Juvenil Silva se lança como “Suspenso” para falar de amor livre

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Falar de amor em um disco de rock é sim quebrar paradigmas e Juvenil Silva fez isso muito bem ao lançar logo após a folia carnavalesca “Suspenso”, seu terceiro álbum. Juntou as batidas de piscodelia com o rock, folk, adicionou uma pitada de brega e resolveu alçar novos voos, passeando por um tema que é o amor. Mas não o amor brega cheio de sofrências, posse e ultrapassado, e sim o amor livre, que não tem nada de moderno, mas que é a uma reinvenção e um outro caminho de se construir relações.

Juvenil apresenta nesse disco, segundo ele o mais pessoal de sua carreira, sua visão de mundo por outra perspectiva. Ele instiga o ouvinte a fazer uma revolução interna, através de questionamentos como a quebra de padrões que já não servem e a se resgatar como um personagem que se basta, que é livre.

Além desse aspecto subjetivo e pessoal, que faz parte de uma grande revolução, ‘Suspenso’, se destaca também pela forma que nasceu. Enfrentou um árduo processo de pré-arrecadação de venda, através do financiamento coletivo do cartase, com a campanha ‘Quem Tem Asa Quer Voar’. Para atingir a meta, Juvenil ousou nas redes sociais e chegou a oferecer como recompensa até um rolé na Rural mais famosa do Recife. Nudes também não ficaram de fora. O músico também se apresentou nos sinais da cidade e passou seu chapéu. O resultado de tanto esforço foi a meta de 107% atingida e ‘Suspenso’ no mundo para quem quiser se deleitar.

Conversamos com Juvenil sobre esse novo trabalho e ele nos respondeu umas perguntinhas sobre o caso de ‘amor livre’ no Suspenso:

– Ser artista no meu ponto de vista é uma coisa mais completa, complexa, diferente de executor de instrumentos. E no teu disco suspenso, eu percebo essa complexidade de sons, ideias e até na forma de divulgação do teu trabalho. Na música “Gaiola”, você aborda o amor livre, a descolonização das relações. Você consegue levar para a tua vida o que você canta e compõe?

Bem, não é questão de levar o que eu canto pra minha vida e sim um caminho contrário, primeiro eu vivo, depois canto. Nessa música “Gaiola” eu abordo questões em torno da hipocrisia que existe em cima do que é ou não livre. A liberdade é algo bem complexo e relativo. Liberdade de ir, de voltar ou até mesmo de não ir. Acredito que o Amor, esse sentimento tão plural e subjetivo, ele sim que é livre, não a gente. E nessa liberdade, ele possa ser o que é e como quiser, seja monogâmico, “livre” ou sei lá o quê. Mas que seja feliz para ambas as partes em qualquer tipo de relação. Quando digo que (para mim) o amor é que livre, é pelo fato dele atuar sem nosso controle, ele vai, ele vem, leva ou até mesmo segue na solitude. É o lance do Amor Primo, que também canto no disco… ” Nosso amor é Primo, Primordial, primitivo… Talvez a essência mais selvagem, sincera e perigosa que habita no ser.

– Você fala de amor nas suas músicas, mas um amor mais moderno e reconstruído. Você acredita que essa pode ser a tendência das relações humanas?

· Não concordo que isso seja moderno não. E sim que vem de muito antes da porra toda. Da sociedade e dos padrões de merda que ela nos enfiou a força. Quando a gente é bebezinho, temos o amor puro em nós, a criança pra mim, é o que existe de mais próximo de um semideus. Mas a gente vai lá e tira tudo dela e empurra esse tamplate careta e fracassado. Falta exercício, impulso, falta coragem. Não, eu não acredito que esse amor que eu canto, venha a se tornar, como você disse “tendência das relações humanas”. Apesar de conhecer pessoas que tentam buscar certas tendências, às vezes até lamento por isso também, porque acho que cada tem a sua, o seu jeito de amar, e entra nessa de ir atrás de outras maneiras e se distanciar do caminho indo na direção oposta a si mesmo e acaba se perdendo. Por outro lado, se perder pode ser o começo do verdadeiro caminho de voltar e crescer. As possibilidades pulsam em veias abertas.

– A sua campanha de arrecadação no cartase foi ousada e diferenciada, criativa para atingir a sua meta. Vale tudo para realizar um sonho?

Olha, vale dá o máximo que se tá disposto a dar de si mesmo. E foi isso que fiz. Inclusive, foi bem louco, porque foi durante um época péssima pra esse tipo de coisa, Natal/Carnaval… Mas rolou lindo, no fim valeu super a pena por tudo que agregou e fortaleceu. Não sei se faria outra vez, mas indico total a todo artista fazer algo parecido, pelo menos uma vez.

