Cardamomo mostra seu primeiro momento em EP homônimo

Cardamomo mostra seu primeiro momento em EP homônimo

18 de outubro de 2019 0 Por Luiza Padilha

A Cardamomo completou seu primeiro ano de formação no último dia primeiro de outubro, e agora lança seu primeiro trabalho após o single “Sete e Meia”, que foi muito bem recebido e abriu portas para a banda, que se apresentará no festival Morrostock no mês de novembro.

O EP homônimo de três faixas é uma primeira amostra do arsenal de composições do grupo que, apesar de sua curta trajetória, já possui rodagem por diferentes cenários musicais de Porto Alegre. O trabalho materializa a abrangência das composições do grupo, o que pode ser percebido também pelos ambientes distintos em que o trio transita. A Cardamomo se apresenta com frequência nos bares tradicionais do underground da capital, como o Signos Pub, e também em palcos que são geralmente ocupados por grupos de jazz instrumental, como O Butiá, Fuga Bar ou Quentin’s.

A partir de referências do pós-rock, do lo-fi hip hop, do alternativo e do pós-punk, as faixas “Lamparina”, “Sete e Meia” e “Idris Elba” resumem da forma mais sucinta possível o que são os shows do conjunto. E exatamente este era o objetivo da banda, como afirmam os três integrantes Johnny Oliveira (baixo), Guilherme Boll (bateria) e Marcelo Henkin (Guitarra), a respeito deste primeiro trabalho, “nossa intenção foi de capturar nosso espírito nesse primeiro momento, como uma foto, mostrar as linhas gerais do que somos, um resumo”.

“Lamparina”, a canção que inicia muitos dos shows do grupo, é a que mais se aproxima do rock alternativo. Com um baixo reto e firme e uma bateria precisa, a guitarra desprende-se para desenhar versos melódicos que são habituais nas composições do conjunto. Mesmo sem um vocal, é possível cantar as músicas da Cardamomo. Seu título é uma homenagem ao nome utilizado pela banda em sua primeira apresentação.

“Sete e Meia”, a que foi escolhida como single deste EP, tem seu norte apontado para um lo-fi que se divide entre as estações 24h de beats to study and relax to e as primeiras produções do Homeshake. Através de suas diferentes partes, a música parece contar uma história, uma jornada com variadas sensações e emoções.

Já “Idris Elba”, a terceira e última faixa do trabalho, é a mais direta dentre elas. Em estilo que contrasta com Sete e Meia, ela mostra em seu discurso resoluto a riqueza de referências do grupo.

Com artes de Júlia Girardi e produção de Guilherme Schwertner no Estúdio Legato em Porto Alegre, o EP homônimo da Cardamomo, em resumo, é a primeira fotografia da banda, como um retrato. Já com o próximo trabalho, um disco, em fase de gravação, a banda procurará estabelecer uma identidade mais consolidada.

Após a primeira audição do EP eu já estava bastante satisfeita com o resultado. As referências citadas pelos músicos tornam-se nítidas e os instrumentos se conversam em linhas bem estruturadas. Lamparina e Sete e Meia têm melodias aconchegantes que flertam com a melancolia e Idris Elba encerra o EP enfiando o pé na porta com uma sonoridade bem mais agressiva. 

Talvez o mais legal disso tudo tenha sido conhecer os três músicos, compreender suas personalidades e entender como elas se manifestam dentro das composições. Realizei uma pequena entrevista com a banda, que você pode conferir logo abaixo:

Por que Cardamomo?

Johnny: A gente achou um site de sorteio de palavras aleatórias, colocamos pra sortear, deu cardamomo e assim ficou.

Como nasceu o trio?

Johnny: Johnny conhecia o Boll, Johnny conhecia Marcelo. Johnny começou a tocar com Boll num teste pra substituir um membro de uma banda, Marcelo tinha composições que precisavam de outros membros pra ganharem vida. As conexões foram feitas, nasceu a banda.

Boll: Eu tava prestes a largar a música depois de decepções com outros projetos e estar meio desacreditado, dai fui em um show da Larissa Conforto com o Vitor Brauer, na Turnê sem sair na Rolling Stones, e fiquei embasbacado querendo voltar a tocar. Nesse show tava o johnny, que eu já conhecia de um teste que ele fez pra entrar na minha banda antiga, e trocamos uma ideia sobre voltar a tocar. Passou um tempo e ele me chamou pra fazer um som com ele e um amigo dele, que já tinham iniciado a trabalhar em umas composições. Esse amigo era o Marcelo, dai formou o trio e é isso ai.

Marcelo: Eu vinha compondo há tempos em casa no violão, com plano de futuramente levar mais a sério e começar a gravar. Nesse meio tempo, conheci o Johnny, fizemos umas jams caseiras, e logo depois o Johnny chamou o Boll e começamos a tocar em estúdio. Tudo aconteceu bem rápido e rolou uma conexão massa.


