Mutantes melhores que os Beatles? Há quem diga que sim no documentário “Loki” (2008)

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Arnaldo Baptista
Loki
“Loki”
Ano de lançamento:  2008  
DireçãoPaulo Henrique Fontenelle
Duração: 2h

Mutantes são melhores que Beatles”. Se para você essa afirmação possa parecer exagerada, saiba de antemão que ela nesse documentário é confirmada por dois dos entrevistados. Saber que um deles é Sean Lennon, filho do John, talvez não mude a sua opinião. Mas ao final de “Loki”, com certeza mudou a minha, isso a pouco menos de um mês ter visto um show de Paul McCartney.

O peso das letras, da sabedoria mítica nas figuras dos irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista. O alívio à censura. A inteligência que não existia na música brasileira que tentava emular o som que vinha de fora e que fez da banda grande expoente do movimento tropicalista. O doc nos mostra a ascensão e o declínio dos Mutantes após a saída de Rita Lee, que recusa em falar sobre o assunto (aqui ela só aparece em imagens de arquivo), além de ter se recusado participar da vindoura reunião comemorativa do grupo anos depois. Dai então segue Arnaldo sob o posto de vi vista de si próprio e de quem o conhece. Impulsionado e depois enlouquecido pelo amor, o líder dos Mutantes é filmado pelo diretor Paulo Henrique Fontenelle de forma mística, como um mago em seu ateliê pintando quadros. Seu semblante de criança denota ao menos tempo inocência e o peso do vício, do abuso, da depressão que lhe tomou parte da sanidade. Do rompimento até o testemunho da tristeza em sua obra prima “Loki”. Uma viagem de ácido sem volta. “Ele tem uma alma de criança”, diz um dos entrevistados em determinado momento.

Esquecido na década de 80. Redescoberto por Kurt Cobain na década de 90 e aclamado hoje por artistas como Sean Lennon e Devendra Banhrart, “Loki – Arnaldo Baptista” é certeiro ao descascar o artista “grupo” e o artista “solo” ambos geniais. Se os Mutantes são melhores que os Beatles, fica como diz o produtor, “ao gosto de cada um”. Mas não há de se negar que em termos criativos, nosso produto nacional sim, é bem melhor. Vale a pena conferir.

“Janis – Little Girl Blue”: Por trás das roupas extravagantes havia uma menina sozinha

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Janis Little Girl Blue

Janis – Little Girl Blue
Ano: 2016
Direção: Amy Berg
Duração: 1h 45min

Janis Joplin como você a conhece é um mito. A palavra vale para dois sentidos. Sim, o vozeirão, o estilo irreverente e a sua morte precoce fizeram dela uma lenda. E sim, toda aquela fachada de roupas extravagantes é uma fantasia, um personagem criado pela própria cantora. Não que isso de fato seja ruim. No documentário “Janis – Little Girl Blue”, dirigido por Amy J. Berg, além de tentar entender o porquê, acompanhamos a trajetória meteórica de umas das maiores vozes do rock.

Criada em ambiente conservador do sul dos Estados Unidos, na juventude era ser considerada por seus colegas “o homem mais feio do campus”. Janis então encontrou na musica sua salvação, o refúgio onde podia se abrigar e com suas letras contra-atacar suas incertezas, seus medos. Começando em bares até ser descoberta, ela camuflou-se em figurinos exóticos para que não pudessem feri-la ainda mais. Assim, se tornou a figura como a conhecemos hoje. Muitas dessas revelações nos são reveladas através de cartas escritas pela própria.

Além dessa tentativa, não de solucionar, mas entender Janis e o porquê dela ser assim e o que levou a sua partida repentina, o longa ainda nos presenteia com grandes momentos de sua carreira. O destaque vai para apresentação no festival Monterrey Pop, o que talvez cause estranheza, sendo que os fãs geralmente a ligam ao Woodstock (uma passagem breve no documentário), onde ela se apresentou totalmente embriagada. Esses momentos, além de passagens memoráveis de sua carreira, como o tour ao Canadá com o Grateful Dead, estão aqui em forma de fotos, entrevistas e fotos da época.

