Entrevista com Klaus Koti, O Lendário Chucrobillyman: sobre capas de discos, usar sucata para criar instrumentos e saber fazer quase tudo

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A entrevista que segue foi realizada por Paula Holanda para “Chachacha!, um zine sobre contracultura latino-americana e também seu trabalho de conclusão de curso em jornalismo pela Faculdade de Comunicação da UFBA. A publicação, orientada por Carla Risso, será oficialmente lançada no dia 01/08 em seu perfil do issuu (https://issuu.com/pppholanda).

Adepto às filosofias que compreendem o faça-você-mesmo, Klaus Koti, artista visual e multi-instrumentista, nunca espera por apoio ou aprovação de terceiros para concretizar seus projetos. Ele se opõe ao conformismo e submissão sistêmicos ao demonstrar-se capaz de gravar, produzir, ilustrar, divulgar e distribuir seus próprios discos quase sem recurso ou assistência nenhuma. Koti, por exemplo, não se deixou desmotivar ao perceber que, conforme o próprio, “ninguém queria lançar seus trabalhos” e enxergou nessa situação uma alternativa individual e autogestionária: a criação da Fonfon Records, o seu próprio selo independente.

Com influências que rondam o punk, o pós-punk e o delta blues, o artista consegue notar possibilidades artísticas onde alguém com olhar genérico e desimaginativo dificilmente perceberia. Klaus Koti empenha-se em fazer o máximo gastando o mínimo, seja gravando uma banda de cinco integrantes com um microfone de lapela ou utilizando objetos aleatórios que encontra no lixo como instrumentos musicais. Suas composições são pequenos monólogos; causos que transitam entre o urbano e o rural, entre o mundano e o sobrenatural.

Em 2015, Klaus fez a abertura do primeiro e único show em terras brasileiras do The Sonics, banda cultuada do proto-punk e pioneira do garage rock estadunidense, com sua monobanda O Lendário Chucrobillyman, que segue sendo o seu projeto mais ativo e conhecido desde que passou a ter videoclipes exibidos na programação da MTV Brasil, após o lançamento do disco “The Chicken Album” (2008). Em 2011, a emissora o indicou para o extinto VMB, na categoria “Aposta MTV” — no mesmo ano, Koti foi preso por um dia na Tinsley House, um centro para imigrantes ilegais aos moldes de uma prisão em Londres, na Inglaterra.

Em sua discografia, constam mais de 15 trabalhos; só com O Lendário Chucrobillyman são seis, e um sétimo já está em curso. O currículo de Koti apresenta uma série de bandas e monobandas, entre elas, destacam-se também Os Penitentes e Wi-Fi Kills, seu mais novo projeto. Nas artes visuais, Klaus tem influência da xilogravura e ilustra capas e cartazes de eventos culturais. Confira uma entrevista com o engenhoso multitalentos.

As ilustrações que você faz costumam ser monocromáticas ou ter poucas cores, acredito que muito por conta da influência da xilogravura. As cores que você utiliza desenvolvem um estilo bem característico e interessante em seu trabalho. Como você as escolhe? É intuitivo?

É bem intuitivo. Eu componho imagens fazendo uma distribuição de pesos. Se você utiliza branco, pode balancear com o preto ou usá-lo para dar ideia de profundidade. Eu uso muito as cores para dar ideia de profundidade, de sombreamento, iluminação; sempre escolho elas ao final das ilustrações, mais com esse intuito de atribuir a elas essa sensação de dimensão — de trazer alguns detalhes para frente e levar outros detalhes para trás. O preto remete a mim a noção de preenchimento, enquanto o branco me remete ao vazio, à pausa.

Você cursou belas artes, estou certa? Estudar em uma faculdade contribuiu para o seu processo criativo? De que maneira?

Sim, acho que sim. Tanto em relação às artes visuais quanto em relação à música, pois as duas coisas estão interligadas. A criação gráfica é uma etapa muito importante da produção de um disco, e sou eu quem ilustro as capas dos meus. Minhas ilustrações também têm muitas influências musicais, a exemplo do Devo. Primeiro eu fiz um curso de design na CEFET-PR; era um curso técnico, que misturava design gráfico com design de produto. Eu queria realizar trabalhos mais livres, mais artísticos, então entrei na faculdade de belas artes na EMBAP, que era totalmente oposta ao curso técnico. Mas ambos são universos legais, inclusive complementares. É importante ter o rigor e a sistematização do curso técnico, ao mesmo tempo que é importante ter a liberdade da faculdade de belas artes.

Quais são os artistas visuais, especificamente do mundo da música — artistas que idealizam artes de capa, cartazes —, que você mais gosta?

Eu gosto muito das ilustrações do Jad Fair, guitarrista do Half Japanese. Um outro artista-músico que me influencia bastante é o Billy Childish. Ele era cantor, guitarrista, compositor, e então virou pintor e passou a usar suas pinturas como capas de discos. Eu admiro muito os artistas visuais que são também músicos e participam de diversas etapas da produção de um disco — que compõem, executam, fazem a arte de capa. E eu sinto que isso está cada vez mais comum; eu faço isso há 20 anos, mas parece que essa geração nasceu meio faz-tudo.

Sim. E isso acontece não só em relação às artes visuais. Os músicos independentes têm se inserido em seus próprios trabalhos cada vez mais, em diversas etapas. Nota-se um crescimento significativo no número de músicos que gravam e produzem seus discos em casa, por exemplo; certamente em decorrência da facilidade promovida por avanços tecnológicos.

Sim, acho que isso tem relação principalmente com os smartphones. Antes disso nós gravávamos usando desktops, o que já era um excelente avanço, pois músicos independentes passaram a gravar e a produzir seus próprios trabalhos usando seus computadores pessoais. Eu comecei a gravar em casa porque gravei em estúdio e não gostei do resultado. A pessoa que está te produzindo tem que te conhecer, conhecer o que você gosta, conhecer a sua linguagem; e às vezes, quem está te produzindo é alguém que quer produzir o seu trabalho do jeito dele, e às vezes “o jeito dele” não tem nada a ver com o seu jeito. Por isso que o “faça-você-mesmo” é importante — ele te possibilita fazer algo que está de acordo com o que você gosta, com o que você acredita.

Você costuma julgar os discos pela capa? Você acha que discos com boas capas tendem a ser bons discos?

Aí é difícil! Não dá para julgar o disco pela capa, né? Mas tem alguns discos que parecem ser muito certeiros — você vê a capa e pensa “eu tenho certeza de que esse disco é bom”. Mas às vezes não é, às vezes a capa é muito boa e o disco é muito ruim. E às vezes a capa é muito ruim e o disco é do caralho!

Acho que é mais comum o disco bom com a capa ruim.