– Um som com mix de rock, folk e psicodelia falando sobre amor, mesmo que seja um amor moderno é um outro caminho a percorrer, sem aquela romantização do amor submisso, tradicional que nos foi ensinado e que encontramos no brega, sertanejo, mpbs. Você consegue fugir bem disso quando leva o amor com outros ritmos. Como você enxerga esse alcance e aceitação?

Então, no caso do público com a música romântica careta, seja melosa, fofinha, sofrência ou putaria, a identificação da grande massa é total. É aquilo que lhes foi empurrado goela a dentro pela educação patriarca, careta, capitalista, católica, e preconceituosa que nossas famílias de merda perpetuam, por pura ignorância e inocência, por vezes também. É aquilo que tivemos acesso a nossa vida inteira, nossa cultura, vinda das rádios, da tv, das ruas, das porra toda. Existe muita informação no mundo, mas o acesso é restrito, ludibriado por veículos que nos causam um tipo de cegueira ou mesmo “preguiça intelectual”. E é assim que a sociedade vem se engessando, na ignorância, e é assim que nos querem… No caso da aceitação do ponto de vista abordado nessas minhas canções, acho que gera muita curiosidade, vontade de compreender, mesmo nem concordando por vezes. Eu acho legal, desde o começo tinha em mente que seria assim, queria apenas levantar questões dialogáveis, deixar no ar, provocar. O disco tá aí, deixo o povo pegar e pensar e falar o que quiser, essa é uma das finalidades de “Suspenso”.

Festival Guaiamum Treloso ataca de CarnaIndie Feminista e agrada o público

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Cidadão Instigado

Prévia carnavalesca do Recife, a capital do frevo, apostou em artistas da cena independente para o line up e contou com discurso feminista

Fantasias, looks ousados, glitter e muita música boa. Foi assim o Festival Guaiamum Treloso, que aconteceu na Fazendo Bem-ti-vi, em aldeia. A festa, que é uma prévia carnavalesca tradicional em Pernambuco, nesta 18ª edição resolveu apostar em um line up diferenciado, trazendo para a terrinha do frevo sons da cena independente brasileira. Deu certo!

O Festival aconteceu em uma grande fazenda no meio de uma área de mata e armou uma grande estrutura com três palcos, uma tenda, praça de alimentação, bares, lojinhas e muitos banheiros para recepcionar e impressionar bem os seres da mata que habitaram o local. Esse espaço, embora seja distante da cidade e cheio de vibes boas, deu trabalho para a produção conseguir a liberação de alvarás, mas, como dito, além de Treloso, o Guaiamum é teimoso e manteve o endereço, o que acabou afetando um pouco a estrutura do evento. Os palcos acabaram ficando muito distantes e mal ornamentados. O público sentiu.

Festa pronta, os seres da mata chegaram cedo no evento, que estava previsto para começar às 13h. Mas, os shows atrasaram! E muito! Dessincronizou os horários e alguns shows aconteceram simultaneamente. Também aconteceu de não tocar nada por mais de meia hora em nenhum dos palcos principais. Mas, a magia do lugar e o astral da festa não deixou o público abatido.

A banda Marsa, que tocou com mais de 1h de atraso, reuniu um grande número de fãs. Tocaram as músicas do seu disco “Circular Movimento” e levou os Seres da Mata ao estado de êxtase. A voz única, doce, suave e especial de Tiago Martins causou grandes emoções. O show da Marsa foi um dos melhores do festival.

No outro palco, subia Jorge Cabeleira, banda da carrada do manguebeat, que passou muitos anos em stand by. Mas, que está de volta à cena. Esse ano estão com previsão de lançar disco novo. O show estava quente e quem viu gostou. No repertório, Dirceu Melo apresentou as músicas clássicas do Jorge e apresentou uma inédita.

O dia já era noite quando Cidadão Instigado subiu no palco e fez um show impecável. Mas, o público do Recife tem uma certa particularidade de ser difícil de ser conquistado. As bandas sentem isso e as produtoras mais ainda, quando nem sempre podem arriscar trazer nomes diferentes porque o público não comparece. Não tem interesse pelo novo. Um ponto negativo do Recife, que se diz uma capital multicultural. Homem velho, besouros e borboletas e outros sucessos da banda de Fernando Catatau embalou os fãs e os curiosos que lotaram o espaço ao redor do palco Bem-ti-vi.

Metá Metá subiu no Palco Skol e não surpreendeu. A incrível Juçara Maçal fez um show muito tímido, que não empolgou e nem atraiu muita gente. Fizeram uma apresentação curta e deixaram de lado o hit “São Jorge”, que o público tanto esperou. Aqui, não decolou.