Feliz ao retratar Janis Joplin ao final como uma mulher forte, mas com as mesmas inseguranças e medos como qualquer pessoa sem no processo desmistificar a lenda, “Janis – Little Girl Blue” faz justiça ao titulo e nos aproxima mais do ser humano Janis, fazendo com que sua importância seja ainda mais relevante nos dias de hoje.

“One To One”: Paul McCartney encerra turnê no Brasil com show histórico em Salvador

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Paul McCartney
foto: AFP

Demorou, mas enfim aconteceu. Após três apresentações em Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo e com um atraso de quinze minutos (tudo bem, ele pode) um Beatle finalmente tocou na Bahia. A honra coube a Sir Paul McCartney, abrindo com “A Hard Day’s Night” um show histórico na capital.

A execução das músicas e do próprio show foram as mesmas dos anteriores e da última passagem dele no Brasil em 2014. “Blackbird” dedicada aos Direitos Humanos, “Love Me Do” ao produtor George Martin e o já icônico momento quando presta homenagem a George Harrison com uma versão de “Something” introduzida com o ukelele foram os momentos mais tocantes. Generoso com as músicas dos Beatles, o set list seguiu à risca como de praxe: a explosão do palco em “Live and Let Die”, o coro de “Hey Jude”, a psicodelia de “Helter Skelter”.

Não houve espaço para surpresas. A grande novidade era ver de perto, ou não tão perto, um ícone que para muitos só existia no imaginário popular. Como diziam alguns presentes, não importava saber de cor todas as letras (“Give Peace a Chance” ficou sem o coro) e não importava o lugar que você estivesse. Ver um Beatle fazer cola das palavras em português e mesmo conseguir dizer em alto e bom som: “Vocês são massa” é de aquecer o coração numa noite chuvosa como foi a dessa sexta-feira.

Paul McCarteney após várias passagens no Brasil tocou pela primeira vez na Bahia. Para baianos, sergipanos, alagoenses, cearenses e quem mais tivesse a oportunidade de conferir esse dia histórico. Talvez essa tenha sido a grande diferença entre os shows da turnê “One to One” no Brasil. Após quase 60 anos, desde que os rapazes de Liverpool começaram sua trajetória de sucesso pelo mundo, finalmente nós tivemos nosso pedacinho da Beatlemania.

Não é doença! O punk transexual, visceral e transgressor com Cláudia Wonder em “Meu Amigo Cláudia” (2009)

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Meu Amigo Cláudia

Ano de lançamento: 2009
Direção: Dácio Pinheiro
Duração: 1h27min
Gênero: Documentário

Marco Antônio Abrão, três nomes masculinos como nome de batismo. Mas na verdade um homem, uma mulher, um transexual performista. Filha de pais adolescentes e criada por seus tios-avôs, Cláudia Maravilha, rebatizada logo após de Cláudia Wonder, é parte da maravilhosa história oitentista paulistana e ganha aqui um relato honesto não só de sua trajetória, mas de toda uma geração.

Das primeiras aparições em revista surge o contato com cinema pornô, sendo o transexual como objeto de curiosidade. Surgem porém estereótipos de travestis todos em representações eróticas ou com finalidade de alivio cômico. Com o fim da ditadura e vindouro movimento pelas Diretas, vem as primeiras vitórias políticas, a principal sendo a mudança no Ministério da Saúde, quando o homossexual deixa de ser considerado uma pessoa doente (qualquer semelhança com atual momento não é mera coincidência)

Começa então uma guerra no Estado de São Paulo, quando a policia promoveu um massacre disfarçado de “limpeza”, uma verdadeira temporada de caça contra a comunidade LGBT. Milhares de travestis são assassinados. Em outro e talvez o pior momento na classe, o documentário não faz concessões quanto aos relatos de promiscuidade e desinformação sobre a AIDS. A propagação da doença no meio, vulgarmente conhecida como a peste- gay, lança artistas como Cláudia no isolamento: “Fiquei seis anos sozinha” ela relata em certo ponto. Vem então a contestação contra os ditos bons costumes. E a resposta mais uma vez está na música, no rock and roll.