[Risos] É, acho que sim. Mas pensar nas capas dos discos é extremamente importante. Apesar de toda essa evolução tecnológica, materializar os discos ainda é bem caro e difícil. Prensar um vinil é um puta gasto! Então é importante pensar nessa possibilidade do material físico e fazer um trabalho bem-feito também visualmente, para que esse possível material físico possa ser valorizado — seu álbum pode vir a ser prensado em vinil, nunca se sabe. É engraçado ver discos antigos e perceber o quanto as capas deles são randômicas. Algumas capas de discos brasileiros que se tornaram clássicos parecem ter sido muito improvisadas, não houve um cuidado com a parte gráfica. Talvez se esses músicos soubessem que seus discos se tornariam clássicos, eles dariam mais atenção às suas capas.

Acho que as capas antigas brasileiras, especificamente as capas da jovem-guarda, eram meio narcisistas. Eram quase sempre fotos dos artistas, das bandas.

[Risos] Ah, isso também é legal! Existem umas capas muito boas nesse modelo também.

Lembrei que você tem umas capas assim.

Pois é [risos].

Nesse caso, retiro o que disse. Não é tão narcisista assim.

[Risos] No sertanejo também tem muitas capas nesse modelo, algumas muito estranhas. São capas tão ruins que são boas. Tem umas capas ótimas de Milionário & José Rico. Outro dia eu estava com alguns amigos vendo capas de Duduca & Dalvan. Eles têm um disco chamado “Massa Falida” que tem uma capa que nossa, cara… aquilo lá é muito extremo! Simplesmente não dá para entender.

Fale sobre a criação da Fonfon Records. De onde surgiu a necessidade de criar o seu próprio selo independente?

Ah, a Fonfon Records é o selo mais tosqueira do Sul. Ninguém queria lançar meus trabalhos, então juntei uma graninha e comecei a lançar meus próprios discos. Não criei o selo pensando que ele se tornaria algo grande, mas para divulgar o que faço. Se um dia eu montar um estúdio e gravar outras pessoas, talvez eu pense em idealizar um selo “de verdade”. Mas atualmente, ele funciona como uma espécie de acervo da minha própria produção.

E por mais despretensioso que seja, ele é mais bem-feito e cuidadoso do que muitos “selos de verdade” que eu conheço. O seu site é bem organizado!

Ah, que massa! Como comentei, eu gosto de usar esse site como uma espécie de acervo. É uma ferramenta legal para catalogar meus trabalhos e fazer uma clipagem do material sobre eles que sai nos veículos de comunicação.

Alguns de seus discos são de sua completa autoria — você compôs e executou todas as linhas instrumentais, fez a gravação, mixagem e masterização, idealizou a arte de capa e identidade visual e, por fim, divulgou e distribuiu o produto final. Você acredita que um processo como este, por ser extremamente independente, torna a obra mais sincera, mais pessoal?

Acho que “sinceridade” não é bem a palavra. Talvez sinceridade consigo mesmo, sim. Com o que você quer dizer, com o que você acredita. Porque você independe de opiniões externas — em processos como esse, ninguém vai te falar “olha, isso aqui não vai funcionar”, “isso aqui não pode ser assim”. Isso é legal. Por outro lado, você pode acabar ficando um pouco fechado. É sempre bom criar com outras pessoas também. Ambas as coisas podem ser legais. Eu também tenho bandas e componho com outras pessoas. A diferença é que quando crio com os outros, existe uma troca que não acontece quando crio sozinho. Eu comecei a tocar só para registrar as músicas que faço, pois não tenho o costume de escrever as minhas composições. Mas alguns desses registros me agradavam muito, então eu pensei, “por que não lançá-los em discos?”. Foi uma necessidade de documentação. A minha memória é muito ruim e eu não queria esquecer das coisas que estava fazendo. E nessa época eu já desenhava, então eu também fazia as artes de capa para esses discos; acabou sendo algo muito gostoso de fazer. Eu tenho uns 16 discos agora. 16? Nem me lembro de quantos discos eu tenho. Mas é por aí.

Você acha que atingiu o ápice da independência? Existe algo no processo de produção de um disco que você ainda não faz e gostaria de ter autonomia para fazer?

Nossa, existem muitas coisas. Como eu gravo e aprendi a gravar sozinho, eu desenvolvi um método de gravação que não sei se é certo; é muito intuitivo. Acho que se um dono de estúdio me visse fazendo algumas das coisas absurdas que eu faço, pensaria “nossa, velho, quê que esse maluco tá fazendo” [risos]. Eu não tenho muita noção de técnicas de gravação, a maior parte do que sei aprendi pesquisando sozinho. Algumas coisas eu aprendi com o [Marcus] Coelho, que é um amigo que tem um estúdio e toca comigo no Penitentes. Mas essas lacunas acabam sendo legais, pois eu sempre tenho algo para aprender. Cada disco é uma nova experiência. É um sentimento bom e ao mesmo tempo frustrante, porque você nunca consegue fazer exatamente o que você quer.

Para você, os avanços tecnológicos mais limitam ou ampliam o processo criativo do artista?

Que pergunta difícil! Eu acho que quanto mais a tecnologia avança, mais promove possibilidades. É um acúmulo de alternativas: você pode usar as novas tecnologias e isso não te impossibilita de experimentar também com as antigas. Eu gravo boa parte do que faço analogicamente e só uso instrumentos também analógicos; nunca experimentei usar MIDI, por exemplo. E tem algumas músicas antigas que são melhores do que muitas músicas atuais produzidas em estúdios fodidos, elas são quentes. Eu escuto umas músicas do T. Rex, por exemplo, e não faço ideia de como se faz digitalmente o que eles fizeram analogicamente. As gravações de rocksteady, da década de 1960, nossa… aquilo é muito espacial e poderoso! Mas eu gosto tanto das coisas analógicas quanto das coisas digitais, também gosto do híbrido entre os dois. A maior parte dos meus trabalhos foi produzida com equipamentos bem ruins, muitas vezes gravei direto na placa mãe. As facilidades que os avanços tecnológicos promovem acabam fazendo com que todo mundo tenha a impressão de que consegue fazer tudo. É um bombardeio de informação — quando todos estão fazendo tudo, nada parece tão importante. E a tecnologia também transforma a maneira de como as pessoas fazem música. Eu estava conversando com o Luis [Tissot] e ele me disse, “cara, as pessoas não querem mais tocar bateria porque moram em um apartamentozinho no centro da cidade e não têm espaço para ter uma bateria — por isso que elas preferem usar o computador”. Então eu acho que a maneira de como fazemos música depende muito das relações entre espaço e tecnologia. É difícil refletir sobre o que estamos vivendo hoje, talvez a gente possa falar melhor sobre isso daqui a uns 10 anos.

Você já abraçou o minimalismo ao ponto de gravar uma banda com cinco integrantes em um único canal, com um microfone encontrado no lixo — me refiro ao disco “Cavalera”, dos Penitentes. Para você, qual a importância de tentar fazer muito com pouco?

