“Cat Power psicodélica” Papisa mostra criatividade mística em seu primeiro EP

“Cat Power psicodélica” Papisa mostra criatividade mística em seu primeiro EP

8 de fevereiro de 2017 1 Por João Pedro Ramos

Segundo o Popload, ela é a “Cat Power psicodélica”. Para o Noisey, uma “bruxa sábia”. Papisa, o projeto solo de Rita Oliva, da banda Cabana Café e do duo Parati, lançou no final do ano passado seu primeiro EP, totalmente produzido por ela e inspirado no arcano II do tarô.  “Sempre quis fazer algo em que eu gravasse tudo, e finalmente decidi fazer. Percebi que era algo, além de possível, verdadeiro”, revela.

Apesar de ser um trabalho solo, o EP “Papisa” teve o apoio de Daniel Fumega (Macaco Bong) e da artista Re Chavs, além da participação de Fabio Gagliotti (V.Masta), que gravou synths e programações, e Rafa Bulleto (BIKE), responsável pela guitarra solo na faixa “Delusional”. As gravações foram feitas no home studio de Rita e no Mono Mono Studio, em São Paulo. O álbum foi lançado pelo selo PWR Records, dedicado exclusivamente a bandas que tenham pelo menos uma mulher como integrante, buscando dar mais visibilidade a elas.

Conversei com a multi-instrumentista sobre seu primeiro trabalho solo, suas influências, os três aspectos da Sacerdotisa, o machismo no mundo da música e muito mais:

– Como surgiu o projeto Papisa?

Sempre tive vontade de ter meu projeto solo, e fiz o Papisa quando senti que chegou o momento.

– Como ele se diferencia de seus trabalhos anteriores? Como eles influenciaram o som que você faz atualmente?

O Papisa é um projeto bem focado nas apresentações ao vivo, na experiência. Estou aberta a formatos diferentes do que sempre fiz em shows. Toquei com banda no ano passado, mas nesse ano estou tocando sozinha, com guitarra, loops, programações. Acho que essa é a principal diferença. A influência dos trabalhos anteriores é inevitável, eles fazem parte da minha formação como cantora, compositor, instrumentista. Carrego um pouco de cada trabalho, mas sempre buscando algo novo para mim, que esteja alinhado com o que quero passar no momento.

– De onde surgiu o nome Papisa?

Surgiu da vontade de me conectar com um aspecto feminino interno na hora de criar e de fazer arte.

– Quais são as suas principais influências musicais?

Música clássica, porque comecei a tocar pequena, Led Zeppelin e Pink Floyd por influências de casa, música brasileira inevitavelmente, Secos e Molhados, Gal, Caetano, Chico, Clube da Esquina, Joni Mitchell, as trilhas da Disney, Claude Bolling, Tortoise, Juana Molina, Air, Feist, Bonobo. A lista é grande.

Papisa

foto por Lucci Antunes

– Me fale mais sobre o EP. Como foi a composição dele?

Surgiu no meu home studio. Eu tinha bastante composição, mas acabei criando músicas novas especialmente pra Papisa. Enviei as músicas para um amigo, o Veio, e ele me enviou algumas ideias de produção, e fui me empolgando com a ideia do projeto. No fim acabei trabalhando bastante sozinha, criei as linhas de bateria inspiradas em beats. Como eu estava sem banda, eu ía pro estúdio, soltava as bases no computador e ficava tocando bateria em cima. Fui desenvolvendo assim, tocando comigo mesma. Até que chegou num ponto em que me senti preparada pra gravar tudo valendo. Aí fui finalizar as gravações e mixar, no Mono Mono Studio.

– Me explica melhor sobre estes três aspectos da Sacerdotisa presentes nas músicas.

As músicas falam de instinto, intuição e ilusão. Foram aspectos que surgiram na minha busca de reconexão com o feminino, comigo mesma, na verdade. Foi decorrente de uma série de mudanças na minha vida e me vi tentando prestar mais atenção nos meus próprios comportamentos, vontades, buscando uma verdade interna, buscando ouvir minha intuição…No meio dessa busca também percebi que é fácil se iludir dentro das nossas próprias impressões, convicções. Estudar a figura da Sacerdotisa me ajudou a entender melhor meu processo, e acabou refletindo inevitavelmente nas músicas que eu estava criando.

– Como rolaram as participações especiais do EP?

O Veio (V.Masta), que gravou algumas teclas e contribuiu com a produção e programações, foi uma das pessoas que acompanhou o projeto desde o início. Eu tinha uma ideia de solo de guitarra pra “Delusional”, tentei executar mas percebi que não estava ficando como eu imaginava, então chamei o Rafa pra gravar, porque queria algo no estilo que ele toca.

– O EP foi lançado pela PWR Records. Como você vê o machismo frequente no mundo da música e como isso ajudou a aumentar a união e empoderamento entre as mulheres neste meio?

Acho que o machismo na música é fruto de uma série de costumes e crenças que todos carregamos, e que se manifestam tanto na música como em qualquer outro meio. Sinto que estamos tomando consciência e questionando padrões, e existe uma tentativa de mudança de comportamento que tem sido positiva pra que as mulheres se sintam motivadas e fortalecidas pra correr atrás dos seus próprios objetivos. A união e o apoio fazem parte disso. Penso que pra que haja uma verdadeira mudança de paradigma também precisamos de um esforço geral para ter mais empatia, para compreender pontos de vista diferentes, para acolher, admitir erros, incentivar correções, diminuir o julgamento. Acho que respeitar cada indivíduo como ser humano, independentemente de gênero, é nosso objetivo final, espero que estejamos caminhando nessa direção.

Papisa

foto por Lucci Antunes

– Quais os próximos passos da Papisa?

Papisa tem shows marcados nos próximos quatro meses, e também estou trabalhando no meu disco cheio, que deve sair no segundo semestre.

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

O M O O N S, do André Travassos, que era do Câmera, lançou um disco lindo e sensível no ano passado. A Sabine Holler tem vários projetos, o Jennifer Lo Fi, Ema Stoned, Mawn, e agora está tocando com seu trabalho solo. Toquei com ela semana passada e fiquei impressionada. A Laura Wrona também lançou um disco massa ano passado, o Cosmocolmeia. Tem muita coisa boa rolando, Hierofante Púrpura, Luiza Lian, Paula Cavalciuk, Mahmed.