Cláudia Wonder
Cláudia Wonder

A salvação vem no punk, na subversão. A redemocratização encontra o auge do rock brasileiro. Nas apresentações em casas noturnas cultuadas como Madame Satã, Cláudia Wonder reúne toda uma geração de punks, góticos, atores, jornalistas e intelectuais para beber da efervescência cultural promovida por shows memoráveis com o “Vômito do Mito” e o “Jardim das Delícias”, culminando na antológica apresentação do espetáculo teatral “O Homem e o Cavalo” censurado desde a década de 30.

Nostálgico e revelador assim como o artigo de mesmo nome de Caio Fernando Abreu, “Meu Amigo Cláudia” é também ao mesmo tempo triste e reflexivo ao constatarmos que o mesmo momento politico que higienizou essa classe artística, pondo fim a transgressão e lançando esses artistas no ostracismo dos anos 90 parece querer fazer o mesmo retrocesso agora com leis descabidas e fomentando músicas de apelo popular e de pouco questionamento (como o sertanejo parecer crescer desses momentos!). Repleto de entrevistas de figuras carimbadas como Kid Vinil e o dramaturgo José Celso e da própria Cláudia Wonder, esse documentário está cada vez mais atual e necessário.

Vencedor do Emmy “George Harrison: Living in the Material World” estreia na Netflix

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George Harrison

George Harrison Living In The Material World

Ano: 2011
Gênero: Documentário
Duração: 208 min
Direção: Martin Scorsese

Quando falam que George Harrison é o Beatle que mais mudou não é por menos. Dividido entre o mundo material e o espiritual, o irmão do meio do grupo britânico não era nem estrela como Paul McCartney, nem prolífico como John Lennon. O homem dos acordes solitários sentiu o mesmo peso d afama que os demais integrantes, mas foi ele quem passou pela transformação mais curiosa. Após anos ofuscado pelo talento de Mcartney e Lennnon para a composição das letras, “Something” revelou um artista genial.

Martin Scorsese nos brinda com mais um excelente documentário. Indo da explosão da Beatlemania, seus efeitos nos integrantes e a consequente dissolução da banda. Mas é ao abordar à fase solo do artista que o longa ganha sua energia. O documentário parece mesmo interessado em nos revelar o caráter espiritual de George Harrison e a forma como o hinduísmo modificou sua vida e carreira. Das viagens de ácido à meditação, sua parceria com o indiano Ravi Shankar e os questionamentos a respeito da fé, são detalhados em entrevistas e imagens de arquivo, onde jornalistas questionam essa devoção. É curioso ver quando anos depois em sua colaboração com o grupo de comédia britânico Monty Python, ele produz “A Vida de Brian”, sátira religiosa que gerou desavença com grupos católicos mais fervorosos.

Recheado com entrevistas e imagens de arquivo, o documentário ainda traz passagens importantes, como gravação de “All Things Must Pass” em 1970, seu lendário álbum triplo com a colaboração com o produtor Phill Spector, O concerto em Bangladesh e shows com o grupo The Traveling Wildburys (que contava com ninguém menos que Bob Dylan e Roy Orbison) Mas nada tão angustiante como o relato surpreendente de quando um homem invadiu sua casa em 1999, ferindo ele e sua esposa Olivia. Aquela violência e a proximidade com a morte fazem o artista repensar a vida.

Não é de estranhar portanto que o maior medo do “Beatle quieto” fosse com a forma como iria fazer a transição. Em Berlim, antes da fama, quando o grupo conhece os artistas Klaus Voorman e Astrid Kirchherr (passagem essa retratada no filme “Backbeat – Os Cinco Rapazes de Liverpool”) a fotografa diz que através da foto que tirou de George num momento de luto pela morte repentina de Stu Sutcliffe, outrora baixista dos Beatles, conseguiu captar um momento de iluminação do rapaz. Não obstante em seu leito de morte, a esposa de Harrison, Olivia, revela que o quarto se iluminou com a passagem do marido. E foi essa luz que George Harrison deixou conosco em suas letras e riffs geniais.