Isso é muito importante para mim, pois representa uma não-submissão ao sistema. Eu ouço algumas pessoas dizerem que você precisa do “instrumento x” ou do “instrumento y” para fazer um som legal, mas isso não existe. O som é tudo, vem de tudo; velho, eu uso coisas que encontro no lixo e utensílios de cozinha como instrumentos musicais! E sempre uso esse microfone que usei no “Cavalera”. É um microfoninho de lapela, é ridículo. É mais uma das minhas afrontas aos donos de estúdio [risos]. Mas agora eu tenho mais microfones além dele. Quando gravei o “Cavalera”, essa era a única possibilidade. Eu não tinha outra opção. Às vezes esse tipo de improvisação pode até tornar o som que você faz mais exótico, mais interessante; as pessoas ouvem e pensam “opa, que som é esse?”. Isso acaba criando uma estética própria, muita gente teve um processo criativo semelhante ao longo da história da música — no punk, no pós-punk, no começo do indie, lá na década de 1990. Somos apenas herdeiros desses artistas e de suas filosofias.

De onde surgiu o interesse pela sucata? Como você percebe que algo encontrado no lixo pode se tornar um instrumento musical interessante?

Esse interesse parte muito das minhas referências. Os discos do Tom Waits, por exemplo, têm um monte de percussão maluca. Isso tem muita relação com as monobandas que me influenciam também, como o Bob Log III. Eu observo os sets desses caras e eles são sempre uma doideira, você nem entende direito o que está rolando ali. O Doo Rag tocava com uma roda de trem. Eu tenho um amigo que tem uma monobanda chamada Slate Dump, uma vez nós tocamos juntos nos Estados Unidos. Ele vem de uma região de carvoaria, em que uma das principais atividades econômicas é a mineração de carvão — é uma atividade que causa muitos danos à natureza. Ele grava os sons da mineração para usar como paisagem sonora. É legal pegar sons que simbolizam algo e a partir deles construir um conceito para suas músicas.

Mesmo produzindo com tanta simplicidade, você tem uma identidade extremamente original e diferenciada. Dá para ouvir uma música e perceber que é sua. Conte-me seu segredo.

Ah, não tem segredo não! A minha identidade é muito baseada nas coisas que eu gosto de escutar. Eu tenho influência de vários artistas, principalmente do blues, punk e pós-punk, então quando vou compor, já tenho esse background — é como uma nuvem pessoal de referências, em que eu posso escolher quais usar conforme minhas necessidades. Por exemplo, eu tenho um disco chamado “The Relaxing Sounds From Tinsley Prison”, que assino sob o nome de Koti & Thee Immigrants. Foi um disco que idealizei depois que fiquei preso um dia na imigração. Quando eu voltei para o Brasil, pensei em fazer um disco com banjo; mas tocando como um charango, sem seguir o estilo norte-americano — seria um trabalho em que eu misturaria garage rock com reggae e alguns elementos latino-americanos, uma espécie de reggae invertido. Eu escrevi sobre prisão, sobre imigração e até sobre paganismo. Eu gosto muito desse disco; é um disco meio soturno, meio carregado. O conceito veio naturalmente, as letras e referências também. E cada álbum é uma nova atmosfera, eu gosto de estar sempre fazendo novas experimentações; meu trabalho em O Lendário Chucrobillyman mistura delta blues, garage rock e alguns elementos brasileiros. Quanto mais referências a sua nuvem tiver, mais original o seu trabalho vai ser. É importante estar sempre ampliando a sua nuvem, e é importante sair dela também. Isso pode ser meio difícil, mas sair da zona de conforto pode render ótimos resultados.

Você foi preso em Londres, é isso?

Fui. Eu estava indo tocar e eles me grampearam, pois eu não tinha o visto. Eu estava com uma guitarra nas costas e eles acharam que eu queria ficar por lá, morar lá, tocar na rua e não voltar nunca mais.  Dei muita sorte de ter ficado só um dia, mas foi um dia bem comprido.

Ser preso influenciou de alguma maneira na sua percepção sobre as coisas? Como?

Sim. Nesse dia, eu vi o quanto o mundo é excludente — eles nos excluem sem dó, eles querem nos mandar embora. É um controle feio, fascista. Eles prendem pessoas que às vezes só querem entrar para passear, trabalhar. Foi nesse dia em que percebi que não dá para andar por aí de boa e fazer o que você bem entender. Foi uma experiência boa… boa não, né, meu, uma merda! Na hora é muito ruim, não recomendo a ninguém, mas agora é bom, de certa forma. É uma experiência que sim, muda sim a sua percepção sobre as coisas. Lembro que, na prisão, me falaram “relaxa, depois você vai ter algo legal para contar para seus amigos”, aí pensei “ah, tá, que legal, hein…”. Eu preferia ter coisas mais legais para contar para meus amigos.

Li que você conheceu outros brasileiros na prisão e quis deixar seus discos para eles. É verdade?

Sim, é verdade! Eu queria muito ter feito isso. É engraçado que os brasileiros eram os únicos que riam e faziam piadas na prisão. Eu vi chineses, iranianos, paquistaneses e ninguém mais ria, ninguém mais fazia piadas, só os brasileiros. Realmente, o brasileiro é o único povo do mundo que continua rindo e fazendo piadas mesmo quando está afundado na merda. Um dos brasileiros com quem conversei me disse que estava lá há dois meses; iam deportá-lo e ele surtou no avião. Ele me pediu um disco meu, mas na prisão tiram tudo de você e você só entra na cela com um sabonete. Então ele disse que conhecia todo mundo daquele lugar, disse que ia falar com os policiais e pegar o disco. Ele se achava o dono da prisão [risos]!

Você lançou um disco chamado “O Chamado Dos Espíritos” sob a assinatura de “Koti & Os Grimpas”, com canções que refletem sobre o além-vida. O que você acha que acontece quando nós morremos? Você acredita em vida após a morte?

Eu acredito, acredito sim, mas acho que vamos para um lugar semelhante ao mundo dos mortais quando morremos. Na própria vida nós passamos por acontecimentos que parecem mortes e ressurreições, como pequenos ciclos dentro desse ciclo maior que é a vida. Nesse disco quis fazer algo sombrio, meio fantasmagórico, misturando country e garage rock. Eu gosto de muita coisa do dark country, a exemplo do Those Poor Bastards. É uma dupla da Virgínia Ocidental, se não me engano. Eles fazem uns discos muito bons, um gospel meio assombrado. É muito foda. Eles falam do inferno, do pecado, mas não de uma maneira cristã, religiosa — de uma maneira muito rock ‘n’ roll. Quis fazer algo semelhante aqui no Brasil, com letras em português.

Qual a sua ligação com espiritualidade? Você tem uma religião?

Eu não tenho religião, mas gosto do budismo e de filosofias orientais. A minha mãe é espírita, então tive muito contato com o espiritismo. Eu acho muito massa e também acredito em algumas coisas, mas não sou adepto. Eu gosto de conhecer as religiões e de me aproveitar do que é legal nelas.

Como um sincretismo.

Exatamente. Eu gosto de misturar religiões; assim, eu crio a minha própria religião.

Eu também percebo certa influência de histórias de terror em suas músicas.

Tem sim. Minhas letras são como roteiros de curtas-metragens. Eu só consigo escrever assim — eu gosto de músicas ilustrativas, que você escuta e consegue imaginar imagens.

Para finalizar. Você poderia falar um pouco sobre como está o cenário de música independente de Curitiba?

