O primitivismo convidativo de Vurro na Casa do Mancha

Read More

Meu primeiro contato com Vurro foi nos idos de 2016. Era um ser bizarro, sobrehumano e fazendo uma música cheia e energética. Um crânio de animal – cujos chifres são usados para bater nos pratos – , chocalhos nos braços, teclado de pé, bumbo, caixa e chimbal também controlados no pé e as mãos ocupadas com um órgão tipo Hammond e um piano. Tudo isso fazendo um rock’n’roll cheio, sujo e divertido… Garage-rock encontra one-man-band.

Fui ao show do Vurro na Casa do Mancha, em São Paulo, no último dia 1º, sem saber muito sobre o artista. Sei que é espanhol e possui alguns vídeos no Youtube e Facebook, mas nada de Spotify, Bandcamp e afins. Também é guardado em segredo a identidade do homem por trás do monstro. E tudo isso é tão proposital quanto necessário.

Vurro é um artista autosuficiente e que convoca, mais que convida, à contemplação analógica. Sua ausência digital em plataformas focadas em música monstram um posicionamento de alguém que parece ser um ativista do show, do momento, da sensação de ouvir uma música ao vivo.

O som que produz é tão primitivo quanto o crânio que veste. É como se Vurro fosse o rock despido de qualquer desnecessidade. Às vezes uma batida cria um ambiente ritualesco, mas na maior parte é um rock’n’roll simples, direto e muito bom. Ares de Fats Domino, Jerry Lee Lewis e até Jimmy Smith.

No palco, Vurro é divertido e alegre. O show é uma ode ao rock’n’roll, à simplicidade do estilo (apesar da virtuose do artista em fazer todo aquele som sozinho) e a energia que dispara. É impossível assistir ao show sem ao menos bater os pés (exceto se você é um hipster digital que precisa filmar todo o show para dizer que foi).

Vurro é um artista necessário. Uma reflexão obrigatória para pensarmos o futuro da música não apenas como trilha, mas como significado. Qual o valor que você dá ao som que escuta todo dia? Sua playlist é riquíssima e infinita, mas qual canção fala diretamente com você? Qual melodia você se vê obrigado a ouvir e reouvir de tempos em tempos?

Vurro é um manifesto.

“Sheila Cretina Vol. II” e o transtorno sonoro necessário

Read More

Aquilo que te pediram hoje é para hoje mesmo, mas não se esqueça das pendências de ontem e nem do combinado para mais tarde, já que dessa vez não é possível adiar, principalmente depois do que aconteceu pois esperam que você não se esqueça de tudo o que foi dito, escrito, convidado, notificado e, é claro, de tudo aquilo que você deveria ter feito e não fez justamente por conta da pressão do que te pediram hoje que é para hoje mesmo.

Assim é “Vol.II” do quarteto Sheila Cretina: urgente, tenso e, principalmente agora, necessário. Depois de seis anos desde o “Vol. I”, a banda está de volta com a continuação da saga. “Vol. II” é um chute no cu com conhecimento técnico, mas também com intenção escusa. Tudo é garagemente cheio, barulhento e pesado.

Mais do que fazer barulho, “Vol.II” é uma expressão do momento, mas sem ser datado. Não há espaço para superficialidades. As canções não tem nome, mas batizadas por meros números. As letras são curtas, mas precisas. É uma ideia por canção, um argumento por música. Não entendeu? Foda-se e siga em frente. As faixas instrumentais possuem o mesmo vigor e intenção. Sem espaço para o que não se deve.

(Agora seria a hora de falar dos destaques do disco, mas puta que pariu… o álbum só tem petardos fodas. É realmente muito difícil escolher. Apenas invista seu tempo e ouça ele inteiro e seguidamente!)

Para aqueles que não aguentam a bundamolice atual, “Vol.II” é uma putaria desenfreada e cretina. Para aqueles que desconfortáveis com a correria paulistana, “Vol.II” é o afago caótico necessário.

“Vol. II” é o antídoto perfeito para o veneno do agora.

