5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Otávio Cintra, do Hammerhead Blues

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Otavio Cintra, do Hammerhead Blues
Otavio Cintra, do Hammerhead Blues

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, o convidado é Otávio Cintra, baixista e vocalista da banda Hammerhead Blues.

Taiguara“Aquarela de Um País na Lua”

Muitos nomes de grande sucesso da música brasa dos anos 60/70 acabaram relegados a algum tipo de esquecimento, deixados à margem da tal linha evolutiva seja por falta de interesse de gravadoras ou travados na marra pelos militares. O Taiguara é um dos casos mais extremos: seu disco “Imyra Tayra Ipy” (lançado em 1976 após o retorno do cantor do exílio) foi recolhido de todas as prateleiras do país em menos de 72h pela censura, voltando ao mercado brasileiro somente em 2013. Desse grande disco, um manifesto latino-americano arranjado em parte por Hermeto Pascoal, destaco o protesto de ‘Aquarela de um País na Lua’, uma reinterpretação torta do famoso hino ufanista.

Antônio Carlos e Jocafi“Deus O Salve”

A dupla Antônio Carlos e Jocafi é, quando muito, lembrada pelo riff funkeado de ‘Kabaluerê’, sampleada pelo Marcelo D2. O que muitos não sabem que esses dois eram uma mina de suingue e rock psicodélico – o primeiro disco (“Antônio Carlos & Jocafi”, 1970), com Lanny Gordin nas guitarras, é uma pedrada psicodélica atrás da outra. Pra quem gosta de misturar psicodelia, samba, limão e cachaça essa aqui tá na medida.

Marcos Valle“Revolução Orgânica”

Marcos Valle é desses caras que já andaram por todo canto da música popular brasileira. Mesmo sem reconhecer seu nome, todo mundo conhece algumas das canções do bicho: ‘Samba de Verão’ (um clássico da Bossa Nova) e a música de fim de ano da emissora dos Marinho (aquela mesmo, fazer o quê…) Em 1972, Marcos e seu irmão Paulo Sérgio se mandaram para Búzios com uma banda de rock até então relativamente desconhecida (O Terço) para mergulhar numa vibe hippie sem dó. ‘Revolução Orgânica’ é a música mais épica de um encontro inusitado de grandes nomes da música brasileira com uma letra de rebeldia e imagens impressionantes.

Eduardo Araújo“Construção”

Eduardo Araújo era o roqueiro mais bad boy de toda a Jovem Guarda. Dizendo-se ‘O Bom’, dono do maior carrão vermelho, acabou não emplacando com o roquezinho tanto quanto seus colegas Erasmo e Roberto. Dono de uma das vozes mais potentes da época, o rapaz resolveu então que ia explorar um som mais pesado e experimental. Sua ideia de rock brasileiro progressivo e psicodélico chega ao ápice nessa reinterpretação surreal de “Construção”, de Chico Buarque, transformado o arranjo de sua versão original em uma quebradeira sem paralelo de guitarras, baixos e baterias.

Odair José“Não Me Venda Grilos”

Odair José é um dos grandes expoentes da música brega brasileira. Tornou-se um ícone dos botecos sujos do país todo com ‘Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)’ e ‘Vou Tirar Você Desse Lugar’ no começo dos anos setenta. Sempre intento em incomodar os poderes estabelecidos, Odair José acabou excomungado pela Igreja Católica acusado de blasfêmia ao lançar o disco ‘O Filho de José e Maria’ em 1977. O protagonista é Jesus Cristo contemporâneo: doidão e filho de pais solteiros que se casam às pressas e depois se divorciam (numa época em que o divórcio era ainda grande tabu no Brasil). Se a ira da Igreja não fosse o suficiente pra curtir o trabalho do cara, o disco é uma ópera-rock finíssima com uma pegada Frampton.

Contramão Gig volta hoje ao Bar da Avareza com shows de Gagged e Hammerhead Blues

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O Contramão Gig começa 2018 com tudo! Seguindo nossa missão de levar a música autoral de volta para o Baixo Augusta convidamos vocês a uma vez mais descobrir e redescobrir artistas da cena independente! Nesta edição teremos apresentações de duas bandas incríveis: Gagged e Hammerhead Blues!

Gagged
Banda hardcore/punk formada em 2004 na cidade de São Carlos/SP, conta com integrantes experientes no cenário independente brasileiro. No final do ano passado, além de abrir o aguardado show dos californianos do Strung Out, lançou o single “Cidade Sem Lugar” (https://youtu.be/WLFP9ZjrXYc) que dá uma prévia do álbum a ser lançado e do show que veremos no dia 17/01!
Escute: http://gaggedrock.bandcamp.com/

Hammerhead Blues
Fundado em 2014, o Hammerhead Blues é um power trio paulistano de hard rock psicodélico que traz influências do blues e do rock pesado dos anos setenta. Apresentando seu álbum recente ‘Caravan of Light’, o trabalho dos rapazes também pode ser conferido no excelente clipe da música “Rat” (https://youtu.be/F1MmCq5biOM).
Escute: https://open.spotify.com/album/5uDJ4nLcj3xQ7PTpjSmvMX

A discotecagem fica por conta do DJ convidado Aletrix e dos organizadores Jaison Sampedro e Helder Sampedro (RockALT), João Pedro Ramos (Crush em Hi-Fi), Joyce Guillarducci (Cansei do Mainstream) e Rafael López Chioccarello (Hits Perdidos) tocando o melhor do rock alternativo, sons independentes, lados B e hits obscuros de todas as épocas!

Durante o evento também teremos flash tattoos com a Lina Zarin, merch das bandas e a loja da casa com camisetas, chaveiros, posters e, claro, muita cerveja!

Organização: Jaison Sampedro e Helder Sampedro (RockALT), João Pedro Ramos (Crush em Hi-Fi), Joyce Guillarducci (Cansei do Mainstream) e Rafael López Chioccarello (Hits Perdidos)
Fotos: Elisa Oieno
Apoio: MutanteRadio

Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018
Local: Bar da Avareza – Rua Augusta, 591
Horário: A partir das 19h
Preços: $10 entrada ou $30 consumíveis

Ponto de encontro para os apreciadores de boa cerveja, sedentos por boas experiências em self service e bom papo. Tudo isso sem gastar muito! O Bar da Avareza é o primeiro bar temático da Cervejaria Mea Culpa, aqui você encontra os 7 pecados em forma de cerveja nas torneiras no esquema self-service: você mesmo se serve em seu copo!

• É proibida a entrada de menores de 18 anos.
• É obrigatória a apresentação de documento original com foto recente.
• Não é permitida a entrada sem camisa, com camisetas de times ou calçando chinelos.

Construindo Pata: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos a banda Pata, que indica suas 20 canções indispensáveis. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Lúcia Vulcano:

Soundgarden“Fell On Black Days”
Eu sou completamente apaixonada com Soundgarden (ou alucicrazy, se preferirem citar Nazaré Tedesco). Escolhi essa música porque tem tudo o que eu mais gosto deles em uma música. A criatividade em compor do Chris, os compassos inusitados (essa é em 6/4), a melodia, letra, tudo é lindo demais. Soundgarden é sempre a minha principal referência e minha banda favorita.

