Cantarolando: a voz etérea de “Ivo” (1984), do Cocteau Twins

Cocteau Twins
Cocteau Twins

A primeira vez que ouvi a banda escocesa Cocteau Twins, eu e meu namorado estávamos vagando por um sebo na Paulista. Nos auto-falantes da loja começou a tocar uma música com o vocal cheio de reverb e um muro de noise atrás, a linha de baixo bem marcada e uma bateria eletrônica. De primeira e com um ouvido descuidado, presumi que se tratava de uma banda daquela leva do ‘revival’ dreampop e pós-punk dos anos 2000. Mas logo deu para notar que os timbres eram inconfundivelmente anos 80. A moça da loja nos disse que aquilo era Cocteau Twins, e mal sabia eu que, a partir de então, iria ficar cantarolando suas músicas quase que diariamente, em alguma hora qualquer do dia.

Também pudera: as linhas melódicas cantadas pela Elizabeth Fraser, vocalista da banda, são tão originais mas ao mesmo tempo acessíveis e repetitivas, que é difícil esquecer depois de ouvir.

A canção “Ivo” é um bom exemplo disso. Faz parte do disco “Treasure” (1984) sendo o terceiro álbum da banda, mas o primeiro a ser lançado no Brasil. Esse disco, assim como toda a discografia do Cocteau Twins até 1990, foi lançada pelo selo inglês 4AD, famoso por lançar discos de artistas da cena alternativa dos anos 80 e 90 como Bauhaus, Throwing Muses e Pixies, firmando-se como um grande selo alternativo até os dias de hoje. O presidente do selo se chama Ivo Watts-Russel, possivelmente homenageado na canção do Cocteau Twins.

A origem escocesa da banda e suas letras com palavras de origem gaélica, dão uma atmosfera meio misteriosa, meio celta tradicional para as melodias do Cocteau Twins. Por causa dessa atmosfera, eles chegaram até a ser chamados de “new age”, rótulo que fortemente repudiavam.

Elizabeth Fraser chegou a ser considerada uma das melhores cantoras britânicas pelos críticos, que se referiam à sua voz como a “Voz de Deus”, mas isso sempre a deixou meio constrangida.

As letras geralmente são compostas por palavras escolhidas por sua sonoridade, não necessariamente por seu significado. Tanto que uma das características marcantes das letras – que deixavam os jornalistas musicais espumando de curiosidade por um significado – é a chamada glossolália, o uso de palavras e frases que simplesmente não existem.

Assim, os vocais de Fraser devem ser ouvidos como um instrumento da banda, mais como uma textura melódica para o som do que como portadores de uma mensagem específica. O que, no fim das contas, nós acabamos fazendo com a maioria das músicas que escutamos em inglês – a maioria de nós, eu digo, que não é fluente ou nativo da língua – ou em outro idioma: quando não há aquela identificação imediata entre o significado da letra e a música, mas os vocais e a pronúncia das palavras são tão importantes para o som quanto a guitarra, o baixo e a bateria.


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