Ouça:

The Bombers abraça o Sol e outros estilos em seu novo disco

Read More
The Bombers
The Bombers

O Sol totaliza 99,86% a massa de todo o Sistema Solar e é composto majoritariamente por Hidrogênio. A fusão nuclear deste elemento com ele mesmo produz outro tipo de átomo, o Hélio, e é isso que gera toda a imensa energia do Sol. Mais do que sua imponência de tamanho, o Sol é primordial para nossa sobrevivência. Abraçar o Sol, portanto, não só é um ato alegoricamente corajoso, como também é uma ode à vida.

E a arte dos santistas The Bombers é solar. Emana não só energia como te incita a viver. E se vida é deixar rastros, Bombers fazem bonito carimbando uma marca única. Há ecos claros do punk de dias verdes e levada de ska sublime, mas não é só isso. Talvez, assim como o Sol, o convite do álbum é claro: confraternize.

E, também como nossa estrela-mor, a fusão dos elementos produz algo novo. No caso de “Embracing The Sun”, o sincretismo cultural é tão harmônico e divertido como surpreendente e curioso.

The Bombers

De longe, o melhor exemplo é “Exodus”. A narrativa sonora é rica e invejável. O riff inicial parece indicar uma levada mais pra um rockão do que para qualquer outra coisa. A música toda gira em torno desse espectro até que o segredo é desvendado: seu núcleo é formado não pelo riff de guitarra, mas por sanfona, triângulo e zabumba. The Bombers mostram que não é preciso cantar em português para ser brasileiro.

E eles não param por aí. Em “¿Qué Pasa?”, o grupo deixa de olhar para o horizonte atlântico para virar rumo ao Pacífico. Como se fosse uma releitura latina de Run DMC & Aerosmith, The Bombers acrescentou ao rap+rock o diálogo mais que necessário entre o Brasil e nossos vizinhos – sem contar o toque norteamericano com uma gaita blues!

Ao lado de “Exodus”, um dos grandes destaques do disco é a versão para “Mestre Jonas”, do trio Sá, Rodrix e Guarabyra. A adaptação é tão perfeita que soa original.

“Embracing the Sun” é divertido, intrigante e até reflexivo. Existem outros estilos abraçados pela banda neste disco – e que talvez alguns torçam o nariz. E aí também está parte da diversão… a reflexão do limite do estilo e os possíveis diálogos com outras formas musicais. Goste ou não, tudo que ouvimos hoje surgiu a partir de amálgamas anteriores.

Garimpo Sonoro #12 – Estudando Tom Zé: 5 vezes em que Tom Zé foi nota 10!

Read More
Tom Zé

De maneira dolosa, Tom Zé sempre se vendeu como o Vagabundo enquanto seus atos explicitavam seu dom chaplinesco. Em meio século de carreira, o artista vindo da hipercitada Irará-BA se formou em música na renomada Faculdade de Música da UFBA e usufruiu desta base técnica com tanto primor quanto sua abordagem criativa com as palavras e sons.

Precisaria de muitos caracteres para discorrer sobre o caráter artístico do Senhor Zé – incluindo sua relevância na Tropicália – por isso, como de praxe, resumirei em apenas cinco amostras:

“Tô” – Quando se vê toda a carreira de Tom Zé, “Tô” se mostra muito mais do que um manifesto: é uma cartilha que Tom Zé segue à risca.

Plágio – Em 1990, Tom Zé expôs um pouco do tortuoso caminho criativo cheio de dialogismos que ele costuma usar em sua obra. Aqui, ironiza uma acusação de plágio ao fazer uma música em que quase nada é seu.

“Estudando o Pagode” – Há 11 anos, Tom Zé levantava parte da bandeira do feminismo sob o véu de sua releitura sobre o pagode. O álbum, em forma de operetta em três atos, conta a história da opressão à mulher, sua relação com o homem e a distorção do amor. O disco todo vale a pena, mas aqui ilustro com “Proposta de Amor”.

“Tropicalea Jact Est” – Apesar de não incluir na série “Estudando”, Tom Zé revisita a evolução da Bossa Nova em um belíssimo disco que conta com participações atuais, como Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante, Pélico e Emicida.