Aqui em Curitiba eu sempre vejo bandas novas que são formadas por pessoas que eu conheço há muito tempo, que tiveram muitas outras bandas. Eu não vejo muita renovação, não vejo tanta vontade por parte da galera mais nova, mas às vezes vejo adolescentes fazendo um som do caralho também. Aqui em Curitiba sempre teve um cenário bem forte de surf music, rockabilly e psychobilly, ele ainda existe, mas está um pouco mais fraco. Esse novo cenário está um pouco menor em comparação ao cenário anterior.

Confira as ilustrações e lançamentos de Klaus no site oficial da Fonfon Records…

http://www.koti.com.br/fonfon/

…ou nas redes sociais:

https://www.facebook.com/fonfonrecords/

https://www.instagram.com/fon_fon_records/

Thee Dirty Rats: sobre garage primitivo, guitarras caseiras e gravação analógica

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Fundado em 2014 por Luis Tissot (voz, cigar box) e Fernando Hitman (voz, bateria), o duo paulistano Thee Dirty Rats faz garage rock com influências de punk e new wave. O som da dupla é cru, rudimentar, e considerando sua formação — de um lado, três cordas ligadas em um pedal de fuzz; do outro, o jogo de bateria mais primitivo possível (bumbo, caixa, surdo e chimbal) — não poderia ser diferente.

Na discografia da Thee Dirty Rats, constam os EPs “The Fine Art of Poisoning 1 & 2” (2015) e “Traps and Mass Confusion” (2016), lançado em vinil pelo selo goiano Mandinga Records simultaneamente a uma turnê da banda pela Europa, e o LP “Perfect Tragedy” (2015), lançado em k7 pelos selos Woody Records (Estados Unidos) e Scrap Metal Dealer (Argentina). Duas das sete faixas de “The Fine Art of Poisoning 1 & 2” foram incluídas em um split com a banda argentina Sarcofagos Blues Duo, também lançado pelo Scrap Metal Dealer.

A Thee Dirty Rats ainda tem um outro split com a WI-FI Kills, projeto curitibano do músico e artista visual Klaus Koti (mais conhecido por sua one-man band O Lendário Chucrobillyman) intitulado de “WI-FI Kills on the planet of Thee Dirty Rats”. “Chop Your Fingers” e “Yeah Yeah It’s True”, as duas faixas que compõem a metade dos Dirty Rats, foram produzidas por Jim Diamond, ex-baixista da The Dirt Bombs e conhecido por seu trabalho com Sonics e White Stripes.

Abaixo, uma entrevista feita no Bar da Avareza, em São Paulo, pouco antes de a dupla se apresentar:

Ao longo da história, cigar boxes foram elaboradas por escravos africanos ou trabalhadores rurais norte-americanos em períodos de escassez de recursos e materiais. A construção da cigar box da Thee Dirty Rats vem de um contexto semelhante?

Fernando — Nós também temos e tocamos “instrumentos normais”, então a construção da nossa cigar box não foi por falta de opção. Foi proposital, nós realmente queríamos uma cigar box — mas queríamos criá-la com o que nós tínhamos, então não gastamos quase dinheiro nenhum na fabricação.

Luis — Nossa formação inicial tinha guitarra e bateria, depois começamos a tocar com baixo e bateria. Em se tratando da sonoridade, não ficamos satisfeitos com nenhuma das duas formações, então pensamos em fazer uma cigar box — é um instrumento que tem muita relação com a sonoridade que nós queríamos. Nós tínhamos recurso, então foi mais uma opção estilística.

Fernando — E a gente também queria aprender a construir uma cigar box. Mas queríamos fazer apenas com o que tínhamos, sem comprar nada, gastando o mínimo, sabe? Aí pegamos uma caixa de madeira que encontramos em um lugar aleatório e umas tábuas de janela velhas para o braço — no final das contas, gastamos uns R$8,00 construindo ela.

Luis — É, o captador era de um baixo quebrado e as tarraxas eram de uma guitarra que estava encostada no meu estúdio, o Caffeine Sound, em que gravamos quase todo o nosso material. A gente não gastou praticamente nada!

Vocês já tinham alguma noção de luteria antes de fabricarem o instrumento?

Luis — Não, nenhuma.

Fernando — A gente nunca tinha fabricado instrumento nenhum antes disso.

Luis — Sim, foi a primeira vez que tentamos fazer alguma coisa. Fizemos muito na base da tentativa e erro.

Fernando — Exato.

Vocês tiveram experiências com gravação analógica. Que diferenças vocês percebem entre gravação analógica e digital? Por que a escolha pela fita?

Luis — Nós já experimentamos o digital, mas o analógico tem muito mais a ver com a gente. Acho que tem muita relação com o nosso conceito, com a nossa sonoridade. Essa estética meio lo-fi, sabe? É o som que eu e o Fernando sempre escutamos, na real. Gostamos muito de garage rock, de artistas da década de 1990 que gravavam em gravador de k7 de quatro canais. E também tem a questão da limitação — no digital você pode ir para qualquer lado, porque é tudo muito mais fácil, e consequentemente você pode se perder muito fácil também. Sair do conceito inicial.

Fernando — Sim, você acaba pensando mais e corre o risco de fugir do que você realmente quer.

Luis — Em processos de gravação mais limitados, você tem que se virar para trabalhar no que você está gravando a partir dessa limitação. Isso acaba sendo extremamente criativo, muito mais criativo do que apelar para a perfeição dos processos digitais. No digital, a criação é tão rápida e eficiente que acaba se tornando meio banal.

Fernando — E nos processos analógicos, a gente mexe em pouca coisa depois da gravação. Então todas as decisões são tomadas bem antes.

Luis — Exatamente. As decisões são tomadas antes ou enquanto você está gravando. Isso é muito importante. Depois que o material está lá, gravado, você não vai sair editando, cortando e colando fita.

Luis Tissot

Essas limitações mudaram de alguma maneira a forma como vocês pensaram nas músicas da banda?

Luis — Não, nosso som funciona perfeitamente dentro dessas limitações.

Fernando — Na verdade, a gente já tinha essa ideia de sonoridade minimalista em mente e justamente por isso escolhemos gravar dessa forma, porque era um jeito bom para gravarmos esse tipo de música.

Luis — Exatamente. É óbvio que se você tiver uma orquestra completa, você não vai escolher gravar em quatro canais.

Fernando — Sim. Temos poucos instrumentos, por isso que escolhemos a fita, e não o contrário — nossas músicas são assim, não precisamos adaptá-las ao método de gravação.

Vocês também fizeram lançamentos em formatos analógicos. Lançar em k7 ou vinil tem trazido retorno? Em um contexto em que os consumidores de música estão cada vez mais adeptos às plataformas digitais, qual a importância do material físico para vocês?

Luis — Essa importância para nós é algo muito pessoal, tem mais relação com o nosso histórico de vida. É algo que sempre nos acompanhou no meio do punk e do garage rock. Eu já tive distribuidora de zine e k7, sou colecionador de vinil e o Fernando também, nós fazemos questão de comprar discos das bandas que gostamos. Então esse apego acaba sendo bem natural.