L7“Monster”
Bom, nós temos também uma música que se chama monster, apesar de ser uma abordagem diferente. Acho meio óbvio que L7 seja uma grande influência para a pata. Tanto musicalmente – os riffs, a voz, timbres – quanto todo o resto. Uma banda com quatro musicistas mulheres incríveis. INCRÍVEIS.

Janis Joplin“Me and Bobby McGee”
Meu pai me apresentou a Janis quando eu tinha uns 11 anos. Foi a primeira vez na minha vida que eu senti que, como mulher, poderia fazer algo dentro da música. Temos também um pezinho nesse folk (é só escutar “Adulthood”), apesar de não ser o ponto principal da Pata.

Hole  – “Plump”
Assim como L7, uma das mais óbvias influências para mim. Acho que seria impossível contar quantas vezes eu já escutei o “Live Through This” (porque sou velha e não tinha Spotify e Last.fm na minha juventude). A Courtney sempre foi uma ótima compositora e muitas vezes foi descreditada de suas habilidades musicais por conta de seus relacionamentos amorosos. Eu sempre achei que ela influenciou muito mais o Kurt musicalmente do que ele influenciou ela.

Black Sabbath “The Wizard”
Riff maldoso, batera comendo solta, gaitinha loka, trevas & demônio, Geezer Butler em chamas. Melhor música. Bebemos demais nessa fonte e é sempre uma grande inspiração.

Alanis Morissette“All I Really Want”
O jeito que a Alanis tem de compor suas músicas, sempre com ótimas melodias e letras viscerais, é uma enorme influência para mim. Essa música tem tudo o que eu procuro na hora de compor. Uma artista completa com um legado muito forte. Tenho músicas escolhidas da Alanis para cada momento da minha vida.

Alice In Chains“Rain When I Die”
Olha, cês me desculpem, mas eu sou um clichê ambulante dos anos 90. Tá chovendo muito hoje e eu também espero que chova quando eu morrer.

Nirvana“You Know You’re Right”
Quando eu descobri o Nirvana, o Kurt já estava morto há um tempo. Essa foi a primeira novidade do Nirvana que eu peguei lançando. Para mim, o lançamento dessa música foi sensacional, pois eu já havia gastado todos os meus CDs deles de tanto escutar. Acho que é um ótimo ponto de contato entre o Nevermind e o In Utero: tem barulho, tem um refrão de fácil assimilação, riff de baixo super marcante, a dinâmica da música é certeira…

Hino do Clube Atlético Mineiro
Umas das primeiras músicas que eu aprendi a cantar na minha vida e uma das que mais me emociona. SEM CLUBISMO, uma das melodias mais bonitas já composta pela humanidade. Talvez o Galo seja a experiência mais próxima desse mito de deus que eu terei em vida e essa música tem esse peso para mim.

Bulimia“Nosso Corpo Não Nos Pertence”
Bulimia formou meu caráter e creio que de várias mulheres também. Ver mulheres fazendo um som desses, com essas letras de protesto contra o patriarcado, foi “O” empurrão para eu começar minha vida musical em bandas.

7 Year Bitch“Dead Man Don’t Rape”
Um hino riot grrrl dos anos 90.

Neil Young“The Needle and the Damage Done”
Como compositor e artista, uma grande inspiração. Por também seu ativismo e posicionamentos políticos, Neil estará eternamente em meu coração.

Radiohead“Paranoid Android”
A primeira vez que eu escutei essa música eu fiquei de queixo caído. Eu gosto de pensar que é uma “Bohemian Rhapsody” moderna. A textura, os movimentos da música, aquela paradinha com o coral. É uma música que mudou minha percepção de composição.

Chris Cornell“Through the Window”
Uma música do último disco solo dele. O Chris é o músico que mais me influenciou na minha vida. Quando saiu, eu escutei essa música umas 20 vezes no repeat… Era um jeito de tratar a canção que eu sempre esperei que ele fizesse, apesar de gostar muito dos trabalhos solo anteriores dele.

Sepultura“Inner Self”
Apesar de, esteticamente, estar bem longe da proposta da Pata, a essência do Sepultura de Max é muito presente na minha vida musical. Eu gosto de composições criativas, que tenha algo idiossincrático na música. “Inner Self” é genial, um ótimo hino ao ódio da existência.

Luís Friche (Lulu)

Titãs “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”
Escuto Titãs por influência dos meus pais desde que estava ainda na barriga da minha mãe, passei minha infância inteira ouvindo sem parar e sou fã incondicional de discos como “Cabeça Dinossauro”, “Õ Blesq Blom” e outros. Essa música me chamava muito a atenção quando eu era criança pela letra, que só tem uma frase que se repete do começo ao fim da música.

King Crimson“The Great Deceiver”
É difícil juntar experimentalismo vanguardista com um som tão pesado.

Frank Zappa“Montana”
Já passei um período de mais de um ano em que eu precisava ouvir essa música no mínimo uma vez por dia senão ia à loucura. O arranjo, os solos, as quebras de compasso, o coro maluco, o humor non-sense… tudo me deixa meio hipnotizado.

Itamar Assumpção“Dor Elegante”
Uma música maravilhosa, com arranjo maravilhoso, sobre um poema maravilhoso do Leminski. Itamar é um dos compositores mais criativos que já conheci até hoje.

Maria McKee“If Love is a Red Dress”
É difícil conseguir imaginar uma música tão simples, só com voz e uma guitarrinha meios desafinada tocando acordes do livrinho de cifras, ficar tão bonita assim. Fico arrepiado sempre que ouço esses belos gritos.

Gwyn Ashton faz blues de raiz e deixa sua paixão pela guitarra ser a guia em seus diversos projetos

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O guitarrista e compositor galês Gwyn Ashton foi para Adelaide, Austrália do Sul, na década de 1960, e logo começou sua jornada musical. Passou por diversas bandas, gravou muitos discos solo e dividiu o palco com gente como Mick Fleetwood, Hubert Sumlin, Marc Ford e Canned Heat e abriu para Rory Gallagher, Ray Charles, Robin Trower, Vanilla Fudge, Wishbone Ash, Van Morrison, Jeff Healey, Tony Joe White, Johnny Winter Mick Taylor, Peter Green, John Hammond e Pat Travers.

Este ano, Gwyn lançou “Solo Elektro”, seu primeiro disco como one man band, além de já estar trabalhando em muitos outros projetos, indo da psicodelia ao blues de raiz, passando pelo garage rock e muitos outros estilos. Conversei com ele sobre sua carreira, a paixão pelo blues e como ele vê a música nos dias de hoje:

 

– Como começou sua carreira?
Eu tinha cerca de 16 anos e entrei na minha primeira banda em Adelaide, Austrália do Sul. Não gostava de escola e tudo o que queria era tocar violão. Eu respondi um anúncio para um guitarrista no jornal local e conheci essas pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu. Comecei a escrever músicas e eventualmente me mudei para Sydney, onde entrei em outra banda. Depois de alguns anos tocando com várias bandas, acabei mudando-me para Melbourne e gravando meus dois primeiros álbuns. Sou obcecado com música e a guitarra e isso é tudo o que sempre quis fazer. Eu não queria estar em uma banda cover, o que às vezes significa que sua área local nem sempre é o melhor lugar para trabalhar, então você precisa estar preparado para se mudar um pouco. Foi o que eu fiz e ainda faço.

