A beleza do fim: Beck – “Sea Change” (2002)

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Beck Sea Changes

Considerando a cena do pop rock, pouca gente consegue soar tão convincente e ao mesmo tempo tão livre quanto Beck. Pensa bem, quantos têm essa habilidade incrível? Bowie, Björk, Kate Bush… Dá para contar nos dedos.

Beck transmite aquela sensação rara que nos dá a impressão de que ele é capaz de fazer qualquer coisa soar bem. Não é nada fácil brincar com gêneros, transformá-los em grandes álbuns e praticamente reinventar algo firmemente estabelecido, o que pôde se percebido em Mellow Gold” (1994) e na obra-prima Odelay” (1996). Que diabo é aquilo? Rock, rap, blues, folk… Aquilo é Beck. Talvez inconscientemente, ele, mais do que ninguém, apontou para o hibridismo sugerindo ser este o caminho a ser explorado no futuro.

E na virada do milênio Beck estava com uma carreira consolidada, recheada de bons discos, premiações e alguns milhões de cópias vendidas. O grande público comprou sua ideia maluca, e cada trabalho era uma verdadeira surpresa, como Midnite Vultures” (1999), uma releitura de sons da música negra, como funk e soul. Eis que em 2002 ele surge completamente diferente, com um dos discos mais lindos das últimas décadas.

Embora pareça desconexo na discografia de Beck até então, Sea Change” pode ser visto como uma evolução do compositor, que nunca escondeu sua queda por violões e melodias mais explícitas, como podemos conferir no incrivelmente tosco One Foot In The Grave” (1994), trabalho com pegada lo-fi voltado ao folk torto que ele gostava de assumir.

Em “Sea Change” temos uma quantidade absurda de emoção, arranjo de cordas, grandes vocais e um Beck mais maduro, sério e melancólico. Pode ter certeza que ninguém esperava um disco como este.

Naquele período o cantor enfrentava o fim de um relacionamento que durou nove anos, o que logo de cara fez muita gente comparar “Sea Change” com Blood on the Tracks” (1975), emblemático álbum de Bob Dylan que também foi inspirado em uma separação. Na verdade, nem é preciso saber dessa informação para sentir isso nas faixas. Beck traduziu essa situação com uma rara habilidade. É um disco fácil de ouvir e assimilar, e embora tenha essa densa carga de lágrimas ele emana esse forte magnetismo que as melodia tocantes carregam. Tudo é bonito: os vocais, as letras, as cordas, a simplicidade da banda e a incrível produção de Nigel Godrich. Vale destacar seu papel nesse trabalho, isso porque há por trás de praticamente todas as faixas uma atmosfera muito sutil e peculiar, e pode ter certeza que esse resultado vem da mão de Nigel, que já trabalhou com nomes de peso como Paul McCartney, R.E.M., Radiohead e Roger Waters.

Perceba em “The Golden Age” a carga daquele som. Tão simples e tão cheio, coeso, bonito e direto. É um belo jeito de abrir um disco. Esta já é um clássico contemporâneo. Você que conhece o trabalho de Beck antes de “Sea Change”, imagina a estranheza que deve ter sido escutar essa beleza logo de cara? A maturidade sonora é gritante (não confundir aqui com simplicidade).

Uma espécie de groove sombrio dita as regras em “Paper Tiger”, uma das melhores da track list. Um arranjo de cordas absurdo dá uma cor inédita em qualquer canção já feita por Beck até então.

“Guess I’m Doing Fine” meio que reassume a roupagem de “The Golden Age”, quase que uma música irmã. Outro sucesso, outra grande música, outro momento deparada obrigatória no catálogo do compositor. Com uma melodia dessa grandeza é muito difícil dar um tiro fora.

O momento mais tocante do álbum está reservado para “Lonesome Tears”, que faz jus ao título e realmente emociona. São vários os motivos para te levar a este estado de espírito, seja a letra escancaradamente pessoal, o modo que ele canta, o arranjo de cordas choroso, a dinâmica sinuosa… Essa é difícil de passar ileso, sério.

“Lost Cause”, outro grande sucesso, ainda soa adequada ao contemporâneo (o disco todo na verdade). Uma assumida desilusão encarna no espírito de Beck com uma forte convicção, o que reforça a assinatura autobiográfica em “Sea Change”­ – só tendo vivido aquilo de fato para fazer coisas como “Lost Cause” se mostrar como algo real. Esse mesmo estado de espírito soa forte em “Already Dead” e seu interessante arranjo de violão.

Seguindo a mesma pegada quase “road movie” de “The Golden Age” e “Guess I’m Doing Fine” temos outra excelente faixa, “End Of The Day”. E aqui fica evidente que este disco é bom justamente porque é bom por si só. Não se trata de novidades atrás de novidades, como nos outros álbuns de peso de Beck. Em “Sea Change” as coisas funcionam porque são orgânicas, os sentimentos não estão encobertos, e é isso que fascina.

Com um lindo arranjo de cordas fornecido por David Campbell, pai de Beck, “It’s All In Your Mind” vem como um ressurgimento. Isso porque ela já havia sido lançada como single em 1995, sendo uma sobra das gravações de “One Foot In The Grave”. E isso é muito curioso, porque comparando as duas podemos ver como existem várias personas em Beck: enquanto que a versão de 1995 soa como uma demo atraente, a faixa de 2002 é um artista por inteiro. Grande momento.

É inevitável não o comparar com Nick Drake em “Round The Bend”. A densidade da orquestra que preenche a faixa e até mesmo a melodia lembram muito “River Man”, clássica canção do cantor britânico. Mas mesmo que soe parecido, não é um caso constrangedor.

Dá até para achar um resquício de Coldplay (da fase boa) em “Sunday Sun”, que com sua batida eletrônica se mostra como o momento mais destoante de “Sea Change”, ainda que muito bem assimilado por todo o restante do trabalho. O refrão é arrebatador.

Ainda que realmente boas, sinto as duas últimas, “Little One” e “Side Of The Road”, meio que sobrando na tracklist. Mas merecem atenção, sobretudo a última, pelo trabalho de slide e aquele pouco de blues que persiste em Beck Hansen, esse artista incrível.

Há quem diga que este seja o melhor trabalho dele, há quem ache esse disco meio fora da curva, há quem considere “Sea Change” um dos melhores discos da década, assim como tem gente que considere este como um dos melhores álbuns de todos os tempos (como foi o caso da Rolling Stone e outras revistas).

De certa forma, o fim do relacionamento fez muito bem a Beck, que conseguiu ainda mais sucesso com esse trabalho e mostrou ao mundo talvez a única persona que ele ainda precisava escancarar: aquela do homem vulnerável perante os sentimentos.

Megalomania: Emerson, Lake & Palmer – “Brain Salad Surgery” (1973)

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ELP Brain Salad Surgery

 

Um disco como Brain Salad Surgery” ainda faz sentido hoje? Bem… até onde eu sei, música não tem idade, e o que hoje é considerado datado amanhã será a fonte de inspiração para uma galera totalmente repaginada. E não sou eu quem está dizendo isso. Ouça os maneirismos dos anos 1980 berrando a todo vapor em produções mais recentes, como vem acontecendo de uns anos para cá em trabalhos de nomes como Daft Punk, Lady Gaga ou Rihanna. Para muita gente pode parecer que não, mas por um bom tempo – talvez por quase toda a década de 1990 e um pouco de 2000 – esses timbres que agora fazem a cabeça de muita gente eram tidos como algo ridículo, sem a mínima chance de voltar a ser moda. Pois bem, a música pop lambeu suas feridas e aí está, mais uma vez: baterias eletrônicas exageradamente encharcadas de eco, palminhas falsas, teclados a la Alpha FM e aquela frivolidade tão polêmica. Agora, dizer se isso é bom ou ruim não é inteligente, mas cabe ao artista saber inserir esses elementos, certo?

