucessor) tosco. O teor das letras chega a ser meio juvenil e jocoso.

É óbvio que a mídia caiu em cima e criticou bastante o disco, que por fim apresentou vendas modestas. Mas acho que até eles mesmos sabiam que seria assim. O que faz desse trabalho ainda mais especial.

Ainda vale a experiência de ouví-lo, justamente porque este é o último álbum com a formação clássica. Isso porque Arnaldo Antunes pularia fora em 1992, para a tristeza de muita gente que, como eu, ama os Titãs desse período.

Talvez você deteste, talvez ame, não sei. O que eu sei é que esse disco é uma obscuridade que merece uma chance. Quem teria coragem de lançar isso hoje?

O futuro que já foi: Chemical Brothers – “Surrender” (1999)

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Chemical Brothers

Bolachas Finas, por Victor José

Apesar de considerar Dig Your Own Hole” (1997) o ápice criativo do Chemical Brothers, Surrender” (1999), além de também ser excelente, me marcou mais. Esse, que é o terceiro álbum da dupla, talvez tenha sido o primeiro disco que me fez voltar os olhos para a música eletrônica.

O som idealizado por Tom Rowlands e Ed Simons vai muito além das efêmeras batidas de pista de dança. O eco psicodélico de influências sessentistas, a euforia da Madchester e o tom melodioso do contemporâneo britpop dão ao Chemical Brothers um forte tempero exótico, credenciando o duo como um dos mais importantes e influentes grupos do gênero Big Beat, representado também por Prodigy e por Fatboy Slim. Por um momento, esse foi o som mais convicto do futuro.

Em “Surrender” temos uma banda recém-consagrada e ávida por atenção, ou seja, aquele era o momento essencial para não deixar a peteca cair. Sabendo disso, percebe-se como esse trabalho foi pensado com cautela e consequentemente importante tanto para o gênero quanto para a dupla.

Dá para dizer que esse é o disco mais popular da dupla, isso porque pelo menos dois hits de grande sucesso estão na tracklist. Além disso, as participações especiais de peso chamam atenção até mesmo do público que não se liga em música eletrônica. Por exemplo, a irresistível e já clássica “Let Forever Be”, com vocais de Noel Gallagher (Oasis), é algo extremamente memorável entre os hits dos anos 1990. A lisergia a la “Tomorrow Never Knows” combinada com a bateria dançante embalam até hoje uma infinidade de discotecagens por aí. Ainda dá certo e tudo indica que sempre dará.

Mesmo se não fosse um dos êxitos comerciais de “Surrender” “Out Of Control” continuaria sendo um destaque. Também conta com participações, dessa vez com os vocais de Bernard Summer e Bobby Gillespie, New Order e Primal Scream, respectivamente. Isso por si só já é histórico. Aquele baita groove mais parece um Depeche Mode com esteróides.

Orange Wedge” e seu baixão dá uma cadência ao álbum, descendo os BPMs. De uma forma mais chapada, o duo monta um crescendo em “Sunshine Undergound” e nos quase nove minutos dá uma aula de rave.

Coloridas, vibrantes e preenchidas de um ritmo inteligente, “Music: Response”, “Under The Influence” “Got Hint?” e “Surrender” apresentam a possibilidade de música dançante com notável criatividade. Pouca gente é capaz de fazer isso soar coisa séria, e ao mesmo temo é muito difícil ouvir cada um desses sons sem mover minimamente o corpo.

As participações continuam a colorir “Surrender” em “Asleep From Day”, desta vez com Hope Sandoval (Mazzy Star) nos vocais, em um dos momentos mais bonitos e relaxados do LP.

Mas para muita gente todos os holofotes se voltam para o super hit “Hey Boy Hey Girl”, uma espécie de hino de nicho. Dá até pra arriscar dizer que todo mundo que saiu alguma vez na vida na ~night~ ouviu essa música, se empolgou e acabou dançando, ao menos batendo o pé. Para o bem ou para o mal (isso para quem torce o nariz para o eletrônico) esse pode ter sido o último grande sucesso dos anos 1990, haja vista que foi lançado como single em maio de 1999.

Para encerrar o álbum, o Chemical Brothers vai de “Dream On”, com outra participação. Jonathan Donahue (Mercury Rev) faz os vocais, violão e piano. O LP encerra gerando boa impressão. Por fim, “Surrender” consegue manter a gigante reputação do duo, consolidada em “Dig Your Own Hole”, e ao mesmo tempo abocanha mais público com hits relevantes.

Mesmo que não seja amplamente reconhecido dessa forma, este é sim um trabalho fundamental para se compreender toda uma época, quando na virada do milênio as coisas no mundo da música pareciam meio caóticas e sem uma direção a ser tomada (o que permeia até hoje). É um bom disco para recomendar para quem nunca prestou atenção no Big Beat. E, além dos rótulos, é um bom disco por si só.