– Você toca blues e rock old school. Como você se sente sobre o futuro desses gêneros?
Eu tento não apenas ser só um artista retro, é importante manter-se fresco e desenvolver novas idéias. Não é tão saudável como já foi, tantos locais estão fechando em todo o mundo. A internet paralisou muitas coisas, incluindo o valor das pessoas na música. Todo mundo quer isso de graça, então precisamos criar maneiras de ganhar dinheiro com isso. É um negócio difícil de entrar. Eu tento escrever e tocar música que é relevante para os dias de hoje e ainda há pessoas que querem boa música honesta. Você normalmente precisa viajar e levar a música para eles.

– Quais as suas principais influências musicais?
Basicamente todo mundo que toca ou tocou guitarra e gravou discos. Gosto de Son House, Lightnin’ Hopkins, Muddy Waters, Hank Marvin, mas também dos Beatles e muita coisa das bandas de pop e rock dos anos 60. Hendrix, Gallagher, Marriott – Gosto de músicas com melodia e poder. Gosto de compositores como Tom Petty, Steve Earle, Lennon/McCartney. Também gosto de Kenny Burrell, Miles Davis, Buddy Guy e Bob Dylan. É tudo música para mim.

– Me conta mais sobre o material que você lançou até hoje.
Sempre fiz rock com forte influência de blues, embora eu também tenha gravado dois álbuns acústicos, meio “raízes”. Meus dois primeiros álbuns foram feitos com músicos australianos locais, mas aí me mudei para a Inglaterra e me juntei a um grupo de instrumentistas que estiveram em alguns dos meus discos favoritos e já tocaram em meus álbuns. Eu sou extremamente sortudo por ter gravado com músicos das bandas de Rory Gallagher e Robert Plant e junto com caras do The Fabulous Thunderbirds, Deep Purple, Whitesnake e Rainbow.

– Está trabalhando em novas músicas?
Estou sempre escrevendo e gravando e muito preocupado em manter minha música atual. Meu último projeto é meu álbum de one man band ‘Solo Elektro’ e eu estou tocando esse projeto na Europa e Austrália por cerca de cinco anos. Eu toco violão e canto enquanto toco as linhas de baixo com o meu polegar e piso em um kick drum. Eu desenvolvi um show em torno das limitações de ser solo, mas acho mais gratificante e satisfatório fazer isso do que ter uma banda. Eu posso ser mais experimental e porque escutei muita música diferente, posso misturar elementos de muitos estilos e lugares, incluindo dança e música psicodélica com blues e criar algo mais contemporâneo do que se eu ficasse mais em um ambiente de banda tradicional. Estou vendo muito mais jovens indo aos meus shows e isso é bom.

– Como é seu processo criativo?
Varia. Normalmente eu tenho um riff de guitarra e começo a escrever a partir daí. As letras são importantes. Eu tento não ser muito previsível, mas ainda mantê-las simples o suficiente para as pessoas se relacionarem, especialmente porque muito da minha audiência não fala inglês ou é uma segunda ou terceira língua para eles. Eu tenho um parceiro de composição (Garry Allen) em Melbourne e jogamos muitas idéias no mesmo quarto quando estou na Austrália ou pela internet.

– O que você acha da cena musical independente hoje em dia?
Há música excelente por aí, e na superfície parece saudável, mas muitas bandas jovens são forçadas a fazer muitos shows de graça ou “pagar para tocar”, então a realidade é que eles estão sendo roubados. Isso também não ajuda todos nós que estamos na estrada tentando sobreviver, quando o lugar sabe que eles podem conseguir uma banda de graça. Por sorte, eu tenho um bom público em muitos países, que eu tenho desenvolvido lentamente por muitos anos, mas não ajuda as jovens bandas que querem ganhar a vida com a música deles. Existem mais estações de rádio comunitárias que tocam músicas não convencionais e acho que mais pessoas estão dispostas a aceitar diferentes estilos de música do que no passado. Eu acho que as pessoas estão se tornando mais abertas à música e à arte.

– O que você acha da explosão do streaming no mundo da música?
É um mal necessário. Se você não estiver nos servidores de streaming ninguém vai descobrir você, mas eles não pagam bem. Os principais selos controlam o que todos escutam de qualquer maneira, então as chances de se tornar viral são pequenas se você não estiver sendo promovido por um selo.

– Conta pra gente como é o seu show.
O mais importante é ter uma boa música que as pessoas vão embora cantando em suas cabeças. Eu também sou influenciado por tantas músicas baseadas em guitarra e gosto de pensar que isso está nas minhas músicas, seja um som de slide no estilo delta blues ou um  rock and roll mais pesado. O tom de guitarra e os efeitos sonoros também são importantes para mim. Eu gosto de mexer em alguns sons para se encaixar no material, então meu pedalboard tem uma montagem bastante divertida. As raízes do meu show são blues, mas eu passo através de música elétrica psicodélica com um segmento acústico. Eu uso um monte de guitarras no palco em diferentes afinações. Eu tenho guitarras elétricas, algumas slide, acústicas, 12 cordas, lap slide Weissenborn e instrumentos de ressonância. Eu quero manter as raízes intactas e expandi-las, conhecendo as regras antes de quebrá-las. Eu tento manter as coisas interessantes, seja pensando em Son House, Ry Cooder ou em Black Sabbath no momento.

– Quais os seus próximos passos?
Meu foco principal agora é no meu álbum “Solo Elektro”. Estou trabalhando em alguns projetos, incluindo um álbum novo deste projeto. Eu também tenho um álbum acústico como compositor na minha cabeça agora. Garry e eu temos tantas músicas, estamos apenas ensaiando para ver qual formato elas soam melhor – solo ou como banda. Estou prestes a lançar um álbum acústico de world music que gravei com alguns amigos na Austrália, além de ter um álbum de blues e garage bem bacana pronto pra sair, com Garry Allen nos vocais e o baterista que tocou com o Bon Scott em 1970, John Freeman. Não há escassez de música aqui.

 – Recomende bandas e artistas que chamaram sua atenção nos últimos tempos.
Eu não vou atrás de ouvir muitos artistas modernos hoje em dia, já que minhas influências são realmente das décadas de 30 a 60, então me vejo mais ouvindo músicas antigas para evitar copiar mais escritores e artistas contemporâneos. Eu tenho que roubar da fonte! Para blues puro, há vários artistas ótimos por aí. Na Califórnia, eu realmente gosto dos The 44s, Kid Ramos, Junior Watson, Chris Cain. Ledfoot (Tim Scott McConnell) é um artista poderoso, meu amigo e ocasional parceiro de jams, e Marc Ford é um monstro. Há tantos grandes compositores e guitarristas em toda a América do Norte, tocando em bares e clubes que ninguém provavelmente nunca ouvirá, o que é um crime. Na Austrália, temos muitos grandes artistas – Chris Finnen, Jeff Lang, Kevin Borich, Ian Moss, Shannon Bourne, Dusty Lee Stephenson, Stefan Hauk podem escrever uma ótima música e tocar para caramba.

