Refavela 40 celebra o início do que talvez seja uma “Nova Era” na carreira de Gilberto Gil

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por Pedro César

Gilberto Gil está muito bem. Ano passado tivemos grandes sustos e quase “perdemos” um dos grandes mestres da música brasileira. Sabemos que Gil “não tem medo da morte”, mas quando ele partir vai ser duro pra todo e qualquer fã da música popular brasileira. Por sorte ainda o temos. Com vitalidade, imponência, sabedoria e altivez.

Se Gil cantasse todo o repertório do “Refavela”, entretanto, não seria mais o mesmo. Todas as músicas demandam uma energia que talvez ele não tenha mais, considerando um show tão extenso e que vai percorrer todo o Brasil (no repertório e na turnê). Gil talvez tenha consciência disso. Dá espaço então para uma banda envolvente “regida” pela guitarra igualmente envolvente de Bem Gil, idealizador do show. Com carisma inegável, toda a “trupe” se comporta como uma família, onde inclusive, diversas gerações da família Gil estão presentes, desde Nara Gil, a filha mais velha que participa com vocais ocasionais envolventes e uma participação emocionante em “É”, até os netos, tocando instrumentos percussivos o show inteiro e trazendo fofura e um ar simbólico de renovação – a principal marca desse show: a busca pela renovação permanente da obra de Gil.

Os vocais de Maíra Freitas, Moreno Veloso e Céu, trazem um ar novo para um som transcendental e atemporal. Preparam lindamente o cenário para o anfitrião da festa. Belos arranjos, belas vozes e, evidenciadas nas suas apresentações, a admiração gigantesca pelo filho de Dona Claudina. Gil observa tudo sentado nas coxias, de pernas cruzadas e postura ereta. Reage feliz em algumas músicas, mas passa a maior parte do tempo quase imóvel, admirando o repertório e a homenagem à sua obra. Também se concentra para o que está por vir.

Quando o homenageado enfim chega ao palco, faz uma entrada triunfal e retumbante, convocando a percussão para a “Patuscada de Gandhi”. Dança e traz a plateia ao show a todo tempo, enquanto brada com beleza singular, os versos de homenagem a um dos blocos afro mais tradicionais da Bahia. Emenda com a música maravilhosa que compartilha o nome com o disco em questão. A plateia continua a cantar junto a todo instante em uma Concha Acústica do TCA lotada. Gil conta longas histórias sobre a concepção do disco, destacando a viagem inspiradora à mãe África com Caetano Veloso e tantos outros artistas (é impossível não ter, nesse contexto, orgasmos imaginativos musicais com as menções a encontros frequentes com Fela Kuti e Stevie Wonder).

A atmosfera do show é interrompida com os gritos efusivos de “Fora Temer!”. Gil responde com a malícia e sabedoria de seus 75 anos – “Aconteceu a mesma coisa em São Paulo e direi aqui o mesmo que disse lá: é compreensível, aliás é compreensibilíssimo que se grite isso, mas acho esse grito ocioso. Temer já está fora, se não agora, daqui a 1 ano.” – seu apoio ficou evidenciado, mas, sem deixar de lado uma crítica elegante de quem já viveu muito da história recente desse país, em diferentes lugares da “trincheira” ideológica.

Chama atenção, por fim, o repertório com a presença de músicas extras ou excluídas do “Refavela”, como “Gaivota” (concebida para Ney Matogrosso, que interpreta maravilhosamente no “Bandido” de 76) e “É” (publicada no “Satisfação: Raras e inéditas”). “É”, por sua vez se destaca com o lindo dueto de Gil com sua filha mais velha, Nara, e que marca nos seus versos o que talvez seja o símbolo de sua carreira daqui pra frente – um ser que “não teve começo e nunca terá fim”, um ser inquieto, um ser fantástico. Fantasia que se expressa no “gran finale” do show, com as memórias e a saudação religiosa candomblecista de “Babá Alapalá”, onde a gratidão por ter conhecido o candomblé se expressa, tanto no discurso quanto na cantoria que fecha o show com chave de ouro.

Que todos os deuses e energias positivas abençoem a obra, o legado e o ser de Gilberto Gil, que não é o Bob Marley brasileiro, mas sim, o primeiro e único Gilberto, filho de Dona Claudina e Seu José. Vida longa!

Exclusivo: Meu Nome Não é Portugas lança single “Sob Custódia da Distância”

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Meu Nome Não É Portugas
foto: Kalaf Lopes

Rubens Adati é um dos nomes mais ativos desta nossa nova geração de músicos independentes, ele surgiu no cenário com sua banda de morph rock, a Vladvostock, e em pouco tempo foi tocar ao lado de nomes importantes do independente/alternativo, dentre eles Ale Sater e Giovani Cidreira. Além disso, desempenha um trabalho muito interessante no Inhamestúdio, por lá ele despontou o projeto “Inhame Sessions” e já gravou com Felipe Neiva, Papisa, Ventre e muitos outros.

Meu Nome Não é Portugas é o nome de seu projeto solo, o primeiro lançamento deste trabalho saiu (timidamente) em fevereiro. “e n d o p a s s o s” (Banana Records) é um registro completamente DIY, o músico toma a frente da produção, mixagem e masterização, de quebra ainda toca todos os instrumentos.

Passados cinco meses, Meu Nome Não é Portugas retorna para anunciar o lançamento de seu primeiro disco cheio, “Sob Custódia da Distância”. Como gostinho do que está por vir, Rubens Adati apresenta uma canção inédita, a faixa, que da nome ao disco, ganhou um videoclipe cheio de texturas, elas conversam com a densidade sonora dessa canção instrumental e dão o tom do trabalho que está por vir.

