Os Rolling Stones rasgando a camisa em “Shattered” (1978)

Rolling Stones
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O período do meio para o fim dos anos 70 foi decisivo para o mundo pop. Você já deve ter percebido, este é um texto sobre o punk. Imaginemos só o quanto que coisa toda de hippie já estava dando no saco, pelo menos para grande parte dos jovens. Especialmente os jovens que não se viam representados mais pela estética, pelo discurso e pela música dos anos anteriores. John Lydon, o Johnny Rotten, diz que os hippies àquela altura eram elitistas, e muitos artistas ficaram ricos e isolados em mansões, e se viam com superioridade, o que acabava por esvaziar o discurso de paz e amor [aliás, quando li isso, logo me remeteu à “elite namastê” que existe hoje, mas isso não vem ao caso agora].

Musicalmente, os artistas eram quase sempre virtuosos, e as canções eram superproduzidas. Além disso, o rock’n’roll estava sendo tratado como um evento grandioso, ou seja, distante da vida normal e fodida dos jovens que viviam naquela época. Então, de repente esses jovens adultos se deparam com seus artistas favoritos, os ídolos da rebeldia dos anos 60 como, por exemplo, o Rolling Stones, e percebem que seus heróis já estão distantes, foram engolidos pelo showbizz.

Por sua vez, os Rolling Stones sentiram sua própria obsolescência diante das novas e pungentes tendências da música. Nesse contexto é que a canção “Shattered” aparece. A começar pela abordagem toda do disco Some Girls” (1978), que é propositalmente influenciada pela sonoridade do punk. A linha das guitarras de “Shattered” poderiam perfeitamente estar no Nevermind the Bollocks” (1977). Há algo de bonito nisso, como se o criador estivesse sendo influenciado pela criatura. Mas, principalmente, há algo de esperto.

Até a capa de Some Girls tem estética punk

Uma vez que o punk estourou para o mundo, a música, a moda, a estética nunca mais seriam as mesmas. O punk era tudo isso ao mesmo tempo, justamente para marcar uma mudança de atitude: tudo era uma afirmação – até mesmo a não afirmação, como fez Richard Hell com sua “blank generation”. Vale notar que inicialmente, não havia um padrão específico para identificar o visual punk, inclusive a moda era bastante livre e variada, sendo que cada pessoa inventava sua própria afirmação fashion.

O padrão da roupa rasgada e cabelo espetado veio pouco depois de os Pistols estourarem na Inglaterra – ou de Richard Hell ter começado a moda no underground novaiorquino, não se sabe ao certo quem começou. O fato é que era esse um dos visuais mais marcantes do jovem da época, a ideia é chamar a atenção para exacerbar a decadência. Look at me! I’m shattered [Olhe para mim! Estou em frangalhos]

Naquela época, Mick Jagger e Keith Richards adoravam frequentar Nova York, e inevitavelmente absorver elementos de uma nova cultura efervescente – aliás, em constante intercâmbio com Londres. Portanto o cenário decadente, boêmio de drogas e prostituição da cidade também servem de tema para “Shattered”:

Laughter, joy, and loneliness and sex and sex and sex and sex
Look at me, I’m in tatters
I’m a shattered
Shattered

[Risadas, alegria, e solidão e sexo e sexo e sexo e sexo/ Olhe para mim, eu tenho tatuagens, eu estou quebrado, quebrado]

Porém, é bem possível que essa música tenha a intenção apenas de retratar esse cenário novo, mas também de criticar o fato de o cenário todo ter se tornado tão “fashion”, como que valorizando a aparência em detrimento de algo mais aprofundado musicalmente – a famigerada “modinha”. Não sei vocês, mas eu vejo claramente um tom sarcástico na frase “Olhe para mim, estou quebrado”, como que alguém desesperado para chamar a atenção para seu visual.

De qualquer forma, musicalmente os Rolling Stones fizeram sua própria afirmação sobre tudo isso, mesmo que meio obrigados por uma questão de sobrevivência. O resultado foi um disco com uma pegada genuinamente renovada, que impõe o reconhecimento de que eles sabem identificar suas referências e que, no fundo, tudo o que gostamos dos punks, eles já fizeram.


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