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo pela cantora Aramà

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Giulia Aramà
foto por Maurizio Fantini

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, a convidada é a cantora Aramà, que acaba de lançar seu mais novo single, “Maracujá”.

Jamie Woon – “Night Air”
Essa música do artista Jamie Woon, britânico de extremo talento, foi uma das pérolas na minha playlist do 2010.
A musica é magnética . Um som fino, de grande sofisticação. A voz do Jamie é intensa, te leva numa viajem sensorial profunda com o sujeito da música, que é a noite. O baixo e os coros harmoniosos contribuem para criar uma faixa de extrema sensualidade, quase feminina.

Dona Onete – “Banzeiro”
Esta música é totalmente “Carnival Vibes”: uma mulher de quase oitenta anos com uma energia e talento insuperáveis.​ Para quem não sabe, o banzeiro é a onda que os barcos provocam e como uma onda, a música traz todo o sabor da Amazônia e do Pará. Dona Onete é umas das artistas que o Brasil precisa valorizar muito. Vale à pena ouvir o disco todo. É realmente incrível. ​Bora todo mundo se jogar no banzeiro? ​

Rincon Sapiência – “Meu Bloco”
Faz parte do lindo trabalho Galanga Livre, do rapper Rincon Sapiência. Amo essa música . É uma mistura de rap, trap e samba, gravado no barracão da escola de samba Pérola Negra. Essa música representa a luta deste amigo e artista que admiro muito. “Meu Bloco” mostra o poder do samba, seu ritmo e atitude, trazendo a música como uma forma de lutar contra a repressão: “Nossa palavra é munição, nossa voz fuzis / Sem moderação, jão, informação use / Sirenes e giroflex, na cara preta luzes / Sugiro, cuidado com os vampiros, cruzes!”.

Nneka – “Do You Love Me Now?”
Essa música saiu em 2012 no álbum da artista Nneka, alemã de origem nigeriana. Essa artista foi comparada à Erikah Badu e Lauryn Hill. O trabalho dela é uma mistura de hip hop, referências soul e ritmos africanos sem que se confunda com a world music. Essa faixa é a mais pop do disco e tem uma grande lição: na solidão estamos perto do Senhor, publicamente não. A ideia da artista é que estas canções cheguem ao poder politico e que eles as escutem.
“In solitude we know God / In public we do not act God / Is it destiny, is it mean to be?”

SBTKRT – “Wildfire”
Nome artístico do produtor britânico Aaron Jerome. Essa musica saiu em 2011 com a participação da artista Yuukini Yagano (Little Dragon ). É um mix de funk e dubstep bem minimal, tipicamente londrino. A música fala de um amor insano. Um amor que é comparado a um incêndio. Adoro o beat. Acho uma pérola mesmo, uma das melhores músicas britânicas até agora.

Kutiman mixa trabalho de músicos e cantores amadores postados no Youtube com resultados mágicos

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Kutiman

Você já ouviu falar em KutimanOphir Kutiel é um músico, compositor e produtor israelense e seu projeto mais conhecido é a série viral “Thru You”.

Em 2009, Kutiman começou este projeto online, mixando trechos de músicas autorais postadas por usuários de todo o mundo em vídeos do YouTube. O projeto de vídeo recebeu mais de 10 milhões de visualizações em cerca de duas semanas, recebendo da Time Magazine o posto de uma das “50 Melhores Invenções de 2009”.

Em uma entrevista de 2009, Kutiman descreveu como rolou o projeto “Thru You”:

“No começo, peguei alguns bateristas – antes que eu tivesse a idéia de ‘Thru You’, peguei alguns bateristas do YouTube e toquei em cima do som deles – apenas por diversão, sabe. Então, um dia, antes de ligar meu violão para tocar com o baterista do YouTube, pensei comigo ‘Talvez eu possa encontrar um baixo e guitarra e outros instrumentistas no YouTube para tocar com esse baterista…”

Assim, Kutiman fez diversas músicas, em vários estilos, reunindo uma legião de bateristas, baixistas, guitarristas, percussionistas, além de metais, teclados, vocais, beat box e tudo mais o que você imaginar: Kutiman buscava, mixava e transformava vídeos solo em parte de uma superbanda.

Confira um pouco de “Thru You”:

Além disso, ele também realizou um projeto parecido em vídeos reunindo instrumentistas diversos de alguma região, como Jerusalem, Tel Aviv, Tóquio e outras, sob o nome “Thru The City”. Veja:

 

Italianos The Devils não economizam na blasfêmia e no rock’n’roll sujo no disco “Iron Butt”

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A ala conservadora e recatada que têm ganhado as ruas do Brasil ia ficar bem brava caso o duo italiano The Devils realmente viesse para cá, como dizem querer. Formada por Erica Toraldo (voz e bateria) e Gianni Pregadio (voz e guitarra), a banda faz shows cheios de esculacho, vestidos de freira e padre, com um nada discreto consolo gigantesco preso à bateria, além de às vezes darem uns amassos nada comportados entre as músicas. Tudo isso ao som de muito rock’n’roll clássico, psychobilly e o fuzz abençoando o barulho.

Recentemente a dupla de Nápoles lançou seu mais novo disco, “Iron Butt”, pela Voodoo Rhythm Records. Produzido por Jim Diamond (The Dirtbombs, White Stripes), o disco mostra a parede monstruosa de fuzz, vocais primitivos e maldosos e uma barulheira que não deixa ninguém sentir falta de um baixo. O duo pecaminoso já tocou em festivais como Azkena Rock Festival, Cosmic Trip Festival, Munster Raving Looney Party, Subsonica Women In Rock, Beaches Brew e Clanx Festival, entre outros, e atualmente está em turnê, além de começando a maquina músicas para seu terceiro álbum. Quem se habilita a trazer os capetas italianos para o país tropical para chocar a família brasileira, hein?

– Me contem sobre o single que vocês lançaram recentemente, “Red Grave”!

Erica: “Red Grave” é nossa homenagem a Vanessa Redgrave, a linda estrela do filme “The Devils” de 1971, de Ken Russell, de onde tiramos o nome da banda. Ele fala dos eventos reais ocorridos em 1634, é um filme que faz você se perguntar como poderia ser possível que em 400 anos nada tenha mudado. Realmente nos impressionou porque é definitivamente realista, e ainda hoje um terço da população do mundo é manipulado por um estado soberano de 605 habitantes que usa um espantalho chamado Satanás para pegar todos pelas bolas e gerenciar seu poder. Sendo ateus e desprezando a educação católica depois de assistir a este filme, não poderíamos deixar de ficar muito animados com o single.

– E o último disco, “Iron Butt”?

