Cantarolando: os imigrantes durões em “Immigraniada” (2010), de Gogol Bordello

Gogol Bordello
Gogol Bordello

Cantarolando, por Elisa Oieno

Gogol Bordello é uma banda formada para ser provocativa e divertida. Provocativa, porque traz à tona os temas mais pertinentes da era globalizada, como o combate ao racismo e xenofobia. A composição da banda em si já é uma afirmação disso: todos os membros são imigrantes e carregam sotaques pesados de vários cantos do mundo. E são muitos membros. A banda é bem grande, atualmente com nove integrantes, boa parte deles de países do leste europeu como Russia e Bielo-Russia, Ucrânia, e também da América do Sul, África e Ásia.

Essa pluralidade dos integrantes da banda também ajudam a trazer para o som da banda diversos elementos e influências, não só pelo uso de instrumentos tradicionais mas pelas diferentes referências, também. Você sente notas latinas entre um violino russo, um acordeom francês e percussão asiática. À primeira vista, isso pode causar uma idéia de algo forçado, tão eclético que se torna genérico. Mas, pelo contrário, eles conseguem fazer um som bem característico permeando diferentes estilos de maneira muito natural e orgânica, e uma vibe meio maldita, marginal. Talvez seja pelas influências centrais da banda, como The Clash, Manu Chao e Fugazi.

O vocalista super performático que beira à hiperatividade no palco é Eugene Hutz, imigrante ucraniano. Descendente de ciganos da tribo Roma, ele e sua família assentaram-se nos EUA após terem

passado por diversos países da Europa, refugiados do desastre de Chernobyl.

Hutz é um ativista da cultura cigana dos Roma e aponta pelos direitos civis desta etnia, historicamente perseguida e marginalizada na Europa, e dizimada durante o Holocausto nazista. Vale lembrar que até hoje os ciganos são alvo de discriminação e de estereótipos pejorativos. Pouco se difunde realmente sobre a cultura cigana, a começar pelo fato de que não existe apenas uma cultura, e sim diversas tribos com características culturais e étnicas diferentes.

Por isso mesmo, a idéia de trazer a cultura cigana – especificamente a Roma – e chamar atenção para isso na música pop é uma grande afirmação. Lembro de uma camiseta que eles vendiam, em que tinha um desenho de uma moça cigana com os dizeres: “You love our music, but you hate our guts” (algo como “você ama nossa música, mas nos odeia pra caralho”). Ouch! A frase é um trecho da música deles “Break The Spell”, muito direta sobre o preconceito e a ignorância a respeito da cultura dos roma. Não à toa, a banda é considerada como gypsy-punk, ou ‘punk cigano’.

Porém, apesar de todo o peso dessa questão cultural, étnica e social, a idéia da banda é tratar desses temas sem nunca deixar de ser otimista e se divertir. Isso fica evidente na canção de hoje, “Immigraniada (We’re Coming Rougher)”. Essa música é um bom resumo da ideia que a banda defende, a de uma ‘cidadania universal’. O clipe até termina com a pertinentíssima frase “No Human Being is Illegal”, e um link para uma organização de direitos civis, que dá suporte a imigrantes.

O tom de “vocês vão ter que nos engolir” de “Immigraniada”, lançada em 2010 no disco “Trans-Continental Hustle”, ainda é – senão mais ainda do que antes – bastante oportuno, inclusive aqui no Brasil atualmente, já que o fluxo de imigrantes de diversos países tem aumentado bastante. Em épocas de Trump, bizarrices neo-nazistas e num momento em que discussões sobre se o nazismo foi de direita ou de esquerda se tornam mais importantes do que salientar a inadmissibilidade de qualquer violação humanitária, um bando de imigrantes gritando “Nós estamos chegando cada vez mais fortes!” é uma bela atitude punk.


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