Sobre “Gita” (1974), de Raul Seixas – Uma análise faixa-faixa

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Raul Seixas

“Gita” é o segundo álbum de Raul Seixas em carreira solo e o segundo da parceria com Paulo Coelho. O disco conta com 33 minutos de rock’n roll mesclado com serestas, baladas românticas e várias músicas altamente radiofônicas, principalmente no passado, mas também atualmente. O lado A do disco trata de canções com a criticidade característica do Raulzito (sutil no auge da repressão militar) mesclada com canções de amor que se tornaram clássicos até os dias atuais. O lado B do disco vem com as prováveis respostas de Raul pras suas perguntas mentais e concretas, um lado mais esotérico, mais propositivo, quem sabe.

“Gita” foi também o disco que trouxe Raul Seixas, Paulo Coelho e suas esposas de volta do exílio (exílio este que rende histórias interessantíssimas, como o suposto encontro com John Lennon) nos Estados Unidos. O regime supostamente temia que a Sociedade Alternativa fosse uma “organização revolucionária”. Com o sucesso do disco, os milicos tiveram de trazer os quatro de volta.

Capa do disco

O álbum começa com “Super-Heróis”.

Talvez tudo o que a gente não precise hoje é de “super-heróis”: os heróis da falsa moral, da babaquice e da caretice. Em 1974, Raul Seixas  já chamava atenção para isso, chamando “Dom Paulete” (Paulo Coelho) para um passeio pelo que aparentemente são as ruas de São Paulo, em um “feriado decretado” numa segunda-feira. Ironiza os heróis de um Brasil que se iludiu no milagre econômico, que se encerrava naquele momento. O Rei “Quelé”, Silvio Santos, Fittipaldi – todos são “celebrados” na música que abre o lado A do disco.

Na segunda faixa do lado A, “Medo da Chuva” – um clássico sobre a separação. A perda do “medo da chuva”, a “aprendizagem do segredo da vida” “vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”. Uma entre várias músicas de Raul que se mantém radiofônicas até os dias de hoje. Indispensável.

Na terceira faixa, uma provável queridinha cult dos fãs – “As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor” – que conta também com versão interessante de Zé Ramalho (no álbum dedicado inteiramente a Raul). Frases de efeito e críticas fortes numa declamação ritmada embalada pelo ritmo da guitarra.

A arapuca está armada
E não adianta de fora protestar
Quando se quer entrar
Num buraco de rato
De rato você tem que transar

Segue-se a ela “Água Viva” – uma música sobre uma fonte de águas caudalosas, noites e segredos. Loucura boa de Raulzito. Confesso que não é uma de minhas favoritas. Chega então “Moleque Maravilhoso”, em que Raul e Paulo tratam de molecagem. Seria real ou metafórica? Quem sabe…Fato é que o moleque rende uma música curtinha e interessante. Boa faixa.

Pra encerrar o lado A, “Sessão das 10”, uma espécie de “seresta” que demonstra a versatilidade das composições e das músicas de Raul Santos Seixas. Outro “clássico Cult”. Em 71 essa música já havia aparecido na voz de Edy Star, no folclórico disco da “Sociedade da Grã Ordem Kavernista” (onde se fazem presentes também o próprio Raulzito, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada). Uma faixa que destoa do disco como um todo e que é excelente, divertidíssima. Uma tragédia, no bom sentido, com o trágico incêndio do cinema de Ipanema.

Ao chegar do interior                                                                                                                                        Inocente puro e besta                                                                                                                                                  Fui morar em Ipanema                                                                                                                                                Ver teatro e ver cinema                                                                                                                                              Era a minha distração…                                                                                                                                                Foi numa sessão das 10, que você me apareceu… 

Foto do fundo do disco

Chega então o lado B do disco. O lado mais esotérico, mais propositivo, talvez, de Gita. O lado B começa com a música que qualquer pessoa provavelmente conhece. Os gritos de “Viva a Sociedade Alternativa!” são reconhecidos por praticamente qualquer um. “Faz o que tu queres pois é tudo da lei”, afirma, parafraseando e dialogando com preceitos ocultistas à maneira brasileira. Até “esperar papai Noel” é possível em toda a maluquice bela de Raul, Paulo Coelho e da sociedade esotérica associada a figura mítica de Aleister Crowley – comum ao ideário de muitos dos roqueiros e artistas influentes do século XX. “Sociedade Alternativa” é fo**!

