Bike conduz o público para um ambiente místico em show no Teatro Sérgio Cardoso

Já no ônibus, não tinha percebido, mas meu ponto tinha passado. Desci no próximo e, segundo o Google Maps, agora estava a 17 minutos do local. Decidi seguir a pé. Não tinha vindo até o bairro Bela Vista ainda. No caminho para o Teatro Sérgio Cardoso — local onde o show do Bike estava marcado para começar às 22h –, um gari passa correndo atrás do caminhão de lixo. Para ele, é só mais um dia corriqueiro de trabalho. A rua é uma incessante sinfonia ensurdecedora de buzinas de carros, trânsito e pessoas no seu fluxo alvoroçado. Essa cidade é um caos, pensei. SP ainda vai nos matar de prazer ou de frustração.

Passava das 22h15  de uma quarta-feira (27/10), quando no mezanino do teatro, os integrantes estavam a postos com seus instrumentos. Julito Cavalcante (guitarra e voz) dá boa noite aos presentes e anuncia “Enigma do Dente Falso” pertencente ao primeiro disco da banda “1943” (2015). O show começa com uma música mais lenta e carregada de psicodelia. Ecoam os backing vocais com reverb da voz de Diego Xavier (guitarra). A caixa de Daniel Fumegaladrao (bateria) soa forte como uma marreta e dita o ritmo dos demais instrumentos.

Após o primeiro som e sem tempo para respiro, a banda toca a introdução de “Do Caos ao Cosmos” numa linha dançante bem parecida com Tame Impala. Um público pequeno de mais ou menos 20 pessoas observa atento a dinâmica de ritmo oscilante do grupo. No momento clímax do som, a banda explode numa notável presença de palco, a música passa por uma metamorfose do compasso lento para o acelerado. Sem pausa, o Bike emenda para “7 Flechas e o Rei Lagarto”. A voz de Julito está baixa, o que atrapalha na percepção das letras em determinados instantes. Mas de resto, o som está bem regulado. A bridge agitada da canção mistura-se às luzes coloridas do palco. Psicodelia pura.

Em “Alucinações e Viagens Astrais” a linha do baixo pesado de João Felipe (baixo) se sobressai — aliás, o Bike tem uma bela cozinha entrosada, por assim dizer. Vozes reverberam e revelam uma nítida influência de Thom Yorke (Radiohead). Destaque para um riff de guitarra nostálgico no final da música. Bike não deixou de fora do repertório “A Divina Máquina Voadora”, música na qual eles lançaram recentemente um videoclipe com imagens da tour realizada este ano na Europa. O guitarrista Diego Xavier editou e finalizou o clipe. Falando em tour na gringa, depois de Boogarins, o Bike também está ganhando cada vez mais espaço no panorama de bandas nacionais psicodélicas, ao lado de uma ótima safra que inclui: Gluetrip, Supercordas, O Terno, My Magical Glowing Lens Cidadão Instigado.

Bike no Teatro Sérgio Cardoso. Foto: Fernanda Carrilho Gamarano

Somos transportados para um ambiente místico (quase espiritual) quando o quarteto toca “A Montanha Sagrada“. Essa música assemelha-se com as brisas indianas de George Harrison (guitarrista dos Beatles), é como se estivéssemos em uma aula de yôga psicodélico. Duas vozes cantam, simultaneamente, um refrão que fica cravado na mente: “Subi a montanha para ficar mais perto do céu”. Luzes piscam enquanto um solo de guitarra repetitivo acelera de forma crescente. O caos de São Paulo — citado no início –, é representado no desfecho barulhento da música. As bandas de jazz que adoram improvisar que o diga.

Julito agradece a presença do público, informa que o show está chegando ao fim e comenta a respeito do último disco “Em Busca da Viagem Eterna”, divulgado esse ano pela banda por meio da turnê que leva o mesmo nome. “Terra Em Chamas” encerra a noite de quarta-feira em meio a knobs e feedback dos pedais de efeito de guitarra. Uma brisa com um clima Pink Floyd ressoa nos amplificadores. O público, apesar de pequeno, grita e aplaude com fervor a banda.

A música tem o poder de trazer reflexão e pensamento crítico. Vai além do entretenimento. Quando consumimos arte, estamos à procura de algo. E, nessa noite singular, o Bike nos guiou livremente em busca da viagem eterna.

Confira mais fotos do show pelas lentes da fotógrafa Fernanda Carrilho Gamarano:

Bike
foto por Fernanda Carrilho Gamarano

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