Cantarolando e sentindo o blues: “St. James Infirmary”

A jovem Meg White descobriu esta canção e a apresentou para seu companheiro Jack fazer sua própria versão nos White Stripes. Assim como Meg, eu também descobri esse clássico do blues através de um desenho da Betty Boop.

No episódio de 1933, a Betty Boop faz as vezes de uma Branca de Neve sensual e, assim como na história original, reproduz a cena macabra em que ela fica morta dentro de um caixão de vidro. Porém, para acompanhar a morbidez da cena, o criador Max Fleischer preparou uma das cenas mais legais de desenho animado que eu já vi: enquanto o caixão de vidro cai num buraco para o submundo, o palhaço Koko – personagem recorrente nos desenhos da Betty Boop –  canta um blues sofrido sobre um rapaz que foi ao hospital ver o corpo de sua amante, enquanto se transforma em um fantasma. Super a ver com a verdadeira vibe da Branca de Neve morta:

Eu fui à enfermaria St. James, eu vi minha garota lá

Ela estava esticada em uma mesa comprida e branca

Tão doce, tão fria, tão formosa

Deixe-a ir, deixe-a ir, Deus a abençoe

Seja lá onde ela estiver

Ela pode procurar em todo este mundo

Mas nunca vai encontrar outro homem gentil como eu

A voz do palhaço é de Cab Calloway, que fazia parte das big bands mais populares nos anos 30 e 40. Os movimentos do palhaço Koko também foram inspirados em Calloway, que era famoso por suas apresentações performáticas. A propósito, ele faz uma participação no filme “Irmãos Cara de Pau” (1980), cantando “Minnie The Moocher.

O blues cantado por Koko é “St. James Infirmary”, uma canção tradicional sem data ou autoria certa. Acredita-se, porém, que suas diversas versões têm origem na canção britânica de 1770, “The Unfortunate Rake”, em que narra a visita de alguém a um hospital – provavelmente para tratar doenças venéreas – e, sabendo que vai morrer, dá instruções sobre o que fazer em seu funeral.

Assim como na original britânica, a tradicional americana de 100 anos depois também possui passagens com instruções sobre o que o narrador quer que façam em seu funeral. Outras versões que originaram “St. James Infirmary” também podem ser encontradas como “Gambler’s Blues” [ou o “blues do apostador”], datadas entre o final do século XIX e começo do XX, e são atribuídas principalmente aos negros americanos.

Voltando à Betty Boop morta, enquanto Koko canta e dança como em cortejo ao caixão de vibro, o cenário de fundo vai ficando cada vez mais macabro, com várias caveiras ao fundo e referências à bebedeira e jogatina. O cenário criado no desenho não é por acaso, isso porque a canção se refere mesmo a um ambiente de submundo, típico entre os negros do começo do século XX dos EUA, época em que a canção tradicional chegou aos bardos dos jovens americanos. A simbologia das caveiras também pode ser associada aos funerais de Nova Orleans, com referências à cultura vudu.

St. James Infirmary, como um blues tradicional que se preze, tem infinitas regravações e versões. Desde Joe Cocker até White Stripes, como falei no começo do texto. A mais famosa delas talvez seja a do Louis Armstrong, que é também uma das mais tristes, vibe de lamento, mesmo. Eu mesma já tive a oportunidade de estar em um funeral em que o falecido pediu para tocar esta versão, o que foi feito. Foi uma das experiências mais tristes, mas, se serviu para alguma coisa, foi para sentir verdadeiramente O BLUES.


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