Cantarolando: o quase jazz de “Your Last Affront”, do Black Flag (1985)

Cantarolando, por Elisa Oieno

Há um tempo peguei para ouvir o disco “The Inner Mounting Flame” (1971), do Mahavishnu Orchestra. Estava ouvindo essa banda com um som meio progressivo, meio jazz fusion, com todo o pacote de ritmos quebrados, acordes dissonantes, uma liberdade fluida e um balanço, e a guitarra do John McLaughlin fazendo intervenções que, apesar de absurdamente habilidosas, nada têm de firulas e de ‘punhetagem’. Que beleza. Conhecido por tocar na banda da “fase elétrica” do Miles DavisTony Willians Lifetime -, sua guitarra tem um fraseado de fuzz intenso, rasgado e criativo que lembra… Black Flag?

Segui ouvindo o disco até que, então, a suspeita se confirma com a faixa “You Know You Know”: as notas são idênticas ao começo da “Life of Pain” do Black Flag.

De fato, Greg Ginn se declara fã assumido de Mahavishnu Orchestra, tendo o John McLaughlin como uma de suas maiores referências na guitarra. Sua banda preferida é o Grateful Dead, tipicamente improvisacional e livre em estrutura. Fazer um som que lembra jazz e querer fazer improvisos ‘psicodélicos’ não combinava com a cena de hardcore punk do início dos anos 80. 

Tanto que, no início da cena punk, Greg Ginn era desencorajado a fazer longos ensaios com a banda e não havia espaço para improvisos nas músicas, que deviam ser simples e diretas, já que o punk e o hardcore tinham como parte de suas afirmações musicais justamente a contraposição às composições complexas e virtuosas que imperaram no rock da década anterior.
Porém, ao longo da carreira do Black Flag, ele conseguiu introduzir a referência aos colegas de banda, principalmente na época de Kira Roessler no baixo e Bill Stevenson na bateria, que acabaram abraçando elementos do Mahavishnu Orchestra e King Crimson. Principalmente nos discos Family Man” (1984) e The Process of Weeding Out” (1985), em que está a canção homenageada de hoje.

A faixa “Your Last Affront” abre o disco (na verdade, um EP) e já deixa clara a intenção: muito mais experimental e improvisada do que o hardcore, mas sem deixar de ser direto e pungente.


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