Daniel Johnston e a sublime arte de domar demônios

Read More

Conheci Daniel Johnston não exatamente ouvindo ele. “Speeding Motorcycle”, uma das faixas mais bonitas do álbum de covers do Yo La Tengo (“Fakebook”, 1990), é delicada e fofa como tudo que Ira Kaplan e companhia costumam criar. Mas aquela canção com acordes simples dedilhados tinha uma coisa a mais. Um je ne sais quoi. Era inocente. Não tinha a pretensão de fazer uma metáfora rebuscada sobre a vida ou sobre o amor. Era um cara cantando sobre sua lambreta veloz. Esse cara e esse charme ingênuo (pelo menos aparente), era Daniel.

“Speeding Motorcycle” foi o mais próximo que Daniel Johnston chegou de um hit. Em julho deste ano, o músico anunciou sua última turnê – que termina em novembro –, mas deixou bem claro que vai continuar escrevendo. Sua esperança é de que ainda saia “o grande sucesso”, confessou em entrevista recente ao New York Times. Mas quem conhece a história dele sabe que seu impulso criativo incessante tem outras razões.

No documentário The Devil and Daniel Johnston”, de 2006, conhecemos um artista divido entre extremos: de um lado uma pureza quase infantil, de outro uma confusão típica de quem não se sente adequado. Para Daniel, se encaixar no tal ‘mundo adulto’ sempre foi um desafio muito maior do que esse de fazer música. A arte, na verdade, foi a forma que encontrou para passar por tudo isso. O documentário deixa isso claro; não se trata de um relato sobre um músico dando duro para se lançar, mas sobre enfrentar seus próprios demônios. No caso de Daniel, um diagnóstico de transtorno bipolar e esquizofrenia.

Suas músicas sempre refletiram muito isso. As letras de Johnston são cartas abertas. Recortes curtos, diretos e de uma honestidade crua e certeira. Há quem o chame de gênio – pessoalmente, acho que não combina com a despretensão de sua essência artística. Há quem considere suas composições ‘rasas’ demais –  eu acho ótimo, para variar, ouvir um músico despido de ‘bandeiras’ e de peito escancarado.

No documentário, somos apresentados a algumas das inspirações de Daniel. A motocicleta foi uma delas. Sem avisar a família, Johnston partiu para um rolê pelo país e se juntou a uma companhia de circo. Em flashes de filmes originais gravados com sua super 8, conhecemos o grande amor da vida do cantor, quem o inspirou a compor. Foi para Laurie Allen um tímido, corajoso e apaixonado “Hi, How Are You?” que marcou sua história como músico.

Seu amor  não correspondido nunca foi encarado com amargura. Daniel não escolheu o caminho mais fácil, o da sofrência. Mesmo de coração partido, se preocupou em aquietar os corações melindrosos de um bando de adultos desiludidos, com uma promessa em forma de canção. “True Love Will Find You In The End” é a cantiga de ninar de uma geração teimosa que ainda acredita no amor em tempos de Tinder.

A música, como todas dele, tem acordes simples, mas inconfundíveis. Você percebe pelas batidas urgentes e às vezes dessincronizadas sua inquietação. No palco, sem o violão, suas mãos dançam dentro do bolso. Cantar ao vivo, aliás, é sempre um grande passo para Daniel. Curvado e acanhado, sua presença diante do público está longe de ser de rock star. Mas nem por isso encanta menos. A apresentação que fez em São Paulo em 2013 recebeu uma porrada de críticas positivas. Sua turnê atual, segundo o The Guardian, “decolou depois de um começo atrapalhado”.