Fernando — É. Para nós, o material físico é muito importante e diferente. Eu gosto de colecionar discos e é muito legal ter um vinil da sua própria banda. Eu não pago por música na internet, então eu só sei consumir música assim. E ainda tem a questão da durabilidade — se você cuidar bem de um vinil, ele vai durar para sempre.

Fernando Hitman

A Thee Dirty Rats tem alguns lançamentos feitos por selos gringos. Me falem sobre a relação da banda com eles.

Luis — O legal é que depois da era do Myspace, uma época em que as pessoas realmente se comunicavam sobre música na internet, a única vez que um selo veio nos contatar do nada foi quando a Woody Records, que é um selo norte-americano de garage rock que lançou o “Perfect Tragedy”, nos mandou uma mensagem pelo Facebook dizendo que queria lançar 100 cópias em k7 do disco. E eles ainda fizeram 10 shapes de skate personalizados para a Dirty Rats, pintados à mão! Quem gerencia a gravadora é um casal, o cara cuida das fitas e a mulher pinta os shapes.

Fernando — É, foi muito louco, eu nunca vi isso na vida. Ganhamos cinco shapes de skate, acho que eles fazem de brinde.

Luis — Na real, o dono do selo tem uma loja de skate e vende as fitas por lá.

Fernando — Os shapes foram uma loucura, o maior sucesso. Vendemos muito rápido, em um segundo, lembra? E a gente nem fez nada, eles vieram do nada falar com a gente.

Que coisa. Vocês também já fizeram uma turnê pela Europa. Como o público europeu reage à Thee Dirty Rats?

Fernando — A recepção foi da hora, bem boa, bem boa. Todos os shows foram bons. O público europeu é bem doido, eles começam parados e de uma hora pra outra começam a fazer danças esquisitas. E os europeus são legais e te pagam muitas bebidas.

Luis — Teve um show que fizemos em uma squat anarcopunk bem interessante, uma das melhores recepções. Foi curioso, porque eles reagiram melhor do que o público dos bares e pubs mais relacionados à nossa sonoridade.

Fernando — Os punks piram na Dirty Rats, sempre curtem. Teve uma vez que a gente tocou numa squat rural, era uma fazenda no meio do nada da França, uma espécie de celeiro de pedra e serragem. Foi um puta show, deu uma galera, o lugar era gelado e virou um forno.

Eu vi que as faixas da Dirty Rats no split com a WI-FI Kills foram produzidas pelo Jim Diamond. Me expliquem como isso aconteceu.

Luis — Então, isso foi outra coisa bizarra. Ele que escreveu pra gente.

Fernando — Pois é, ele que propôs essa parceria.

Caramba! Que moral.

Luis — A gente é uma banda meio preguiçosa, a gente nunca escreve para ninguém. Não, isso nunca acontece. Quase sempre são os outros que vem até nós. Mas enfim, ele é de Detroit, mas estava na França quando nos convidou para fazer um single com ele.

Fernando — Foi muito legal.

Luis — A gente viajou de volta uns 1000 km só para gravar esse single. Mas valeu a pena.

Fernando — Nossa, quê isso. Valeu muito a pena.

Qual o truque de divulgação por trás de tanta gente foda oferecendo propostas para vocês?

Luis — Acho que o segredo é a não-divulgação. Se você não divulgar nada, as pessoas se interessam mais. Acho que o que mais importa é o boca-a-boca. Conversar pessoalmente, se fazer presente no bar. É isso que fica, no final das contas.

Tracklist — “Scott Pilgrim vs. The World” Soundtrack (2010)

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Scott Pilgrim vs the World

O universo de Scott Pilgrim começou com uma série de história em quadrinhos criada pelo cartunista canadense Bryan Lee O’Malley (autor também de “Seconds”, “Lost At Sea” e “Snotgirl”, seu mais recente trabalho) e publicada em seis volumes (de 2004 a 2010). Em 2010, a narrativa recebeu “Scott Pilgrim vs. The World”, uma adaptação ao cinema dirigida por Edgar Wright e estrelada por Michael Cera e Mary Elizabeth Winstead, e o jogo “Scott Pilgrim vs. The World: The Game”, desenvolvido pela Ubisoft Montreal e disponível para Playstation 3 e Xbox 360

O protagonista Scott Pilgrim (Michael Cera) é baixista da Sex Bob-Omb, uma banda fictícia de garage punk formada também pelo vocalista e guitarrista Stephen Stills (Mark Webber) e pela baterista Kim Pine (Alison Pill). Scott se apaixona por Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead), uma americana que acaba de se mudar para o Canadá e trabalha como entregadora da Amazon. Para relacionar-se com Ramona, Scott tem que derrotar seus sete ex-namorados do mal.

Em “Scott Pilgrim”, a música é um fator importantíssimo para a construção da narrativa — para alguns, o elemento central da história pode ser o relacionamento entre Scott e Ramona, mas a Sex Bob-Omb me soa como um componente tão essencial quanto. Nos quadrinhos, as músicas da Sex Bob-Omb têm seus acordes transcritos aos que quiserem aprendê-las. No filme, nenhuma das canções criadas para os quadrinhos foi aproveitada — todas as faixas da Sex Bob-Omb feitas para a adaptação foram compostas por Beck e cantadas pelos atores que integram a banda fictícia.

Scott Pilgrim é recheado de referências à cultura pop e à música alternativa, tanto nos quadrinhos quanto na adaptação ao cinema. Para além das faixas cuidadosamente selecionadas para musicar o filme, todo o trabalho de sonoplastia é impecável — existe uma preocupação evidente com a ambientação sonora e com o som dos objetos durante todo a narrativa. Os efeitos audiovisuais são o grande forte da adaptação — que, na minha opinião, é muito inferior aos quadrinhos em relação ao conteúdo.

Em “Scott Pilgrim vs. The World”, outras bandas fictícias receberam produções de bandas reais, como a Clash At the Demonhead — com composição de Metric — e a Crash and the Boys — com composições de Broken Social Scene. Alguns temas que não entraram na OST também foram feitos por artistas conhecidos, como a trilha do jogo fictício “Ninja Ninja Revolution”, arranjada pelo produtor americano de hip-hop Dan The Automator, e a música da banda fictícia The Katayanagi Twins, composta pelo produtor japonês de música eletrônica Cornelius.

Produzida por Nigel Godrich, produtor e engenheiro musical inglês, a trilha sonora de “Scott Pilgrim vs. The World” tem uma edição deluxe com versões das músicas da Sex Bob-Omb cantadas pelo Beck. Algumas faixas da Sex Bob-Omb que aparecem no filme não integram a trilha — “Indefatigable” e “No Fun” — e algumas demos do Beck não entraram no filme — “Gasoline Eyes” e “Disgusting Rainbow”. Nigel ainda fez uma segunda trilha com todo o film score da adaptação. A Anamaguchi, banda americana de música eletrônica, compôs e executou a terceira trilha sonora da franquia — essa, para “Scott Pilgrim vs. The World: The Game”. As três trilhas oficiais foram lançadas em CD e vinil pelo selo nova-iorquino ABKCO Records (Rolling Stones, The Animals, The Kinks).

