BTRX investe em experimentalismo e discute a coletividade em seu mais recente álbum, “Motirõ”

BTRX

Em uma fase mais política e engajada, a BTRX (lê-se “Beatrix”) está a 300 km/h na divulgação de seu mais recente disco, “Motirõ”, produzido por Martin Mendez e o Duda Machado, que tocam com a cantora Pitty. Formada por Lize Borba (vocal e guitarra), Bruno Espindola (baixo), Vinicius Souza (guitarra) e Thiago Augustini (bateria), a banda é a atual vencedora do programa “Temos Vagas” da 89FM Rádio Rock, que aposta em bandas independentes e as divulga na programação da rádio. No disco, lançado em 2016, eles abordam alguns dos temas mais discutidos no momento, a coletividade. “‘Motirõ’ é uma palavra indígena que significa o ato de várias pessoas se unirem para resolver algo em comum. Foi uma inspiração da Lize numa viagem que ela fez pra uma aldeia em Roraima. Isso foi ditando os tons do disco, tanto na mistura de sonoridade, a gente agregou muito de percussão nesse disco, hoje até viajamos com um percussionista”, conta o guitarrista.

Conversei com ele e o baterista Thiago sobre a carreira da banda, suas influências, o disco “Motirõ”, Quentin Tarantino e a cena independente atual:

– Como a banda começou?

Souza: A banda nasceu de uma vontade do baixista Bruno em fazer um som com uma mina no vocal. Na época tanto o Thiago quanto a Lize e o Bruno moravam na mesma cidade, no interior de SP, Cachoeira Paulista, trampavam por lá, e na primeira formação todos se encontraram ocasionalmente e a coisa começou; existiam identificações entre as ideias em comum, tanto pra sonoridade quanto pra temáticas, formas de expor, aí foi um processo natural, gravamos um primeiro disco ainda moleques mesmo, a Lize passou assumiu o vocal no segundo disco que é um disco mais sólido, que já tem uns traços mais maduros, até agora pro “Motirô” que é o disco mais sério e desenvolvido da banda.

– E porque a escolha de ter uma mulher no vocal especificamente?

Souza: Cara, creio que a ideia a princípio era somente um desejo pessoal mesmo do Bruno, tanto influenciado por algumas referências na época do mainstream, a Pitty tava começando a se destacar, havia a ascensão do Evanescence, acho que foi aquela empolgação geral, pela novidade, pelo impacto que dava ter um figura feminina cantando rock… Porém hoje analisando, já com a formação da Lize no vocal, a formação que agente considera a mais sólida e definitiva que agente teve, pro segundo álbum no caso quase considerado o “primeiro”, agente vê que a Lize era a pessoa certa manja, independente dos esteriótipos e muito além de uma questão de gênero, a pessoa da lize e tudo o que isso embarca era o ideal e assim que naturalmente foi, hoje mais maduros nós vemos que de certa forma, a questão dela ser mulher ou não se tornou sem sentido perante a figura do que ela é pra banda assim, e talvez estejamos num momento hoje onde a sociedade está mais consciente das questões, ao ponto que creio que daqui uns anos a própria pergunta sobre “qual o impacto de ter uma mulher na banda” vai perder o sentido, e se tornar algo natural….

– Quais são as principais influências da banda?

Souza: Pô, essa é uma questão interessante, a gente gosta de dizer que as nossas influências vão além do universo da música, e obviamente que cada um da banda, em suas particularidades, traz um pouco do pessoal na hora de compor e pensar as coisas da banda. O cinema é um fator que nos influencia bastante, muito pelo fato da Lize trabalhar com cinema, (é diretora de arte) mas também por um gosto geral mesmo de todos, da banda ter uma identidade visual, agente gosta muito de trabalhar com o abstrato com simbologias sejam poéticas ou de linguagem, nisso entra um pouco de tudo, Literatura influencia muito, Filosofia particularmente é um ponto que agente sempre está discutindo, eu sou formado em filosofia, estudo, enfim… mas especificamente no campo da música, agente tem se inspirado muito em sonoridades como Arcade Fire, principalmente nesse último álbum, o “Reflector”, Radiohead é uma influencia gritante, (acho que pra qualquer um né?) mas também gostamos muito de música brazuca, a Lize estuda muito a forma de compor do Tom Zé, eu adoro as misturas de sonoridade do Lenine, em “Chão” principalmente… e várias outras bandas indiretas afora.

– Então vocês não se consideram uma banda apenas de rock, correto?

Souza: Pô, agente é daquelas bandas que quando perguntadas que tipo de som fazem se enroscam pra responder (risos). Eu acho que por tudo aquilo que implica no “ser uma banda de rock”, agente é apenas uma banda de rock sim, alternativo acho que se encaixa, experimental em alguns pontos…

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– Antes de falarmos do “Motirõ”, me conta um pouco mais sobre o primeiro disco.

Souza: Então, “Motirõ” é o nosso terceiro albúm de estúdio, mas com essa formação, é o segundo, antes dele veio o álbum chamado “Lugar Comum”, que é um disco muito significativo pra todos da banda, foi um disco de transição, de passagem, não só de vocalista, antes era outra mulher, mas também esteticamente mesmo, a temática já girava em torno do que agente pretendia enquanto banda, que são questionamentos acerca da nossa condição social, existencial, é um disco em alguns pontos mais críticos; e sonoramente ainda é um disco agressivo no sentido de ter mais guitarras, mais distorção, o que diz um pouco da época, agente ainda era bem jovens, eu tinha uns 22 anos se não me engano. Num geral agente tende a ser bastante crítico em relação a esse primeiro disco, como qualquer banda q se analisa normalmente, mas ao mesmo tempo é um disco que foi importante, onde agente conseguiu trabalhar e amadurecer um pouco da sonoridade nossa, e refinar a poética e o teor mais politico da banda.