Herói lo-fi de músicos como Jeff Tweedy, Beck e Kurt Cobain, Daniel Johnston tem inspirado como pode. Alguns com a sinceridade de seu trabalho, outros com a simplicidade com que cria, e muitos (como eu), com tudo isso mais a forma como lida com seus monstros. Quisera eu transformar os meus em música. Por enquanto, conto com a poesia dele (e de tantos outros talentosos e corajosos) para mantê-los longe. Obrigada, Daniel <3

Músicas com plot twists que você vai gostar mesmo depois desses spoilers

Read More

O termo se tornou familiar. Qualquer um que já assistiu a uma série – ou acompanhou as últimas temporadas desse longa chamado VIDA –  sabe bem a que se refere. Plot twist é aquela virada inesperada no enredo, aquele momento que traz uma surpresa agradável – “The One With Obama’s Triumph” S08E12 – ou não –  “The One With Trump Winning”, S16E09.

Verdade seja dita, está difícil superar os últimos plot twists deste não ficção do qual fazemos parte. A boa notícia é que a arte está aí para nos salvar (yey!). Então, quando bater aquela desesperança, já sabe né? O melhor a fazer é buscar refúgio em uma playlist delicinha, tipo essa que reúne as reviravoltas (reais ou não) em músicas de bandas que amamos.

“Funny Little Frog”, Belle & Sebastian

Belle & Sebastian, com sua poesia confessional e arranjos delicados, é um abracinho quente quando a gente precisa. O líder da banda escocesa, Stuart Murdoch é, para mim, um dos melhores compositores/cantores/dançarinos-desajeitados/crushes do indie pop mundial. “Funny Little Frog“, faixa do disco “The Life Pursuit” (2006), é prova disso.

A música descreve uma paixão arrebatadora, uma quase-devoção (com direito a fotografia pendurada na parede) de um homem por um crush enigmático. No desenrolar da letra você tem alguns indícios de que existe algo de platônico no romance. Mas é só nos segundos finais da canção que ele decreta isso.

“You are the cover of my magazine

You’re my fashion tip, a living museum

I’d pay to visit you on rainy Sundays

I’ll maybe tell you all about it someday”

(Eu também pagaria para ter ver em um domingo chuvoso, Stuart <3)

“Babies”, Pulp

Saímos do amorzinho fofinho do Stuart, para as primeiras aventuras sexuais de um Jarvis Cocker adolescente e pervertido. Em “Babies”, faixa do “His’n’Hers” (1994), ele conta como, junto com uma amiga, costumavam ouvir atrás da porta a irmã mais velha dela com garotos no quarto. Mas, jovem e excitado, Jarvis Cocker (ou o cock do Jarvis) queria mais: “I want to see as well as hear/ And so I hid inside her wardrobe”.

Em uma dessas, ele acabou transando com a irmã da amiga. Só no trecho final da música ele revela que foi tudo uma confusão, e que, na real, era da amiga que ele gostava, não da irmã.

“I know you won’t believe it’s true,

I only went with her ‘cause she looks like you.”

(Desculpa equivalente ao “baixei o Tinder sem querer”, Jarvis.)

“Cooking Up Something Good”, Mac Demarco

“Mommy’s in the kitchen, cooking up something good/ And daddy’s on the sofa, pride of the neighborhood”. Quem conhece as letras do Mac percebe de cara um tom irônico nesse retrato da família ‘de bem’. A relação conturbada com o pai, que por conta do alcoolismo e uso de drogas o abandonou quando criança, está presente em grande parte do trabalho do músico canadense.

Quem sabe disso, já espera a virada nessa bela cena de família que vem na segunda parte da música. “Daddy’s in the basement, cooking up something fine”. A gente sabe que não é um ranguinho esperto que ele está fazendo no porão. “Cooking up”,  em inglês, é gíria para ‘preparar drogas’, especificamente as que precisam de aquecimento. Em um show, Mac termina a música dizendo: “This song is about my dad’s methamphetamine habit”. Aí não resta dúvida, né.

“A Boy Named Sue”, Johnny Cash

Todo mundo conhece alguém que já teve problemas na infância ou adolescência por ter um nome diferentão.  Não adianta, se tem uma coisa que a quinta série A não perdoa é um nome diferentão. O ‘contadô de causo’, Johnny Cash, fala sobre esse ‘fardo’ que um garoto chamado Sue teve que carregar durante a vida.