1. “We Are Sex Bob-Omb”, Sex Bob-Omb (Beck)
“We Are Sex Bob-Omb” foi a faixa escolhida para musicar o primeiro ensaio da Sex Bob-Omb visto por Knives Chau (Ellen Wong III), a namorada colegial chinesa de Scott, cena que dá abertura para os créditos iniciais do filme. Nos quadrinhos, “we are Sex Bob-Omb” (“nós somos a Sex Bob-Omb”) é um bordão de Kim Pine, que sempre apresenta a banda em diferentes variações — “we are Sex Bob-Omb and we’re here to make money and sell out and stuff” (“nós somos a Sex Bob-Omb e estamos aqui para ganhar dinheiro, nos vender, entre outras coisas), “we are Sex Bob-Omb and we’re here to make you think about death and get sad and stuff” (“nós somos o Sex Bob-Omb e estamos aqui para fazer vocês pensarem em morte, ficarem tristes, entre outras coisas”), etc. No filme, Scott apresenta a banda uma única vez, antes da performance de “Threshold”. Para quem gosta de Death From Above 1979, Thee Oh Sees e Ty Segall.

2. “Scott Pilgrim”, Plumtree
A Plumtree é uma banda de twee e power pop canadense da cidade de Halifax, formada em 1993 pelas irmãs Carla (voz, guitarra) e Lynette Gillis (bateria), Amanda Braden (voz, guitarra) e Nina Martin (voz, baixo). Em 1995, Nina foi substituída por Catriona Sturton. Em julho de 2000, a banda fez suas últimas apresentações — uma delas, testemunhada por Bryan Lee O’ Malley, foi o que inspirou o cartunista a criar o quadrinho. “Scott Pilgrim”, composição de Carla e primeira linha de baixo feita por Catriona, é um single de “Predicts the Future” (1997), terceiro LP do grupo. O título da canção surgiu da fusão dos nomes de dois amigos da banda, Scott Ingram e Philip Pilgrim. No filme, a faixa está presente em uma das cenas iniciais e Scott aparece vestindo uma camisa da banda. Para quem gosta de CUB, Tiger Trap e Go Sailor

3. “I Heard Ramona Sing”, Black Francis
“I Heard Ramona Sing” é uma homenagem de Black Francis, vocalista e guitarrista dos Pixies, aos Ramones, uma de suas principais influências. A faixa faz referência também aos Menudos, nos versos “I hope if someone retires, they pull another Menudo” (“espero que se alguém se aposentar, eles atraiam outro Menudo”) — “Ramona” é um nome latino, tal qual o grupo Menudo, que sempre trocava seus integrantes por membros mais novos. A faixa foi lançada no álbum “Frank Black” (1993) e é trilha para a cena em que Scott procura por Ramona na festa de sua amiga Julie (Aubrey Plaza). Para quem gosta de Pixies, David Bowie e Sonic Youth.

  1. 4. “By Your Side”, Beachwood Sparks
    “By Your Side” é cover da cantora de soul Sade feito pela banda americana de alt-country Beachwood Sparks, e foi lançado no álbum “Once We Were Trees” (2001) e é trilha para o primeiro beijo de Scott e Ramona. Para quem gosta de Wilco, Apples in Stereo e The Flying Burrito Brothers.

5. “O Katrina!”, Black Lips
Black Lips
é uma banda americana de garage rock formada em Atlanta, em 1999, e seus integrantes são muito familiarizados com conceitos relativos à história e geografia. “Arabia Mountain” (2011), por exemplo, é um álbum com produção de Mark Ronson que faz referências (líricas e estéticas) ao Oriente Médio e à Ásia Meridional. “O Katrina!”, lançada no álbum “Good Bad Not Evil” (2007), é uma música sobre o furacão Katrina, que em 2005 devastou a região metropolitana de Nova Orleans e evacuou mais de um milhão de pessoas. No filme, a faixa aparece em uma discotecagem para primeira fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto. Para quem gosta de The Orwells, The Growlers e Allah-Las.

6. “I’m So Sad, So Very, Very, Sad”, Crash and the Boys (Broken Social Scene)
“I’m So Sad, So Very, Very Sad” é a primeira música tocada por Crash and the Boys na primeira fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto e tem duração de 13 segundos. Para quem gostou do show de uma nota só dos White Stripes.

7. “We Hate You Please Die”, Crash and the Boys (Broken Social Scene)
“We Hate You Please Die” é a segunda música da Crash and the Boys na apresentação da primeira fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto. A banda dedica a canção a Wallace Wells (Kieran Culkin), colega de quarto de Scott, e deixa Stephen Stills inseguro em relação à competição — da qual, no entanto, Sex Bob-Omb torna-se vencedora. Para quem gosta de Japandroids e White Stripes.

8. “Garbage Truck”, Sex Bob-Omb (Beck)
A Sex Bob-Omb começa a tocar “Garbage Truck” na Batalha Internacional de Bandas de Toronto diante de uma tentativa desesperada de Scott de evitar um diálogo entre Ramona e Knives. A apresentação é interrompida Matthew Patel (Satya Bhabha), primeiro ex-namorado do mal de Ramona. Para quem gosta de garage rock em geral.

9. “Teenage Dream”, T. Rex
T. Rex, que começou com o nome de Tyranossaur Rex, é uma banda londrina de glam rock formada em 1967. A faixa “Teenage Dream” foi lançada no álbum “Zin Alloy And The Hidden Riders Of Tomorrow” (1974) e é trilha para a cena em que Scott pega um metrô após terminar com Knives. Para quem gosta de Queen, Rolling Stones e Mott The Hopple.

10. “Sleazy Bed Track”, The Bluetones
The Bluetones
é uma banda de indie e britpop formada no distrito de Hounslow, em Londres, em 1993. “Sleazy Bed Track” foi lançada no álbum “Return to the Last Chance Saloon” (1998) e aparece rapidamente na cena em que Scott e Ramona jantam juntos pela primeira vez. Para quem gosta de britpop em geral.

11. “It’s Getting Boring By The Sea”, Blood Red Shoes
Blood Red Shoes
é um duo britânico de indie rock formado em 2004 em Brighton, na Inglaterra, por Laura-Mary Carter (voz, guitarra) e Steven Ansell (voz, bateria). “It’s Getting Boring By The Sea” foi lançada no álbum “Box Of Secrets” (2008) e aparece em uma discotecagem para o evento em que Sex Bob-Omb faz o show de abertura para Clash at the Demonhead. Para quem gosta de Bloc Party, Yeah Yeah Yeahs e The Subways.

12. “Black Sheep”, Clash At the Demonhead (Metric)
Metric
é uma banda canadense de indie e poptron formada em Toronto, em 1998. “Black Sheep”, lançada no álbum “Fantasies” (2009), recebe uma versão interpretada por Envy Adams (Brie Larson) no show da Clash At the Demonhead. Para desenhar Envy, Bryan Lee O’Malley se inspirou em fotos de Emily Haines, vocalista do Metric. Para quem gosta de Yeah Yeah Yeahs, Tokyo Police Club e Cansei de Ser Sexy.