E o que isso tem a ver com Emerson Lake & Palmer? Tudo! Afinal, estou me referindo ao modo de revisitar coisas que no fundo sempre estiveram disponíveis e vivas. Basta alguém pegar uma ideia qualquer para percebermos que tudo se trata da mesma coisa.

Aliás – é impressionante pensar nisso em 2017 –, em 1973, ano em que o rock progressivo atingiu seu auge, LPs contendo faixas com quase meia hora de duração chegavam a liderar a lista da Billboard. Isso significa que as pessoas tinham saco para ouvir toda aquela complexidade em uma proporção de cultura de massa. O jeito de se curtir um som era completamente diferente: você já deve ter ouvido alguém com mais de 50 anos dizer que chamava os amigos em casa para apagar as luzes e escutar faixa a faixa de Dark Side Of The Moon”, e depois discutir aquilo como se fosse um filme.

E você se lembra do começo desse texto, quando eu disse que atualmente há um interesse no ar pela sonoridade da década de 1980? Pois veja que o ELP (sigla para o nome do grupo) passava por esse mesmo tipo de transformação, haja vista que apontavam seus interesses para a música clássica, sinfônica (o disco Pictures At Na Exibition”, de 1971, é uma releitura de uma suíte de mesmo nome, composta pelo russo Modest Mussorgsky em 1874). Isso significa que essas coisas meio “cerebrais” combinavam com a vibe de parte da galera jovem da época, que curtia um pouco de complexidade e divagações vagarosas.

A ideia por trás do trio formado por Keith Emerson (piano e teclados), Greg Lake (vocais, baixo, violão e guitarra) e Carl Palmer (bateria), embora extravagante e pomposa, nunca foi segredo para ninguém: expandir os limites do rock ‘n’ roll, fazendo música sinfônica com apenas três peças. Hoje isso pode soar meio bobo, mas deu certo e conquistou um enorme público, chegando a ser uma das bandas mais lucrativas do mundo em sua época. Emerson, Lake & Palmer foi um verdadeiro fenômeno, e “Brain Salad Surgery” foi o pico criativo do trio.

Na época de seu lançamento, em 1973, o grupo havia lançado quatro excelentes álbuns de sucesso, e este quinto LP viria a ser seu ápice estético, inserindo naquele som o que havia de mais moderno em termos de eletrônica a partir do uso e abuso de sintetizadores Moog, sendo Emerson o primeiro e único músico a utilizar o protótipo Constellation, apresentando pela primeira vez um sintetizador polifônico.

As cinco faixas do disco (sendo uma delas uma suíte de quase 30 minutos) são impressionantes. Todas apresentam uma sonoridade corajosa, tentando empurrar ao máximo os limites dessa formação de rock sem guitarra elétrica (salvo uma hora ou outra). “Brain Salad Surgery” poderia ser definido em três palavras certeiras: virtuosismo, melodia e dramaticidade.

A abertura fica por conta de “Jerusalem”, releitura completamente transformada de uma das músicas tradicionais mais famosas da Grã-Bretanha, algo que o ELP sabia fazer com excelência. O sempre belo vocal de Greg Lake contrapõe a massa sonora formada pelos sintetizadores e órgãos de Keith, enquanto que a bateria de Carl Palmer – um dos maiores bateristas da história do rock – remonta essa peça de um jeito incrivelmente inventivo. A faixa chegou a ser lançada como single, mas, embora tenha chamado atenção do público, foi muito mal nas rádios britânicas, que se recusaram a tocar esse “sacrilégio”, um verdadeiro hino tido como um patrimônio cultural remexido de modo tão fora dos padrões. Até a BBC baniu.

Em seguida vem “Toccata”, outra releitura, desta vez do argentino Alberto Ginastera (que aprovou a versão, dizendo pessoalmente a Keith Emerson que eles haviam capturado a essência da composição ‘como ninguém jamais havia feito’). Caótica, frenética, urgente e intensa. É uma verdadeira porrada na cabeça. Um peso real sem guitarras. Sim, esse é um som muito nerd, mas é impressionante… lembre-se que são três caras fazendo essa barulheira (e reproduziam a mesma coisa ao vivo). Há espaço para um baixão espetacular, sintetizadores com sons de trompete, solo de tímpanos e uma parte bizarra – que chega a ser cômica – de bateria, onde Carl Palmer utiliza programação eletrônica de sons MIDI para criar um ambiente sci-fi, algo quase impensável na época. É a vanguarda flertando com o rock em um nível controverso. Dá para fazer um nó na cabeça com esse som.

Como era praxe nos álbuns anteriores, Greg nos dá uma trégua e apresenta uma daquelas indescritíveis baladas que ele fez. “Still… You Turn Me On”, guiada por um belo violão, é um daqueles momentos memoráveis dos anos 1970, quando era comum se deparar com melodias de cair o queixo aliadas a uma inocência típica daquela fase. Se alguém soube fazer bem isso, esse alguém foi Greg Lake, dono de uma voz incrível e também de grande esperteza: todo mundo sacava que ter essas baladas entre esse monte de maluquice sonora também garantiria um grupo de pessoas a fim de escutar algo romântico. Deu muito certo.

“Benny The Bouncer” traz ao LP um pouco de descontração, com aquele som de piano de bordel, uma pegada meio jazzy e um vocal escrachado. A letra fala de Benny, um segurança de balada que, ao se encontrar com Sidney, o beberrão, entra em uma briga e é morto por um golpe na cabeça. No céu, arranja um bico como segurança de Jesus.

O lado B inteiro é dedicado àquela que talvez seja o maior feito artístico da banda: “Karn Evil 9”. Dividida em “First Impression”, “Second Impression” e “Third Impression”, esta suíte vai além dos limites de uma composição de rock. Fico imaginando como foi possível eles juntarem tudo aquilo e lembrar como se toca ao vivo (vale destacar que existem imagens disponíveis do trio ensaiando essa música para ser gravada, o que, para os músicos que estão lendo isso, é um documento fascinante). “Karn Evil 9” emociona, empolga, intriga, irrita, acalma, mete medo e euforia. Keith Emerson mostra todo seu brilhantismo e versatilidade no Moog, no piano, órgão Hammond; Greg Lake, sempre muito seguro, toca um baixo incrível e depois vai para a guitarra, fazendo solos dignos daquele período com tantos guitar heroes; Carl Palmer praticamente reinventa o modo de tocar bateria em uma banda de rock, seu estilo é único. Ali tudo funciona do jeito mais ELP de ser: megalomaníaco. É nesta faixa que está o verso “Welcome back my friends to the that never ends”, obrigatória na abertura das apresentações do grupo.

Também vale a pena falar da arte da capa, desenvolvida pelo artista plástico H. R. Giger, famoso por desenhar nada mais nada menos que o visual do filme “Alien – O Oitavo Passageiro”.