Segue-se “Trem das Sete”, outro clássico que ainda toca nas rádios, mesmo nos dias de hoje. A ideia do bem e do mal associados e se complementando na passagem da vida para a morte, da vida terrena  até o desconhecido como passageiro de um trem. Muito louco e muito inspirador. Não é a toa que termina com um sonoro “Amém!”. Há um diálogo com a religião e a fé muito forte, apesar de Raul nunca ter sido beato. Outra faixa indispensável.

Pois o trem está chegando

Tá chegando na estação

É o trem das sete horas

É o último do sertão

Após “Trem das 7”, “S.O.S”. Outra música bastante conhecida e de diálogo com o desconhecido, mesmo que de maneira “revoltada”, querendo seguir com um moço de um disco voador. O moço, entretanto, é um plágio sem vergonha de “Mr. Spaceman” (The Byrds): prática muito comum à época (Ouvi em algum lugar que Raulzito tratava o plágio como uma espécie de “vingança” contra os que metaforicamente e na prática “tinham tudo”, todos os recursos de países potência, mas não tenho certeza disso). Também se especula plágio em “Gita” e “Loteria da Babilônia”, mais a frente. O plágio, que nesse caso é certo, rende uma boa música, felizmente ou infelizmente.

“Prelúdio” é a 4° faixa do lado B e é aquela velha história de que “sonho que se sonha junto é realidade” – confesso que não tenho muito saco pra essa música, mas também é tradicional do universo raulsseixista. Precisa ser respeitada. A próxima faixa depois do que é na minha opinião “meia bomba”, é a excelente “Loteria da Babilônia” (que como foi dito, também tem plágio especulado) em versão ao vivo. No meu caso, toda vez canto junto desde a introdução até o final. Porrada. Vi por aí que também dialoga com Aleister Crowley, mas não tenho certeza dessa informação…é bem possível quando se vê “reescrita de livro dos séculos passados”, “verdades a serem declaradas”, “teoremas da vida” e todo o panorama do disco.

“Gita” enfim, fecha o excelente disco, sendo provavelmente a mais famosa dentre todas do álbum. É um diálogo com o livro sagrado do hinduísmo “Bhagavad Gita”, bem como com as respectivas divindades Hindu. Talvez uma das grandes virtudes de Raul Seixas tenha sido sua capacidade de levar pro povo humilde do país filosofia dissolvida e mesclada em suas músicas. Impossível não gostar. Gita fecha o álbum de maneira excepcional e que confirma a altíssima qualidade desse disco repleto de sucessos. Com um único plágio ou com múltiplos plágios; com folclore ou com realidade, com esoterismo ou concretudes, o fato é que “Gita” é um dos melhores álbuns da obra de Raul Santos Seixas e é indispensável pra qualquer um que queira se aprofundar no legado do roqueiro baiano ou da “linha evolutiva da música popular brasileira”, mesmo que não tendo sido nunca do interesse do autor.

Links adicionais

Sobre o suposto encontro com John Lennon:

Sobre Gita:

Sobre os plágios:

http://rollingstone.uol.com.br/noticia/coincidencias-de-raul-seixas-quando-inspiracao-beira-o-plagio/

Palavras outras para o “Outras Palavras” (1981), de Caetano Veloso

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Se limitar a “Transa” e demais álbuns da década de 70 pode até ser justo, mas muita coisa se perde. “Outras Palavras” merece o que seu nome prenuncia.

Capa do disco

Um álbum deixado de lado na discografia de um gênio – esse é o “Outras Palavras” de Caetano Veloso, lançado em 1981. O próprio Caetano, altamente autocrítico, não parece simpatizar muito com esse disco. O que se escuta é que foi uma obra com menos dedo do baiano. Entretanto, toda vez que escuto, fico justamente com a sensação de que foi um pouco injustiçado e que merecia mais menções, apesar dos pesares. Me surpreendo mais ainda sabendo que foi um dos mais vendidos na discografia de Caetano. Fico sempre me perguntando se me iludo com esse disco ou se de fato ele é subestimado. Tive que escrever outras palavras sobre esse disco extremamente agradável (na minha visão) da obra do baiano de Santo Amaro.

O disco começa com a música que dá título ao disco e que caracteriza bem o que Veloso é nessa obra. Afirma, “Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca”. Caetano convoca o experimentalismo e outras palavras no sentido mais puro e poético. Palavras mais alegres. Não há no disco a tristeza do exílio, que clama pelo riso de Irene. É um Caetano que talvez ainda queira “Muito” (1978), mas que não trilha diretamente os “Trilhos Urbanos” de Santo Amaro (“Cinema Transcendental” – 1979). É um Caetano lúdico, que brinca de fazer poesia com fortes influências e diálogos com São Paulo no processo. A semântica, a poesia concreta e as figuras de linguagem típicas do “paulistês” se fazem presentes por vezes, não deixando de lado, entretanto, toda a baianidade do seu som.

