Cantarolando a versão que o Scott Walker fez para “Maria Bethania” (1973)

Cantarolando a versão que o Scott Walker fez para “Maria Bethania” (1973)

31 de janeiro de 2017 0 Por Elisa Oieno

Cantarolando, por Elisa Oieno

Scott Walker é um cara intrigante. Muito lembrado como um ícone pop dos anos 60, o garoto bonitão de voz aveludada e jeitão charmoso de crooner americano hoje é também associado à música de vanguarda e ao experimentalismo.

Inicialmente, Scott Walker tornou-se conhecido por ser a voz principal do grupo The Walker Brothers. Apesar do nome, os três membros não eram irmãos. Os Walker Brothers, com seu pop meio bom-moço, fizeram bastante sucesso comercial em meados dos anos 60, principalmente nas paradas britânicas, apesar de o grupo ser americano. Porém, em 1967 a banda se desfez, e Scott Walker iniciou sua carreira solo.


Quando se fala em Scott Walker, vale a pena lembrar do seu período mais brilhante, que resultou nos quatro primeiros discos de sua carreira solo: “Scott” (1967), “Scott 2” (1968), “Scott 3” (1969) e meu preferido pessoal, “Scott 4” (1969). É nesses trabalhos que é possível perceber o lado não convencional do cantor começando a aflorar com suas canções exageradamente densas e cinematográficas, existencialistas e escuras, em contrapartida à tendência colorida e florida do pop da época. Seu jeito de cantar é especialmente ecoado em David Bowie, assumidamente influenciado por Walker.

Os primeiros discos da carreira solo de Walker eram até reconhecidos pela crítica, porém atingiam cada vez menos sucesso comercial. A personalidade do cantor também não ajudava – ele preferia ficar recluso sozinho lendo seus livros e mergulhar em seus pensamentos profundos a participar das festas e da vida do showbizz. Quem antes arrancava suspiros das menininhas, agora começava a ser visto como um esquisitão.

Após o disco “Scott 4”, o cantor entrou em um período de declínio criativo, fazendo seus próximos trabalhos apenas para cumprir contrato com a gravadora. Em um desses discos, chamado “Any Day Now”, de 1973, é que está a versão de “Maria Bethania”, de Caetano Veloso.

A canção foi escolhida por Walker para constar em seu disco, muito provavelmente porque ele e Caetano faziam parte da mesma gravadora, a Philips. Sem grandes alterações no arranjo, e com uma vibe ainda mais “exótica” do que a original, a versão de “Maria Bethania” é cantada por um Scott Walker com uma bela voz até um pouco sem brilho, mas com um sotaque bizarro que parece mais jamaicano que brasileiro.


É realmente uma pena que Scott Walker não estivesse em sua melhor forma quando gravou sua a versão para esta canção tão intimista e criativa de Caetano Veloso, do disco homônimo de 1971. Mesmo assim, a versão vale a pena ser conferida, e é bem boa no fim das contas. Mas imagine só se Scott Walker tivesse realmente abraçado os traços inusitados e sutilezas dramáticas de um cara brasileiro exilado em Londres…