“Brain Salad Surgery” fez grande sucesso, tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, o que resultou em uma turnê mundial. Com o passar dos anos, o desgaste do sucesso e a mudança de comportamento do público em geral, o Emerson, Lake & Palmer foi decaindo até praticamente não fazer mais sentido. Novas vertentes, principalmente o punk, meteram o pé na bunda da maioria dessas bandas hoje consideradas “cabeças-de-chave” daquele período. Da mesma forma, a sonoridade e a proposta artística daquilo que ofereciam foi simplesmente deixada bem lá no fundo do baú dos excessos, mofando ao lado de muitas outras coisas que tiveram o mesmo destino, como as bandas de new romantic dos anos 1980.

Neste momento que estamos vivendo uma ebulição de bons e maus ressurgimentos, creio que seja questão de tempo ver novas bandas com essa proposta repaginada. Por enquanto, o que resta é esse fóssil do rock ‘n’ roll, com o atual status de fascinantemente inadequado e que já chegou a soar como as trombetas do futuro. Queira ou não queira, o ELP é gigante na história.

Sons de desespero: Led Zeppelin – “Presence” (1976)

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Led Zeppelin Presence

Existem raros casos em que a obra completa de um determinado grupo ou artista é praticamente irretocável, incontestável em termos de importância histórica e cultural, quase imune ao ranço daqueles que insistem em torcer o nariz. O Led Zeppelin é um desses exemplos.

Tenho ouvido muito toda a obra da banda, mas muito mesmo, como há tempos não fazia com tanta intensidade. Então naturalmente quis escrever algo sobre, mas logo veio uma dúvida pertinente… Como falar dessa banda sem se repetir? Como abordar esse tema tão dissecado sem chover no molhado? Eis que descobri a resposta: Presence”.

Em sua curta trajetória devastadora, o Zeppelin produziu oito álbuns, todos excelentes, a grande parte deles fundamentais. Mas “Presence” sempre foi aquele LP meio negligenciado, o patinho feio que ninguém liga muito. Que injustiça.

Após Physical Graffiti” (1975) consagrar Jimmy Page (guitarra), Robert Plant (vocais), John Paul Jones (baixo e teclados) e John Bonham (bateria) como “a banda da década”, estava claro que não precisavam provar mais nada para ninguém. O quarteto havia realizado uma dezena de turnês, recorde após recorde, vendas absurdas, seis álbuns excelentes, chegando ao ponto de se tornarem lendas precocemente. O mais bizarro é que jamais tiveram apoio da crítica especializada (que insistia em descer a lenha no trabalho do grupo) e de adventos tão indispensáveis para uma banda divulgar seu trabalho, como singles, clipes e aparições em programas de TV. Naquela altura tudo ia bem, não havia como melhorar, porém, todo império tem seu fim, e no caso do Led, o começo da queda ladeira abaixo foi exatamente este período.

A zica que viria a persistir até o fim da banda – com a morte de Bonham – começou com um grave acidente de carro. Em 4 de agosto de 1975 Plant e sua família estavam de férias na Grécia, quando o carro que dirigia derrapou para fora da estrada e rolou a ribanceira. O acidente deixou Plant e sua esposa Maureen bastante feridos, entretanto os filhos escaparam do pior e sofreram apenas alguns arranhões. O vocalista quebrou um tornozelo e um cotovelo, que custaram mais de dois anos de recuperação total. O cantor passou um tempo em uma cadeira de rodas, o que afetou diretamente os planos futuros do Led Zeppelin, fazendo com que o grupo cancelasse uma turnê mundial.

Durante um período em convalescença Plant escreveu algumas letras e, quando Jimmy Page juntou-se com ele estas composições foram concretizadas. Os dois prepararam material suficiente para os ensaios, período que durou um mês.

“Presence” foi gravado no prazo de três semanas no Musicland Studios em Munique, Alemanha, com Plant em uma cadeira de rodas. Esta gravação foi a mais rápida desde “Led Zeppelin I”. Uma parte da pressa em gravar o álbum se deu pelo fato do Led ter reservado o estúdio antes dos Rolling Stones, que gravariam o álbum Black and Blue” logo em seguida. Ao chegar no local para iniciar os trabalhos, os Stones ficaram espantados, pois o Led havia gravado o álbum em apenas 17 dias.

Para Jimmy Page o trabalho foi ainda mais intenso, que além de assinar a produção do álbum ficou acordado dois dias para gravar os overdubs de guitarras. Ele inclusive chegou a dizer que trabalhou de 18 a 20 horas por dia para concluir as mixagens.

Talvez pela pressa de ter que concluir logo o trabalho ou talvez pelo período de ansiedade, “Presence” apresenta uma tracklist direta, crua, o que faz deste o disco mais hard rock da discografia do Led. São sete músicas que trazem um pouco daquela energia intensa dos primeiros trabalhos, mas com uma sonoridade mais polida.

De todas, a dolorosa “Achilles Last Stand” destoa como o grande trunfo. Essa porrada de estatura épica dura pouco mais de dez minutos e representa uma banda buscando atingir a força máxima. É como se eles quisessem deliberadamente compensar o hiato forçado pelo acidente de Robert com um som de assimilação instantânea e impressionante. A cozinha formada pela bateria impecável de Bonham lado a lado com o baixo galopante de John Paul Jones serve os vocais melancólicos de um Plant menos agressivo como de costume, enquanto que Jimmy Page constrói uma parede de guitarras incríveis, como uma espécie de orquestra. Para quem curte solos, isso aqui é uma coisa única. Um dos pontos máximos do Led Zeppelin.

“For Your Life” é um hard rock básico com um pouco de funk, uma faixa sem aquele brilho intenso de sempre, mas que ao mesmo tempo é ótima. A banda, mesmo em desvantagem, consegue entregar algo que ainda hoje quase nenhum grupo de renome consegue: esse som cru, bem tocado, ao mesmo tempo bem arranjado e criativo no modo de abordar um gênero básico. Led Zeppelin tem muito dessa excelência inata, justificada pela capacidade técnica dos quatro membros, extremamente capazes em seus respectivos papeis, a ponto de agradar vários nichos: músicos exigentes, músicos toscos, ouvintes desinteressados, saudosistas, moderninhos e os aficionados mais xiitas.

O groove certeiro de “Royal Orleans” mais parece uma prova de evolução e maturidade. Olhando para trabalhos anteriores com essa pegada funk (“The Crunge”, “Trampled Under Foot” etc.) percebe-se que ao chegarem em “Presence” o ritmo cadenciado flui naturalmente, afiado e extremamente competente, embora sem aquela vitalidade radiante dos primeiros anos. Já “Nobody’s Fault But Mine” é um rock de saltar às vistas. Cheio, pesado e certeiro, essa releitura completamente remodelada da faixa homônima do bluesman Blind Willie Johnson é o Led que estamos acostumados. O peso do riff de Page dita o caminho que toda a banda segue em linha reta, sem falhas e vibrante. Ótima música ao vivo.

O rock ‘n’ roll dos anos 1950 é revisitado em “Candy Store Rock”, que já dá pistas do viria a ser In through The Outdoor” (1979), o último disco do Zeppelin. Plant encarna um Elvis dos tempos de Sun Records, com direito a eco na voz e tudo. É uma faixa segura, sem grandes emoções. Um rock ‘n’ roll que não compromete e pouco acrescenta, para falar a verdade. Mas é uma boa faixa, apesar da falta de ímpeto.

Bonham brilha em “Hots On For Nowhere”, que literalmente salva a canção. Se não fosse as alterações que ele propõe ao longo dos quase cinco minutos talvez essa seria a música capaz de pôr em cheque a fidelidade de “Presence”. Ainda bem que não é o caso, no fim das contas é um momento agradável.

Quando a gente começa a achar que o disco vai derrapar na pista a banda apresenta essa verdadeira aula de blues. “Tea For One” – que no fundo é uma irmã caçula de “Since I’ve Been Loving You”, do III” (1970) – encerra o LP com o que parece ter significado para aqueles quatro caras o esforço de produzir algo novo quando as coisas pareciam estar ruindo. Um sentimento de melancolia extremamente adequado ao contexto em que o Led estava inserido. Page faz um trabalho de mestre e põe tudo de si naqueles fraseados tristes.

“Presence” é o melhor disco do Led Zeppelin? Claro que não. Mas funciona. Perceba como deveria ser difícil para aquele grupo seguir em frente tentando superar disco após o outro. Claro que uma hora as coisas começariam a ficar escuras. Aconteceu com os Beatles em Let It Be”, com o Pink Floyd em The Final Cut…” Excesso de drogas, libertinagem, muita grana envolvida, acidentes, ego inflado até o teto. Acho que tudo isso te coloca em uma posição horrorosa de desespero, e uma hora você terá que passar por uma provação. “Presence” é isso para o Zeppelin, uma provação com nunca eles haviam passado. Talvez por isso Page considere esse o principal trabalho da banda.

Mesmo tendo se tornado o álbum com as vendas mais baixas, banda passaria por essa turbulência, mas aos poucos sucumbiria por outros motivos (morte do filho de Plant e de John Bonham, por exemplo). “Presence” é um belíssimo começo de um fim amargo.

Cinnamon Tapes inicia caminhada com excelência confessional e crueza sutil

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Cinnamon Tapes

É fato que me alegra muito perceber que os lançamentos que mais gostei em 2017 são de artistas da cena independente, basicamente do mesmo rolê que costumo frequentar, ou seja, pessoas potencialmente próximas, fazendo música pela música, livres. Outra coisa que me chama atenção é que todos esses projetos são liderados por mulheres. Já era tempo de ver isso acontecer.

Não que isso seja algo extremamente inusitado, longe disso, mas não é preciso se esforçar muito para perceber que a predominância do viés masculino nas artes é brutal, a ponto de parecer boicote. Acha exagero? Então tenta contar quantas diretoras de cinema de renome você conhece, ou quantas guitarristas, pintoras, grafiteiras, romancistas… Bem, como tudo nessa vida carece de um meio termo (Aristóteles e Sidarta não podem estar errados), estamos sendo presenteados com um período de gratas mudanças de comportamento, ao menos nesse aspecto de gêneros. E o tema deste texto é um belo exemplo disso.

Fruto de Susan Souza, cantora, guitarrista, violonista e compositora, o Cinnamon Tapes chega até nós como um projeto contundente, bem-acabado e belo. Esta muito claro que em Nabia” (Balaclava Records) cada canção foi pensada, repensada e aprimorada com muito cuidado, até chegar a este resultado incrível.

O lançamento funciona bem considerando cada faixa separadamente, mas também traz requintes de um álbum conceitual. Isso porque Nabia seria uma personagem, uma espécie de alter ego de Susan, que já afirmou que “Ela [Nabia] é um tipo de sereia mística que se permite viver em terra firme e suas vivências são contadas nas músicas”. Sendo assim, tudo que está ali parece ser verdadeiro, vivido por Susan e transmutado em arte.

Brisa, umidade, azul, zodíaco, sal, ciclos, areia, lágrimas, caminhadas, petricor, escuridão, isolamento, esperança, esoterismo e mulher. Pessoalmente falando, essa enigmática figura evoca todos esses elementos. Está tudo lá, no som e nas palavras.

Apesar de ser fácil notar que em toda a tracklist há uma profunda marca da individualidade da compositora, não posso deixar de ressaltar a importância do produtor e baterista do play, Steve Shelley, o impecável membro do Sonic Youth, que ornamentou o álbum com aquela perspicaz expressividade tão marcante que ele carrega (quem manja de SY sabe do que estou dizendo). Há uma sinergia muito bonita entre os dois em todo o disco, tudo executado e pensado de forma vaporosa, discreta. O peso está na mensagem que fica. Afinal, um bom disco guarda essa habilidade. O discurso musical de Nabia é bastante pessoal, sem aquela maquiagem pesada, quase nu, o que por si só o torna um projeto notável.

A primeira coisa que senti quando ouvi “Sol” foi uma mistura de acolhimento e conforto com uma instantânea identificação. A letra é humana, despida de artifícios, um som extremamente certeiro, honesto e puro, como pouco se ouve de uns tempos pra cá. Que música incrível. Ela fica na sua cabeça e persiste como um sabor agradável.

“Road” é outra faixa impecável e que resume o trabalho de forma certeira: sons limpos de guitarra, bateria minimalista, baixo profundo e uma dobra de vozes bem destacadas. Aliás, o grave e belo vocal de Susan é o que tem de mais denso em todo esse conjunto. Embora o timbre não seja similar, é inevitável deixar de pensar em algum momento em Cat Power, talvez pelo fato de que Steve também a produziu, no início da carreira.

Em “Estrela” temos uma densa melancolia com um quê de astrologia e um cenário de depressão, falando de quadratura de Plutão e diabo. Talvez seja o momento mais vulnerável de “Nabia”, na verdade, talvez seja o momento mais vulnerável que escutei há um bom tempo, o que é artisticamente muito bom. Não há como não deixar de se comover minimamente com esse som. Susan faz letras corajosas. “Faz quantos anos que este minuto existe?”, um belo verso.

A levada arrastada de “Skull” embala uma letra cheia de duras confissões e uma atmosfera de tons escuros. O sentimento transborda. Acho que muita gente que curte aquele clima do pós-punk vai curtir essa faixa. O mesmo acontece com “Lua”, e aí notamos como Steve Shelley é um baita produtor: poucos elementos, uma grande quantidade de espaço, sutileza e dinâmica. Você pode até achar que isso é fácil de se conseguir, mas se assim fosse seria mais comum encontrar álbuns tão redondinhos como este.

As agradáveis “Sacred Waves” e “Salty Eyes” incorporam uma persona ligeiramente inclinada ao folk rock, chegando a resvalar em Neil Young e até no sadcore dos anos 1990. A sensação é de estar caminhando na beira de uma praia, com aquele sol tímido pouco colorido. A envolvente trama de guitarras forma uma paisagem quase etérea em “Cinnamon Sea”, e não há como deixar de reparar na alta carga de PJ Harvey e Sonic Youth que a compositora carrega na bagagem, independe de Shelley estar na jogada. As referências estão acentuadas em todo o disco, porém “Nabia” tem uma cara, um corpo e uma voz autênticos.

“Ventre” fecha a tracklist exaltando a feminidade com uma intenção redentora, guiada por um belo piano. É um ótimo desfecho. Aí então você para e pensa nessas nove faixas e percebe que Nabia, essa personagem quase arquetípica, parece ter travado uma conversa franca, aberta, como poucas pessoas são capazes de fazê-lo. Isso é um dom. Um dom ainda maior quando você fala por meio da língua da arte.

Pegando o taoísmo emprestado, acima de tudo, “Nabia” é um álbum “yin”, com uma estética legítima, decorado de introspecções notáveis e uma linguagem arrebatadora. Faz falta ouvir coisas novas que priorizam o espaço, o silêncio, a natureza dos timbres de cada elemento que ali está, e isso este álbum supre com maestria. Com certeza um dos melhores discos do ano. Mulheres, continuem assim. Susan, continue assim.

Distorção Criativa: Hüsker Dü – “New Day Rising” (1985)

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Husker Du - New Day Rising

 

Antes de mais nada gostaria de comentar como as coisas são estranhas e interligadas por uma energia inexplicável. Foi uma baita coincidência quando decidi aleatoriamente escrever esse texto, sendo que NO MESMO DIA eu fico sabendo que o baterista Grant Hart morreu. Que triste. Enfim, vamos ao que se pode.

Hüsker Dü é uma banda estranha, ao menos para mim. Aquela guitarra ardida, um som azedo e pulsante… Alguma coisa no tempero do trio faz a gente querer se aprofundar naquela atmosfera. Essa mistura de agressividade com ordem e uma dose cavalar de talento melódico fez a cabeça de muita gente na época e ainda hoje. Poucas vezes o hardcore atingiu essa maturidade estética.

Formado em Minneapolis, Estados Unidos, em 1979, o Hüsker Dü é Bob Mould (guitarrista e vocalista), Grant Hart (baterista e vocalista) e Greg Norton (baixista). Dois ótimos compositores apresentam propostas diferentes de estética, sendo Hart mais voltado para uma pegada pop e Mould com os pés na estética bruta do hardcore. Essa rivalidade por si só já é um aspecto fundamentalmente rico desse trio, embora isso e as drogas tenham posto um ponto final nessa história.

Mesmo quem não seja apegado ao punk, hardcore e suas vertentes reconhece facilmente no grupo uma unidade poderosa. Não à toa saiu daí inúmeros filhotes e influências indiretas: Dinosaur Jr., Mudhoney, Nirvana, Weezer, Pixies, Jesus and Mary Chain e a lista não acaba.

A banda foi construindo tijolo por tijolo uma reputação invejável no circuito das rádios universitárias e no cenário alternativo como um todo, sendo que no início os trabalhos eram mais sujos, com uma sonoridade mais voltada para bandas contemporâneas como Minor Treat e Black Flag, o que foi sendo refinado para um viés mais acessível – às vezes quase pop – ao longo da carreira. Muito disso se deve à influência das bandas psicodélicas de folk rock dos anos 1960, sobretudo Beatles e Byrds. Isso apareceu com muita força no Zen Arcade” (1984), LP duplo com uma impressionante personalidade, misturando punk com folk, pop e até mantra hindu. Há quem diga que este seja o trabalho mais contundente do Hüsker Dü, mas estou aqui para falar do seu sucessor, New Day Rising” (1985).

A tracklist é redonda, uma faixa melhor que a outra, um som de molecagem super maduro, se que isso faz algum sentido…. mas é esse o espírito da coisa. 15 músicas para ouvir no repeat. O trio sabia o que estava fazendo e sabiam do potencial daquelas composições. Harmonias bem estruturadas, dramaticidade e, na medida do possível, mais requinte nos pequenos detalhes. Isso faz toda a diferença. Por exemplo, em “Celebrated Summer” a banda intercala a sujeira com uma vibe mais romântica ao longo da música, e para isso se dá ao luxo de criar uma atmosfera mais intimista com um violão de 12 cordas. Parece pouca coisa, algo banal e batido, mas pense como isso deveria soar na época, naquele contexto. E como dá certo!

“I Apologize” é um como uma meta para toda banda que segue essa pegada. Uma combinação perfeita de refrão grudento, guitarra pulsante e harmonia vocal fácil de assimilar. Desacelera isso e você tem um power pop dos bons. “If I Told You” segue o mesmo espírito.

“The Girl Who Lives On Heaven Hill” está entre as melhores gravações da banda. E embora seja tão simples e direta, não saberia definir o que é exatamente aquele som. Ouça, apenas.

Em “Books About UFOs” eles até arriscam um piano. Aquela levada irrestível, que escutamos inúmeras vezes em músicas de sunshine pop, mas completamente recontextualizada ali. É aí que dá para perceber a importância de cada membro enquanto instrumentistas: o baixo de Norton, sempre intuitivo e melódico, conversa fácil com a bateria honesta de Grant Hart, e aí vem a guitarra de Mould, que tinge tudo de uma cor cítrica, como um spray. E ainda tem a ótima voz de Hart para embalar tudo. Hüsker Dü é a prova cabal de que não precisa inventar a roda para ser foda.

Em “Perfect Example” percebemos um quê de R.E.M., contemporâneos e colegas de estrada. Guitarras dobradas com violão também eram uma tendência no período. A faixa-título, “Watcha Drinkin” e “Plans I Make” carregam aquela persona da primeira fase do Hüsker Dü, estimuladas mais pela ferocidade, o que dá certo fôlego para o LP, tornando esse pacote todo capaz de agradar praticamente qualquer que curta um som com guitarras. Pelo menos uma das 15 faixas você vai gostar, é quase certo.

Hüsker Dü era uma banda prolífera e muito criativa, ainda faria mais alguns álbuns excelentes, cada vez mais extensos, como “Warehouse: Songs And Stories”, o último, de 1987.

Embora extremamente influentes, ainda falta muita gente saber do que isso se trata. Se você é uma dessas pessoas, comece por “New Day Rising”.

É uma pena que muitas bandas e artistas consigam aquele status de referência inabalável somente após a morte. Mas sim, livre de hype, desejo muito que as pessoas saibam o que foi essa banda e quem foi Bob Mould, Greg Norton e – que descanse em paz – Grant Hart. O tempo matura tudo. Temos aí uma das bandas mais importantes dos últimos 40 anos.

Em terreno bizarro: Rolling Stones – “Their Satanic Majesties Request” (1967)

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Their Satanic Majesties Request

Bolachas Finas, por Victor José

O tema dessa coluna de hoje é certamente um dos discos mais injustamente subestimados do panteão do alto escalão do rock. Trata-se daquele que é o mais estranho álbum dos Stones, o controverso Their Satanic Majesties Request”.

Totalmente desconexo das raízes da banda – que sempre se manteve calcada no blues e suas vertentes mais próximas –, esse trabalho vem sendo assimilado com má vontade desde seu lançamento. Isso porque a imprensa insistiu em classificar esse LP como “uma resposta ao Sgt. Pepper`s”, o que é uma grande bobagem.

Além disso, a própria banda passava por um momento complicado. Embora para quase todo mundo da música pop 1967 tenha sido um ano mágico, para os Stones não foi bem assim. Brian Jones, Mick Jagger e Keith Richards haviam sido presos por porte de drogas, fazendo com que a fama de bad boys chegasse em um nível nocivo para eles, botando em cheque o futuro do trabalho que vinham fazendo.

Talvez as incertezas do momento tenham resvalado na obra, que ganhou uma forma bastante diferente de seu antecessor, o excelente Between The Buttons”, que por sua vez já era ligeiramente ousado se comparado com trabalhos anteriores.

Sim, a influência dos Beatles foi grande, tanto que os fab four estão na capa do álbum, escondidos. A homenagem foi uma forma de agradecimento, isso porque em “Sgt. Pepper’s”, lançado meses antes, continha uma boneca vestindo uma roupa com a escrita “Welcome The Rolling Stones”.

A ambição dos Stones com esse LP estava na vontade de “entrar na onda” da psicodelia, e mergulharam de cabeça, ao mesmo tempo em que não sabiam muito bem para onde ir. Aliás, esse é o primeiro trabalho da banda sem a produção de Andrew Loog Oldham, o empresário do grupo. Isso inclusive fez com que os Stones experimentassem ao máximo as capacidades de um estúdio, produzindo eles mesmos.

A começar por “Sing This All Together”, uma faixa meio bizarra com atmosfera hippie, cantanda num coro (pouca gente sabe, mas Paul McCartney e John Lennon estão lá) e acompanhada por uma parafernalha de instrumentos conduzidos por Brian Jones. Vale falar sobre a incrível capacidade de Brian de tirar som de praticamente qualquer instrumento. Nesse disco ele toca guitarra, violão, mellotron, órgão, percussão, trompete, flauta e sei lá mais o quê.

“Citadel” é um rock de primeira, carregada de peso e um riff encorpado, talvez a faixa que mais lembre Stones em todo o disco. A surreal “In Another Land” é a única música cantada e composta por Bill Wyman em todos os álbuns da banda. O vocal cheio de trêmolo, guiado por um cravo rococó, leva qualquer conhecedor superficial do trabalho da banda em um terreno completamente inexplorado. Aquilo está muito, mas muito longe de “Start Me Up”, por exemplo.

“2000 Man”, que chegou a ser regravada pelo Kiss, pousa no folk rock, fazendo dessa um dos melhores momentos do LP. “Sing This All Together (See What Happens)” é nada mais nada menos que piração, que acaba como uma espécie de reprise lento da faixa de abertura.

Chegamos na belíssima “She’s A Rainbow”, um grande êxito artístico dos Rolling Stones, com uma ajuda de John Paul Jones – sim, aquele do Led Zeppelin –, que fez os arranjos de cordas. Poucas vezes essa banda soou tão bela.

“The Lantern” apresenta uma proposta bem embalada de folk, mas que ganha cores de gospel com o piano de Nick Hopkins (músico de estúdio decisivo para a sonoroidade desse disco). “Gomper” flerta com a sonoridade oriental, que só ganhou vida por conta da parede de instrumentos que Brian Jones construiu, com sarode, cítara, dulcimer, baixo, órgão, flauta etc.

“2000 Light Years From Home” retoma o ritmo inconfundível da bateria de Charlie Watts mas com um pé no sci-fi. Um clássico da música psicodélica e considerado por muitos a primeira faixa de space rock. Por fim, “On With The Show” encerra o disco de maneira estranhíssima nos padrões de Stones com um Jagger todo circense, talvez já flertando com a ideia do antológico Rock and Roll Circus”.

“Their Satanic Majesties Request” foi concebido de maneira torta, sem direção, talvez por isso tenha resultado em um LP confuso – o que está longe de significar ruim – e vulnerável. A banda já mencionou algumas vezes que pouco antes da data do lançamento eles não tinham ideia do que lançar e que “Their Satanic” foi no fim das contas um catadão de gravações e pirações. Keith, Bill e Brian criticaram muitas vezes o disco, e até hoje não executam as músicas ao vivo (salvo raras vezes “She’s A Rainbow” e “2000 Light Years From Home”).

50 anos depois fui surpreendido pelo anúncio de um box especial comemorativo de “Their Satanic”… Será que mudaram de ideia ou seria apenas manobra caça-níquel de gravadora? Bom, o que eu sei é que sempre que falo desse disco por aí a reação é quase sempre entusiasmada. Eu, que tenho os Rolling Stones como banda favorita, vejo esse trabalho como algo extremamente inusitado, inédito e sim, muito bom em uma porção de momentos e positivamente curioso nas partes mais bizarras. Não existe nada como esse LP, e isso por si só é um triunfo. 1967 foi generoso até nos fracassos.

Punk? Television – “Marquee Moon” (1977)

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Television - Marquee Moon

Bolachas Finas, por Victor José

Tom Verlaine já disse certa vez: “Nós nunca fomos uma banda de punk rock”. Obviamente que não. Acontece que a cena nova-iorquina empurrou o grupo para essa vertente, como aconteceu com um monte de gente, em grande parte por conta do lendário clube CBGB’s e também da mais importante publicação independente local do período, a Punk Magazine. Bom, acontece que as circunstâncias do momento levaram a gravar esse rótulo na testa do Television, que no fim das contas ficou sendo aquela banda punk que faz um som bem longe do punk.

Em 1977 o rock passava por uma espécie de crise de identidade, ao mesmo tempo em que nichos alternativos sugeriam uma reviravolta no modo de fazer música. O status de pomposidade e o virtuosismo de bandas como Yes, Jethro Tull e Emerson Lake & Palmer estavam perdendo força entre a molecada, que via em coisas mais viscerais como The Stooges, MC5 e New York Dolls uma possibilidade mais atrativa. Daí vocês sabem, trilharam essa estrada Ramones, Dead Boys, Richard Hell e por aí vai… Acontece que com o Television não foi bem assim. Isso porque Billy Ficca (bateria), Richard Lloyd (guitarra) Fred Smith (baixo) e Tom Verlaine (guitarra e vocais) buscavam um certo refinamento que os outros grupos do período não pretendiam.

Com suas oito faixas incríveis, “Marquee Moon” fez escola, principalmente no caso das bandas indie da década de 2000 e no pós-punk da década de 1980. O disco de estreia do grupo foi algo inédito, em grande parte por ser extremamente inovador no trato com as guitarras e no jeito de transformar uma música de rock aparentemente simples numa estrutura bastante ordenada e criativa. Na verdade, ali de simples não tem nada. É notável o cuidado com os arranjos, as variações, os ritmos etc. É daqueles trabalhos em que está muito claro o capricho e como isso resultou naturalmente em alto valor artístico e estético. Mesmo assim a mensagem chega diretamente, o som é seco, orgânico e sem truques.

A cozinha intrincada, ao mesmo tempo objetiva, sugere uma série de espaços para as guitarras de Verlaine e Lloyd (seguramente uma das melhores duplas de guitarras de todos os tempos), que se entrelaçam a ponto de uma depender completamente da outra, sem grandes firulas, mas com uma dose incrível de inventividade na escolha dos acordes e no modo de tocar riffs. Faixas como “Venus” e “Elevation” são verdadeiras aulas de como se deve tocar para a música, coletivamente. O resultado é um rock impressionante, bem lapidado, embalado pela voz escorregadia e desengonçada de Tom Verlaine, que, justiça seja feita, carrega um pouco da aura do punk rock.

A excelente “Prove It” é o The Strokes cuspido e escarrado. Julian Casablancas deve ter furado esse disco de tanto ouvir, a semelhança é gritante. Do mesmo modo percebe-se o Television mostrando suas influências ao resgatar em “See No Evil” um pouco do rock ‘n’ roll mais tradicional e aquela pegada glam rock do T.Rex, embora a analogia não seja assim tão escancarada.

Aliás, isso é uma coisa engraçada em “Marquee Moon”, que por ser tão singular, parece que o Television mais influenciou do que foi influenciado. Toda a bajulação em torno da obra fica mais evidente na faixa-título, que com mais de dez minutos de duração é seguramente um dos grandes momentos do rock em geral. O ritmo intenso, os riffs pegajosos, o clímax do solo e toda aquela estrutura coloca a banda imediatamente num patamar de respeito.

“Torn Curtain”, música que encerra o disco, chama atenção pela carga de dramaticidade, o piano em evidência e o refrão a lá power pop. E aí nesse momento você já se pergunta: isso é mesmo punk? Que diabo é isso?

O disco foi aclamado pela crítica e embora tenha vendido pouco nos Estados Unidos fez um sucesso considerável no Reino Unido. A banda faria mais um disco, também bom, até que as brigas separaram os quatro rapazes no início dos anos 1980. Mas aí o estrago já estava feito, e a música alternativa nunca mais seria a mesma após “Marquee Moon”. Uma infinidade de bandas declarou este como uma referência inspiradora, e sempre sai uma lista ou outra de “melhores de todos os tempos” com ele lá no meio. O NME chegou a colocá-lo em segundo lugar na lista dos “melhores álbuns de estreia”, ficando atrás somente de Velvet Underground and Nico”.

Motivos não faltam pra você escutar esse disco.

Maneiras de xingar: Titãs – “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” (1991)

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Bolachas Finas, por Victor José

Após uma trinca de álbuns lendários e obrigatórios (Cabeça Dinossauro”, Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas” e Õ Blesq Blom”), os Titãs estavam naquela posição que toda banda almeja: não precisavam mais mostrar o seu valor. Afinal, quem é que contestaria naquela altura do campeonato a importância daqueles oito rapazes para a música popular brasileira?

“Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” veio em uma época em que a política do país – pra variar – estava em frangalhos. A “Era Collor”, mais precisamente. Falta de perspectiva, desemprego e aquela sensação de que todo mundo foi roubado e feito de idiota. Tudo isso deve ter feito a cabeça da banda, que não economizou na grosseria e lançou um disco bem no espírito do “foda-se”.

Bem, nem todo mundo curte esse álbum. A própria banda diz ser um dos trabalhos mais confusos, mas eu vejo de outra maneira. A época pedia isso, precisava disso. Obviamente, todos esperavam mais um trabalho coeso como “Õ Blesq Blom”, mas Titãs (naqueles tempos) não era uma banda muito adepta ao lugar comum, então nada de repetir fórmulas por conta do sucesso comercial.

Há uma coisa muito importante no disco logo de cara: Liminha não foi o produtor. Essa parceria brilhante, que rendeu a fase de ouro da banda se desfez nesse período, voltando somente no lendário Acústico MTV”. Sendo assim o grupo arriscou na produção e gravou numa casa alugada.

Na obra há uma unidade forte. Pela primeira vez o grupo inteiro assina todas as 15 faixas. Além disso arranjaram em conjunto, frisando a força das guitarras de Toni Bellotto e Marcelo Fromer.

Eles ousaram em lançar “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora”, ainda mais porque ali há letras escrachadas como ”Clitóris”, “Saia de Mim” e “Isso Para Mim É Perfume”, essa última com um irreconhecível Nando Reis cantando versos como “amor, eu quero ver você cagar”… Também há aquela brincadeira com palavras, como no caso de “Obrigado”, “Uma Coisa de Cada Vez” e “Não É Por Não Falar”. Também destaco as performances de Branco Mello, que achou neste disco um tom certeiro, como pode ser conferido em “Filantrópico” e “Flat-Cemitério-Apartamento”.

A respeito do som, dá para dizer que você pode esperar uma música pesada, carregada de guitarras sujas, um rock sem muita lapidação e que combina muito bem com um dia de revolta. Sim, esse disco é pra ser escutado alto, bem alto. É uma espécie de Titanomaquia” (seu sucessor) tosco. O teor das letras chega a ser meio juvenil e jocoso.

É óbvio que a mídia caiu em cima e criticou bastante o disco, que por fim apresentou vendas modestas. Mas acho que até eles mesmos sabiam que seria assim. O que faz desse trabalho ainda mais especial.

Ainda vale a experiência de ouví-lo, justamente porque este é o último álbum com a formação clássica. Isso porque Arnaldo Antunes pularia fora em 1992, para a tristeza de muita gente que, como eu, ama os Titãs desse período.

Talvez você deteste, talvez ame, não sei. O que eu sei é que esse disco é uma obscuridade que merece uma chance. Quem teria coragem de lançar isso hoje?

O futuro que já foi: Chemical Brothers – “Surrender” (1999)

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Chemical Brothers

Bolachas Finas, por Victor José

Apesar de considerar Dig Your Own Hole” (1997) o ápice criativo do Chemical Brothers, Surrender” (1999), além de também ser excelente, me marcou mais. Esse, que é o terceiro álbum da dupla, talvez tenha sido o primeiro disco que me fez voltar os olhos para a música eletrônica.

O som idealizado por Tom Rowlands e Ed Simons vai muito além das efêmeras batidas de pista de dança. O eco psicodélico de influências sessentistas, a euforia da Madchester e o tom melodioso do contemporâneo britpop dão ao Chemical Brothers um forte tempero exótico, credenciando o duo como um dos mais importantes e influentes grupos do gênero Big Beat, representado também por Prodigy e por Fatboy Slim. Por um momento, esse foi o som mais convicto do futuro.

Em “Surrender” temos uma banda recém-consagrada e ávida por atenção, ou seja, aquele era o momento essencial para não deixar a peteca cair. Sabendo disso, percebe-se como esse trabalho foi pensado com cautela e consequentemente importante tanto para o gênero quanto para a dupla.

Dá para dizer que esse é o disco mais popular da dupla, isso porque pelo menos dois hits de grande sucesso estão na tracklist. Além disso, as participações especiais de peso chamam atenção até mesmo do público que não se liga em música eletrônica. Por exemplo, a irresistível e já clássica “Let Forever Be”, com vocais de Noel Gallagher (Oasis), é algo extremamente memorável entre os hits dos anos 1990. A lisergia a la “Tomorrow Never Knows” combinada com a bateria dançante embalam até hoje uma infinidade de discotecagens por aí. Ainda dá certo e tudo indica que sempre dará.

Mesmo se não fosse um dos êxitos comerciais de “Surrender” “Out Of Control” continuaria sendo um destaque. Também conta com participações, dessa vez com os vocais de Bernard Summer e Bobby Gillespie, New Order e Primal Scream, respectivamente. Isso por si só já é histórico. Aquele baita groove mais parece um Depeche Mode com esteróides.

Orange Wedge” e seu baixão dá uma cadência ao álbum, descendo os BPMs. De uma forma mais chapada, o duo monta um crescendo em “Sunshine Undergound” e nos quase nove minutos dá uma aula de rave.

Coloridas, vibrantes e preenchidas de um ritmo inteligente, “Music: Response”, “Under The Influence” “Got Hint?” e “Surrender” apresentam a possibilidade de música dançante com notável criatividade. Pouca gente é capaz de fazer isso soar coisa séria, e ao mesmo temo é muito difícil ouvir cada um desses sons sem mover minimamente o corpo.

As participações continuam a colorir “Surrender” em “Asleep From Day”, desta vez com Hope Sandoval (Mazzy Star) nos vocais, em um dos momentos mais bonitos e relaxados do LP.