A segunda faixa é “Gema” (brilhante ê!). Deliciosa de se escutar. Impossível não sentir algo escutando os tons dessa música, que também tem versões fantásticas pela voz de sua irmã Bethânia. Essa canção inicia um padrão que se estende por todo o disco de retratar sensações e visões da natureza. A “luz exata na escuridão”, a “camaleoa”, a “menina do anel de lua e estrela”, a gata exata. Essa última se faz presente na faixa que se segue: “Vera Gata”, outra ótima canção, com ares típicos da fase fronteiriça entre o Caê dos anos 70 e 80. Prosseguimos então para um ponto altíssimo – “Lua e Estrela”. Radiofônica até os dias de hoje, envelheceu melhor do que as outras pra quem não se satisfaz tanto com o som dos anos oitenta. Essa, aliás, foi composta por Vinicius Cantuária. Um romantismo na medida certa (qual seria a medida certa?) e extremamente agradável. Quando toca acalma qualquer um.

A quinta canção é “Sim/Não”, parceria de Caetano Veloso e Carlos Bolão (percussionista da Outra Banda da Terra à época e que integrou bandas e fez parcerias com grande nomes da música brasileira, como Jorge Ben, Luiz Melodia, Jorge Mautner, dentre outros). Uma boa música. Segue-se a ela “Nu Com A Minha Música” – outro ponto alto, em que se afirmam intrigantes, solitárias e ao mesmo tempo acalentadoras e seguras frases:

“Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor, vertigem visionária que não carece de seguidor;

Quando eu cantar pra turma de Araçatuba verei você; Já em Barretos eu só via os operários do ABC; Quando chegar em Americana, não sei o que vai ser; Às vezes é solitário viver”.

Somos raptados na faixa que se segue pela homenagem a Regina Casé, “Rapte-me Camaleoa”. Definitivamente um clássico e em versão superior à voz e violão sem sal recentemente feita em parceria com Maria Gadú no ao vivo do Multishow.

“Leitos perfeitos seus peitos direitos me olham assim.
Fino menino me inclino pro lado do sim.                                            Rapte-me, Adapte-me, Capte-me, It’s up to me coração
Ser, querer ser, merecer ser um camaleão
Rapte-me camaleoa, adapte-me ao seu ne me quitte pás”
                                                                        

A partir deste momento o álbum de fato tem um teor um pouco menos palatável e mais discutível. Depende exclusivamente do gosto. Pessoalmente não gosto da baladinha “Quero um Baby Seu” e da versão insossa de “Dans Mon Ile” – Caetano contagia mi corazón cantando em idioma estrangeiro “Currucucu Paloma”, “Michaelangelo Antonioni”, “Tu me Acostumbraste”, “La For de La Canela” mas essa versão, sinceramente não me cativa. “Tem que Ser Você” também não empolga muito, mas, dependendo do dia, pode até ser uma faixa que o ouvinte não vai pular ou que pode até gostar. “Blues” é agradável (é um bom blues) e tem trocadilhos legais ao longo da letra (com o azul do nome e do azul que surge a cada verso). “Verdura” é uma boa pedida para fãs de Paulo Leminsky, já que a letra foi escrita por este. O autor traz uma boa crítica acerca da situação calamitosa vivida pelo Brasil à época e que, de certa forma, ainda perdura até o presente momento. Reflexões interessantes e uma ótima musicalidade, na passagem da poesia falada pra poesia musicada.

Caetano Veloso, Paulo Leminsky e Moraes Moreira

“De repente vendi meus filhos pra uma família americana,              eles tem carro, eles tem grana                                                            eles tem casa e a grama é bacana”.

O ponto alto final fica por conta da brasileiríssima “Jeito de Corpo”, que fecha os 40min com chave de ouro. Impossível não dar uma mexida física e mental com o ritmo de sua introdução e da construção musical como um todo. Há referências que caracterizam um pouco do que Caetano provavelmente pensava e sentia na época. O Brasil dos anos oitenta está ali, expresso no arranjo musical e nos versos – desde Trapalhões até Gilbertos e expectativas pelo Marco 2000.