Erica: O novo álbum é muito mais selvagem, alto, insano e bem tocado. É uma imagem mais clara do que fazemos, o primeiro registro foi mais uma “wild card”. Não foi tão difícil de conseguir… Na verdade, veio naturalmente. Nós tocamos tanto que as músicas surgiram facilmente. Durante passagens de som ou na estrada, escrevemos muitas idéias. Na verdade, já estamos fazendo algumas músicas para um terceiro álbum.

– E como começou a história do The Devils?

Erica: Nós crescemos em um orfanato católico, então um dia encontramos no porão o filme “The Devils” e desde então começamos a infernizar as irmãs. Então fomos enviados para um colégio interno, mas também fomos expulsos, então eles nos trancaram por muitos anos em uma câmara secreta do Vaticano, mas em 2015 nós saímos e decidimos que não queríamos trabalhar em uma Apple Store ou um bar para sobreviver, então nós apenas roubamos um violão e uma bateria.

– Quais são as principais influências musicais da banda?

Gianni: Sou muito influenciado por blues e pornografia, a Erica é mais influenciada pelo rock’n’roll e pela violência deste mundo.

– Conte-me mais sobre o material que você lançou até agora.

Erica: No início, ‘Sin You Sinners’, nosso primeiro disco, foi mais uma demo registrada em nossa garagem com apenas dois microfones. Então decidimos fazer um álbum real, conhecemos Jim Diamond e, depois de o subornar com algumas garrafas de vinho, ele aceitou trabalhar conosco.

– Como é seu processo de composição?

Gianni: Não temos um processo de composição definido, é algo mágico. Às vezes, apenas assistimos a um filme, lemos um poema, olhamos desenhos ou ouvimos a Radio Maria da Itália ou, obviamente, ouvimos mais músicas. A melhor faísca para criar algo vem quando menos esperamos.

– O que vocês acham da cena musical independente hoje em dia?

Gianni: Somos muito sortudos porque temos o prazer de trabalhar com pessoas que dedicaram todo o seu tempo ao rock’n’roll, ao custo de suas próprias vidas. É autêntico, porque não há negócios de grande dinheiro, então é uma cena feita por pessoas com uma grande paixão por rock’n’roll.

– Qual a sua opinião sobre o mundo musical baseado em streaming?

Gianni: Streaming é uma merda, é o pior áudio de todos os tempos. Mas é útil na estrada, durante a turnê, para que possamos ouvir tudo o que queremos durante algumas viagens infinitas.

– Conte como é um show da banda pra quem ainda não viu. Talvez algum dia possamos ver vocês no Brasil?

Erica: Nosso show consiste em 2 caras que gritam da maneira mais violenta possível seus problemas psicológicos para o universo, até que suas cabeças explodam. Definitivamente, não podemos esperar para ir ao Brasil! Também porque ouvimos dizer que os homens brasileiros são bem dotados e as mulheres brasileiras possuem as bundas mais bonitas do mundo…

– Quais os próximos passos da banda?

Gianni: Estamos fazendo uma turnê européia para o lançamento do próximo álbum e quando ninguém mais quiser entrar em contato para shows e acabarmos sem dinheiro, faremos nossos votos de verdade para que o Vaticano providencie a nossa manutenção.

– Recomendem bandas ou artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Erica: Eu estou apaixonada por uma banda espanhola chamada Guadalupe Plata. Eles são tão maus, um som incrível!

Construindo Zé Bigode: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos a banda Zé Bigode, que indica suas 20 canções indispensáveis. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Criolo“subirusdoistiozin”
Primeira musica que ouvi do Criolo, logo de cara achei o nome bem diferente, quando conferi o som ouvi uma base bem orgânica com uma pegada jazz, com aquele som de Fender Rhodes curti de cara e depois fui baixar o disco nó na orelha que foi bem importante pra mudar minha visão musical

Gil Scott Heron“Lady Day and John Coltrane”
Uma das minhas musicas favoritas do disco “Pieces of a Man”, clássico do Gill Scott Heron, essa musica toda vez que me sinto meio pra baixo serve de estímulo, assim como na letra ouvir “Lady Day and John Coltrane” levam os problemas pra longe, Gill Scott também o faz muito bem.

Oasis“Live Forever”
Ouvi muito Oasis na minha vida, e essa música sem duvida é uma das que mais escutei deles, lançada em 1994 no disco de estreia, o “Definitely Maybe”, escrita por Noel Gallagher, é uma homenagem a estar vivo.

John Coltrane“Acknowledgement”
Uma das músicas mais perfeitas da história da humanidade. É só isso que consigo dizer quando a ouço, muitos sentimentos nesse som aí! Sem contar que faz parte de um dos maiores discos da história, o “A Love Supreme”.

BaianaSystem“Playsom”
Só quem já foi num show do Baiana sabe a energia que é, e essa música pra mim é a que melhor define o som deles. Pedrada pura!

Nina Simone“I Put a Spell on You”
Nina Simone, né? Dispensa comentários, rainha!

Gilberto Gil“Drão”
Já era fã da musica desde sempre, quando descobri que era uma musica falando da separação dele com a Sandra Gadelha, um pedido de desculpas, tem vários jogos de palavras geniais.

Céu“Lenda”
Essa tem um groove que pega de primeira ouvida, lembro que quando descobri esse som e o disco de estréia dela, ouvi sem parar.

Elton John“Razor Face”
Eu podia indicar qualquer faixa do disco “Madman Across The Water”, que é um dos meus discos favoritos, mas vai “Razor Face”. Acho que é a que melhor representa essa fase do Elton John, quando ele tinha o timbre de voz bem agudo e lançava um clássico atrás do outro.

Gal Costa“Tuareg”
Se não me engano essa musica é do Jorge Ben. “Tuareg” mostra quanto o Brasil estava num ótimo momento musical no fim da década de 60, experimentando sonoridades de várias regiões do mundo e mesclando com a nossa musica tradicional. Os anos 60 foram bem intensos pra musica popular, apesar de politicamente estarmos em um dos piores momentos de nossa história.

Belchior“Alucinação”
Faz parte do álbum de mesmo nome, eu citaria o disco todo, mas escolho essa, que mostra o Belchior na sua melhor forma poética, dando o papo reto numa crítica ácida e certeira. “A minha alucinação é suportar o dia a dia”.

Chico Science e Nação Zumbi“Manguetown”
Chico Science talvez seja uma das minhas maiores influências, a sensacional analogia da parabólica fincada na lama… A música é isso, é universal, é um pouco de tudo que já escutamos nessa vida independente de território. Poucos souberam mesclar o tradicional com a vanguarda como Chico Science fez, um verdadeiro alquimista.

Jorge Ben“5 Minutos”
Falando em alquimista musical, aqui temos outro. “5 Minutos” chama minha atenção pela harmonia dela, diferente de quase tudo que ele fez. É torta mas tem groove, vê se pode?

Metá Metá“Oyá”
Metá Metá é uma das melhores coisas que a musica brasileira nos proporcionou nesse novo século. É punk? É samba? Música de terreiro? Escolhi “Oyá” por ter uma dinâmica entre a porrada e a calmaria.

Planet Hemp“Stab”
Nunca tive uma formatura, mas se tivesse certamente entraria com essa música. Escutei bastante quando andava de skate, me dá uma motivação enorme pra enfrentar as dificuldades.

