Cantarolando: “Black Waterside”, Bert Jansch (1967)

Cantarolando: “Black Waterside”, Bert Jansch (1967)

24 de janeiro de 2017 1 Por João Pedro Ramos

Cantarolando, por Elisa Oieno

No mundo da música folk, muitas canções tradicionais de origem desconhecida são regravadas, alteradas ou transformadas em novas. Especialmente quando se fala em folk britânico, em que as músicas tradicionais podem surgir desde a Idade Média, e ter fortes influências de música dos povos celtas da região.

Ao longo da história, especialmente a partir do século 18, houve diversos movimentos na música e nas artes com a intenção de preservar e manter vivas as peças culturais tradicionais. Traçando um paralelo aqui no Brasil, por exemplo, isso foi muito forte no início Modernismo, em que se buscava trazer as raízes indígenas para as artes plásticas, música e literatura.

Porém, hoje em dia quando se fala em “folk”, estamos nos referindo ao fenômeno de transportar a música tradicional britânica para o mundo pop, como começou a acontecer nos no final da década de 1940 e teve seu auge nos anos 60.

Isso ficou conhecido como “folk revival” (ou renascimento folk) e teve diversos expoentes importantes nos EUA, como Woody Guthrie, Pete Seeger, Odetta e, claro, Bob Dylan. A maioria dos artistas deste estilo tinham um discurso engajado anti-guerra, anti-racismo e eram tidos como representantes da classe operária. Isso acabou continuando nos anos seguintes e foi posteriormente incorporado pelo movimento hippie.

Acompanhando esta tendência, artistas britânicos também se tornaram expoentes do “folk revival”, entre eles o escocês Bert Jansch, a inglesa Anne Briggs, sem contar as bandas como Pentangle, Fairport Convention e Incredible String Band.

É nesse contexto que “Black Water Side” saiu da esfera somente tradicional e tomou forma de canção pop, gravada por Bert Jansch e lançada no disco – discaço, aliás –  “Jack Orion” (1967). O arranjo feito por ele, nada tradicional e típico de seu estilo, remete ao jazz e a improvisações livres intercaladas a um riff marcante. Tão marcante que um rapaz chamado Jimmy Page, sabidamente um fã do estilo de Bert, resolveu chamar de seu e gravou a faixa “Black Mountain Side” do disco de estreia do Led Zeppelin, de 1969. Os arranjos da versão de Bert e da “Black Mountain Side” são praticamente idênticos.

Aliás, os “empréstimos” criativos de Jimmy Page sem dar o devido crédito são muito mais frequentes do que nós, fãs de Led Zeppelin, gostaríamos. Lembremos do caso de “Dazed and Confused”, na verdade escrita pelo cantor Jake Holmes: houve processo, que terminou em um acordo extrajudicial – hoje a canção é creditada como escrita por Page e inspirada em Jake Holmes. Sem contar o mais recente e controverso caso da “Stairway to Heaven”, cuja sequencia de acordes seria plágio da música “Taurus” do Spirit, já decidido nos tribunais a favor de Page.

Obviamente, Bert Jansch não ficou feliz com a “homenagem”. Foi desencorajado pela gravadora a processar Page por plágio, por falta de interesse e possibilidade de arcar com os custos de um litígio judicial. Porém, “Black Water Side”, o velho cântico sobre uma moça que foi ludibriada por um rapaz irlandês que na verdade só queria transar e pular fora, permanece. E é isso que importa para uma canção folk.