Cantarolando: a rotina de um músico de estúdio em “Session Man”, do Kinks (1966)

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção de hoje é “Session Man”, que está no álbum “Face To Face” (1966). É uma descrição da rotina de um músico de estúdio, aquele profissional que não faz parte das bandas, mas participa das gravações e álbuns tocando e criando arranjos de algum instrumento, geralmente de forma rápida e eficiente dadas suas habilidades técnicas enquanto músicos.

Alguns desses músicos acabavam ficando conhecidos por ter um estilo próprio bem marcante, como o pianista Nicky Hopkins, que gravou diversos discos do Kinks, e sobre quem eu já falei aqui nesta coluna há um tempinho. Outros acabam deixando a profissão para seguir carreira com suas próprias bandas, como fez o Jimmy Page, que também tocou em algumas faixas dos Kinks.

Existe alguma controvérsia sobre se esta singela canção de pouco mais de dois minutos de duração se refere aos músicos de estudio em geral, ou a um músico específico. É possível também ouvir a música de duas maneiras, uma mais inocente e literal. A outra, em tom sarcástico e ácido.

Importante pensarmos no jeitão do vocalista Ray Davies e a vibe especialmente britânica dos Kinks, que sempre tem uma pontinha de cinismo e sarcasmo, muitas vezes sobre os próprio ‘english way’ de se viver, e geralmente vêm embalados por ótimas melodias. Essa coisa bem britânica e irônica, também muito presente no The Who e no Blur, por exemplo, me faz acreditar mais no tom sarcástico de “Session Man” do que no descritivo neutro que a interpretação literal pode induzir.

Há quem diga que a canção se refere ao Nicky Hopkins. Ele é quem toca habilidosamente o cravo da breve introdução da música. Aliás, o cravo permanece ali, bem no fundo da música mas dando uma ‘graça’, tipicamente como um arranjo de ‘session man’.

Jimmy Page

Há quem diga, ainda, que se refere ao Jimmy Page. Especialmente porque Ray Davies já expressou algumas vezes sua opinião sobre Page: “He’s an asshole”. Eu gosto de ingleses, porque eles ficam se desentendendo o tempo todo e se xingam publicamente com frequência, rendendo boas polêmicas para nós, fãs. Em uma entrevista, Ray Davies contou alguns episódios de Page no estúdio, por exemplo o dia em que os Kinks gravavam a canção “All Day and All of The Night” (1964). Segundo ele, na hora do solo de guitarra do irmão Dave Davies, Page entrou no estúdio e começou a rir e caçoar de suas habilidades na guitarra.

Sendo sobre Hopkins, Page ou ninguém em especial, certamente é possível imaginar tanto a figura de um músico convencido e arrogante, quanto simplesmente a de um profissional com uma relação pragmática com a música, em tom de admiração ou sarcasmo, escolha a que preferir e divirta-se com Kinks.


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