Fela Kuti“Army Arrangement”
Essa música é quase um disco (risos). Com quase meia hora de duração, algo muito comum pro Fela Kuti, icone negro de resistência contra as opressões do governo e do imperialismo eurocêntrico.

Herbie Hancock“Dolphin Dance”
Uma mistura entre musica modal e musica tonal, um tema bem complexo de se improvisar, mostrando a verstatilidade harmônica do Herbie, uma lenda do jazz.

Miles Davis“So What”
Faz parte do essencial “Kind Of Blue”. Recomendo escutar esse disco a todos que querem saber mais sobre jazz. Ou melhor: a todos que gostam de ouvir música, recomendo a audição. Uma guinada que mudou o jazz, quebrando o virtuosismo técnico e cheio de progressões do bebop, inserindo o modalismo.

Led Zeppelin“Going To California”
Essa musica faz parte do clássico disco “IV”, amo todas desse disco, mas essa me marcou positivamente por bons momentos que tive embalados por esse som.

Milton Nascimento“Travessia”
Escolher uma do Milton é complicado, poderia fazer essa lista só com musicas dele que ainda faltariam mais 20! Mas “Travessia” é a minha favorita, desde a letra do Fernando Brant, que é uma das coisas mais lindas já musicadas, quanto a harmonia e arranjo. O trompete nessa faixa é algo de outro mundo.

Para os goianenses do Two Wolves, a palavra “pop” não deve ser mais um palavrão

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Two Wolves

Formada por Mauricius Wolf (guitarra) e Lineker Lancellote (vocal), a Two Wolves é uma banda de Senador Canedo, em Goiás. Foi formada em 2011, quando o vocalista compunha em inglês mesmo sem dominar muito bem o idioma. Após uma temporada na Europa, esse obstáculo ficou para trás e a banda se solidificou, deixando de ser um duo e lançando seu primeiro disco, “Just Listen To”, de 2014, pela Monstro Discos.

No final de 2017, agora com o reforço de Sérgio na guitarra, Miguel nos teclados, André na bateria e David no contrabaixo, a Two Wolves lançou o single “Howl”, que fará parte de seu próximo álbum, a ser concluído este ano. “A música é sobre uma pessoa a observar um lobo e sua família. Criando ali uma conexão extra-sensorial com o animal. Mas na verdade, talvez não seja um lobo e talvez não seja uma pessoa que a observa. Cada um vai entender de uma forma”, conta Lineker. O próximo trabalho promete trazer mais da “música triste pra dançar”, como o som do grupo já foi definido, sem medo nenhum de soar pop. “Espero ainda poder tocar no programa da Fátima Bernardes (risos)”.

– Como a banda começou?

A banda começou a partir da aposta de um produtor local, Mauricius Wolf, em um adolescente que compunha letras em inglês, mas não falava inglês, cantava, mas não muito bem, e tocava violão na praça, mas era terrível nisso. De alguma forma, Mauricius, viu potencial no garoto e o ofereceu a gravação de uma música. Com isso se iniciou uma amizade entre Mauricius Wolf e Lineker Lancellote que decidiram fundar a banda com o nome de Two Wolves. Após um ano juntos, Lineker teve a a oportunidade de se mudar para a Europa e se mudou com o intuito de se aperfeiçoar musicalmente e também aprender de verdade a língua que ele gostava de escrever suas músicas. O vocalista viveu alguns anos por lá, tocou em festivais, bares e ruas de alguns países como: Alemanha, França, Bélgica e Holanda, então decidiu-se voltar e tentar algo por aqui. No primeiro ano de volta, a dupla adicionou mais alguns integrantes à banda e gravaram seu primeiro álbum que já foi lançado em parceria com o selo Monstro Discos.

– Você costuma falar de si mesmo na terceira pessoa, assim? (Risos)

Nunca falo assim, mas estou tão acostumado a falar dos outros (meu trabalho é esse) que acabei falando assim (Risos). Esqueci que era uma entrevista (risos).

Two Wolves

– E porque o nome da banda? De onde surgiu?

(Agora falarei na primeira pessoa) Eu, desde criança, fui encantado com lobos. Passava horas desenhando lobos. Meu X-Men favorito era o Wolverine. Assim, quando chegou o momento de escolher o nome para o duo, veio em minha mente aquele ensinamento indígena sobre os dois lobos que vivem em cada um de nós e a importância de saber lidar com isso e escolher bem qual dos dois iremos alimentar. Então escolhemos o nome Two Wolves por causa da minha afinidade com a espécie, por causa do ensinamento e por sermos dois.

– Essa formação de duo ficou bem popular no mundo do rock nos últimos anos… Porque isso aconteceu? Antigamente isso era quase inimaginável!

Na verdade eu acho que não existe um plano por trás disso. Simplesmente acontece. No nosso caso foi o fato de que não conhecíamos ninguém que se encaixasse em nossa proposta. Pois, principalmente antes dessa era hipster, todo adolescente do rock só gostava de metal. O que não era o meu caso. O Mauricius é um músico extremamente virtuoso, mas nunca foi do metal. Ele gostava muito de música instrumental. Eu sempre gostei de algo mais pro lado de pop, post punk e muita música deprê.

– A banda realmente faz uma mistura de diversos estilos. Como você definiria o som do Two Wolves pra quem nunca ouviu?

Então, até hoje, ainda não fiz algo que eu gostasse de verdade. Existe uma música nova a ser lançada dia 20 que acredito ser mais próximo do que eu gostaria de fazer, mas não tenho certeza. É muito difícil definir um estilo, até porque isso acaba limitando a banda, mas baseado na mistura do que já foi feito. Acho que podemos nos chamar de pop. Pop é aquilo que poderia estar no mainstream e que ninguém sabe definir bem o que é, mas que acaba abrangendo um público de vários gostos. É como diria o grupo de rap SPFunk: “bota o nosso CD pra tocar que ele agrada até sua vó.” Estou ansioso por 2018, pois acho que agora eu acertarei a mão nas composições.

– E eu vejo que pra muita gente da dita cena independente, o nome “pop” é praticamente um palavrão, né.

Sim, concordo, por isso gosto de usar (risos). Na verdade eu passei da fase de tentar ser o diferentão da música. Também, acho que é mais fácil definir assim do que ficar procurando vertentes musicais com 6 palavras.

– Me fala mais do trabalho que vocês já lançaram, “Just Listen To”.

“Just Listen To” é a coletânea das músicas que compus enquanto estava na Europa, produzidas de forma diferente do que era pra ser. Eu compus as músicas em uma longa fase de depressão, tanto que a maioria das letras não são das mais felizes, porém, quando decidimos gravar, achamos que seria melhor deixá-las mais pra cima, assim o show seria mais divertido. Além do fato de que eu amo dançar. Isso virou uma mistura de sentimentos, o que já até foi definido por um jornal como: “Two Wolves! Tristeza para dançar.” Eu só posso dizer que adorei essa definição.

– Esse negócio de misturar letras tristes com melodias alegres sempre é interessante… 😃

Sim! Está aí o The Smiths pra não nos deixar mentir.

