Bárbara Sweet prepara seu primeiro disco e combate machismo com improviso

Bárbara Sweet prepara seu primeiro disco e combate machismo com improviso

14 de janeiro de 2015 0 Por João Pedro Ramos

Bárbara Sweet tem 28 anos, sendo que 11 foram passados rimando. Seja na rua, com coletivos ou em eventos de rap, Sweet reforça a presença feminina no mundo do rap, combatendo o machismo presente nas rimas de alguns rappers de forma inteligente durante suas participações em batalhas de MCs.

O vídeo que revelou Sweet para o mundo, em que ela destrói dois MCs em uma batalha de freestyle na Santa Cruz, mostra que, quando as ofensas comuns do evento se transformam em injúrias machistas, a MC desfere fatalitys muito bem inseridos. Quando Pasquim diz que “homem sofre mais violência doméstica que mulher, isso é estatística” e “foda-se as feministas”, Sweet vira Hulk. Ou melhor, Mulher Hulk.

“É mulher que sofre violência doméstica, é mulher que sofre violência estética, é mulher que sofre violência do dia-a-dia. Você é branco e hétero, não sabe qual que é a da minoria”

Como você entrou no mundo do rap?

Como MC comecei em 2003, rimando na rua mesmo. Em 2005 me juntei ao coletivo Ponta Pronta de Belo Horizonte junto com a MC Paula Ituassu. Aí, criamos o Controversas. Neste ano, fizemos uma festa regular, a H2 Grrls, só com atrações femininas do rap.

Você acha que o rap ainda é um meio machista?

Bastante, e homofóbico e lesbofóbico também. Mas tenho visto mudanças significativas. Vejo a chegada de mais mulheres com um discurso forte, mesmo que não seja “feminista”, de comportamento. Outros MCs também estão se posicionando como gays, como o Rico Dasalam. Vejo um crescimento de debates sobre isso no movimento, além de mais minas nas batalhas, que sempre foi meu sonho.

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O quanto você acha que os vídeos das batalhas no Youtube onde o machismo é combatido são responsáveis pelo aumento do número de mulheres no rap e esta mudança de atitude no meio?

Acho que ajuda, sim. Na real eu não vejo. Pelos comentários e porque eu odeio me ver no vídeo, mesmo os que eu ganhei. Acho desconfortável. Mas sei que alguns tem mais de 100 mil plays e sei que muitas minas veem como um incentivo ter essa referência. Eu mesma vi muito vídeo da Negra Re, da Stefanie e até da Flora batalhando antes de pôr a cara…

Você está trabalhando só com improviso e batalhas ou vem um disco por aí?

Na verdade tô dando um tempo nas batalhas e dedicando ao meu disco, que deve sair até o meio do ano. Já tenho alguns sons gravados no http://soundcloud.com/ba-Sweet

O nome do disco é D.O.C.E. – Dose Ostensiva de Caligrafia Explícita, é meu primeiro disco e eu tô no processo de pré produção, separando as letras, escolhendo os beats e parcerias.

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Quais são suas principais referências musicais?

Bom, a Dina Di foi a mina que eu ouvi primeiro no rap, então ela é muito relevante pra mim. Me inspiro muito na Lurdez da Luz, na Kat Dahlia, Akua Naru, Apani, Dynasty… São várias.

Shaw MC tem em seu novo EP a frase “me dá vontade de fazer igual o goleiro Bruno / Falar que tu viajou e te mandar pra outro mundo”, Maomé da Cone Crew Diretoria postou que “mulher tem que aprender a ser mulher dentro de casa” e Eminem ameaça Iggy Azalea de estupro na faixa “Vegas” (“Larga essa merda, Iggy. Você não vai querer soprar o apito de estupro comigo. Grita! Eu adoro”). O que você acha deste tipo de expressão no rap?

Bom, o Eminem sempre foi assim, eu admiro muito a capacidade de flow, métrica e rima dele, mas não me identifico com a mensagem, então não é uma artista que eu consumo mais. Digo o mesmo sobre a Cone. Respeito os caras pelo corre deles, mas também não tenho nenhum link com aquilo que é dito. O Shaw eu sempre fui fã, desde o Quinto Andar e achei a mix tape muito boa e bem produzida, mas me decepcionei como fã ao ouvir essa faixa que banaliza tanto o feminicidio. Menos um no meu play. Quero articular com outras MCs pra que possamos fazer uns sons satirizando isso. Acho que a melhor forma de informar e expressar é essa. É uma ideia em construção que já tá em andamento, se tudo virar mesmo, logo mais tem essa aí.

Tipo uma mixtape só de minas?

Sim, pensei em uns 2 sons Inicialmente, mas se fluir, queremos fazer com mais minas e mais sons.

Ouça “Depende”, de Bárbara Sweet: