O lixo, a miséria e a violência: dez anos de “Botinada – A Origem do Punk no Brasil”

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Botinada

Botinada - A História do Punk no Brasil
Gênero: Documentário

Ano: 2006
Direção: Gastão Moreira

Em certo ponto do documentário “Botinada – A Origem do Punk No Brasil”, dirigido por Gastão Moreira, um dos entrevistados compara a época brutal das gangues punks à das torcidas organizadas de futebol. Se o contexto para a nova crescente de violência nos estádios é a crise econômica e o desemprego, nos final dos anos 70 era o descaso e a repressão militar. A diferença é que hoje, nada parece surgir da arte, em especial do rock, para nos retirar deste terrível torpor. Mas em 1982, o movimento punk havia mudado a cara do Brasil.

Repleto de entrevistas e imagens de época nos é apresentada a trajetória do punk no Brasil. Tendo sua origem em São Paulo, embora alguns creditem o berço ao estado de Brasília, o movimento tem inicio de forma curiosa, quase que torpe (com o punk realmente tinha de ser assim) com a influência do filme Warriors de 1979, os primeiros vinis de difícil acesso de Ramones e Sex Pistols e qualquer informação deturpada em imagens de revistas da época que ainda não entendiam direito o que era ser punk.

Lutando para se levantar sob o rock progressista e a MPB e sobreviver a febre da discoteca, o movimento ganha força no rádio através de programas de rádio capitaneados como o “Rock Special” de Marcelo Nova em Salvador e principalmente pelo saudoso Kid Vinil que aparece aqui como uns dos principais divulgadores do movimento em São Paulo. LPs se transformam em fitas K7 e logo surgem as primeiras bandas como Cólera, AI-5, Condutores de Cadáver e Inocentes.

Mostrando a origem humilde com a Banda do Lixo, sem deixar de lado momentos obscuros (a rivalidade brutal entre os punks do ABC e os de São Paulo) passando pela gravação de “Grito Suburbano”, primeiro registro oficial em vinil das bandas punks nacionais, até o auge do movimento e sua consequente derrocada com o festival “O Começo do Fim do Mundo” em 1982, “Botinada: A História do Punk no Brasil” é um excelente registro desse cenário caótico e maravilhoso da história do Rock no país.

Cinephonia: “20.000 Dias na Terra” – Um dia de análise existencial na vida do cantor Nick Cave

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Cinephonia, por Rodrigo Reis e Bárbara Ribeiro

20.000 Days On Earth
Ano: 2014

Direção: Iain Forsyth e Jane Pollard
Duração: 1h e 38min.
Gênero: Documentário.

Dizem que o ser humano é a soma de todos os seus dias. Acontece que nem sempre temos a capacidade de distinguir se essa adição é advinda de eventos reais ou fantasiada da forma como gostaríamos de recordar. Aqui, nos é apresentado um registo biográfico quase que onírico, ainda que consciente da sua proposta. O objeto de estudo é um dia fictício na vida do músico Nick Cave, cujo resultado de seus supostos 20 mil dias de existência na Terra, é o interesse desse documentário.

Aqui os diretores Iain Forsyth e Jane Pollard em parceira com o próprio Cave fazem um registro não convencional. O músico narra sua própria trajetória desde o momento que acorda e tem conversas imaginarias enquanto dirige, com pessoas que fizerem parte dessa soma, como o ator Ray Winstone e a cantora Kylie Minogue. São, como ele mesmo afirma, “fantasmas do passado”, cuja sua maior preocupação é o papel deles na sua memória e se de alguma forma ele poderá honrar a passagem deles em sua vida.

As recordações, aliás, são o grande mote dessa autoanálise existencial que Nick Cave se propõe a fazer de sua vida. Durante uma sessão de terapia, é sintomático que em certo momento ele releve ao terapeuta que seu maior medo é “perder a memória”. Após anos de abuso com as drogas, ao analisar fotos antigas, diz “que é difícil se lembrar dos anos 80”. E é dai que o material ganha força, pois o cantor não é só fruto de suas lembranças, mas de suas sensações. A influência da cidade e do clima; uma passagem de um livro apresentada por seu pai na infância e o poder de metamorfose do cantor ao subir no palco é a chave para essa transformação no que ele é hoje.

Talvez 20000 dias na Terra cause estranheza por mostrar o cantor como ele vê a si próprio. Mas se tratando de Nick Cave, cujas letras e performances são tão subjetivas, não é estranho e muito mais reconfortante ver a soma de seus dias desta forma, onde o resultado é uma carreira genial no mundo do Rock.