Aparentemente, Sue teve que aguentar muita TRETA. “It got a lot of laughs from a’ lots of folk/ It seems I had to fight my whole life through”. Sua missão na vida passou a ser encontrar o pai que o abandonou e escolheu o seu nome. Quando ele finalmente o encontra, mais TRETA. Os dois se pegam no bar, mas antes que a coisa ficasse feia mesmo, o pai explica porque deu a ele esse nome:

“Son, this world is rough

And if a man’s gonna make it, he’s gotta be tough

And I know I wouldn’t be there to help ya along

So I give ya that name and I said goodbye

I knew you’d have to get tough or die

And it’s the name that helped to make you strong”

Yeah he said, “Now you just fought one hell of a fight

And I know you hate me, and you got the right

To kill me now, and I wouldn’t blame you if you do

But ya ought to thank me, before I die

For the gravel in ya guts and the spit in ya eye

‘Cause I’m the son-of-a-bitch that named you “Sue”.

Resumindo, um nome com potencial para virar chacota foi a forma que o pai encontrou para fazer o filho aprender a enfrentar as coisas duras e injustas da vida. Não é uma metodologia muito Waldorf, mas parece que funcionou.

“Space Oddity”, David Bowie

A virada dessa história é bem triste. Só não tão triste quanto outro plot twist do Bowie que pegou o mundo inteiro de surpresa em janeiro do ano passado 🙁 🙁

Um dos maiores clássicos do compositor/cantor/ator/produtor/crush conta a história de Major Tom, um astronauta fictício em uma missão espacial que, apesar de bem sucedida no começo, não tem um final feliz. Depois de ‘flutuar pelas estrelas de um jeito peculiar’ e ver de longe a Terra azul, Major Tom perde contato com a base de controle.

Já ouvi a música inúmeras vezes, e nessa parte sempre rola aquele arrepiozinho nos pêlos:

“Ground control to Major Tom,

Your circuit’s dead, there’s something wrong

Can you hear me Major Tom?”

Dá o play e sente.

Trilha pop e girl power marca o pesadelo patriarcal de “Handmaid’s Tale”

Read More

“Imagine um futuro distópico onde os comentaristas de portais venceram”. A definição simplista, mas ilustrativa, resume bem o que você vai encontrar em “Handmaid’s Tale”. A premissa pode desencorajar, eu sei, mas a série, baseada no livro de Margaret Atwood, de 1985 – publicado no Brasil como “O Conto da Aia” – não decepciona. Menos ainda a trilha. Por isso, se for preciso, treine o estômago e a paciência aquiaqui e aqui e encare a maratona de 10 episódios da temporada de estreia.

Deixando o simplismo tragicômico de lado, a série apresenta uma sociedade construída da noite para o dia, em uma América dos dias atuais tomada por um regime totalitário e teocrático. Na República de Gilead, como passa a ser chamada, as mulheres se tornam propriedade do Estado e não têm direitos. As handmaids (aias), uma das castas de mulheres, têm como única função procriar para famílias de homens poderosos e suas esposas estéreis.

Rejeitada pela Netflix e transmitida pelo serviço de streaming Hulu, “Handmaids’s Tale” garante lugar entre as mais importantes distopias de todos os tempos – pessoalmente, perde só para “1984”, o livro, e 2016, o ano. A maneira inteligente como usa flashbacks e memórias das personagens para costurar as duas realidades, antes e depois do novo regime, é, talvez, a grande sacada do produtor Bruce Miller. A introdução gradativa dos fatos que levaram à nova ordem – com cenas que ora revolvem o estômago, ora causam uma estranha e incômoda familiaridade – naturaliza o absurdo tornando-o assustadoramente real e próximo. A ‘distopia futurística’ dá lugar à distopia nossa de cada dia.