Chico Buarque e os Trapalhões

Referências a Trapalhões:
“Eu sou Renato Aragão, santo trapalhão,
Eu sou Mussum, sou Dedé
Sou Zacarias, carinho
Pássaro no ninho qual tu me vê na TV”

Referências a projetos de Brasil
“Sampa na Boca do Rio, o meu projeto Brasil” (Boca do Rio é um bairro popular da orla de Salvador)                               

Referências a fé e ao saber
“Eu tô fazendo saber vou saber fazer tudo de que eu sou a fins, logo eu que/cri cri que não crer era o vero crer, hoje oro sobre patins” (Uma fé que perdeu as suas raízes profundas e que patina? Uma fé que vai e volta?)                                            

E, por fim, referências ao grande amigo (“mas mesmo na deprê chama-se um Gilberto Gil”). (Na deprê e na felicidade, as parcerias com o amigo permanecem faça chuva ou faça sol.)

“Jeito de Corpo” dá um jeito no corpo! Uma bela conclusão ao disco.

“Outras Palavras” com certeza não é o melhor álbum do santo amarense velosiano, mas, com certeza também é um álbum um tanto quanto esquecido. Merecia mais menções e lembranças. Pessoalmente é um dos meus favoritos na obra de Caetano, o que também pode ser uma loucura da minha parte. Desde o nome do álbum, passando pelos ares do início dos anos oitenta, por canções de amor apaixonantes, até a legitimamente brasileira “Jeito de Corpo”, fico definitivamente contagiado pelo disco. É verdade que tem pontos baixos, mas, os pontos altos agradam muito vendo um Caetano com alegrias e experimentalismos que tem suas peculiaridades quando comparadas ao resto de sua obra. Mesmo sabendo que os álbuns que antecederam (“Cinema Transcendental”) e que se seguiram (“Cores, Nomes”) são provavelmente melhores, “Outras Palavras” tem seu lugar. No mínimo vale a pena escutar uma vez ou aumentar o volume e dar uma chance quando alguma de suas faixas ainda tocar no rádio. Sendo otimista, “Outras Palavras” se tornará companheiro frequente de seus momentos mais felizes ou momentos em que se precisa de algo mais feliz e/ou com um quê de experimentalismo poético. Merece uma chance!

Links interessantes:

http://50anosdetextos.com.br/1981/o-disco-em-que-caetano-inventou-outras-palavras/ coluna publicada em 1981 por Sérgio Vaz no Jornal da Tarde

http://caetanoendetalle.blogspot.com.br/2016/03/1981-verdura-paulo-leminski.html sobre Verdura

http://www.otempo.com.br/super-noticia/o-voo-solo-de-carlos-bol%C3%A3o-1.97117 sobre Carlos Bolão

5 músicas de Gilberto Gil que você provavelmente não conhece

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Gilberto Gil

Gilberto Gil tem uma das obras mais extensas e diversas da música popular brasileira. Por mais que se escutem horas e horas de suas criações é quase impossível esgotá-las. No caminho muita coisa pode se perder ou pode ser esquecida. Hoje tenho cinco músicas destacadas pra dialogar um pouco sobre partes um tanto quanto inexploradas de sua obra (em teoria e no que eu sinto). Um pontapé inicial do que espero que sejam pesquisas mútuas e avanços na descoberta de novas surpresas.

1 – “Sala do Som”

A música tem duas versões até onde sei. Uma grata surpresa do álbum de raridades “Satisfação: raras e inéditas” e outra mais em tom de samba do álbum “Quanta”, de 1998. Fica a cargo de gosto pessoal escolher a melhor – fico com a de 77 que traz os ares da obra de Gil dos anos 70 – provavelmente a melhor fase de seu Gilberto.

É um exercício de imaginação interessante pensar Milton “Bituca” Nascimento entrando “sem bater, na sala do som”. A letra é um retrato de uma rotina de gravação e definição do roteiro de um show – uma metalinguagem inusitada. A melodia com ares da “trilogia Re” (“Refavela”, “Realce”, “Refazenda”) dá a tônica dessa surpresa musical.

As duas versões estão disponíveis no Spotify e no Youtube.

Gil e Milton Nascimento – 2001

2- “Máquina de Ritmo”

O álbum “Banda Larga Cordel” (2008) definitivamente traz boas surpresas, sendo o primeiro álbum de inéditas depois de “Quanta” (1997). “Banda Larga” provavelmente não traz consigo as melhores versões musicais, que provavelmente se consolidaram no DVD ao vivo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro – “Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo”. Uma dessas é a que dá nome ao show: “Máquina de Ritmo”. Um desejo de continuidade dos samba, um pedido pra que “não se deixe o samba morrer”, uma defesa das máquinas de ritmo, afirmando: é samba sim! Dizer que não é samba é conservadorismo besta e que traz como consequência uma morte real do samba.