Mas para muita gente todos os holofotes se voltam para o super hit “Hey Boy Hey Girl”, uma espécie de hino de nicho. Dá até pra arriscar dizer que todo mundo que saiu alguma vez na vida na ~night~ ouviu essa música, se empolgou e acabou dançando, ao menos batendo o pé. Para o bem ou para o mal (isso para quem torce o nariz para o eletrônico) esse pode ter sido o último grande sucesso dos anos 1990, haja vista que foi lançado como single em maio de 1999.

Para encerrar o álbum, o Chemical Brothers vai de “Dream On”, com outra participação. Jonathan Donahue (Mercury Rev) faz os vocais, violão e piano. O LP encerra gerando boa impressão. Por fim, “Surrender” consegue manter a gigante reputação do duo, consolidada em “Dig Your Own Hole”, e ao mesmo tempo abocanha mais público com hits relevantes.

Mesmo que não seja amplamente reconhecido dessa forma, este é sim um trabalho fundamental para se compreender toda uma época, quando na virada do milênio as coisas no mundo da música pareciam meio caóticas e sem uma direção a ser tomada (o que permeia até hoje). É um bom disco para recomendar para quem nunca prestou atenção no Big Beat. E, além dos rótulos, é um bom disco por si só.

Reconhecimento tardio: Big Star – “Radio City” (1974)

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Big Star Radio City

Bolachas Finas, por Victor José

Se tivesse que apontar para “a banda mais injustiçada” de toda a trajetória do rock, sem dúvida essa seria Big Star. Com suas melodias absurdamente lindas, composições de alto nível, sonoridade direta e uma dupla de compositores de mão cheia, o quarteto de Memphis, Estados Unidos, e principal expoente do chamado power pop foi tudo isso, exceto um caso de sucesso.

Extremamente mal divulgado pela Ardent, o grupo não deslanchou, o que resultou em um injusto marasmo em termos de recepção do público. Dizem que o selo, que era subsidiária da Stax – uma gravadora predominantemente de black music –, não soube bem como vender o peixe daquele quarteto de rock. No caso do primeiro trabalho deles, o ótimo “#1 Record” (1972), a zica foi tamanha a ponto de o LP não ser encontrado nas lojas por conta de problemas com a distribuição. Chegou ao ponto de o público local sequer conseguir achar os álbuns para comprar. Sendo assim, as vendas daquele que álbum que um dia se tornaria um clássico obscuro foram ínfimas.

Para ajudar, Chris Bell, guitarrista e vocalista, já andava sofrendo de depressão e se viu desmotivado com aquele enorme fracasso, por isso abandonou o barco para seguir carreira solo. A banda chegou a ficar uns meses sem trabalhar em coisa alguma. Quase não rolava shows e o futuro era incerto. Mas eis que nesse cenário de deterioração, os remanescentes Andy Hummel (baixo), Jody Stephens (bateria e vocais) e o lendário Alex Chilton (guitarra e vocais) juntaram os cacos para fazer mais um álbum e tentar a sorte outra vez. Para isso banda apostou em um som mais roqueiro e agressivo, sem tantas melodias na tracklist e um clima mais solto. O resultado foi Radio City” (1974), um registro também antológico e para muito ainda melhor que seu antecessor.

Apesar de todos contribuírem para as composições, sabe-se que desde o início Bell e Chilton formavam uma dupla prodigiosa, como uma espécie de Lennon e McCartney fracassada em termos de reconhecimento. Com a saída de Bell, Alex Chilton imprimiu ainda mais sua vibe discretamente excêntrica.

Você logo de cara nota a diferença de timbres nas guitarras. Vale dizer isso desde já: provavelmente esse é o único disco que você vai escutar com esse som específico. A mixagem é um monumento por si só, e mesmo soando bastante limpa, em muitos momentos soa como uma porrada. A bateria é explosiva, a guitarra é cortante e o baixo aglutina tudo de modo que a gente pode falar de boca cheia que isso é um power trio.

“O My Soul” abre o disco com tudo. Apontando para uma direção mais direta e bastante diferente da onda prog da época, o Big Star parecia não ter medo de soar direto revisitando o rock básico. E com um compositor tão criativo como Alex Chilton, o resultado não poderia ser mais adequado. “Life Is White” seria extremamente segura e pop se não fosse aquela gaita estridente que chega a ser excessiva, mas parece que essa era a intenção. Essa banda tem dessas coisas, brinca com elementos sutis para de certa forma camuflar seu som extremamente pop.

Stephens assume os vocais em “Way Out West” e resulta em um dos melhores momentos do disco. Uma faixa com clima estradeiro e com um refrão que lembra muito (até demais) a “Primavera” de Vivaldi.

Um romantismo dilacerante toma conta da alma de Chilton quando canta na semiacústica “What’s Going Ahn”, uma faixa incrível, com um riff de guitarra choroso e a bateria solta, igualmente emotiva. As melodias costuradas entre os vocais e a guitarra conseguem te segurar firme do início ao fim sem qualquer dificuldade. Fechando o lado A, “You Get What You Deserve” também apresenta riffs pegajosos, e você nota muito facilmente de onde o R.E.M. tirou boa parte da inspiração.

“Mod Lang” é a mais roqueira e previsível de “Radio City”, embora nesse caso isso não significa desprestígio. Cumpre seu papel divertido. Depois disso vem aquela que talvez seja a melhor faixa do disco, “Back Of A Car”. Com uma guitarra incrível e a bateria cheia de energia, acho muito difícil alguém escutar isso e não gostar minimamente. Há quem diga que Chris Bell ajudou nessa composição, embora não creditado. Não há muitos erros para apontar na obra do Big Star, e essa música talvez sintetize o que o grupo criou em “#1 Record”, “Radio City” e no derradeiro e bem estranho “Sister Lovers”.

Um clima ameno (talvez psicodélico?) dá início à montanha russa que é “Daisy Glase”, algo que consigo imaginar o Wings fazendo com um pouco mais de retidão. Em “She’s A Mover” o Big Star volta a apostar no rockão com pegada sessentista e de novo abre alas para uma pérola: “September Gurls”, aquela que talvez seja o hino do gênero power pop. A faixa é um memorável caso de amor entre The Byrds e The Beatles, o que parece bastante óbvio, mas a música exatamente é isso. Um pop irresistível, como poucas vezes se ouviu. Ali há ecos de uma infinidade de bandas posteriores. Com essa música Big Star fez escola.

O disco encerra com duas baladas curtinhas, as belas “Morpha Too” e “I’m In Love With A Girl”, que soam como resquício da doçura do álbum de estreia. Mas fato é que “Radio City” encerra e você percebe que ouviu algo acessível, ao mesmo tempo diferente, pegajoso, profundo… e quem sabe ele não te conquista como conquistou Jeff Buckley, Teenage Fanclub, Lemonheads, Kurt Vile, Bangles, Dinosaur Jr., Pixies etc.

O disco naufragou da mesma forma que o primeiro, o que no fim das contas acarretou na saída de Andy Hummel. Como uma dupla, Chilton e Stephens gravaria o bizarro e interessantíssimo “3rd/Sister Lovers” em 1975, que por sua vez só sairia como um lançamento oficial em 1978. Apesar disso, a banda era vista como promissora pela crítica especializada, e ainda é, haja vista que esses três álbuns são citados vez ou outra entre os melhores de todos os tempos. Big Star é a prova de que o reconhecimento vem quando a criação de fato tem valor relevante. Indispensável para qualquer um que acredita na força das boas melodias e nas canções simples.