O mérito, em parte, fica com a escolha da trilha. Não se trata apenas de uma lista de boas músicas – isso, séries recentes como Mr. Robot”, Big Little Lies” e Stranger Things” também fizeram muito bem. Tampouco se deve a uma seleção ousada e obscura. Pelo contrário, a trilha é repleta de clássicos do pop anos 60, 80 e 90. Essas escolhas ‘seguras’, familiares, assim como toda a série, que não para em nenhum momento para mastigar a história pra quem assiste, são autoexplicativas. São um lembrete constante de que aquele mundo bárbaro e estranho  é também o nosso.

Enquanto as personagens se veem forçadas a aceitar a dominação do patriarcado extremista –  sob ameaças de punições, como (ALERTA DE SPOILER) ter um olho ou o clitóris removido – a música é a resistência. O grito entalado. É essa a sensação quando, depois do choque inicial (que só piora), ouvimos a letra provocativa de “You Don’t Own Me”, da Lesley Gore, no fim do primeiro episódio.

É também esse sentimento que temos quando, no terceiro episódio, as personagens de Elisabeth Moss (Offred) e Samira Wiley (Moira), em um dos flashbacks, escutam “Fuck The Pain Away”, da Peaches, enquanto correm – talvez o melhor uso da música. E da palavra ‘fuck’. A cena antecede um dos primeiros confrontos das personagens com a nova realidade. De novo, o medinho de ser surpreendido com algo semelhante enquanto ouvimos de boas nossa playlist diária é inevitável.

Em outro flashback no mesmo episódio, as personagens têm mais um forte indício de que a treta estava ficando SÉRIA. A cena mostra a polícia distribuindo tiros para reprimir um protesto. O caos, que mais uma vez soa bastante familiar, tem como trilha uma versão de “Heart of Glass”, da Blondie e Philip Glass, com arranjos dramáticos de violino que parecem tirados de alguma adaptação dos romances de Jane Austen para o cinema.

Mas nem só de TENSÃO se constrói a trilha de “Handmaid’s Tale”. Ela também é usada para lembrar um tempo em que as coisas eram menos complicadas e as personagens viviam suas vidas normalmente, sem sequer imaginar o que as esperava. Um desses flashbacks (que poderia ser embalado por passarinhos cantando) usa “Daydream Believer”, dos Monkees (que dá quase na mesma), para passar a sensação de nostalgia e inocência ao mesmo tempo.

Em um dos pontos altos da temporada, a música é usada pra acender aquela chaminha de esperança em meio ao absurdo e ao caos. “Nothing’s Gonna Hurt You Baby”, do Cigarretes After Sex, é uma das poucas escolhas ‘contemporâneas’ para a trilha. A música do EP “I.”, lançado em 2012, tem a dose perfeita de melancolia para um momento de conexão não-física entre dois personagens separados pelos recentes acontecimentos.

Voltando aos clássicos, a entrada apoteótica de Offred no bordel, onde os comandantes secretamente exploram mulheres que de alguma forma se opuseram ao sistema, tem como trilha “White Rabbit”, do Jefferson Airplane. A referência à chegada de “Alice ao País das Maravilhas” é óbvia e mesmo assim reveste a cena de mistério, já que, assim como Offred, nós também somos apresentados pela primeira vez a este outro lado de Gillead. A última vez que ouvi Jefferson Airplane coroando uma cena tão simbólica foi no final de Friends”, quando toca “Embryonic Journey” – nesse caso, ainda rola aquele apertinho no peito toda vez que ouço.

A trilha ainda tem Nina Simone (que toca em um dos momentos mais bonitos da série, e, por esse motivo, preferi não dar detalhes para evitar spoilers), Simple Minds, Jay Reatard, Penguin Cafe Orchestra, Tom Petty, Kylie Minogue, SBTRKT. E tem playlist prontinha no Spotify. Praise be!