Assista ao videoclipe de “Sob Custódia da Distância”:

Meu Nome Não é Portugas ganhou também uma formação para apresentações ao vivo. Acompanhado de Max Huzsar (Dr. Carneiro), Zelino Lanfranchi (ex-Parati e Cabana Café), e Rafael Carozzi (Kid Foguete, Readymades). Rubens promete um show repleto de nuances, dinâmicas e profundidade.

A primeira apresentação acontece hoje no Breve, ao lado da banda carioca Morena Morena.

Serviço:
Data: Sexta-feira (21/07);
Local: Breve, Rua Clélia 470, Pompéia;
Entrada: 15 reais;
Horário: 19h.
Evento: https://www.facebook.com/events/806565622857865/

O post-rock de Sigur Rós e sua estreia no Brasil

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Fonte: Wikimedia

O “post-rock” é um estilo musical difícil de definir em uma frase simples e objetiva: ele trás em sua essência uma mistura de diversos outros gêneros que, ainda que variados, ainda não são o suficiente para descrever suas características. Da mesma forma, um show da banda islandesa Sigur Rós não pode ser facilmente narrado ou explicado. Ambos devem ser ouvidos e apreciados – apenas isso.

A banda, originária de Reykjavík – capital e maior cidade da Islândia – não é nova. Ela está na ativa há mais de vinte anos, desde 1994. De toda forma, só recentemente ganhou mais destaque por elaborar as trilhas sonoras de séries e filmes bem familiares ao público, como Game of Thrones, Capitão Fantástico, Diários de um Vampiro e Simpsons. Mesmo caindo no gosto da indústria do entretenimento, o trio é considerado cult por seu estilo de som diferente, que mescla música clássica com guitarras, e canções com letras em sua língua nativa, o islandês.

O Sigur Rós é um belo exemplar do post-rock, termo usado pela primeira vez no mesmo ano de lançamento da banda, mas adotado para definir o álbum de outro grupo, Hex” de Bark Psychosis, na resenha do periódico inglês Mojo feita pelo jornalista Simon Reynolds. O conceito desse estilo foi posteriormente explicitado na revista The Wire, onde o também crítico musical o caracteriza por utilizar da instrumentação típica do rock (guitarra, baixo, bateria e teclado) para outros fins que não o rock, fazendo uso de “guitarras como facilitadoras de timbre e texturas em vez de riffs e acordes de energia”, assim como o das batidas eletrônicas – tanto que naquela época a experimentação em estúdios era privilegiada em detrimento de apresentações ao vivo.

Fonte: Wikimedia

Nesse gênero, os instrumentos tradicionais do rock se relacionam com os elementos digitais de forma a construir texturas, ambientes e sensações em um movimento libertário, que rompe com as estruturas tradicionais da composição. O post-rock abusa das composições instrumentais, com poucos vocais, e faz uso da repetição de motivos musicais e mudanças sutis com uma ampla gama de dinâmicas. Além de embutir referências emprestadas de diversos gêneros, como a climatização do jazz, o rock progressivo, indie, new age, dub reggae, krautrock, shoegazer e a incorporação de elementos estéticos clássicos minimalistas, como faz muito bem o Sigur Rós.

A banda é formada pelo guitarrista e vocalista Jónsi, idealizador do grupo na década de 90, pelo baixista Georg Hòlm e pelo baterista Orri Páll Dyrason, que não estava na formação original e só entrou na banda em 2002, no lugar de Ágúst Ævar Gunnarsson. Eles também contavam com o tecladista Kjartan Sveinsson desde 1998, único membro com formação musical e responsável pelos arranjos orquestrais dos trabalhos, mas que deixou a banda em 2013.

Sigur Rós significa “Rosa da Vitória”, mas a inspiração para o nome do grupo veio da irmã de Jónsi, Sigurrós Elín, que nasceu apenas alguns dias antes do surgimento da banda. Seu primeiro álbum foi intitulado “Von” (que significa “esperança”), mas o reconhecimento internacional viria em 1999, com “Ágætis byrjun” (“Um bom começo”), que teve três canções adicionadas à trilha sonora do filme Vanilla Sky, protagonizado por Tom Cruise, além de séries como CSI, Queer as Folk e 24 Horas. Em 2003, eles também fizeram uma parceria colaborativa com o grupo Radiohead para a trilha do espetáculo de Merce Cunningham, Split Sides. Além disso, o single “Hoppípolla” foi utilizado na série Planeta Terra da BBC em 2006, nos créditos de encerramento da FA Cup, nas propagandas da cobertura da emissora dos jogos da Inglaterra na Copa do Mundo, e em diversos filmes.

Seu mais recente CD foi lançado em 2013, e agora a banda, que já conta com 7 álbuns, partirá para sua primeira turnê na América Latina, com apresentações únicas em 4 locais diferentes. O Chile tem muito a oferecer no turismo – como evidenciado por suas famosas vinícolas; Assim, não surpreende que o tour sul-americano começa justamente lá em 24 de novembro, na Arena Movistar (localizada em Santiago). Em seguida. eles irão se dirigir para Buenos Aires para se apresentar, em terras argentinas, no Festival Sonar. Depois disso, finalmente aterrissarão pela primeira vez em nosso país, estreando na grande casa de shows Espaço das Américas, em São Paulo no dia 29. Enfim, no dia 2 de dezembro, se despedirão da América do Sul na edição colombiana do Festival Sonar, em Bogotá.

Os ingressos já estão à venda desde abril, quando a turnê foi anunciada, mas estão se esgotando. É uma boa oportunidade para os fãs que quiserem testemunhar ao vivo toda a exoticidade do espetáculo de projeções abstratas e som etéreo, mas explosivo, ou ainda para aqueles que gostariam de provar um pouco do experimentalismo e inovação do trio islandês.