– E como rolou essa transição entre o primeiro e segundo discos? O que mudou?

Souza: A principio foi um mini caos organizado, depois que agente fecho a formação mesmo com a Lize assumindo o vocal não só a guitarra, existiam algumas ideias já, agente vinha trabalhado em algumas prés alguns arranjos crus, mas tudo teve um ar diferente, de passagem mesmo, porque quando agente mudou a formação mudou-se também a forma de trabalhar né, o jeito que a Lize assimilava as coisas era diferente, a forma como ela propunha e argumentava estimulou agente e procurar outras maneiras de expressão, e o disco é um retrato disso, agente ainda fazia um som que era pesado como na origem da banda com dobras de guitarra, também mais diretamente politico, mas já transitava um pouco no que viria a ser a sonoridade do atual “Motirõ”, mais clean, com arranjos mais trabalhados, enfim…

– Então me conta mais sobre a produção de “Motirõ”. De onde saiu o conceito do disco e porque ele tem esse nome?

Souza: A produção do “Motirõ” foi um divisor de águas, foi o primeiro disco que agente conseguiu trabalhar com um produtor, no caso dois, O Martin Mendez e o Duda Machado, que são os músicos que tocam com a Pitty, que a gente conheceu por intermédio do Rafael Ramos, que fez um ponte com eles e tal, e que também acompanhou com a pré produção, foi um cara muito importante nesse processo todo… Aí poderia falar horas sobre a produção em si, a vibe foi sensacional, o Estúdio Madeira do Duda é um lugar muito propício a coisas mais intimistas, agente se isolou lá pra esse álbum, e foi um ambiente exatamente da forma como a ideia do disco pretendia, de coletivo, de compartilhamento, de arte; Motirõ é uma palavra indígena que significa o ato de várias pessoas se unirem para resolver algo em comum, é a origem etimológica da palavra mutirão. foi uma inspiração da Lize numa viagem que ela fez pra uma aldeia em Roraima, na época ela voltou muito empolgada, e isso foi ditando os tons do disco, tanto na mistura de sonoridade, agente agregou muito de percussão nesse disco, hoje até viajamos com um percussionista… Foi um divisor de águas justamente pela dimensão que a produção se tornou, o disco foi financiado por uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, foi uma experiência incrível pra todos e o trabalha nos agrada muito.

– Falando nisso, o que vocês acham da utilização de financiamento coletivo por bandas? É a melhor maneira depois da queda das grandes indústrias da música?

Thiago: Financiamento coletivo não é foda só por conta da grana, mas eu diria que é uma experiência de vida para as bandas. A proximidade que você cria com os fãs é algo incrível. Já fazem alguns anos que gravadora não significa investimento garantido, e o financiamento coletivo veio pra selar essa independência de vez.

– Qual a opinião de vocês sobre a cena independente atualmente? O mainstream não é mais o objetivo?

Souza: Eu acredito que vivemos uns dos melhores períodos da música independente no Brasil, acho que as novas possibilidades abertas pelas novas ferramentas de acesso deram um suporte, uma base para que as bandas pudessem ser levadas mais a sério, ter mais espaço e criar suas próprias formas de divulgação e organização… Embora ainda os meios estejam um pouco misturados o independente constamente se relaciona com os tradicionais meios do mainstream, as vezes como meta de sucesso, as vezes como pura possibilidade aberta, eu acho que no futuro isso tende a ser mais consolidado, os cenários mais estabelecidos e os nichos mais organizados, mas é difícil dizer, tudo é muito orgânico hoje né? A velocidade com que tudo acontece e se transforma é impressionante, na mesma pegada o mainstream também está se adaptando, vendo o que dá mais certo, observando como as coisas fluem. Eu acho um sintoma muito interessante acerca disso, o fato dos grandes veículos de midia se renderem ao poder dos streamings, dos youtubers etc., isso diz muito sobre o atual momento, mas eu creio que de fato o mainstream não é mais objetivo no sentido de que não detêm mais o controle sobre a relevância dos conteúdos e a forma de manifestação dos mesmos, mas o tempo dirá como sempre…

– Aliás, por curiosidade, o que significa o nome da banda?

Souza: Cara, agente já achou vários significados ao longo da banda e tal, descobrimos a origem do nome Beatrix, que é do latin beatrice, ou beatitude, alegria né, o que leva felicidade, mas pra ser honesto o nome nasceu mesmo quando a Lize terminou de ver o Volume 2 do filme do Quentin Tarantino “Kill Bill”, onde a personagem da Uma Thurman finalmente releva o seu nome que é “Beatrix Kiddo”, ela ficou extremamente empolgada com o nome e tal haha ai acabou ficando todo mundo curtiu e tal e tá ai até hoje. Agora agente mudou a grafia só por questões estéticas, e por dizer um pouco mais, pra salientar a mudança natural entre os discos, quase uma aliteração, na verdade uma remoção das vogais em BTRX, mas é isso aí.

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– Quais os próximos passos da banda em 2017?

Thiago: O foco ainda é na divulgação do “Motirõ” que ainda é bem recente. Vamos lançar o primeiro clipe do álbum nas próximas semanas, focar em continuar construindo uma agenda bacana, iniciar novas produções de clipes e mais pra frente iremos lançar um documentário sobre a gravação do Motirõ.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram a sua atenção nos últimos tempos!

Souza: Pô, dá pra fazer uma lista boa hein. Eu tenho gostado muito do som de bandas como a Baiana System, o som da Baleia, gosto da Mahmundi, Mombojó, Vivendo do Ócio, Medulla… a lista pode continuar ad infinitum!

Thiago: Tô mais colado em Francisco el Hombre e Carne Doce no momento.


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