Cantarolando em russo: Kino – “Elektrichka” (1982)

Cantarolando em russo: Kino – “Elektrichka” (1982)

14 de fevereiro de 2017 0 Por Elisa Oieno

Cantarolando, por Elisa Oieno

Não devia ser fácil montar uma banda ou ser fã de rock na União Soviética. Basicamente, só era possível ter acesso a discos que fossem lançados pela Melodyia, a gigantesca gravadora estatal, ou através do contrabando de discos. E quem, após todo o esforço despendido para escutar uma música dos Beatles, se sentisse inspirado para montar sua própria banda, ainda tinha que tocar quase que secretamente. Isso porque o governo impunha diversas restrições às letras e apresentações, além de não permitir apresentações do “underground”, ou seja, apenas poderiam se apresentar “legalmente” aquelas bandas que faziam parte do acervo e controle da Melodiya.

Eventualmente, a Melodiya relançava álbuns do ocidente – meio que como uma pirataria estatal – e até lançava àlbuns de artistas ocidentais, como foi o caso do disco “CHOBA B CCCP” (1988), do Paul McCartney.

Porém, a clandestinidade de se assistir a uma banda de rock de devia tornar a coisa ainda mais interessante para os jovens soviéticos, que aos poucos formariam um forte cenário “underground”, especialmente a partir dos anos 80, com a chegada do punk e o pós-punk. Com isso, as letras das bandas frequentemente criticavam o governo e a sociedade russa, falando sobre violência doméstica, alcoolismo, e cenários frios e inertes.

O som pós-punk e new wave da década de 80 é o que se considera como o “rock russo” clássico. Faz sentido, já que essa sonoridade transmite muito uma vibe de insatisfação apática e ao mesmo tempo emotiva, com altas doses de poesia e de movimentos mecânicos com jeito de decadência industrial, assim como o pós-punk ocidental. Viajei muito? Então apenas ouça:

Essa música é da banda Kino, uma das principais bandas de pós-punk da Russia, liderada por Viktor Tsoi. A versão original da música foi gravada em 1982, e é gritante a diferença de qualidade do som (ouça aqui), em comparação com essa versão de 1989. Isso porque só em 1988 é que a banda teve acesso a equipamentos de primeira, trazidos “de fora” pela namorada americana de um dos integrantes.

“Elektrichka” é o nome que se dá para os trens elétricos que circulam entre os países da ex-União Soviética. A letra fala de um cara que está no vestíbulo deste trem elétrico, contra a sua vontade, e não se sente bem mas se mantém apático diante da situação. Não entendo nada de russo, mas talvez essa tradução esteja correta, para dar uma ideia.

Ontem eu fui dormir muito tarde
esta manhã eu acordei muito cedo
Ontem eu fui dormir muito tarde, quase não dormi
Eu provavelmente deveria ter ido ao médico, esta manhã
Mas agora o trem elétrico me leva para onde eu não quero ir

O trem elétrico me leva para onde eu não quero ir
No vestíbulo é frio mas ao mesmo tempo quente
No vestíbulo o ar é cheio de fumaça de cigarro, mas ao mesmo tempo é fresco
Por que eu fico em silêncio, por que eu não grito? Eu fico em silêncio.

O trem elétrico me leva para onde eu não quero ir.

Há quem diga que a letra fala sobre o governo, e sobre estar “preso” na sociedade soviética. Mas não é preciso ir tão longe para nos identificarmos: pelo menos para mim, essa música poderia também falar sobre alguém no metrô de manhã, indo ao ao trabalho e se sentindo cansado, desanimado e um pouco desesperado, mas sem fazer nada a respeito e mantendo um olhar apático… quem nunca?