O lixo, a miséria e a violência: dez anos de “Botinada – A Origem do Punk no Brasil”

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Botinada

Botinada - A História do Punk no Brasil
Gênero: Documentário

Ano: 2006
Direção: Gastão Moreira

Em certo ponto do documentário “Botinada – A Origem do Punk No Brasil”, dirigido por Gastão Moreira, um dos entrevistados compara a época brutal das gangues punks à das torcidas organizadas de futebol. Se o contexto para a nova crescente de violência nos estádios é a crise econômica e o desemprego, nos final dos anos 70 era o descaso e a repressão militar. A diferença é que hoje, nada parece surgir da arte, em especial do rock, para nos retirar deste terrível torpor. Mas em 1982, o movimento punk havia mudado a cara do Brasil.

Repleto de entrevistas e imagens de época nos é apresentada a trajetória do punk no Brasil. Tendo sua origem em São Paulo, embora alguns creditem o berço ao estado de Brasília, o movimento tem inicio de forma curiosa, quase que torpe (com o punk realmente tinha de ser assim) com a influência do filme Warriors de 1979, os primeiros vinis de difícil acesso de Ramones e Sex Pistols e qualquer informação deturpada em imagens de revistas da época que ainda não entendiam direito o que era ser punk.

Lutando para se levantar sob o rock progressista e a MPB e sobreviver a febre da discoteca, o movimento ganha força no rádio através de programas de rádio capitaneados como o “Rock Special” de Marcelo Nova em Salvador e principalmente pelo saudoso Kid Vinil que aparece aqui como uns dos principais divulgadores do movimento em São Paulo. LPs se transformam em fitas K7 e logo surgem as primeiras bandas como Cólera, AI-5, Condutores de Cadáver e Inocentes.

Mostrando a origem humilde com a Banda do Lixo, sem deixar de lado momentos obscuros (a rivalidade brutal entre os punks do ABC e os de São Paulo) passando pela gravação de “Grito Suburbano”, primeiro registro oficial em vinil das bandas punks nacionais, até o auge do movimento e sua consequente derrocada com o festival “O Começo do Fim do Mundo” em 1982, “Botinada: A História do Punk no Brasil” é um excelente registro desse cenário caótico e maravilhoso da história do Rock no país.

Cinephonia: “20.000 Dias na Terra” – Um dia de análise existencial na vida do cantor Nick Cave

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Cinephonia, por Rodrigo Reis e Bárbara Ribeiro

20.000 Days On Earth
Ano: 2014

Direção: Iain Forsyth e Jane Pollard
Duração: 1h e 38min.
Gênero: Documentário.

Dizem que o ser humano é a soma de todos os seus dias. Acontece que nem sempre temos a capacidade de distinguir se essa adição é advinda de eventos reais ou fantasiada da forma como gostaríamos de recordar. Aqui, nos é apresentado um registo biográfico quase que onírico, ainda que consciente da sua proposta. O objeto de estudo é um dia fictício na vida do músico Nick Cave, cujo resultado de seus supostos 20 mil dias de existência na Terra, é o interesse desse documentário.

Aqui os diretores Iain Forsyth e Jane Pollard em parceira com o próprio Cave fazem um registro não convencional. O músico narra sua própria trajetória desde o momento que acorda e tem conversas imaginarias enquanto dirige, com pessoas que fizerem parte dessa soma, como o ator Ray Winstone e a cantora Kylie Minogue. São, como ele mesmo afirma, “fantasmas do passado”, cuja sua maior preocupação é o papel deles na sua memória e se de alguma forma ele poderá honrar a passagem deles em sua vida.

As recordações, aliás, são o grande mote dessa autoanálise existencial que Nick Cave se propõe a fazer de sua vida. Durante uma sessão de terapia, é sintomático que em certo momento ele releve ao terapeuta que seu maior medo é “perder a memória”. Após anos de abuso com as drogas, ao analisar fotos antigas, diz “que é difícil se lembrar dos anos 80”. E é dai que o material ganha força, pois o cantor não é só fruto de suas lembranças, mas de suas sensações. A influência da cidade e do clima; uma passagem de um livro apresentada por seu pai na infância e o poder de metamorfose do cantor ao subir no palco é a chave para essa transformação no que ele é hoje.

Talvez 20000 dias na Terra cause estranheza por mostrar o cantor como ele vê a si próprio. Mas se tratando de Nick Cave, cujas letras e performances são tão subjetivas, não é estranho e muito mais reconfortante ver a soma de seus dias desta forma, onde o resultado é uma carreira genial no mundo do Rock.