– E muitas outras, né. E como rola esse processo de composição da banda?

Até hoje, tem partido de mim. Começo com a harmonia, melodia e letra, daí os meninos adicionam os arranjos de acordo com suas identidades e com a proposta que imaginamos. Eu tenho pegado no pé deles para que isso mude, para que tenha mais uma proposta inicial deles, talvez assim a gente faça algo melhor.

– Mas a banda na verdade não é um duo.

É, mas não é, depois que começamos a tocar com banda completa, aceitamos muito as ideias de cada um que faz a banda com a gente. Porém, ainda é originalmente um duo, pois os outros integrantes acabam sendo passageiros. São amigos de outras bandas que fazem uma parceria, ficam por um tempo, depois se vão com seus projetos.
Mudamos de integrantes frequentemente. Só fica mesmo eu e o Mauricius.

– É uma banda transitória.

No momento estamos com Sérgio na guitarra, Miguel nos teclados, André na bateria e David no contra-baixo.
Acredito que esses ficarão um bom tempo com a gente, já que foram realmente selecionados por bons motivos, entre eles o fato de estarem na faixa etária dos 50 anos. Diferente de mim que tenho 23.

– E vocês já estão trabalhando em novas músicas?

Sim, além desse novo single, tem um álbum sendo produzido.

– Me conta mais do single.

O single se chama “Howl” como o uivo de um lobo. A música é sobre uma pessoa a observar um lobo e sua família. Criando ali uma conexão extra-sensorial com o animal. Mas na verdade, talvez não seja um lobo e talvez não seja uma pessoa que a observa. Cada um vai entender de uma forma. Escrevi essa música me baseando ja forma que vejo o mundo. Sou uma pessoa que sofre com TDAH, ansiedade e depressão. Isso fez com que eu nunca visse as coisas e o mundo da forma que a maioria das pessoas o veem. Para esse single, está sendo produzido um videoclipe onde todas as pessoas participantes sofrem com as mesmas condições que eu. Foi feita uma postagem sobre o assunto e com isso recebi mais de cem mensagens de pessoas se voluntariando para participar e também me relatando sobre suas vidas.

– E esse single fará parte do álbum? Como será esse álbum?

Sim, o single fará parte do álbum. O álbum está na fase de produção e ainda pode sofrer algumas mudanças, mas de antemão posso adiantar o uso de muitos elementos eletrônicos e boas batidas.

– Uma coisa que eu normalmente pergunto para as bandas: quais as principais influências musicais do Two Wolves?

Isso também é muito difícil de definir. Eu gosto muito de cantores solos como: Matt Corby, Bon Iver e James V. Mcmorrow. O Mauricius gosta de guitarristas solo como Steve Vai, Satriani e outros. Porém, a banda já foi comparada com U2, Two Door Cinema Club, Kings of Leon, 1975… Então fica por isso aí. Não sei. (risos)

– Como você vê a cena independente hoje em dia e como a banda se encaixa nela (ou não se encaixa)?

Acho que a cena está cada vez mais fraca. Hoje, os jovens se tornam velhos muito rápidos, então já perderam o pique de ir em shows apoiar as bandas locais, já os novos jovens, os que deveriam substituir os que se cansaram, estes já mudaram de gosto musical. Os adolescentes estão ligados nessa cena nova do rap e do funk. Então não existe um público novo para o rock. Também, o independente está se tornando muito parecido com o mainstream. Aparece quem tem recursos e influência seja onde for. O que exclui muita banda boa da quebrada e levanta muita banda ruim de playboy. Eu acho que a gente não se encaixa em lugar nenhum.

– E o mainstream ainda é o objetivo para as bandas independentes ou isso já não faz sentido?

Bom, para mim, ainda é. Mas acho que não é para todos. Hoje eu tenho músicas em três grandes rádios. Gosto disso. Espero ainda poder tocar no programa da Fátima Bernardes (risos). Além do fato de que eu sinto que o mainstream me abraçaria mais do que a cena independente o fez.

– Existe um preconceito dos independentes com essa mídia tradicional?

Acaba que sim. Na verdade, eu acho que todos gostariam de estar lá, mas como não estão, preferem manter a postura de que não gostam. É meio paradoxal. Seria interessante chegar em uma banda e perguntar o que eles acham de tocar em rádio e depois de uma resposta negativa os dizer: que pena, a Jovem Pan quer tocar sua música. Assim, saberíamos por suas reações a verdadeira opinião. Ou talvez seja só eu que gosto de rádio e televisão (risos). Apesar que sempre que participo de programas em rádios ou televisão local, aparecem uma ou duas bandas me pedindo ajuda para participarem também. Com isso, acho que ainda existe quem queira estar na mídia tradicional.

– Recomendem bandas e artistas ( de preferência independentes ) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Hmmm… Gosto de uma banda nova que se chama Templates. Fazem um rock em português que me agradou muito. Gosto de Almost Down de Goiânia. Também tem a sumida Cambriana que está prestes a lançar um álbum e voltará com tudo. Tive a chance de ouvir o novo disco e garanto que é pedrada. Também gosto de artistas solo como o Caio e o Danny Queiroz. Indico todos esses!

Siso põe pra fora todas suas ideias musicais e devaneios em “Saturno Casa 4”

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Siso

O mineiro Siso lançou em novembro do ano passado seu primeiro disco, “Saturno Casa 4”, mostrando uma mistura sonora que inclui pop, rock, MPB, ritmos regionais e o que mais desse em sua cabeça. “Era muita ideia musical acumulada e muito assunto guardado, e o inconsciente me guiou pra algo muito pessoal e autobiográfico”, conta. Eleito uma das revelações do ano pelo Google, o compositor lançou um álbum que conta com participações de Letrux e Paula Cavalciuk e foi produzido pelo artista ao lado de Christopher Mathi, Lasyten, Alexis Gotsis e Mettabbana.

Natural de Belo Horizonte, Siso subiu no palco pela primeira vez aos 10 anos de idade, continuando na cena independente mineira a partir da adolescência. Além do trabalho solo, que também conta com o EP “Terceiro Molar”, lançado em 2016, ele também integra a banda Cabezas Flutuantes. Conversei com ele sobre o seu primeiro álbum, o EP, a cena independente e as participações e amizades musicais:

– Vamos começar então falando um pouco de “Saturno Casa 4”. Como rolou esse trabalho?

“Saturno Casa 4” foi uma explosão. O álbum foi produzido em 5 meses, que é menos da metade do tempo que levei pra fazer o “Terceiro Molar”, EP do ano passado. Era muita ideia musical acumulada e muito assunto guardado, e o inconsciente me guiou pra algo muito pessoal e autobiográfico. Acaba que fala muito sobre as estruturas que nos guardam/restringem/oprimem diariamente e como a gente pode lidar com elas de uma forma mais leve. A maior parte do repertório compus sozinho, mas também tem uma faixa do Leonardo Onerio, uma parceria minha com ele e uma faixa inédita da Letrux. A produção foi minha em parceria com o Christopher Mathi, com quem já havia feito o “Terceiro Molar”, o Lasyten (que também toca baixo comigo ao vivo), o Alexis Gotsis (grego radicado no Brasil, membro d’Os Amantes Invisíveis e produtor dos dois discos do Ruspô) e do Mettabbana, um produtor do Kosovo radicado nos EUA que desenvolve pesquisas com ritmos brasileiros, como a rasteirinha.