Por que música instrumental?

Johnny: A música instrumental tem uma linguagem própria, arranjos geralmente diferentes de músicas que possuem vocal. Nesses arranjos conseguimos falar, através dos instrumentos, como se estivéssemos cantando mesmo. Além disso, nenhum de nós três tem muitas aptidões vocais ou de composição de letras, então foi um caminho natural que estamos aprendendo a explorar e expandir.

Boll: Primeiro porque a gente começou sem definir que seria uma banda instrumental, mas por nenhum se autointitular vocalista, a gente foi se preocupando apenas com o instrumental. Depois de um tempo só fazendo som instrumental achamos que seria interessante assumir isso pra banda, principalmente pelo fator de não precisarmos de PA, Pedestal, Microfone e afins para tocas. É só a gente pegar nossos instrumentos (alguns emprestados) montar tudo e sair tocando onde nos chamarem, facilita na hora de conseguir shows.

Marcelo: Minha forma de me expressar musicalmente definitivamente não é por palavras, então a música instrumental é um caminho natural. Os outros da banda também não têm o hábito de escrever letras, então optamos por manter a banda instrumental, o que significa nos estimular a explorar cada vez mais sons, timbres, estruturas.

 

Como é ser músico em Porto Alegre?

Johnny: Ser músico em Porto Alegre é mais divertido do que parece. Aprendemos em nosso ano de banda que com muito trabalho, algum esforço e muita, mas muita vontade, é possível tocar duas vezes por mês sem repetir o local, em ambientes bem distintos. Temos muito o que criticar, principalmente construtivamente, como o fechamento de algumas panelinhas muito específicas que, na nossa visão, acabam mais por limitar do que por incentivar o crescimento da cena local. Ser músico em Porto Alegre é mais maneiro do que parece.

Boll: Ta aí uma pergunta complexa. Porto Alegre é meio província, os lugares maiores são os mesmos a muito tempo, mas precisa já ter um público mais consolidado pra tocar. Só que os lugares menores acabam abrindo e fechando com certa velocidade, dificultando um pouco que mais bandas e tal cresçam e ganhem público. Mas ao mesmo tempo toda hora tem um festival novo, alguém querendo organizar um evento interessante. Tem que estar sempre atrás, pq tem muito lugar legal pra tocar e ver shows.

 

O que motiva vocês a seguirem fazendo música?

Johnny: A vontade de falar através do instrumento, a vontade de conhecer novos palcos, a possibilidade de explorar novas vozes, de descobrir timbres, de tocar pessoas diferentes. 

Boll: Bah, eu acho quase terapêutico. Não sei se é pelo fato de me mexer tocando bateria ou o que, mas se juntar com pessoas pra fazer música junto é muito bom.

Marcelo: O desejo de estar sempre tocando, que é o que mais gostamos. se é algo que está tão presente no nosso dia a dia, se nos faz tão bem (tocar, ouvir), simplesmente não há motivo pra não seguir fazendo música. Quanto à possibilidade de seguir carreira com a música, vivendo unicamente disso, é uma outra questão.

 

Dentro do mercado fonográfico nacional, qual a maior dificuldade que vocês encontram?

Johnny: Fazer dinheiro, sustentar o trampo, comer. Talvez Porto Alegre não tenha aprendido o valor de um show, quanto custa pra ter equipamentos em dia, quanto custa pra ensaiar semanalmente. Acho que a principal dificuldade é a grana.

Boll: Acho que a parte mais complicada é conseguir espaço e atenção de forma orgânica, passo por passo, por que tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e se fazer aparecer, fazer o som chegar pra mais pessoas envolve muita coisa além de compor, ensaiar, tocar e gravar.

Marcelo: Acredito que seja financeira. Custear a banda e poder viver só de música; são os grandes desafios. Outra dificuldade é encontrar espaços pra tocar, principalmente comparando com grandes cidades e centros musicais. Mas em Porto Alegre há sim espaço pra coisas novas, tem muita gente fazendo a cena musical acontecer. Nesse sentido, não há do que reclamar.

 

Três álbuns nacionais que vocês curtem bastante e recomendam.

Johnny: Hurtmold – Cozido (2002)

Boll: Bixiga 70 – Quebra Cabeça (2018)

Marcelo: Cartola – Cartola II (1976)

E por último: qual o sabor de pizza favorito de vocês?

Johnny: Margherita.

Boll: Possivelmente qualquer sabor de pizza, mas se rolar uma cebola caramelizada junto melhor ainda.

Marcelo: Portuguesa, sem pimentão.

 

O EP Cardamomo está disponível em todas as plataformas de streaming. Acompanhe a banda no Instagram e fique por dentro das novidades!

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