Cantarolando o funk guerrilheiro de “Bucky Done Gun” (2004), da M.I.A

M.I.A.

Aí um dia, em meados de 2005, passa um clipe na MTV de uma moça com cara e sotaque meio de indiana, cantando uma letra visivelmente política, embalada por um funk carioca. A batida – e a corneta, o sampler de um pedaço daquela música do Rocky Balboa – já eram muito familiares para nós, brasileiros, apesar de nunca ter sido tocada em um veículo de mídia mainstream antes. Era a faixa “Bucky Done Gun”, do disco de estréia de M.I.A.,“Arular” (2004).

Antes de fazer música, M.I.A era envolvida com artes visuais. De certa forma, isso reflete em seu disco “Arular”, que é bastante estético e com canções cujas estruturas lembram muito aquelas colagens e lambe-lambes políticos em muros coloridos. A estética de guerrilha e do “faça você mesmo” punk e hip hop também é refletida pela arte gráfica do disco e dos clipes.

M.I.A. teve seu primeiro impulso para começar a compor quando teve acesso ao pequeno sintetizador Roland MC-505, que conheceu através da cantora Peaches. Ela ficou inspirada pela autonomia e o impacto que Peaches tinha ao cantar sozinha com programações de sintetizadores, e conseguiu um emprestado de sua amiga Justine Frischmann, do Elastica.

M.I.A. em seu quarto produzindo seu primeiro disco

Logo M.I.A começou a compor em seu quarto e conseguiu, através do empresário de Justine, um contrato com a XL Recordings, uma das gravadoras independentes mais icônicas da Inglaterra.

A propósito, M.I.A não é indiana, mas britânica, com descendência do Sri Lanka, inclusive o nome do disco trata-se de um codinome utilizado por seu pai durante a guerra civil do Sri Lanka nos anos 70. Até hoje existem movimentos separatistas na ilha do Sri Lanka, onde os conflitos começaram desde a invasão britânica protestante no século XIX. Uma daquelas histórias longas, complexas e violentas, que sempre têm um colonizador no meio.

Apesar de as letras terem cunho politico, não são panfletárias e nem pesadas. Pelo contrário, elas são feitas para dançar e têm bastante apelo pop.

O funk carioca utilizado na música é “Injeção”, de Deise Tigrona. A funkeira, apesar de ter tido uma visibilidade consideravelmente razoável na época – ela chegou a fazer participações em alguns shows da M.I.A. e fez turnês na Europa em parceria com o DJ Diplo, que estava super em alta -, mas não ganhou um tostão com os samples de “Bucky Done Gun” e, pelo menos até o ano passado, estava trabalhando como gari. Infelizmente para Tigrona, os direitos autorais do sample de M.I.A. referem-se à produção da música, que pertence ao DJ Marlboro.

O fato é que o sucesso de “Bucky Done Gun” aqui no Brasil abriu os olhos dos hipsters de classe média alta para o funk carioca misturado com o eletroclash, e armou o terreno para surgirem aquelas bandas como Cansei de Ser Sexy e Bonde do Rolê, alguns anos depois. Mas o fato é que M.I.A. conseguiu abraçar justamente o elemento de periferia do groove funk carioca, o que faz com que o funk de “Bucky Done Gun” soe autêntico e não simplesmente uma emulação de algo distante de sua realidade.


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