– Me fala mais sobre essas participações. Também teve a Paula Cavalciuk, né?

Sim! Todos os envolvidos, exceto o Mettabana, já eram amigos antes de o disco ser feito. Como é um trabalho muito pessoal, quis chamar só gente cuja afinidade fosse não só musical, mas também da ordem do afeto. Paula foi assim. Ouvi “Morte e Vida” quando saiu e pirei com a voz e as letras dela. Pouco depois a conheci pessoalmente e, quando fiz “Onde Termina a Calçada”, sabia que ela precisava ser participação especial. É uma canção sobre perda e aceitação na leveza, e eu sabia que ela conhecia aquela verdade. Já com a Letrux, eu a conheci em 2015 e, no ano seguinte, ela se mudou por um tempo pra SP e nós fizemos shows juntos. Nessa época ouvi “185 Centímetros” pela primeira vez e pedi pra gravar, colocando minha altura no título da minha versão. Depois, quando fiz “O Amor é 1 Arma de Destruição em Massa”, sabia que a voz dela encaixaria igual a uma luva na canção e na narrativa. E tanto ela quanto a Paula aceitaram de cara, assim que ouviram as canções.

– Como você definiria seu som?

Eu diria que é música pop atravessada por várias coisas. O pop é o centro do que faço – a estrutura, a melodia – e é das coisas que mais ouço desde a infância. Mas é um som que também se deixa influenciar pelo ambiente, pelas coisas, pelas pessoas. Nesse disco essas influências vão desde o funk melody dos anos 1990 até cumbia, ijexá, highlife, folk… Nesse aspecto, eu sou um alvo em movimento, criativamente.

– Uma metamorfose ambulante, se formos ser clichê pra definir.

Sim, certamente. A pessoa é geminiana, tem trocentos planetas em Gêmeos, não tem jeito (risos).

Siso

– Quais as suas principais influências musicais (e não-musicais)?

Tanta coisa já me provocou nessa vida que nem sei mais direito. David Bowie, certamente, muito por esse senso natural de transformação. Patti Smith, Depeche Mode, M.I.A., Alceu Valença, Anohni, Karine Alexandrino, Bruce Springsteen… Num âmbito não-musical, diria que Kubrick, Joan Didion, Jodorowsky, Glauber e David Lynch também. Minhas experiências com budismo acabam pautando muito da minha perspectiva de autor também, assim como o fato de ter crescido num ambiente de grande dificuldade financeira, mas num núcleo que investia pra cacete na minha educação e me incentivava a imergir em toda forma de cultura, além de serem pessoas muito afetuosas e generosas.

– Agora, voltando um pouco: como foi o “Terceiro Molar” e como o novo disco evoluiu dele?

O “Terceiro Molar” foi o resultado de um processo longo de experimentações, afirmações pessoais e reorientações depois de um período bem confuso, quando mudei pra SP. Caí de paraquedas por aqui, sem conhecer ninguém e imergi em experiências artísticas de todo tipo, do teatro à performance, com a música no stand-by. Era eu basicamente entendendo por onde podia transitar, sabendo onde ficavam as paredes, o chão e o teto desse lugar mental e criativo em que eu estava. Fiquei muito feliz com a forma com que ele foi recebido, mas comecei a sentir falta de exercitar narrativa nas minhas canções. As letras eram muito mais sensoriais e filosóficas do que contavam uma história tangível, daí resolvi seguir por esse caminho. De resto, a memória e os desafios grandes e pequenos que a gente precisa encarar pra resolver foram ditando o caminho das coisas.

– Como você vê esse novo formato de divulgação musical, especialmente no meio independente, usando o streaming e as redes sociais?

Gosto do fato de que os independentes têm mais voz e liberdade de ação nesse contexto do que nos anteriores. O modelo do streaming como é hoje, apesar de estar longe de ser perfeito, é satisfatório. Você está chegando a um público potencial enorme e sendo remunerado por isso. E também é uma lógica de consumo de música que me agrada como ouvinte.

– E o mainstream, ainda é um objetivo para os artistas independentes?

Pode ser. O interessante é que hoje é possível dar um bypass em algumas das circunstâncias e chegar a um grande público mesmo assim. No que diz respeito a mim, não tenho nenhuma regra pré-definida quanto a isso. Mas, neste momento em que estou, acredito que é bem melhor permanecer independente. E ver até onde sou levado. Mas não torço o nariz pro mainstream, não. É bom ser escutado por muitas pessoas.

– E como você vê a dita “cena” independente hoje em dia?

Do lado humano da história, tá tudo muito bem – as pessoas dispostas a arregaçar as mangas, fazer e acontecer, trabalhos maravilhosos sendo lançados a todo momento, enfim. O fato de os selos estarem ressurgindo como iniciativas coletivas e haver marcas interessadas em incentivar trabalhos artísticos também é ótimo. A aresta a ser repensada e corrigida agora é a da frente dos shows, penso eu. Cada vez mais casas pequenas e médias têm fechado pelo país por uma crise no modelo, o que torna mais difícil a circulação dos artistas. Claro que a boa vontade contorna muita coisa, mas não cria estruturas que deveriam ser sólidas, preferencialmente. Então taí um ponto que todo o meio independente precisa pensar em como trabalhar melhor. Além da questão dos incentivos públicos para a cultura que vêm minguando nos últimos tempos, mas isso é conjuntura da nossa terrível situação política.

Siso

– Voltando ao seu com: como é seu processo de composição?

Ando sempre com um caderninho, em que anoto impressões, frases, ideias. E volta e meia sento com o computador, o violão ou o teclado e começo a desenvolver harmonias e letras. Uma sequência musical pode me sugerir uma palavra e aí pego o caderninho como guia no desenvolvimento da letra. Tento julgar o mínimo possível o que rola nesse primeiro momento criativo. Se a ideia geral vale a pena, aí sim eu sento, burilo a letra e começo a desenvolver a produção do jeito que ela precisa ficar.

– Você já está trabalhando em novas músicas?

Sim, constantemente. Mas ainda é cedo pra saber quais delas serão lançadas e quando.

– Quais são seus próximos passos musicalmente?

Quero tocar por tudo quanto é lugar com o repertório do “Saturno Casa 4” em 2018, lançando algumas coisas ao longo do ano também. Devo participar do próximo EP da Letrux, que vai ser só de remixes do “Letrux em Noite de Climão”. Tem umas colaborações alinhadas também, coisas boas hão de rolar muito em breve.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Nossa, isso é o que mais tem. Ekena, Natália Matos (tá com um disco novo incrível), Luiza Lian, Baco Exu do Blues, Harmônicos do Universo, GEO, Aloizio, Miêta, Alambradas, Yangos, Quartabê, Renata Rosa, Bruno Vetz, Sessa