Era a vez dela, a mulher do fim do mundo, mostrar porque está em dias com os palcos apesar da avançada idade. Deslumbrante, Elza Soares apareceu no palco como uma verdadeira rainha para apresentar seu show “Elza e a Máquina”. Ela, como sempre, chegou recheada de discursos feministas, e levou público a loucura. O show em particular não empolgou tanto o público no início. Essa versão de Elza remix pegou o público de surpresa e dessa vez não agradou a gregos e troianos. Mas, levou sua mensagem da melhor forma. “Maria de Vila Matilde” foi o ápice da apresentação. Seu show foi um verdadeiro ato de discurso feminista, enquanto embalava os Seres da Mata com as músicas, vídeos eram exibidos falando os dados do feminicídio. O conjunto da obra foi incrível!

Em tempo, a produção foi muito feliz na escolha do line up. Artistas com discursos engajados, fortes e grandes influenciadores. Todo o festival teve uma pegada feminista e é disso que precisamos mais.

Di Melo subiu ao palco Skol e mostrou que ainda vive. Não trouxe a sua banda oficial, mas representou bem. Levou o público a cantar em coro seus grandes clássicos como “Pernalonga” e “Kilariô”, entre outras. Nada de inovador, mas como dito, o público do Recife gosta do que já conhece. E Di Melo acaba sempre agradando.

Chegou a hora do Baco Exú do Blues mostar porque stá estourado. Um show esperadíssimo e que superou às expectativas. ‘Te Amo Desgraça’ levou o público ao delírio. O show foi empolgante e dançante o tempo inteiro. O Baco é realmente incrível e colocou o povo para pular, abrir roda, se tocar, sentir a energia. Por falar em roda e voltando ao discurso feminista, esse Exú abriu uma roda de mulheres. Só mulheres e glitteres. Um momento de reflexão. Uma ideia certa e muitos aplausos! Baco causou e ganhou, apesar de novidade, o carinho do recifense. Ponto altíssimo do festival.

Nação Zumbi chegou e chegou destruindo tudo. Fez um show instigante e afinadíssimo, o que ficou devendo desde a sua apresentação no Réveillon. O clima do carnaval colocou os mangueboys a dar o melhor e lacrar no palco. O batuque das alfaias em sincronia com as batidas do coração. Tocaram poucas músicas do seu último disco “Radiola”, que não empolgou muito. Mas, a versão “Refazenda” de Gilberto Gil ficou sensacional. “Da Lama ao Caos”, “Banditismo Por Uma Questão de Classe”, “Um Sonho”, “A Melhor Hora da Praia” e mais uma sequência de pedradas tirou o público do chão. Um dos melhores shows do dia.

Letrux e Francisco El Hombre, colocados como headliners do festival, acabaram tocando simultaneamente. Letrux, a feminista, rainha do soud out, a musa do climão, subiu incrível no palco e, se não fossem por atrapalhos técnicos no som, teria feito uma apresentação impecável. Ela estava lá, linda e perfomática representando a ala feminista e mandando a real com seus discursos. “Que Estrago”, “Vai Render”, “Ninguém Perguntou por Você” e quase todas do seu disco solo embalaram seu público fiel que estava ali afim de um climão. Que mulier é essa?!

Francisco El Hobre lacrou com chave de ouro. Que apresentação empolgante, feliz, extraordinária e agradável. Eles fizeram um dos melhores shows da noite, quiçá o melhor. “Calor da Rua”, “Bolso Nada”, “Soltas Bruxas”, “Triste, Louca ou Má”. Pera, uma pausa para esse momento. Ju foi incrível cantando esse hino: “Triste, Louca ou Má”. Deu uma aula de feminismo e pediu: “Homens falem menos e escutem mais as mulheres”. Ela foi ovacionada. Sem contar que ela arrasou com o seu gogó! Ápice da festa. Melhores momentos ever. Francisco El Hombre. Um lacre, é um lacre. Aqui, as portas vão estar sempre abertas!

A 18ª edição do Guaiamum Treloso Rural representou como prévia. Apresentaram uma grade de apresentações dignas de um verdadeiro carnaindie. A produção está de parabéns por ter conseguido realizar, apenas das brigas judiciais, o festival, como ter lotado e agraciado o público com uma vibe de paz e alegria. Pequenos ajustes na produção e a certeza de que a 19ª edição vai entrar para a história. Que venha!