Na análise faixa a faixa do disco (disponível no Youtube) isso fica claro. Gil compara às máquinas de ritmo às guitarras elétricas, alvo de passeatas e perseguição nacionalista na década de 60. A escuta das duas versões, tanto a do Banda Larga quanto a do show de 2012 vale a pena (em especial a versão ao vivo), assim como a que se faz presente no documentário Outros Bárbaros de 2002 (outra super indicação).

Tudo disponível no Spotify e no Youtube.

Análise da faixa por Gil: https://youtu.be/1C5NYywEBX4

3 – “Rep”

Entramos agora num dos álbuns mais subestimados de seu Gilberto – “O Sol de Oslo”. Gravado em 1994 e lançado em 11 de Setembro de 1998, ao lado de Marluí Miranda e Rodolfo Stroeter em Oslo, na Noruega (em maioria). Um disco que traz surpresas interessantes para o ouvinte e boas reflexões e meditações.

O Sol de Oslo – 1998

Em “Rep”, Gil traz uma inquietação que se mantém atual. O povo sabe o que quer. Mas, sempre há algo a mais. O povo também quer o que não sabe! Será que o povo sabe o que quer? Será que o povo quer o que não sabe? Será que não sabe?

Com seu rap com “e” Gil traz vários questionamentos e provocações que, principalmente em 2017, se fazem necessárias. Sempre se faz necessário debater quando se toca nos tópicos povo, ciência, fome e conhecimento. Talvez não exista nada parecido com isso na discografia do artista como um todo. Sol de Oslo traz peculiaridades que só ele carrega consigo. Desde uma gravação em país nórdico até um rap de Gilberto Gil. Nisso esse álbum é sensacional.

É uma pena que o álbum não esteja disponível no Spotify. O Youtube “mata a fome” por hora.

E por falar em “Sol de Oslo”…

4- “Kaô”

Uma saudação à Xangô. Uma viagem celestial e espiritual. Para os que crêem e para os que não crêem, a melodia e a voz penetrante de Gil acalmam o coração e a alma. Como descrito perfeitamente por Tulio Villaça, um ponto de umbanda que não é um ponto. Um mantra que não é um mantra. Uma canção que é um mantra e também um ponto de Umbanda.

O sincretismo que Gil tanto admira se faz presente com Xangô e com a mitologia nórdica, pela figura de Thor, aproveitando todo o clima de Oslo. Melodia e percussão sutis, quiçá simples, porém incríveis. O álbum como um todo merece uma escuta atenta. O calor brasileiro e o frio nórdico fazem uma interessante combinação, que, aparentemente não fez e não faz muito sucesso. Uma pena. Nunca é tarde!

Texto de Túlio Villaça: https://tuliovillaca.wordpress.com/2010/08/13/em-feitio-de-oracao/

Análise do álbum por Rodolfo Stroeter: http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_interno.php?id=36 (opção “textos”)

5 – “Chiquinho Azevedo”

Guardo para o final uma grata surpresa que tive com um dos melhores canais de música do Brasil, o Alta Fidelidade de Luiz Felipe Carneiro. Em homenagem ao aniversário de 75 anos de Gil, fez um “top 5”, onde, surpreendentemente colocou “Chiquinho Azevedo”, do “Quanta”. Na realidade a música não é de 1997. Como o próprio Gil relata, era uma música que estava perdida em seus arquivos. Chiquinho Azevedo, seu companheiro de banda, havia sido preso junto com Gil no famoso episódio da prisão por porte de maconha em 76. Como o próprio Gilberto relata, esta música fora um “desafeto” para mostrar que Chiquinho era um “bom rapaz” – havia salvado um menino no Recife.

“Quanta” (1997) – onde a música foi ressuscitada em estúdio 

A agonia do salvamento do menino toma aquele que escuta a música. Embora a letra seja simples, junto com a melodia, é difícil não ficar na espera por cada nova estrofe e pelo desfecho da história. A revolta com o médico anônimo é igualmente inevitável. É incrível como o tempo passa e as mesmas questões, paradigmas, impasses e conflitos morais vistas em 1977 se mantêm. Incrível e triste. O salvamento de Chiquinho poderia ter acontecido na semana passada em qualquer praia do Brasil. Com sua simplicidade que cativa é uma música fantástica e imperdível.

Disponível no Spotify e no Youtube

Vídeo do Luiz Felipe Carneiro: https://www.youtube.com/watch?v=D27yVTsFNxU