5 músicas de Gilberto Gil que você provavelmente não conhece

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Gilberto Gil

Gilberto Gil tem uma das obras mais extensas e diversas da música popular brasileira. Por mais que se escutem horas e horas de suas criações é quase impossível esgotá-las. No caminho muita coisa pode se perder ou pode ser esquecida. Hoje tenho cinco músicas destacadas pra dialogar um pouco sobre partes um tanto quanto inexploradas de sua obra (em teoria e no que eu sinto). Um pontapé inicial do que espero que sejam pesquisas mútuas e avanços na descoberta de novas surpresas.

1 – “Sala do Som”

A música tem duas versões até onde sei. Uma grata surpresa do álbum de raridades “Satisfação: raras e inéditas” e outra mais em tom de samba do álbum “Quanta”, de 1998. Fica a cargo de gosto pessoal escolher a melhor – fico com a de 77 que traz os ares da obra de Gil dos anos 70 – provavelmente a melhor fase de seu Gilberto.

É um exercício de imaginação interessante pensar Milton “Bituca” Nascimento entrando “sem bater, na sala do som”. A letra é um retrato de uma rotina de gravação e definição do roteiro de um show – uma metalinguagem inusitada. A melodia com ares da “trilogia Re” (“Refavela”, “Realce”, “Refazenda”) dá a tônica dessa surpresa musical.

As duas versões estão disponíveis no Spotify e no Youtube.

Gil e Milton Nascimento – 2001

2- “Máquina de Ritmo”

O álbum “Banda Larga Cordel” (2008) definitivamente traz boas surpresas, sendo o primeiro álbum de inéditas depois de “Quanta” (1997). “Banda Larga” provavelmente não traz consigo as melhores versões musicais, que provavelmente se consolidaram no DVD ao vivo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro – “Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo”. Uma dessas é a que dá nome ao show: “Máquina de Ritmo”. Um desejo de continuidade dos samba, um pedido pra que “não se deixe o samba morrer”, uma defesa das máquinas de ritmo, afirmando: é samba sim! Dizer que não é samba é conservadorismo besta e que traz como consequência uma morte real do samba.

Na análise faixa a faixa do disco (disponível no Youtube) isso fica claro. Gil compara às máquinas de ritmo às guitarras elétricas, alvo de passeatas e perseguição nacionalista na década de 60. A escuta das duas versões, tanto a do Banda Larga quanto a do show de 2012 vale a pena (em especial a versão ao vivo), assim como a que se faz presente no documentário Outros Bárbaros de 2002 (outra super indicação).

Tudo disponível no Spotify e no Youtube.

Análise da faixa por Gil: https://youtu.be/1C5NYywEBX4

3 – “Rep”

Entramos agora num dos álbuns mais subestimados de seu Gilberto – “O Sol de Oslo”. Gravado em 1994 e lançado em 11 de Setembro de 1998, ao lado de Marluí Miranda e Rodolfo Stroeter em Oslo, na Noruega (em maioria). Um disco que traz surpresas interessantes para o ouvinte e boas reflexões e meditações.

O Sol de Oslo – 1998

Em “Rep”, Gil traz uma inquietação que se mantém atual. O povo sabe o que quer. Mas, sempre há algo a mais. O povo também quer o que não sabe! Será que o povo sabe o que quer? Será que o povo quer o que não sabe? Será que não sabe?

Com seu rap com “e” Gil traz vários questionamentos e provocações que, principalmente em 2017, se fazem necessárias. Sempre se faz necessário debater quando se toca nos tópicos povo, ciência, fome e conhecimento. Talvez não exista nada parecido com isso na discografia do artista como um todo. Sol de Oslo traz peculiaridades que só ele carrega consigo. Desde uma gravação em país nórdico até um rap de Gilberto Gil. Nisso esse álbum é sensacional.

É uma pena que o álbum não esteja disponível no Spotify. O Youtube “mata a fome” por hora.

E por falar em “Sol de Oslo”…

4- “Kaô”

Uma saudação à Xangô. Uma viagem celestial e espiritual. Para os que crêem e para os que não crêem, a melodia e a voz penetrante de Gil acalmam o coração e a alma. Como descrito perfeitamente por Tulio Villaça, um ponto de umbanda que não é um ponto. Um mantra que não é um mantra. Uma canção que é um mantra e também um ponto de Umbanda.

O sincretismo que Gil tanto admira se faz presente com Xangô e com a mitologia nórdica, pela figura de Thor, aproveitando todo o clima de Oslo. Melodia e percussão sutis, quiçá simples, porém incríveis. O álbum como um todo merece uma escuta atenta. O calor brasileiro e o frio nórdico fazem uma interessante combinação, que, aparentemente não fez e não faz muito sucesso. Uma pena. Nunca é tarde!

Texto de Túlio Villaça: https://tuliovillaca.wordpress.com/2010/08/13/em-feitio-de-oracao/

Análise do álbum por Rodolfo Stroeter: http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_interno.php?id=36 (opção “textos”)

5 – “Chiquinho Azevedo”

Guardo para o final uma grata surpresa que tive com um dos melhores canais de música do Brasil, o Alta Fidelidade de Luiz Felipe Carneiro. Em homenagem ao aniversário de 75 anos de Gil, fez um “top 5”, onde, surpreendentemente colocou “Chiquinho Azevedo”, do “Quanta”. Na realidade a música não é de 1997. Como o próprio Gil relata, era uma música que estava perdida em seus arquivos. Chiquinho Azevedo, seu companheiro de banda, havia sido preso junto com Gil no famoso episódio da prisão por porte de maconha em 76. Como o próprio Gilberto relata, esta música fora um “desafeto” para mostrar que Chiquinho era um “bom rapaz” – havia salvado um menino no Recife.

“Quanta” (1997) – onde a música foi ressuscitada em estúdio 

A agonia do salvamento do menino toma aquele que escuta a música. Embora a letra seja simples, junto com a melodia, é difícil não ficar na espera por cada nova estrofe e pelo desfecho da história. A revolta com o médico anônimo é igualmente inevitável. É incrível como o tempo passa e as mesmas questões, paradigmas, impasses e conflitos morais vistas em 1977 se mantêm. Incrível e triste. O salvamento de Chiquinho poderia ter acontecido na semana passada em qualquer praia do Brasil. Com sua simplicidade que cativa é uma música fantástica e imperdível.

Disponível no Spotify e no Youtube

Vídeo do Luiz Felipe Carneiro: https://www.youtube.com/watch?v=D27yVTsFNxU