Feminismo é revolução e os artistas estão entendendo o recado

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Letrux
Letrux

“Ela desatinou, desatou nós. Vai viver só!” Esse trechinho de “Triste, Louca ou Má” de Francisco El Hombre representa bem a transição social pela qual estamos passando. O feminismo grita, exige e chega aos ouvidos de milhares de pessoas de infinitas formas, seja pelos protestos nas ruas, pelas plataformas digitais e principalmente pelo streaming. Uma voz, doce, suave, encantando e passando seu recado sutilmente. É assim que inúmeros artistas estão chegando nesses espaços e ganhando voz e autonomia.

Elza Soares, grande artista feminista, manda seu recado social desde cedo. Fala abertamente em suas músicas sobre a opressão masculina, violência doméstica, racismo, entre outros temas e convida seu fiel público a dar um basta nisso. “Cadê meu celular, eu vou ligar no 180”. O famoso Disk Denúncia. Em 2016, Elza lançou seu disco “A Mulher do Fim do Mundo”, que lhe rendeu excelentes críticas e prêmios, como Grammy, todo contextualizado no apelo ao fim da violência. Um verdadeiro grito de basta. Em 2017, ela não perde a linha e lança o single ‘Na Pele’, junto com a também feminista Pitty, denunciando a violência física e psicológica. “Se essas são marcas externas, imaginem as de dentro”, questionam.

As mulheres, através de muita luta, têm conquistado seus espaços no campo profissional e a indústria fonográfica vai muito bem representada nesse quesito. Mulamba é um sexteto de meninas paulistas, que também lançou disco 2016 e vem gritando nas playlists o fim do abuso, escancarando o machismo e pedindo a liberdade feminina. “Agora o meu papo vai ser só com a mulherada: Nós não é saco de bosta para levar tanta porrada” e denunciam “Todo dia morrem umas 10, umas 15 são estupradas, fora as que ficaram em casa e por nada são espancadas”. Não à toa, contam com quase 9 mil ouvintes mensais no Spotify, e a música “Mulamba” com mais de 54 mil plays.
A lista de artistas que estão seguindo essa revolução feminista é bem vasta e a Letrux, antes conhecida como Letuce pelo trabalho musical com seu ex marido, jogou tudo para alto e lançou um excelente disco, “Em Noite de Climão”, onde se mostra empoderada, liberta e pronta para um novo jogo. Nesse estilo, Ava Rocha também representa bem a cena indie do Brasil, com sua performance autêntica nos palcos. Uma das suas canções que chama a atenção durante sua a apresentação é Joana D’Arc. Ava foi headliner na abertura da Semana Internacional de Música, que aconteceu em São Paulo.

Mas, nem só mulheres ganham espaço nos fones de ouvidos quando o assunto é feminismo. Francisco El Hombre, grupo misto de paulistanxs e mexicanxs, também pregam o fim do machismo, o empoderamento feminino e a sororidade. Apesar de ser cantada por uma voz feminina, a banda é composta na sua maioria por homens, que carregam essa bandeira. Essa atitude já se trata de um reflexo da revolução feminista, talvez uma lição que ficou após um integrante da banda ser acusado por machismo e manter um relacionamento abusivo.

Com o mercado musical aberto a esses discursos, não só é importante discutir o feminismo, como também é de igual importância desconstruir o machismo. A sociedade já mostrou que não tolera mais. E grandes artistas como Criolo e Mano Brown já aderiram a essa nova regrinha. Não se pode mais denegrir a imagem da mulher, pega mal, mesmo que para um seleto público. Não entraremos aqui no mercado do funk e ramificações.

Mano Brown, que lançou o “Boogie Naipe” em 2017, seu novo trabalho solo, desabafou que os tempos mudaram e tirou do repertório do Racionais MCs as músicas que fazem apologia ao machismo. Essa visão também foi alcançada por Criolo, que relançou em 2016 o disco “Ainda Há Tempo”, com alterações em algumas letras machistas e homofóbicas. Ponto para eles.

O público está de olhos bem abertos quando se refere a esse tema. O grande e intocável Chico Buarque, também lançou um disco em 2017 e foi alvo fortes críticas quando cantou ‘Tua Cantiga”, onde deixaria mulher e filhos por sua amante. É uma letra que vai de encontro à sororidade, mas que passa pela liberdade poética de se cantar uma história.

O fato, é que a tolerância machista está desabando, tanto que foi lançado pelo site Apoie a Cena, uma matéria com o título “Bandas Machistas Que Você Não Deve Ouvir”. Trata-se de relatos de mulheres que foram vítimas de boys bands. O machismo não precisa estar só nas letras. Ele direcionado é mais agressivo.

Em alta, a revolução feminista não pede licença. Ela invade os palcos, as playlists e com sua força conscientiza homens e mulheres. Denuncia violência, chama para a luta. E representa o atual momento de transição.