13. “Threshold”, Sex Bob-Omb
A Sex Bob-Omb toca “Threshold” na segunda fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto, em um confronto contra a The Katayanagi Twins. Para quem gosta de Ty Segall, Thee Oh Sees e Death From Above 1979.

14. “Anthems for a Seventeen Year Old Girl”, Broken Social Scene
Broken Social Scene
é uma banda canadense de indie rock formada em 1999, em Toronto, que arrisca-se a experimentar diversos subgêneros musicais — shoegaze, dream pop, post-rock, art rock, entre outros. “Anthems for a Seventeen Year Old Girl” é uma faixa acústica que flerta com folk e sadcore e tem vocais de Emily Haines. É trilha da cena em que Scott encontra Knives após a segunda fase da Batalha Internacional de Bandas de Toronto. Para quem gosta de Crywank, Sufjan Stevens e Fleet Foxes.

15. “Under My Thumb”, Rolling Stones
“Under My Thumb”, dos Rolling Stones — banda clássica que dispensa apresentações — foi lançada no álbum “Aftermath” (1966) e aparece no filme quando Ramona termina com Scott. Para quem gosta de rock clássico em geral.

16. “Ramona” (versão acústica) e 17. “Ramona”, Beck
“Ramona” aparece no filme pela primeira vez quando Scott toca um trecho da música para Ramona no primeiro jantar do casal. A versão acústica toca após Ramona terminar com Scott e a versão original aparece nos créditos finais. Para quem gosta de Elliot Smitt, David Bowie e Sparklehorse.

18. “Summertime”, Sex Bob-Omb
“Summertime” é uma faixa da Sex Bob-Omb que aparece nos créditos finais. A música seria tocada durante o filme em um ensaio da Sex Bob-Omb, mas foi interrompida por Ramona. No entanto, “Summertime” recebeu um videoclipe como material extra. Para quem gosta de Ty Segall, Thee Oh Sees e Death From Above 1979.

19. “Threshold” (8-bit), Brian LeBarton
A versão 8-bit de “Threshold”, rearranjada pelo tecladista e compositor de música eletrônica Brian LeBarton, de Los Angeles, aparece nos créditos finais do filme. Para quem gosta de música eletrônica e trilhas de games.

Ouça a trilha sonora completa aqui:

Tracklist: FIDLAR — “FIDLAR” (2013)

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O LP de estreia da banda de garage e skate punk FIDLAR — sucessor dos EPs “DIYDUI” (2011), “Shit We Recorded In Our Bedroom” (2012) e “Don’t Try…” (2012) — integra facilmente as minhas listas de álbuns preferidos da década e de melhores álbuns de estreia da história. Em atividade desde 2009 e influenciados por nomes como Black Lips, Jay Reatard e Thee Oh Sees, o quarteto — formado por Zac Carper (voz, guitarra), Brandon Schwartzel (voz, baixo) e os irmãos Elvis (voz, guitarra) e Max Kuehn (bateria) — grava seus trabalhos em casa e faz parte de uma cena californiana mais recente, que engloba bandas como The Growlers e together PANGEA.

O interessantíssimo cenário da Califórnia — berço de clássicos do surf (Beach Boys, The Surfaris, The Lively Ones), terra de ícones do punk (Bad Religion, Minutemen, Dead Kennedys) e do hardcore old school (Descendents, Adolescents, os trabalhos de Keith Morris — que além de ter cantado no Black Flag, formou o Circle Jerks e integrou o supergrupo OFF!) e casa de antigas e novas figuras emblemáticas do garage punk (de The Mummies a Shannon And The Clams) — não poderia ser um contexto mais propício para a formação do FIDLAR, que incorpora elementos de todos esses gêneros.

Em 2003, durante a adolescência, Elvis e Max — que fazem música desde crianças e são filhos de ninguém menos do que Greg Kuehn (T.S.O.L., X) — criaram uma banda punk chamada The Diffs, que abriu para nomes como Agent Orange, The Adicts e The Germs. Elvis passou a estagiar na gravadora Kingsize Soundlabs, em Los Angeles, onde gravaram bandas como Wilco, The Vines e Jesus And Mary Chain e onde Zac Carper trabalhava como engenheiro de som. Zac, Elvis e Max formaram o FIDLAR (que antes se chamava “Fuck The Clock”) e Zac chamou Brandon para integrá-lo como baixista. Zac e Brandon eram melhores amigos e moraram juntos dentro de um carro velho em Silver Lake, bairro comercial no centro de Los Angeles, sob a miséria e o vício em cocaína.

“FIDLAR” é um álbum que tem as festas, as drogas e o skate como conceitos centrais. A princípio, eu achava que se tratava apenas de mais um bom álbum feito por um grupo de jovens irresponsáveis e zés-droguinha, mas ele ficou com uma carga consideravelmente mais pesada para mim depois que passei a pesquisar a fundo sobre a história da banda. Em 18 de março de 2013, pouco depois do lançamento do debut, Zac Carper recebeu uma ligação angustiante durante uma turnê que o FIDLAR estava fazendo com Wavves e Cheatahs pela América do Norte. Zac estava lutando contra o vício em heroína e descobriu por telefone que sua primeira namorada, grávida, sofreu um aborto espontâneo e faleceu após uma overdose — foi ele quem apresentou a heroína à garota.

O vício em drogas de Carper, que está sóbrio há mais de três anos, quase acabou com sua banda (e sua vida) múltiplas vezes. Zac fez uma tatuagem do mapa do Havaí, onde nasceu, para cobrir as marcas de agulha em seu antebraço esquerdo. Após a morte de sua namorada e de seu filho que sequer nascera, o vocalista e guitarrista tornou-se alcóolatra e passou a beber latas de cerveja e doses de vodka barata como café da manhã. A violenta imersão de Carper nas bebidas e narcóticos e suas múltiplas passagens em clínicas de reabilitação causou uma sensação de instabilidade entre ele e o resto da banda, que não tolerava mais ter que lidar com um junkie desafortunado como colega de trabalho — por mais que este fosse um grande amigo.

As coisas mudaram definitivamente quando o frontman — que, a essa altura, pensava em se matar todos os dias — recebeu uma outra ligação memorável, dessa vez do Billie Joe Armstrong (sim, o vocalista do Green Day), que é fã do FIDLAR e também passou por um histórico de dependência química. Billie, que por horas explicou a Zac sobre os benefícios da sobriedade (com base em sua própria vivência), foi a pessoa que o ajudou quando nenhuma outra estava ali para ajudá-lo, e o impediu de cometer suicídio ou de morrer de overdose no período que possivelmente foi a fase mais complexa e obscura de sua vida. Agora, Zac segue um estilo de vida consideravelmente mais saudável e aparece vestindo camisas com estampas do straight edge.