João da Esquina – No seu livro “Tropicália Lenta Luta”, Tom Zé mistura sua biografia com uma releitura sobre a vida de todos. Ao final, compilou alguns artigos que ele publicou em jornais diversos. Um deles, de 2001, homenageia João Gilberto ao mesmo tempo que consegue traçar um paralelo genial entre a Bossa Nova e a fórmula de Einstein E=MC²

Este não tem vídeo, mas leia o artigo (http://navegandonavanguarda.blogspot.com.br/2009/07/artigos-extraordinarios.html) enquanto ouve a instrumental “Toc”:

Garimpo Sonoro #11 – Engov We Trust: 5 Músicas sobre Ressaca

Read More
Homer Simpson

O Brasil só começa depois do Carnaval, mas dependendo do seu uso do feriado, sua vida parece acabar depois de tanta festividade. Há quem se programe para terminar cedo e curtir uma quarta-feira de cinzas mais tranquila. Contudo, os imprevistos da vida às vezes te chamam para beber numa terça de Carnaval com a desculpa que não é preciso trabalhar na manhã seguinte. E você ainda acredita.

Eis que você acorda sem saber se morreu, sem saber que horas são e tendo que esperar alguns segundos até que seu cérebro acesse sua própria identidade e te diga quem você é.

Para quem se encontrava nesta situação ontem, ou quem ainda não sarou de tanta inconsequência, eis cinco canções que ilustram o pesadelo pós-esbórnia.

Matanza – “Ressaca Sem Fim”: É difícil não falar de álcool sem falar de Matanza. A banda consegue fazer um som foda e uma letra precisa:

Muzzarelas – “I’ll Never Drink Again”: quem nunca falou para Deus, mãe ou a si próprio que nunca mais encostaria em uma bebida? Nem uma semana já tá dando trabalho de novo…

Janis Joplin – “What Good Can Drinkin’ Do”: um blues que questiona os porquês desse mal que ingerimos e que não deixaremos de ingerir.

Johnny Cash – “Sunday Morning Coming Down”: um domingo normal para aqueles desfrutam do prazer de se destruir com uma rotina ébria.

Tom Waits – “Bad Liver & Broken Heart”: impossível deixar Mr. Waits de lado e é mais impossível escolher uma única canção. Mas talvez esta frase seja uma ótima para terminar esta coluna: “Eu não tenho problemas com bebida, apenas quando não consigo uma”.

Garimpo Sonoro #10 – ISCA: 5 amostras de como o Ska te pesca com facilidade

Read More

Estou em uma semana nostálgica. Talvez seja pelo começo do ano; talvez por ciclos naturais da vida; ou seja porque achei uma pasta com fotos do Orkut que eu salvei antes da morte da rede social. O fato é que uma coisa levou a outra e eu relembrei da época em que jogava video-game. Nunca fui um bom ~gamer~, tanto por falta de habilidade, quanto falta de devoção. Mas alguns jogos me fisgaram: Need For Speed, Road Rage e Tony Hawk’s Pro Skater.

Este último, além de ser um divertido jogo de manobras e missões voltadas ao mundo do skate, também trazia uma trilha sonora com coisas bem bacanudas. Daí me lembrei de uma, Goldfinger, que abriu a mente para o tema da semana: SKA!

Ao contrário do que muita gente imagina, o Ska é antecessor do Reggae. Primeiro surgiu o ritmo mais animado e rápido, com a guitarra fazendo os acordes no contratempo. O reggae é uma releitura, com uma abordagem mais vagarosa, criando uma névoa sonora propícia a muitas atividades recreativas.

A seleção abaixo não é pela importância de cada banda, mas uma mescla de coisas mais clássicas a coisas mais famosas que eu fui lembrando ao longo dessa viagem que começou com um jogo de Playstation (sim, o primeiro!).

Voodoo Glow Skulls – “Shoot The Moon”: no disco, a voz da introdução é nada mais, nada menos, do que um trecho de Up In Smoke, da dupla maconheira Cheech & Chong. O Voodoo Glow Skulls fazendo um ska-core agressivo e divertido ao mesmo tempo. Ótimo para dar aquela acordada no meio da tarde de trabalho.

Toots & The Maytals – “Monkey Man”: não, essa música não era da Amy Winehouse. Este grupo jamaicano surgiu nos anos 60, quando o ska começava a esquentas as pistas do país. Ao ouvir, é fácil entender a razão do sucesso. Impossível ficar parado.

Sublime – “Wrong Way”: Aaaah, os anos 90. MTV, clipes divertidos, tardes ociosas… Tão sublime (RÁ!). Quem nunca ouviu “Santeria”, do Sublime?

Skuba – “Não Existe Mulher Feia”: no final dos anos 90, o Brasil produziu uma safra de bandas do estilo com trocadilhos no nome. Skuba, Skamoondongos e Skabong. Skuba foi uma das mais famosas, numa época em que a MTV era um ponto de referência. Assim, uma música divertida com um clipe criativo era uma ótima receita.

The Mighty Might Bosstones – “The Impression that I Get”: ouvindo essa música me vem à cabeça as coletâneas em CD da 89FM. Comprava sempre que as via – um garimpo analógico, apesar de já ser na era do CD.

Lembra de mais algum ska bacanudo? Divida com a gente!

Garimpo Sonoro #9 – A Vida é Obra de David Bowie (1947-2016)

Read More
David Bowie

Ainda está fresca a notícia da morte de David Bowie… e Bowie andava fresco em minha mente. Coincidentemente, estava justamente numa fase bowiesca… No final do ano ouvi por completo com amigos o disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars; na semana passada estava ansioso para ouvir na íntegra sua última obra, mas enquanto não era liberada, me continha com um show de ‘72; na sexta ouvi algumas vezes Blackstar, seu agora disco-testamento, e gostei muito.

Mesmo sem pensar, recentemente apreciei Bowie como se deve: por completo. Ouvir faixas isoladas é a maneira mais viável – ainda mais neste mundo ansioso que vivemos -, mas algumas artes só são perfeitamente absorvidas em sua totalidade.

E Bowie é um artista completo. Tão completo que transformou sua própria morte em um capítulo de seu último trabalho. Pensando friamente, o enredo não poderia ser mais perfeito: lanço um aperitivo com um mês de antecedência, com um clipe sombrio que se tornaria profético. Presenteio a todos, no dia do meu aniversário, com um álbum denso, pesado e diferente. Dou três dias para um primeiro contato, para que todos possam se familiarizar com as músicas. Então, como um epílogo surpreendente de um livro clássico, adiciono a morte do protagonista.

E não é a primeira vez que Bowie se mata. Lembremos de Ziggy Stardust, cuja última aparição foi em julho de 1973.

Como um artista real, seu principal objetivo não era o agrado da audiência, mas o respeito à suas crenças. É creditada a ele a frase: “Eu não sei para onde eu estou indo daqui, mas eu prometo que não será entediante”. Dylan, tão referência para Bowie que foi sua musa em “Song for Bob Dylan”, uma vez disse que um artista não pode se confortar com um momento, tendo sempre que estar num estado de constante mudança. Algo tão coerente sobre Dylan, quanto sobre Bowie.

Perder um Bowie é perder um artista em constante ressignificação. Contudo, é também um momento para refletirmos sobre o que somos e o que queremos ser. A pergunta que ele fez décadas atrás pode ser adaptada para hoje: existe vida na Terra?

E o quê podemos tirar de bom em tudo isso? O senso de missão artística que sempre pairou sobre Bowie. O artista imortal venceu o homem moribundo. Ao saber de seu fim, escolheu curtir a vida através de um último suspiro como David Bowie. Um David Bowie que quis amenizar as dores de David Jones e sua família.

Assim, podemos afirmar: esta foi a última transformação do eterno Camaleão.

Ou a primeira, esteja onde estiver.

Garimpo Sonoro #8 – O Mito da Caverna: 5 vozes graves que cantam pro eu interior

Read More
Leonard Cohen
Leonard Cohen

A voz grave é um charme desde sempre. Dos cantores de barbershop a Barry White, qualquer um fica impressionado quando ouve um barítono de responsa. Se o tom agudo representa uma técnica impecável, o grave é o controle da essência, tão técnico mas mais intenso – pelo menos quando feito com o âmago.

Abaixo, uma seleção de músicos que tenho ouvido ultimamente – alguns garimpos recentes e outros pérolas clássicas.

Tem alguma indicação? Manda pra cá!

1- Sean Rowe: com uma voz volumosa, a primeira impressão é de que ele está com uma bola na boca. Depois, quando se acostuma com o timbre, a sensação é de tranquilidade, mesmo que com ares melancólicos.

2- Laura Marling: eu nunca me esqueço da primeira vez que a ouvi. Nos primeiros segundos, me impressonei pela habilidade no violão de uma moça tão pura, angelical. Daí veio a voz e tive que me lembrar de respirar. Suas feições pareciam não bater com sua voz. Era como se uma regra fosse quebrada e a partir daí, tudo era possível. E sem regras, no escuro, não nos resta nada a fazer a não ser apreciar e contemplar, sem a necessidade de entender.

3- Bill Callahan: a seneridade na melodia e na letra combinam tanto com o timbre quanto a ambiência criada por todos os outros elementos. Ouvir Bill Callahan é ouvir a si próprio, como se o que ele criasse não fosse música, mas o silêncio necessário para se escutar.

4- Leonard Cohen: não há dúvidas, aqui ouvimos a voz de Deus. Não há espaço nem para ouvir a si mesmo, não há tempo de ficar parado. É necessário sair de si, abraçar-se e transformar-se em um andarilho enquanto a música durar. É ser um peripatético, trilhando um caminho enquanto raciocina sobre a trilha que se forma.

5- Johnny Cash: talvez uma das vozes graves mais famosas e mais influentes. The Man in Black dialoga com os demônios de todos – pois saiba que todos temos um espaço para eles. E ao falar com este lado, o resultado varia. Para alguns é domar os riscos, para outros é acender a faísca do veneno. Seja como for, não há volta.

Garimpo Sonoro #7 – Mete o dedo nesse órgão: 5 sons fodásticos de Hammond

Read More
Booker T Hammond

John Medeski considera o órgão elétrico como “a big band do pobre”. Criado por Laurens Hammond e John M. Hanert nos anos 30, o órgão Hammond tinha como público-alvo igrejas que precisavam de um órgão mais barato do que os gigantes usuais. Nos anos 50, porém, o instrumento ganhou espaço no jazz, sendo depois difundido para outros estilos.

O instrumento hoje ganhou releituras tal qual guitarras, com inserção de efeitos e distorções. Um aliado do Hammond com tanta fama quanto o próprio é a caixa Leslie, com falantes rotativos que criam um som trêmulo muito louco.

Listo aqui 5 músicos fodões que vieram a minha cabeça como referência do Hammond:

1) Jimmy Smith: juntando o jazz com o groove do funk, Jimmy Smith trouxe não só uma nova sonoridade, mas também uma malandragem muito interessante para o jazz. Saca só:

2) Booker T Jones: outra referência fodástica do Hammond. Aqui, temos um Booker T solitário, sem seus MG’s, mostrando boa parte do potencial do Hammond a partir do seu talento. Outra parte foda do vídeo abaixo é ver o instrumento despido, só, e em ótima resolução tanto de som quanto imagem.

3) Não um, mas dois! Orgel Vreten é o mais recente que conheci. Como são alemães, não sei se são um duo ou uma banda completa, mas o resultado sonoro é uma porrada instrumental com groove, peso e malandragem, espalhados em dois órgãos, baixo, bateria e até trombone.

4) Ari Borger: a parcela brazuca é muito bem representada por Ari Borger e seu quarteto, que misturam jazz, samba e soul para fazer um instrumental fodástico, mesmo que sem usar um Hammond original.

5) Medeski, Martin & Wood é um trio que experimenta sons, ritmos e riffs a partir de um groove sem igual. Eles já se juntaram com o guitarrista John Scofield, produzindo algo tão bom quanto quando são trio.

Tem alguma dica de “organeiros” bons? Manda pra cá!

Garimpo Sonoro #6 – Porque os bootlegs oficiais de Bob Dylan são mais que caça-níqueis

Read More
Bob Dylan

Tenho um certo apreço pela obra de Bob Dylan. Talvez eu goste um pouco mais do que qualquer outra pessoa que você conheça. Talvez eu até tenha um blog chamado Dylanesco, focado apenas no universo deste senhor. E talvez eu cometa algumas loucuras financeiras em decorrência dos lançamentos fonográficos deste ser. Mas gostaria de contextualizar e até te convidar a entrar em parte deste universo: o da arqueologia musical.

Desde 1991 a equipe de Bob Dylan faz uma verdadeira limpa no porão fonográfico do músico e presenteia o público, e o bolso de Dylan, com boas pérolas desse verdadeiro garimpo. O próprio cantor não parece ter qualquer influência nessa coleção de discos, lançada paralelo à produção de Bob e intitulada ironicamente de Bootleg Series.

Por que ironia? Porque o termo bootleg está relacionado à produção e distribuição de whiskey ilegal (na Lei Seca dos EUA). No mundo da música, os bootlegs são os discos piratas de gravações de shows, sobras de estúdios que não foram lançadas e coisas não autorizadas pela gravadora que escapam e acabam entrando neste mercado paralelo.

Bob Dylan e sua trupe, malandros que são, institucionalizaram esta cultura. Contudo, a artimanha é realmente boa, vai muito além de um mero caça-níquel e tem se aprimorado a cada edição. Já existem 12 volumes dessa Bootleg Series e os mais recentes se especializaram em períodos específicos.

E mesmo com o fortíssimo mercado de bootlegs “reais”, essas compilações conseguem tirar leite de pedra e sempre apresentam coisas novas, que nem os bootlegers tinham. E é aí que a coisa começa a ficar interessante…

Existem dezenas de livros sobre Bob Dylan e todos se baseiam em informações oficiais e não-oficiais para tirar suas conclusões. Porém, nessas revisitações dylanescas, muitas coisas são apresentadas ao público pela primeira vez, podendo abrir espaço para uma nova interpretação da história.

São músicas que ninguém sabia que existiam; versões primitivas que mostram um novo horizonte para a canção e sua intenção; sobras de estúdio que ilustram um apreço muito maior do que se imaginava do artista. Cada volume da Bootleg Series cria um enredo próprio, que se mistura ao mesmo tempo que reescreve parte da história. E Bob Dylan talvez seja um dos poucos que possa fazer isso, por conta principalmente de seu formato de criação no estúdio.

Okay, talvez a afirmação acima seja um pouco tendenciosa. Mas deixa eu tentar explicar de um jeito didático que não pareça um físico espumando para te fazer entender sobre as teorias de Einstein. Bob Dylan trata sua obra como algo tão mutável quanto o próprio sentimento, a vida, o mundo. Uma vez, ao ser questionado porque ele não interpretava uma determinada canção do jeito que gravou, ele respondeu algo como: “Aquela gravação é só o registro daquela música, naquele dia. Você não gostaria de viver o mesmo dia mais de uma vez, gostaria?”.

E ele nem está sendo tão sincero. Seus discos não são apenas registros do dia, mas registros daquele exato momento. Uma música rápida e raivosa em um take pode se transformar em algo melancólico e suave no take seguinte. A letra pode mudar, o andamento pode mudar, os acordes podem mudar. Tudo a favor de uma Musa que não só possui sentimento, como também humor.

Para Bob Dylan, a música é um ser vivo com vida própria, que escolhe suas trilhas enquanto reconta seu enredo. E os Bootleg Series são os manuscritos das histórias registradas nos discos. Com eles, temos acesso aos bastidores da criação, vivenciamos a mutação da canção como um time-lapse da criança para o adolescente.

Tá, talvez eu tenha me empolgado.

Para terminar, meu jabá: quem quiser saber mais sobre o recente Bootleg Series do Dylan e minhas observações sobre, só acessar: http://dylanesco.com/resenha-cutting-egde-observando-o-big-bang/