Bolachas Finas: Silver Apples – “Silver Apples” (1968)

Bolachas Finas: Silver Apples – “Silver Apples” (1968)

12 de janeiro de 2017 0 Por Victor José

Bolachas Finas, por Victor José

Alguns álbuns não precisam ser explicados, basta escutar um pedacinho para perceber que dali nasceu uma porção de coisas. Ao mesmo tempo, são raríssimos os casos em que você tem a impressão de que as músicas ali contidas atravessaram completamente intactas por décadas a fio. Este é o caso do LP de estreia do duo Silver Apples.

No álbum homônimo lançado em 1968 pela Kapp Records, a dupla nova-iorquina, contemporânea do Velvet Underground, mostrou algo até então jamais reproduzido, afirmando com seu som bizarro que a música eletrônica de fato desbravaria um longo caminho na cultura pop. Parece estranho, mas o disco soa como uma premonição. Ali você escuta fortes doses de Suicide, Chemical Brothers e Stereolab. Ainda hoje, Silver Apples” parece não parar de ecoar.

O som é resultado da química entre a bateria dançante de Dan Taylor, o massivo sintetizador pilotado por Simeon Coxe III e seus vocais tímidos. O mais curioso é que eles não se ligavam em sons eletrônicos, Simeon já afirmou algumas vezes que suas principais influências eram coisas como Fats Domino, Wilson Pickett e Stones.

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Não tem como não se chocar com a sonoridade de faixas como o single “Oscillations” ou a dançante “Program”, mas ao mesmo tempo o ritmo é tão envolvente que tudo ganha uma coerência espantosa. “Lovefingers” parece trilha de sci-fi, enquanto “Velvet Cave” e “Dust” puxam para uma lisergia sinistra. Todo o álbum é uma viagem esquisita.

É engraçada a verdade por trás da relevância de uma obra “idosa” que sobreviveu ao tempo, por assim dizer. Neste caso, fica muito evidente que as nove músicas da tracklist são todas revolucionárias, algo até então jamais reproduzido. É daquele tipo de som que você vai escutar e vai se lembrar depois. Goste ou não.

silver-apples-catsComo era de se imaginar, o disco não emplacou, ficando apenas na posição 193 da Billboard 200. O duo lançou um ano depois o também interessante Contact”, mas encerrou as atividades em 1970 e virou uma espécie de lenda obscura. Na década de 1990, a MCA Records lançou uma compilação com os dois primeiros álbuns em um só CD. O crescente interesse do público underground pela banda acabou acarretando na volta do grupo, que chegou a produzir mais três discos e também se apresentou pelo mundo todo, inclusive no Brasil.

Indispensável para quem quer entender as raízes da música eletrônica ou para quem curte qualquer coisa fora do convencional.

Ouça abaixo o disco. Nesta versão também contém o segundo álbum Contact”, que se inicia a partir da faixa 10.