O (antes divertido) álbum homônimo do FIDLAR — expressão do skate californiano resultante do acrônimo para o mantra “Fuck It, Dog, Life’s A Risk” — ganhou para mim uma interpretação mais sombria após o conhecimento dessa sequência de infortúnios. Seja sob um viés feliz, seja sob um viés infeliz, “FIDLAR”, que saiu nos Estados Unidos pela Mom+Pop Records (Metric, Wavves, Courtney Barnnett), no Canadá pela Die Alone Records (Dune Rats, Cerebrail Ballzy, The Wytches) e no Reino Unido pela Wichita Recordings (Best Coast, Cloud Nothings, Girlpool) continua sendo um dos meus álbuns preferidos dos últimos cinco anos. São 14 músicas autorais (fora “Cheap Cocaine”, uma faixa escondida no final de “Cocaine”, e as faixas bônus “Shitty Jobz” e “I’m Going Nowhere”, que foram lançadas no Japão) sobre viver inconsequentemente, e cada uma delas é um belo soco na cara. “Too” (2015), segundo álbum da banda, além de ser sonoramente diferente do primeiro, é quase que conceitualmente oposto ao mesmo — faixas como “Stupid Decisions” e “Bad Habits” agora demonstram uma maior carga de preocupação e arrependimento (e uma menor carga de diversão) relativa ao vício em drogas.

1. “Cheap Beer”
“Cheap Beer” foi uma excelente escolha para a faixa que dá início ao álbum. Talvez eu trocasse por “White On White”, mas ainda assim, achei uma excelente escolha. “Cheap Beer” lembra muito a clássica “Police Truck” e, na minha opinião, é a melhor performance de Zac Carper do álbum. A música fala sobre se embriagar, usar drogas e se divertir com seus amigos em corridas de carro. Pra quem gosta de Dead Kennedys, Circle Jerks e Gang Green.

2. “Stoked And Broke”
“Stoked And Broke” é uma faixa sobre fazer o que você quer sem se arrepender ou se importar com a opinião dos outros. De construção simples, as estrofes da música são intercaladas por solos curtos de guitarra feitos por Elvis. Pra quem gosta de The Hives, The Vines e Ty Segall.

3. “White On White”
“White On White” é sobre estar desempregado e desabrigado e ser obrigado a servir ao exército militar. É uma música extremamente dinâmica e de construção impecável, principalmente em relação às linhas de guitarra. Para
mim, é bem difícil escolher a melhor faixa do álbum, mas essa talvez seja a minha preferida. Pra quem gosta de punk e hardcore dos anos 80 em geral.

4. “No Waves”
Uma das faixas mais populares de “FIDLAR”, “No Waves” foi lançada no EP “Don’t Try…” e regravada para o LP. Apesar de soar agitada e feliz, a música já dá indícios da depressão e dos problemas com drogas de Zac Carper. O eu-lírico não consegue mais surfar, está cansado do skate — que enxergava como uma atividade paralela ao surfe — e se sente fraco, entediado e impotente. Ele está em reabilitação e acredita que está estragando a sua vida com o excesso de bebida e de drogas. Pra quem gosta de Nobunny, Black Lips e The Orwells.

5. “Whore”
“Whore” é uma música sobre beber em casa, sozinho e em situação de vulnerabilidade após uma traição. Essa talvez seja a música mais consistente do álbum, construída por cima de linhas sólidas de guitarra base e bateria. Pra quem gosta de Thee Oh Sees e garage rock do início dos anos 2000.

6. “Max Can’t Surf”
Originalmente lançada no EP “DIYDUI”, “Max Can’t Surf” é uma música bem-humorada sobre o baterista da banda e foi regravada para “FIDLAR”. A faixa mais surf punk do álbum, para quem gosta de Wavves e Best Coast.

7. “Blackout Stout”
“Blackout Stout” é uma das minhas preferidas. Foi lançada no EP “Don’t Try…”e é outra música que já demonstra alguns sinais de angústia e desconforto em relação ao uso excessivo de drogas. A faixa fala sobre sentir-se perdido e sem rumo e acordar no carro de um traficante. Soa muito como “Southern Comfort”, dos Orwells e é indicada para quem gosta, obviamente, de The Orwells.

8. “Wake Bake Skate”
Lançada no EP “DIYDUI”, “Wake Bake Skate” é mais uma música sobre se drogar sem restrições, andar de skate e sentir que a sua vida está uma verdadeira bagunça. É uma faixa bem animada e divertida, em que a banda soa muito integrada. Para quem gosta de Wavves, Bass Drum Of Death e garage punk em geral.

9. “Gimme Something”
“Gimme Something”, que antes de ser lançada oficialmente, se chamava “Bummed”, conta a história de um desempregado viciado em drogas que vive no fundo de um caminhão. A faixa tem timbres mais acústicos e, a partir dela, o álbum passa a ter uma pegada mais leve, lenta e descontraída. Para quem gosta de country, rock ‘n roll e música tradicional americana em geral.

10. “5 To 9”
“5 to 9” é uma música sobre não ter carro ou dinheiro e beber e se drogar com os amigos — acho que, a essa altura, vocês já entenderam que “FIDLAR” é um álbum meio monotemático. É uma faixa que dura um minuto, mas que se fosse mais longa, talvez não fizesse muito sentido. Mais uma para quem gosta de Ty Segall, Black Lips e The Orwells.

11. “LDA”
“LDA” — sigla para “Legal Drinking Age”, ou “Idade Legal Para Beber” — é uma música sobre completar 21 anos (nos Estados Unidos, essa é a idade permissiva para o uso de bebida alcóolica) e não mais precisar de uma identidade falsa. É uma história real sobre um amigo de Elvis e Max que entregou a Elvis — que é o vocalista nessa música — sua identidade falsa quando completou 21 anos. Para quem gosta de rock ‘n roll e música tradicional americana em geral.

12. “Paycheck”
O eu-lírico de “Paycheck” está de ressaca, estirado no chão de uma casa vazia, e se drogou tanto que não sabe se vendeu ou doou sua TV. A faixa tem bases instrumentais mais densas e parece ter influências de grunge e stoner rock. Para quem gosta de Nirvana e Queens Of the Stone Age.

13. “Wait For The Man”
“Wait For The Man” é uma música sobre fazer a ponte entre um jovem e um traficante, originalmente lançada no EP “DIYDUI”. Soa como o trabalho de bandas mais clássicas como Ramones e Dead Kennedys por conta das bases
simples, mas também carrega marcas de bandas de garage punk mais novas. Para quem gosta de punk em geral.

14. “Cocaine”
“Cocaine” é uma música sobre vício em cocaína e faz referência às canções “Cocaine”, de Jackson Browne, e “Cocaine Blues”, originalmente escrita nos anos 40 por T. J. & Red Arnall e interpretada por nomes como Bob Dylan, Johnny Cash e Keith Richards. Semelhante à “Paycheck”, a faixa tem uma construção mais pesada e densa do que o restante do disco e é indicada para quem gosta de stoner rock e rock ‘n roll. “Cheap Cocaine”, faixa escondida no final de “Cocaine”, conta a história de quando Zac Carper morou dentro de seu carro.

Ouça o disco completo: