Cantarolando: Incredible String Band – “No Sleep Blues” (1967)

Cantarolando, por Elisa Oieno

“No Sleep Blues” do Incredible String Band talvez seja uma das minhas canções favoritas. É uma bela e sincera descrição de não conseguir dormir, naquele ponto em que ficamos meio dormindo e meio acordados, fazendo com que as coisas que vemos no nosso quarto se misturem com imagens da nossa cabeça e pensamentos aleatórios e trocadilhos bobos, daqueles que fazemos quando nossa mente está a mil por hora enquanto todos dormem.

As fendas estalam as janelas, os uivos prendem o assoalho
A chuva apodrece as vigas
e você tem mesmo que roncar?
É um clima muito inclemente, para a estação da noite
Aquele rato está jogando futebol? Oh, eu pensei que eles não gostavam da luz

O refrão é meio que um resmungo do coitado sujeito tentando dormir, que está começando a sentir aquela “tristezinha”, ou simplesmente o “blues” da insônia. Isso tudo em uma melodia que é super inusitada, como a maioria das músicas do Incredible String Band:

E o amanhecer vem entrando de fininho quando ele pensa que eu não estou vendo
Eu estou começando a sofrer, cara
eu sabia mas agora eu acredito, cara, dizem que dormir é um barato
Eu quero deitar, mas desculpe se te acordei, é que eu estou com o “blues” de não dormir.

Essa banda se tornou um grande expoente do folk britânico nos anos 60, mais conhecida como um duo, formado por Robin Williamson e Mike Heron. O som do Incredible String Band é muito característico, abrangendo melodias com influência folk celta e utilizando instrumentos orientais, como a cítara.

Mike Heron, Robin Willianson, Licorice McKechnie e Rose Simpson em sua fazenda comunitária

Considerados como uma banda de “folk psicodélico”, eles faziam parte do movimento de contracultura britânica. Tanto que, na época em que alcançaram prestígio no mainstream e emplacaram nas paradas britânicas e americanas com os discos “The Hangman’s Beautiful Daughter” (1968) e “Wee Tam and The Big Huge” (1969), eles estavam vivendo em uma fazenda com estido de vida comunitário no País de Gales, junto com suas namoradas Licorice McKechnie e Rose Simpson, que à esta altura já faziam parte da banda, participando das gravações dos discos e apresentações ao vivo.

Nesta época, eles foram convidados a participar do Woodstock, porém dizem que fizeram o pior show do festival. Isso aconteceu porque a apresentação deles foi prejudicada pelo fato de que eles tocaram em um dia bem rock do festival, em meio a bandas mais pesadas e elétricas, como Santana, Canned Heat, Janis Joplin e The Who. Totalmente outra vibe, dando meio que o efeito “Carlinhos Brown no Rock in Rio 2001”. Na verdade, eles estavam inscritos para tocarem no dia anterior, em que haviam bandas folk e outras performances acústicas, como Bert Sommers e Arlo Guthrie, mas a banda se recusou a tocar embaixo da chuva do dia, por medo de eletrocutamento. A apresentação deles acabou nem entrando para o filme, uma pena.

Apresentação no Woodstock

A partir do ano seguinte, o Incredible String Band entrou em um declínio criativo, e acabou se separando em 1974. Durou pouco, mas fez um belo barulho. A música “No Sleep Blues” está no disco “The 5000 Spirits or the Layers of the Onion” (1967), que sempre aparece em alguma lista dos “discos que você precisa conhecer” ou “melhores discos dos anos 60” e afins. Sim, o álbum é tão legal quanto a capa, vale a pena de verdade.


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